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"Se os africanos n�o contarem suas pr�prias hist�rias,
"a �frica ir� desaparecer."
Ousmane Sembene
Eu cresci numa pequena aldeia no Senegal
sem TV, sem jornais, sem r�dio.
Tudo que eu tinha era as hist�rias da minha av�.
Na �poca eu tinha 14 anos, sonhava em me tornar franc�s.
franc�s, como os personagens dos livros franceses
lidos na escola.
Aos 17 anos,
eu descobri as hist�rias dos artistas senegaleses.
Seus personagens eram parecidos com a minha av�,
meus amigos e mim.
De repente, eu n�o queria mais ser franc�s.
Queria ser africano.
Essas hist�rias eram de Ousmane Sembene,
o pai do cinema africano.
N�o fomos nos que criamos nossas imagens.
Foram outros que criaram a imagem do povo negro,
dos africanos.
Eu tenho um trabalho que eu amo,
E ningu�m diz o que devo fazer.
Ningu�m.
Fa�o isto por querer falar ao meu povo.
CASA DOS REBELDES
Meu nome � Samba Gadjigo.
Costumava andar por essas ruas
quando ia visitar meu amigo Ousmane Sembene.
Sembene morreu h� quatro anos atr�s.
Tenho estado de luto desde ent�o.
Esta � a primeira vez que retorno a esta casa.
Eu lembro
jantando uma noite aqui com Sembene.
Ele se levantou e pegou uma chave
e disse, "Aqui esta, Samba
"de agora em diante, voce pode entrar e sair dessa casa
"quando quiser."
Aquilo me tocou muito.
Mais quando eu pensei bem, eu entendi que
Sembene n�o estava somente me convidando para dentro de sua casa.
Ele queria que eu guardasse a sua legacia.
Oh, Deus meu!
Eu n�o consigo acreditar nessa destrui��o.
N�o da para acreditar que Sembene foi abandonado desse jeito.
Oh, Isso � realmente importante.
Aqui est� Sembene com
Thomas Sankara de Burkina Faso.
Aqui est� Sembene com seu filho, Alain.
Aqui est� Ousmane Sembene com Soyinka,
no qual recebeu o pr�mio Nobel.
Sembene na Uni�o Sovi�tica na frente na est�tua de Karl Marx.
Muito tempo se passou entre a primeira vez
que li as hist�ria de Sembene
e quando eu finalmente encontrei este homem.
Mas de todo momento,
Sembene permanece o meu mestre mais importante.
Sua legacia est� assim.
N�o posso deixar isso acontecer.
N�o posso deixar que seus livros e filmes sejam esquecidos.
Sembene Ousmane reuniu
um grupo de jovens
escritores africanos que viviam na Fran�a
O que voc� faz na Fran�a, Sembene ?
- Sou estivador. - Onde?
Marselha.
�frica n�o � apenas sobre animais, �rvores e homens.
�frica � uma concep��o de vida, de filosofia, de hist�rias.
JOVEM PESCADOR
Sembene nasceu em 1923, na parte rural do Senegal
que estava sob domina��o francesa.
De fato, minha inf�ncia foi feita de uma ociosidade di�ria.
desde minha tenra inf�ncia alternava meu tempo entre as �guas,
as �rvores,
a pesca,
a ca�a.
Precisava
de espa�o.
Abandonei a escola por causa
de um ato de insubordina��o.
Fui expulso.
Oh, tornei-me um pescador, como meu pai.
Ele era pescador.
Ensinou-me como pescar
no rio Casamance.
Meu pai costumava dizer:
"Nunca trabalhei para um homem branco e nunca o farei".
Mais Sembene chegou a trabalhar para os homens brancos.
Curioso sobre as coisas do mundo,
ele deixou a �frica e viajou para a Fran�a.
Marselha.
Marselha...
Uma cidade portu�rio sempre faminta por costas e bra�os fortes.
Marselha.
A cidade em que Sembene levantou sacos mais pesados do que ele.
Marselha. Onde Sembene adquiriu sua consci�ncia pol�tica
e se afilio ao Partido Comunista Franc�s.
Marselha. Onde Sembene foi seduzido
pela beleza da arte europeia.
Come�ou a descobrir a literatura francesa,
m�sica cl�ssica.
Este era eu, caipira vindo de Casamance,
agora ouvindo Mozart.
Tudo isto era uma riqueza que eu estava acumulando.
Um dia Sembene machucou-se ao erguer uma saca de caf�. Quebrou a coluna.
Seus ossos quebraram em v�rios peda�os.
Ficou internado seis meses em um hospital.
Aproveitou a oportunidade para tornar-se um autodidata, aprofundou-se na leitura.
Eu estava morando em Marselha nos anos 1950,
trabalhando como militante no "CGT" sindicato do trabalhador,
onde existia uma biblioteca invej�vel.
Muito rica
onde podia-se ler Richard Wright, Jack London...
todos os grandes escritores.
Mas a da �frica estava ausente.
Minha �frica estava ausente.
A �frica dos trabalhadores, dos prolet�rios...
das pessoas comuns.
A �nica coisa que estava presente...
era, eu diria, uma �frica moribunda.
Desta forma que me encontrei com a literatura,
como um cego que, de repente, enxerga a luz.
Sembene come�ou a escrever para dessa maneira, dar voz aos sem voz
foi nesse periodo que Sembene escreveu aquele livro
no qual eu descobri quando eu tinha 17 anos.
E para a minha surpresa, o subt�tulo er� "B�ti mam yalla"
na lingua Wolof.
Foi a primeira vez que vi um livro
usar subt�tulos em uma lingua Africana.
N�o era nada
que t�nhamos visto antes.
N�s fomos hipnotizados.
Eu estava sendo educado com livros did�ticos, livros de texto franc�s
que me ensinou como a ser Franc�s.
E aqui, temos o primeiro livro de Ousmane Sembene de Senegal
que me ensinava a como ser eu mesmo.
E pela primeira vez, talvez desde que comecei a escola
estava orgulhoso ser um africano.
Voc� diz que ele era trabalhador de porto
voc� diz que ele era autodidata
esse cara era Deus.
Assim eu via Sembene.
UM ESPELHO PARA A �FRICA
Eu tinha seis anos, em 1960, quando a �frica tornou-se livre.
Meu pa�s, o Senegal, libertou-se da Fran�a.
Nig�ria da Inglaterra.
Congo da B�lgica.
E praticamente em todos os lugares a �frica tornou-se livre.
Nossos l�deres imaginavam uma nova �frica unificada.
Sembene recebeu um convite da antiga URSS,
para estudar cinema no Gorki Studio.
Um ano depois, ele retornou para Senegal
com uma c�mera de 16mm em sua mala.
Foi quando ele faz seu primeiro filme.
"Borom Sarret"
Pegue isso. Que Deus esteja convosco!
N�o temos comida para o almo�o.
Obrigado.
Nossos romances e estou falando aqui
para todos escritores africanos,
n�o s�o lidos por uma raz�o simples
mais de 85% de nosso povo ainda s�o iletrados.
Viajando pela �frica, conversando com o povo,
percebi o poder do cinema na �frica
o que me levou a filmar.
Era algo insano fazer filmes na �frica.
Antes da independ�ncia, as autoridades francesas
proibiam os africanos de filmarem as suas hist�rias.
Meu povo n�o estava autorizado a pegar a c�mera
e narrar suas hist�rias.
Borom Sarret foi o primeiro filme da �frica Sul-Saariana
feito por uma africano,
filmado na �frica, para o povo africano.
Vimos africanos parecidos como os nossos pais,
mulheres parecidas como nossas m�es.
Sembene estava lutando contra 100 anos de estere�tipos.
Era uma revolu��o incr�vel.
N�o tinha ind�stria de cinema.
Nem equipamento
nem equipe de profissionais.
Nem atores treinados, nem dinheiro.
Sembene fez este filme
usando sobras de rolo de filme que seus amigos europeus enviaram para ele.
Seus atores eram pessoas comuns.
E escalou seu time entre seus amigos e familiares.
Allah pode olhar por ambos.
Ele nunca te abandona.
Ele ilumina o seu caminho.
Desde quando uma crian�a � respons�vel
pela falha de seus pais?
Ainda n�o existia filmes feitos por um africano.
Quero dizer, um filme produzido, dirigido e editado
de acordo com uma nova vis�o,
com uma nova perspectiva art�stica e criativa da �frica.
Fazendo filmes,
temos a oportunidade de nos enxergarmos
por meio de nosso pr�prio olhar, pela primeira vez,
feito por n�s mesmo.
A garota negra
Ela veio por tr�s...
Ela nos observou...
Ningu�m poderia ver os seus olhos.
Ela nos observou uma vez mais.
N�s a vimos e ela estava olhando para uma senhora.
Elas correram e precipitaram-se sobre ela.
Cada uma queria ser escolhida.
A Madame se afastou do alcance de todas aquelas m�os.
Eu estava me levantando. Quando ela veio em minha dire��o,
e perguntou se eu queria um emprego.
"Sim senhora"
- Voc� sabe cuidar de crian�a? - Sim Senhora.
"Voc� j� trabalhou para os brancos?"
"N�o, senhora."
Ela me contratou do mesmo jeito.
Eu estava feliz.
Quando vimos a mulher negra,
est�vamos comovidos
pela hist�ria dessa mulher
que mudou-se para a Fran�a
sem saber que estava entrando em uma cilada.
Algu�m ir� me aguardar?
Se voc� olhar a maneira como o cinema descreveu os africanos,
ningu�m deu � devida aten��o � sua humanidade.
Sembene chegou ao cinema
e inventou uma nova linguagem para representar o povo negro.
Come�ou com "A garota negra".
Aqui somos n�s por �ltimo.
Quando voc� olhar para ela, vai enxerg�-la da mesma forma como enxerga a si mesmo.
A renova��o na �frica n�o tem idade.
O filme ser� para sempre novo.
Voc� n�o est� indo para uma festa.
Voc� est� vestida assim h� tr�s semanas!
Mude essa roupa.
Diouana, saia da�!
Sei que voc� acabou!
Diouana, saia!
Saia da�!
Eu disse saia!
Saia!
Diouana, saia da�!
"A garota negra" ganhou o pr�mio de melhor filme
no Festival de Artes Panafricana de Dakar, em 1966.
Foi um sucesso internacional.
At� mesmo os franceses renderam-se ao poder de "A garota negra",
Convidar�o Sembene par ser o primeiro africano membro
do J�ri em Cannes.
A m�scara...
� minha.
- Solta! - � minha.
- Solta! - � minha.
Solta a m�scara!
Socorro!
O que voc� est� tentando comunicar com os seus filmes?
Tento falar para o povo, n�o s� aqui,
mas tamb�m no exterior, para explorar nossos problemas comuns.
Os problemas dos pa�ses desenvolvidos.
Sembene dizia,
que o povo negro precisa de um cinema negro.
E n�s merecemos nossos pr�prios her�is.
O REBELDE
A euforia da independ�ncia teve uma verdadeira vida curta.
Na �poca eu estava na escola
12 anos ap�s a independ�ncia,
nossos her�is tinham sido derrubados, corrompidos ou mortos.
O sonho de uma nova �frica tinha tornado-se um pesadelo.
Fomos subordinados.
Intermedi�rios; que nunca tomavam decis�es.
Quando a independ�ncia veio,
depar�mos-nos com todos os tipos de problemas.
Ao mesmo tempo, o que estava acontecendo?
uma minoria da burguesia negra como nos,
assassinaram muitos intelectuais africanos,
computando-se cem anos de coloniza��o.
Dedico este filme
a todos os militantes da causa africana.
Emitai, feito em 1972,
foi o primeiro de uma trilogia sobre corrup��o pol�tica
e resist�ncia popular.
- Sargento. - Sim Comandante.
Bloqueiem todas as sa�das. Dois guardas ali.
Dois aqui. Dois l�.
Sim Senhor!
Mas a liberdade n�o � algo que pode ser dado.
Liberdade � a batalha no qual a vida � colocada em risco.
Aquele que n�o estiver disposto a pagar esse pre�o,
nunca ir� usufruir da liberdade.
Como os "griot" dos dias passados,
que tinham coragem de falar publicamente
ao rei: "Voc� ultrapassou a linha!"
Se o artista africano alcan�ar este grau de consci�ncia
e honestidade, ele poderia ser mais proveitoso para a �frica
do que qualquer outra coisa.
Na �poca que Emitai foi lan�ado,
Sembene tornara-se um dos artistas mais influentes da �frica.
O que era impresionante para a �poca � que afro-americanos,
africanos e os povos do Terceiro Mundo
estavam intercambiando seus s�mbolos.
S�mbolos de revolu��o.
e Sembene era algum destes s�mbolos.
Sua foto estava erguida junto com
Am�lcar Cabral, com Angela Davis,
junto com, voc� sabe
com todos os grandes artistas e revolucion�rios,
e ativista culturais.
Galle Ceddo, a casa que ele construiu com as pr�prias m�os,
Tornou-se um lugar de encontros e uma sala de aula.
Desde ent�o, trabalho debaixo do c�u,
debaixo do sol.
Posso rodar um pouco com o sol.
Por exemplo, aqui,
Se uma pessoa negra n�o tem o seu rosto iluminado,
voc� perde os detalhes.
Ent�o, quando eu a filmo, ela tem que ter sua face voltada para a luz,
com a c�mera posicionada ali.
Voc� deve planejar essas coisas,
e fazer os ajustes na filmagem.
A primeira vez que estive aqui, s� tinha ido para a Escola cor�nico.
Nunca tinha ido para a Escola francesa.
Sembene pressionou-me
para a leitura.
Ele dizia que algu�m que n�o � educado
n�o � mais esperto do que um asno.
Do que um asno.
Vencedores de Pr�mios Nobel, estadistas,
jornalistas e cineastas fizeram a peregrina��o
para de uma gera��o de novas vozes da �frica.
Tinha sido feito
em 62, talvez 63.
Eu estava na Escola secund�ria e tinha finalizado um romance.
Peguei o manuscrito e entreguei-o para Sembene.
Algumas semanas ou alguns meses depois,
Retornei para Galle Ceddo.
Ele nos recebeu amigavelmente.
Ent�o Sembene falou sobre o meu livro,
mas muito brevemente.
S� poucas palavras, ele n�o...
ele n�o falou muito
mas ele estava muito bem.
Lembro-me que ele disse, fumando o seu cachimbo,
"Voc� � um escritor."
E recordo-me de uma cena claramente
enquanto estava sentado com ele.
Avia uma crian�a
que estava orbitando em torno do po�o
e Sembene disse "Alain! Pare!"
Depois, encontrei l� fora, Alain Sembene,
seu filho multiracial.
Realmente existiam dois Sembene.
Existia o Sembene de dia.
De todo o dia, "Voc� tem que fazer isso, fa�a aquilo, v� at� ali."
Como um militar.
Ele era...
cheio de energia, um pouco parecido com uma escavadeira.
Sembene da noite era algu�m completamente diferente.
Quando de noite, lembro-me
est�vamos pr�ximo ao mar, e � noite ele ouvia os sons
da costa, dos insetos,
algo a ver com a natureza.
Ele estava muito calmo, repousando.
E era uma pessoa diferente, algu�m muito aberto.
Ele realmente tinha uma personalidade dupla.
Cinema tem um aspecto matem�tico.
H� um espa�o.
Movimento para a direita, a esquerda, dou a volta, retornou.
Se h� uma multid�o, imagino algu�m atr�s de mim.
Pode ser um c�rculo ou um quadrado, um tri�ngulo
ou algum outro formato.
Posso imaginar tudo isso,
e prever o que aparecer� na tela.
Sou espectador tanto quanto um contador de hist�rias.
Sou o meu pr�prio narrador, meu pr�prio roteirista,
meu pr�prio ator e diretor.
Provavelmente "Xala" � o mais importante
filme pol�tico africano.
Um pa�s africano tornou-se independente,
o filme come�a com sons de tambores.
E voc� tem os pol�ticos,
os populares assomando � multid�o.
A multid�o e os pol�ticos face a face.
E nesse momento, Sembene corta a cena.
De repente voc� v� a pol�cia dizendo para as massas
?se afastarem."
Ent�o a popula��o fica fora da Independ�ncia africana.
Eles trazem conselheiros brancos, os quais ainda
simbolizam o Banco Mundial ou o FMI.
E tamb�m a pol�cia secreta da Fran�a
Ent�o de repente, n�s os vemos
Eles entram e eles assumem controle da independ�ncia.
Em meados dos anos 1970,
Sembene tornou-se bastante consciente de seu pr�prio poder.
Senhor Ministro
No segundo filme de sua trilogia rebelde,
Sembene abertamente ridicularizou o presidente do Senegal
e a classe dominante.
Sembene usou como modelo no seu film o presidente
o presidente do Senegal Leopold Senghor.
Nossa a��o revolucion�ria n�o � em v�o.
Nossa presen�a na C�mara do Com�rcio
foi sancionada pelo nosso Executivo,
Pai da Na��o.
A modernidade n�o deve nos fazer perder Nossa Africanidade.
Issi � de certo
- Viva a africanidade! - Vida long para a nossa africanidade!
Em seus filmes como em "Le Mandat" e "Emitai",
voc� faz uma cr�tica radical e rigorosa da sociedade africana.
� a minha pr�pria sociedade.
- � a minha sociedade. - Uma cr�tica radical...
da sociedade que quer macaquear o Ocidente
- uma cr�tica dos novos ricos, - Sim.
- Isto � vergonhoso. - ou aqueles chefes de fam�lia...
que atuaram como um ditador em seu pr�prio lar...
...e que foram improdutivos e nocivos.
- Publicamente? - Sim!
Muitos dos chefes de Estado s�o prejudiciais.
E me responsabilizo por minhas palavras.
O terceiro filme de Sembene da trilogia rebelde
foi o mais provocador
e ningu�m quis financi�-lo.
Ent�o ele hipotecou Galle Ceddo para fazer o filme.
Para fazer um filme atacando o Islamismo.
Ele estava buscando problems
era um suic�dio.
A religi�o foi utilizada,
desde o seu in�cio contra o povo negro.
Europeus e �rabes n�o tiveram nada a nos ensinar sobre moralidade.
Fetichismo e idolatria foram desde ent�o proibidos,
suas devo��es foram esquecidas e proibidas
Suas crian�as, meninos e meninas,
muitos aprenderam o Cor�o.
Seu nome � Ibrahim.
- Repita! - Ibrahim.
Sembene est� dizendo que o Islamismo foi uma for�a invasora.
Uma religi�o que era, no mais, imposta a nos por um bra�o armado.
Sabemos que voc� � uma norte-americana.
O que voc� pensa sobre o filme
e o impacto que pode ter nos Estados Unidos?
O filme ir� choc�-los.
Americanos, sobretudo afro-americanos, tem uma vis�o idealista da �frica
mas nesses filmes, ele vir�o e perceber�o uma �frica diferente.
Penso que � algo bom.
Como uma militante afro-americana da d�cada de 1960
Carrie Moore Dailey foi inspirada pela mensagem Panafricana de Sembene.
Ela seguio-o at� Dakar,
Apaixonou-se por ele,
e eles se casaram
e ela tornou-se uma das suas mais importante colaboradora,
e sua fonte de inspira��o.
Carrie, enquanto voc� era casada com Sembene
quais eram os problemas que depararam para fazer os filmes?
Tenho que dizer que viv�amos uma vida
que tinha um pouco de dificuldades.
Significa dizer que, de certo modo, meu marido tornou-se um pol�gamo.
A cria��o tornou-se a sua primeira esposa,
de tal forma que mesmo que ele estivesse em casa,
ele realmente n�o estava comigo.
Eu tinha que aceitar isso.
Costumava rir com Sembene
quando Salman Rushdie estava em apuros
ao escrever "The Satanic Verses".
Eu disse, "Sembene, voc� sabe que far�o o mesmo com voc�,
pois voc� est� literalmente atacando o Islamismo".
O Presidente Senghor ficou indignado com Ceddo e baniu o filme.
Sembene n�o p�de mostrar o filme para os africanos.
Os credores amea�aram apropriar-se de Galle Ceddo.
10 anos se passaram para o rebelde fazer um outro filme.
Junto a nos, t�nhamos um dos mais renomeados cineasta do mundo.
E ele tamb�m era um novelista, Ousmane Sembene
no qual seu filme Ceddo n�s recentemente estreamos.
Eu era a boca de milh�es de homens.
Eu era o ouvido de milh�es,
os olhos de milh�es de pessoas.
Eu falo para eles.
Mas quando o governo, no caso do Senegal,
toma isso para si, apesar da decis�o da Comiss�o de Controle
de banir o filme,
ent�o, banir o filme consiste em um poder pol�tico.
Portanto, a inquisi��o.
Isso n�o � mais sobre poder moral
tornou-se a Inquisi��o.
Eu tinha uma esposa, estava muito apaixonado por ela.
Porque eu trabalhava muito, um dia ela me disse:
"Voc� e eu, compartilhamos a mesma cama,
mas entre n�s sempre h� a cria��o."
Eu nunca tinha tido consci�ncia daquilo.
Nunca imaginei que era um problema para ela.
Quando Carrie foi embora, ele fingiu estar feliz,
mas sei que ele n�o estava.
Ele me disse ap�s o div�rcio
que tinha acabado com casarse.
Disse que nunca mais iria se casar. Ele n�o queria!
Ent�o Carrie o deixou em situa��o deteriorada?
Ap�s ela partir, Sembene n�o queria nenhuma presen�a feminina em sua casa.
Eu n�o queria casar de novo.
N�o, ningu�m viveria aqui.
Imagino que isso foi uma frustra��o profunda.
A casa estava vazia.
Ha conflitos para todos que seguiram seus pr�prios caminhos.
Ele estava bastante s�.
Ele ainda preservava os seus ideais.
Mas acho que ele tinha...
acho que algo mais lhe frustrava...
Ele estava desapontado pela �frica.
Algu�m me disse que sinceridade era a sua ru�na.
Isso n�o � um ru�na.
Isso � a minha liberdade.
N�o uma ru�na, uma liberdade.
Eis minha liberdade, a de todos.
Essa era a verdade.
� PROCURA DE SEMBENE
Nos dez anos enquanto Semb�ne lutou,
terminei meus estudos,
fui para a Am�rica e me tornei acad�mico.
Via e revia os seus filmes,
e ensinava-os aos meus alunos
mas ainda, eu ainda n�o tinha encontrado aquele homem.
Na cultura tradicional africana, qual era o nome dado �queles
que representava a voz da sociedade?
- Sim. - O "griot"?
Excelente. "O griot".
Todos os escritores africanos
pertencem a essa tradi��o que o "griot" come�ou.
Mais tarde surge um outro tipo de "griot".
aquele que faz o uso da c�mera.
Por consequ�ncia, a c�mera e a caneta
s�o ferramentas do moderno artista africano.
Costum�vamos convidar artistas, escritores
E em uma de nossas reuni�es, sugeri que convid�ssemos Sembene.
Eu achei que seu trabalho estava mudando o mundo.
Eu pensei que ser trazermos ela aqui
de alguma pequena maneira
Eu tamb�m estava contribuindo em mudar o mundo.
Talvez eu fosse muito, muito ing�nuo.
Enviamos-lhe um fax
E, claro, uma semana depois ele responde, "Eu n�o vou"
"Tenho outras coisas para fazer que s�o mais importantes para a �frica,
do que perder meu tempo com acad�micos americanos."
Decorreram 10 anos desde que "Ceddo" foi proibido.
Presidente Senghor aposentou-se, e mudou-se para a Fran�a.
Um novo governo ocupou o seu lugar.
E Sembene finalmente preparou-se para o seu pr�ximo filme,
ainda mais controverso.
"Pays!"
"Pays!"
Aqui estamos em solo africano.
Aqui,
voc� n�o � mais um prisioneiro
em Buchenwald.
Isto acabou.
Olhe para "Pays".
A Guerra destruiu ele.
A Guerra destruiu ele.
Esta � a terra aquecida da �frica.
Voc� e eu
iremos para casa em breve
para a aldeia.
O filme narra a verdadeira hist�ria dos soldados africanos que
ap�s lutarem pelo Ex�rcito Franc�s na Europa durante a II Guerra
retornaram para casa, s� que foram relocados pelos franceses,
que se negaram a pagar-lhes o sal�rio.
Eles lutaram juntos pressionando a Fran�a
pelos seus direitos.
Um cad�ver negro.
um cad�ver branco.
s�o os mesmos.
Ent�o, porqu� voc� recusa nos pagar?
Merda!
"Camp de Thiaroye" foi premiado no Festival de Veneza,
ganhou cinco pr�mios.
Mas o filme n�o foi visto na Fran�a.
O governo franc�s proibiu o filme.
O filme "Camp de Thiaroye".
Tamb�m ser� lembrado por toda uma gera��o
de jovens cineastas de Sengalese
como o filme que Sembene tirou deles.
Sembene foi diretor de uma institui��o que fornecia
fundos para jovens cineastas senegaleses.
Entre aqueles a quem foi prometido dinheiro,
estava Boubacar Boris Diop, um jovem romancista
que Sembene encorajou anos antes.
O roteiro de Boris tamb�m era sobre o massacre de Camp de Thiaroye.
E os fundos foi prometido para ele fazer o filme,
mas Sembene pegou os fundos destinado a Boris
e a outros jovens cineastas
e fez seu pr�prio filme exatamente sobre o mesmo assunto.
Nossa abordagem n�o era receosa
em fazer uma narrativa mais hist�rica.
O resultado foi...
o roteiro intitulado "Thiaroye 44".
Posteriormente ficamos sabendo que no mesmo momento
Sembene estava no processo de escrever seu pr�prio roteiro,
"Camp de Thiaroye".
Essa n�o era um pessoa por quem
eu posso ter ainda um m�nimo de respeito.
Sou cheio de contradi��es e erros.
Disse que poderia dormir com o diabo, ou com a senhora-diabo
para fazer meus filmes.
Mas voc� poderia julgar os filmes e n�o a Sembene Ousmane.
Minhas contradi��es s�o triviais
comparadas � necessidade de fazer o filme.
Obviamente parei de ver-lo
ap�s o ocorrido com "Thiaroye".
Sembene veio e n�s o olhamos
como algu�m que tinha feito o filme
de um de seus colegas.
Agora � tempo para o jovem seguir em frente.
Eles precisam de um modelo exemplar.
Ele os disse:
"Enquanto eu viver, quero ser o melhor naquilo que fa�o,
pois lhe darei a oportunidade
- de ser melhor do que Papa Sembene". - Claro.
E isso era certo.
N�o tente superar Sembene em seu pr�prio jogo.
Fa�a algo melhor!
Sembene dormiria com o dem�nio para fazer seus filmes,
mas ainda acredito nele.
Acredito que o seu trabalho empodera nosso povo.
Eu convenci meus colegas a comprar um bilhete de avi�o
E enviar-me para Senegal para conhecer Sembene
Eu simplesmente n�o podia acreditar que esse dia chegaria.
De estar em uma posi��o de poder encontrar Ousmane Sembene.
Desembarquei no escrit�rio de Sembene, eu ainda me lembro.
Era No. 36 Rue Abdoukarim Bourgi
por volta das 10:00 da manha.
Sembene estava sentado.
"Ent�o, me diga o qu�? O que posso fazer por voc�?"
Ele foi bem bruto.
Muito rude.
Fiquei muito intimidado, eu come�ei a tremer.
Oh, bem, eu apenas vim para trazer-lhe este convite.
Mas voc� n�o me enviou um fax antes?
Eu respondi:Sim.
E eu n�o recusei?
Eu respondi: Sim, voc� recusou.
Ent�o por que voc� veio at� aqui para desperdi�ar meu tempo?
Eu respondi: Bem, eu vim para tentar convenc�-lo.
Aqui estou, um jovem professor nos Estados Unidos
estou o convidando para me ajudar a tornar a �frica conhecida
E voc� recusa?
Foi uma decep��o t�o grande
aquele primeiro encontro com Sembene.
Meu ?Deus" tinha ca�do completamente do pedestal.
Era ele realmente a pessoa cujo livros eu lia?
Dia ap�s dia, eu estava na sua porta.
ele veio, conversamos, e eu pensei
ele estava me testando.
Dias depois
Ousmane Sembene concordou em ir.
Foi um sonho de inf�ncia que se tornou realidade.
Eu ia conhecer aquele homem,
cujo trabalho mudou minha vida.
Durante um m�s, preparei-me para sua chegada no dia 21 de mar�o. Domingo.
S�bado de manh� 6:00 de A.M, meu telefone tocou.
Sembene, "Estou aqui no aeroporto. Onde est� voc�?"
Eu perguntei "Qual aeroporto?" Ele disse "Estou no Kennedy."
"Se em meia hora eu n�o te ver, vou voltar para o Senegal."
Eu fiquei apavorado.
Eu nem sequer lavei meu rosto.
Eu pulei na primeira cal�a que tinha.
E comecei a dirigir de South Hadley para JFK
que � aproximadamente tr�s horas de l�.
Quando cheguei Sembene estava furioso.
Ele nem me cumprimentou, ele apenas apontou para a sua mala.
"Pegue, e vamos
antes que eu mude de id�ia."
Quero dizer, eu estava realmente, realmente aterrorizada.
Eu n�o sabia o que fazer.
Ent�o levo-o ao seu dormit�rio.
Ele apertou a minha m�os e disse:
"Ok, estou aqui agora. Vamos esquecer o que acabou de aconteceu.
Voc� me diz o que esperas de mim,
e eu o fa�o."
Ent�o foi assim que a visita come�ou.
Pelos pr�ximos 17 anos, eu me torneio o seu guia.
Fazia eventos para ele ao redor do mundo.
Apresent�vamos os seus filmes nas universidades e festivais,
para pessoas que n�o os conheciam, e para os seus f�s.
Eu sempre trazia a minha c�mera de v�deo.
N�o h� necessidade de traduzir a pergunta. Ele j� o fez.
Ok.
H� uma verdadeira resist�ncia ativa.
� realmente f�cil de fazer um filme em que as pessoas
est�o encenando em todos os cantos.
E penso que isso talvez seja s� por distra��o
tenho grande admira��o pelos diretores de Hollywood,
mais quero fazer mais filmes para despertar a reflex�o.
Gostaria apenas de dizer algumas palavras sobre Sembene Ousmane.
Ele � um homem, ele � um cineasta
que � tanto afetuosamente e respeitosamente conhecido
como "O pai do cinema Africano."
Ele tem sido o arquiteto de muitas das estruturas
Que permitiram ao cinema africano a desenvolver no continente.
E deu-lhe uma plataforma Internacional.
Gostaria de dar as boas-vindas ao palco Sr. Ousmane Sembene.
Acho que quando ele chegou aqui,
ele entendeu que ele are mais valorizado em outros pa�ses do que no Senegal.
Ele tinha perdido um pouco de confian�a.
Sembene olhou dentro dos meus olhos
e viu um jovem acad�mico africano entusiasmado
como um recurso.
Sembene era recebido como um uma super estrela.
Por certo, eu n�o era o seu �nico f�.
DANNY GLOVER Ator
HENRY LOUIS GATES, JR. Harvard University
GORDON PARKS Fotografo
SPIKE LEE Cineastra
ANGELA DAVIS Ativista e Acad�mico
- Oh! William Greaves! - Fant�stico!
Voc� � o melhor.
- Voc� � o melhor. N�o eu. - N�o, voc�.
Eu era como um telefone do esquina de Nova Iorque.
Eu ligava para todos que conhecia
e dizia "Voc� tem que ver este filme."
Era como um distintivo de honra dizer, "N�s tamb�m temos um cinema."
Quero dizer, todos os dias os bilhetes estava esgotado.
E eu dizia a ele:
"Voc� v� o que podemos fazer para voc� aqui em Nova York."
"Voc� v�?"
Ele disse: "N�o, voc� v� o que eu vim fazer por voc� aqui em Nova York."
Foi engra�ado porque n�s tivemos esta piada antigas
Dizendo: "Oh, meu Deus, ele tem o seu ?grupinho?"
Era muito bom.
Cidade de Nova York
Bem, voc� tem esse grupo de mulheres que apareceram
e voc� pensa, "� meu Deus, de onde elas sa�ram?"
Sembene Ousmane, me disseram que voc� n�o gosta de ser referido
como o pai do cinema Africano mas inevitavelmente, as pessoas o fazem
O que me interessa � o como voc� faz
para levar os seus films pelo pa�s?
Fiz o que foi considerado o primeiro teatro popular como na Inglaterra.
N�o tive que inventar nada.
Tenho uma van, um gerador,os meus v�deos, eu ia viajando pelas as cidades.
Eu n�o queria ter que esperar pela a ajude da Europa.
Paris 1998
Dez anos depois Sembene terminou "Camp de Thiaroye",
a Fran�a finalmente suspendeu a censura.
Sembene foi convidado para a sua estreia em Paris.
Sembene Ousmane.
E durante muitos momentos nos tivemos homenagems
e eu gostaria de dizer que estou sempre lutando
n�o de joelhos.
Qualquer que seja a raz�o, isto � um ato de rebeli�o
ainda esta vestido em um uniforme militar.
Falando com eles.
Eles n�o possuem consci�ncia da gravidade de suas a��es.
Voc� � educado, voc� sabe.
Eles ir�o tentar nos persuadir.
Desde Morlaix, os oficiais tem sido mentirosos.
H� duas regras no Ex�rcito?
Uma para os negros, outra para os brancos?
- N�o gosto de como voc� fala. - Como eu deveria falar?
Ou, de prefer�ncia, poderia n�o falar?
Calaria a boca e perdoaria a injusti�a.
Voc� poder chamar o governo.
Diga a ele os seus descontentamentos.
Irei ver o Minist�rio Colonial em Paris.
Capit�o, voc� ter� que ser
o bom samaritano ou o S�o Bernardo desses vichystas?
Um direito nunca � discutido ou negociado.
Retornamos da Europa onde lutamos com seus inimigos.
Agora, lutamos pela �frica.
Nesse aspecto, ele n�o era mais o Sr. Sembene, ou Ousmane.
Eu o chamava de "tonton", que em Wolof significa ?tio".
E ele me chamada de "djarbad", "meu sobrinho".
Em Paris, percebi
que este cineasta africano estava praticamente cego.
E ele aparentava nao saber onde estava, e n�o sabia aonde apoiar o seu p�.
Eu ajudava-o a caminhar pelas escadas.
Percebi que aquele homem,
que come�ou a me tratar como um filho,
tinha a sua pr�prio filho que, naquela �poca, o rejeitou.
Seu filho mais velho, Alain, concordou e falar-me a respeito do pai.
Eu nasci em 1957.
Ele ainda era um estivador.
Ent�o, n� �poca, ele costumava ir para Moscow para estudar.
Ent�o, eu o via muito raramente, �s vezes, uma vez por ano.
Ent�o, para mim, eram idas e vindas.
Ele era muito rigoroso na �poca.
Ent�o, quando eu estava com 8 anos de idade,
comecei a conhec�-lo
quando me mudei para o Senegal para viver com ele.
O que o caracterizou aquela �poca, a meu ver,
foi o que todo mundo achava sobre
o "grande" Ousmane Sembene.
E eu nunca vi pessoas
t�o impressionadas.
Ousmane Sembene!
E para mim era,
era tanto faz.
Enquanto pai, ele nunca esteve por perto.
At� mesmo em nossas conversas
ele n�o gostava, de falar sobre a fam�lia.
De um modo geral,
ele gostava de falar sobre revolu��o...
�frica...
o futuro, etc...
Para ele
tudo que tinha que aver com a fam�lia,
imagino eu, era doloroso.
E isto era algo que ele nunca poderia gerenciar
em sua vida.
Nunca.
PEDA�OS DE MADEIRA DE DEUS
Um dia eu recebi um fax,
"Oh, eu estou no meio do nada, mas aqui � tao bonito,
voc� viria me fazer companhia?"
Eu disse, ?claro."
A��o!
M�e Colle... M�e Colle...
O que aconteceu?
Elas est�o fugindo da purifica��o.
Meu Deus!
Sembene estava enfrentando
uma das maiores trag�dias de direitos humanos do continente,
a mutila��o genital feminina,
a pr�tica da remo��o do cl�toris.
As crian�as pedem prote��o, e ter�o.
Diatou.
Diatou.
Venha aqui!
N�o quero.
Venha, voc� ser� purificada.
Eu mesma sou uma mulher circuncidada.
Fui circuncidada quando eu tinha 6 ou 7 anos de idade.
Quando me tornei adulta, comecei a lutar contra isso.
Quem quer que atravessar essa corda
ser� punida pelo MOOLAADE.
Colle Ardo.
Ainda ah tempo de purificar as garotas.
Voc� s� precisa pronuncie a palavra!
- Colle! - Sim.
Pronuncie a palavra!
O pai do meu Amsatou...
Pronuncie a palavra!
Diga! Diga! Diga!
Pronuncie a palavra!
Pronuncie a palavra! Pronuncie a palavra!
Colle, a palavra, diga!
Resista! Resista!
Resista! Resista!
Dominem ela! Dominem ela!
Pronuncie a palavra!
Colle, a palavra, diga!
Pronuncie a palavra!
Quando uma garota diz para outra garota:
Voc� n�o corta? Esta � a coisa mais dolorosa que pode ser dita.
Todas as minhas filhas s�o extirpadas.
Desculpe-me, com o devido respeito.
Qual o problema se seu filho
se casar com uma mulher circuncidada ou n�o?
Isso � algo que poder�amos abandonar.
Chega!
Ele tinha 82 anos.
Ele estava coreografando com uma equipe
de 60 a 80 membros.
35 mil�metros de equipamentos bem pesados.
Sem eletricidade
sem �gua corrente
38 graus no calor da Africa tropical
Fui designado para a distribui��o de �gua.
Eu n�o sou o �nico que desmaiou
Estou bem, estou bem.
Iremos colocar uma cadeira aqui para voc�.
Pegue a cadeira e v� para l�.
- Voc� me entende? - N�o havia cadeira aqui antes.
Colle, isso n�o tem justificativa.
Sofremos de um complexo de justifica��o.
Pela manh�, estavam todos muito aborrecido.
Voc� discutiu com ele pela manh�?
Sim.
N�o, n�o, n�o? Eu sou assim.
Foi assim que nasci.
N�o estou aborrecido. S�o outros que me veem como algu�m aborrecedor.
Por exemplo, olhe aqui.
Presume-se que isto deveria ter sido feito ontem.
Isto � um ato de rebeli�o.
Eles est�o fazendo isto agora, perdendo tempo e a luz sol.
As cenas de amanh� poderiam ser preparadas hoje.
Sembene estava enxergando com dificuldade.
A cada passo corria o risco dele cair.
Porque ele n�o sabia onde colocar o seu p�.
Embora ele estivesse trabalhando com bastante gente jovem,
ele trabalhou mais do que eles.
Na d�cima primeira semana ele j� estava exausto,
ent�o ele desmaiou ali.
Ele teve que receber uma intravenosa a noite toda.
�s seis horas da manh� do proximo dia, colocou os seus sapatos e foi trabalhar.
Eu disse a ele, "Eu acho voc� deveria descansar um pouco."
Ele disse: "Depois que eu morrer, terei muito tempo para descansar.
"Vamos ao trabalho."
H� esta cena
que estamos reencenando a excis�o de uma menina.
N�s usamos uma jovem menina que j� havia sido circuncidada.
Ent�o, para ela, ela n�o sabia que ela estava somente
re-criando a cena.
Ela pensou que ia ser cortada de verdade.
Eu estava la?
a cena estava no limite do toler�vel.
Est�vamos fazendo uma crian�a sofrer, e est�vamos traumatizando-a.
N�o quero ir! Piedade!
Por favor, n�o! Eu te imploro!
A c�mera continuou rodando, e ele n�o quis dizer "Corta".
Eu tive que parar a c�mera.
Sembene, basicamente lhe disse: "Me escute bem,
"voc� diz que eu estou torturando ela?
"Quer dizer, dois minutos de suas l�grimas,
"se isso significa pode me ajudar a lavar
"a dor que milh�es de garotas passam atrav�s disso neste continente,
"estou pronto."
Esta � a maneira de fazer isto na �frica.
Voc� deve colocar o dedo na ferida.
As pessoas acreditam quando veem
ent�o, reagem.
Mas se voc� levantar sua m�o para mim,
Colle Ardo,
irei incendiar a aldeia e afog�-la em sangue.
Ela n�o ser� mutilada.
Nenhuma garota ser� mutilada.
Nenhuma garota ser� mutilada.
- Liberdade! - Liberdade!
- Liberdade! - Liberdade!
Moolaade ganhou um pr�mio no Festival de Cinema de Cannes.
Obrigado.
Realmente, para ser sincero, lhe agrade�o do fundo do meu cora��o.
Sembene ganhou o L�gion d'Honneur da Fran�a.
O pr�mio mais prestigiado da Fran�a.
E Moolaade foi exibido na �frica inteira,
divulgando a mensagem contra a mutila��o,
empoderando mulheres.
Isto era bom para Cannes
mas eu queria que a �frica criasse algo que fosse de sua posse.
N�o participar�amos eternamente como convidados.
Depende de n�s criarmos nossos pr�prios valores.
Para reconhec�-los e lev�-los ao redor do mundo.
N�o estamos s� no mundo mas temos nosso pr�prio sol.
N�o defino a mim mesmo a partir da europa.
Na escurid�o da escurid�o
se os outros n�o lhe enxerga, eu posso enxergar a mim mesmo.
E posso brilhar.
Eis minha resposta.
GUELWAAR 1992
Nossos l�deres reunem aqui.
Sabe porqu�?
Somente para receber esta ajuda.
Nosso ancestral Kocc Barma disse:
"Se voc� quer acabar com o orgulho de um homem...
"d� a ele todas as suas necessidades di�rias,
"ent�o, ele se tornar� um escravo."
Sim, um escravo.
Se um pa�s
est� sempre recebendo ajuda de outras pessoas
este pa�s
de gera��o a gera��o s� restar� a ele dizer uma �nica palavra:
Obrigado.
Obrigado.
Obrigado.
Obrigado.
Morei com ele enquanto ele estava doente, muito doente.
Mas ele nunca reclamou. Nenhuma vez.
Tudo que ele falava era sobre seu trabalho.
mesmo de noite no jantar, tivemos...
uma briga.
Ele n�o queria nada, ent�o eu disse a ele,
"coma tr�s colheres de sopa".
Ele disse, "Ok, tr�s colheres".
Dei a ele tr�s colheres.
Ent�o tentei dar a quarta colher, ele disse
"N�o! O combinado eram tr�s".
Durante seu momento final ele me disse,
"Nafi, estou cansado...
"ajude me".
Aquelas foram suas �ltimas palavras para mim.
"Ajude-me".
Eu estava em um avi�o indo ver Sembene
Eu sabia que ele estava doente
Eu tinha dentro de minha mala
cafe,
vitaminas,
lembran�as que ele sempre me pedia para trazer para ele.
Ent�o eu cheguei no aeroporto
E um amigo tinha vindo me pegar.
E esse amigo veio e me deu um abra�os apertado.
E disse: Tio, tenho uma not�cia muito m� para te dar.
Seu tio Sembene faleceu.
Eu estava em Nova Iorque,
e derepente, senti-me
orf�o pre-maturamente.
Percebi,
quando acordei, que me importava com esse homem mais do que eu imaginava.
Um homem de grande for�a de vontade,
algu�m que foi mais forte do que o seu pr�prio destino,
outrora fadado a ser
um estivador no Porto de Marselha ou um pedreiro.
Ele � o tipo de pessoa que, como um fil�sofo dizia:
"Farei as coisas como se ningu�m tivesse existido antes de mim."
Aqui dorme Ousmane Sembene. 1923 - 2007
No final da sua vida,
ele frequentemente ia para Paris.
Aqueles eram bons tempos, pois ele
costumava ir aos restaurantes para conversar.
Ele realmente gostava...
do restaurante coreano.
O que eu me lembro � que
�ramos realmente parceiros. Fal�vamos sobre tudo.
Imagino que no final
eu n�o o via como meu pai, e ele n�o me via como seu filho.
N�s v�amos um ao outro como amigos.
Tio, obrigado por esses anos de presentes.
Seguramente, voc� esgotou-se fisicamente,
mas voc� nunca morrer�.
Voc� nunca morrer�.
Eu te dou a minha certeza de que o seu trabalho nunca ir� desaparecer.
Esta m�scara � minha.
Comprei ela por 50 francos.
Nunca mais voc� ir� me repreender.
Nem mais uma vez dir�: "Diouana, fa�a o caf�."
Nem mais uma vez: "Diouana, fa�a o arroz."
Nem mais uma vez: "Diouana, tire seus sapatos."
Nunca mais: "Diouana, lave a camisa do Senhor."
Nunca mais: "Diouana, voc� � pregui�osa."
Nunca mais serei uma escrava.
Samba Gadjigo tem ajudado a recuperar o arquivo pessoal de Sembene,
que em breve estar� acess�vel a pesquisadores de todo o mundo.
Um projeto de restaura��o e relan�amento dos filmes de Sembene se iniciou.
Tradu�ao: Victor Martins & Emilia Ferreira Legendagem: Mistral Artist-New York
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