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Ainda é mais para frente? Continuo?
Eu estou vendo alguém.
Beleza, esse é nosso comitê de boas-vindas.
Você viu? Ele se benzeu.
Por que fez o sinal da cruz?
Porque poucos saem daqui.
Cinco anos atrás,
quase ninguém tinha ouvido falar dele.
Hoje, é um nome bem conhecido.
Fentanil.
Como chamam o fentanil aqui?
"Diabinho".
- Porque é perigoso? - É.
Você morre em um segundo.
Nos Estados Unidos,
o fentanil tem aumentado as mortes por overdose
a níveis recordes.
Está aniquilando uma geração.
E, no México, ele está alterando o tráfico de drogas
como nunca aconteceu antes.
A revolução nesse negócio foram as drogas sintéticas.
Mas poucas pessoas entendem
como os cartéis estão colocando as mãos
nos produtos necessários para fazer fentanil.
Ou qual vai ser o resultado
se continuarem a transformar esses ingredientes crus
em mais pílulas e pós letais.
Veja essa cor.
Será vendido rápido.
Para onde vai isso que está fazendo agora?
Vai direto para a fronteira. Estados Unidos.
Desde o cartel no México até a fronteira
e as comunidades americanas,
eu irei a fundo na preparação do fentanil
para ver exatamente como ele está estimulando
a epidemia de drogas mais devastadora
da história dos EUA.
Você sabia que o que faz aqui
está matando pessoas nos Estados Unidos?
Por isso a demanda é grande, porque está matando muita gente.
Mercado Ilegal com Mariana van Zeller
Carro 1-Eco, responda.
499...
na rampa por overdose.
Parada cardíaca.
Certo. Entendido.
Como muitos socorristas em toda a Nova Inglaterra,
os bombeiros de Manchester atendem bem mais overdoses
do que incêndios.
Aqui diz que é uma mulher de 26 anos,
overdose, inconsciente, que está ficando azul.
Nova Hampshire tem uma das taxas de mortalidade por opioides
mais altas do país.
Parece que somos os primeiros.
É, nós somos.
O chefe está lá tentando ressuscitar a paciente.
Eu pude ver lá dentro, tinha uma mulher no chão.
Foi uma overdose, ela teve uma overdose.
A heroína pode matar.
O fentanil vai matar.
Eles o tiraram de nós!
Fiz uma notícia sobre fentanil em 2015,
quando a maioria dos americanos nem conhecia a droga.
Foi uma overdose.
O que eu vi foi chocante.
Encontram isto onde acontecem as overdoses.
Fentanil é 50 vezes mais forte que a heroína
e matou 20 mil pessoas no ano seguinte.
Hoje, a situação está ainda pior.
É jogar roleta-russa com uma arma completamente carregada.
Você vai morrer,
e pode ser na primeira vez que puxar o gatilho.
As câmaras estão carregadas.
E você aceita essa chance de 90%
de que vai sucumbir a isso em segundos ou minutos.
Isso é perturbador.
Levante-se, cara.
Vamos, vamos. Levante-se.
Levante-se, amigo.
O que é preciso para isso parar? Ter menos drogas na rua, né?
- Menos drogas entrando nos EUA? - Isso não vai resolver nada.
Você não acha?
Vão fabricar mais.
Elas não vão acabar. Elas não vão diminuir.
É uma crise nacional.
Para entender por que o fentanil está mais prolífico e forte
e mata mais pessoas do que nunca,
eu tenho que ir à fonte:
os cartéis mexicanos.
É hora de irmos.
Nosso contato mandou o local para encontrá-los.
É em um porto numa costa aqui perto,
fica a uns 20 minutos de onde estamos agora.
Fentanil é a droga mais perigosa dos EUA,
e grande parte vem daqui, de Sinaloa, no México.
E aí, o que me conta?
Ligaram para o nosso contato
falando para eles entregarem um pacote rapidamente.
Então, nós precisamos deixar as câmeras prontas,
já que não sabemos o quanto vamos conseguir documentar.
Ai, meu Deus.
Estamos tentando ir o mais rápido possível.
Estamos na cidade a menos de 24 horas,
e meu contato no cartel já nos deu uma pista
sobre a chegada de um novo carregamento.
É assim que funciona,
quando você está seguindo um carregamento
e suprimentos de drogas,
eles não vão ficar nos esperando para ir para o próximo local.
Ficamos com os dedos cruzados para dar tudo certo.
Tem duas formas para o fentanil entrar ilegalmente nos EUA:
pelo correio do comércio ilegal chinês,
ou através dos cartéis de droga do México,
as pessoas com quem quero me encontrar.
Nosso contato já chegou.
É um homem com camiseta preta e chapéu de palha.
Sim, então é aquele cara ali.
Eles não querem mostrar o rosto. Tenha cuidado.
Mas esse é o nosso cara.
Abaixe a câmera para ele não ver a câmera logo de cara.
Oi, como vai? Tudo bem?
Sim, está tudo bem.
Nossa esperança de ter acesso acontece.
Minhas fontes dentro do cartel de Sinaloa
concordaram em mostrar o primeiro passo importante
na preparação do fentanil.
Eles têm um barco pronto
para nós irmos para o mar com eles,
sob o pretexto de filmar uma expedição de pesca.
Mas vamos filmar algo
que nunca foi registrado antes.
Estamos sendo levados para o mar por um cara
que pediu para nem apontar a câmera na direção dele.
Ele não quer ser filmado.
E, supostamente,
nossos contatos estarão esperando por nós
em algum lugar no mar.
E então, eles vão falar qual é o plano.
O fentanil tem sido chamado de "droga fantasma do México",
porque ninguém faz ideia
da quantidade que é produzida e importada para os EUA,
mas o que todos conhecem muito bem
é seu impacto.
Opioides são a causa número um de mortes acidentais nos EUA.
Matam mais pessoas do que armas ou acidentes de carro.
Vamos deitá-lo. Deixe-o assim, certo?
Em poucos anos,
o fentanil se tornou a droga sintética opiácea
mais popular nas ruas,
e os cartéis do México aumentaram para suprir essa demanda.
Mas é um segredo pouco conhecido
que os cartéis não podem fabricar a droga sozinhos.
Primeiro, eles precisam obter os produtos químicos
de algum lugar ou de outra pessoa.
Tem um barco que pode ser o que viemos encontrar.
Esse barco na frente com...
com três ou quatro caras dentro.
Tem navios cargueiros ao nosso redor.
Tem um barco de pesca bem aqui.
E, então, nós vemos.
Ai, meu Deus!
Uma fila de barris de plástico
flutuando na direção do barco de turismo
que estávamos seguindo.
Barris que foram jogados da popa
de um barco de pesca enferrujado por perto.
Tinha cerca de 10 barris brancos que foram jogados no mar.
Dentro deles, estão os produtos químicos
que os cartéis precisam para criar fentanil.
Cara, isso é uma loucura!
Olhando para ele,
parece que é um barco de pesca completamente normal.
Existem centenas ou milhares deles pela costa do México.
De certa forma, é perfeito porque ele parece ser tão legítimo.
Ninguém jamais suspeitaria.
Podemos conversar?
A gente não pode demorar muito.
Tem que ser bem rápido. Vamos ser rápidos.
Eles falaram que não se sentem seguros aqui.
Eu sei, eu sei.
O que tem dentro desses barris?
Perguntei o que tem dentro.
Não sabemos o conteúdo.
Sabemos que é um líquido.
É usado para fazer drogas.
Para fazer fentanil.
- E tudo isso veio daquele barco? - Isso.
E de onde veio?
De um daqueles cargueiros grandes?
Ele falou que um desses cargueiros grandes,
que estão para todo lado, jogou esses barris no mar.
Então, o barco de pesca
recebe uma localização de GPS para pegá-los.
Eles pegam os barris,
seguem para o ponto de encontro, onde chegam,
pegam os barris e os levam para terra.
Mazatlán é um dos portos do Pacífico
mais agitados do México.
E, enquanto a maioria desses cargueiros internacionais
transporta mercadorias legítimas,
eles disseram que algumas pessoas a bordo
fazem negócio com o cartel de Sinaloa
e entregam os produtos que eles precisam da Ásia ou da Europa.
Tá bom.
Eles falaram que precisam ir. A Marinha está por aí,
e eles estão preocupados.
Temos que manter distância
porque aquele barco está cheio de drogas
e, se a Marinha chegar,
não queremos ser vistos como parte dessa operação.
Incrivelmente, uma das drogas mais perigosas do cartel
está sendo traficada bem à vista.
Veja o que está acontecendo, estão descarregando,
um barril por vez vai para a terra.
Estamos em um porto pequeno,
rodeados por outros barcos de pesca.
Também tem barcos de turismos
com umas 50 pessoas saindo, bem perto de nós.
Mais cedo, perguntei para meu contato
se podíamos acompanhar o carregamento do início ao fim.
A resposta foi sim, se pudéssemos manter o ritmo.
Estamos aqui.
Estamos subindo. Rápido.
Eles já foram?
Eles já foram embora?
Trouxeram do barco para cá em cerca de 15 segundos.
Nossa, que loucura.
Tudo isso aconteceu em uns 10 segundos? Sei lá.
Nós planejamos e esperamos por isso há meses e meses.
Eles se mandaram num carro como aquele ali.
- Tipo um carro de turismo? - É, igual àquele ali.
Então, são esses carros que tem em Mazatlán,
que são uns caminhões abertos com bancos nas laterais.
Eles transportam os turistas por aqui,
são tipo táxis para turistas.
- Colocaram os barris lá? - Foi onde colocaram tudo.
Mazatlán é uma cidade de resorts famosa,
e parece que os contrabandistas
estão usando isso a favor deles.
E nenhum dos turistas percebe que esse é um local-chave
para o negócio de fentanil em crescimento do cartel.
Manter a discrição é crucial
para a sobrevivência de um traficante.
A polícia mexicana está por toda a cidade,
e ela é apenas uma de muitas ameaças.
O que foi? Por que estamos correndo?
Tinha um carro lá atrás que parecia muito suspeito.
Minha equipe reestabeleceu contato com os contrabandistas,
mas, ao que parece,
não somos os únicos seguindo o carregamento.
Quando nos viram,
eles deram meia-volta e começaram a nos seguir.
Eu nem tive tempo de fechar a porta.
Sério?
Tivemos que sair muito rápido.
Era um carro sem placa,
e os dois homens lá dentro tinham rádios.
Nosso contato local
disse que eles têm cara de serem sicários.
- Eram atiradores? - Provavelmente.
Isso não me surpreende.
O México tem sido destruído pela violência com armas,
pois dezenas de cartéis
brigam pelo controle do tráfico de drogas.
Com 11 contêineres cheios de drogas,
com certeza, tem muita gente vigiando,
muita gente tentando roubar aquilo.
Isso vale muito dinheiro.
Claro que, se não despistarmos quem está nos seguindo,
meus contatos vão desaparecer
com o carregamento de fentanil que estou tentando acompanhar.
Tinha um carro lá atrás que parecia muito suspeito.
Era um Cadillac SUV, azul-escuro.
Não tinha placa.
Vamos esperar aqui para ver se eles vão passar por nós.
Estou seguindo contrabandistas de fentanil
pelo centro de Mazatlán.
Mas, agora, parece que tem alguém me perseguindo.
Pode ser o cartel de Sinaloa, pode ser um grupo rival,
ou pode não ser nada.
Fazer reportagem de drogas aqui pode te deixar paranoico.
Parece que os despistamos.
Não estão atrás de nós.
É um alívio, mas isso nos atrasou.
Temos que alcançar o carregamento que estamos seguindo.
Permitiram que nós filmássemos
onde guardam os barris com os precursores do fentanil
antes de irem para os laboratórios.
Estamos esperando a localização exata.
Acho que é aqui.
As coordenadas de GPS
nos levam 30 minutos para longe do centro,
para um complexo de apartamentos.
Tá bom, chegamos. Abaixe.
É melhor abaixar as câmeras.
Foi mal, mas o mais importante é filmar lá dentro.
Temos que ter cuidado para não revelar o lugar
ou as identidades dos anfitriões.
Nós só estamos seguindo o nosso contato.
Esses apartamentos são chamados de privadas,
comunidades residenciais tranquilas.
Meu contato disse que esta privada
é controlada pelo cartel.
Na entrada,
tem um guarda trabalhando para nós.
Eu dei o sinal para ele liberar vocês.
Aqui atrás de mim,
tem um prédio com todas as janelas cobertas.
E as pessoas lá dentro estão nos vendo.
Aqui dentro, você deve estar mais segura
que o próprio presidente.
O apartamento está sendo usado como depósito,
uma parada temporária,
onde o produto ficará a salvo da polícia e de concorrentes.
E é administrado por esses dois homens.
- A mercadoria veio para cá? - Sim.
Cadê? Onde está?
- Está aqui dentro. - Ali dentro? Podemos ver?
São as 11 que nós vimos?
Sim. E ainda tem mais cinco que chegaram semana passada.
Dá para ouvir.
O que tem dentro é líquido.
Disseram que os produtos químicos dentro desses barris
serão levados para laboratórios mais para o interior,
onde os químicos do cartel irão transformá-los em fentanil.
Tudo isso que eles têm aqui vale uns 350 mil dólares,
e quando isso for misturado com os outros produtos
e virar fentanil,
então isso vai valer milhões de dólares.
Sabe de onde tudo isso vem?
A gente sabe o que tem dentro, mas é só.
A gente não sabe mais nada.
Eu soube que o cartel está recebendo produtos farmacêuticos
de fora do México,
e eu quero saber de onde.
Eu sei que vocês não podem abrir a caixa,
mas podem tirar só a parte de plástico?
Não, não podemos mexer. Não.
Não querem que as pessoas vejam de onde vem?
Isso.
Tem que chegar aos cozinheiros do jeito que a gente recebeu.
Continuar forçando vai deixá-los em uma situação difícil
com seus chefes.
Como não me deixam abrir os pacotes,
eu não posso implicar um país ou empresa específica.
Hoje, o presidente Xi e eu discutimos formas
de impedir o fluxo letal
de drogas nocivas em nossos países.
Colocaremos uma ênfase especial no novo fenômeno:
fentanil.
É um fato bem conhecido
que a China tem milhares
de empresas químicas mal regulamentadas
fabricando drogas genéricas
e ingredientes farmacêuticos semanalmente.
Eu queria poder ver o que está escrito.
- Não, você não pode tirar nada. - Tá bom. Não vou tirar nada.
Temos que entregar do mesmo jeito que recebemos.
Pode virar um problema para você se você abrir?
Isso.
É melhor para gente não saber.
O cemitério está cheio de gente que sabia coisa demais.
Redes de tráfico são divididas por atividade.
Posso sair?
Pega uma coisa de um cara
e passa para outra pessoa.
No meio tempo, você faz seu trabalho
e faz poucas perguntas.
Mas essa rede é bastante eficiente.
Minha fonte disse que demora apenas oito dias
para os produtos passarem de uma entrega no Pacífico
para laboratórios do cartel escondidos,
e depois irem para as fronteiras ao norte
e, finalmente, para as ruas dos EUA.
Vamos. Levante-se, cara. Levante-se, amigo.
A gente sabe que muitas dessas pessoas
vão acabar morrendo.
Mas se essas pessoas compram e usam essas drogas,
aí o problema é delas.
Isso não foi inventado ontem. Existe há muito tempo.
O fentanil foi criado na Bélgica em 1960.
Foi projetado para uso em cirurgias
e para tratar as formas mais severas de dor.
Com o passar do tempo,
empresas farmacêuticas dos EUA acharam uma forma lucrativa
de vender remédios com opioides
fora de instalações hospitalares.
Desde que tomo esse remédio para dor,
eu não faltei um dia no trabalho e meu chefe agradece muito.
As prescrições aumentaram e asseguravam aos pacientes
que o risco de dependência era baixo.
Menos de 1% dos pacientes
que tomam opioides acabam ficando dependentes.
Eles estavam muito errados.
Enquanto overdoses fatais disparavam,
os médicos dificultaram o acesso a opioides.
Os dependentes buscaram heroína, e a crise ficou pior.
Então, em 2015,
o fentanil surgiu com tudo no comércio ilegal,
potente, barato e de fácil acesso nas ruas,
sem precisar de prescrição.
Nos EUA, as taxas de morte por overdose
bateram recordes históricos.
Mas aqui, no México,
o fentanil gerou um crescimento na economia do submundo.
É por isso que fui para o interior
para ver como os cartéis
transformam os precursores químicos
em drogas prontas para rua.
Está acontecendo hoje, em um laboratório clandestino,
onde teremos um vislumbre
do futuro do tráfico de drogas no México.
Aqui em Sinaloa,
costumava ser heroína pura.
Só que não mais.
A revolução desse negócio foram as drogas sintéticas.
A gente costumava produzir heroína branca e preta,
direto da planta.
Então, adicionaram o fentanil.
E a demanda foi bem grande.
Abriram a caixa de Pandora.
Ao contrário da heroína, cocaína e maconha,
o fentanil não precisa de terra, ou água, ou luz solar.
Ele pode ser fabricado em um laboratório como este,
por um bocado de químicos do cartel.
Este produto é a base para a M-30.
Esta coisa é a base
para criar as pílulas M-30, a oxicodona mexicana.
As pílulas M-30 são marcadas com um M de um lado
e o número 30 do outro lado,
em uma tentativa de deixá-las indistinguíveis
das pílulas de oxicodona legítimas.
Só nos últimos quatro anos,
milhões dessas pílulas fabricadas pelos cartéis
inundaram as ruas norte-americanas.
Eles disseram que só essa quantidade,
se você fosse ingerir, de algum jeito,
isto poderia te matar na hora.
Para você ver como é forte.
- Temos que pôr a máscara agora? - Isso.
Gente, é para todo mundo pôr a máscara.
Vai começar a ficar perigoso.
Se esses químicos combinarem as matérias-primas corretamente,
em algumas horas, eles terão completado com sucesso
o passo seguinte do processo:
criar fentanil comerciável no mercado ilegal.
Este produto aqui é fentanil puro.
- Isso é fentanil puro? - É fentanil puro.
Isto é fentanil puro.
Misturaram todos os líquidos que vêm da Ásia,
muitas vezes da China.
Eles misturam e fazem isto.
Isso é o coquetel.
Esse é o segredo por trás de tudo.
Com isto, você pode fazer a heroína sintética
e as pílulas M-30.
Esse processo é a receita da casa.
Receita da casa?
Sim, é do cartel.
O que aconteceria se não estivéssemos com a máscara?
Bom, tontura, vômito...
E você poderia entrar em coma.
- E poderia morrer? - Sim, de parada respiratória.
Como um chef experiente, o químico diz que suas misturas
não se baseiam completamente em medidas cuidadosas,
mas em suas próprias reações fisiológicas
ao processo químico.
O meu indicador é que eu fico com um pouco de taquicardia.
Isso significa que o produto está ficando bom.
- Sério? Você sente? - É, sinto.
Quando começo a sentir isso, significa que estamos prontos.
Isso é loucura.
Olhe isso aqui!
Ácido hidroclorídrico misturado com ácido tartárico.
De verdade, espero que ele saiba o que está fazendo.
As moléculas começam a se mexer aqui.
Estou começando a achar
que eu e minha equipe deveríamos ir embora.
Químicos de narcóticos ilegais
se matam acidentalmente o tempo todo.
Isso é uma loucura.
Espere, ainda não está pronto. Deixe-me terminar.
Vocês sabem o que estão fazendo, né?
O produto está bom agora.
Então, agora já podemos adicioná-lo.
Eu estou no interior de Sinaloa,
não posso falar onde exatamente,
em um laboratório clandestino com um químico do cartel
que está aperfeiçoando seu último carregamento de fentanil.
Você gostava de química na escola?
Sou um engenheiro bioquímico.
Era engenheiro bioquímico?
Por isso você entende bem.
Acontece que ele é tipo um Walter White mexicano.
Ele tem um negócio legítimo durante o dia,
mas, nos últimos quatro anos,
ele tem feito um bico para o cartel de Sinaloa.
Então isso é fentanil puro que será misturado com o resto?
É a galinha que bota ovos de ouro para fazer M-30.
Porque, com essa pequena porção, podemos fazer até 400 pílulas.
Assim que a massa seca
e a sala fica livre das fumaças letais,
disseram que tudo bem tirarmos as máscaras.
Esta é a substância crua,
a base das pílulas M-30.
Agora que os ingredientes químicos estão equilibrados,
é hora de criar as pílulas M-30 falsas.
Cada uma é feita para imitar a aparência de oxicodona,
o analgésico mais popular dos Estados Unidos.
Então, o que fazemos aqui é cloná-las.
Isso se faz manualmente.
Temos que pensar que esse produto precisa ser ingerido.
Se eu deixar no estado puro,
provavelmente a pessoa vai ficar tão drogada
que ela corre o risco de paralisia, esquizofrenia...
E isso seria uma loucura.
Se a pessoa não está mais lúcida,
ela não é mais um possível cliente.
Então, para evitar que haja uma explosão,
ou um dano colateral no cérebro,
nós vamos adicionar anestésico.
Nós vamos colocar, neste caso, lidocaína para cavalo.
Os chefes se preocupam
para que a pílula tenha esse efeito
para que você queira mais, para você consumir mais depois.
Talvez, mas não é o que vejo nas ruas dos Estados Unidos.
Você sabia que o que faz
está matando milhares de pessoas nos EUA?
Quando eu faço e envio um produto,
meu selo garante que nada vai acontecer.
Mas como você pode saber?
No meu processo,
as M-30 têm um selo do nosso cartel.
Então, se aquilo matar alguém, é porque alteraram a pílula.
Está claro que nada vai impedir o processo esta noite,
e tudo o que resta é transformar a massa em pílulas.
O químico disse que ele ganha 100 dólares
por cada 20 mil pílulas,
ou seja, em uma noite normal,
ele pode ganhar milhares de dólares.
Eu tenho que terminar o processo nesta madrugada
para enviá-las.
Então, todo o fentanil e as drogas que você faz aqui
vão para os EUA?
Só para os EUA. Não fica nada no México.
Uma sensação de medo me segue até o norte.
Em breve, as pílulas vão achar o caminho
para as mãos de usuários americanos,
e sabemos o que vai acontecer.
Ai, meu Deus. Olá.
Andie, Andie.
Mas, por aqui, entre os narcotraficantes do México,
o fentanil não é um opioide letal,
é uma oportunidade.
A heroína já era.
A maconha já era.
Um trabalho decente não dá dinheiro suficiente.
A energia e água estão caras.
A comida está muito cara.
E o fentanil paga tudo isso?
Isso mesmo.
A verdade crua é que o fentanil apoia uma economia do submundo
incrivelmente lucrativa.
Isso equivale a trabalhos
para contadores, carregadores e químicos do cartel.
E para os que assumem
um dos papéis mais perigosos do processo:
preparar as drogas
para a travessia final até os Estados Unidos.
Ao sul da fronteira com os EUA,
eu recebi acesso para filmar com os chamados "empacotadores".
Mas temos que ser rápidos.
Eles vão contrabandear outra carga de fentanil esta noite.
Eles nos mandaram o endereço.
Parece que fica a 11 km da fronteira com os EUA.
Pelo jeito, entramos na parte mais perigosa da cidade.
Vamos ser discretos.
É aqui. Chegamos.
Posso entrar?
Por favor.
A gente não recebe muitas visitas aqui.
Na verdade, eles proibiram que ficasse muita gente aqui.
Fazem muito patrulhamento nesta área.
Polícia estadual, polícia federal, soldados...
Eles estão tensos, por um bom motivo.
Nesse momento, eles estão com cinco quilos de fentanil.
Isso vale milhões de dólares nas ruas dos Estados Unidos.
Não podemos ficar com isso por muito tempo.
Por quê?
Porque muita gente aqui está arriscando sua vida.
Eles contaram que tem polícia e concorrentes
por todo lado no México,
muitos dispostos a matar para dominar o mercado de fentanil.
Quando compro tudo isso,
eu não posso comprar tudo no mesmo lugar.
Para não levantar suspeita.
Usando ingredientes comuns em qualquer casa,
os empacotadores tornarão cinco quilos de fentanil
invisíveis aos olhos da lei.
E estou prestes a ver como isso é feito.
Estou 11 km ao sul da fronteira com os EUA,
e vou ver como o cartel de Sinaloa
contrabandeia cinco quilos de fentanil para os EUA.
Apesar da liberação que eu recebi,
os empacotadores preparando o transporte estão ansiosos.
Está ansioso, né? Você quer terminar.
Então, ele está falando,
e posso ver que ele está ficando nervoso.
Falou para ele ir logo,
porque a pessoa que vai atravessar a fronteira
está chegando,
e ele quer garantir que vai tirar tudo isso desta casa
o quanto antes.
Vamos dar início ao primeiro passo.
Tem cachorros na alfândega, nos pontos de checagem.
Ele está passando café em volta agora.
Isso é para tirar o cheiro.
O cachorro vai se confundir.
Estou vendo um jogo sombrio de gato e rato.
Em menos de uma hora,
as drogas irão para a fronteira mais frequentemente cruzada
e uma das mais vigiadas do mundo.
Ano passado,
a Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA
apreendeu mais de uma tonelada de fentanil.
Mesmo assim, os empacotadores tentam enganar
milhares de agentes altamente treinados
e bilhões de dólares de tecnologia de vigilância
simplesmente com engenhosidade caseira.
Ele tem mais produtos aqui. Tem mostarda. Ele tem...
O que é isso?
Amaciante.
Amaciante. Amaciante de roupa.
Tudo isso é para evitar qualquer tipo de cheiro.
Que loucura.
Café, amaciante e mostarda.
Não tem como descrever esse cheiro.
Mas uma coisa que não sinto o cheiro
é de droga.
Camada após camada,
cada uma pode ser a diferença entre fracasso e lucro.
Mas cachorros não são a única preocupação.
Este papel vai evitar os raios X.
Agora, eles podem disfarçar o cheiro para os cachorros
e, para as máquinas de raio X,
eles põem esse papel carbono em volta.
E você vai cobrir tudo?
Os empacotadores falam que vão ganhar dois mil dólares
pelo trabalho de hoje,
400 dólares por pacote.
E, como todos que conheci nessa viagem,
eles fazem o trabalho
e passam a droga para a próxima fase da cadeia de fornecimento.
É uma das meninas, não acontece nada.
A "menina" de quem ele falou é a motorista dessa noite.
No mundo das drogas, ela é chamada de mula,
mas vou chamá-la de Beatriz.
Para onde você vai essa noite?
Vou para Los Angeles.
E como você faz para passar?
Com meu passaporte dos Estados Unidos.
Você é estadunidense?
Sim.
E você nunca teve problemas?
Não.
Como sou estadunidense e dirijo um carro de lá,
eles não fazem perguntas.
A Beatriz conta que ela faz isso há um ano
e ganha três mil dólares por travessia.
Por que faz isso? Por que se arrisca?
Aos 17 anos,
comecei a ver as necessidades da minha família.
Fizeram a oferta e eu aceitei.
Você tem família?
Eu estou grávida.
Sério?
De quantos meses?
Mais ou menos um mês.
E isso não te deixa mais preocupada?
Saber que você está grávida?
Não.
Veem que você está grávida, que você é mulher.
É mais fácil.
Você sabe o que está transportando?
Sim.
E o que é?
É cocaína.
Não?
Você não faz ideia do que está transportando?
Não sei mais.
Eu só transporto o que me mandam.
Depois que terminamos de conversar,
a Beatriz me deixou segui-la pela fronteira.
O carro estacionado é onde todas as drogas estão guardadas,
todas prontas para ir para os Estados Unidos.
Acho que ela já vai sair.
Nos EUA, condenações por tráfico de fentanil
aumentaram quase 5.000%
nos últimos seis anos.
E os que são pegos,
quase sempre, são condenados à prisão.
Agora, a Beatriz está com cinco quilos da droga
escondidos no porta-malas dela.
Aonde ela vai?
Tem algum problema.
Ai, meu Deus.
A polícia está atrás dela, não estou brincando.
Não é?
É.
Meu Deus. O que fazemos?
É melhor não chegarmos perto.
Temos que ver qual é o plano agora.
Nós a seguimos por uns 10 segundos
e, de repente, um carro da polícia apareceu do nada.
O que é isso? O que aconteceu?
A três quilômetros ao sul da fronteira com os EUA,
a mula que eu estava seguindo
é parada pela polícia.
No porta-malas, tem cinco quilos de fentanil
que valem milhões de dólares nas ruas.
Ela foi parada pela polícia ali.
Imaginei que a Beatriz tinha sido pega,
mas a polícia não chegou a abrir o porta-malas.
E, minutos depois, ela foi liberada.
Eu a encontrei mais à frente, na estrada.
O que aconteceu?
Eles pediram minha carteira,
meu documento e se a caminhonete era minha.
- Vai atravessar hoje? - Não. Acho que não consigo.
Não.
Não dá.
A Beatriz ficou abalada,
então ela decidiu esperar uma noite.
Mas, no dia seguinte, ela sai novamente.
E eu não estou muito atrás.
Ela deve estar supernervosa, né?
Ela está levando cinco quilos de fentanil.
É uma sensação muito estranha,
porque, por um lado, nós a conhecemos,
não queremos que ela seja presa
e estou preocupada com ela.
Mas, por outro lado,
ela tem um carro cheio de drogas que podem matar muitos nos EUA.
É complicado.
Sei que Beatriz precisa cuidar da família que está aumentando,
mas em todos esses anos noticiando a crise de opioides,
são dos pais que perderam seus filhos e filhas
para overdose que eu mais me lembro.
Mamãe! Vamos!
Mamãe, vamos!
E não posso deixar de pensar o que eles achariam
de eu estar vendo a Beatriz transportando
um carregamento letal pela fronteira.
Mas é assim que a maioria das drogas
é contrabandeada para os EUA, de acordo com o DEA,
através de portos de entrada legais na fronteira sudoeste,
escondida em veículos de passageiros
ou em caminhões de carga.
E eu estou aqui para testemunhar isso.
Ela foi parada e está sendo revistada agora.
Vamos colocar as câmeras no chão.
Ontem à noite,
eu vi os empacotadores envolverem a carga com café,
mostarda e amaciante de roupa,
para que ela não fosse detectada pelos cachorros farejadores.
As unidades caninas se aproximam,
e vou ver se o método deles funciona de verdade.
Estão abrindo o porta-malas.
Estão olhando embaixo do capô.
É um momento muito desconfortável.
E, então, quando tenho certeza de que ela foi pega...
Meu Deus!
Estão deixando-a passar.
É, ela está entrando no carro e saindo.
Não posso acreditar.
Eles deixaram-na passar, não acredito.
Beatriz aceita se encontrar conosco
uns quilômetros ao norte da fronteira.
Vou falar com ela rapidamente. Ela está ali.
Então...
Eu não estou acreditando no que aconteceu,
que não teve problema.
Eu pensei: "Com certeza, vão encontrar e ela vai...".
Assim que eles trouxeram os cachorros,
eu pensei: "Já era".
Apesar de atravessar a fronteira ter sido estressante,
a Beatriz me diz que ela acha que nunca vai ser presa.
Meu chefe disse que, se acontecer alguma coisa,
eu posso contar com ele.
Como ele conhece umas pessoas da polícia,
é mais fácil de me liberarem.
Por isso, eu vou mais confiante.
A polícia de onde?
- Dos EUA ou México? - Dos EUA.
E do México.
Dos dois.
Apesar de não ter como eu confirmar isso,
já foi documentado
que parte da estratégia do cartel de Sinaloa
é se infiltrar e corromper agentes fronteiriços dos EUA
com subornos lucrativos.
Manter a calma e ter confiança sempre.
E lá vai ela, com cinco quilos de fentanil.
Quando pedimos um comentário da CBP, eles disseram:
"A Alfândega e Proteção de Fronteiras
apreendeu mais de 340.000 quilos de narcóticos ilegais em 2019.
Nossos agentes continuam implacáveis
e sempre trabalham
para ficar um passo à frente dos cartéis".
Mas com tanta demanda por drogas
e com tanto dinheiro para se ganhar,
é uma tarefa difícil.
Em anos recentes,
aconteceram quase 200 mortes por overdose nos Estados Unidos
todo santo dia.
E fentanil é a principal causa.
Estou ansiosa para seguir essa estrada até o fim,
para expor como é fácil para esses traficantes.
Mas também estou ciente de que esse carregamento
pode acabar matando alguém.
Acabaram de mandar esse endereço,
ao lado da rodovia 710 aqui de Los Angeles.
Fica no fim de uma rua sem saída.
E eu acho que...
Acho que aquela é a nossa mulher,
com as drogas dentro do carro dela.
Tem um cara com uma jaqueta laranja e uma máscara.
Parece que eles estão fazendo a transação,
bem ao ar livre.
O homem mascarado diz que eles são nativos de Los Angeles,
cidadãos estadunidenses
que trabalham para o cartel de Sinaloa.
Mas, como os outros que conheci,
eles focam no trabalho e não fazem perguntas.
- Sabe o que tem nos pacotes? - Eu não sei.
- E não se importa com o que é? - Não.
Contanto que me dê dinheiro, vou continuar fazendo.
Pode dizer mais ou menos para onde vão?
Oklahoma, Texas, Atlanta.
Essa é uma das principais áreas de distribuição.
O risco de ser pego é grande.
Assim que pegamos, temos que distribuir bem rápido.
É como uma batata-quente,
da qual querem se livrar o mais rápido possível.
Mas foi incrível. Você viu.
Ela chegou e, em menos de 10 minutos,
eles pegaram as drogas do carro dela,
passaram para o carro deles e foram embora.
Eles fazem isso a cada duas semanas,
o que é uma loucura.
Já chegaram no local?
Isso mesmo. Chegamos.
Fique comigo. Fique comigo!
Vou fazer a aplicação de Narcan.
Nunca tantas pessoas
ficaram viciadas em um narcótico tão letal.
Nunca a necessidade por soluções foi mais urgente.
Eu me preocupo que a cadeia de fornecimento de fentanil
seja grande demais para falhar.
Muitas pessoas se beneficiam,
e eu conheci muitas delas na minha jornada,
desde empresas químicas da Ásia até os químicos do cartel.
Os EUA terão que achar um jeito de diminuir a demanda,
porque os fornecedores sempre vão achar uma forma mais rápida
e mais lucrativa
de entregar as mercadorias.
Viu o que podemos fazer em apenas um quarto.
Imagine se não tivéssemos que comprar da China.
Na verdade, me falaram que os cartéis
começaram a fazer exatamente isso,
eliminando os fornecedores asiáticos.
Não posso dizer como é o processo,
mas essa substância já é produzida no México.
Se isso for verdade, o pior ainda pode estar por vir
para a epidemia de opioides dos EUA.
Ano passado, 30 mil morreram por fentanil.
Nós estamos cientes disso,
mas a família é mais importante.
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