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VENCEDORA DO URSO DE PRATA DE MELHOR ATRIZ
NO FESTIVAL DE CINEMA DE BERLIM, EM 1991
AMANTES
MADRI, ANOS 50
O que Paco te disse?
-Paco, tenho um recado para voc�. -O que �?
Venha conosco e Trini ao passeio de bicicleta.
Outra hora.
Agora...
Descansar, descansar.
-Bom dia, Paco. -Bom dia, senhora.
Amanh� deve se apresentar mais cedo. Acompanhar� minha mulher � esta��o.
Diga aos seus amigos.
Aos seus servi�os, comandante.
-Que passeio de bicicleta? -Voc� prometeu aos meninos.
-Estarei em servi�o. -J� estamos indo.
-Est� livre, n�o? N�o tive sa�da. -Est� bem. N�o se preocupe.
Paco, Paquito, comporte-se bem e comprarei um doce para voc�.
-E o que fazia no vilarejo? -Trabalhava no campo.
-Com as ovelhas? -Algu�m tinha que fazer isso.
-Eu achei que queria ir comigo. -E voc� aonde ir�? Pastar?
-Onde est�o os meninos? -Por a�.
Se vai ficar em Madri, agora ter� que fazer.
-H� muitos que queriam fazer. -Se um n�o quer.
Eu tamb�m n�o entendo.
Estes trabalhadores do vilarejo pareciam ter muita vontade.
Voc� tem que trabalhar de agora em adiante.
Mas em uma f�brica de charutos? Por melhor que seja...
Eu trabalho desde os quatorze anos e n�o vou t�o mal.
J� tenho guardado mais de 9 mil pesetas.
Est� bem. Trabalharei em qualquer lugar. Nada nos faltar�.
Farei por n�s dois. Vamos ver se seguimos adiante.
-Ei, voc�s. Pensem um pouco em n�s. -� hora de comer.
Comprem uns amendoins, pelo menos.
-Amendoins e mais alguma coisa. -Venha, Paco. Um dia de cada vez.
E algo para beber.
Para mim, � como um outro qualquer. Minha fam�lia, todo mundo.
-Balas de leite. -E suco.
Amendoim para todos.
-Onde vai comer? -N�o sei. Eu me viro.
Quando chegar, alugue um quarto.
-Fica perto do bairro? -Sim, fica.
E que seja limpa. A roupa pode trazer uma vez por semana que eu dou um jeito.
-Vir� est� tarde? -Claro, querida.
Que bom.
-At� mais tarde. -At�.
Com licen�a, gostaria de alugar um quarto.
� aqui?
-Gostou? -N�o sei se � para mim.
Por qu�?
-Quanto custa? -60 pesetas por semana.
-Quer adiantado? -Sim, � o costume.
O caf� da manh� est� incluso.
Ter� que prepar�-lo porque n�o estarei em casa.
-Quanto tempo vai ficar? -Ainda n�o sei.
-Se precisar de algo, � s� chamar. -Obrigado.
-Tem filho? -Se tivesse, j� teria visto.
-Passei a tarde dormindo. -Essa � a sua tarefa? Dormir?
Tamb�m pensei em voc�.
E que pensou? Se posso saber...
-Que... -Que... N�o lembra mais?
Deve ter sido algo insignificante.
Est� certo. Deixe de ser tonto.
N�o quer que eu conte o que pensei sobre voc�?
Alguma sacanagem, com certeza.
-N�o quer que diga no seu ouvido? -N�o.
-Vem, eu digo. -Disse que n�o.
Aos seus servi�os, comandante.
Tudo bem, Paco, tudo bem.
-O seu turno j� terminou. -Boa noite, comandante.
Voc� tem um saca-rolhas?
Sim, senhor. Vou pegar agora mesmo.
Pois bem.
-J� encontrou um trabalho? -Ainda n�o, comandante.
E o que espera? Est�o construindo um bairro e precisam de pe�es.
� o que estava escrito em um cartaz bem grande.
Meu cunhado tem um f�brica de tijolos.
Se chama Vazquez, Arturo Vazquez.
Procure-o e diga que eu o indiquei. E pe�a que me ligue.
Farei isso, comandante.
Lembre-se o que eu sempre disse...
-s� h� uma porta, a do trabalho. -Sim, comandante.
Bom, vou embora.
-Continuem o que faziam. -Boa noite, comandante.
Pois bem. Meu comandante me quer trabalhando.
� um bom conselho.
Em vez de passar a tarde pensando besteira, j� sabe o que fazer.
N�o era besteira. N�o sabe o que era, querida.
Digo no seu ouvido.
Besteiras!
N�o vai comer?
Fique aqui um pouco.
-Como est�? -Bem.
-O que fazia em seu vilarejo? -Ajudava meus pais no campo.
Acho que isso n�o � para voc�.
N�o mesmo, n�o �?
-Onde devo ir? -Na casinha, onde fica o administrador.
Madri, informa��es. Informa��es, Madri. Pessoal.
Ei, menino.
Madri, informa��es. Informa��es, Madri. Pessoal.
-Ol�, Maria. -Ol�, Paco.
Madri, informa��es. Informa��es, Madri.
-Est� procurando a srta. Luisa? -Esqueci a chave.
-Ela n�o est� a essa hora. -Terei que esperar.
-Paci�ncia. -Boa tarde.
-Trini? -Trini, n�o. Me chamo Luisa.
N�o vai ligar de dormir na sua cama, n�o �?
Esqueci a chave.
Quando acontecer isso, h� outra no bar.
N�o acontecer� de novo.
Boa noite.
Boa noite.
Quer algo para beber?
-N�o se preocupe comigo. -N�o, eu tamb�m tomarei.
Sente-se.
As �ltimas.
-O que disse? -As ta�as.
Eu tinha seis, agora s� sobram estas.
Nem ta�as, nem conhaque, nem nada.
Pode ser licor de anis?
-� um pouco doce. -Eu sei, mas � s� o que tem.
Sou eu.
J� reconheceu?
Minha namorada se chama Trini. � por isso?
N�o, � porque parece que est� no mundo da lua.
-N�o queria voltar. -Percebi.
Quer algum doce?
-N�o, obrigado. -N�o deve ter comido nada.
-N�o tenho vontade -Anime-se!
Eu tenho um pouco de experi�ncia com dias ruins.
Acabam ficando bons, se voc� quiser.
-�? -�.
Como?
Fa�o alguma loucura que normalmente n�o faria.
E que loucura eu poderia fazer?
Poder�amos faz�-lajuntos.
Para a gaveta, Pepito.
O que voc� trouxe para dentro desta casa?
Vire-se.
Me d�.
Mas como � lento.
O que tem para comer hoje, Trini?
Cozido, senhora. Como todas as quintas.
Quintas? Como os dias passam...
Se um dia resolver trocar o card�pio, n�o saberei que dia �.
Esta minha cabe�a. J� tomei duas aspirinas.
Dona Alvira, posso pedir um conselho?
Claro.
Faz uma semana que n�o tenho not�cias de Paco.
O que devo fazer?
-Tiveram alguma briga? -N�o. Sim, mas de pouca import�ncia.
Se fosse sua irm�, falaria para procurar em hospitais.
Mas � um homem. Um homem jovem e bonito.
Logo amanhecer�.
Luisa?
-O que est� fazendo? -N�o vou dizer.
Tenho que resolver um assunto.
N�o vai me deixar sozinho.
Voc� tem que preparar algo para comer.
Hoje n�o. Prometa que n�o vai me deixar sozinho.
Prometa.
Prometo.
N�o, Paco. Agora n�o.
Por que n�o? Vamos quebrar a rotina.
N�o pode ser agora. N�o podemos.
Est�o me esperando.
Para. Me solte.
-Quem voc� espera? -Neg�cios. Um bom neg�cio.
-Para mim tamb�m? -Sim.
Que neg�cio?
Tem muito dinheiro para ganhar. E voc� vai me ajudar.
-Eu? -Sim, voc�.
N�o se preocupe comigo. Pe�o para me apresentarem.
De qual voc� gosta?
-De quem s�o estes ternos? -Eram de meu marido.
De qual voc� gosta?
Do verde.
N�o.
O azul fica melhor em voc�.
-Quanto voc� quer? -Cinco pesetas.
-N�o tem trocado? -Deixe-me ver.
-Obrigada. -At� mais.
Coloque dois selos.
Como est� Dona Ana?
-Melhor, amanh� tirar� os pontos. -Diga que Francisca perguntou.
-E que mandei melhoras. -Direi.
-At� mais. -At�.
Luisa?
S�o duas horas. J� pode fechar.
-Tudo certo? -Sim.
Tem algumas palavras que n�o entendo. Deve ser culpa minha.
-Como o qu�? -Por exemplo...
-O que quer dizer ab intestato? -� latim. Quer dizer que...
se o morto n�o deixou testamento, o bem fica com o atual propriet�rio.
N�o se preocupe. N�o � o �nico que n�o sabe latim.
Essas coisas aparecem em todos contratos.
-Tudo certo? -Acho que sim.
Ent�o, assinamos e assunto encerrado. Trouxe o dinheiro?
Bom, agora as testemunhas.
-Para que tem tantos amigos? -N�o ficou claro?
O Magro � amigo do Gordo. Chamam ele assim porque j� foi gordo.
O outro � o Minuta, que faz a conta dos honor�rios.
-Pegue sua parte. -A minha?
Mas n�o fiz nada.
Quando estivermos na pior, n�o vai pensar o mesmo.
Nem falar.
Para falar a verdade, estou h� anos neste neg�cio.
Nunca aconteceu nada.
E sabe, faz tanto tempo que nem lembro como consegui.
Mas voc� viu. A chave est� naqueles que est�o no hospital.
Me faz rir pensar na cara do povo quando pegamos tudo.
Para mim, d� pena.
Pegar um dinheiro que nem � seu.
Pois agora ele � seu e vamos aproveit�-lo.
Diga que me ama.
Te amo.
Agora diga a ele que tamb�m me diga.
Voc� me deixa louca.
Vamos, que eu tamb�m j� n�o estou aguentando.
-Voc�. -N�o, voc�.
Fico sem sa�da e todos caminhos me levam a voc�.
E eu me sinto sua, s� sua.
Em suas m�os.
Meu amor, meu carinho, me prenda.
Quero que me diga de uma vez por todas com quem passar� a noite de Natal.
-Diga. -Como todos os anos.
Ter� que ir de gravata.
Ol�, Paco. � o Paco, m�e.
-Conte como foi l�, Paco. -Depois eu te conto.
Ol�, Paco. Trini est� preparando algo especial para a noite de Natal.
-Sabe que rei � este? -Claro. Baltazar, o negro.
Meninos, as malas.
-Ol�, Paco. Tudo bem? -Ol�, Paco. Como est�?
-Bem, comandante. -Est� abrindo caminho em Madri?
Pouco a pouco.
-E o que faz agora? -Deixei a obra.
Agora trabalho em uma f�brica de p�o.
Estou ajudando a vender e me divirto.
Que bom que n�o � chato.
V�o viajar?
Vamos passar uns dias com meus pais.
Talvez seja a �ltima vez, j� est�o muito velhos.
-Trini, Trini. -Trini, Trini.
-Trini. -Trini.
Achei que tinham esquecido de mim.
-Trini, feliz P�scoa. At� a volta. -At� mais, Trini.
-At� mais, Paco. -Feliz P�scoa.
-Boa sorte, Paco. -Obrigado, comandante.
-Comporte-se bem. -At� mais tarde, Paco.
-Voc� tamb�m, Paco. -Quieto.
-Como est�? -Estou feliz.
-� isso que quero, que fique feliz. -Claro, por isso desaparece.
Para me deixar feliz.
-Pensei que estava morto. -Exagerada.
Sim, exagerada.
Deixei meu trabalho. N�o queria aparecer sem ter nada.
-J� encontrou algo? -Uma f�brica de p�o.
Sou eu que os vendo. Por 12 horas, todos os dias.
-Por que n�o foi com eles? -Eu n�o quis.
Quer sair? Onde quer que eu te leve?
Estamos sozinhos em casa. E � noite de Natal.
� assim que comem os comandantes todos os dias?
N�o, nem na noite de Natal. Parecem arrogantes, mas n�o s�o.
Temos um card�pio para cada dia da semana.
Costela s� aos s�bados, peixe �s sextas.
Este fui eu que comprei, com meu dinheiro.
-Sabia que eu vinha hoje? -Mais um dia sem vir, nunca mais.
-Est� bom? -Maravilhoso.
-Quando morarmos juntos, ser� assim. -Todos os dias?
Quase todos os dias.
Como trar� dinheiro para casa, poderei cuidar de voc�.
� o que sempre quis.
-E se um dia eu ficar sem emprego? -Ent�o trabalharei para voc�.
Isso � verdade?
Nada faltar�.
Nada faltar� porque ter� tempo de cuidar dos neg�cios.
Trabalhar� e eu cuidarei de voc�.
-Est� louca. -Prometo.
N�o prometa.
-Pode deixar que eu te darei seguran�a. -Pode ser uma lojinha.
Mas para voc�, seria melhor um bar ou algo assim. O que preferir.
Vamos ver, tem muito por vir ainda.
-Para voc�. -Que absurdo!
-� do comandante? -De quem mais?
-Se ele souber, fuzila voc�. -Na verdade, voc�.
Que ele n�o perceba.
Amanh� mesmo comprarei outro.
Trini, venha aqui.
Venha.
Me d� um beijo.
Vamos para a cama do comandante?
Ficou louco?
Vamos arrumar as coisas e ir embora.
Luisa?
Luisa?
-O que fez? -Estou b�bada.
Por qu�? O que aconteceu?
Porque sou uma idiota. � noite de Natal e estou pensando...
em algu�m que acabo de conhecer. E que estava com outra.
Pensei em voc�.
Pensou em mim enquanto tocava os seios dela?
-De quem? -De quem ser�? Da outra.
-Quer que te pegue assim? -V� se lavar antes.
-Aonde vai? -Vou me deitar.
Estava na cama com ela? Sim ou n�o?
N�o.
Nunca dormi com ela.
-� virgem? -Sim, � virgem.
Isso te deixa louco, como a todos, n�o?
Antes de conhecer voc�, talvez. Agora quando penso, vejo seu corpo.
E ela n�o entra em meus pensamentos.
Me d� um beijo.
Pensei em voc� mais de mil vezes. Mais de mil vezes.
Vamos para a cama.
-Ainda d� tempo de ir ao cinema. -No cinema de novo?
Como de novo? Nem se lembra do �ltimo filme que vimos.
'Os Homens Preferem as Loiras.'
-N�o est� mais em cartaz. -Esta tarde est� boa para uma cerveja.
-Boa tarde. -Boa tarde.
Esta � minha namorada, Trini.
E esta � a Sra. Luisa, a caseira.
-Prazer. -O prazer � meu.
-Quer tomar algo conosco? -N�o, obrigada. Estou com pressa.
Boa tarde.
Paco...
N�o me chame por Sra.. Temos confian�a, ou n�o?
-O que v�o querer? -Uma cerveja.
-E voc�, senhorita? -Nada, n�o quero nada.
Pegue algo, querida.
-O que aconteceu? -Esta � a vi�va triste que me disse?
Ela mesma. Tem seu m�rito. Seu marido tinha de tudo.
E agora tem que viver sozinha.
Isso � o que mais me irrita. Pensa que sou idiota.
N�o viu como te olhava? Que n�o sabia o que fazer?
N�o viu como saiu correndo como a cachorra que deve ser?
Est� imaginando coisas, Trini.
Eu sei muito bem. E voc�? Ficou p�lido.
-Quero voltar para casa. -Deixe-me terminar a cerveja.
-J� est� calma? -Ficarei se me jurar que...
hoje mesmo arranjar� outra caseira.
-Outra que vai zombar de mim. -Essa que vai zombar de voc�. Essa!
Trini!
N�o tem sobremesa. Somente uns biscoitinhos.
N�o me importo. N�o me faz falta.
O que foi que disse a ela? Pela sua cara, n�o foi muito.
-Essa cara de mosca morta. -Vai come�ar de novo?
Pensa que gosto de ver voc� por a� com uma faxineira?
N�o fale assim dela. Ela � minha namorada e pronto.
-J� sabia. -N�o, n�o sabia.
Bom, agora j� sabe.
Est� bem, agora eu sei.
-Quando voc� casa? -Quando arranjar um emprego.
-Ent�o, caso. -J� dormiu com ela?
Eu s� durmo com voc�.
-N�o se preocupe. -Eu espero.
Voc� gostaria de ter dormido, n�o?
Ent�o preste aten��o!
� bom que n�o pense nela assim e n�o a fa�a abrir as pernas.
E n�o ria.
-Como quer eu reaja? -Calado!
Venha para a cama. Disse para vir para a cama.
E explique a ela como deve fazer.
Espere. N�o gosto assim.
Elvira? Elvira?
-O que aconteceu? -Nada. O que voc� quer?
-Onde est� minha roupa � paisana? -No quarto de passar roupas.
-E meu casaco? -Est� no lugar.
N�o seja crian�a. Vamos resolver isso.
Vamos ver. O que aconteceu com Paco?
Est� dormindo com outra.
Certo, est� dormindo com esta mulher. N�o chore.
N�o encontrar� um homem que n�o durma com outra alguma vez.
-Caf�. -Vista logo.
N�o podemos fazer nada agora.
Saia, saia.
Olhe, vamos fazer com que Paco volte.
E que volte mansinho, comendo em sua m�o.
Direi o que fazer.
Mas antes tenho uma pergunta e voc� tem que ser sincera.
Bem sincera, viu?
-J� dormiu com Paco? -N�o, senhora. Nunca.
-E acredito que com ningu�m. -N�o, senhora. Nunca.
Ser� mais f�cil do que eu pensava.
Primeiro, deve saber exatamente o que est� acontecendo.
Porque voc� s� tem suspeitas, por enquanto.
Sim, suspeitas. Queria que tivesse visto um diante do outro.
-Eu tenho certeza. -Est� bem, est� bem.
Ent�o vamos atacar de frente, como diria meu comandante.
Porque isto ser� uma guerra.
-N�o se importa de esperar? -N�o, se n�o se importar tamb�m.
PRE�O DA VIAGEM
Cobre, por favor.
Posso entrar? J� sei que ela n�o est�.
-N�o trabalha hoje? -Estou no turno da noite.
-E isto? -Voc� n�o gosta?
-Onde voc� dorme? -Ali.
-Voc� que faz a cama? -Sim, quem mais?
N�o acredito.
Trini, n�o estou apaixonado por esta mulher.
Eu tamb�m posso te dar tudo.
Tem medo que ela volte?
Ela que espere.
Pelo menos, vamos fechar a porta.
Antonio, o de sempre.
S� uma certid�o, praticamente.
Duas, foi uma de cada pessoa.
Cada uma com quinze dias de diferen�a.
� a sua palavra contra a dele.
Eu s� cobrei uma certid�o.
Acreditamos na palavra dele.
-Por qu�? -Porque sim.
Porque conhecemos os dois.
O que querem que eu fa�a?
Retirando sua parte, s�o...
15 mil pesetas.
-A quem devo? -A ele.
Por que a ele? S� tenho contas com voc�s dois.
J� pagou nossa parte. N�o tem d�vidas.
Para saber na palavra de quem confiar.
-N�o tenho o dinheiro. -Arranje.
E voc�? Quero saber o que faz.
Quero ver quem tem as m�os limpas aqui.
Luisa, voc� sabe que h� muitas maneiras de convencer voc�.
O que est� pensando em fazer? Vai arranjar outra mulher?
Posso fazer seu rosto parecer uma ameixa enrugada.
Com outra apar�ncia, ter� que arrumar outro trabalho.
Isso. E no circo.
-Preciso de tempo. -Mas n�o muito.
-Boa noite, senhor Alfonso. -Boa noite.
-Como vai sua esposa? -Muito bem.
-Quer levar mais cinquenta? -Sim, mais cinquenta.
Amanh� te pago, Maria.
-Tem algo para me dizer? -N�o. Ele j� vai te contar.
-Voc� est� bem? -Claro.
N�o fez aqui?
-Luisa... -N�o seja dissimulado.
-Como sabia? � uma bruxa? -Ela � a bruxa.
H� dias em que queria n�o ter nascido.
O que est� acontecendo?
Namoramos h� mais de dois anos. Ela � boa comigo, veio...
-Veio se deitar com voc�. -Veio fazer as pazes.
E � o melhor a se fazer, se conformar com a situa��o.
� o melhor que pode acontecer para voc�.
Agora tem duas para se aproveitar.
Uma para os dias pares, outra para os �mpares.
Luisa, por favor...
O que voc� achava?
Achava que eu ia deixar a Trini?
Agora j� n�o consigo pensar em nada.
-Vamos para a cama. -Esta noite, n�o.
N�o ouse tocar nesta porta.
Luisa! Luisa, abra!
Luisa, queria te falar, mas n�o consegui.
Amanh� cedo vou viajar, por uns dias.
Peguei um pouco de dinheiro da caixinha. Voc� sabe que te amo.
Paco.
M�e?
M�e?
-M�e? -Minha filha!
M�e!
Olha, este � Paco, meu marido.
Nos casamos na semana passada.
Se casou? Sem avisar?
Sem dizer nada? N�o pode ser!
Voc� n�o podia ir por causa das muletas. Ningu�m.
N�o avisamos ningu�m.
Mas eu iria com as muletas, filha.
Que voc� tenha a vida que n�o tivemos.
-� este mo�o? -Sim.
Aurora! Aurora!
Venha, Maria!
Diga � sua m�e e � sua tia que venham.
O que est� acontecendo?
Venham logo. Venham aqui ver.
Aqui est�o os noivos. O que acham?
Olha que bonito.
Acho que n�o v�o querer ficar aqui com uma velha tonta.
Se quiserem descansar um pouco, aqui est�.
Est� tudo limpo, o resto voc� sabe, Trini.
A casa � de voc�s. Podem se arrumar.
Filho. Posso te chamar de filho, n�o? Estou muito feliz.
Voc� me deu uma alegria muito grande.
Que a ame e a trate bem. � isso que faz falta.
Eu tratarei.
Vamos, Paco, me ajude.
Por que n�o contou � sua m�e?
N�o sei. Mas com certeza vi em seus olhos que ficou feliz com o casamento.
Est� feliz?
Quero fazer voc� feliz e assim eu tamb�m ficarei.
Nem que sejam poucos dias.
O que est� pensando? No que o povo falar�?
O que � isso?
Minha m�e deve estar passando aqui em cima.
-E sempre foi assim? -Assim como?
Assim, manca, de muletas.
Ela se jogou na frente de um carro, faz tempo.
E por que se jogou?
Porque meu pai a tra�a com outra. Uma enfermeira que ajudava ao m�dico.
Parece coisa de fam�lia.
N�o vai se jogar na frente de um carro, n�o �?
Colocarei veneno na sua comida.
-E seu pai onde est�? -Ele morreu pouco depois.
Nesta mesma cama.
-Diga, voc� me ama? -Voc� j� sabe.
O que foi? N�o est� feliz?
Voc� acha que sou uma tonta.
Est� feliz na mesa, mas n�o na cama.
Mas eu prometo que vou aprender.
Prometo. Quer fazer outra vez? Quantas vezes voc� quiser.
Quer que eu te toque? Que te acaricie?
Te amo muito. Te amo mais que minha vida.
N�o diga isso. Parece coisa de filme.
Eu digo por que � o que sinto.
Sou sua, sua. Sua!
Chega. Pare.
Paco, me ame, por favor.
-Por favor. -Pare com isso.
Vamos fingir?
Se voc� quiser.
Trini, n�o chore. O que v�o pensar?
V�o pensar que choro de felicidade.
Sou uma infeliz, Paco. Al�m de tonta, sou louca.
Me entreguei de corpo e alma, mas voc� s� pensa nessa mulher.
S� quer voltar a v�-la.
Acalme-se, Trini.
� verdade que estou inquieto e que quero voltar.
Mas � para deixar de uma vez a casa e achar outro emprego.
-� isso que far�? -� verdade.
N�o disse antes, mas me demitiram da f�brica de p�o.
Por isso estou assim, nada mais.
-� por isso que est� triste? -Eu juro.
Logo encontrar� um emprego. E tamb�m n�o importa.
Agora tenho dinheiro. � como se fosse seu.
-Ol�, Luisa. -Ol�.
Como viu, eu voltei.
-Por quanto tempo? -N�o sei, depende de voc�.
-Fique quanto quiser. -Se quiser, eu vou embora.
Se quiser sair, que saia.
Diga que est� bem comigo, que n�o est� chateada.
S� digo 'droga'. � uma grande droga.
Suponho que n�o quer saber que preciso de voc� mais do que de ar.
Que viver sem voc� � um tormento.
N�o me importa.
N�o faz mal confirmar.
Acredita em mim ou n�o?
-Diga que sim. -Quero acreditar.
-O que aconteceu? -Ossos do of�cio.
Diga o que est� acontecendo.
Uns homens me enviaram um telegrama e entraram em casa assim, irritados.
-Quero que me conte o que h�. -N�o vou contar nada.
-Para quem est� escrevendo? -Para um amigo.
15 mil pesetas? Para que precisa de 15 mil?
Antes que diga qualquer coisa...
Pedi ao meu amigo que me ajude. Com mil ou com o que puder.
-Est� devendo dinheiro? -Antes est�vamos juntos e era �timo.
Mas sem dinheiro, eu fiquei assim.
-Para que quer este dinheiro? -Para n�o me enviarem mais telegramas.
N�o tenho que explicar nada.
-N�o quero que pe�a dinheiro a ningu�m! -Por qu�? Voc� vai me dar?
Tem esse dinheiro, n�o tem?
N�o tenho. Mas deixe comigo que arranjarei, pode ficar tranquila.
N�o � falta de confian�a. Mas precisaria de mais do que conseguiria arranjar.
-Como conseguir�? -Vai ver.
N�o estou a fim.
Luisa, abra! S� quero que me explique o que est� acontecendo.
Luisa, por favor! Est� me deixando angustiado.
-Abra! -Entre, Paco, est� aberta.
Voc� faria?
Sim, mas n�o por voc�, por mim.
Voc� guardou cada centavo e agora vai dar tudo?
N�o posso aceitar.
-Eu invento alguma coisa. -Ela � s� uma criada.
E se eu dissesse que eu preciso dele? Eu consigo.
Se quer tanto o dinheiro, pode ficar com ela.
N�o � o mesmo que sinto por voc�.
Melhor encontrar outra maneira.
E tome cuidado para n�o fazer besteira.
Saia, n�o se envolva e seja o que Deus quiser.
N�o est� claro que quero te ajudar?
Deve ter uma forma de conseguir.
-S� uma. -Qual?
Tem que estar disposto. Quer mesmo saber?
Quero que nada de mal aconte�a a voc�.
Ent�o, voc� tem que entrar comigo nessa...
ou me ter ter� sido uma ilus�o.
Escute bem, porque vale tudo neste tipo de neg�cio.
Faria qualquer coisa pelo dinheiro, ainda que n�o a gostaria morta.
Por que n�o a mata?
-E por que a mataria? -Por mim.
E se eu for preso, perderei voc� para sempre.
-Mas voc� n�o ser� preso. -N�o?
-N�o. -Mas como?
Porque eu matei meu marido e aqui estou.
Isso � uma brincadeira?
Trini?
Trini?
-O que faz aqui essa hora? -Queria ver voc�.
-Quer um caf�? -Pode ser.
Trini...
quero cumprir minha palavra, mas...
O que �?
-� por causa daquela mulher? -N�o, n�o � isso.
J� encontrou trabalho? Est� procurando?
Andei procurando, mas...
n�o sirvo para trabalhar em uma obra ou uma padaria.
Bom, o mundo n�o acaba a�.
Trini, tenho que dizer algo.
O qu�?
Tive uma ideia que resolver� todos os problemas.
Do meu trabalho e desta mulher.
N�o estava procurando emprego, mas outra coisa.
E consegui.
E o que conseguiu?
Me ofereceram um bar para comprar. � uma transa��o segura.
Assim matamos dois coelhos com uma cajadada s�.
Sa�mos de Madri e voc� consegue o neg�cio que sempre quis.
Mas este dinheiro, Trini...
-N�o sei se posso pedir. -Quanto querem?
-Muito. -Me diga quanto.
20 mil.
Eu tenho 30 mil na poupan�a.
Vamos viver como reis.
E voc� passar� a viver em uma pens�o.
Nada vai te faltar.
Mas hoje, hoje mesmo.
-Nunca � demais. -Meninos!
Um para cada.
J� chega. J� chega.
Querer � poder.
Este � o principal.
Se chama Esmeralda. O dono morreu em mar�o e sua vida mudou muito.
Aqui tenho uma carta de compromisso...
mas faltou o principal para a transa��o.
-E tem casa? -Sim, claro.
Uma sala e dois quartos no andar de cima.
-Voc� j� viu, Trini? -N�o, s� o Paco. Verei amanh�.
Mas se ele diz que vale, ent�o vale.
E j� decidiram onde v�o casar?
Quase certeza que no vilarejo de Paco, porque ele tem mais parentes.
Est�o convidados.
J� estive l� duas vezes.
Um lugar frio no inverno, mas...
voc�s v�o se dar bem por l�. Assim espero.
Agora, o que acham de um brinde aos noivos?
-A voc�s. -Que sejam felizes.
Temos que levar at� l� dentro, foi o que disse o comandante.
-Quer ajuda? -N�o precisa. Falta pouco.
A senhora me dar� um jogo de len��is bordados. Quase novo.
-E se nos roubarem? -Para isso que estou aqui.
Quero ver quem vai tentar.
O que disse a ela?
-A quem? -A quem poderia ser? Sua caseira.
Nada. Que estou indo.
-Ela, o que disse? -Ela?
Para eu ir.
�s vezes, penso que n�o tenho mais nenhuma culpa.
Assim � a vida. Cada um tem o que merece.
N�o sei, Trini. N�o quero falar sobre isso agora.
Prometa que a esquecer�.
J� esqueci.
-Aonde vai? -L� fora, fumar.
O que aconteceu?
Nada. Estou com frio. N�o estou me sentindo bem.
-Tinha que trazer isso tamb�m? -Nos far� bem.
Nos ajudar� a seguir adiante.
-Ainda est� com frio? -N�o, agora n�o.
-N�o est� quente. -Estou bem, n�o se preocupe.
Ent�o descanse um pouco.
-Vamos sair? -Voc� n�o.
Vou resolver umas coisas, voc� n�o precisa ir.
-Volta tarde? -Vou s� em um lugar.
Apoie aqui. Levante a perna.
Santificado seja o vosso nome, vem a n�s o vosso reino...
seja feita a vossa vontade...
-assim na terra como no c�u. -Assim, est� vendo?
O p�o nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai-nos as nossas ofensas...
assim como n�s perdoamos a quem nos tenha ofendido...
n�o nos deixeis cair...
Tudo bem.
Amanh� �s 11h. Querem todo o dinheiro, sem mais trapa�as.
Arranjei outra transa��o, � seguro. Ganharei o triplo que tenho que pagar.
Ningu�m notar�.
-N�o precisa. -O que n�o precisa?
Luisa, estou com o dinheiro aqui.
-Ela emprestou a voc�? -N�o, eu peguei.
Ela estava dormindo e eu peguei.
Est� louco? Com certeza, ela avisar� a pol�cia.
Eles vir�o atr�s de voc� agora.
O que tiver que ser ser�. A� tem o que precisa.
Mais do que precisa. 30 mil pesetas.
Voc� volta pra Madri e resolve seus assuntos. Eu me viro.
Voc� n�o vai se virar. Ser� preso tamb�m.
J� est� feito. Nada vai acontecer.
Com o resto, pode desaparecer por um tempo. � o melhor.
Desaparecer? Ser� melhor?
Quando nos vemos novamente?
N�o sei.
N�o posso abandonar Trini nessa situa��o. N�o consigo.
Mate-a.
-Por que fez isso? -� melhor dizer a verdade.
Ela ocupa meus pensamentos.
Quero esquec�-la, mas n�o consigo.
N�o consigo viver sem Luisa.
Todo o resto � mentira. O bar � mentira.
S� quer�amos seu dinheiro, porque ela tem d�vidas.
Eu s� amei voc�. S� voc�.
E agora descubro que a pessoa que mais amo...
e que mais preciso s� quer minha ru�na.
Tem dinheiro a�. N�o passar� fome.
Trini?
Trini?
Diga alguma coisa. Trini!
V� embora, por favor. N�o aguento mais.
N�o quero mais ver voc�. Estou muito cansada.
N�o quero viver. N�o quero viver.
Abra para eu pedir perd�o. N�o quero que sofra.
S� contei a verdade porque quero consertar as coisas.
Abra, Trini.
Estava louco...
n�o sabia o que estava fazendo.
Tudo ser� diferente de agora em diante.
Abra logo, Trini.
Abra!
-N�o chegue perto. -N�o fa�a isso, Trini.
Ficarei na sua vida, nunca te abandonarei. Prometo.
N�o acontecer� nada, Trini. N�o acontecer� nada.
Tudo voltar� a ser como antes.
Me tira daqui. Que infelicidade. Que infelicidade.
Trini?
Trini, vamos!
Vamos para outro lugar.
-Quanto tempo faz que nos conhecemos? -Dois anos.
Parecia que conhecia voc� minha vida toda...
mas n�o era verdade. Estava sonhando.
Olhe para mim...
e me d� um beijo.
Voc� n�o me ama.
-N�o � verdade, Trini. -N�o.
Nunca vou abandonar voc�.
Quebrarei minhas pernas, arrancarei meus olhos...
cortarei minhas m�os e peitos at� que eu seja uma ru�na aos seus p�s.
Para que tenha pena de Trini e isso n�o o deixe viver mais.
Para que se lembre toda a vida de quem amava voc�.
De Trini.
Que s� queria te dar carinho...
te dar filhos. Cuidar de voc�.
S� isso ficar� entre n�s a partir de agora.
� assim que voc� quer?
Diga, � assim que voc� quer?
Mate esta mulher porque Deus n�o me dar� for�as.
Do fundo de minha alma, sinto a necessidade de acabar com isso de vez.
Quero morrer, Paco...
E sei que voc� quer que eu morra.
Fa�a-o. Me mate!
Me livre deste sofrimento, por favor!
Aten��o, aten��o.
O trem expresso de Madri com destino � Santander...
j� est� liberado para embarque.
O trem partir� dentro de 3 minutos e chegar� � pr�xima esta��o em 1 minuto.
Aten��o, aten��o.
O trem estacionado na plataforma ir� partir dentro de instantes.
ESTA HIST�RIA � BASEADA EM FATOS REAIS
TR�S DIAS DEPOIS, PACO E LUISA FORAM PRESOS EM VALLADOLID
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