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A DEUSA (1958)
PARTE I RETRATO DE UMA JOVEM
Pelo amor de Deus, não se alarme, não vim passar com vocês
mais que quatro ou cinco dias.
Preparamos um quarto para você, pode ficar quanto quiser.
Lorraine vai querer comer ou beber algo.
Depois de passar 11 horas naquele ônibus, você sabe o que eu quero?
Tomar um bom uísque.
Já sabe que nesta casa não tomamos uísque.
Prepararei para você um refrigerante com gelo.
Mamãe está bem, George, manda-lhe lembranças.
Vou dar alguma coisa de comer a esta menina.
Ela parece gostar de você, Alice. Não deixa ninguém pegá-la assim.
Sim, não há dúvida, gosta de você. Pena que não tenham tido filhos.
Sei quanto desejavam tê-los.
São uma alegria e um ponto de apoio nos momentos difíceis.
Como na noite em que Herbert suicidou-se
Eu chorava, mas fui ao quarto de Ann, e me pus a contemplar
seu doce rostinho adormecido, e pude enfrentar aqueles momentos terríveis.
Queria ter ido ao funeral de Herbert, mas estava doente e...
Não imagina o que foram meus cinco anos de casamento.
Mamãe não queria que me casasse com ele. Então eu tinha muitos pretendentes.
Eu pensei que ele ia ser um homem de sucesso.
Todos diziam que era empreendedor, que chegaria a ter lavanderias
em todo o Tennessee. Um charlatão é o que ele era.
Um fracassado.
E eu disse a ele.
Era tão vulgar. Fiz mal e estou pagando por isso.
Deixou-me sozinha com uma menina de quatro anos que não pode me ajudar.
E só com 171 dólares no banco. Que desgraça.
Se pudesse, lhe daria um pouco de dinheiro, mas estamos em crise.
Não continuemos falando disso. Faz cinco anos que não nos víamos.
Estes devem ser momentos de alegria.
Eu lhe asseguro que no sei a que veio.
Diz que não quer dinheiro e que não deseja morar conosco.
- Não sei o que quer. - Mas quer algo, tenho certeza.
Não tem revistas de cinema? Só tem "O Agricultor Progressista"?
Claro que gosta muito de você. Está completamente louca por você.
Nunca até agora tinha visto gostar tanto de alguém.
Devo lhes dizer que o jantar foi maravilhoso.
George, tem uma esposa ótima!
Vamos à cozinha. Que fazemos aqui sentados?
Sempre invejei as que sabem sabem cozinhar. Eu sou um desastre.
Mas sou alegre e risonha, é meu caráter.
Sempre sorrio ante as adversidades.
- Posso ligar o rádio? - Faça o que quiser, Lorraine.
Não me lembro da última vez que fui dançar.
A verdade é que não me lembro da última vez que fiz algo.
Herbert era tão sóbrio!
Consegui preservar minha figura, você não acha?
Claro, não aparenta mais de 19 anos.
Se tenho um defeito, sou vaidosa.
Preocupava-me muito com minha aparência quando Ann nasceu,
mas como fazia exercícios todas as manhãs, tenho tudo em seu lugar.
Ainda me olham quando vou pela rua.
No ônibus, um homem sentado na minha frente, voltava-se para falar comigo.
Gostaria de voltar a me casar.
Quanto tempo acham que seria adequado esperar ainda,
pelo fato de Herbert, antes de sair a sério com outro homem?
Conheço um em Clarksville que se interessa por mim.
Não sei que mais posso fazer exceto me casar.
Não suporto estar sozinha!
Posso desligar esse rádio? Deixa-me louca!
Tente se acalmar, está muito nervosa.
Calma, Lorraine. Viveu uma experiência terrível, sente-se.
Mamãe disse que posso morar com eles em Knoxville.
Mas papai e ela moram naquele apartamento sujo de dois quartos
na rua principal, em cima da loja de alimentos!
Com certeza morreriam de vergonha se eu fosse lá.
Por outro lado, esse homem diz que está apaixonado por mim.
É muito atraente.
Um pouco mais velho, mas muito atraente.
Cinco dias depois do enterro de Herbert, pediu-me para casar com ele.
Eu disse a ele que pensaria.
Tem uma casa muito bonita. Mora com uma irmã.
Mas não gostam de crianças.
Diz que não quer uma menina de quatro anos pendurada em seu pescoço.
Pensei que, como está tão encantada com você, Alice Marie...
Não a vi gostar de ninguém como eu vi com você esta tarde.
Pensei se poderia deixá-la aqui.
Só algum tempo, até que consiga convencê-lo.
É sua própria filha.
- Sempre disse que queria crianças! - Mas não pode deixá-la assim!
Nem mesmo conosco. Você não entende?
Só tenho 26 anos!
Ainda tenho boa aparência e quero aproveitar a vida!
Não posso sustentá-la. Não tenho dinheiro.
Eu posso lhe ajudar a encontrar um emprego.
Não quero trabalhar! Não quero um emprego sujo!
- Trata-se de sua filha! - Bem, eu não a quero!
Estive 17 horas de parto quando nasceu e foi um problema desde então!
Não a queria quando nasceu e não a quero agora!
E a família de Herbert?
Não... po... a eles.
Que eu não posso ir até eles.
Também era filha dele!
Não creio que seja.
Bom, Herbert e eu nunca nos dávamos bem.
Tinha que fazer algo.
Agora terei que procurar... um emprego!
Na verdade, não era isso que procurava. Por isso tive que decidir ver a...
Que quer? Quer algo, querida?
- Eu fui aprovada. - Está bem. Vá para casa.
- Aqui tem as notas. - Depois verei. Vá para casa.
Não me incomode quando estou trabalhando.
Sylvia, fui aprovada!
No curso que vem irei para a turma da Srta. Kathlyn.
Sylvia?
Sra. Lyon, está em casa?
Há alguém em casa?
Fui aprovada, sabe?
Olá, Sr. Reins. Sra. Kingbrouhgs.
Posso falar com você um momento, Emily Ann?
Dizia-me algo, Louis?
Gostaria de ir ao cinema esta noite?
Que passam?
"Um Rosto de Mulher", com Joan Crawford e Melvyn Douglas.
Eu já vi.
- Bem, fica para outro dia. - Deixa-me muito surpreendida, Louis,
indo com James Miller e com Frank Sutton.
É um dos melhores do colégio, pertence a uma boa família.
Seu pai é médico.
Não sei o que lhe terá tido James Miller de mim,
mas eu não levaria a sério nada do que diz.
Só saí com ele uma vez e tentou todo tipo de coisas,
mas não chegou muito longe.
Então eu não acreditaria em nada do que Frank Sutton dissesse.
Que lhe disseram de mim?
- Não me disseram nada. - Não acredito.
Quero saber. Que lhe disseram?
Poderíamos ir no carro a Harlestown,
lá tem três cinemas. Haverá algum filme que não tenha visto.
Veja...
gostaria de sair com você, Louis, porque é de uma boa família,
mas eu não gosto que você escute tudo o que James Miller diz.
Já sabe onde moro.
Pode passar para me pegar às sete.
- Está bem, a essa hora! - Ouça...
pegue-me em minha casa como faria com outras garotas!
Vá de paletó e gravata!
Lavarei os pratos quando voltar.
- Este vestido eu mesma fiz. - Verdade?
Faço quase tudo para mim, como o vestido que estreei no mês passado,
quando representamos no clube "Damas do Teatro" de Kauffman.
Esteve lá? Foi um grande sucesso.
Todo mundo gostou muito.
Disseram que era a melhor peça que tinham feito no clube dramático.
Todos foram tão gentis comigo que comecei a chorar.
A Srta. Jiddish me disse "Por que está chorando?"
Eu respondi: "Não sei, porque são muito bons comigo".
E ela disse: "Deveria estar feliz esta é sua noite triunfal".
Minha mãe foi me ver.
Minha mãe é adventista do sétimo dia.
Nestes últimos anos minha mãe se tornou muito religiosa.
Suponho que não se incomodará que esteja falando tanto.
Sei que ganhei a fama de ser muito faladora.
Não se preocupe, gosto que as garotas tenham a iniciativa
na conversa.
Parece que sou muito popular,
precisamente por tomar sempre a iniciativa.
Costuma sonhar acordado? Eu faço isso com frequência.
Sonho com ir a Hollywood e ser uma estrela de cinema.
Acho que muitas garotas sonham o mesmo.
Não é que eu me considere bonita, nada disso,
mas eu ouvi que maquiadores de Hollywood
fazem que as estrelas de cinema pareçam muito mais bonitas.
Deveria ler alguma dessas revistas.
Contam as verdadeiras histórias das estrelas.
Garanto que é quase tudo maquiagem.
De qualquer modo, eu acho que...
Ann Sheridan é uma beleza autêntica. Acha o mesmo?
Sabe que Lana Turner foi descoberta aos 17 anos?
Eu sonho com isso muitas vezes.
- Nunca sonha com isso? - Não tenho esse tipo de sonhos.
Com que você sonha?
Bem, veja, sempre sonho com garotas.
Geralmente não me saio muito bem.
Quer que lhe diga uma coisa?
Seu problema é que se envergonha com facilidade.
É um rapaz muito atraente, mas não deveria ser tão tímido.
Não é que eu seja louca por você, mas fiquei muito feliz
quando me convidou para sair.
Sei que seu pai é médico,
e que muitas pessoas daqui consideram minha mãe e eu vulgares.
Sabe que antes de que meu pai morresse, morávamos no Tennessee?
E que meu pai era proprietário de uma lavanderia?
Éramos muito bem considerados.
Minha mãe tinha uma empregada negra que ia duas vezes por semana
para lavar e passar. Éramos uma das melhores famílias.
Muitas garotas desta cidade gostariam de ter meu passado.
Sei que não me convidaram ao baile nem à festa.
Não sabe como isso me doeu. Chorei por semanas.
Teria matado Thelma Doris e a mãe dela!
Supõe-se que era minha amiga e não quis me convidar à sua festa de aniversário.
Pedi mil vezes à minha mãe "Vamos embora desta cidade, por favor",
mas ela me ignorou. Ela é louca por dinheiro e guarda tudo.
Por que acha que trabalho na loja de tecidos depois das aulas?
Porque ela não me dá nem um centavo para eu comprar um vestido.
Que gênio eu tenho, verdade?
Terá que me perdoar que tenha desafogado assim com você,
mas essas coisas me afetam muito.
Não espero que compreenda a vergonha e a humilhação
que uma garota sofre quando não a convidam a uma festa de aniversário.
Claro que compreendo, Emily Ann.
A única coisa que peço é que me trate com a mesma cortesia e respeito
que as outras garotas.
Verdade que não acho que seja pedir demais, Emily Ann.
É um rapaz encantador, Louis.
Sabe que gosto muito?
Seu verdadeiro nome não é Ginger Rogers.
Chama-se Virginia McMath.
Sabe como começou no cinema?
Estava dançando em um concurso de Charleston, alguém a viu, e...
a transformou em estrela.
Pensei muito nisso, em ir a esses tipos de baile,
aprender sapateado e tudo isso.
Mas em Haggerstown não há um só lugar onde se possa aprender.
Conhece algum?
Aonde vamos, Louis?
O melhor é que ligue o carro e me leve para casa.
Louis...
Louis, solte-me!
Você faz com todos os outros, por que não comigo?
Estou morta... eu lhe asseguro.
Sei o que todo mundo pensa de mim.
Os rapazes murmuram quando entro na aula.
Tenho medo de deixá-los, só isso. Ninguém me chamaria para sair
se eu não os deixasse.
Gostaria de estar morta.
Gostaria de voltar a lhe ver, Louis.
Embora eu ache que você não queira.
Está bem.
Como quiser.
Não me importa.
Se quiser me abraçar, pode fazer.
Algum dia irei a Hollywood. Irei... Irei.
Olhe esse!
- Que bebedeira, hem? - Talvez esteja morto.
Deveríamos levá-lo a algum lugar ou pegará uma pneumonia.
Sim, vamos.
Ei, amigo.
Ei, sabe quem é? É Tower, da companhia de John Tower.
Sabe quem é? John Tower, o filho do ator de cinema.
Meu Deus, que loucura de juventude.
Dê-me uma ajuda, sim?
- Acha que estará bem? - Sarah, não ouviu?
É John Tower, o filho do ator.
Leva a chave de um hotel, o Montgomery. Vamos.
John Tower, o filho de John E. Tower!
Joey, que vamos fazer com ele?
É quase meia-noite e temos que pegar o ônibus.
Diremos ao recepcionista que chame um médico.
Sinto muito, querida, mas temos que pegar o ônibus.
- Têm que ir para casa sozinhas. - No se preocupe.
Têm certeza que sabem ir sozinhas.
Sim, claro! Vão pegar o ônibus. Eu cuidarei dele.
- Eu telefonarei, querida. - Está bem.
Sarah,
acho que é melhor que vá para casa.
Eu ficarei aqui e cuidarei dele.
Pode ir embora. Eu telefonarei para você.
Adeus.
Fora daqui. Fora!
Encontramos você jogado na rua. Na Rua Jackson.
Estava chovendo e lhe trouxemos aqui.
É realmente o filho de John Tower?
Não posso conhecer nem uma só garota sem usar essas mesmas referências.
- Sim já está bem... - Que disse?
Pensava em ficar até ter certeza que estava bem.
E como já está bem, é melhor que eu vá embora.
Sente-se, não me deixe agora.
Não tentarei nada terrível, a não ser o suicídio.
Para isso eu vim aqui, para me afogar na banheira.
Se quiser verificar, ainda está cheia.
Ontem à tarde fiquei bêbado, entrei aqui e fui tropeçando
completamente nu até a banheira.
Meti a cabeça dentro da água e quase consegui.
Mas não tenho talento para me suicidar.
No Hotel Axford de Nova York tomei 17 comprimidos para dormir.
Mas me fizeram lavagem do estômago e passei a noite na urgência.
Tentei com gás, mas só consegui cor nas bochechas.
Simplesmente, não sei fazer.
Para que você vive? Seja sincera, diga-me.
Qualquer dia estará se beijando no banco traseiro de um carro
com um rapaz da cidade. E como todas suas amigas, você também se casará.
Começará a engordar a ganhar peso e seu marido irá com...
com uma garçonete de um hotel.
Terá filhos, sofrerá com o aluguel,
sairão cabelos brancos e logo olhará para atrás e dirá "Que aconteceu?
Tudo acaba".
Seus amigos morrerão e você morrerá na melancolia
chorando amargamente atrás de umas cortinas brancas.
E finalmente será colocada em uma tumba em um caixão de madeira.
E que terá sido sua vida exceto dor e sofrimento?
Mas o que você vai saber
matuta com meias rasgadas?
Não sabe o que é a solidão.
Para você será não ter um encontro no sábado de noite
e não conhece a grande e terrível dor da desolação.
A desolação.
Estou com frio, feche a janela.
Feche!
A última vez que vi meu pai foi há seis anos.
Estava sentado na sala da casa que tem em Sherman Oaks,
jogando paciência e bebendo vinho porque é muito caro
comprar um pouco de uísque irlandês de centeio.
Estava meio escondido atrás da fina cortina branca
da fumaça do seu cigarro,
em uma casa vazia.
Vazia.
Minha mãe teve uma crise nervosa quando eu tinha 11 anos
e meu irmão, Tom, está internado há anos em um manicômio,
onde passa o dia pegando cordas imaginárias do chão.
Meu irmão mais velho Tom.
Meu pai me perguntou "Onde esteve nas últimas semanas?"
Nas últimas semanas...
Tinha estado um ano e meio na Guerra Civil Espanhola.
Eu disse a ele "Preciso de ajuda psiquiátrica, papai, estou perdido.
Às vezes tenho que me esforçar para não me jogar por uma janela.
Peço que seja bom comigo". Ele me respondeu
"Sustento um filho louco, com isso tenho o bastante".
Esse é meu pai.
Astro do cinema, teatro e rádio, admirado por todos.
Mas você não pode entender isso.
Não pode entender isso.
Não sabe o que é a solidão.
Com certeza que só chorou por...
histórias de amor da adolescência.
Eu amo você, John.
Amo muito.
Não sei o que fazer se o exército lhe transferir para outro lugar.
Creio que morrerei.
Eu lhe segurei.
Verdade, falo sério!
Gostaria que fôssemos casados.
Seria uma boa esposa.
Teríamos um bom lar.
Nunca lamentaríamos.
- Mas eu não lhe interesso, verdade? - Isso não é verdade.
Só sou alguém com quem quer passar o fim de semana,
...de quem se aproveitar. - Não é verdade.
Cada vez me faz esperar diante do hotel uma hora ou hora e meia.
E nunca sei se virá!
Os soldados passam
e me fazem piadas até eu ficar furiosa.
Por que eu faço?
E para quem? Nem sequer lhe interesso!
Choro todas as noites antes de dormir, pensando em você.
Penso no dano que lhe fizeram na vida.
E penso em lhe cuidar e em criar um lar para você.
Mas sou apenas uma garota como poderia ser outra.
Não é verdade.
É a única coisa que tenho na vida, a mais importante.
Acha que sou um conquistador que vai por aí colecionando mulheres?
É a primeira com quem falei há meses.
Às vezes me sinto tão só em minha barraca
que tenho que frear para não sair correndo para lhe chamar ao telefone.
Quem dera que fizesse isso. Quem dera.
Temo destruir a única coisa que significa algo para mim.
Isso não é verdade.
Nada me havia feito tão feliz em minha vida como o que acaba de dizer.
Sou muito pouca coisa para você.
Tenho muita vontade de lhe abraçar Johnny.
Não nos entendemos. Agora amo você e depois talvez me arrependa.
Sente paixão pela respeitabilidade e eu horror pela solidão.
O pior que nos pode acontecer é que nos casemos.
Eu lhe odiaria antes de que tirasse a maquiagem da cerimônia.
Seria uma boa esposa, John.
Teríamos um bom lar.
Eu amo você.
Que Deus lhes abençoe e proteja.
Que a luz de Deus brilhe sobre vocês
e lhes mostre sua misericórdia.
- Quero lhes agradecer por tudo. - Não há de quê.
- Você merece tudo. - Ligarei na segunda de manhã.
Não vão dormir tarde.
Obrigada pelos presentes e por tudo!
Não sei o que está acontecendo comigo!
Telefone de manhã e me diga com se sente!
- Alguém quer que lhe leve? - Adeus, mamãe!
Adeus Mamãe, até segunda!
Adeus, adeus!
Adeus!
Sou feliz!
Sou feliz!
Quero lhe agradecer por ter suportado a cerimônia,
isto é, o padre e todas as formalidades.
Sei que detesta todas essas pequenas formalidades.
Mas são importantes para mim.
Quero que saiba que eu lhe agradeço.
Bem,
acho que deveria limpar tudo isto um pouco.
Você está à vontade? Você está bem?
Estou bem.
- Em que pensa? - Em nada.
Dê-me uma chance, não me dê as costas.
Eu lhe disse que estou bem!
Tentarei que isto funcione,
mas agora deixe-me só.
Já consegui que me transfiram para uma unidade de combate.
Estou saindo na próxima terça. Espero que me matem.
Eu também espero.
Está bem, já vou. Já estou aqui. Que quer?
Que está acontecendo com você? O que aconteceu?
Cale-se.
Mamãe vai lhe dar um beijo e se calará.
Está bem? Pronto.
Que aconteceu? Já comeu!
Quer terminar a mamadeira? Eu darei.
Cale-se, vamos. Cale-se!
Aqui está.
Não quer? Vamos, só um pouco.
Cale-se!
Está molhada?
Não está molhada. Que há com você?
Cale-se!
Cale-se!
Cale-se logo. Cale-se logo. Falo sério!
Falo sério! Cale-se!
Cale-se!
Deixe-me em paz!
Meu Deus, meu Deus! Mamãe, não suporto mais!
Tenho que ir embora desta cidade! Deixarei a menina com você!
Não posso, é demais para mim! Não aguento mais, não suporto!
Só tenho 19 anos!
Tenho uma bela figura. Ainda olham para mim quando eu passo pela rua.
Quero me divertir!
E que fará com a pequena?
Eu não a quero... Não a quero!
Não queria quando nasceu e não quero agora!
PARTE II RETRATO DE UMA JOVEM
HOLLYWOOD
Olá, onde estão os outros?
Sabe que Dutch Seymour lhe chamou 10 minutos depois que você saiu?
Terei que telefonar para ele.
Hoje sai de novo na coluna de Abe Sullivan.
- Sim, eu sei. - Escute isto.
"O grande pugilista Dutch Seymour está falando sobre sinos de casamento
à estrela Rita Shaw, antes chamada Emily Ann Faulkner,
de Wicon City, Maryland". Por que terá escrito isto?
Porque ontem telefonei a Joe Glass e disse a ele: "Joe... "
Pode me trazer um refrigerante com gelo triturado?
Disse a ele: "Joe, Dutch Seymour fica me implorando para casar com ele.
Isso pode ser notícia?" E disse a ele também
"Se conseguir publicar, que saia meu nome real, Emily Ann Faulkner".
Falei com minha mãe na semana passada e me disse que ninguém acredita
que esses artigos se refiram a mim.
Sabe que minha mãe não sabia quem era Dutch? Verdade!
Disse a ela: "Mamãe, Dutch Seymour é um dos grandes do pugilismo".
- Agora bebe antes de comer? - Bebi 5 drinques antes de você chegar.
Deveria ter visto ontem à noite. Está se tornando uma alcoólica.
A mãe dela tem o coração partido.
Vou ter que mudar de apartamento, Hillary.
Não se ouve mais que gritos e discussões o dia todo.
- Com quem mora agora? - Com Sandra Shelby.
Pesava que estava com Charlene.
Sério, Dutch Seymour quer se casar com você?
Não sei o que viu em mim.
Falo sério. Só fez sete filmes,
e apenas falava em dois deles.
Embora eu deva dizer que desde que aquele artigo saiu esta manhã,
recebi quatro chamadas.
Acabo de falar com Hal Kings da Metro.
E falarei com Burt Harris dentro de meia hora.
Conheço algumas garotas que saíram com Dutch Seymour,
dizem que é muito chato.
Hillary, Dutch saiu com quase todas as garotas de Hollywood.
Mas é uma alma-perdida.
Deve ser muito duro para um homem ser uma celebridade do esporte
e depois se aposentar e não ser nada.
Sabe que viaja de um lado a outro do país dando palestras a escoteiros?
E se não passa o dia em seu quarto de hotel ligando para seus amigos.
Telefona duas vezes por dia para mim.
Creio que me casar com ele, iria bem para minha carreira.
Sim, acho que me casarei. É melhor que morar com Joanna e a mãe dela.
Vou telefonar a Dutch.
Que tal a vida de casada, Srta. Seymour?
Sra. Seymour.
Nunca fui mais feliz em minha vida.
Foi uma viagem maravilhosa.
Mas você já esteve lá há quatro ou cinco anos.
Acha que o casamento interferirá em sua carreira?
Oh, não! Ainda não pensei nisso!
Mas não creio que aconteça. Verdade?
Sabe?
Recém-chegada aqui,
ia pelos bares e deixava que os homens tentassem ligar para mim
para ter com quem falar.
Naquela época não bebia.
Sentava-me com aqueles homens até que se embebedassem
e depois ia para casa ler.
Às vezes adormecia lendo.
Vivia com um casamento grego na South Orange Drive,
e me sentia tão só como um náufrago em uma ilha deserta.
Mas nenhum daqueles homens nunca me levava para casa.
Naquela época não suportava a ideia de que ninguém me tocasse.
Estive a ponto de perder a razão.
Ei, eu também, pouco antes de nos casar.
Cuido muito bem da minha aparência. Sempre fui assim,
desde que era jovem, minha família me ensinou. Eram muito limpos.
Essa era minha marca pessoal, ser impecável.
Não sei, mas meio ano antes de nos casarmos, passei...
a não me barbear uma semana.
Deus,
alguém como eu... sem me barbear!
Nunca deixava de fazer isso, inclusive fazia duas vezes por dia
se tivesse que ir a algum lugar.
Às vezes passava dias sem sair do quarto do hotel.
Ficava sentado como um idiota com barba de três dias.
Estava ficando louco.
A que se devia isso, Dutch?
No sei!
Não fazer nada no dia todo, o homem acaba se consumindo.
Ainda sou jovem.
Não sei o que quero fazer, mas quero fazer algo.
Talvez um negócio.
Não se pode ser eternamente ex-campeão do mundo
dos pesos leves.
Que acha que eu poderia fazer?
Não sei.
Quero sair de Hollywood quanto antes.
É sério?
Aqui não estou fazendo nada. Para que nos enganar?
Gostaria que fôssemos a Saint Louis?
A Saint Louis? Que faríamos lá?
Meu pai morreu e agora meu irmão toma conta do negócio.
É empreiteiro.
Sempre me escreve para que volte e participe do negócio.
E eu também gostaria de voltar e participar.
Eu era lá muito importante.
Tinha... uma boa reputação.
Compraríamos uma casa e organizaríamos festas.
Você já conheceu meu irmão no casamento.
Gosta muito de você, verdade.
Acho que seria bonito...
e autêntico.
Não estaríamos suspensos no ar como agora.
Seria bonito, você gostaria.
Dutch,
você me ama?
Claro que sim.
Quero dizer, de verdade. Você me ama de verdade?
Claro que amo você, querida.
Então,
vamos embora. Vamos para Saint Louis!
- Inclusive tenho parentes lá! - Oh, querida!
Seremos muito felizes, você verá.
Você me ama, Dutch. Você me quer!
Quer, quer, quer.
Que se sente quando se ama alguém, Dutch?
Nunca amou ninguém, hem?
Ninguém nunca me amou.
Em muitos aspectos sou uma garota terrível.
Desisti da minha filha de três anos
cedendo-a simplesmente a meu primeiro marido.
Ele me enviou uns papéis
e eu os assinei sem nem sequer ler o que tinham.
Nunca fui a Nova York para visitá-la.
Ainda não compreendo por que me ama.
Você é como uma menina.
Como uma menina.
Gosto dos meninos. Adoro os meninos de meu irmão.
Sou louco por eles.
Querida, vou tomar banho. Depois desceremos, jantaremos,
tomaremos alguns drinques e iremos à casa de Burt Lancaster.
Estamos convidados.
- Algo está errado? - Com licença.
- Quero ir lá em cima, Dutch. - Não iremos à casa de Lancaster?
- Quero ir lá em cima! - Ei, querida...
Dutch, não posso ir a Saint Louis. Não posso!
- Não iremos, querida. - Vai se cansar de mim de qualquer modo!
- Por que diz isso? - Tenho certeza que me deixará!
Se formos Saint Louis se envergonhará de mim.
Vai se arrepender de ter me levado. Sua família não gostará de mim!
- Vamos... - Como vão gostar de mim?
Não sou mais que uma prostituta. Dutch, dê-me outra chance
para minha carreira!
Se chegar a ser alguém poderá me levar a Saint Louis,
e, com certeza, todos seus amigos gostarão de mim
e ficará orgulhoso de mim.
Querida, comporta-se como uma criança. Venha, sente-se.
- Sinto muito! - Venha cá e tenha calma.
- Querida... - Sinto muito. Não sirvo para nada!
- Não diga isso. - Sou uma inútil.
Querida..
Você pode me alcançar isso?
Não vai escovar os dentes ou tomar banho?
Tem que posar para este tipo de fotos?
Não sabia que iam colocá-las na revista.
Disse-me que eram para o Esquire.
Não vem comigo?
Aonde?
- Já sabe aonde. - Nunca sei aonde vai.
Lester Blackman dá uma festa no set
porque acabarão o filme esta noite.
Lester disse que meu papel é o mais destacado do filme.
E que R. M. Lucas, o vice-presidente da produtora,
viu os testes e opina também que meu papel é o melhor.
E vão dar essa festa no set.
Vem ou não?
Não gosto deste vestido. Vou me trocar.
Feche as persianas, sim?
Para quê? Só têm que comprar essa revista.
Não lhe enganei nem uma só vez nos onze meses de casamento.
Poderia ter assinado um contrato com Lester Blackman centenas de vezes,
quando quisesse. Mas disse: "Sr. Blackman, sou uma mulher casada,
eu não faço essas coisas".
Não lhe enganei nem uma só vez.
Isso é algo que você não pode dizer.
Por que não se barbeia?
Leva dois dias trancado aqui.
É melhor você ser inteligente.
Dorme até a uma, as duas, as quatro, as cinco da tarde.
Sim, talvez se tivesse uma esposa...
Quê?
Você não pensa em mim, nunca fez isso.
- Sempre que eu quis... - Cale-se.
Cale-se! Casou-se comigo para sair nos jornais, nada mais!
E você, por que se casou comigo? Quer me dizer?
- Você é uma puta! - Vamos, me diga!
Eu até tenho que carregar minhas roupas para a lavanderia!
- Por que se casou comigo? - Por quê? Agora me pergunta isso?
Quer que todo mundo ouça?
Casei-me com você porque pensava que era uma boa garota.
E que eu gostava de você.
Quero ir embora desta maldita cidade! Não sei o que faço aqui!
Não sei aonde ir nem que fazer.
Eu já estou pronta, Dutch.
Esperarei se quiser se vestir.
Dutch...
estou indo!
Está bem?
Lester, minha esposa,
...tem realmente talento artístico? - Tem algo, Dutch.
Está bem neste filme. Chamará a atenção.
Tem o que chamo...
a qualidade da disponibilidade.
Se eu mostrar o que mais bonito faz a todos os homens da plateia
pensem que poderiam fazê-la sua se chegassem a conhecê-la.
E é boa atriz cômica. R. M. Lucas a viu nos testes.
Está entusiasmado. Quer contratá-la e fazer uma grande campanha publicitária.
Um boom.
Lester,
soube que quer se deitar com minha mulher.
Se eu voltar a ouvir isso, eu quebrarei sua cara.
Dutch, quero ir com você. Quero ir a Saint Louis com você.
Dutch...
Dutch...
Não resistiria morar em Saint Louis e ser uma "joão-ninguém".
Cansar-se-ia de mim em três meses.
Ficaria louca sem fazer nada o dia todo!
Dutch...
Olá, Lester.
Rita, não preciso dizer quem é, verdade?
O Sr. R. M. Lucas, um dos nossos vice-presidentes.
Um prazer em lhe conhecer.
O Sr. Lucas viu o filme ontem à noite. Está entusiasmado com sua cena.
Você é uma mulher muito atraente.
Tem grandes qualidades cômicas e é muito sensual.
A resposta do público para você foi muito interessante.
Acreditamos que vai ser algo grande.
Tenho um papel para você 6 semanas de trabalho.
Seu empresário dirá que aceite e enviaremos o roteiro.
Além, disso, gostaríamos de lhe contratar, jovem.
Os técnicos seriam muito favoráveis a você.
Por que não vem esta noite à minha casa e discutimos com calma o assunto?
Costumo jantar às oito. Com certeza gostará do cardápio.
- Devo me vestir bem ou será informal? - Como quiser.
O Sr. Blackman dará o endereço.
Dê meus cumprimentos ao seu marido.
É um sujeito muito gentil.
Bem, nasce uma estrela.
PARTE III RETRATO DE UMA DEUSA.
Joe, Sally!
Olá, venham cá!
Quero lhes apresentar a minha mãe.
A Sra. Faulkner, Joe e Sally Wilsey. Minha mãe chegou ontem.
Um prazer em lhe conhecer. Como vai?
Minha mãe leu nos jornais que tinha tido uma crise nervosa.
Chamou-me por telefone.
Eu já falei pra você verdade? Sobre a ligação que custou 81 dólares.
Sabia que minha mãe ia vir. Vamos, sente-se.
Quanto tempo vai ficar, Sra. Faulkner?
Ela diz que ficará duas semanas, mas eu quero que ela fique e more.
Este será seu novo lar.
Há anos que tentava que viesse e deixasse a triste casa onde morava
com meus tios.
Agora que está aqui, aqui ficará.
Mamãe, o Sr. Wilsey é o produtor do filme onde tive...
o famoso esgotamento nervoso.
Estiveram a meu lado em todo momento.
Meus mais velhos e queridos amigos.
Foram os únicos que vieram me visitar no sanatório,
além de...
Shirley Donahoe. É minha cabeleireira.
Esteve em todos os filmes que fiz desde 1949.
Não faria um filme sem ela.
Os outros amigos? Comportam-se como se estivesse morta.
Isso demonstra algo, hem? Embora eu não saiba por quê.
Por que não sentam?
Na verdade, viemos lhe convidar para comer conosco.
- Vamos a... - Sinto muito, Sally, não posso ir.
Tenho que comer com minha mãe. Há oito anos que não nos víamos.
Oito anos.
Não é normal entre mãe e filha, hem?
Joe, Abe Sullivan me telefonou ontem. Disse que acabou de descobrir
de que não ia ver esse psiquiatra.
Sim, eu sei.
E disse a ele:
"Não estou louca! Para que quero um psiquiatra?"
Por que não ficam aqui e comem conosco?
- Não, Rita, é que... - Não há problema.
Vou dizer à cozinheira. Não demorarei.
Rita, vamos comer com Arlene Cubo no Frascatis.
Desculpam-me um momento?
Quero lhes agradecer pelo que fizeram por minha filha quando precisava.
Fala de sua amizade com um profundo afeto.
Sra. Faulkner, apenas conhecemos sua filha.
Não a conhecia até que começamos meu filme há quatro meses.
E minha esposa só faz três semanas que a conhece.
Fui visitá-la no sanatório porque me atrasou o filme treze dias.
Isso me custou mais de 150.000 dólares.
Entristece-me que pense que nos considera seus melhores amigos.
Mas fico feliz que você esteja aqui.
porque precisa de alguém.
Tente convencê-la para que vá ver esse psiquiatra outra vez.
- A verdade é que não sei como fazer. - Fale com ela, Sra. Faulkner,
eu lhe asseguro que precisa desse psiquiatra.
Fale com ela.
Cidadãos americanos, permitam-me que lhes diga que chegou o momento.
Chegou o momento de uma nova vitória!
Outra gloriosa vitória do partido republicano,
e um feliz alívio para o sofrimento do povo americano
no dia da inauguração.
Não é...
Não é uma depreciação da honra
e a glória do nosso primeiro presidente.
O dia deste homem é o de nossa geração.
E como Harry Lee disse do imortal Washington,
é o primeiro na guerra e o primeiro na paz.
e o primeiro no coração de seus compatriotas.
Você está confortável, mamãe?
Tudo está bem.
Creio que esta é a casa maior que já vi.
Sim, acho que a casa de que a Sra. Phillips se gabava
...caberia dentro da sala de estar. - Com certeza.
Tenho perguntado sobre a congregação adventista de Los Angeles e há uma.
- Eu a levarei amanhã. - Está bem.
Não quero perder a cerimônia do sabbath.
Continue com suas orações, mamãe.
Eu me sentarei lá.
Agora ganho 4.000 por semana, sabia disso?
Viu o último "Film Daily"?
Sabe que eles me consideram uma das seis atrizes de maior bilheteria?
E sabe quanto o filme rendeu em Nova York em uma semana?
Estreou no Roxy e arrecadou 135.624 dólares.
É um recorde.
- Que acha da sua filha? - Que está muito bem.
Que está lendo, mamãe?
"Saberá que eu sou o Senhor e abri seus túmulos,
oh, meu povo.
Eu os tirei deles, vou lhe infundir com meu espírito
e viverão...
Fico feliz que tenha vindo, mamãe,
Poderia ficar louca dando voltas nesta casa tão grande.
Queria vir no dia que li nos jornais de sua crise nervosa.
Não sei o que me acontece!
Sabe o que me aconteceu no dia que tive a crise no estúdio?
Comecei a gritar.
Vi um gato no set.
E comecei a gritar: "Afaste-se de mim!"
E eu gosto de gatos, você sabe. Tenho dois siameses aqui.
Creio que meus nervos chegaram ao limite.
Estava bebendo muito.
Confesso o pecado de beber.
Mamãe,
não suporto estar sozinha.
Às vezes trago homens em casa, mas quando vão embora, não sei o que fazer,
porque não suporto estar sozinha!
Acordo muitas vezes em plena noite, suando.
Tenho palpitações e não posso respirar.
Então chamo os empregados e peço a eles
que me façam companhia até que amanheça.
Preciso de você aqui, mamãe, comigo, porque noto que fico louca.
É verdade, creio que estou ficando louca.
Estamos nesta terra para sofrer.
Eu cuidarei de você, mamãe. Verdade, cuidarei de você.
Irá comigo aonde quiser que vá. Estará a meu lado.
Na semana passada, depois de falar com você por telefone,
fui ver o Sr. Weingwright, o velho. Ele e sua tia, que estava lá,
eu os olhei e lhes disse:
"A riqueza e a fama não são nada.
Aí esta minha filha, a inveja de sua geração,
que estava desmoronando por telefone...
E acrescentei "Minha filha se aproxima de seu cataclismo.
Viveu atormentada e em pecado.
Carregou a marca da besta sobre ela.
Ela deve se unir a Jesus e então
talvez possa chegar a se redimir,
como se redimirão todos os homens da maldição,
quando seus corpos voltarem à mãe terra...
Só abra sua alma. Abrir seus braços,
e deixar que Jesus Cristo entre e você. Não deve esconder nada.
Deixe que Ele encha seu corpo e sua alma,
e será transportada à paz e ao amor.
Senhor
entrego-me sem nenhum rancor.
e sinto seu doce amor
e sua paz.
Sinto-o muito perto de mim. Muito perto de mim.
Abra sua alma e seu coração.
Oh, meu Deus, meu Deus... meu Deus, meu Deus...
A vida é dor, pecado e tormento. Jesus Cristo lhe absolve, filha,
e não ha dor, não há pecado e não há tormento,
porque seu corpo está cheio de seu eterno amor,
sua eterna compaixão. Abra seu coração.
e deixe que Cristo entre em cada parte de você.
- Joe! - Olá, Rita.
- Como vai, querida? - Sinto ter me atrasado.
Mas o tempo voa. Mamãe, estamos aqui.
- Sente-se, Joe. - Obrigado.
Levei minha mãe para dar um passeio por Sherman Oaks.
Mostrei a ela a casa enorme que Johnny Tower tem. Ou tinha.
Sabe que era o pai do meu primeiro marido?
Não sei quem morará lá agora.
Tem muitas laranjeiras e limoeiros por ali.
Acho que minha mãe deve ter ido lá em cima.
Fico feliz em lhe ver tão bem.
Joe, sou feliz.
Sabe? Encontrei Deus.
Eu lhe asseguro.
Acho que posso contar a você e Sally, porque vocês não vão rir disso.
Quarta-feira passada eu acordei a meia-noite com meu antigo pânico.
Joe, você esteve quando rodávamos no Arizona.
Sabe como estava naquela noite, quando tentei me suicidar.
Quarta à noite,
fui ao quarto da minha mãe, acordei-a
E rezamos.
Pedi a Deus que salvasse minha alma.
Ela pegou minha mão apertando com seus dedos.
Creio que isso me salvou, que minha mãe me apertasse forte.
Agora sei por que tinha aqueles pesadelos quando me embebedava.
Era o mais terrível do mundo.
Meu primeiro marido me contava como se sentia só.
Agora sei o que queria dizer.
É como...
se o resto do mundo estivesse em outro lugar.
Como um eco.
É difícil de explicar. Finalmente...
minha mãe pegou minha mão e rezamos. E...
Senti como se desaparecesse. Havia desaparecido.
Senti-me leve e livre de preocupações.
Era tão maravilhoso que passamos a noite conversando.
Então chegou a madrugada. Foi maravilhoso.
O céu estava vermelho, como em chamas, como se Deus estivesse descendo
"Tudo está bem".
Como se me dissesse pessoalmente.
Sentia-me tão bem que queria gritar.
Meu Deus, é maravilhoso estar com minha mãe!
Rita, é maravilhoso lhe ver assim
Joe,
estou prestes a voltar ao trabalho. Telefonarei agora a Abe Sullivan
para que diga ao estúdio que podem me mandar roteiros quando quiserem.
Se acha que vou lhe pagar a passagem de trem, está louca!
E tampouco lhe levarei à estação!
Pode ir sozinha.
Não voltarei a lhe mandar dinheiro! Não mandarei nada para você!
Querida, que conste que eu lhe avisei quando cheguei.
Mamãe, que lhe fiz? Quer me dizer, por favor?
Não pensava em ficar mais de duas ou três semanas.
Fiz o possível para lhe fazer feliz.
Esteve aqui mais de dois meses.
Fiz uma doação de 10 mil dólares para ajudar em seus trabalhos missionários.
Querida, sabe que seu tio George se encontra muito doente.
E Alice Mary tem que cuidar da loja,
não podem se arranjar sem mim.
Nada do que faço lhe satisfaz, verdade?
Acho que nunca lhe satisfiz!
A única coisa que faz é fugir de mim!
Eu lhe odeio tanto, que não sei como dizer. Pode ir embora de minha casa, vá!
Nunca se importou se eu estava viva ou morta. Fora daqui!
Não quero voltar a lhe ver, nem sequer no seu túmulo!
Espero que morra logo, que esse coração de gelo
exploda em mil pedaços!
Tinha vontade de lhe dizer isso!
Deus não existe!
Está me ouvindo? Deus não existe!
Ouviu o que eu disse?
Deus não existe! Deus não existe! Não!
Deus não existe!
Deus não existe.
Espero que todas essas pessoas pensem que está abatida pela dor,
mas veio ao funeral de sua mãe completamente bêbada.
Não é por falta de respeito.
Quase sempre está bêbada.
Olá, Emily Ann.
John!
Não esperava lhe ver aqui.
Apresento-lhe minha tia, Alice Mary e a Srta. Highwood, minha secretária.
Meu primeiro marido, o Sr. John Tower.
Eu imploro seu perdão.
Ouvi uma voz celestial que dizia em meu interior
Bem-aventurados sejam aqueles que morrem em paz com o Senhor.
Sim, disse o espírito, porque eles vão descansar de seus labores
e sofrimentos terrenos.
E vi um novo céu e uma nova terra, porque o céu e a primeira terra
ficaram atrás. E não havia mais sementes.
E eu, Juan, vi a cidade santa, a nova Jerusalém,
que descia do céu de Deus preparada como uma esposa
para seu esposo.
E ouvi uma voz do céu que dizia "Prestem atenção,
o tabernáculo do Senhor está entre os homens..."
Quero morrer! Quero morrer! Quero morrer, quero morrer!
Soltem-me, soltem-me! Quero morrer, quero morrer!
Mamãe... quero morrer!
Estamos aqui na varanda.
Você e a garota foram muito gentis vindo ao funeral.
Minha filha me pediu que viéssemos.
Ela está dormindo, Sr. Tower.
Dei a ela um calmante quando desmaiou.
Minha filha gostaria muito de conhecê-la.
Acho que não lhe permitirei vê-la, Sr. Tower.
Que autoridade tem nisto, Srta. Highwood?
Estou com a Srta. Shaw há três anos, e tenho um grande carinho por ela.
Se há algo neste mundo que me lembrarei até o dia que morra,
é a imagem sua, há dois anos, no escritório daquele advogado,
enquanto essa mulher lhe implorava histérica e de joelhos
que deixasse ver sua filha, e você dizia que não.
Não me parecia boa ideia que minha filha passasse duas semanas com uma histérica.
Sabe que naquela noite tentou se suicidar?
Suponho que seu dever é cuidar dessa pobre mulher.
O meu é fazer que minha filha ame a vida.
Minha filha foi uma menina estranha durante muito tempo,
como seus pais
E como seus avós.
E como as gerações que a precederam,
e que chegaram à beira do suicídio e da loucura. Mas agora está bem.
Gosta de viver.
Acho que será uma mulher feliz quando crescer.
Seu grande desejo é conhecer a mãe dela. É uma menina carinhosa.
Deu-me o pouco interesse que sinto pela vida.
E acho que poderia também dar a Rita.
Cuide de sua menina, Sr. Tower.
Eu cuidarei da minha.
Então que finalmente encontrou uma mãe.
- Voltarei depois. - Não.
Pode esperar aqui mesmo.
Vai se levantar logo.
É melhor eu subir. Ela gosta de me ver quando acorda.
Olá, pequena.
O Sr. Tower está lá em baixo.
- A menina está com ele? - Não.
- Pode dizer a ele que suba? - Está bem.
Está começando outra vez.
- Estou ficando nervosa. - Rita.
Chegou um telegrama de pêsames de Joe e Sally Wilsey.
Quem são?
Oh, sim, sim...
Agora me lembro.
Às vezes, pensei que seria deles.
Não sei, não sei, não sei...
Não deveríamos estar aqui. Não deveríamos ter vindo a esta cidade.
É a mesma de sempre. A mesma de sempre.
Viu a casa onde me criei?
Você viu? Horrorosa, hem?
Horrorosa, horrorosa, horrorosa, Meu Deus...
Continuo sendo a mesma. Sou a mesma.
Nunca serei diferente.
Era uma menina... miserável.
Uma menina que andou por essas ruas sujas com suas botas.
Gostaria de dormir, mas pelo resto de minha vida.
Gostaria de poder dormir o resto da minha vida.
Quer um calmante para ver seu ex-marido?
Tem comprimidos para dormir?
Sim.
Tenho uma ideia. Escute,
por que não vai lá em baixo e diz a meu ex-marido que suba?
Depois tomarei uns comprimidos para dormir e descansarei no avião.
Está bem.
- Um sanduíche? - Estaria bem.
Olá, Amy.
Sabe que estava pensando?
Pensava que a vida é uma farsa.
Na verdade, não é nada.
Tenho 31 anos e quando olho para trás
a única coisa que me ocorre dizer é: "E quê?"
Tenho uma casa bonita, sabe?
Um jardim...
até onde a vista alcança.
Flores... vermelhas do paraíso e tulipas.
Não posso descer de um táxi em Nova York sem ter centenas de pessoas
a meu redor, gritando quanto me amam.
Conheci homens.
Muitos homens,
com rostos anônimos,
porque não me lembro de nenhum. São anônimos.
E acho que não consigo pensar em nenhum motivo para acordar amanhã.
- A vida é uma farsa, hem, John? - Não.
Estou me lembrando do você,
bêbado como um barril no quarto daquele hotel,
o Hotel Montgomery, dizendo-me estas mesmas coisas,
e citando os grandes poetas.
"A vida é chata, disse o pregador, ninguém pode mudá-la."
Quando era pequena,
sonhava frequentemente que me afogava.
"Correntes calmas e escuras de lugar nenhum, onde tudo se afogava."
Acho que deve ser uma sensação agradável...
deitar e flutuar...
deixar que a água lhe cubra.
Não suporto mais esta vida, John. Como vai?
Não pudemos conversar muito na última vez que nos vimos.
Eu ainda resisto.
Parece tão bem!
Vejo que não mudou.
Gostaria que tivéssemos nos conhecido hoje.
Abrace-me, Johnny, abrace-me, abrace-me!
É o único homem que amei.
Você também não me amava, precisava de mim, mas não me amava.
Nunca soube o que é o amor. Não lhe ensinaram.
A vida é insuportável se não amar alguém.
Venha comigo, nossa filha está esperando em um bar.
Quero que a conheça As pessoas como nós
não podemos amar ninguém mais que nossos próprios filhos.
Ela me deu momentos de felicidade,
momentos em que comprovou que a vida é bonita.
- Ela quer lhe conhecer. - Não posso vê-la, John, não posso.
Viemos porque ela quer lhe conhecer.
Não posso olhar para ela, Johnny! Ela me odeia.
- Amy... - Deixe-me, deixe-me!
Deixe-a.
Você prefere vê-la tomando amor em doses em quartos de hotel baratos?
Sou uma inútil, uma inútil!
Deixei minha mãe sofrendo durante 17 horas quando nasci.
Não causei mais que dor a todos os que conheço desde então!
Onde estão os comprimidos, onde os colocou?
Uma inútil! Deixe-me em paz!
- Rita, diga-me onde estão os comprimidos! - Deixe-me, por favor!
Onde estão os comprimidos, querida?
- Em baixo do colchão. - Deite-se, querida.
Esteve indo a um psiquiatra durante quatro meses.
Depois o médico disse que ela nunca responderá ao tratamento,
que sempre será a mesma.
Agora segue uma terapia simples.
Eu a levarei à Califórnia para que continue fazendo filmes.
É a única coisa que sabe fazer.
E o que acontecer a seguir acontecerá.
Mas eu a amo.
E cuidarei dela.
Adeus, Amy.
Quando estiver em Hollywood virá me visitar?
Claro.
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