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Aquele que já leu se dirige aos que ainda não leram
e oferece a eles uma leitura
que os convide a ler.
Então cedo a palavra ao Lucio.
Muito obrigado, Martín.
Vou ler.
"Atravesso o ar
com uma mão guiada
pela respiração
de um anjo que insiste
em buscar o que é dele."
Fiquei pensando no que o Martín falou.
Pensando que, neste momento do mundo,
a linguagem está mais padronizada do que nunca.
E, paradoxalmente, o excesso de comunicação acaba
nos isolando de nós mesmos.
Penso na importância de escrever e ler poesia hoje em dia.
E aí vem a contradição…
Para quem escrevemos?
Quem lê poesia atualmente?
Certo, obrigada, Lucio.
Agora todos vão correr pra comprar o livro.
Não é?
- Foi um elogio. - Sim, foi um elogio feito com admiração.
Muito obrigado.
Gostei muito, Mari.
- Obrigada. - Sério. Me surpreendeu positivamente.
- Ainda bem! - Fiquei com medo de você ler.
Por quê?
Você é exigente.
Mariela…
- Quê? - Você não gosta de nada.
- Viu? - Martín!
Falou o destruidor da nova narrativa argentina.
Não me compare…
Não comparar? Estamos entre amigos.
- Se não fosse bom… - Gostou mesmo?
Gostei muito, Mari. De verdade.
- Ótimo! - Sim.
- Está escrevendo alguma coisa? - Sim, tentando.
Ele vai no tempo dele, sabe?
- Ele começa, para, volta… - Não sou genial como ela.
Aproveita enquanto tem tempo.
Vai aparecer alguma coisa.
Não acredito. Quem o convidou?
Eu convidei. Como não convidar?
Por que convidou? É constrangedor pra mim.
Me poupe.
Aproveita e conversa, tenta fazer as pazes.
Conversar de quê?
Desculpa, mas conversar de quê? Ele me ferrou.
Não te ferrou. Ele passou no concurso.
Está do lado dele?
Essa cátedra não resolveria sua vida, né?
- Tá. - Quê?
Não vou estragar a noite.
- Obrigada. - Vou buscar a Sol.
É. Nossa garotinha precisa dormir cedo.
Tchau.
Mariela, querida!
Bem-vindo, como está?
Obrigada.
- Não cheguei a tempo, desculpa. - Não tem problema.
O SUPLENTE
Bom dia.
Administração?
- Suba e vá ao fim do corredor. - Obrigado.
Última assinatura, bem aqui.
Certo.
- Pronto. - Tem a lista de alunos?
- Ainda não. - Só um segundo.
Prof. Garmendia.
- Foi tranquilo chegar aqui? Sou a Amalia. - Oi, Amalia!
- Vamos à sala. - Estou esperando a lista.
- Isso. - Como seu pai está?
Está indo.
Todo mundo está preocupado.
Sim, mas ele vai ficar bem.
Claro que vai ficar bem! Sei por experiência. E ele é batalhador.
O que não mata, fortalece.
É assim mesmo.
Sim.
- Certo, querida, obrigada. Vamos. - Obrigado.
Infelizmente, acontece sempre.
Tem professores que não aparecem também.
Viu?
Ficaram com o horário vago.
Claro.
Sim.
Bom dia!
Bom dia.
Oi, tudo bem?
Bom, este é o professor Garmendia.
Ele vai substituir o professor Jarkowski.
- Olá. Bom dia a todos. - Bom dia.
Aqui está a lista.
- Obrigado. - Qualquer coisa é só chamar.
Certo.
Obrigado.
Alguém pode me dizer pra que serve a literatura?
Alguém?
Pra fazer a gente dormir.
O que mais?
Seu nome?
- Karen. - Karen?
- É. - O que acha?
- Eu não leio. - Não gosta de ler?
Não, nem um pouco.
Sim?
A literatura serve pra contar histórias.
Seu nome?
- Mayomi. - Mayomi.
É verdade.
Mas não precisamos de literatura só pra contar histórias.
- Seu nome? - Dilan.
Pra que serve a literatura?
Pra nada.
Fala mais alto pra ver se o colega ali acorda.
Literatura não serve pra nada.
Quase acordou.
Quase. Bom, o colega de vocês disse que literatura não serve pra nada.
Acho que ele tem razão. Concordo.
Na verdade, literatura não serve pra nada. Não tem utilidade, não é um bem.
Não dá pra comer, respirar nem comprar nada com literatura.
Não é? Em termos práticos, ela é dispensável.
Então por que veio? O que faz aqui?
- Seu nome? - Kevin.
Kevin.
Vamos usar nossas aulas pra tentar achar o sentido da matéria.
Quero que peguem uma folha e escrevam
as coisas de que gostam e de que não gostam.
E assinem o nome.
Por exemplo: "Eu sou o Dilan. Gosto de trap, não gosto da sua aula."
Tipo isso. Muito bem, Dilan.
Se aprofundem mais, mas essa é a ideia.
Sabe onde é a sala dos professores?
Oi, sei. Eu te levo lá.
- Ótimo. - E te apresento aos outros.
Sou a Clara, professora de biologia. Seja bem-vindo.
Obrigado. Sou o Lucio, suplente de literatura.
Sim, eu sei quem você é.
Sabe?
Não é filho do Chileno?
Sou, sim.
Olá!
- Tudo bem? - Oi!
Este é o Lucio, suplente do Aníbal.
- Oi! - Bem-vindo. Sou o Nando.
- Tudo bem? - Se precisar, é só chamar.
- Bom dia. - Quer chá?
Sim, obrigado.
Tem caneca?
- Não trouxe. - A gente tem.
Tá, obrigado.
Sou a Florencia, bem-vindo.
- Tudo bem? - Tudo.
- Matías, Nadia, José. - Bem-vindo.
- Já leu Facundo, de Sarmiento? - Sim, Civilização e Barbárie.
Bem-vindo à barbárie.
- Credo! - Ei, não assusta o cara.
Aqui tem comida, se quiser comer.
- Tá. - Fica à vontade.
Como foram as primeiras horas?
Boas.
Faltou foco no início, mas acho que nos conectamos.
Aqui não é faculdade, né?
Não.
COZINHA COMUNITÁRIA DE LA ISLA
Certo, espera.
Vamos deixar, e você resolve.
Tá, vão indo. Vão!
Vazem!
- Estamos indo. - Deem o fora daqui.
- O que foi? - Nada.
- Qual é o problema? - Jonny!
Abre o carro, por favor.
- Que foi? - Abre o carro.
- Não quero a tinta. - Quê?
Leva pro carro.
- Vem. - Quem mandou?
- Deixa que eu levo. - Tá.
Abre aí.
Isso. Levem todas, rápido.
Vou pôr as mesas aqui, estamos reformando os banheiros e…
tenho que pintar.
- Por que não aceitou as latas de tinta? - Não quero nada com aquele cara.
- Quem é? - Olmos, o Cachorro.
- Quem é o Cachorro que te deixou nervoso? - Traficante.
- Olha! - Traficante?
Olha minha cozinha nova.
E aí?
- Oi, Roberto. - E a comida? Está boa?
- Boa tarde. - Legal.
Boa tarde.
Quando estiver pronto, vou alimentar pelo menos 100 pessoas por dia.
- Oi, que surpresa! - O que faz aqui?
Vocês se conhecem?
Ele é meu aluno.
É mesmo?
- Dá nota boa pra ele. - Vamos ver se ele vai merecer.
Cuidado, ele é exigente.
- Vou pegar os exames. - Tá.
- Ele é seu pai, professor? - É.
Vocês se parecem.
- Que nada! - Um pouco.
Sou mais bonito.
Tem mais cabelo.
Estão aqui.
- Vamos, está na hora. - Está bonito!
- Até mais. - Tchau.
- Tchau, professor. - Até.
- Pegou tudo? - Sim.
Cachorro!
Vou deixar suas coisas aqui.
Qual é o problema dele?
O palhaço apoia o prefeito Suárez.
Babaca!
VOTE EM OLMOS
Faz tempo que o Cachorro está no bairro?
Faz um tempinho.
Está se infiltrando de fininho.
Ele está concorrendo a prefeito.
Quer vencer o Suárez.
Ele tem chance?
Bom…
Neste mundo, tudo é possível, filho.
Não tem nada pra me contar?
Os alunos te deram ouvidos?
Sim. Bom, me humilharam um pouco.
São assim mesmo.
Eles têm que bancar os durões.
Senão são comidos vivos.
Seja forte, firme.
Pode haver cumplicidade, mas precisa estabelecer limites.
Mostra que está do lado deles, que se importa.
E que não se importa só com eles.
Também se importa com o meio e a família deles.
Que atraso! Não podemos perder a consulta.
Não vamos perder.
- Vamos, estamos atrasados! - Estou indo.
Fico feliz que esteja dando aula no bairro.
Então faz sua parte.
Não estou fazendo?
Não, pai.
Tem que ir mais devagar.
Estou indo devagar.
Vai te fazer bem.
Você acha?
Claro.
Conhecer esses jovens…
Oi, Sr. Roberto!
Já pode entrar.
Obrigado, querida.
Ninguém se salva sozinho, filho.
Senhorita, eu cheguei antes dele.
A consulta dele é antes da sua.
Eu não entendo essas coisas.
Cheguei há uma hora, e outra pessoa entra na frente. Por quê?
Ele tinha consulta marcada. Já será atendida.
É sempre assim. Furam fila, e ninguém fala nada.
Que desorganização!
"Se eu pudesse,
eu escolheria esta saúde de saber que estamos doentes,
esta alegria de ser infeliz.
Se eu pudesse,
eu escolheria esta inocência de não ser inocente,
esta pureza que tenho por ser impuro.
Se eu pudesse,
eu escolheria este amor com o qual odeio,
esta esperança que come pães desesperados.
O que acontece, senhores,
é que me jogo à morte."
Juan Gelman.
Certo. Impressões?
Sensações? Alguém quer compartilhar?
O que acharam do poema?
Romina, nada de celular. Já falei.
Não sei como era com o Jarkowski, mas não permito celular.
Certo. Alguém?
Mayomi?
Na verdade, não entendi muita coisa.
Não é questão de entender. Falem o que vier à cabeça.
- Kevin? - Posso ir ao banheiro?
Se responder, vai poder ir.
Eu acho que…
aguento segurar.
Obrigado.
Karen?
O que foi?
O que acha do que li? O que acha da poesia?
Viajei quando começou a ler.
Não me interessa.
Nosso colega não acorda?
Ele trabalha numa fábrica à noite. Não vai dar bola.
- Qual é o nome dele? - Richar.
Richar.
Para Borja, a poesia era
a expressão da beleza através de palavras artisticamente entrelaçadas.
Estou vendo que a poesia não motiva muito vocês.
Quem não entregou o dever na aula passada tem que entregar agora.
Na próxima aula…
Depois trago outras coisas pra lermos. Obrigado. Assinem, por favor.
Tchau.
Obrigado.
"Se tu tivesses."
Segunda pessoa do singular,
pretérito imperfeito.
Modo?
É… Modo indicativo.
Não, querida. Subjuntivo.
É o modo das possibilidades, dos desejos.
Quero viver nesse modo.
Querida, se concentre, por favor. Não seja fatalista.
Vamos.
Não aguento mais.
Tá, come alguma coisa. Vai dar energia.
Precisa parar de ter medo.
Esquecer o mundo da probabilidade. "Se eu pudesse…"
E ficar no mundo dos fatos, das ações.
- Que modo é? - Para.
Que modo é? Me fala qual é.
"Cale a boca!" Imperativo. Não quero estudar lá!
Não. "A Sol Garmendia vai estudar lá." Modo indicativo.
- Não vou! - Vem. Sol!
Sol, vem aqui!
- Oi, querida, como foi? - Me deixa, mãe!
Tá.
Que intensidade!
Os hormônios estão à flor da pele.
Mas ela é muito nova.
Não é tão nova.
Era minha folga.
Sim, desculpa.
Agora você tem folga.
Tchau.
Quem é?
A vizinha de porta.
- Oi. - Oi.
Se mudou agora, né?
Sim.
Minha parede está fazendo barulho.
É meio tarde pra usar furadeira.
Sim, perdão. Nem tinha notado.
Certo, obrigada.
- Perdão. - Tchau.
Boa noite.
Alguém sabe o que é o gênero policial?
Alguém sabe de um exemplo?
Karen?
Se mataram meu irmão um ano atrás,
e ninguém sabe quem foi,
seria gênero policial?
Sim.
Sinto muito, Karen. Eu não sabia.
Como eu começaria a escrever sobre isso?
Bom…
Primeiro, precisaria ter
um mistério, algo que não sabemos.
Depois viriam as pistas que um detetive seguiria para solucionar o caso.
Poderia ser assim.
- Tem que ser policial? - Não necessariamente.
Você mesma pode ser a detetive.
A detetive da história.
Walter.
- Sim? - Tudo bem?
Aula de literatura.
Né?
Algum exemplo do que estamos falando?
- Não sei, professor. - Dê um exemplo.
É pra escrever?
- Conte com suas palavras. - Manda ver.
Com minhas palavras?
Vou fazer a turma aplaudir de pé.
- Isso, vai lá. - Vai, cara.
- É pra contar? - Sim.
Vai escutar como essa gente se motiva
Com minha rima
Se senta no assento e eu conto
Para mim, não existem contos
Porque na literatura
Tudo isso parece loucura
Estou falando sério
Vamos desvendar todo o mistério
Sobre a morte do irmão da Karen
Ele virou as costas, disseram: "Disparem!"
Hein? Certo não me parece
Acorda, menino Está dormindo há meses
Estamos improvisando O que está havendo?
O que estou contando?
Não podem ver? Faz meses que é isso que sabemos fazer
Sem bobagem O que digo faz a turma balançar
Vocês vão ver Minha nota vai humilhar
Obrigado.
Obrigado.
- Obrigado, Walter. - De nada.
Conta comigo, professor.
O Chileno sempre me ajudou. Devo muito a ele.
Beleza.
Obrigado, Dilan.
Meu pai mandou você me ajudar?
O livro que leu aquele dia era bom.
- Gostou? - É este?
Sim.
É muito bom.
Eu prestei atenção. É bom.
Quer levar pra casa?
Eu não leio muito.
Pode tentar. Leva.
Cuida bem dele. Adoro esse livro.
- Tá, professor. Até mais. - Tá.
- Olá, professor. - Olá.
Esqueci a partitura na casa da mamãe.
Cansei de ter duas casas.
Poderia ser pior. Tem criança que não tem casa.
Vou terminar isto, e a gente busca.
Demora muito?
Um pouco.
Me leva logo pra casa da mamãe pra eu pegar a partitura.
Toque outra coisa.
- Mas quero tocar aquela. - Bom…
Também quero muita coisa.
A gente faz o que pode.
"Quando o namorado da minha mãe bate nela, tenho vontade de matá-lo.
Juan."
Coitado.
Escuta, isso ficou bom.
"Aconteceu ontem, também aconteceu hoje.
- A primavera acabou." - Gostei desse.
Não é?
"Gosto de maconha, álcool e cúmbia. Odeio policiais. Filhos da puta."
Nome?
"Poeta anônimo".
Que foi? Vaza.
É do roubo de ontem?
Não sou inteligente.
Causou outra impressão aquele dia.
- Oi, boa noite. - Boa noite.
Karen.
O quê?
Escreveu algo sobre seu irmão?
Não consegui.
- Nada? - Nadica de nada.
Romina?
Não, professor, não consegui.
- Nem um parágrafo? - Não tenho talento.
Não é só com vocês.
Todos perdemos a capacidade de escrever com tantos dispositivos e redes sociais.
O senhor é contra as redes?
Eu quero ver seu Insta, professor.
Tem um reggaeton de Miami?
Trouxe algo, Kevin?
Como não traria? O que pensa de mim?
Meu personagem é dedicado ao senhor.
O nome dele é "Tartaruga Intrometida".
"Ele passa o dia se metendo na nossa vida."
- Gostou? - Ótimo, muito bom.
Conheço outra tartaruga.
Mesmo? Sério?
É lenta e chega atrasada na aula.
Certo, quem mais?
Dilan?
Eu não escrevi nada.
Que mentira! Escreveu, sim.
- Escreveu? - É, sobre o pai dele. Ficou bom.
Quer ler?
Não quero, professor.
Eu posso ler.
Não vamos pressionar ninguém. Quer ler, Dilan?
Vai, cara.
- Vai, Dilan. - Tá, vou ler.
"Era conhecido como 'Relojoeiro' no bairro.
Passava a noite em claro.
Trabalhava para dar de comer à família,
mas nunca sabia se voltaria para casa.
O trabalho dele era arriscado.
Eu gostava de vê-lo limpando a arma.
Aquele dia, o Relojoeiro,
quando estavam lá dentro
apontando as armas para os funcionários enquanto eles abriam o cofre,
teve um mau pressentimento.
Ele se virou, e os amigos não estavam.
Um guarda atirou enquanto ele entrava.
Ele suspirou e percebeu que tinha perdido desta vez.
Perdeu com dignidade e orgulho.
Hoje o nome dele está nos muros da cidade."
O que foi?
Só peço que tenham respeito.
O que fazem aqui?
- É a diretora. - Venham.
Encontraram drogas no banheiro masculino.
Precisamos revistar os meninos.
Meninas, por favor, venham comigo.
Vamos.
- Por quê? - Vamos.
Não precisam se preocupar. Vamos.
Meninas, vão com a Amalia rapidinho.
- O que vai acontecer com os meninos? - Que horror!
Boa tarde. A partir de agora, isto é uma busca.
- Por quê? - Não falem.
Não encostem nos pertences, fiquem ao lado da carteira.
Não vou obedecer, professor. Eu não fiz nada. Estou na aula.
Eles não veem isso?
- Garoto… - Isto é uma escola.
Não encoste em nada.
De pé.
- Vou revistar de um lado. - Não temos nada.
Fale só comigo.
Fique quieto.
- Sem mexer a mão. - Não roubamos nada.
- Se não tiverem nada, seremos rápidos. - E isto?
É a sua mochila?
- Que falta de respeito! - De pé. Vamos.
- É material escolar. - Me dê o estojo.
Não tem nada aí.
- Posso? - Não pode, não.
Uma borracha.
- A pochete, por favor. - Espera.
Posso?
Não tem nada aí.
O que é isso?
O que é?
Não está vendo?
Por que trouxe para a escola?
Testemunhas, me acompanhem.
Vamos proceder à apreensão da substância.
Doutor, é clonazepam.
Clonazepam e dois tubos com uma substância branca.
Preciso do seu nome e número de identidade.
Walter.
É 41-583-77.
Nome completo.
Walter Medina.
Que palhaçada revistarem nossas coisas!
- Gente… Kevin… - Não vou me calar.
- Kevin. - Não fizemos nada, estamos na escola.
- Kevin. - Baixa esse tom!
- Anotou os dados? - Sim, podemos processá-lo.
- Você vem conosco. - Vamos.
- Mas por quê? - Vamos.
Espera aí! Qual é!
- Não chegue perto. - Não tenho direitos?
Jovens, baixem o tom. Fiquem calmos, por favor.
Vocês não ouvem?
Não pode fazer isso, senhor.
- Não pode fazer isso. - Ei, garoto…
- Não. - Garoto…
- Vem. - Gente, calma.
Não podem nos levar.
- Somos menores de idade. Avisem os pais. - Calma.
Eles não podem fazer isso. Não, professor.
- Esperem aí. - Não podem levá-lo.
Testemunha, venha.
- Pode ver o vaso. - Cadê a Amalia?
Não sei.
Que fique registrado.
Encontramos comprimidos.
Estamos pesando a cocaína.
Isso, pode continuar.
Tem ideia do que é isso?
Viu a quantidade?
Como eu poderia não denunciar?
É loucura.
Encontraram drogas com Walter Medina.
Querem levá-lo.
- Precisam avisar a mãe dele. - A Clara vai avisar.
- Ótimo. - Ela vai ligar.
Quatrocentos gramas de cocaína pura.
- Continuem andando. - Estamos levando um menor.
Qual é o nome dele?
Devíamos ter feito algo.
Que palhaçada! Ele é uma criança!
Agora o levaram, e a culpa é toda sua!
- Culpa minha? Estava com ele! - Nossa!
Dilan!
Dilan!
Ei, espera. Vem cá.
Pra que a pressa?
Tem mais o que fazer?
Não, senhor. Não tenho nada.
Só não quero confusão.
Quer carona?
Eu levo você.
Vamos.
Coloque o cinto.
Olha para a frente. Relaxa.
É aqui, professor.
Não sei se posso estacionar aqui.
- Pode me deixar aqui. - Aqui?
- Sim. - Espera.
Vamos conversar.
Não posso, professor.
- Tem certeza? - É, não posso.
Tenho que ir.
Já acabou a aula?
Sim, faz um tempo.
E a sua mãe?
Está bem.
Tem ido pra aula, né?
Boa tarde.
- O que faz aqui, professor? - Vim beber algo.
- Posso? - Claro.
Me apresenta.
- É o professor, filho do Chileno. - O professor!
- Oi, tudo bem? Prazer. - Prazer.
Quer algo? Eu pago.
Vem.
- Tem cerveja? - Café com leite.
- Perfeito. - Dois cafés.
- E um croissant. - Tá.
Obrigado.
O que acha dele, Susi?
Este aqui? É um filho da puta.
Mas é um bom garoto.
- Depois preciso te contar uma coisa. - Tá.
- Obrigado. - De nada. Qualquer coisa, me chama.
Se conhecem há muito tempo?
Sim.
Ela era colega do meu pai.
Sente saudade?
Muita saudade.
Por que o chamavam de Relojoeiro?
Ele gostava de roubar relógio de marca.
Ele e a Susi eram da mesma gangue.
- É mesmo? - É.
Ela tem altas histórias.
Me conta alguma.
Não sei se ela ia querer isso.
Vai, conta.
Vou contar uma.
Um chefe dela não ouvia o que ela falava,
aí ela cortou a orelha dele com uma faca de cozinha.
Mandou pra ele numa caixa.
Bom, professor, tenho que ir.
Ei, Dilan…
Posso parecer bobo, mas não sou.
Não conta pra ninguém que me trouxe.
Relaxa.
- Quem te deu as drogas? - Não se meta.
Foi Olmos, o Cachorro?
E não volte aqui.
…María Soledad Sánchez Malvier,
Santos Rodolfo,
solicitam uma medida cautelar com caráter de urgência.
Pedem que parem as obras até que o problema seja resolvido
para impedir o crescimento do conflito social no território.
- Vou abrir espaço. - Você tocou tão bem!
Se divertiu, né?
- Sim. - Sim.
- Gostou? - Eu amei, de verdade.
Nós amamos.
E as provas?
Estão ótimas. Ela fez uma de matemática e se saiu bem.
Não me saí bem, pai.
Ela sempre fala isso, mas sempre tira total.
Eu era burro na escola.
Não era burro, só não tem paciência pra livros.
Desculpa!
- Não tem nada. - Está tudo bem.
- Vou só… - Toma.
Pronto.
- Pratos. - Tudo bem?
Pode deixar, eu trago.
É que não sou bom com livros, pra ser sincero.
- Aceita carne? - Não como carne.
Amanhã a trago depois da prova.
Estude gramática com ela. Ela está impossível comigo.
Também não está fácil comigo.
Queremos que ela estude onde ela não quer.
- Ela tem 11 anos. - Não, ela tem 12.
Dá na mesma. Sabemos o que é melhor pra ela.
- É? - É, se ela…
Do que estão falando?
- Oi? - O que é?
- É sobre você, claro. - Nada.
- Somos obcecados. - Parece uma delícia! Obrigada.
Muito bom!
- Eu fiz… - Não come carne?
- Não como. - Filho…
- Também não como carne. - Lucio.
Quem inventou este churrasco?
Achei que comesse carne.
Não, ninguém come carne.
Bom…
- Que fracasso! - Mais um.
- Serve mais pra mim? - Claro.
Quer outro prato?
Não precisa, obrigado.
- Uma salada. - O que vai comer?
Vocês precisam é me dar uns quilos de comida toda semana.
Está tudo pronto, tenho funcionários, o lugar está a todo vapor.
O quê? O Suárez não é o prefeito?
Sim, é o prefeito que quer ser reeleito.
Olha, se tiver como o Julio participar,
vai ser tranquilo suprir suas necessidades.
Então fale com o Suárez e me diga o que ele propõe.
Certo, tchau.
Tchau, querido.
Comi quando ele estava na churrasqueira.
Está bem.
Quer mais?
Come uma salada.
Soube o que houve na escola?
Que palhaçada!
Achei muito suspeito.
- O Dilan está envolvido. - Não!
O Dilan não é burro de se envolver com essas porcarias.
Estou dizendo, ele está envolvido. E o Kevin também.
Foi a mando de quem?
Quem sai prejudicado? Suárez?
Pelo contrário.
O Suárez vira um cavaleiro da justiça que ousa combater o tráfico.
O Cachorro sai prejudicado. Com certeza fica ruim pra ele.
E ele está preocupado com a imagem. Isso acabaria com ele.
Então o pessoal do Suárez armou a busca na escola?
- Talvez. - E está envolvido com eles?
Escuta aqui…
Quem não arrisca não petisca.
Cuidado pra não virar o petisco.
Você não sabe de nada.
- Você não sabe de nada. - Então me explica.
Ela dormiu.
Sim, estava bem cansada.
- Me deixa na esquina. - Não, eu te levo.
- Quero caminhar. - Eu te levo, pai.
Pai?
Que foi, querida?
Posso dormir aqui?
Sim, vem.
O que foi?
Tive um pesadelo.
Tá. Descansa, amanhã vai ser um longo dia.
Adorei te ver tocar hoje.
Querida, posso te fazer uma pergunta? Cá entre nós?
O que quer saber?
A Sonia, amiga da sua mãe que foi com a gente…
Elas…
Elas se veem com frequência?
Ela é namorada da mamãe, pai. Não percebeu?
Sim, claro.
Eu imaginei, mas…
Tá.
Dorme.
Só mais uma coisa.
- O que foi? - Não conta pra sua mãe que perguntei.
Pai, você é muito chato! Já falei que não vou contar.
Tudo bem. Dorme.
Chega de tráfico! Digam não às drogas!
Chega de tráfico! Digam não às drogas!
Chega de tráfico! Digam não às drogas!
Chega de tráfico! Digam não às drogas!
Chega de tráfico! Digam não às drogas!
Chega de tráfico! Digam não às drogas!
Chega de tráfico!
CHEGA DE TRAFICANTE NA ESCOLA
Chega de tráfico! Digam não às drogas!
Chega de tráfico!
POR UMA ESCOLA SEGURA
Sou professor, vim trabalhar.
Seu documento?
Encontraram muita droga.
É óbvio que foi plantada!
Estão usando os alunos.
- Porque criança não é traficante. - Não, espera!
Criança que vende droga sabe o que está fazendo.
- Exato! - Isto é diferente.
- É outra coisa. - A polícia não pode invadir assim.
- E não podem voltar. - Pois é!
Que mensagem estamos passando?
- Que podem trazer quanta droga quiserem? - Não.
E não acontece nada!
Acontece, sim. Está acontecendo.
Estamos aqui conversando.
E, como comunidade educacional, precisamos nos unir pra que não se repita.
Ficou claro que não temos autoridade.
Temos, sim. Uma autoridade ética.
- A polícia é a autoridade. - Não, a polícia é a autoridade armada.
Nossa autoridade é ética.
Mas os alunos…
O que é mais ético do que dizer que devem fazer o certo?
Devemos apoiar as famílias.
Tá, e as famílias de quem faz o certo estão aqui.
Os pais que trabalham duro, de forma ética, como você diz.
Mas você diz que eles deveriam agir como os pais dos traficantes.
- Foi o que disse. - Não é bem contra mal.
Os alunos são vítimas.
É aqui que eles reúnem as ferramentas para evitarem ser vítimas de traficantes.
- Vítimas? - Então vamos lá.
- O quê? - Vamos votar.
Claramente há dois lados. Uns acham que devemos dar aula,
como se nada tivesse acontecido,
outros acham que devemos ir pra rua com as famílias e a comunidade.
Quem quer as aulas, levanta a mão.
- Tá. - Eu.
- Viu? - Empatou.
- Nossa! - Podem contar.
Bom, estou pronto.
Agora o resto vota.
Pode esperar o fim da votação, José?
Ninguém acha meio estranho
o que acontece no conto?
O melhor amigo do ladrão
o delata quando está tudo indo bem…
Não é estranho?
Isso desperta uma intriga.
Bom, esse
é o enigma.
E é o enigma que lança a trama policial no conto.
Não é?
Alguém sabe da Mayomi?
Os pais não a deixaram vir.
Por quê?
Porque dizem que é perigoso.
E o Dilan?
Está gripado. Não está bem.
O Kevin também.
E o Walter?
Ele é um idiota.
Sabem dele?
Só que é idiota.
Oi, pessoal, bom dia. Lucio, bom dia. Por favor.
Bom dia.
Sr. Benítez, este é o professor de literatura.
- Prazer. - Ele vai observar a aula.
Com licença, vou entrar. Bom dia.
Bom dia.
Ele é do Ministério.
E?
- E nada. Como assim? - Por que ele veio?
Pra observar a aula.
Estão monitorando a escola.
- O que quer que eu faça? - Me faça ficar bem na fita. Que tal?
Vá.
Bom…
Onde estávamos?
Certo, então…
Sobre contos policiais, estávamos…
dizendo que eles têm um enigma. Foi aí que paramos, né?
Neste caso, o enigma se apresenta em forma de paradoxo.
Ele veio avaliar o senhor?
Não, veio observar. Como era…
- Benítez. - Benítez. Ele…
Está fazendo anotações, como se soubesse de algo.
Ele veio avaliar. É meio velho pra esta aula.
Não, Karen…
Ele está observando e tomando notas.
Alguém sabe o que é paradoxo?
Ninguém?
Bom, paradoxo é quando temos duas ideias que parecem ser opostas,
mas que, na realidade, representam uma verdade.
Alguém sabe um exemplo disso?
"Há males que vêm para o bem."
Sim, tem um paradoxo aí.
Vamos! Não me façam passar vergonha.
"O que vem fácil, vai fácil."
"O que vem fácil, vai fácil." Obrigado, Romina, muito bem!
Alguém mais?
"A cavalo dado não se olha os dentes."
"A cavalo dado não se olha os dentes." Tá, qual seria o paradoxo aí?
Não? Talvez não tenha paradoxo nesse ditado.
Mas continuem falando. Anotamos e vemos quais têm e quais não têm.
Ótimo, mas lembrem de entregar os deveres.
Senão, não poderemos avançar. Certo?
Aula que vem começaremos outro tópico.
Entenderam?
Desculpa, licença.
Tem um minuto, Clara?
Sim.
- Tchau. - Tchau.
Até mais.
E essa invasão de inspetores?
Nem me fale. O meu…
Do que precisa?
A Mayomi não está vindo. Quero falar com os pais.
O pai dela está bravo. Não sei se convém.
Sabe onde eles moram?
Sei.
- Vim trazer os cartazes. - Obrigada.
Tenta usar este.
- Até amanhã, Luna. Tchau. - Até mais, descanse.
Corre! Rápido!
- Bom dia. - Oi, tudo bem?
Bom dia.
- Miriam, oi. Tudo bem? - Professora.
- Tudo bem? - Queríamos falar com você.
Este é o Lucio. Também é professor da Mayomi.
- Oi, prazer. - Seu marido está?
Está, sim.
Podemos entrar?
- Sim. - Vai ser rapidinho.
Tudo bem.
Entrem.
Muito obrigado.
Ela é uma ótima aluna.
Ela precisa continuar indo às aulas.
Seu argumento é perfeito.
Sim, ela é uma boa aluna. É ótima.
Mas te pergunto, Clara… Você, que é mãe…
Se estivesse na situação em que estamos,
deixaria sua filha ir pra escola?
Quero que seja sincera e me diga.
Sim, mas precisam confiar na Mayomi.
Ela não vai se envolver com coisa errada.
Precisam confiar em nós. Tem adultos ajudando…
O problema é que, hoje em dia,
os jovens são influenciados pelos colegas.
- "Fume uma erva, senão…" - Isso não acontecerá, David.
Ela é inteligente demais pra isso.
Me dá um motivo pra eu dizer: "Volte pra escola."
O futuro, David. O futuro dela.
Tenho uma pergunta, David.
O que vai ser da Mayomi? Vai perder o ano?
- Essa é a questão. - É, David.
- Vamos pensar. - Como seria?
Não podemos tirá-la da escola.
A Mayomi pode terminar o colégio e ir pra faculdade. Ela é muito capaz.
Escutem, vou conversar com minha esposa.
Não prometo nada, mas nós vamos conversar.
- Obrigada. - Certo?
- Sim. - Pronto.
Obrigado.
- Imagina. - Obrigada.
Hora de levantar. Bom dia.
Vamos, dorminhoca. Está tarde.
Não quero ir.
Como não? Tira um cochilo depois.
- Não vou discutir. - Não quero ir!
Não importa, vamos. Chega, calça o sapato!
- Não vou! - Calça no carro.
Pode calçar no carro, tanto faz. Não!
Coloca o sapato, ou eu coloco pra você. É pra colocar?
Chega, Sol!
Isso é inacreditável!
Tenho que te levar arrastada?
- Calça o sapato. - Não vou calçar!
Sol, nem que vá descalça, você vai fazer a prova de admissão.
Ficou claro?
Me deixa.
Desculpa, querida. Perdão.
Me desculpe.
Fiquei nervoso. Desculpa.
Não.
Não precisa ficar nervosa. Está preparada, vai se sair bem.
- Bom dia. - Olá, tudo bem?
- Sol Garmendia. - Deixe-me ver.
Aqui está.
- Licença. Obrigado. - Por nada.
Toma, filha.
Muito bem…
Fica tranquila. Vamos.
Sol.
- Revise antes. - Larga de ser chato!
Tá.
Pai, te mandei mensagem, e você não responde. Estou preocupado.
Está tudo bem?
Me liga, por favor.
Olá. Documento?
Sou professor.
E eu sou policial.
É, muito engraçado.
- Calma. - Você me conhece.
- Pra que tanta seriedade? - Tá.
Matéria?
Literatura. Sou o suplente.
Pronto.
Certo.
Não vou torturar vocês lendo nem escrevendo.
Vamos conversar.
Pode ser?
Sim.
O que sabem dos alunos que não estão vindo?
Karen, sabe algo do Dilan?
O Walter não pode vir aqui porque é dedo-duro.
Não é. Ele só disse a verdade.
O Walter não vai voltar.
Foi pra capital com a mãe. Ele tem parente lá.
Então ele não volta.
Ele te disse isso? Que não volta mais?
A gente fica sabendo. Só isso.
Certo. E…
E o Kevin?
- Romina? - Não, professor.
Não o vi depois daquele dia.
A Mayomi voltou.
- A Mayomi voltou, sim. - Bem-vinda.
- Obrigada. - Sentimos saudade.
Estamos muito felizes.
Bom dia.
- Bom dia. - Bom dia, senhor.
Pode esperar lá fora? Estamos conversando. Aviso na hora da aula.
Conversem à vontade.
Não estamos falando da matéria. É só uma conversa. Eu te aviso.
Mas tenho que observar.
Com você observando, não nos sentimos à vontade pra falar.
É o meu trabalho.
Mas está complicando o meu.
Está me expulsando?
Estou pedindo que espere lá fora.
Está me expulsando.
Sim.
Ele vai dizer que o expulsamos.
Dedo-duro.
Bom…
Boa, professor.
- Fez bem. - Obrigada.
Onde estávamos?
Sabe como é difícil fazer a turma se soltar, começar a participar.
São adolescentes, expressam o que vivenciam.
Estamos indo bem. Lendo poemas, escrevendo contos.
Quando enfiam um desconhecido na sala, não dá.
Os alunos ficam inibidos. Não tem jeito.
Ele está fazendo o trabalho dele.
Estou fazendo o meu. O trabalho dele interfere no meu…
No meu, não?
Nossa, como você é soberbo!
Se enxergue!
Acha que gosto de ficar numa escola com alunos vendendo droga,
com pais querendo minha cabeça, com a Promotoria ligando o dia todo?
E com o Ministério trazendo gente para as salas?
Mas venho assim mesmo.
Enfrento isso todo dia. Estou aqui.
Sabe por quê?
Por uma única razão.
Porque acho que vale a pena.
Podemos conversar?
- Agora? - É rapidinho.
Já volto.
Quero pedir desculpa pelo que houve. Eu errei.
Mais alguma coisa?
Não, era isso. Desculpa.
- Até amanhã. - Tchau.
- Tchau. - Até amanhã.
Levou bronca da Amalia?
Mais ou menos.
Mais ou menos?
Eu te levo em casa.
- Tá. - Meu carro está ali.
Mas dá pra ir andando. Moro do outro lado da ponte.
A gente bebe algo. Vem.
- O que está olhando, Aguirre? - Nada. Estou pensando.
Pensando no quê?
Nada.
Pode falar. Eu não mordo.
Achei que não duraria um dia na escola.
Também achei.
Falta muito?
- Dez andares. - Quê?
Mentira. Só mais um.
Está cansado?
Um pouco.
- Tchau, pessoal. Até mais. - Até.
Oi, Susi.
O que faz aqui, professor?
Estava aqui perto e quis beber algo.
E o Dilan?
Que Deus o ajude!
Eu queria falar com ele.
Não faço ideia de onde ele esteja.
- Não sabe? - Não.
É rapidinho.
Não posso contar o que não sei.
Um grande e forte abraço a todos os vizinhos de La Isla…
Obrigado, Su. Trago o dinheiro amanhã.
Está tudo bem, Cacho?
BANHEIROS
Dilan.
Dilan!
- Parado! No chão! - Espera!
O que está fazendo?
- O que faz aqui? - Estava te procurando.
Como me achou?
Imaginei que estivesse aqui. Por que está com isso?
Como está?
Mal. Se não fosse a Susi…
Por que não volta pra escola?
Não posso. O pessoal do Cachorro quer me matar.
- O pessoal do prefeito não te protege? - Preciso de ajuda.
- Me faz um favor? - O quê?
- Conversa com o Chileno. - Sobre o quê?
- Ele tem gente fora da cidade. - Falou com ele?
Ele não me escuta. Diz que fiz merda.
E fez. Olha a confusão que arrumou! Olha como está!
- Fala com ele. - Por que ele me escutaria?
- Ele é seu pai. - E daí, Dilan?
Você não conhece o Chileno.
Você é persistente.
Ele é confiável?
Sim.
Como sabia que ele estava envolvido?
- Ele é meu aluno. - Certo.
- Tem gente fora da cidade? - Não. Aquele burro que se dane!
O Dilan precisa aprender a ser esperto. Ele é grandinho.
Ele tem 16 anos.
Pois é, 16 anos. Ele já é um homem.
Toma uma água.
Obrigado.
Oi, Sr. Roberto.
- Oi, querida. - Tudo bem?
Tudo, obrigado.
Podemos entrar.
Obrigado.
- Vamos. - Não quero.
Vamos, pai.
Eu não quero.
Venha.
Todos temos dias ruins.
Sim. Está tudo bem.
- Descansou à noite? - Sim, obrigado por perguntar.
LITERATURA NÃO SERVE PARA NADA
E aí?
Só pode ser um motim.
Oi, linda.
Vamos?
Não quero ir.
Querida, o que foi?
Estou com dor de barriga.
Será que cagaram na calça? E não foi de rir.
É um vazamento de gás letal!
Tá, para!
Tudo bem.
Se sairmos agora, chegamos a tempo.
Explico aos professores, sem problema.
Não quero mais tentar entrar naquela escola. Já chega!
Mas, querida… Olha…
Qual é o problema? Está indo bem, falta pouco.
- Mas… - Quê?
O prédio é horrível. E o pessoal não tem nada a ver comigo.
Sol, está exagerando.
Nós te achamos capaz.
- Pena que nem tenta… - Mãe, eu tentei!
- Bom… - Morri de estudar. Não gostei.
Pode estar só com medo de falhar.
- Ou você que está. - Sol, por favor, você tem 11 anos.
- Doze. - Tá, você tem 12 anos!
Por favor, né?
Tenho idade pra saber do que gosto e do que não gosto, não?
Tudo bem. Vamos ficar calmos.
Dá pra fazer a prova.
- É só levar um atestado. - Não quero! Quantas vezes preciso dizer?
- Chega! Me deixa! - Tá.
- Vou pedir pra Mercedes. - Não quero!
Chega. Já deu.
A Esnaola é a escola ideal pra ela.
Tem aula de música.
A Cami e a Rocío vão estudar lá.
- Acho que… - A Sol quer ficar com as amigas.
É fácil de entrar, só tem prova de instrumento musical.
Mari, faz o que quiser. Eu desisto.
Cuidado, está quente.
Você é tão teimoso quanto ela.
Como tem passado?
Bem.
E…
Está namorando?
Sim.
Estou namorando.
Você está namorando?
- Quem é? - Sou eu, professor. Dilan.
O que faz aqui?
E aí? Surpresa!
- Já comeu? - Mas…
Oi.
O que fazem aqui? Não devia estar aqui. Como está?
Estou bem.
Além disso,
você tem razão.
Não podemos soltar a mão deste idiota aqui.
Poderia tomar um banho, né?
Ele pode?
Sim, claro. Vem.
Vai lá.
Aqui.
Tem xampu e sabonete ali. A torneira quente é aquela.
Então, tá.
O que deu em você, pai?
Não ouviu o que o médico disse? Precisa de repouso.
Eu estou bem.
Falei com minha amiga Medina, do Uruguai.
Ela tem um sopão lá.
Ela vai acolher o Dilan até a poeira baixar.
Ele vai estudar lá?
Se não estudar, eu o mato.
Lucio…
precisa resolver isto.
Estou velho demais.
Glória e louvor
Honra sem igual
Pelo maior dentre os maiores
Pai da sala de aula Sarmiento imortal
Glória e louvor
Honra sem igual
Pelo maior dentre os maiores
Pai da sala de aula Sarmiento imortal
Vou deixar isto aqui, caso sinta frio.
Professor, já escreveu um livro?
Como assim, "um livro"?
Um livro. Com histórias, contos, essas coisas.
Escrevi um romance há um tempo.
Só um?
Sim.
Tá, vai dormir.
Com licença, quarto 37?
Primeiro andar. Mas não é horário de visita.
Precisa esperar, não pode subir.
Como eu ia dizendo…
Aonde vai, senhor? Espere aqui.
Aonde vai? Precisa ficar aqui.
- Não pode… - Senhor!
Senhor, fique aí.
- Por favor. - Ei!
- Senhor, não pode entrar. - Fique aí!
Senhor!
Por favor.
- Pare! - Senhor!
Não pode ficar aqui!
- Senhor, abra a porta! - Abra!
Saia daí, por favor.
Estamos pedindo com educação.
Abra a porta.
Está com medo?
Não.
Agora não. Volte no horário de visita.
Vem, precisa vir comigo.
Eu te amo muito, pai.
E eu amo você.
Se precisar de algo pra cozinha comunitária, me avise.
Adoro ajudar.
Mesmo estando do outro lado, respeito seu pai.
Pena que ele não quis trabalhar comigo.
Podíamos ter feito muito pelo bairro.
Quem é você?
Professor,
não vai lavar a mão?
Não? Que estranho!
Tem que lavar a mão depois de fazer xixi.
Olha…
Diga uma coisa ao prefeito.
Não conheço o prefeito.
Um filho deve saber o que o pai faz. Ainda mais se o pai não está por perto.
Quer negociar comigo?
Só estamos conversando.
Quero que o Dilan possa voltar pro bairro.
Então quer que eu faça vista grossa?
E a disciplina?
O Dilan é uma criança, não pensou nas consequências.
Não.
Tem um código no bairro. "Com a escola a gente não se mete."
É território neutro.
- Quem pôs drogas lá? - Pergunta pro seu amigo prefeito.
- Não é meu amigo. Não o conheço. - Se ponha no meu lugar.
Se ponha no meu.
O Dilan é meu aluno.
Senhor
Senhor Pirulero
Cada um toca seu instrumento
E quem não tocar Tem que pagar prenda
É aqui?
Acho que é na esquina.
Sim, tem que virar.
- Pode parar. - Aqui?
- Sim. - Tem certeza?
Sim, eles me conhecem.
- Fique no carro. - Vou com você.
- Não. - Não, Clara.
Que teimoso!
- Bom dia. - Oi.
Tudo bem?
- Oi, Brian. - Oi.
- Sabem onde a Roxana está? - Quem é esse?
Professor na escola. Relaxa, ele está comigo.
Estamos ajudando o filho dela, nosso aluno.
- O Dilan? - O Dilan.
- O que ele está arrumando? - Nada.
É melhor não aparecer aqui.
- Pode buscá-la, por favor? - Vou buscar.
- Olá. - Oi.
- Tudo bem? - Tudo.
Bom dia.
Oi, Roxana!
Oi, Roxana. Sou o Lucio, professor de literatura do Dilan.
Podemos conversar?
Tá, pode ser.
Posso entrar?
Tá, entra. Vem.
Vem.
"…autoriza que o filho menor de idade, Dilan Ernesto Sarabia,
de documento número 46.567.787,
viaje sozinho a qualquer país do mundo, usando qualquer meio de transporte,
devendo voltar para casa quando retornar."
Assine aqui.
Obrigada.
- Boa tarde pra vocês. - Boa tarde.
Obrigada.
Ótimo. Obrigado, Roxana.
Já fez a mala?
Cuida dos seus documentos. Não podem molhar.
Roxana, dou notícias assim que der.
Ele vai chegar bem.
Muito obrigada.
Alô?
Oi, tudo bem? Ele está bem?
Mas como?
Certo, obrigado.
- Professor, está tudo bem? - Estou bem.
- Tudo bem? - Precisa de água?
- Não, estou bem. - Traga uma água.
- Quer se levantar? - Estou bem.
- Quer se sentar um pouco? - Não, obrigado.
Só preciso de um minuto.
Fiquei um pouco tonto.
Ao chegar, entregamos o caixão aos funcionários do cemitério.
Embora a dor da perda de um ente querido
encha os corações de tristeza,
vamos reavivar a chama da fé.
Que a esperança que Cristo acendeu em nós
guie nossas orações!
Para que entreguemos nosso querido Roberto, o Chileno,
nas mãos do Senhor.
Pai todo-poderoso,
Roberto está em suas mãos.
Bom dia, vizinhos e vizinhas.
Viemos aqui hoje
inaugurar a cozinha comunitária do nosso querido Chileno.
Quero agradecer a ele antes de qualquer pessoa.
Chileno, onde quer que esteja,
obrigado por se importar tanto.
Obrigado.
NINGUÉM SE SALVA SOZINHO
Sim, senhor…
Por sempre cuidar de quem mais necessitava.
Porque foi o Chileno que começou isto aqui dez anos atrás,
dando comida às crianças do bairro.
Primeiro no Orfanato El Cielito, depois na padaria La Amistad…
- E aí? - Oi, irmão.
O que está fazendo?
Só vim à inauguração.
Está bem legal, né?
E o ensopado?
Está gostoso. Meio salgado.
- Salgado? - É.
Mas está bom, é gostoso.
Por que não experimentamos?
O que é isso?
- Um suquinho. - Que suquinho?
- Para. - Que suco é esse?
Dá licença.
Amigo, ficou doido?
Estou cuidando de você.
- Tem criança aqui! - Criança? Estou te protegendo.
Não está vendo? Só vão vomitar. É um recado do Cachorro.
Virou cachorrinho dele?
- Não sou cachorrinho. - Pra que isso?
- Sabe o que é isso? Sua mochila. - Não é minha mochila.
Se eu quisesse, teria ido embora. Que loucura é essa?
Quer saber? Você está ferrado.
- É pra te redimir. - Estou fazendo tudo certo.
Fazendo o quê?
Vou embora, não vou causar problema.
Está ferrando com o professor.
- Tudo bem, professor? - Tudo. E você?
Oi, Blanquita. Tudo bem?
- Tudo, e você? - Vai comer aqui?
Não, tem gente me esperando. Já vou.
Tchau.
Não faz merda.
- Está bom. - Tá.
- Em cinco minutos… - Tchau.
Tchau, Kevin.
- Por que ele estava aqui? - Sei lá!
- Contou pra ele? - Não.
- Tem certeza? - Sim.
Vamos embora quando acabar. Fique no jeito.
- Já vamos servir a comida. - Tá.
Dilan…
Me ajuda com essa panela. Vamos levar pra lá.
Seguiremos trabalhando juntos, mas falta solidariedade.
Esqueçam interesses pessoais e políticos.
Não coma! Não comam!
Colocaram coisa aí! Avise.
Não comam. Não é para comerem.
A comida não está boa. Não comam.
Dilan.
Vai, professor!
Não!
Cuidado.
Fique abaixado.
Obrigado por tudo. Não vou decepcionar o senhor.
Vai lá.
Comporte-se.
Bom dia, querida.
Acorda.
Meu quadro está virado.
Como assim?
É assim.
Espera, eu ajudo.
- Em pé, assim? - Sim.
Então eu entendi errado. O que é?
É uma vela.
A chama está ali.
Claro.
Eu tinha entendido errado.
- Bom dia. - Oi, meninas!
- Oi! - Oi, bom dia!
- Bom dia, professor. - Bom dia.
Bom dia.
- Como estão? - Bem.
- Tudo bem. - Ótimo.
Tudo bem?
Tudo tranquilo. Pelo menos é sexta.
Fico feliz.
O que é isso?
- Um corpo humano. - Um corpo humano, boa.
Mayomi, pode me mostrar onde fica o coração?
Posso.
- Fica aqui. - Muito bem.
E o cérebro?
Está aqui.
Aí dentro, sim.
Os rins?
Estes dois.
Muito bem.
A alma?
Não sei onde fica a alma.
Certo, obrigado.
Da Grécia Antiga até hoje,
todas as civilizações ao longo do tempo alegam que existe alma.
Platão considerava a alma a dimensão humana mais importante.
Mas não tem como comprovar cientificamente.
Então não aparece no cartaz.
O que vocês acham?
Quando alguém morre, por exemplo…
- O que resta? - A alma.
A alma?
Quando dizemos:
"Dói até na alma." O que queremos dizer?
Que dói até em lugares que não vemos.
- Isso. - O sentimento vai além da dor.
Não dá nem pra descrever.
Sim.
É tipo dizer: "Cada fio de cabelo dói."
- Sim. - Ou: "Te amo de corpo e alma."
"De corpo e alma."
A alma tem alguma coisa que não conseguimos entender.
- Tem um sentido… - Muito profundo.
- Como é? - Profundo.
- Profundo. - Inexplicável.
Inexplicável.
- Mas então a alma existe? - Sim.
- Têm certeza? - Sim.
Está escondida em algum órgão?
Claro que não, professor.
Não dá pra ver nem tocar.
Por isso não está no desenho.
Claro.
Mas pra que serve?
Ela tem utilidade?
Digerimos com a alma? Respiramos com a alma?
Podem me dizer se a alma serve para algo?
Não serve para nada.
Bom, serviu para te acordar, Richar.
- Bem-vindo. - Obrigado.
Todos foram aprovados.
Espero que tenham ótimas férias.
E nos vemos ano que vem. Parabéns.
Boa, professor!
- Professor! - Boa, professor!
Já está bom!
Professor!
Está bem!
Já chega!
Ótimo. Muito bem.
Muito obrigado, mas a aula não acabou.
Querem sair correndo, né? Não.
Vamos fazer mais um exercício. Um exercício de despedida.
Já foram aprovados, o exercício é para nós mesmos. Tá?
Quero que escolham uma parte do corpo
e um sentimento.
E que escrevam o que quiserem sobre isso.
Vamos lá. Muito bem!
Tá.
Me empresta uma caneta?
Não tenho.
Obrigado.
- Toma. - Obrigada.
Legendas: Raissa Duboc
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