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Original subtitles

O ROMANCE DE MADAME WALEWSKA

Este filme narra um amor histórico.

Os detalhes apresentados pelo autor

preservam o espírito deste romance imortal.

JANEIRO DE 1807 LESTE DA POLÔNIA

Abram em nome do czar da Rússia!

Estamos na Polônia. Não recebemos ordens do czar!

- Água para os cavalos! - Mas, excelência...

Vá você, rápido!

Isso que chamo de conforto, Vladimir!

Quem é você?

Sou o Conde Walewski. É uma honra tê-lo em minha casa.

- Um nobre polonês! - Com a graça de Deus.

Pedirei aos criados que lhes tragam lenha, senhores.

Madeira cheira melhor que tapeçarias antigas.

Reconheci-o imediatamente, excelência. Pelo quadro.

Anastas...

Ora, mas que surpresa é essa, Wladi?

Volte já para seu quarto.

Como pode mandar uma mulher tão encantadora para seu quarto sozinha?

Por que não estava aqui para nos receber?

Espero que meu marido os tenha recebido bem na minha ausência.

Marido! Ouviu só, Wladi? Este é o marido dela!

Não se preocupe. Daremos um jeito nisso!

Os franceses!

Todos aos seus cavalos!

Voltarei, minha condessa polonesa!

- Oh, Anastas. - Não faz mal, Marie.

Não deveria ter descido, Marie, mas me orgulho de você.

Não aconteceu nada. Foi um pesadelo.

Um pesadelo que compartilhamos com os móveis.

Os lanceiros poloneses. Deus seja louvado!

- Senhor Paul! - Stephan.

Paul!

Deixe-me vê-la! Como você cresceu!

Uma verdadeira dama! Está estonteante!

Oh, Paul, Paul, Paul.

É o senhor Paul, Conde. Ele voltou.

Anastas, este é meu irmão Paul. Meu marido.

- Fico muito feliz de conhecê-lo. - Obrigado, senhor.

Seja bem-vindo a nossa casa.

Os cossacos?

Não permita que isso estrague sua volta ao lar.

Obrigado, senhor.

Nossos visitantes reorganizaram a sala à moda russa!

Mas não será por muito tempo.

Anastas, onde você está?

Pélagia.

Apresento-lhe o irmão de Marie, Tenente Paul Lachinski,

dos lanceiros poloneses junto ao exército francês.

Eu conheço Sua Majestade.

Minha irmã, Pélagia Walewska.

Não se lembra nada dos últimos 40 anos.

Para ela, a Polônia ainda é gloriosa.

A Polônia voltará a ser gloriosa, madame.

Stephan, acenda o fogo no salão para o Sr. Paul.

Não precisa, Stephan. Não posso ficar, Marie.

Preciso conduzir meu destacamento até Yarnov.

Não pode ficar por um dia?

Sinto muito. Tive sorte de poder passar aqui só por um momento.

Sorte nossa, meu caro Paul.

Trago ótimas notícias: o Imperador está na Polônia!

Napoleão está aqui? Então estamos livres!

Espero que sim.

Então houve uma festa? Por que nunca me contam nada?

Já basta por hoje!

Majestade...

Se me dão licença, para mim já basta por hoje.

Como sua estadia será breve, Paul, dedique seu tempo a Marie.

- Tem certeza de que está bem? - Estou bem, minha querida, obrigado.

- Boa noite, querida. - Boa noite.

Que o grande conquistador, em quem você tanto confia,

seja tão bom para a Polônia quanto você é comigo.

E como você é comigo, Anastas.

Deus o acompanhe. Espero que nos encontremos novamente em breve.

Espero que nos encontremos novamente em breve.

Está exatamente como imaginava. Não mudou nada.

Você também não. Mas mudou o penteado.

Era de se esperar. A última vez que me viu eu usava tranças.

Eram ótimas para puxar.

Agora que sou condessa você não faria mais isso.

E por que não?

Hoje temos pato, senhor Paul. Ainda gosta?

Se gosto! Corro atrás do cheiro de olhos fechados.

Fico feliz que tenha trazido Stephan com você.

É bom ter alguém lá de casa.

- Casa... oh, Paul... - Esta aqui é majestosa!

Condessa, ainda escreve "Ns" nos vidros gelados das janelas?

Os meus saíam sempre ao contrário.

E íamos fugir para nos alistarmos ao exército de Napoleão.

Os homens é que têm sorte.

- Você o conhece, não é, Paul? - Não intimamente.

- Você o vê com muita frequência? - Quase nunca. Sempre à distância.

Fale-me sobre ele, Paul.

Ele é a esperança do mundo, Marie.

Pense só...

com 30 anos, passou de cadete a Imperador da França.

É tão estranho viver no mesmo mundo que ele e não o ver.

- Um dia, quem sabe? - E como é a imperatriz?

Bem mais velha, filhos crescidos.

Mas nenhum filho dele.

O Conde Walewski também tem filhos, não tem?

Meu caro, tenho um neto da sua idade.

Talvez um pouco mais velho.

O conde é um homem encantador e distinto.

Não é mesmo?

Já viu alguém tão cortês, generoso e tão verdadeiramente nobre?

- Você está feliz? - Claro que sim.

Quero tudo de bom para você.

Mas não quero tudo. Só quero ver nosso país livre.

Fale-me mais do imperador.

Até hoje ele dorme num catre, como um soldado qualquer.

Não liga para comida e é incansável.

Trabalha mais que qualquer um de nós.

Sabe mais que qualquer pensador no mundo!

Quando passa pelos feridos, eles parecem reconfortados, orgulhosos,

e morrem felizes, como se ele fosse um deus.

Então será Deus que salvará a Polônia!

Volver! Marchar!

Infelizmente tenho que seguir para Yarnow.

Se ficasse aqui, talvez pudesse ver o Imperador.

- O Imperador aqui? - Ele trocará de cavalos em Bronie

daqui umas 2 horas.

Em Bronie?

- Deus a abençoe, irmã. - Deus o abençoe.

Regimento! Avante!

Está frio aqui, Condessa Marie.

Prepare o trenó e os cavalos, Stephan. Vou para Bronie.

Para Bronie?

Vamos esticar as pernas.

- A Polônia é dura para os cavalos. - Pior para nossa coluna.

Não entendo por que a Rússia e a Prússia se deram a tanto trabalho para dividi-la.

Era a única presa ao alcance!

Se é para guerrear no inverno, antes fosse mais perto de Paris.

Se você fosse Napoleão, Duroc, com certeza seria.

Sempre uma piada!

Saia daí!

- O que foi, D'Ornano? - Uma mulher, Majestade.

Saia daí!

Quem é você?

- Marie Walewska. - Marie Walewska.

- Veio aqui para orar? - Sim... não, Majestade.

Majestade? Então sabe quem sou.

Sim, Majestade, soube de imediato.

O que faz aqui, Marie Walewska?

- Tinha que vir, Majestade. - Como assim? Foi mandada? Por quem?

Por ninguém, Majestade.

Mas está na Polônia, no meu país, finalmente.

O momento que eu sonhava desde que era...

Ah, uma patriota!

Preciso conhecer melhor os poloneses.

A carruagem está pronta, Majestade.

Você é real ou nasceu de uma montanha de neve?

Como Sua Majestade preferir.

A neve desaparece, Prefiro que seja real.

Bastante real.

- Senhor. - Sim?

Os cavalos estão prontos. Ainda faltam 40 km até amanhecer.

Muito bem. Marie Walewska.

Precisamos erguer um templo aqui, D'Ornano.

DUAS SEMANAS DEPOIS

PALÁCIO DO PRÍNCIPE PONIATOWSKI

VARSÓVIA

Varsóvia é maravilhosa!

Frequentei muitos bailes assim antes que nossa Polônia fosse dividida.

- Meu caro Walewski! - Senador!

- Os cossacos sabem usar chicotes. - Meu pobre amigo!

Queira Deus que nossos anos de vassalagem estejam contados!

Se Napoleão consentir, Deus há de querer.

Marie, este é nosso grande estadista e patriota, Senador Malachowski.

- Minha esposa. - Madame!

Beijo a mão que recusou abdicar da nossa independência.

Obrigado.

Duque de Talleyrand, Príncipe de Benevento, Ministro das Relações Exteriores

e Grande Camarista de Sua Majestade, o Imperador.

O Imperador chegou.

Vamos aos nossos lugares, querida. Seremos apresentados ao Imperador.

Apresentados ao imperador?

É a surpresa que lhe prometi.

Sua Majestade, o Imperador.

Senador Malachowski.

Eu também, Senador,

sempre me recusei a aceitar ditames dos inimigos da minha pátria.

Conde Potowski.

Conheço a história de sua ilustre família, Conde.

- Preciso contar-lhe uma coisa. - O que foi, querida?

Bem, eu... eu...

Conde e Condessa Nicolai Stakowska.

Na minha velhice poderei escrever: "Durante meu reino, a beleza prosperou."

Príncipe e Princesa Novomirska.

- Condessa Votowska. - Condessa.

Cumprimentá-lo, Majestade, é entrar para a história.

- Acha isso bom? - Oh, Majestade!

- Príncipe e Princesa Mirska. - Princesa.

Que felicidade é viver na sua era, Majestade.

- Compartilho da sua felicidade. - Majestade.

O Camarista, Conde Anastas Walewski e a Condessa Walewska.

Seu filho, Conde Augustus Walewski e a Condessa Augustus Walewska.

Walewski... O nome me é familiar.

É neta do Camarista?

Sua esposa, Majestade.

Sua esposa... É camarista de quem, Conde?

Do último rei da Polônia, Majestade.

Isso foi há quase 40 anos. Devia ser muito jovem.

Tenho 75 anos, Majestade.

- É sua primeira esposa? - Minha terceira, Majestade.

Devo congratulá-lo pelo extremo bom gosto.

Quantos anos tem, madame?

Se é uma ordem, Majestade,

seria uma que toda mulher tem o direito de desobedecer.

Resposta corajosa.

Jamais esqueço um ato de coragem, tanto de homem ou mulher.

- Este é seu filho? - Sim, Majestade.

-Eeste? - Meu neto.

Minhas congratulações.

Para uma avó, está extraordinariamente bem conservada.

Pena não a ter conhecido mais jovem.

Conde e Condessa Igor Ougenska.

O que ja me dizer?

Não era importante.

Talleyrand, este baile ofusca os seus.

Não há demérito em ser ofuscado por amigos, Majestade.

Companheiros, cuidado com meu Ministro.

Ele lhes prometerá tudo e lhes dará, bem...

muito menos.

- Enquanto eu lhes prometo nada... - Nada, Majestade?

Nada, Senador, mas lhes darei muito mais.

Não esperamos promessas.

Despachou seus soldados numa nova mobilização

porque representa um novo espírito na Europa.

Meus soldados são tão valentes quanto os poloneses.

Admiro-os tanto quanto os franceses.

Com emissários dessa estirpe, há grandes esperanças.

Lindas mulheres. Imagino que os vestidos sejam de Paris.

O que mais exportamos, além da liberdade.

Não sabia que a liberdade era tão importante para você, Príncipe.

Tudo que aprendi foi com Vossa Majestade.

Estamos prontos para dar nosso sangue, Majestade.

Talleyrand lhes dirá o que precisamos.

- Esse Conde Walewski... - Sim, Majestade?

Deve ser muito rico para sustentar uma mulher tão linda e jovem.

É muito rico.

Precisamos muito de vossa proteção, Majestade.

Minha presença aqui é uma prova de amizade.

Essa Condessa Walewska deve ter sido muito pobre.

Ela era, Majestade.

Agradecemos sua solidariedade, Majestade.

Infelizmente isso não basta para impedir que os inimigos nos dividam.

Precisamos de sua proteção, de uma aliança que nos dê segurança.

Comprometo-me a zelar pelos seus interesses.

Duroc.

- Está sendo atrevido, Capitão. - Não é minha intenção, quero ser sincero.

- Capitão D'Ornano. - Marechal.

Condessa, apresento-lhe o Marechal Duroc.

Concederia a honra da primeira dança, madame?

Sinto muito, já está prometida ao Capitão D'Ornano.

Sua Majestade sugere que o Capitão vá descansar,

a viagem foi exaustiva.

Perdoe-me se fui acometido de um súbito cansaço.

Se o Imperador me permitir, eu o perdoo.

Mas nada impede...

que eu sonhe com a senhora.

Se eu conseguir dormir.

Devia tê-la trazido junto comigo de Bronie.

Estaria infringindo as regras, Majestade.

Foi um dos meus poucos erros.

Ainda bem que a campanha está apenas começando.

- Danço bem, Condessa? - Vossa Majestade dança lindamente!

Deve ser por inspiração sua.

Está chamando a atenção, Majestade.

Não seria a primeira vez. Alegro-me de vê-la de novo.

Está infringindo as regras, Majestade.

Formem fila!

Viu como as regras seguem a conduta?

Pode me ver amanhã, Condessa?

Não, Majestade.

Naquela noite foi me ver, não foi?

Mas não para ser vista.

Naquela noite segui um impulso de culto a um herói.

Não pode seguir esse impulso de novo?

Sim, Majestade, mas à distância.

Devo entender que se decepcionou, madame?

- Não, Majestade... - E então?

Tenho medo de me decepcionar, Majestade.

Está sendo descortês!

Não foi minha intenção, Majestade.

Estão nos olhando, Majestade.

Perdão, não estou acostumada a isso. É minha primeira visita a Varsóvia.

Minha também. Que bela coincidência!

Amanhã compararemos nossas impressões.

Mandarei Duroc pegá-la. Ele a conduzirá a mim.

Tenho um marido, Majestade.

Ele tem o dobro da sua idade!

Ele tem sua dignidade, sua honra e seu orgulho.

Assim como eu, Majestade.

Agora entendo. É o orgulho que têm em comum!

Isso não condiz com um conquistador, Majestade.

Quando tiver conquistado, Condessa, poderá dar-me lições!

Não pretendo ensinar-lhe nada. Permita que me retire, Majestade.

Está sendo presunçosa!

- Acaba de destruir um deus, Majestade. - Não estamos em tempos de deuses.

Julgava que os houvesse recriado. Vejo que me enganei.

Duroc.

Nunca o vi tão animado.

Cavalheiros, eis ali sua embaixadora.

Só consigo pensar e sonhar com você.

Meu carinho por teu país só aumentaria

se te apiedasses da minha solidão. N.

Começo a achar que seu Imperador a admira, minha querida.

Guardo esta junto com as outras?

Ele é muito ágil, este seu Imperador.

Deve ser preciso já que pretende conquistar o mundo.

Mas não para conquistar um salão de baile ou uma mulher, não acha?

- O que devo fazer? - Fazer?

Essas cartas, essas flores, esses insultos a você.

Que tal irmos para o interior, longe disso tudo?

Sim, seria uma boa ideia.

Claro que seria.

Sua Alteza, Príncipe Poniatowski, Sua Excelência, Senador Wabitchka.

Meu caro Príncipe...

Senador... Senador Wabitchka.

- Espero não incomodar. - Sejam bem-vindos.

Com licença.

Peço que fique, Condessa.

Ainda não conseguimos a palavra final do Imperador.

O Duque de Talleyrand é nosso amigo. Ele simpatiza com nossa causa,

mas não pode garantir nossa independência.

Nossos esforços com Napoleão têm sido inúteis.

Obrigado, madame.

Ele não nos promete nada.

Agora nos pede mais 40.000 homens,

mais cavalos, canhões, equipamentos...

Malakovski já deu toda sua fortuna para o exército de Napoleão.

A questão é que, se recusarmos, a Polônia estará perdida.

E há rumores de que Napoleão está negociando com a Rússia.

Com uma aliança entre a França e a Rússia, imaginem o que seria da Polônia.

E se aceitarmos, nem assim nos asseguraríamos.

- Por isso viemos a você. - A mim?

Sim, meu caro, só o senhor pode ajudar-nos.

Isto é...

Desculpe-me dizer, meu caro Conde, mas em certos momentos de crise

imensos sacrifícios não são exigências do povo?

Que sacrifício podemos fazer pela Polônia

que já não tenha sido feito resguardando nossa honra?

Que nossos filhos e netos já não tenham feito?

Estão sugerindo que eu possa ter êxito onde as legiões polonesas fracassaram?

É isso, senhores?

Sim.

Minha jovem... sou um velho, posso chamá-la assim.

Saiba que teríamos dado nossa vida para poupá-la disso,

como já fizemos com nossos bens e nosso orgulho.

Em vão já nos ajoelhamos diante desse homem.

Talvez com a senhora seja diferente.

Nós viemos até você por acreditar que o destino da Polônia está em suas mãos.

Sendo assim, não lhe seria uma desonra.

Talvez tenha nascido linda para que a Polônia possa ser libertada.

A senhora é mulher e Napoleão, afinal, apenas um homem.

E como qualquer outro, talvez possa ser levado a

dar sem pedir nada em troca.

Adeus, amigo.

Este foi o momento mais infeliz da minha vida.

Senhores!

Não quis aborrecer minha esposa com sua presença,

qual de vocês é responsável por esta visita ignóbil?

- Qual de vocês devo duelar? -Teria que nos matar a todos, meu amigo.

Em momentos cruciais, colocamos a honra do nosso país acima da sua.

O país é seu também, Anastas.

Por que cada vez que esse selvagem cospe

todo homem honrado deve enxugar o rosto?

Fiquem cientes que a Condessa Walewska verá esta tarde

como parte do nosso pesadelo.

Algo a ser piedosamente esquecido!

Adeus, senhores.

Em que está pensando, Marie?

Pensava se algum dia meus conterrâneos dirão:

"Lá vai Marie Walewska, que podia ter salvado a Polônia, e não salvou."

Minha querida, grandes homens também podem enganar-se.

De tanto visar o brilho da liberdade polonesa,

talvez já não enxerguem o caminho a tomar para alcançá-la.

Se é para a Polônia ser salva,

não será dessa maneira, Marie.

MEU CARINHO POR TEU PAÍS SÓ AUMENTARIA

SETE APIEDASSES DA MINHA SOLIDÃO.

Oh, madame.

Que surpresa. O Imperador ficará feliz.

Perdoe-me, madame, mas meus deveres são inexoráveis.

Continue com o soberano da Prússia.

"Caso Vossa Alteza aceite

contribuir com 300 cabeças de gado, e 40.000 homens..."

Faça 50.000. Não faz sentido barganhar.

"...e 50.000 homens, a conquista da Índia estará garantida."

Podem ir dormir. Nos veremos em algumas horas.

Então, enfim você veio!

Esperava que viesse mais cedo.

Por que não veio na semana passada, após minha primeira carta?

Receio que Sua Majestade não esteja entendendo.

Entendo perfeitamente.

Decidiu fazer-se de coquete comigo.

Nem me passou pela cabeça, Majestade.

Assim é melhor.

Aprecio coqueteria quando é instintiva.

Mas agora precisa se retratar.

Fiquei ansioso por vê-la a semana toda.

Uma semana de horas que nos teriam trazido felicidade!

Você é a única mulher por cujos favores já tive que implorar.

Entendo como lhe deve ser difícil implorar.

Até para mim...

Que adorável suplicante Você deve ser.

Vamos, Marie, tire seu casaco.

Pronto.

Sente-se.

O chapéu também. Esconde seus belos cabelos.

Assim está melhor.

Que cabelos macios.

Como os de uma criança.

Adoro esse rosto. Não tirava os olhos dele durante o baile.

Enquanto Talleyrand e os outros falavam de política eu pensava:

"Tenho que segurar aquele rosto orgulhoso em minhas mãos,

tenho que beijar aquela boca, aquela linda boca...

feita só para ser amada."

Você é tímida, Marie.

Esta não é seu primeiro caso, Marie, ou é?

- Nunca tive casos, Majestade! - Nenhum?

Só amo uma coisa: meu país!

Ajude-o, Majestade. Estamos em suas mãos.

Não permita que um povo orgulhoso implore pelo que é seu de direito!

Estão desesperados e o senhor é poderoso.

Ajude-nos, Majestade!

Nossos irmãos lutaram pelo senhor. Lutaram pela liberdade

com o mesmo ardor com que lutou pela França.

Isso não constitui um elo entre vocês e a liberdade?

Sua Majestade é a esperança do mundo.

Uma palavra sua e estaremos livres.

Diga-a, Majestade, diga!

Linda.

Você é linda, Marie Walewska.

Procurei-o como mulher.

Uma mulher desesperada pela causa de seu país.

Perdão, Majestade, mas não havia outra forma.

Falo em nome de um povo alquebrado.

Não pode me atender?

- Linda... - Majestade!

Deixe-me anunciar ao meu povo que ele está livre.

Quem a enviou?

Amo meu país, Majestade.

- Quem a mandou? - O senhor, Majestade, mandou me chamar.

Por Deus, que ironia!

Eu que detesto mulheres intrometidas,

perco a cabeça por uma que me encontra não para me agradar,

e muito menos a si mesma, mas para falar em política.

Suas cartas deixaram claro que sabia da única razão que me traria aqui.

- Pois agora está aqui... - Não de vontade própria, Majestade.

- Por minha vontade então. - Majestade...

senão por justiça, não posso demovê-lo por piedade?

Piedade é para os desprezíveis, estes não nos dizem respeito!

Pare!

Pode deixar, Stephan.

- Vá dormir. - Ouvi o trenó da Condessa Marie...

Eu receberei a Condessa.

Entre.

Voltei para ouvir minha sentença, Anastas.

Não ouso proferir as palavras que passam pela minha cabeça.

Pode sim. Faz uma eternidade que as digo para mim mesma.

Minha cabeça está um redemoinho de palavras.

Oh, Marie! Sua tola! Sua tola!

Sim... tola! Uma tola.

Partirei para Roma assim que puder. Pedirei a anulação do nosso casamento.

O palácio é seu. A renda dele auferida deverá prover seu futuro.

Adeus.

Oh... Anastas.

O que foi, Stephan?

Soldados franceses estão pedindo refúgio pela noite.

O general deles está a caminho.

Prepare os alojamentos. Veja quantos são, podem estar com fome.

Há muito tempo não vejo uma noite tão maçante na Corte.

- Perdão se a importunamos, madame. - Espero que aceite o que posso oferecer.

- Está dispensado. Aguarde instruções. - Sim, Majestade.

Espero que nos perdoe a intrusão.

Agradeceria se permitisse que meus homens pernoitassem aqui.

Coma do nosso pão e sal e seja bem-vindo a esta casa.

Se um convidado entra nesta casa, Deus também.

É muita atenciosa, Marie Walewska.

Espero que fique bem acomodado. Boa noite, Majestade.

Por aqui, Majestade.

Não precisarei de vocês. Boa noite.

Traga café e diga à sua patroa que desejo falar com ela.

Quem é você?

Quem é você?

Não seja impertinente, meu jovem. Responda. Quem é você?

Bem, olhe para mim.

Nunca o vi antes. Quem é você?

- Sou Napoleão. - Napoleão? Napoleão de quê?

Bonaparte.

Napoleão Bonaparte? Que tipo de nome é esse?

Qual sua nacionalidade?

Nasci na Córsega, adotado pela França, Imperador por merecimento.

Então é Imperador. Imperador de quê?

Imperador da França, madame.

Então é Imperador da França!

Então meu grande amigo, Sua Majestade Louis XVI,

abdicou a seu favor?

Na época ele não sabia,

mas de certa forma, sim.

Esta casa está virando um asilo de loucos!

Sinto muito, madame.

Certa vez tivemos um convidado que dizia ser o Sultão da Turquia,

mas era um bom jogador de cartas.

- Sabe jogar, meu jovem? - Já joguei algumas vezes.

Venha cá!

Por que está tão aflito, "Imperador"? Venha cá!

Sente-se.

Já que é Imperador, deve poder jogar por dinheiro.

Pode determinar o cacife.

Seu dinheiro deve ser tão fantasioso quanto seu título!

- Jogaremos pela competência. - Estou acostumado a isso. Gostei.

O que era antes de tornar-se Imperador?

- Cabo. - Como pensei. Um soldado!

Por que se diz Imperador?

Pode-se ser ambos. Alexandre era.

Todo louco acha que é Alexandre.

Agora, se Alexandre ficasse louco, quem ele acharia que era?

Napoleão!

A Senhora Condessa diz que sente muito, Majestade.

Vamos, jogue, Imperador, cabo, Alexandre!

- Também é César? - Um pouco.

-Tome cuidado! - É o que todos dizem, madame.

- Ei, o que está fazendo? A mão é minha! - Eu ganhei com uma dama.

Nunca viu uma rainha em sua vida!

Aqui está minha rainha! Além disso, tenho duas rainhas!

E eutrês. Logo deve haver 5 no baralho.

Está roubando, pequeno cabo!

Se tem três, quem está roubando é a senhora!

Como se atreve a dizer que roubei! Mandarei expulsá-lo do exército por isso!

Mais uma palavra e esqueço que sou o Imperador!

Vai se esquecer, é? Pois farei com que nunca se esqueça!

Não quero esquecer!

Isso é um ultraje!

Levarei isso ao conhecimento do Rei Louis XVI, seu trapaceiro!

- Pélagia! - Como esse louco entrou aqui?

É um trapaceiro no jogo!

Vamos dormir, já está tarde.

É um cabo e trapaceia!

Vou sair e verificar a prataria.

Eu verifico para a senhora. Vamos para a cama.

- Sinto muito, Majestade. - Majestade? Ainda dirige a palavra a ele?

- Talvez seja mais prudente. - Prudente?

Tem medo de um cabo?

Espere só!

Condessa Walewska.

Ela é uma figura extraordinária.

De fato. Boa noite, Majestade.

Fique, por favor.

É uma ordem, Majestade?

Já que insiste.

Sente-se, Marie Walewska.

Eu tinha que vir.

Vim trazer-lhe os despojos de uma vitória que não procurou:

meu arrependimento e minha admiração.

Vossa Majestade já demonstrou sua admiração fartamente.

Rogo que me poupe de seu arrependimento.

Sou seu amigo, Marie.

Nem mesmo o senhor poderia fazer de uma escrava sua amiga.

A hora para amizade já passou.

Tenho sua permissão para retirar-me?

Seinsiste.

Marie.

Há pouco, quando saía pela porta, este lugar se tornou insuportável.

Sinto-me só.

Solidão não é pouco para se pagar pelo poder, Majestade?

Devo entender que o líder da Europa,

com 1 milhão de homens prontos a dar suas vidas ele,

não pode mandar que um deles seja seu amigo?

Por que não faz um decreto abolindo sua solidão?

Apelo à sua generosidade, Marie.

Serei tão generosa quanto foi comigo.

Diz que se sente só. Mas onde encontraria um amigo?

Em seu coração? É muito cheio de si.

Em sua mente? Está ocupada com o mundo!

E seus desejos não são dignos de amizade.

Sempre será só, Majestade. Mas há de suportá-la.

É impiedoso até consigo mesmo.

Não é você quem está sendo impiedosa?

Não eu, mas a verdade.

Imagina que me conhece muito bem, não é?

Majestade, o senhor é iluminado!

Minhas vitórias são iluminadas, Marie.

Mas já conheci algumas derrotas.

Quando eu era criança na escola,

eu era pobre, tímido, malquisto. Era magro e malnutrido.

Havia uma grande lareira na sala principal e fazia muito frio.

Eu tentava aproximar-me do fogo, mas os meninos maiores me rechaçavam.

Nunca conseguia me aquecer.

Desde então nunca consegui sentir-me aquecido.

Jamais me sentirei suficientemente aquecido.

Foi uma derrota.

Aos 27 anos...

tive que deixar a mulher que amava para comandar um exército da República.

O mundo me aclamou como o Salvador da França.

Minha mulher recebeu as notícias de minhas vitórias nos braços de outros homens.

Também uma derrota.

Os laços de sangue são fortes em mim.

Alcei ao trono irmãos e irmãs.

Agradeceram-me com suas querelas, ciúmes, egoísmos.

Outra derrota.

E não tenho filho.

Ninguém.

Apenas minha mãe continua sendo...

minha mãe.

Mas até ela...

Afinal, a pessoa sofre sozinha,

morre sozinha... sonha sozinha...

Meus sonhos...

Quero conquistar o impossível:

a paz na Europa.

Vitórias geram guerras de vingança.

Guerras de vingança geram guerras de represália.

Um ciclo incessante de derramamento de sangue.

Quero acabar para sempre com esse equilíbrio instável de poder,

sinônimo de guerra à menor oscilação da balança.

Meu sonho é criar os Estados Unidos da Europa.

Uma nova ideia foi introduzida no mundo:

a democracia.

Os homens nascem livres e são iguais.

Somos seres humanos primeiro. Raças e nações vêm depois.

Quero uma Europa federativa, com uma lei comum.

Interesses comuns, felicidade em comum, esperança de futuro em comum.

E me chamam de tirano.

Assustam criancinhas com meu nome.

Isso também é uma derrota.

Na próxima vez que me vir como um iluminado,

lembre-se disso.

Boa noite, madame.

Boa noite, Majestade.

Eu te amo, Marie.

Contra a minha vontade, eu a amo.

Acredito em você.

Venha comigo, Marie.

Nunca mais ansiarei pela primavera.

Na primavera você terá que partir em combate.

Estará em perigo lutando.

Ansiarei sempre pelo inverno, quando estará seguro.

Assinei muitos tratados,

mas é a primeira vez que me sinto em paz.

DOIS MESES DEPOIS

CASTELO DE FINCKENSTEIN

PRÚSSIA ORIENTAL

Duque de Talleyrand, bem-vindo a Finckenstein!

Acho que nunca me recuperarei!

Finckenstein! Finckenstein!

O mundo está estupefato com o Imperador reunindo a corte a 900 km do nada!

Contudo, nós dois sabemos por que ele está aqui, não é, Duroc?

O senhor pode saber, Príncipe, mas eu duvido muito.

Se eu tiver razão, admitirá?

Pode continuar me provocando, mas não tirará nada de mim.

Estou velho demais para cair em armadilhas.

Bem...

não custou tentar.

Talvez o Imperador esteja aqui para ter privacidade.

Nesse caso teve êxito!

- Príncipe. - Conde Wallenstein.

- Excelência. - D'Ornano.

O Imperador o aguarda.

Infelizmente! Caso contrário eu estaria em Paris.

D'Ornano...

O emissário austríaco teve a impertinência de tentar arrancar de mim

a razão por que o Imperador está em Finckenstein.

Então o senhor sabe?

Como diplomata é meu dever saber tudo. O que acha, D'Ornano?

Como soldado é meu dever não saber de nada, Excelência.

Direi ao Imperador que chegou.

Excelência.

Informe a Sua Majestade que o Duque de Talleyrand chegou.

Está à disposição de Sua Majestade.

Ótimo! Talleyrand se divertirá com o Embaixador da Pérsia.

Continue, Constant, o que ia falar do confeiteiro?

Dizia que não é prudente deixá-lo a sós com uma mulher.

- Água fria. - Por que não?

Ele não sabe se controlar, Majestade.

Dá o bote antes mesmo de olhar!

Bote, Constant?

Figurativamente falando, Majestade.

E o que dizem as mulheres desse confeiteiro extraordinário?

Sabe como é, Majestade.

Acredito que a consciência feminina é superestimada.

Você entende como a posição delas é delicada, não é, Constant?

Sim, Majestade, sim...

- Água fria, Majestade. - Obrigado.

- Pode ir, Constant. - Sim, Majestade.

E mande o confeiteiro cuidar apenas dos seus doces!

Claro, Majestade.

Parece gostar que Constant lhe conte esses casos, não é?

Tem razão. Aprendo tanto com as fofocas da cozinha

quanto com a tagarelice da Corte.

A cozinha é um mundo em miniatura.

Que mundinho pequeno esse seu, Majestade.

- É pequeno demais para você. - Seu robe, Majestade.

Que lhe sirva de lição!

Isso que chamo de encantador. Estar aqui sozinho com você.

Sozinho, Majestade?

Com minha família, claro.

Família muito acolhedora.

Com um pai singular.

- Egocêntrico! - E por que não?

Nunca fica sozinho?

Com você, sempre.

Agora... neste momento?

Só vejo seu lindo rosto, OUço apenas sua voz.

Também ouve o que digo?

Por exemplo?

Eu amo você.

Nitidamente.

Um dia deixará de me amar.

Falou? Não a ouvi.

Não está comendo.

E você comendo rápido demais.

É o que minha mãe sempre diz.

Como sua mãe o chamava quando ficava brava?

De várias coisas. Mas você nunca me chama pelo nome, Marie.

Seria como se me dirigisse à História!

Como sua mãe o chamava quando o amava?

Napoleone.

Napoleone.

Estamos mesmo sentados juntos na mesma mesa, nesta sala?

Talvez eu tenha mesmo nascido de dentro de uma montanha de neve.

Você partirá noite adentro...

e eu passarei a ser nada.

Não, você não é de neve, querida. E nunca foi tão real.

Porque estou apaixonado.

Loucamente apaixonado.

Profundamente apaixonado.

Onde estão minhas botas?

Onde o danado do Constant pôs meu casaco?

Está na sua frente, Majestade.

Ah, aqui está.

- Marie! - Sim, Napoleone.

Estou muito feliz.

E você?

Com um pouquinho mais de encorajamento posso vir a amá-lo muito.

Não me diga!

Minha querida. Você me deu a única coisa que me faltava:

um coração leve.

Poderia cantar de tão feliz!

Por que não canta?

Sou extremamente prudente em certas questões.

Mas você dança, Majestade.

- Claro. - Não é muito prudente.

Todos dizem que tenho um talento natural para dançar.

Pois mentiram.

Muito bem! Então ordeno que me ensine!

Napoleão.

Napoleone.

Tolice!

Não percebe que o mundo me aguarda?

Nesse caso, tem mesmo que aprender a dançar!

Estarei à sua disposição, madame.

Bom dia, senhores.

Fez boa viagem, Talleyrand?

Tudo que me interessa é servir a Sua Majestade.

Lugar encantador. Finckenstein.

Você acha? Pois eu não gosto.

Bem, aceita minhas condições em nome do seu superior, o Xá da Pérsia?

ESTE É O PRIMEIRO PASSO, QUERIDO. M.

O quê?

Sua excelência diz sim, Majestade.

Então Sua Excelência mudou de ideia.

Sua Excelência está bastante flexível hoje, Majestade.

Meu Ministro do Exterior só teria a ganhar com esse grande exemplo.

Espero que os ares de Finckenstein

me ajudem a atender aos seus desejos mais a contento.

Tenho minhas dúvidas, Talleyrand.

Transmita minha mensagem e meus agradecimentos ao seu Rei.

Vai se queimar, Majestade.

Quando concentra suas energias na política externa você é admirável.

Continue assim.

Se não fosse pela música excelente eu já teria desistido.

- Feliz, querida? - Radiante!

Sua alegria é contagiante.

Amo você, Napoleão Bonaparte.

O que Talleyrand não daria para saber o que se passa aqui dentro.

Talleyrand?

Sim, está louco para saber o que faço em Finckenstein.

Mas não tenho nenhuma intenção de saciar sua curiosidade.

Entre.

O Duque de Talleyrand manda seus cumprimentos à Condessa Walewska.

Vossa Majestade.

Madame.

Fico feliz de rever um rosto familiar nesta casa encantadora.

Não sabia que conhecia a Condessa.

Não só a conheci como fiquei cativado.

Seus olhos são muito generosos, Excelência.

Egoístas apenas.

Considero os conselhos da madame muito úteis.

Com sua licença, agora vamos tratar de negócios.

Encantador. Quando era jovem eu também tocava violino.

- E desistiu? - Infelizmente.

Que perda para a música!

Quem sabe possamos entretê-lo com uns duetos?

Onde estão os documentos?

O documento criando o Grão-Ducado de Varsóvia.

Fico feliz de informar-lhe em primeira mão da liberação de seu país.

Não seria em primeira mão, Excelência.

Contudo, fico feliz que minha reclusão seja interrompida pela primeira vez

por alguém tão dedicado ao libertador do meu país.

Obrigada, Excelência.

Bem, o resto pode esperar.

Vejo você mais tarde na sala de recepção.

Obrigado, Majestade.

Madame.

Excelente, Marie.

Excelente!

Uma coroa cairia bem nessa linda cabeça.

Só me interessa ser coroada por seu amor.

Desejo que a minha seja tão duradoura quanto a sua então.

Por que não me disse o que estava fazendo por meu país?

Eu pretendia. Mas sempre acabava dizendo "eu te amo".

Talleyrand estragou minha surpresa!

Bateu palmas, cara Condessa Marie?

Oh, não. Por hoje chega. Tocou lindamente.

Obrigado, Condessa Marie.

Algo estava errado com as notas.

Lá vai o único homem na Europa que me ignora completamente!

- Acha Talleyrand divertido? - Muito.

Eu também.

Sem dúvida é o maior velhaco da Europa.

- Não faria nada sem ele. - Sério?

Faria tudo para me destruir.

- Por quê? - Se me destruir, destrói a Revolução.

O futuro a que aspiramos,

os sonhos de que lhe falei.

Talleyrandé o maior inimigo deles.

Então por que é seu Ministro? Por que o suporta?

Porque é o melhor diplomata da Europa!

Porque sou a única pessoa no mundo que não consegue enganar.

E porque gosto de sua conversa, mais que qualquer outra.

Veja, Marie, os pardais voltaram.

Sinto a primavera no ar. Precisamos galopar pelos campos!

Venha, querida, e encha seus pulmões. É como vinho em suas veias.

Hora de marchar.

Entre.

Sua Excelência, o Marechal Duroc.

Mande-o entrar.

- Então, Duroc? - A 8º Brigada está pronta para partir.

A Divisão polonesa sob o comando do General Dumbrovsky

com doze baterias de artilharia sob o Marechal Mortier também.

Muito bem. Aguardem-me.

Vai deixar Finckenstein, Marechal?

Em uma semana ninguém dirá que estivemos aqui.

- O Imperador também? - Claro!

Parece ansioso para partir, Marechal.

Os russos estão concentrados em Friedland.

Temos uma pequena surpresa para eles.

Sem dúvida.

Farei revista das tropas em sua honra. Poderá ver da janela.

O Imperador.

Aquele era Napoleão!

Ele nem sabia que eu existia e de repente sou chamado a me apresentar.

Providenciarei seu alojamento, Cel. Lachinski, e avisarei que chegou.

Com licença, Capitão. Stephan!

- Senhor Paul! - O que você está fazendo aqui?

O Conde Walewski está aqui? Onde está minha irmã?

- Não, senhor... Sim, senhor. - Onde eles estão?

A Condessa Marie está lá em cima, senhor...

Leve-me a ela, Stephan.

Rápido, Stephan. Não vê que está diante de um coronel?

O irmão da Condessa Walewska.

Entre.

- Condessa Marie... - Paul!

- Oh, Paul! - Marie, querida!

Esta foi a maior surpresa da minha vida!

O que está fazendo aqui? Aquele homem não é o guarda-costas do Imperador?

- Sim. - O que está fazendo aqui?

No momento estou sendo abraçada pelo meu irmão preferido.

Pode ir, Stephan.

A propósito, o que você está fazendo aqui?

Paul Lachinski, Coronel de Infantaria de Sua Majestade.

Aqui está a prova.

Parabéns!

Meu Paul, um Coronel! Como estou orgulhosa.

E eu de você. Mas ainda não disse por que está aqui.

- Não consegue adivinhar, Paul? - Adivinhar?

Mas é claro, a Polônia!

Seu marido está aqui para ver o Imperador.

Ele não está satisfeito com o que o Imperador fez pela Polônia?

- Paul. - Sim, Marie?

Venha cá.

Paul, quando éramos crianças nós nos entendíamos tão bem.

Lembra-se como ficávamos sentados por horas sem dizer uma palavra

sabendo muito bem o que o outro pensava e sentia?

Não faz tanto tempo assim.

- Nós não mudamos, não é? - Claro que não!

- Eu deixei meu marido. - Deixou seu marido?

Amo o Imperador. Por isso estou aqui.

Você entende, não é, Paul?

Isso é impossível!

- É verdade. - Marie!

Marie, você não percebe o que fez.

Mas estou feliz. Muito feliz!

Feliz!

Todos que me saudaram deviam saber. Devem ter rido de mim.

Não, Paul! Não é verdade!

Estranho que ele tenha visto meus méritos nos seus braços!

Não significa nada para meu único irmão

que eu tenha encontrado uma razão para viver?

As duas pessoas que mais amo no mundo, minha irmã e o Imperador.

- Isso acaba com tudo! - Não me deixe, Paul!

Só me resta você na família. Não tenho mais ninguém!

Tem o Imperador!

Oh, Paul!

Chamou, Condessa Marie?

Não, Stephan. Obrigada, Stephan.

DOIS ANOS MAIS TARDE JULHO DE 1809

RUE DE LA HOUSSAIE PARIS

Por aqui, Alteza.

Chamarei a Condessa.

Condessa Marie.

É Marie Walewska?

- Sim, Sua Alteza - Sou a mãe dele.

Eu sei. Não deseja sentar-se?

Seu marido entrou com petição em Roma para anulação do seu casamento.

- Sim, madame. - A seu pedido.

- Não, madame. - Não?

Então não soube que meu filho pretende divorciar-se de Joséphine?

Esse rumor existe há anos.

Desta vez é fato.

Bem, é uma estranha coincidência que o divórcio do meu filho

e a anulação do seu casamento ocorram simultaneamente.

Estranho é supor que eu possa influenciar Sua Majestade

numa decisão tão séria.

De forma alguma!

Meu filho não é apenas Imperador, é também um homem!

Vamos, seja franca comigo!

- Eu o amo. -E o que mais?

- O que mais haveria? - Ser sua esposa.

Jamais depositei esperança em felicidade inalcançável.

Aceita essa situação?

Se ele aceita, eu também.

Passa muito tempo sozinha.

Não conhecemos ninguém em Paris. E ninguém nos conhece.

Em dois anos, duas longas guerras.

Uma na Espanha, e agora na Áustria.

Como vê, tenho boas razões para detestar guerras.

Gostei de você.

Sente-se aqui.

Obrigada. Também gostei da senhora. Parece-se com ele.

Parece que somos as únicas que pensam apenas na felicidade dele.

Não é por falta de egoísmo

já que a felicidade dele depende a nossa.

Muitas mulheres não pensariam assim!

A maioria não tem a sorte de o amarmos como nós.

Fui injusta com você.

Mães costumam ser assim com aqueles que amam seus filhos.

Talvez algum dia eu também venha a ser injusta

e pela mesma razão.

Está esperando uma criança?

Sim.

- Ele sabe? - Ainda não.

- Quando lhe dirá? - Assim que o vir.

Condessa Marie.

O Capitão D'Ornano.

D'Ornano!

Deve ser uma mensagem do Imperador para você.

Ele não pode me ver aqui. Existe outra saída nesta casa?

Sim, pelo jardim.

Outra hora você me conta o que foi.

Posso sair sozinha.

Capitão D'Ornano!

Conte-me tudo!

Recebi ordens para levá-la imediatamente para Viena.

-Viena? - Imediatamente.

- Mas preciso fazer as malas... - Então faça-as... imediatamente.

Imediatamente!

- Mas e o Imperador, ele... - Está impaciente para vê-la, madame.

Deve estar cansado. Não quer ficar para jantar?

Posso?

Mas tenho que acompanhá-la a Viena...

"Imediatamente"!

Voltarei dentro de uma hora.

Capitão D'Ornano...

obrigada.

Stephan, você ouviu?

Claro. É só nos instalamos num lugar que já temos que partir.

Estou tão feliz, Stephan!

TRÊS SEMANAS DEPOIS

CASTELO DE SCHÓNBRUNN VIENA

Tenho uma mensagem para o Imperador.

Terá que aguardar, Capitão. Há vários marechais à sua frente.

Sua Majestade me chamou.

Marechal!

- D'Ornano! E Paris? - Maravilhosa!

Marechal, pode avisar a Sua Majestade que Madame Walewska já chegou?

Seria um desastre! Por sorte ainda tenho alguns jovens me assistindo

cujo sangue não foi contaminado pelo sucesso.

Duroc, chegou na hora certa!

Ouça, estou cansado de tanta interferência da Inglaterra na Península.

Pretendo promover um bloqueio.

A Rússia não gostará disso, Majestade.

Sim, já me disseram!

Então, se não gostarem teremos que declarar guerra à Rússia, não é?

É tudo ou nada. Com Sua Majestade será tudo.

Veem? Os jovens ainda acreditam em mim!

Não me oponho, Majestade.

Pelo menos não teremos que insistir naquele sonho de uma Europa unificada.

De agora em diante, Talleyrand, eu sou a Europa!

É só isso, cavalheiros.

Agora falemos com o jovem que tentou me matar esta manhã.

Ferdinand! Max!

Soltem-no.

Decidi poupar-lhe a vida. Com uma condição.

Que faça uma retratação pública das razões que deu para me assassinar.

Gritarei as razões diante do pelotão de fuzilamento, Napoleão Bonaparte.

Os jovens do mundo inteiro saberão como foram traídos por um tirano!

- Levem-no! - Sua promessa de liberdade era só poder!

Poder para apagar a última centelha de liberdade na Europa!

Minha voz será mais forte que suas armas!

Com nossa vitória assegurada coisas assim não terão importância.

Se pelo menos ele se retratasse.

Quando vir o pelotão, ele mudará de ideia.

Você nunca foi um revolucionário, meu amigo.

Mas espero que tenha razão.

- Majestade. - Sim, Duroc.

Madame Walewska acaba de chegar de Paris.

Como? Por que não me avisaram. Vá chamá-la!

Deixe. Eu irei até ela.

Perdoe minha presença sombria em momento tão feliz, Majestade.

Com relação ao seu divórcio...

Já foi decidido. Pode dar andamento!

Sim, mas falávamos de outra coisa. Do que vem em seguida.

Ah... Ah, sim...

Bem... Duroc...

Cumprimente a Condessa por mim e diga que a espero para o jantar.

- Sim, Majestade. - E, Duroc...

Encha seu apartamento de flores. Rosas vermelhas. Ela adora.

Muito bem, Majestade.

- Bem, seja breve. - É o que pretendo, Majestade.

Concordou que apenas duas das famílias reais

lhe seriam proveitosas em termos de casamento.

Na minha opinião, uma aliança com a Rússia seria mais política

enquanto uma união com os Habsburgos seria mais prolífico.

Eis aqui uma Romanov, Majestade.

E aqui uma Habsburgo, a Princesa Marie Louise.

Bem, você conhece essas linhagens reais. Qual me dará uma dinastia?

Se pensa em sua sucessão, Majestade,

só posso dizer que a avó de Marie Louise teve dezesseis filhos.

Oh, deze... dezesseis?

Oh, que Deus a proteja! Isso decide tudo!

Diga-me, o Imperador se oporia à união?

O Imperador está foragido. Não tem outra escolha senão aceitar.

Marie Louise.

Pena que "Marie" faça parte do nome.

"Hamburgo" é o que importa no nome.

Sim, sim, para os Napoleões que me sucederão.

-O que é isso? - Fogos de artifício pelo seu aniversário.

Magnífico!

Ninguém diria o quanto me odeiam.

Veja, Stephan, como Viena celebra seu aniversário.

Stephan, Stephan, minha vida é tão maravilhosa!

Sim, Condessa Marie, foi uma longa estrada.

Chegou.

Espere, Stephan, eu vou.

- Marechal Duroc. - Seja bem-vinda a Schônbrunn, Madame.

O Imperador mandou sua carruagem. O prazer será meu de escoltá-la ao castelo.

Ah... eu pensei...

Achamos melhor Sua Majestade permanecer no castelo hoje.

- Ele sofreu um atentado hoje. - Ele se feriu?

Não, Madame. Prendemos o jovem ensandecido entrando no palácio.

Queria assassinar o Imperador? Por quê?

Um revolucionário. Chamou o Imperador de tirano.

Jurou que tentaria de novo dada a oportunidade.

Sua Majestade foi muito generosa. Ofereceu poupá-lo se se retratasse.

- Ele aceitou? - Ainda não. Mas deve fazê-lo.

Estou pronta.

Estes eram aposentos particulares do Imperador austríaco até 4 semanas atrás.

- Foi uma grande vitória, não? - Sem dúvida, Condessa.

Esteve em perigo e eu não estava por perto.

- Que bom tê-la em meus braços de novo! - Não me solte.

Essa ruga está um pouco mais marcada.

E alguns cabelos brancos.

- É meu quadragésimo aniversário. - Você é imortal.

Sou um velho.

Já vamos brigar?

Venha. Deixe-me apresentá-la ao esplendor dos Habsburgos!

Então?

O Imperador Joseph não parece muito feliz, não é?

Tronos não são garantia de felicidade.

Ah, mas você... seu trono é você mesmo

e o amor dos franceses que o deram para você.

Não fica feliz com isso?

Estou feliz. E você?

Sente-se.

Não olhe para mim.

Nunca mais serei infeliz.

Você me trouxe grande felicidade.

E trarei mais ainda.

- Napoleone. - Sim, Marie?

Tenho me sentido só, de tanto que o amo.

- Vim vê-la sempre que pude. - Eu sei, eu sei.

Devia ter vindo mais vezes, como queria.

Eu sei...

Eu...

Mas nunca mais me sentirei só.

Não sou um homem qualquer, não tenho uma vida qualquer...

Eu sei, meu querido... eu sei.

Marie...

Estou determinado a fundar uma dinastia.

Preciso ter um herdeiro.

Decidi casar-me com uma princesa de sangue real europeu.

Preciso ter um aliado em quem possa confiar.

Não posso ter todos os meus inimigos de joelhos, com fiz com a Áustria,

só para vê-los se reerguerem e me combater de novo.

Pode continuar assim para sempre.

Posso conquistar seus exércitos com artilharia, mas não seu ódio.

Hoje, neste castelo dos poderosos Habsburgos

decidi conceder-lhes a paz que não precisarei mais fazer prevalecer.

Para eles tenho sido um aventureiro, um oportunista.

Tenho que me tornar um dos seus, misturar meu sangue ao deles.

Pense...

Um filho de Napoleão nascido de uma Habsburgo!

Está arranjado, é um fato consumado.

É a decisão mais sensata.

Marie.

Marie.

O que você disse?

Nada...

Entre.

Madame...

Está dispensado.

Não vai comer?

Por que não diz nada?

Se estivesse no meu lugar, o que diria?

Não sou uma mulher. Não posso colocar palavras na sua boca.

Então talvez não haja palavras.

Marie, entenda, querida. Isso não muda nada entre nós.

Eu lhe peço, imploro que me escute.

Isso é um assunto de Estado.

Não tem nada a ver com o que sinto, eu te amo.

Quero-a sempre perto de mim.

Nem conheço a princesa!

Essa fusão de sangue real é uma necessidade que se impõe.

Sangue real!

Fraco, frio, anêmico.

Uma casa defunta. E você viverá nela! Um túmulo!

Uma esposa que o detesta e uma família que o despreza!

Acha que esquecerão que os derrotou?

Como o odiarão por invadir sua família!

Marie!

Entre!

Então?

As ordens de sua Majestade foram cumpridas.

Ele não...

Ele não se retratou, Majestade.

Não disse nada?

Suas últimas palavras foram: "Liberdade para sempre!"

"Morte ao tirano!"

Imbecil!

Louco!

- Isso nunca me aconteceu antes. - Ele mereceu.

Ele era um criminoso.

Obrigado, Duroc. Boa noite.

Fiz o que pude para salvar sua vida.

Foi melhor para ele morrer.

Existe hora para sonhar e hora para ver a realidade.

Quem não acompanha seu tempo merece morrer!

O que aconteceu com você? O que o fez mudar tanto?

O que está fazendo consigo mesmo,

comigo, com todos que acreditaram em você?

Não existe outro filho que possa amar

senão um nascido do sangue que você antes desprezava?

Se é para assumir o trono com segurança,

ele tem que ter sangue real.

Não fosse por isso,

se as circunstâncias não me forçassem,

você seria minha Imperatriz.

Pois é você, e só você, que eu amo.

Se realmente me amasse, esse amor salvaria seu amor.

Política não tem coração. Apenas cabeça.

Lembra-se dos dias em que as ideias eram mais fortes que um trono?

Lembra-se da Revolução Francesa?

Revolução, Revolução! Isso foi uma fase da minha juventude!

Já superei! É isso que você não entende!

Você mentiu para si mesmo e para o que prometeu ao mundo.

Mentiu para todos que morreram por você acreditando numa nova Europa.

Foram traídos, assim como eu e aquele rapaz!

Quando pôde ter sido generoso ousou apenas ser justo!

Não posso alterar toda minha política só para atender aos seus sentimentos.

O poder o conquistou!

Esta é sua laia agora.

Essas imagens dos Habsburgos, impiedosos e cruéis!

Mortos-vivos!

A morte em tronos.

Que pena!

O libertador da Europa tornou-se um genro!

Tolice minha esperar que uma mulher me compreendesse!

Você verá! A Rússia verá, a Inglaterra verá!

Ou sou escravo do poder...

ou seu mestre!

Então?

Por que me olha assim?

Porque estou vendo-o pela primeira e última vez.

Isto é grotesco!

Seja sensata, Marie.

Sua mente adentrou uma fronteira cuja região eu não entendo.

Marie.

Oh, Napoleone...

eu tinha tanto para lhe dizer que agora já não posso.

O que estou falando?

Eram só uns planos tolos para o próximo inverno.

Planos muito egoístas.

Me desculpe.

Aonde você vai?

Onde...

Alexandre, eu te batizo, em nome do Pai, do Filho...

DOIS ANOS DEPOIS DEZEMBRO DE 1812

BATIDA EM RETIRADA DO GRANDE EXÉRCITO DE MOSCOU ATRAVÉS DA POLÔNIA

Acorde, seu tolo! Morrerá se dormir!

Eu quero morrer!

- Quero dormir! - Acorde! Logo estaremos em Paris!

E após Paris, o quê?

Acha que o Imperador lhe dará sossego depois?

Será mais fome,

mais matança,

mais milhões de pessoas morrendo feito moscas.

De novo, o mesmo de sempre, enquanto ele viver!

Esse Imperador!

Está delirando, Majestade.

Por que não se junta a mim, camarada?

Não terá mais fome...

nem frio, nem matança...

Vamos, força... Seu Imperador também quer paz.

Deixe-me em paz, seu tolo!

Sua Majestade!

Perdão, Majestade.

Isto não é culpa minha. Também tenho que padecer.

DOIS ANOS DEPOIS AGOSTO DE 1814

ILHA DE ELBA

Napoleone!

Napoleone!

Napoleone.

- Ah, mãe! - Já passa de meio-dia.

Se deixar de comer reclamará de novo do seu estômago.

Acha que essa lente irá trazer a França mais para perto?

Estava olhando para a Córsega.

Minha França e minha Córsega.

Os franceses me amam, e eu amo eles.

Se o amassem não o manteriam preso nesta ilha.

Vamos para casa.

Não são os franceses. Eles me amam.

E tenho que preservar esse amor para meu filho.

A Imperatriz sabe o quanto quero vê-lo.

Não o trouxe ontem, não o trará hoje e não o fará amanhã.

O que foi, D'Ornano?

Avistaram um navio de bandeira inglesa indo em direção a Nápoles.

- É meu filho! Ele está aqui! - Precisa se certificar!

É meu filho. Sabia que a Imperatriz o traria!

Consegue ver a Imperatriz, D'Ornano?

Vejo uma mulher com uma criança, Majestade.

Consigo reconhecê-la nitidamente.

Tem uma boa vista, Majestade.

Há sete meses que não vejo meu filho!

- Dispense a tropa. - Sim, senhor.

Madame.

Está decepcionado, Majestade.

Esperava meu filho.

Eu trouxe o seu filho.

Meu filho?

Seu e meu.

Alexandre.

Menino do meu coração.

Chegamos ao nosso destino, Madame.

Parece muito agradável e acolhedora.

- Espero que fique bem instalada. - Obrigada.

Bianca a conduzirá aos seus aposentos, Madame.

Obrigada.

Fez uma longa viagem. Precisa descansar.

Obrigada.

Jantaremos juntos.

Se me dão licença, preciso cuidar das minhas amoreiras.

Fazemos milagres com elas.

Já estabeleci um próspero comércio com Nápoles.

Gostaria que as visse.

Adoraria.

Podemos produzir seda em grande escala aqui.

Em breve será uma indústria que competirá com a Inglaterra.

Até o jantar, Madame.

Por aqui, senhora.

Primeiro desfazemos as malas, depois fazemos de novo...

Depois desfazemos e refazemos, e assim vai...

Onde aquele homem foi, Stephan?

Em primeiro lugar, que homem? Em segundo, como vou saber?

Você sabe, o homem do chapéu grande.

Venha lavar as mãos, Alexandre.

Por enquanto este é o pior lugar de todos.

Já vi chapéus maiores e nem me importei.

Nós vamos morar aqui?

Não sei, Alexandre.

Temos a nossa própria casa.

Posso entrar?

Por favor, Alteza. Stephan...

Aproxime-se, meu filho.

Como se chama?

- Alexandre Florian Joseph... - Walewski.

Entre.

Com os cumprimentos de Sua Majestade, posso levar o menino até ele?

Vá com Bianca.

- Alexandre, me dá um beijo? - Sim, senhora.

Obrigada, Alexandre.

Alguma notícia dela?

Sou uma estranha nos círculos de Sua Majestade.

Sabe que ela é uma esposa infiel. Uma mulher desleal.

Até o filho ela negligencia. O mundo todo sabe.

- Ele sabe? - Às vezes sinto-me tentada a contar.

De que nos adiantaria magoá-lo?

Fico feliz que esteja aqui.

Esperava que nossa visita lhe agradasse.

Mas acho que se decepcionou.

Engana-se. Talvez com você e o filho ele fique feliz.

Tudo que quero é trazer-lhe paz.

Quem vem aí?

Lejeune!

Então, Lejeune?

Gérard suicidou-se para não ser preso, Majestade.

Destruiu a mensagem.

- Onde isso aconteceu? - Em Saint-Tropez, Majestade.

Gérard também.

Tentaremos de novo.

Os Aliados estão vigiando. Tanto a Itália como a França... e Elba.

Tentaremos de novo!

Olhe o Alexandre, Napoleone!

Não tira os olhos de você!

O que mais gosta de fazer, Alexandre?

- Gosto de montar meu pônei. - E que mais?

Gosto de escutar Stephan contando histórias.

- Que tipo de histórias? - De soldados erreis.

Eu também gostava de histórias de soldados e reis!

Vamos ser grandes amigos.

- Conhece histórias, senhor? - Sim.

- De soldados? - Sim.

E de reis?

Sim, meu filho, eu conheço.

Pode me contar algumas?

Um dia eu lhe contarei uma...

quando tiver terminado.

Quando vai terminar?

Coma, Alexandre.

Você também, filho.

Alexandre está ficando com sono.

Já passa da sua hora. Posso levá-lo para seu quarto, Majestade?

- Claro, Madame. - Diga boa noite, Alexandre.

- Boa noite, madame. - Boa noite, meu filho.

Boa noite, senhor. Não esqueça minha história.

Vou me lembrar por causa de você especialmente.

- Boa noite. - Boa noite, senhor.

- Sabia que um inseto faz seda? - É mesmo?

E só vivem em amoreiras.

Que interessante.

Agora suas orações.

Pai nosso que estais no céu, a quem entrego meu coração,

abençoai minha mãe e meu pai, que eu nunca vi.

Ajudai-o a ser bom, protegei-o do mal e trazei-lhe paz.

Mãe, gostei daquele homem. Ele usa um chapéu tão grande.

Termine sua oração, Alexandre.

Fazei-me digno dele. Abençoai Stephan e tio Paul, amém!

Por que ele usa um chapéu tão grande?

Vamos, durma.

- Boa noite, mãe. - Boa noite.

Adorarei as tempestades de Elba,

assim como o povo, o mar e o vilarejo ensolarado.

Será tão bom estar perto de você, só você, sua mãe e Alexandre.

É tudo que sempre quis.

Até isso o mundo lá fora me negaria.

O mundo lá fora não sabe que estou aqui. Ninguém sabe.

Ninguém?

Nenhuma alma.

Marie, isso foi obra de Deus!

Poderá me ajudar!

Ajudar como?

Preciso enviar uma mensagem ao Conde de Montholon.

Não posso confiar em ninguém. Estou sendo vigiado.

Você vai voltar?

Acham que ficarei aqui apodrecendo nesta ilha?

Aqueles austríacos pensam que me prenderão aqui para sempre?

Voltarei para a França!

O mundo o deixará em paz se você deixar.

- O que mais pode fazer? - Posso consertar todos os meus erros.

Honrarei minhas ideias. Serão resgatadas.

Lembra-se, Marie? Farei com que se tornem realidade!

Se me ama, ajude-me!

É por amá-lo que imploro que não se destrua.

Escute-me, Napoleone! Já lutou guerras demais.

Homens demais já morreram, esperanças demais!

A França está cansada. Deixe-a descansar! Você a ama.

O que espera que eu faça?

Baixar a cabeça e permitir que continuem a punir-me para sempre?

Aqui há paz e você pode encontrar felicidade.

Sempre acreditou no seu destino. Ele o trouxe para cá.

Acredite nele agora. Fique em paz com ele.

A paz vem tão cedo... com a morte!

Pense nisso antes de pedir que outro homem morra por você.

A morte é desprezível. Já a enfrentei milhares de vezes.

É a vida que temos que enfrentar! Tenho que voltar!

- Tem que levar a mensagem para mim. - É tarde demais!

A Europa inteira terá tempo para se armar contra você.

Não é tarde demais!

Não faltam provas de que o exército ainda é fiel a mim, seu Imperador!

Marie, acredite em mim. Desta vez teremos êxito.

Mas o mundo está contra você!

Não! Não sou Imperador apenas dos soldados!

Sou Imperador dos trabalhadores e camponeses.

Temos fortes laços em comum.

Já não existem mais. Eles o renegarão!

Se lembrarão quando me virem! Acreditarão de novo em mim!

Não conseguirei persuadi-lo. Seus argumentos são muito fortes.

Só me resta tentar protegê-lo com meu amor.

Mas eu sei, sei que é tarde demais!

Não é tarde demais! Ainda não.

Pense! Pense! Irei para Paris!

Preciso ser fiel aos que morreram. Eles acreditaram em mim!

Marcharão comigo em nome da liberdade com suas tochas acesas!

Iluminarei o mundo novamente!

Prússia, Áustria, até a Inglaterra!

Marie, você tem que me ajudar! Você deve!

Dê-me a mensagem.

Senhores, a França nos aguarda.

Estaremos em Flandres antes que a Inglaterra se mobilize.

Destruiremos nossos inimigos um por um.

Chegou a hora de restabelecer a glória do Império para sempre!

UM MÊS APÓS WATERLOO

JULHO DE 1815

PORTO DE ROCHEFORT FRANÇA

Sua Majestade.

Um mensageiro dos ingleses.

O Capitão Maitland o cumprimenta. Se já tiver se despedido de todos,

pede que embarque no Bellerophon assim que puder.

Ele deseja partir com maré alta.

Já me despedi de todos.

Só me resta tratar de uma coisa. Podem me aguardar lá fora, senhores?

Sua Majestade Imperial

Quem é?

- D'Ornano, Majestade. - Pode entrar.

Marie!

Isto é contra minhas ordens.

Minha querida, queria poupá-la disso.

Então não me conhece.

Napoleone, eu vim ajudá-lo a fugir.

Fugir para onde? Até a França me renega.

Há um navio em Bordeaux. Está de partida para a América.

Eu vou fugir? Nunca fiz isso antes.

O que é isso?

Roupas para se disfarçar.

Roupas de mulher?

Eu disse que estava acompanhada. Pode ficar no fundo da carruagem.

Direi que está doente.

Ah, Marie, uma grande tragédia vira comédia assim que nos sentamos.

Suponha que eu vista esta coisa ridícula sobre minhas botas de soldado.

Suponha que chegue ao navio e à América.

E depois?

Estaria vivo, em segurança.

Não, minha querida. Ainda preciso seguir meu destino.

Mas por que quer entregar-se aos ingleses?

Sabe como o odeiam. Eles o matarão, Napoleone.

E fazer de mim um mártir? Oh, não...

Eles me manterão bem vivo.

Precisam despir qualquer vestígio de grandeza de mim antes que morra.

Os jovens da Europa não podem ter heróis para idolatrar.

Marie, preciso ir.

Eu vou com você.

Morte e exílio devem ser enfrentados sozinho.

Para onde vou significaria sua morte também.

Eu morreria perto de você.

Ah, Marie, esse seu amor...

Por que ele ainda não dobrou meu coração?

Nem aço teria resistido ao seu amor, mas eu resisti.

E agora que está tudo perdido, sinto-o me invadir.

Nunca mais nos separaremos.

Não... estava delirando só de pensar em levá-la comigo.

Não posso, não devo.

Você é delicada demais, Marie.

Um dia poderei ver piedade nesses olhos. O que farei então?

O que sinto agora durará para o resto da minha vida.

Esse olhar iluminará toda a escuridão que me aguarda.

Adeus, Marie. Você deu muito, por tão pouco.

Você me deu muito mais que amor, Napoleão Bonaparte.

Tocou-me e me deu vida.

Você me ergueu e o mundo todo perdeu importância...

Nunca mais terei esse mundo de volta.

Adeus, meu amor...

Agora quero me despedir de meu filho.

Ele o conhece apenas como seu Imperador.

Alexandre.

- Venha cá, meu jovem. - Sim, Majestade.

Vou partir e quero dar-lhe umas ordens.

Sim, Majestade.

Deixarei a Condessa Walewska aos seus cuidados.

- Cuide bem dela para o resto de sua vida. - Sim, Majestade.

- Você tem uma espada? - Não, Majestade.

Esta aqui eu usei quando conquistei a Itália.

Tinha apenas vinte anos mais que você agora.

Por favor, Majestade.

Sim. Talvez ele venha a viver num mundo melhor.

Em vez disso, lhe darei um beijo.

Aonde ele foi, mãe?

Para aquele navio.

E depois?

Não fale, Alexandre, agora não.

Ele tem uma estrela que precisa seguir.

Rezemos para que lhe traga paz.

FIM

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