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Novembro de 1942.
Uma armada de 200 navios britânicos e americanos
aparece junto à costa do Norte de África.
A Operação Tocha está prestes a começar.
Perante o olhar dos habitantes,
100 mil homens desembarcam nas praias de Marrocos e da Argélia.
Foi neste teatro singular do Norte de África que, entre 1940 e 1943,
se escreveu um famoso capítulo da Segunda Guerra Mundial,
a Guerra do Deserto.
Porque vieram as grandes potências lutar no deserto do Norte de África,
tão longe do epicentro da guerra mundial?
E como é que na fornalha do deserto
irão os Aliados infligir um dos primeiros grandes reveses
nas forças do Reich?
A Guerra do Deserto, a guerra que ninguém queria,
iria virar o mundo de pernas para o ar.
TRÍPOLI, LÍBIA
Tudo começa com uma grande aposta
de um pequeno ditador que sonha com a grandeza,
Benito Mussolini.
Ele proclama:
"A Itália é, na verdade, prisioneira do Mediterrâneo."
Il Duce quer recuperar os esplendores do Império Romano.
Sonha em controlar o Mar Mediterrâneo
e em expandir o seu império para África.
Mussolini sufoca
numa África dominada pelos antigos poderes imperiais,
a França e o Reino Unido.
A modéstia do seu império é um assunto sensível.
No Leste, controla apenas a Somália, a Etiópia e a Eritreia.
No Norte, a Líbia foi conquistada com ferro e sangue.
A vitória da Itália foi conquistada em 1912
através de múltiplos massacres e maus tratos.
No verão de 1940,
a Segunda Guerra incendeia a Europa.
Após conquistar parte da Europa,
os soldados do Terceiro Reich dominam a França em poucas semanas.
A Inglaterra, pressionada,
receia sucumbir também à ameaça nazi.
Alemães e italianos, unidos no Eixo,
estão numa posição de força.
LÍBIA
É uma oportunidade que Il Duce não tenciona desperdiçar.
Quer expulsar as velhas potências coloniais que dominam África.
Chegou a hora da Itália.
SETEMBRO DE 1940
A partir da Líbia, ordena às tropas que entrem no Egito,
um reino controlado pela Grã-Bretanha.
80 mil homens avançam cerca de 95 km em território egípcio.
Os generais italianos estão hesitantes.
Na opinião deles, o seu exército está mal equipado
e impreparado para tal aventura.
LONDRES
Winston Churchill não quer abdicar do Egito.
Não a qualquer preço.
Desde que a França se rendeu
que o Reich estendeu a sua garra sobre a Europa.
Para o primeiro-ministro britânico, outra derrota seria inaceitável.
Até porque a Luftwaffe tem atacado implacavelmente a Inglaterra.
Churchill sabe que a salvação da Grã-Bretanha
depende mais do que nunca dos recursos do seu império.
O Canal do Suez pertence ao Egito.
Para Londres, é uma artéria vital
para transportar as suas matérias-primas.
Para Churchill, é uma situação muito grave.
Soa o alarme e mobiliza os recursos da Commonwealth.
Milhares de soldados australianos, neozelandeses e sul-africanos
dirigem-se ao Cairo e juntam-se aos britânicos.
Estes homens deixaram as famílias e os empregos
para combater na areia do deserto.
9 DE DEZEMBRO DE 1940
Em dezembro, os britânicos atacam.
Para sua grande surpresa, é muito fácil.
Os italianos estão desorganizados
e recuaram 800 km de volta à Líbia.
Os britânicos até capturam Tobruk, um porto altamente estratégico.
Os generais de Sua Majestade sabem que, no deserto,
quem controla os portos é que manda.
Numa questão de poucas semanas,
as tropas da Commonwealth conquistaram uma vitória absoluta.
No início de 1941, ocupam a Líbia oriental.
E a população muçulmana celebra os seus libertadores.
Não esqueceu as 100 mil mortes
por que a conquista italiana foi responsável.
Os árabes e os britânicos até chegam a acordo.
Milhares de líbios aceitam combater pela Grã-Bretanha.
Churchill promete-lhes a independência
quando alcançarem a vitória.
É uma boa maneira de minar a influência de Roma.
Il Duce ansiava pela glória,
mas colhe apenas uma derrota vergonhosa.
Deixa 400 blindados e 130 mil prisioneiros no campo de batalha.
Mussolini queria impor a sua lei em África.
Agora, tem de pedir ajuda.
ALEMANHA
No início de 1941,
Hitler virou a sua atenção para leste.
Juntamente com os seus generais,
dedica-se ao seu grande projeto, a Operação Barbarossa,
a conquista da União Soviética.
Acha que a sua vitória se cumprirá nas estepes russas.
19 DE JANEIRO DE 1941
Mussolini, destroçado, sabe que o seu timing não é bom.
Mas precisa da ajuda do seu aliado
para não perder a Líbia por completo.
Tal humilhação destruiria a sua reputação.
No plano estratégico,
Hitler considera o Norte de África como um teatro secundário.
Mas ele teme que um Mussolini enfraquecido perca o poder.
A queda de Il Duce poria em causa a segurança
do flanco sul da sua fortaleza europeia.
Ele aceita ajudar o seu aliado, mas com condições.
Qualquer intervenção alemã não pode, de modo algum,
perturbar a sua operação no Leste,
que deverá ser lançada daqui a poucos meses.
Hitler envia uma pequena força expedicionária
para ajudar Mussolini.
O Afrikakorps tem apenas 45 mil homens
e 174 carros de combate.
12 DE FEVEREIRO DE 1941
Chega a Trípoli, a capital da colónia italiana.
A sua missão é limitada:
ajudar os italianos a recapturar o Leste da Líbia
e protegê-la de um ataque britânico.
Mas o que realmente muda tudo é ter general Rommel no comando.
Com 49 anos, Rommel é novo para um general,
mas é o favorito do Führer.
Chega a Trípoli, trazendo nuvens de glória da campanha francesa.
Oficialmente, Rommel está sob comando italiano,
mas é ambicioso e não tenciona ter um papel secundário.
Em África, Rommel sonha com glória,
nem que isso signifique desobedecer aos seus superiores.
O Afrikakorps só está em África há poucas semanas,
mas Rommel já está impaciente.
A 24 de março de 1941,
sem avisar Roma ou Berlim,
lança subitamente um ataque para leste.
As suas intenções são claras.
Disse: "O meu primeiro objetivo é recapturar o Leste da Líbia.
"O segundo é o Norte do Egito e o Canal do Suez."
É um plano grandioso.
A partir do país dos faraós, pode ir para Baku, no Cáucaso,
e deitar a mão aos preciosos recursos petrolíferos.
Depois pode encontrar-se com os soldados da Wehrmacht
para atacar a Rússia.
É pura megalomania
e longe do que os seus líderes esperam dele.
Mas os seus soldados são a favor,
pois o Afrikakorps é composto, em parte, por voluntários.
todos profundamente dedicados ao Reich.
O Norte de África dá a Rommel as condições ideais para ensaiar.
Nestas grandes distâncias, os Panzer atingem a velocidade máxima.
A técnica dele é forçar o progresso
sem se preocupar com os flancos ou com a retaguarda.
Ele conta com o elemento surpresa e com a sua intuição,
e foi isso que o fez ganhar a admiração do Führer.
A ofensiva súbita de Rommel surpreende os britânicos.
Os alemães não são nada como os italianos.
Perante um adversário formidável,
começam a surgir os pontos fracos do exército britânico.
Os homens estão mal treinados e o equipamento delapidado.
Como James Graham, médico britânico, observa,
o Afrikakorps espalha a destruição.
"Foi um ataque súbito. Fomos devorados.
"Toda a zona ficou marcada por restos fumegantes,
"corpos espalhados, uns vivos, outros não.
"A nossa principal tarefa era aliviar o sofrimento.
"Havia pouco espaço para sentimentos.
"Os enterros eram feitos perto do local fatal pelos camaradas,
"se o inimigo permitisse."
Reparando que os britânicos estão a retirar,
Rommel avança para o Egito e para o deserto.
Ele sabe que está a desobedecer a ordens.
Confessa à sua mulher, Lucie:
"Minha querida Lucie, estamos a atacar com um êxito notável.
"Arrisquei avançar,
"apesar das ordens e instruções recebidas,
"para aproveitar uma grande oportunidade."
O objetivo de Rommel é Tobruk.
O seu modesto propósito é capturá-la em poucos dias.
Ele considera isto uma mera formalidade.
Para evitar um desastre,
os britânicos retiram-se para a fronteira egípcia.
Abandonam todo o território que tomaram na Líbia,
à exceção de Tobruk.
ABRIL DE 1941
Tobruk é defendida por 25 mil soldados da Commonwealth
que são abastecidos por mar.
Os britânicos nunca entregarão este porto a Rommel.
Se caísse nas mãos dele,
usá-lo-ia para abastecer os seus soldados,
o que lhes permitiria avançar sobre o Egito.
Na linha da frente, a vida é difícil quando se está cercado.
Os homens abrigam-se em trincheiras infestadas de pulgas.
"Como ratazanas", como diz a propaganda alemã na rádio.
Passam a referir-se a si mesmos como Ratazanas de Tobruk.
São atacados diariamente.
Por enquanto, Tobruk aguenta-se.
Rommel está com dificuldades.
Passa os dias a visitar as suas unidades espalhadas por Tobruk
e pela fronteira egípcia.
Ao contrário dos oficiais da Wehrmacht,
ele despreza deveres estatais.
Quer ver as batalhas nas linhas da frente.
E nunca para de ordenar aos homens que avancem,
seja qual for o custo.
Robert Witzke, tenente alemão, combate na linha da frente.
Escreve à sua mulher:
"Querida Inge, todos os dias há ataques.
"Apenas podemos perguntar quem dos camaradas ainda está vivo.
"Muitos morreram, mas ainda mais estão feridos.
"Inge, pensa em mim."
Após um cerco de 15 dias,
Rommel consumiu uma quantidade astronómica de munições.
E o combustível vai acabar.
Não faz mal. Ele declara a um batalhão de metralhadoras:
"Estaremos no Cairo daqui a oito dias. Passem a palavra."
Rommel trava uma guerra demasiado ambiciosa
sem se preocupar com um elemento decisivo,
combustível e mantimentos.
Mas a entrega das 53 mil toneladas de mantimentos mensais,
que os seus implacáveis ataques exigem, é uma tarefa assustadora,
pois as linhas de abastecimento do Eixo são longas e perigosas.
No Mediterrâneo, os britânicos seguem cargueiros italianos
que tentam alcançar Trípoli,
o único porto controlado pelo Afrikakorps.
Ainda assim, 80 por cento dos mantimentos conseguem passar.
Combustível, água, comida, munições.
Todos os dias, depois de descarregados,
os mantimentos têm de chegar à linha da frente.
É um desafio.
São precisos 14 dias para percorrer os 1200 km
de Trípoli até à frente.
É uma provação para os homens.
Ironicamente, as viaturas consomem metade do combustível transportado.
Rommel fica impaciente com os constrangimentos logísticos.
Deixa os seus soldados exaustos e não consegue capturar Tobruk.
As suas atitudes custam a vida a 53 oficiais e 1200 homens.
O Afrikakorps está muito enfraquecido,
mas mantém a posição.
Mas está longe da sua base e tem dificuldades no reabastecimento.
Está perigosamente exposto.
Um contra-ataque do inimigo pode destruí-lo.
O Khamsin, o vento ardente que sopra dias seguidos,
anuncia o início de um calor abrasador.
De maio a outubro, é impossível combater entre as 12 h e as 16 h.
O calor é arrasador.
À noite, o frio é glaciar.
O tenente Witzke sobreviveu ao inferno de Tobruk
e enfrenta agora novas provações.
Em junho de 1941, confidencia à mulher:
"Quente não é a palavra.
"Nos últimos dias, estiveram 58 a 60 graus ao sol.
"Já perdi 9 kg.
"Se não nos tirarem daqui, damos em doidos."
"O maior problema era a água," lamenta-se outro soldado.
"Sempre a beber.
"A nossa existência no deserto resumia-se a isso."
Os soldados também enfrentam a praga do deserto, as moscas.
Pouco depois do nascer do sol, chegam aos montes,
atraídas pelo suor humano, a única humidade nestas terras áridas.
Não há como fugir.
Os homens de Rommel não se sentem confortados com a comida.
É insuficiente em qualidade e em quantidade.
Tentam melhorar a qualidade da comida comprando aos beduínos.
Este negócio pode melhorar a vida diária de Robert Witzke,
mas, acima de tudo, confirma o seu racismo asqueroso.
"Estes cães são tão matreiros que pedem uma fortuna por um ovo.
"Achamos que são espiões.
"Se olharmos para estes sacanas nojentos,
"há apenas uma solução, que é livrarmo-nos da escumalha."
No pino no verão, no deserto líbio,
o calor abrasador imobiliza os exércitos.
Enquanto os homens do Afrikakorps sofrem com falta de mantimentos,
do lado oposto, nas unidades britânicas na fronteira egípcia,
é a depressão que atormenta os homens.
Há oito meses que vivem isolados no deserto
e sem maneira de se distraírem.
Entediado, um soldado escreve no seu diário:
"É o mesmo todos os dias.
"O deserto está por todo o lado. Drena o espírito.
"Não há nada para ver, nada para escutar.
"A única coisa que nos aguenta é pensar em casa."
LONDRES
OUTONO DE 1941
Churchill está exasperado.
Tudo sugere que os seus soldados exaustos
são incapazes de derrotar Rommel.
O primeiro-ministro decide enviar reforços
que foram reunidos, ao longo de meses, em todo o Império.
A partir de agora, o Norte de África é um grande teatro de guerra.
Indianos, africanos,
malteses, judeus da Palestina, mauricianos.
No outono de 1941,
mais de 150 mil homens aumentam as fileiras britânicas.
Juntam-se a eles os franceses livres.
Respondendo ao chamamento do General De Gaulle,
vão continuar o combate para restaurar a honra da França.
Empenhando as suas forças massivas,
Churchill obriga Hitler a aumentar a parada.
DEZEMBRO DE 1941
A quase 3200 km das areias escaldantes de África,
a grande ofensiva contra a URSS entra numa fase decisiva.
A temperaturas de -30 Celsius,
a Wehrmacht tenta tomar Moscovo.
No entanto, no momento em que o Leste ocupa a sua atenção,
Hitler decide enviar reforços ao seu protegido.
Não pode perder o Norte de África.
TRÍPOLI, LÍBIA
Confiando o comando a um general incontrolável,
o Führer transformou o deserto numa armadilha,
porque Rommel não desistiu das suas fantasias.
Pelo contrário.
Em janeiro de 1942,
os reforços prometidos por Hitler chegam finalmente.
Mal chegam para resolver os seus problemas logísticos,
mas chegam para ele sonhar com uma nova incursão no Cairo.
Uma vez mais, para surpresa de todos,
Rommel retoma a sua louca investida.
Empolgado, escreve à sua mulher, Lucie:
"Querida Lucie, tenho vários planos em mente
"de que não me atreveria a falar aos meus oficiais neste momento
"para não pensarem que enlouqueci.
"Sabes como sou. É de madrugada que me ocorrem os melhores planos."
Não há garantia de que os britânicos consigam travá-la.
O seu novo general, Claude Auchinleck,
tem uma clara superioridade em homens e equipamento.
Mas Churchill não está a apostar no cavalo certo.
Auchinleck não sabe rodear-se das pessoas certas.
Servira durante muito tempo na Índia
e escolheu mal os seus subordinados.
Durante meses, envia blindados para a morte
insistindo em cargas frontais à moda antiga da cavalaria.
Em maio de 1942,
Rommel tenta uma manobra arriscada e sem precedentes
para acabar com o inimigo.
Decide contornar a linha de defesa que protege Tobruk
para o apanhar pela retaguarda e esmagá-lo.
Mas, numa área remota,
depara-se com um obstáculo inesperado, Bir Hakeim.
É detida pelos franceses livres comandados pelo general Koenig.
Não são muitos, apenas 3700 homens.
Apesar do dilúvio de fogo disparado pelos Panzer e pelos Stuka,
conseguiram, com uma resistência heroica,
bloquear o Afrikakorps durante 15 dias.
Os britânicos, gratos, saúdam o feito.
Graças às horas preciosas ganhas pelos homens de De Gaulle,
o 8. Exército de Auchinleck, em pleno colapso,
evitou ser cercado.
Retira as tropas atrás da fronteira egípcia,
mas, pela segunda vez, abandona o Leste da Líbia para o inimigo.
Isto é Tobruk.
Rommel alcançou o seu objetivo principal,
conquistar o porto de Tobruk.
21 DE JUNHO DE 1942
Robert Witzke tem um papel fulcral nesta vitória.
"O nosso batalhão", diz ele,
"teve uma vez mais a honrosa tarefa de seguir na frente.
"Meu Deus, Tobruk é nossa. Ainda custa a crer."
Dois dias após o seu triunfo,
Robert Witzke fica gravemente ferido e é levado para a Alemanha.
O marechal Rommel inspeciona posições no porto da cidade.
Ainda há nuvens densas de fumo sobre Tobruk.
Jornalistas de guerra alemães seguiram os passos de Rommel
na última fase da batalha.
As suas imagens dão um impacto global à sua façanha.
PORQUE CAIU TOBRUK 3 PARA 1
Começou o mito da Raposa do Deserto.
E enquanto as câmaras se concentram em Rommel,
não filmam a vingança dos colonos italianos.
Os árabes escolheram os britânicos.
E pagaram por isso.
As pilhagens e os homicídios multiplicam-se.
Um italiano rejubila:
"Assim que os ingleses fugiram,
"qualquer árabe encontrado levava com uma bala na cabeça
"ou uma granada no estômago.
"Os nossos soldados estão agora aqui a acabar o trabalho."
Também houve violência contra os 30 mil judeus líbios,
quer apoiassem ou não os britânicos.
Leis raciais fascistas já tinham sido ligeiramente aplicadas
a estes cidadãos italianos,
mas reveses militares provocam uma radicalização do regime fascista.
Il Duce decide prender todos os judeus da região.
Famílias inteiras são presas, enfiadas em camiões
e despejadas em campos de concentração nos limites do deserto.
O pior destes campos de detenção fica em Giado,
a 240 km a sul de Trípoli.
Cerca de 3 mil prisioneiros serão ali mantidos,
e um quarto morrerá de subnutrição e maus tratos.
22 DE JUNHO DE 1942
O desastre de Tobruk atinge Churchill
quando se encontra com Franklin Roosevelt na Casa Branca.
"Foi um dos golpes mais duros durante a guerra.
"A derrota é uma coisa, desonra é outra."
A governação de Churchill é abertamente posta em causa.
Os britânicos já não confiam no seu PM para travar a guerra.
Como Mussolini fez com Hitler,
Churchill tem de conseguir o apoio do seu aliado.
A sua sobrevivência política está em jogo.
Reunião após reunião,
pressiona Roosevelt para o ajudar a aniquilar o Afrikakorps.
O seu plano é desembarcar no Norte de África.
Tal como Hitler, os generais americanos
não querem intervir na região.
Creem que, para derrotar a Alemanha,
há que atacar no seu âmago, na Europa.
Planeiam um desembarque na costa francesa
que pode acontecer daí a menos de um ano.
Para convencer o seu anfitrião,
Churchill insiste que seria prejudicial ficar um ano inativo,
com a opinião pública dos EUA impaciente e sedenta de vitórias.
É um argumento que não deixa Roosevelt indiferente,
e é verdade que vai haver eleições muito em breve.
A Raposa do Deserto ignora todos estes esquemas.
No fim de junho de 1942,
decide avançar para o Egito, desta vez com a bênção de Hitler.
O Führer considera agora a conquista do Egito
uma oportunidade histórica de derrubar o Império Britânico.
El Alamein é uma pequena estação ferroviária na costa egípcia.
Ninguém adivinharia que este sítio perdido ficaria na História.
Mas é aqui que os britânicos vão mudar o rumo da guerra.
Claude Auchinleck escolheu esta posição
para não voltar a ser cercado pela Raposa do Deserto.
Tem obstáculos impossíveis de todos os lados.
O mar a norte,
uma extensa área de areia a sul.
Em julho de 1942,
Rommel lança aquela que espera ser uma ofensiva decisiva
sobre El Alamein.
Assim que a ofensiva alemã foi lançada sobre El Alamein,
as coisas correram muito mal para os soldados britânicos.
No último ano, sofreram derrota após derrota,
apesar da sua superioridade numérica.
As estratégias ineptas dos seus líderes,
e o medo de Rommel, destruíram a sua determinação.
No hospital de campanha, o Dr. James Graham vê imensos soldados,
todos feridos e incapacitados.
Descobre que alguns preferem automutilar-se a regressar à frente.
"O truque era partir um carregador e engolir o explosivo,
"um veneno para o fígado.
"Após umas semanas no hospital,
"talvez consigam um trabalho como não-combatentes."
No verão de 1942,
Auchinleck vê os seus homens render-se ao inimigo.
Tal derrotismo é inaceitável.
Pede o regresso da pena de morte para os desertores.
Auchinleck conseguiu conter a ofensiva do Eixo,
mas cai em desgraça.
É considerado responsável pelo colapso do moral dos soldados.
3 DE AGOSTO DE 1942
Devorado pela ansiedade,
Winston Churchill vai ao Cairo no início de agosto.
Destitui abruptamente Claude Auchinleck.
Para o substituir, opta pelo general Bernard Montgomery.
Churchill acha-o orgulhoso,
mas escolhe Montgomery por ele ter uma qualidade preciosa:
uma imensa autoconfiança que transmite aos que o rodeiam.
James Graham é destacado para o quartel-general de Montgomery.
Vê-o tentar curar as maleitas que afetam os seus homens.
"Montgomery sai todos os dias.
"Vai assiduamente às unidades apresentar-se aos soldados.
"Nunca antes um comandante fez isso."
A mensagem de Montgomery às tropas é simples, mas firme.
"A defesa do Egito reside aqui em Alamein.
"Aqui iremos lutar.
"Não haverá mais retiradas."
É óbvio que, sob o seu comando, não cederão um centímetro a Rommel.
James Graham confirma-o.
"Aquilo foi o suficiente para ganhar a lealdade deles.
"Todos gostam de estar no lado vencedor."
Estrategicamente, Montgomery é o oposto de Rommel.
O estratega britânico
gosta de preparar os seus planos meticulosamente.
No fim de agosto, quando Rommel parte para a ofensiva,
Montgomery está à sua espera.
30 DE AGOSTO DE 1942
FOGE, ROMMEL! FOGE!
Em vez de arriscar numa batalha improvavelmente decisiva,
Montgomery decide cansar o adversário.
Afinal de contas, tem superioridade material.
"O meu plano é conter os tanques do inimigo,
"enquanto realizamos a destruição metódica do seu sistema defensivo.
"O inimigo ficará sem acesso a mantimentos."
O alvo de Montgomery é o ponto fraco de Rommel,
as suas colunas de abastecimento de combustível.
Werner Mork conduz um camião de abastecimento para o Afrikakorps.
Sofre um ataque aéreo que irá marcá-lo para o resto da vida.
"O ataque durou só alguns momentos. Fiquei bastante afetado.
"Desde então, tenho uma absurda sensação de pânico.
"Está comigo,
"a guerra em toda a sua crueldade, em todo o seu horror."
A estratégia de desgaste de Montgomery compensou.
Após um mês de combates,
o Afrikakorps tem combustível para apenas alguns dias.
A 27 de outubro de 1942,
a Raposa do Deserto é finalmente derrotada.
Os serviços de informação ingleses intercetam uma mensagem alemã
sobre a chegada iminente de dois petroleiros italianos
ao porto de Tobruk.
Quando se preparam para largar âncora,
os navios são afundados por bombardeiros da RAF.
Por falta de combustível,
Rommel não pode continuar a combater.
4 DE NOVEMBRO DE 1942
Rommel sofreu uma terrível derrota em El Alamein.
Sabe que isto põe fim às ambições do Führer em África.
É um homem destroçado aquele que escreve à mulher.
"Só Deus sabe se irei sobreviver a esta derrota.
"Se nunca regressar, gostaria, do fundo do coração,
"de te agradecer a ti e ao nosso filho
"por todo o amor e felicidade que me deram."
VITÓRIA
LONDRES
A vitória em El Alamein
é um ponto de viragem na Segunda Guerra Mundial.
O exército de Rommel foi derrotado.
O primeiro-ministro britânico não esconde o seu prazer.
Isto não é o fim.
Nem sequer é o início do fim.
Mas é, talvez, o fim do início.
Churchill regozija-se.
Sabe que os dias do Reich em África estão contados.
Tropas americanas acabaram de desembarcar no Norte de África,
nas praias de Marrocos e da Argélia, duas colónias francesas.
Apesar de oposição do seu pessoal, Roosevelt cede a Churchill.
O Presidente dos EUA quer ganhar as eleições intercalares.
Prometeu aos eleitores uma vitória fácil no continente africano.
Com uma duração inicialmente prevista de seis semanas,
a Operação Tocha, o epílogo da Guerra do Deserto,
durará seis longos meses.
As forças britânicas e americanas e o exército de Montgomery
combinaram encontrar-se na Tunísia.
É o local ideal para passar à Europa,
projeto que Hitler quer evitar a todo o custo.
O Führer hesitara em apoiar o Afrikakorps.
Envia agora bastantes reforços para a Tunísia,
e até transfere bombardeiros da Luftwaffe da frente russa.
A ferocidade dos combates refreia o entusiasmo dos americanos,
especialmente desde o seu primeiro embate com a Wehrmacht
em fevereiro de 1943, em Kasserine.
Foi um desastre.
Mas aquele terrível batismo de fogo endureceu-os.
Agora, as fortalecidas forças americanas
podem juntar-se ao exército britânico de Montgomery.
Com uma superioridade avassaladora,
os britânicos e os americanos lançam a ofensiva final
no centro da Tunísia.
Os britânicos entram em Tunes e os americanos em Bizerte.
13 DE MAIO DE 1943
As tropas do Eixo, no seu último refúgio,
rendem-se incondicionalmente.
Os Aliados fazem 275 mil prisioneiros,
muitos mais do que os 90 mil feitos na queda de Estalinegrado.
Estes milhares de soldados não poderão repelir os Aliados
no Desembarque na Normandia.
E assim termina a Guerra do Deserto.
É uma vitória que leva os alemães para fora de África.
Os Aliados estão agora prontos para combater na Europa Ocidental.
Juntamente com Montgomery, domaram a guerra moderna.
A lição foi aprendida pelos líderes e pelos seus homens,
com um sofrimento inenarrável.
O povo celebra os seus libertadores,
mas o júbilo é ambíguo.
A vitória dos Aliados pode ter livrado África da praga do nazismo,
mas apesar das promessas,
não quebrou as cadeias do colonialismo.
A Guerra do Deserto levará à derrota do Reich.
Será também o prenúncio de uma nova era,
a da libertação de nações colonizadas.
Legendas: Sara Morna Gonçalves
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