All language subtitles for My Life as a Rolling Stone S1E4 - Charlie Watts.WEBRip.pt

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Original subtitles

Senhoras e senhores...

... os Rolling Stones.

Em setembro de 2021,

os Rolling Stones fizeram o que não faziam desde 1963,

tocaram sem o seu baterista, Charlie Watts.

Para os Stones e os seus fãs foi um evento muito emotivo.

Todos os concertos da digressão, começam com o mesmo tributo sentido,

o som da batida de Charlie,

que alimentou a banda durante quase 60 anos.

Quero dizer-vos que é uma grande emoção ver

as fotos do Charlie no ecrã

e...

É a nossa primeira digressão sem ele.

Todos sentimos falta do Charlie, no palco e fora dele

e queremos dedicar esta digressão ao Charlie.

A ti, Charlie!

Charlie Watts... ainda estou a gerir isto.

Tenho saudades do Charlie em muitos aspetos.

Gostava de tocar para ele uma música nova,

de falar do mau desempenho da Inglaterra no jogo de ontem...

Sinto muito a sua falta.

Quando o Charlie faleceu ficámos arrasados.

Temos o Charlie sempre a tocar connosco em espírito.

Charlie Watts era a força motriz em tudo o que os Stones faziam,

o seu batimento cardíaco.

A sua bateria moldou a música que adoramos há seis décadas.

Cunhou canções que têm agora a minha idade.

Vou começar a chorar.

Por mais rápido que o Mick atravessasse o palco,

a dançar ou o que fosse, ele acompanhava-o sempre.

A morte dele foi um choque.

Foi tomar consciência de que pode haver um fim

para esta banda que dura há décadas.

Não imagino os Stones sem o Charlie Watts.

O Charlie era o motor.

O melhor baterista que a Inglaterra já produziu.

Sr. Watts, entre e vá para o seu lugar.

Continue.

- E agora? - Pode dizer.

Sou eu que importo e sou a estrela, para variar.

Aqui estão os fantásticos Rolling Stones.

Estão em segundo, após cinco semanas em primeiro, com "Honky Tonk Women."

A forma como entra,

só com um toque e uma caixa.

Quando ouvimos a introdução...

... o nosso corpo reage fisicamente.

Quando ouvi "Honky Tonk Women" achei que tinha funk

e o Charlie é responsável por isso,

porque quando há funk,

isso vem sobretudo da bateria.

Eu e o Charlie éramos muito virados para a dança.

Foi isso que nos juntou, a batida.

O que fazem os bateristas? Dão-nos ritmo para dançar.

O Charlie parecia um baterista americano.

Tinha aquele estilo americano.

Se fechasse os olhos, diria que o Charlie era um baterista negro.

O Keith sabia desde o início,

que tinham encontrado alguém único e especial.

Não só como artista, mas como pessoa.

O casamento entre Keith e Charlie criou um instrumento próprio.

O espaço que davam um ao outro,

a forma como os instrumentos encaixavam, parecia uma tapeçaria.

Costumo olhar para o Charlie

e ele dá-me um grande sorriso, porque tudo encaixa.

Quase nem quero tocar nas cordas,

porque tocam sozinhas e estão ao rubro.

O Charlie sabia bem,

que qualquer música podia correr mal,

quando menos esperássemos.

A magia é essa.

O risco é o que motiva a banda.

"Honky Tonk Women" é o culminar de tudo

o que os Rolling Stones desenvolveram na sua ascensão à fama.

Gosto do tipo que toca bateria.

- O Charlie! - O Charlie!

- Gostas dele? - Sim.

Desde que estou com os Rolling Stones,

e isto não tem nada a ver comigo,

as pessoas vêm ver-nos.

Há muito quem nos seguem e tem sido incrível.

Aquilo a que chamo o tempo dos Beatles,

que foi o que lhes aconteceu, estava a acontecer-nos.

Ter sucesso influenciou-o como pessoa?

Infelizmente, já não penso em gastar 5 libras.

É a única diferença que faz.

Adorei.

O entusiasmo e o público são fantásticos.

Quando vemos um balcão num dos bonitos velhos teatros

do Norte de Inglaterra aos saltos para cima e para baixo...

É incrível ver o público.

Nesse período, nunca tocámos mais de duas canções.

Anunciavam os Rolling Stones, a cortina abria

e era a loucura total.

Ao fim de três canções,

partiam tudo e tínhamos de sair.

Fora os estúdios, não tocávamos muito,

porque nunca chegávamos ao fim.

Acha que mudou a sua atitude com os outros?

Não. Mudou a atitude dos outros em relação a mim.

Mas, na verdade, quando a música parava,

apetecia-me desligar tudo.

Detestava.

Odiava ser perseguido por raparigas e isso tudo.

Isso deixava-me envergonhado.

Os Rolling Stones sempre foram assim.

Eu não.

Os Rolling Stones são fantásticos, mas não me revejo neles.

Charlie tinha uma relação ambivalente com o estrelato e os Stones,

mas o que o distinguia dos membros da banda

também fazia dele o parceiro perfeito, a âncora permanente.

O que ele acrescenta em caráter e em estilo fica muito claro

na sua primeira viagem pela América.

Queriam replicar o sucesso dos Beatles, três meses antes,

mas com o Charlie a bordo dá-se uma reviravolta.

Todas as bandas britânicas gostavam de blues e rhythm and blues,

mas nem todas apreciavam jazz.

O jazz é a peça-chave do rock and roll.

Nem sempre se fala nisso.

Nos Rolling Stones é Charlie Watts que adora jazz.

E enquanto o resto da banda venera os blues,

Charlie venera algo diferente.

Aterrámos em Nova Iorque e fui a um clube de jazz,

o Village Vanguard ou Birdland.

Vi dois artistas no Birdland:

a banda de Charlie Mingus, que era fantástica,

e o Sonny Rollins.

Aquilo era a América.

O resto não me interessava.

O jazz é o primeiro e grande amor de Charlie.

Mesmo sendo conhecido pelos ritmos que tocava nos Stones,

tornando-o um dos maiores bateristas de rock de sempre,

o jazz ficou sempre por perto.

Na música "Rocks Off",

uma das minhas preferidas,

os fills estão em sítios estranhos.

Seja o que for que o faz reagir,

nesses momentos trata-se de um diálogo musical.

Isso é jazz.

Isso é jazz, porque é espontâneo.

Para mim, a essência do que fazemos como banda e as origens do Charlie

levam-nos à palavra jazz.

Charlie Watts descobre a música que mais gosta

em criança, em Wembley Park, no pós-guerra.

- Como estamos? - Bem.

Vamos lá.

Cuidado, ele juntou-se a nós.

Crescemos juntos desde os quatro anos e ouvíamos imensa música.

Tem piada, porque começámos a interessar-nos por música juntos.

Fomos viver para casas pré-fabricadas vizinhas em Wembley Park.

Saía da minha porta e entrava na do Charlie.

A cada 35 minutos erguem um bungalow de alumínio,

a casa parece brotar.

Antes do terceiro cigarro,

já há cortinas na sala de estar.

Eram filas de casas pré-fabricadas, todas do mesmo tamanho.

Viver ali era viver em comunidade.

Ninguém era melhor do que ninguém

e era um sítio fantástico para as crianças.

Os buracos nas cercas

deixavam os rapazes circular entre as casas,

onde estes jovens londrinos descobrem o gosto pelo jazz americano.

Charlie chegou ao bebop antes de mim.

Eu entrava no quarto do Charlie e ele dizia que tinha um disco novo.

Aqui estão eles. Charlie Parker e o famoso Dizzy Gillespie

OK pessoal, vamos lá!

Ouvi o Charlie Parker tocar e é isso que eu gosto.

Foi nele que tudo se baseou, no Charlie Parker.

O amor dele pelo Charlie Parker era incomensurável.

Parecia música do espaço.

Transportava-nos para outro mundo.

Na Nova Iorque dos anos 40

fazia-se magia na 52nd Street.

Adoro os EUA dos anos 50.

A minha cena são os anos 50 na América

e continuo assim, de certa forma.

Charlie Parker no sax alto...

O primeiro baterista que quis ser foi o Chico Hamilton,

que esteve com Gerry Mulligan nos Walking Shoes.

Eu tinha um banjo. Tirei-lhe o braço

e comecei a tocar na pele do banjo com um par de pincéis.

O meu pai comprou uma bateria ao tipo que tocava no bar.

Lil, a mãe de Charlie, diz o seguinte dele:

"O Charlie sempre quis uma bateria

e tamborilava músicas na mesa com madeira ou com a faca e o garfo.

Oferecemos-lhe a primeira bateria no Natal, com 14 anos.

Custou 12 libras.

Gostou logo dela.

Costumava ouvir discos de jazz e acompanhar na bateria.

Os vizinhos eram muito amáveis. Nunca se queixavam."

O vizinho era eu.

Maravilhoso!

Acompanhado pelos seus heróis Chico Hamilton, Max Roach e Elvin Jones,

Charlie, ainda adolescente, entra para a sua primeira banda,

os Joe Jones All Stars.

Clube de Jazz Edgware, em 21 de agosto de 1959.

Esta é a primeira gravação do Charlie.

Já dá para ouvir o seu fantástico swing.

O som de Charlie Watts começa a ganhar forma,

mas dará um passo gigante

graças às viagens noturnas ao coração do swing de Londres.

Era qualquer coisa ir a bares de jazz.

Havia alguns: o Marquee Club, o antigo lugar do Ronnie, o Flamingo.

Estes bares no centro do Soho são Nova Iorque em Londres.

Para o Charlie, sedento do ritmo e do glamour da 52nd Street, de Manhattan,

a rua do jazz, isto é inebriante.

Olá, malta.

Vamos ouvir do início, sim?

Aos 16 anos, ficava a olhar para estas pessoas como Phil Seamen.

Queria ser assim.

Phil Seamen foi a resposta inglesa a Art Blakey, de certa forma.

Era o grande baterista de jazz.

Não se intitulando baterista de jazz,

Charlie tinha essa sensibilidade e isso influenciava a sua batida.

Tinha uma descontração quanto ao seu desempenho,

que não se encontrava no talento local.

Estávamos todos a aprender. A batida de rock estava a ser inventada

nessa altura.

Isso foi-lhe vantajoso.

Tê-lo numa banda de rock era interessante

por dotar os Rolling Stones dos conceitos de percussão do free jazz.

Charlie conseguia improvisar, ser flexível e manter o ritmo,

o que era crucial para uma banda que vivia no limite

e que era suficientemente descontraída para cometer erros.

Vi no Village Voice o anúncio.

que me levou ao Bruce e aos E Street Band, em 1974.

Tinham uma ótima secção de anúncios de música

e havia anúncios que pediam "Percussionista tipo Charlie Watts".

Charlie Watts,

sem o querer, criou um tipo de percussionista.

Pessoas como Charlie Watts são difíceis de encontrar.

Não se fazem pessoas como o Charlie.

É verdadeiramente único.

Ao longo da história, poucos bateristas

foram verdadeiramente artistas.

E ele foi um deles, sem dúvida.

Conhecem o seu ritmo icónico.

Aquele...

Todos conhecem a batida de Charlie Watts.

Tinha um estilo muito próprio.

O som é um som aberto onde os tambores ressoam.

É uma nota, não é uma pancada.

É o jazz que diz que os bateristas têm o seu próprio som.

O Charlie Watts tinha um som,

que entoava em toda a música dos Rolling Stones.

Era único, porque o seu rock era intenso, mas descontraído.

Tinha um estilo muito relaxado, num tipo de música muito enérgico.

Ao gravá-lo, cedo descobri

que o Charlie nunca tocava os pratos e a tarola ao mesmo tempo.

Não tocar os pratos e a tarola ao mesmo tempo

dá à tarola um som aberto enorme.

Nunca o tinha ouvido antes.

Mas se o formos ouvir, é fantástico.

Mas fazia outra coisa.

Aquele movimento físico é prolongado

e ajuda a relaxar a batida.

Era uma parte importante do som descontraído dos Rolling Stones.

Podiam relaxar e tocar com andamentos mais lentos,

embora dando a impressão que tudo avançava com força.

O estilo de Charlie refletia o seu caráter.

O importante eram os Rolling Stones, não ele.

Eu toco bateria para o Keith e o Mick. É isso que faço.

Não toco para mim.

Mas isto mascara o profundo respeito que tem pela sua arte,

apoiado em gigantes, a caminho do topo.

Tinha muitas baterias,

como a de Gene Krupa e a de Art Blakey.

De todos os bateristas famosos, que o foram influenciando.

E todos estes fantásticos objetos estão guardados aqui,

num local secreto.

Uma coleção valiosa reunida ao longo de anos.

Tanta coisa!

Prateleira após prateleira, cheia de história musical.

Há anos que me dizia para vir ver a sua coleção de baterias.

O que temos aqui?

Tony Williams!

Pensou em abrir um museu.

Disse-me: "Tens de vir ver."

Queria que eu fosse com o Steve.

A bateria Premier

de Kenny Clark e que ele deu a Max Roach.

- Deve haver umas 100 baterias. - Sim.

A de Joe Morello.

- É a que usou com Dave Brubeck. - Sim.

E com as caixas originais e tudo.

- Charlie Parker. - O que é?

- A caixa do sax. - Não acredito.

Incrível!

O que temos aqui?

Copper Mist Gretsch de DJ Fontana, 1953,

comprada pelo Elvis para o DJ em Houston.

Não acredito.

O Elvis pôs isto na parte de trás do Cadillac,

foi de carro para o concerto, montou tudo e atuou.

- A história da percussão está aqui. - Pois está.

- Do jazz e do rock and roll. - Sim.

O Charlie adora o que ele chama "as suas cenas".

Um prazer pago pelo seu sucesso com os Rolling Stones

e que o mantém são no meio da loucura do rock and roll.

Será sempre a estrela rock acidental, famoso por hesitar em ser um Stone.

Por fazer o que faço, não toco bateria em casa

e para tocar bateria tenho de ir para a estrada

e para isso tenho de sair de casa.

É o círculo vicioso terrível, que sempre foi a minha vida.

Para uma banda que passou imenso tempo em digressão

durante os 60 anos juntos,

é uma existência nómada.

Aviões, comboios, autocarros, hotéis

e um monte de nada para fazer.

Deve ter andado muito por aí em 25 anos de Rolling Stones.

Trabalhei cinco anos e deambulei 20.

Quando a porta se fecha

e ficamos sozinhos no maldito quarto

deixa-te maluco.

Fico para ali sentado...

Mas sou eu.

Devia estar lá em baixo a saltitar,

mas não sou assim, por isso é muito difícil.

Há aqui uma espécie de separação.

Quando o sol nasce fica tudo bem.

Não tenho nada para fazer.

Podia passar o dia na cama.

Podia pedir que me viessem buscar à cama e me levassem ao espetáculo

e, desde que estivesse bem, em forma e tocasse bem

no espetáculo de duas horas

podiam voltar a pôr-me na cama

e a levantar-me daqui a três dias, para o próximo.

O Charlie é tudo menos um cliché do rock and roll.

Não atira televisões da janela,

não se mete com fãs, não destrói o quarto de hotel.

Tinha uma forma única de passar o tempo.

Desenhou as camas, as refeições, os quartos de hotel.

Isto começou em sessenta e tal e mantinha-me ocupado.

É um diário.

Agora, não falho um, senão é como se arruinasse um dia da minha vida.

Desenho as camas em que durmo quando saio com os Rolling Stones.

Uma vez, mostrou-me um dos seus livros das digressões.

São desenhos simples e

têm pormenores como um casaco ou um letreiro

misturados com todo o tipo de detalhes do quarto.

Sempre lhe disse:

"Charlie, devias publicá-los. As pessoas iam gostar."

"Ninguém quer ver isto."

"Querem, Charlie, porque é uma forma de entrarem no teu mundo."

E ele: "Entrar no meu mundo?"

Ele subestimou por completo o seu poder enquanto pessoa.

Houve alturas em que o Charlie sofria de TOC.

O Charlie na ronda? É o nosso Charlie!

Evitava as fissuras no passeio.

Se não descesse ou subisse um lanço de escadas de uma certa forma,

tinha de voltar atrás e recomeçar tudo.

Isso fazia parte de quem ele era.

Eu não gosto de digressões.

Não gosto de viver com as malas atrás.

Uma palavra: especial.

É famoso por ter que ter tudo organizado de certa forma.

Às vezes perguntava-lhe: "Como dobras as meias, Charlie?

- Enroladas numa bola?" - Não.

Não são enroladas numa bola. Mostro-te, se quiseres.

No quarto dele havia umas malas de viagem lindas

e as meias estavam na parte de cima.

Dobra-se ao meio e põe-se papel no meio

para manterem a forma.

As roupas tinham papel a separar cada camisa,

cada meia, cada cueca, cada casaco.

O termo correto é "imaculado".

Nada fora do lugar.

- Odeio que mexam nas minhas coisas. - A sério?

Detesto ver empregadas nos quartos dos hotéis.

Passei a maior parte da vida em hotéis,

mas ponho o "Não Incomodar".

Às vezes, estou no hotel duas semanas e ninguém vem.

Odeio que venham.

E odeia porquê?

Odeio que toquem nas minhas coisas.

Quando ia vê-lo ao quarto,

se ele virasse as costas, eu mexia num livro e voltava a sentar-me.

Quando ele se virava ia pôr o livro exatamente como estava.

E apanhava coisas do chão.

Chegou a fazê-lo

enquanto estava a ser apresentado em palco. É...

Senhoras e senhores, Charlie Watts.

Ele avançava e parava

para apanhar lixo ou lá o que era.

Em digressão, o Charlie controlava o mais possível o seu ambiente.

Chamavam ao camarim dele Cotton Club,

onde ouvia Duke Ellington antes de subir ao palco.

Estava escrito na porta "Cotton Club".

Se quiséssemos tranquilidade, era o sítio ideal

e éramos sempre bem recebidos.

Havia sempre coisas boas para comer e beber.

Um mar de tranquilidade com algum conforto doméstico.

O que é isto?

Espreita. Podes abrir.

O conjunto de chá do Charlie.

Uma pequena chávena e um pires.

Fantástico!

Parece antiga, não parece?

- Talvez vitoriana. - Sim.

- Isto deve ter chá. - Sim.

- É a cara dele, não é? - Sem dúvida.

- Um inglês em digressão. - Caramba!

- Põe lá para não partir. - Sim.

O Charlie não ia gostar.

Maravilhoso!

Como descreveria a digressão, até agora?

Trabalho muito duro.

No fundo, ele gostava das digressões.

Dizia que não queria ir,

mas acho que gostava.

Ficou mais bonito, mais saudável

e tocava com muito prazer.

Quem sai sou eu,

no fim das digressões. Detesto malas e largo a banda.

Mas eles não me deixam.

É que nós éramos uma pequena família

nos camarins, percebe?

O Charlie achava que eu cortava cabelo, viu-me a cortar o meu,

mas só me deixou cortar-lhe o cabelo uma vez.

Adoro tocar bateria

e tocar com os Rolling Stones.

A minha mulher diz que gosto mais deles do que dela, mas não é verdade.

Já pensou em levar a sua mulher consigo na digressão?

Vem de vez em quando, mas não gosta.

Não a censuro.

O que é que há ali,

tirando o espetáculo? É o meu trabalho, o que eu faço.

Não havia lugar para uma esposa nas digressões.

Não havia nada para fazer e ficava naqueles quartos de hotel sombrios,

desenhava e lia e só queria estar noutro sítio.

Mas queria muito estar com o Charlie.

Uma vez queixei-me à mãe do Charlie das suas ausências,

pouco antes de casarmos, e ela disse-me:

"Não te preocupes, daqui a um ano já passou tudo."

Charlie e Shirley estão casados há 57 anos.

Dedicados um ao outro, ele sente a falta dela

e da paz e do isolamento do lar.

O primeiro Stone a sair de Londres

faz parte do êxodo das estrelas do rock dos anos 60 para o campo,

para grandes mansões, símbolos de riqueza e fama.

Mas para Charlie é mais do que estatuto, é um refúgio.

Era um sítio tranquilo para viver.

Fui a casa dele, em Devon.

Acho que tinham 15 cães.

Levou-me a visitar o espaço e mostrou-me os cavalos.

Temos cavalos desde que casámos.

São o amor e a paixão da minha mulher.

- Quantos tem? - Cerca de cem.

Deve ser a melhor coudelaria na Europa e eu ando por lá.

Devia ter sido um senhor vitoriano, não?

É assim que vivo.

Levantamo-nos, subimos a calçada,

vemos os cavalos.

- Monta? - Não.

Mas tenho a parafernália toda.

Tenho fatos maravilhosos.

Não conduzo, mas tenho um Lagonda antigo lindíssimo.

- Não é uma loucura? - Não,

porque não? - É muito estranho.

Ele admirava o design.

Não estava a ser excêntrico, a comprar carros só por comprar.

Adorava cada linha daquele Lagonda.

Sentar-se nele, para ele, era como estar num quadro.

"E, sim,

vou usar um fato que combine com as cores do meu carro."

Limitava-se a sentar-se e a fazer o seu papel.

O Charlie é conhecido pela sua elegância no vestir,

um cavalheiro inglês do campo muito moderno.

Longe do arquétipo do baterista louco.

E o seu forte espírito independente destaca-se,

mesmo numa banda que redefine a liberdade de expressão.

Acho que o visual do rock and roll é desleixado,

mas é a minha opinião.

Não se vestia exatamente como estrela de rock,

mas como músico de jazz a tocar numa banda rock.

Esta é outra área em que os bateristas tiram o chapéu ao Charlie,

porque ele tocava bateria, mesmo vestido com um fato caríssimo

e os outros tinham de o fazer em calções e t-shirt.

Ele andava imaculado.

Acho que nem suava.

Sim, o Charlie tinha roupa feita à medida: fatos,

camisas e sapatos à medida.

HUNTSMAN PRONTO PARA O ROYAL ASCOT

Tenho uma campanha.

Vou salvar a alfaiataria sozinho.

Charlie sempre adorou fatos feitos à medida,

sobretudo do seu alfaiate de eleição, Huntsman, em Savile Row.

Um cliente há mais de 50 anos, um dos seus preferidos.

Os alfaiates chegaram a chamar a um tecido "riscas de Watts".

Nunca o tratei por Charlie. Tratava-o sempre por Sr. Watts.

Cada cliente tem o seu molde de papel

e a maioria dos clientes tem um modelo de fato, ou de sobretudo.

A prova do guarda-roupa eclético de Charlie

é que há um conjunto de modelos no cabide de Charlie.

Um alfaiate é um profissional, como um médico ou advogado.

Se um homem quer estar bem vestido, a única forma é

tornar-se cliente do alfaiate certo.

Ele tinha uma postura elegante e descontraída

e queria roupas suaves e soltas.

Isso refletia a sua personalidade de muitas formas.

Nunca quis destacar-se.

Era muito introvertido em muitos aspetos.

Tinha olho para os pormenores

e também para a cor.

Combinava tudo muito bem.

Às vezes, dizia: "Podemos fazer isto, mas vamos fazer assim."

Discutíamos o assunto e eu tinha as minhas dúvidas,

mas depois fazíamos o que ele dizia e resultava.

Tenho uma doença que é

quando vejo uma amostra de tecido tenho de mandar fazer alguma peça.

Ele adorava ir à cave,

que nós batizámos como "sala dos pendurados".

Adorava vasculhar até encontrar peças de tecido antigas,

descartadas ou esquecidas.

Fazíamos roupa com elas e ele adorava.

Herdei isto do meu pai.

Tinha um alfaiate? Levou-o lá?

Sim. Naquele tempo, parecia ser algo comum.

Como era o seu pai? Que fato teria escolhido?

Muito parecido com os que eu uso.

Ele gostava de peças de final dos anos 40 e anos 50.

Eu vivia no mundo da TCM, Turner Classic Movies.

Preocupava-o pensar

para onde iriam todas as suas roupas.

Levava pouca roupa de cada vez, para a esposa não ver muita ao mesmo.

Mas continuava a encomendar mais.

Tenho aqui alguns fatos que, infelizmente, ele nunca chegou a ver,

mas que provou e gostou, o que é bom.

HUNSTMAN SAVILLE ROW, LONDRES

Sejam batidas ou botões,

criar um fato ou gravar uma faixa de bateria,

para Charlie é tudo uma questão de sentimento.

Ele era muito progressista

e ouvia muitos tipos de música.

No início, quando gravámos o disco Exile on Main St.,

toda a gente ouvia Jerry Lee Lewis

e nós ouvíamos reggae instrumental.

Tecnicamente, era melhor baterista

do que se podia imaginar.

Em 1996, queríamos fazer loops e fazer experiências com a bateria.

Mandámos o Charlie sair da sala, pusemos auscultadores

e tocámos The Chronic, Dr. Dre.

Tocou tudo sem falhar.

Encaixava perfeitamente.

Era capaz de ser um baterista com os tempos perfeitos, se quisesse.

Só não o era, porque isso significava uma total falta de alma.

Tendo em conta a variedade de música que os Stones cobriram

e a forma como Mick e Keith sempre compuseram,

ele sempre abarcou facilmente todos os aspetos do que queriam fazer.

Os Rolling Stones sempre foram camaleões musicais,

com bom ouvido para tendências

e a mudar de cor para se adequarem à paisagem cultural.

Charlie apreciava dance music

e quando a moda da dance music surgiu em meados de 70,

o Charlie adorou.

É como falámos antes, tem tudo a ver com o ritmo.

NOVA IORQUE

É o ritmo da pista de Nova Iorque,

que influencia os Rolling Stones no seu próximo passo.

São três da manhã em Manhattan e no Studio 54

as pessoas ainda se aglomeram à porta, a tentar entrar.

O estilo disco está em alta.

Muitos êxitos tocados nas discotecas são do lendário baterista Earl Young,

pioneiro do ritmo disco four-on-the-floor.

Provavelmente, ouviu algo que eu toquei

e pensou: "Eu consigo tocar aquilo.

Vou pôr isto num dos nossos discos."

E apanhou o four-on-the-floor

e o som de Filadélfia.

CHARLIE WATTS - SÓ PERCUSSÃO DE "MISS YOU"

Pensei: "Eu é que devia estar ali a tocar aquela canção."

Tem aquele estilo...

E arrasaram com a malta que dançava.

As bandas rock quase sempre tocam música para dançar

e quem gosta de dançar,

e o Charlie dançava muito bem,

percebe que tem tudo a ver com dança.

"Miss You" leva os Stones a um novo tipo de público

e mantém-nos importantes na chegada de uma nova década.

Para banda de blues com baterista de jazz não tocam mal disco.

Quando se compreende a música em geral,

seja uma improvisação, como o jazz,

ou uma gravação rock de 3 minutos, é igual,

temos de usar essa sensibilidade na música em questão.

O Charlie era um mestre nisso.

"Miss You" é gravada para o álbum Some Girls, lançado em 1978.

Como sempre, a bateria de Charlie é o ingrediente essencial

que tudo une.

Mas, nos bastidores, o Sr. Confiança sofre um abalo invulgar.

Experimentei coisas que nunca tinha experimentado.

- O quê? - Heroína.

Podemos consumir heroína sem que nos aconteça nada,

mas, de repente, estamos viciados.

Eu bebia muito e era tudo misturado.

É fácil ficarmos viciados a viver este tipo de vida,

sobretudo numa posição como a minha.

Posso ficar aqui sentado e tudo me vem parar às mãos.

Nesse tipo de vida não duraríamos muito,

mas é possível isso acontecer.

Consumi muitas drogas já mais velho

e não o fiz bem, por isso, quase perdi o casamento e a minha vida.

Em meados dos anos 80, saía à noite e era ridículo.

Era a vida de um drogado.

Em três dias, dormia dois

e no fim o aspeto não é grande coisa.

Mas como conseguiu resistir durante tantos anos?

Não sei. Nunca tive vontade de o fazer.

Sempre andou à minha volta, mas eu não queria.

Depois, tive uma crise de meia-idade e tornei-me noutra pessoa.

O Charlie não conseguiu explicar o que provocou a crise da meia-idade.

Talvez seja pessoal.

Ou talvez sejam só os próprios Stones,

cujos conflitos se tornaram conhecidos.

Ou talvez estivesse a imitar os seus heróis de jazz que consumiam heroína.

Parker é um clássico.

Ser tão brilhante e destrutivo,

é algo terrivelmente glamoroso para mim.

É a genialidade de tudo aquilo.

Seja qual for a causa,

a salvação vem do sítio mais improvável,

Disse-lhe que ele não era assim.

O que mais me preocupava

no Charlie, nessa altura, era a bebida.

Ele bebia coisas fortes, conhaque e outras coisas.

Charlie Watts estava no auge.

Se estava a aventurar-se noutras coisas, não me importava,

mas a bebida é que...

Há pessoas que são perfeitas como são,

não precisam de estimulantes.

Nós, os infelizes imperfeitos, precisamos de ajuda.

Charlie Watts não precisava,

era imaculado, uma conceção imaculada.

Deus o abençoe.

O Keith falou comigo e eu percebi e parei.

Apesar de Charlie estar viciado em heroína,

o seu primeiro vício, o jazz, era o mais forte.

Estava na hora de tornar uma fantasia antiga realidade.

Agora, o entretenimento.

Tiveram lugar hoje no Ronnie Scotts Club, em Londres, os ensaios finais

da Charlie Watts Big Band para a sua estreia, na próxima semana.

Cerca de 33 músicos juntaram-se

para trazer de volta o ambiente da era Benny Goodman.

LONDRES

Ele apoiava o Ronnie Scotts Club

e queria retribuir.

O clube estava com dificuldades financeiras

e em risco de fechar.

Eu disse que levava uma banda e eles ficavam com a receita.

Ofereceu esse concerto ao clube.

Os músicos incluíam alguns dos maiores nomes

do jazz e do rock da Grã-Bretanha e ainda músicos mais recentes.

Um desses músicos emergentes é a colaboradora

de longa data de David Bowie, Gail Ann Dorsey.

Era o Charlie Watts, dos Stones,

uma das minhas bandas preferidas.

Lembro-me que ele parecia um tipo normal num bar.

Estava simplesmente muito feliz por estar a tocar jazz.

Uma vaga preenchida.

Só faltavam as outras 32.

Fiz uma lista de pessoas que gostaria de convidar.

Jack Bruce, dos Cream,

Stan Tracey, o lendário pianista de jazz

e o jovem prodígio, Courtney Pine, no saxofone.

Conheci o Charlie e ele olhou para mim e disse-me: "Diverte-te."

Lembro-me que foi uma experiência incrível.

Nunca tinha estado num palco com pessoas assim.

Foi um conceito espantoso para o jazz,

a big band, que nunca tinha acontecido, creio.

Todas as noites, antes do espetáculo, espreitava e dizia:

"Vejam quem acabou de entrar!"

Todas as noites ia alguém famoso.

Era uma loucura.

Foram lá Chrissie Hynde, Gil Scott-Heron e os Stones todos.

David Bowie apareceu e eu perguntei-lhe: "Lembras-te

que era eu a cantar com a Charlie Watts Big Band?"

A mãe do Charlie e a minha mãe também foram.

O Charlie veio de limusina ao bar,

viu a primeira parte e voltou para casa.

Lembro-me de ele sorrir muito.

Acho que sentiu

que estava a realizar uma coisa que sempre quis fazer.

Sempre a sorrir,

porque percebeu que fazia parte de uma criação espantosa.

E foi um ponto de viragem para mim, para a minha carreira

e vou estar sempre grato a Charlie Watts por isso.

O bar estava sempre cheio, porque era a Big Band do Charlie.

Creio que foi o que impediu o clube de fechar.

A pausa da Big Band revigorou Charlie.

Quando a sua outra banda voltou à estrada,

havia um propósito renovado.

É nesta altura que os Stones abraçam o seu papel

de pioneiros do rock de estádio.

As digressões tornam-se cada vez mais elaboradas,

mas com toda a extravagância e inovação, há coisas que nunca mudam.

Como se dá energia à melhor banda de rock do mundo,

com o que parece ser uma bateria de principiante?

Não sei.

O que importa é como nos organizamos, como tocamos.

Há quem precise de muitas peças.

Muitas vezes, são só aparência.

É um pequeno conjunto de quatro peças

e a tarola parecia vir dos anos 30.

Imagino que tocava naquela tarola sabe Deus há quanto tempo.

Aquele conjunto dele tinha algo de humanamente enternecedor

no meio daquela brutal produção.

O Charlie inspirava algum mistério,

por ser um cavalheiro tão descontraído e bem vestido

e sempre assim...

E, de repente, é fogo de artifício

quando toca bateria e sem qualquer esforço.

Era uma sensação fantástica tê-lo na nossa retaguarda.

Os jovens como eu gostam de ter muito em que bater,

mas o principal propósito de Charlie no planeta era o ritmo

e tinha o equipamento de que precisava para fazer exatamente isso.

A maioria dos bateristas de uma grande banda de rock

atuam em estádios com uma bateria do tamanho do palco.

O Charlie nunca mudou nada.

Começou com quatro tambores

e tenho a certeza de que foi assim que acabou.

Era fantástico...

ele conduzir os Stones assim.

Desde o primeiro concerto com os Rolling Stones, em 1963,

ao seu último concerto, 58 anos depois,

Charlie é a presença calma e tranquilizadora que une tudo.

ÚLTIMO CONCERTO DE CHARLIE NOS ROLLING STONES

Com a personificação do rock and roll à sua esquerda

e uma verdadeira superestrela à direita,

Charlie está preso no meio, física e emocionalmente.

Mas a sua abordagem pragmática e sensata à fama e ao rock and roll,

fez com que fosse e continue a ser a alma da banda.

Charlie era aquele líder silencioso, o mais velho,

que nos dá um murro se dissermos algo errado.

Mas era também quem mais queríamos ter ao nosso lado.

O Charlie nunca se enervava.

Quando os outros dois se pegavam,

o Charlie sorria e olhava para eles

e dizia: "Por amor de Deus, Bernard, o que é que se passa?"

Era o equalizador.

Era um porto seguro, num grupo de pessoas complicadas.

Charlie era o rochedo e ambos gostavam dele

e ele adorava-os e é apolítico.

Quando o Charlie falava, ambos ouviam,

fosse a favor do Mick ou do Keith,

era o Charlie que decidia.

Era o Charlie que decidia.

Tenho saudades desse tipo.

Ficou famoso por ter um cabide dos que há nos hotéis, num atril,

onde pendurava o casaco.

Por cima do cabide tinha um letreiro com "aberto" e "fechado".

Quando o Charlie tocava bateria, dizia "aberto"

e quando não tocava dizia "fechado".

Era só o Charlie que o virava.

FECHADO. VOLTO ÀS 15H00. VOLTE MAIS TARDE.

Maria José Ferreira Iyuno-SDI Group

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