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Keith , take um.
Todos os tipos que conheço querem ser o Keith Richards.
É o epítome do guitarrista de rock.
O original, o incomparável Keith Richards.
Keith Richards tem vivido uma vida envolta em mitos.
A sua atitude e o seu legado são a base do herói da guitarra.
Eu não ando por aí
a pensar na perceção que têm as outras pessoas.
A minha já me dá que fazer.
Não sei que delírios os outros terão.
Mais do que um músico,
é um hedonista desafiante e um exemplo de sobrevivência.
O rock and roll implica perigo e imprevisibilidade.
Keith Richards incorpora
todos os aspetos que idealizamos numa estrela de rock.
Keith gosta de viver a vida à sua maneira,
de ser quem é, sem qualquer receio.
Acontecem-nos coisas complicadas
e temos de sobreviver,
porque quando começamos não sabemos o que isto é.
Eu ainda não sei. São só surpresas.
Posso iludir-me e dizer que nasci para tocar rock and roll
e ser uma grande estrela.
Não. Eu sonhava com isso,
mas não é o mesmo que saber que ia acontecer, pois não?
Chamamos a isso destino? O que lhe chamamos? Eu chamo-lhe amor.
Keith Richards é um guitarrista único.
Ninguém lhe chega aos calcanhares.
Era aquele som da guitarra.
E o som daquela guitarra
foi a criação, diria eu, dos Rolling Stones.
É, sem dúvida, o arquétipo do rebelde guitarrista de rock
e o modelo seguido por todos nós, rebeldes guitarristas de rock .
Foi Keith Richards que definiu o que era o rock and roll.
É compositor, guitarrista, um trovador andante.
É uma verdadeira enciclopédia. Quem precisar de conselhos, é com ele.
Esteja em que estado estiver, vai direto ao cerne da questão.
"Então é isso!" O Keith sabe.
O Keith é qualquer coisa! Está emocionalmente muito presente,
tanto quanto é possível no ramo da fantasia.
Alguém que tivesse sido fã de rock and roll na adolescência,
agora com cinco filhos e a ter de trabalhar
na linha de montagem da Ford,
se fosse a um concerto dos Stones e visse o Keith com aquele estilo
era como visitar a parte de si que lhe faltava.
Passados 60 anos, os Stones ainda dão cartas,
com concertos esgotados, nos quatro cantos do mundo.
Mas há uma peça-chave no centro musical de cada concerto.
Todos acabamos por criar o nosso próprio personagem.
Não sei se o personagem que o Keith criou
é real ou não.
Keith é conhecido como desordeiro
e a dada altura acho que estava preocupado
por vir a deixar de ser assim.
Não sendo esse personagem, quem era ele?
Acho que já não liga a isso. Não o censuro.
Gosta de dar entrevistas como esta?
Faz isso há muito tempo. Dá-lhe prazer?
Depende do entrevistador. Não me importo.
De vez em quando é maçador
responder às mesmas perguntas.
Ao mesmo tempo, é um desafio, tentar arranjar
outra resposta que diga o mesmo com palavras diferentes.
Vamos manobrando.
Ter uma persona é como fazer ventriloquismo,
sentados no nosso colo, mas sem sermos nós.
Às vezes pode ser conveniente,
mas noutras alturas é muito inconveniente.
Todos entramos neste esquema malicioso para vender o que temos.
Mas faz parte do espetáculo.
E a história é esta, até ver.
Porque vieste? Quem queres ver?
- Keith Richards. - Gosto do cabelo dele.
- Só o cabelo? - Gosto dele.
A vida na ribalta nem sempre foi fácil para Keith.
Ele é muito tímido.
Conheço-o desde criança
e adolescente e sei como ele é, verdadeiramente.
Só eu o conheço desde essa altura, creio.
Vemos pelas entrevistas que é genuinamente introvertido.
É difícil definir timidez.
Não sei bem como posicionar a timidez.
Às vezes acho que a uso como arma e digo que sou tímido.
De certa forma, tornamo-nos tímidos com multidões e isso,
porque, por exemplo, já não posso ir ao cinema.
Às vezes, quando...
Fico muito envergonhado
se alguém diz: "É o Keith Richards!"
Estrago o filme a toda a gente.
Peço desculpa e saio, a tropeçar nas pessoas.
Numa situação dessas, sou tímido e isso tem a ver com a fama
e toda aquela treta que nos atira com um monte de coisas para cima.
Se somos extrovertidos no mundo do espetáculo, estamos bem.
Se somos introvertidos,
é provável que nos cause angústia, desconforto ou ansiedade.
A maioria dos membros de bandas, guitarristas,
são introvertidos, desajeitados, não conseguem falar com as raparigas.
Até o Jimi Hendrix ficava no fundo da sala de aula a murmurar,
mas se lhe dessem uma guitarra o mundo iluminava-se.
No início, Keith não queria saber da roupa, nem da imagem dele.
Só estava preocupado com o som.
Era assim que ele atuava. Estava lá atrás, a tocar o seu som.
Keith nasceu em 1943,
em Dartford, Kent, 18 km a leste de Londres.
Dos cinco, são vocês os dois
que são amigos há mais tempo e estudaram juntos.
- Sim, éramos miúdos. - Éramos uns rapazinhos.
E foram criados em Londres, certo?
- Sim. - Sim.
- Mesmo em Londres? - Não, na periferia.
- Nos subúrbios de Londres. - Como se chama o sítio?
- Dartford! - Dartford!
Estamos no extremo do país e temos gente a circular,
indústria pesada e zonas rurais muito bonitas, ainda muito bonitas.
Os pântanos de Dickens que vão até ao estuário do Tamisa,
tão bem descritos em Grandes Esperanças.
Dartford fica no planeta Krypton?
Crescemos nos resíduos de uma enorme guerra mundial,
mas não sabíamos nada daquilo. As coisas eram mesmo assim.
Um bombardeamento...
"Não se pode comer isso, já não temos senhas de racionamento."
Não era invulgar, mas não nos incomodava. Era o que era.
Chega o exame chamado 11+,
que encaminha as crianças britânicas para as diferentes vias educativas
que determinarão o seu futuro.
Lembro-me do 11+. Não o fiz.
Na altura, fiquei com gripe, ou lá o que era,
e não consegui fazê-lo.
Era uma coisa séria e acho que tive uma questão psicossomática,
porque os exames dão cabo de mim.
Meu Deus!
Ou nos tornávamos profissionais,
ou escavávamos valas e o que trabalhadores fazem.
Enquanto crianças, não nos apercebemos
que estamos a ser conduzidos para uma franja da sociedade
e a sermos descartados ou erguidos.
Não sabemos mesmo.
Optei pelo meio termo e fui expulso.
É o que recomendo a qualquer estudante inglês de garra.
Do meu ponto de vista, teria sido uma humilhação
e não estava para aguentar aquilo.
Depois de confrontar uma autoridade,
começamos a questionar outras.
Sempre me incomodou que me dessem ordens,
sobretudo sem justificação.
O Keith rebelde nasce de um desrespeito saudável pela autoridade,
mas é o seu avô, Gus Dupree, um músico amador de jazz,
que promove o seu entusiasmo precoce pela música.
Era pai de sete filhas e, na minha opinião,
fui o rapaz que ele não teve.
Na verdade, para mim, era mais um pai ou um amigo do que um avô.
Levava-me a lojas de música,
mas entrávamos pelas traseiras, nunca pela porta da frente.
Havia sempre algum tipo de negócio,
com umas cordas de guitarra ou violino, ou isso.
Eu ficava nas traseiras das lojas de música durante horas
a ver pessoas a fazer guitarras e violinos, a reparar coisas.
Era um ambiente mágico.
Tinha sempre o violino e os instrumentos prontos.
Nunca me pressionou ou tentou entusiasmar-me.
Simplesmente tocava música de todo o tipo, jazz, clássica.
Vivíamos rodeados por música
até que, um dia, ele me viu a a olhar para a guitarra em cima do piano.
Disse-me: "Estás sempre a olhar para aquilo. Queres experimentar?"
E foi assim. Deu-ma.
Disse que me ensinava uns acordes e que me desenrascasse. E foi assim.
Podemos falar da sua primeira guitarra? Temo-la aqui.
- Gostava de o ver pegar nela. - Também eu.
Não tem de fazer mais nada.
É esta. Caramba!
Os ratos já lhe chegaram.
Esta...
acho que é a que o meu avô me deu,
mas não tenho a certeza.
É a do meu avô, sem dúvida.
Uma bela peça em madeira.
Ao começar a sua viagem musical, a atenção de Keith é captada
por um novo som irresistível, o do rock and roll.
Queria tocar música country e blues.
Começava a interessar-me.
Em Inglaterra, na altura, havia pouco.
Quando o rock and roll surgiu, para mim juntou tudo isso.
"Onde estavas tu?"
Com aquela idade foi avassalador.
Era para lá que eu queria ir. "Reservem-me um quarto."
Era uma época entusiasmante para se ser músico com aquela idade.
Sim, foi ótimo.
Era muito diferente de tudo o que já tínhamos ouvido
e transmitia entusiasmo e positividade.
O rock and roll terá começado em 1958.
Chuck Berry, Buddy Holly e todos os outros deram-nos volta à cabeça.
Isso introduziu-nos mais no folk e depois nos blues.
E, na altura, encontrar artistas de blues
era como colecionar selos raros, encontrar bons discos de blues .
Os êxitos eram das grandes editoras
e se fosse um êxito de R&B
ou se estivesse no top 100, era fácil de arranjar,
por ser das grandes editoras.
Era mais difícil comprar o álbum completo de Muddy Waters.
Tinha de ser numa loja de jazz em Charing Cross Road e era caro.
Costumávamos encomendá-los na América, mais baratos.
Havia um grupo de pessoas que tinham coleções de discos
e Íamos ouvi-los nas suas casas
e ouvíamos músicas que desconhecíamos.
Eu frequentava a Escola de Artes de Sidcup
e o Mick, a London School of Economics.
Tinha saído da Sidcup
e estava sentado na carruagem quando, de repente,
entra o Mick, que eu não via há anos.
Perguntei-lhe o que levava debaixo do braço
e era The Best of Muddy Waters e Rocking at the Hops, de Chuck Berry.
Eram discos americanos
que não arranjávamos em Inglaterra, na altura.
Foi essa a base dos Stones,
o facto de eu e o Mick gostarmos da mesma música.
Estes tipos não se importavam de mandar o seu dinheiro
sabe-se lá para onde, esperando por algum retorno,
para depois viverem obcecados com o disco.
Era fenomenal.
Era um estranho grupo de gente que jogava críquete e futebol
e bebia chá às quatro da tarde que adorava esta música.
A música de outras culturas tem um toque romântico e é um pouco exótica.
O facto de os Rolling Stones serem adolescentes em Inglaterra
que tinham acesso a discos de blues verdadeiramente americanos,
discos de folk americanos, discos country,
dotava a situação de algum ambiente romântico.
A questão dos blues era que pareciam vir de outro sítio qualquer.
Eram mais roucos, mais sentidos,
mais vivazes, sem qualquer tipo de filtro.
Isso provocou-nos alguns ciúmes em Inglaterra.
Aqueles tipos estavam uns valentes passos à nossa frente
e havia muito para pôr em dia.
Foi uma viagem fascinante
e como diriam presunçosos miúdos brancos de 18 anos,
seremos a melhor banda de blues de Londres.
Robert Plant disse-o bem: "Sabes Brian,
estes miúdos brancos agarraram bem a música negra americana."
Vi tudo aquilo a arrancar, com os blues brancos.
Os ingleses estavam à frente. Espalharam-nos.
Era realmente diferente.
Era um ritmo ondulante e sentia-se uma carga sexual.
Tínhamos 18 anos e tocávamos blues. Em poucos meses,
as mulheres queriam rasgar-nos a roupa e atiravam-se das galerias.
Não era bem isto que eu tinha imaginado. Era um caos.
Eles eram mesmo bons! Meu Deus!
Como banda, eram mesmo bons.
Tinham carisma.
Eram muito fixes e estavam-se nas tintas.
Era essa a sua atitude em palco.
Os Stones representavam um perigo,
um perigo adolescente que nunca tínhamos sentido.
Eram diferentes dos Beatles, sem dúvida.
Os Beatles eram entretenimento.
Estes cativavam as nossas filhas.
Os Stones ligaram-se a uma geração do pós-guerra, ansiosa por música nova.
Mas a chave do seu sucesso é a irreverência
por um som de blues, que fazia parte da história.
Nós pesquisámos e mergulhámos nos blues .
Queríamos saber de onde vinha
o material mais original e profundo.
A escolha de música de Keith Richards é um excelente curso de musicologia.
Tinha uma espécie de missão evangélica de expor os blues.
Ouvíamos muita música no quarto do Keith,
música negra fantástica,
e acho que os Rolling Stones estavam a aprender a usá-la.
Expressando-a à sua maneira,
a música evoluía, como deve ser.
A onda de música que veio de Inglaterra em meados dos anos 60
era um reflexo do melhor que tinha sido feito aqui
nos últimos 50 anos.
Trataram-na da forma mais bela. Honraram a música.
Na América vimos que o que tínhamos ouvido em Inglaterra era a ponta
de um icebergue e que podíamos ir mais fundo
e que por cada tipo que conhecíamos, havia outros dez igualmente bons.
A música, a batida e os sons vinham da pátria.
Essa experiência negra emotiva, que grita,
que tem um conhecimento profundo, que toca os corações,
que comunica intensamente
foi apropriada pelos Rolling Stones.
Éramos só uns tipos que adoravam a sua música,
éramos obcecados por ela,
que na nossa fantasia inglesa dos EUA nos anos 50,
éramos puxados e atraídos por ela.
Quem queria ser músico tinha de estar ali.
Agora, algo para os jovens.
Cinco vozes inglesas que venderam muitos álbuns,
os Rolling Stones (pedras rolantes).
Também já rolei quando estava pedrado...
Por isso, não sei o que cantam,
mas cá estão eles.
Os Rolling Stones cantaram-nos a nossa música,
mas cantavam connosco.
Nunca senti que cantavam para nós, mas sim que queriam juntar-se a nós.
Eu estava muito recetivo, acho que todos estávamos.
Gostava de ver que alguém estava tão apaixonado pela música como eu
e que dedicava a sua vida a tocá-la para as pessoas ouvirem.
Alguns acharam que eles estavam a apropriar-se,
ou isto, ou aquilo.
Mas eles estavam mesmo ali
e ninguém fazia nada.
Dizem que os Stones devolveram a música negra aos americanos.
O que acham os músicos negros dos Stones?
Sei que pessoas como Muddy Waters, etc., estão gratas, porque...
Na verdade, fizemos muito pouco.
Só dissemos que gostávamos de Muddy Waters,
mas isso foi importante para ele.
Talvez signifique mais dinheiro,
por entrar nas universidades dos brancos e isso,
que não teria acontecido.
Não fomos os únicos.
Todas as bandas inglesas dos anos 60 que foram para a América,
foram com música dos discos negros.
Foi muito além do nosso sonho como maior banda de R&B de Londres.
Muddy Waters voltou a ter um álbum de sucesso.
John Lee Hooker estava nos tops e Slim Harpo.
Todos eles eram desconhecidos, dois anos antes.
Tínhamos muito orgulho neles. Era um legado e tanto.
Ainda me agrada conseguir que as pessoas gostem das suas coisas
e ombrear com Muddy Waters.
Para nós foi uma vitória. Foi bom.
Uma nova versão de uma música que já era americana
ajuda os Stones a invadir os EUA e o mundo.
Em poucos meses, o seu som e a sua imagem
são número um nos dois lados do Atlântico.
Achámos que era uma dádiva vir para a América.
De repente, já não éramos aspirantes.
Para quem vinha de Dartford, a América era incrivelmente fascinante.
Nós crescemos na América e a música cresceu em nós.
Em 1964, 1965, a América mudou rapidamente.
Quando cá chegámos, achámos a América branca muito antiquada.
A nossa ideia da América era modernidade.
Nas zonas rurais, a diferença era brutal.
A América era o Santo Graal, mesmo.
Não queriam só ser famosos na América,
mas que a sua fama e notoriedade lhes desse uma oportunidade,
como se fosse um passe para a cultura americana.
O Keith via os Stones colados
ao tecido que tinha feito da música americana o que ela era.
Foi um chamamento.
Mas os americanos continuavam a tocar música folk
e folk através de country,
muito sentimental para muita gente,
mas a música country tem muita verdade.
Penso que os Rolling Stones foram os primeiros a apresentar
o que é agora a música "americana".
É irónico, mas quando se ouve algo como "Wild Horses",
há uma mistura eclética de estilos de música genuinamente americana
que ninguém tinha explorado.
Quanto a mim, compuseram algumas das melhores músicas country.
São muito mais do que uma banda de R&B
e são também fantásticos no pop.
Acho que pegaram em Jimmy Reed e Muddy Waters,
George Jones e Merle Haggard
e trouxeram-nos de volta com ganchos pop.
Nenhuma banda
compõe ganchos melhores que os Rolling Stones.
Adoro o facto de os Stones serem capazes
de pegar em algo que os influencia e moldá-lo à sua maneira.
Traduzem e fazem à sua maneira.
Outra das coisas maravilhosas que me ensinaram
foi a articular uma música.
Não é costume ouvirmos falar
de Keith Richards enquanto grande compositor.
Talvez por ser tão famoso como guitarrista
e por ser devasso
ou seja lá a maravilha que ele é,
as pessoas não se aperceberam da contribuição extraordinária
que ele deu com as músicas que compôs.
Lembro-me de uma altura em especial em que era muito pequeno,
de "Beggars Banquet", "Let It Bleed", "Sticky Fingers", "Exile...".
Nessa altura, os Stones eram a música da minha vida.
Simplesmente, acrescenta outro fio
a esta tapeçaria feita de um fantástico conjunto
do material dos Stones.
É um legado extraordinário.
É só escolher uma música à sorte.
Rapidamente se percebe que tanto compor, como tocar sucessos
é o que é preciso para serem as novas estrelas musicais.
Tocávamos em bares, em Londres,
quando os Beatles apareceram com um êxito, "Love Me Do".
Achámos que era um disco fantástico.
Os Beatles explodiram e nós pensávamos:
"Mas nós somos uma banda de blues." Os Beatles mudaram tudo isso.
Queríamos ser a melhor banda de rhythm and blues de Londres
e conseguimos.
Mas não fazíamos ideia de como avançar a partir daí.
O Keith estava sempre a ouvir os Beatles. Eu estava a ficar louco.
Mas ele ouvia os Beatles
não por não querer ouvir outra coisa,
mas porque queria escrever músicas pop. Éramos uma banda de blues,
mas sabíamos que tínhamos de ser uma banda pop.
Estávamos com inveja.
Eles estavam a fazer o que nós queríamos.
Eles gravavam discos.
O Santo Graal era gravar discos, conseguir entrar num estúdio.
Eram diamantes, uma mina de ouro,
que era mesmo, percebem,
mas era como invadir Fort Knox só para gravar um disco.
Sem os Beatles, não teria havido Stones.
Os Stones aconteceram e gravaram discos,
porque a indústria discográfica
não podia dar-se ao luxo de perder uns segundos Beatles.
Sem eles, não tínhamos chegado sequer a um estúdio.
Teríamos vendido... e se calhar até vendi... a alma só para gravar,
para saber como se grava um disco.
Gravar continua a ser, para mim, uma arte misteriosa.
Ele era capaz de viver num estúdio.
Adora música. Faz parte da vida dele em qualquer situação.
Há sempre música. É o cenário da vida dele
e a guitarra está sempre lá, assim como o piano.
Tem-nos sempre à mão.
Mas ele adora o processo.
É o que mais adora.
Adora compor uma canção. Gosta de escrever num estúdio.
É o sonho de criança realizado.
Vivemos constantemente momentos
como ter uma guitarra a tiracolo, estar no estúdio, gravar...
e é uma sensação algo surreal.
O Keith vinha ao estúdio e tinha aí meia ideia
e sentava-se e tocava sem parar, sozinho,
e quando estava quase pronta
Bill e Charlie sentavam-se e tocavam com ele
para fazer daquele riff uma música.
Os Stones são ótimos compositores
e sabem apresentar as músicas
e gravá-las de uma forma que nos surpreende.
Fizeram algo épico.
A forma como conjugaram estes elementos díspares
é um truque de magia.
Fazemos o que faz um menestrel. Tanto as canções como a música evoluem.
Keith não era o purista da banda, purista dos blues.
Ele gostava de compor canções pop.
Escreveu montes de canções pop: "Ruby Tuesday", "As Tears Go By".
Também escreveu "Angie".
Não são os blues que conhecemos.
São canções pop vindas do Keith.
O talento de Keith impulsiona o sucesso da banda.
Mas ele é uma estrela relutante,
a tentar gerir a adoração que inunda a banda.
Gostava de ter podido gravar aqueles discos anonimamente.
Mas claro que não era possível.
Tínhamos de nos expor,
mas não sabíamos como e eu até gostava.
O meu refúgio acabou por ser a heroína,
as drogas e aguentei enquanto pude.
Com a subida ao estrelato, acompanhar Keith nos anos 70
tornou-se um jogo mortal
e o seu vício em heroína ameaça o futuro da banda.
A maioria das pessoas são tímidas
e não conseguem subir ao palco sem estar pedradas.
Nos primeiros anos até pode ajudar,
mas quando começa a prejudicar-nos e ficamos viciados,
porque é viciante, temos um problema.
Todos temos um metabolismo diferente,
uma forma diferente de lidar com toda aquela adoração.
Senti que se mantivesse a minha privacidade,
não havia razão para grande alarido.
A transformação de Keith faz dele um ícone internacional de rebelião
e um alvo para as autoridades.
No final do inverno de 1977, Richards estava em Toronto
onde os Rolling Stones iam atuar.
Fomos a Toronto dar um concerto.
Lembro-me de ver os polícias a subir as escadas
sem perceber do que se tratava.
No dia anterior, no aeroporto de Toronto, a namorada de Keith, Anita,
tinha sido revistada pela Polícia Canadiana
e tinham encontrado haxixe.
A Polícia é levada a revistar o quarto de Keith.
Claro que foi encontrado com drogas, heroína e essas coisas,
porque, nessa altura, ele usava-as
e a história dos Rolling Stones mudou instantaneamente.
Os Rolling Stones são uma das bandas rock mais famosas do mundo.
Há uma semana, Keith Richards foi acusado de posse e tráfico
de heroína.
Foi assustador, porque ele percebeu que se arriscava
a apanhar 20 anos de prisão.
As drogas ajudavam-me a lidar com a fama e a pressão
e eram uma fuga.
Não recomendo a ninguém.
Mas cada um sabe de si.
O mundo é duro e, às vezes, precisamos de algo para o encobrir.
Mas não compensa.
No Canadá tomei consciência
de que estava a expor toda a banda
e se quisessem mandar-me embora acabava tudo.
Se conseguisse safar-me sem apodrecer na cadeia,
estava decidido a curar-me.
Ele comprometeu-se a deixar tudo.
Era a música ou as drogas
e a música era muito mais importante do que as drogas.
Qual o efeito desta condenação em si,
na sua música e nos Rolling Stones?
Não sei. Só quero continuar. Agora que acabou
quero fazer o que é suposto em vez de me preocupar com isto.
- Acha que terá algum efeito? - Não sei. Talvez dê uma canção.
Senhoras e senhores, os Rolling Stones!
Não são a droga, a moda ou estilo de vida que definem a história de Keith.
É o seu talento que o distingue
como um dos artistas mais importantes e influentes do nosso tempo.
Keith é uma pessoa de sentimento e instinto.
Ao compor uma canção, se tiver dois acordes
não se importa de tocar esses dois acordes durante duas horas
à espera que surja a próxima parte da canção.
Não força nada.
Continua, simplesmente, a tocar o mantra até que algo surja.
E surge sempre.
Gosto de uma introdução marcante nos discos,
sobretudo num disco de rock, esse formato em particular.
Se a introdução nos cativar, ouvimos mais uns minutos
e se o riff por trás dessa introdução nos prender, ficamos rendidos.
Keith compôs introduções fabulosas nos discos dos Rolling Stones.
Qualquer guitarrista do mundo fica rendido!
Como é que ele faz aquilo? Tira uma corda.
Há cinco cordas. Eu tiro a corda de baixo
e afino as outras cordas em sol.
Essa afinação que ele faz tem algo de ameaçador,
difícil de tocar.
É um som de guitarra brilhante.
Diz muito com muito pouco.
Há algo na entoação das notas, na separação do ponto,
algo místico até, que, quando tocado no momento certo,
é uma ida ao céu.
O silêncio é a tela do músico
e o que importa é o que pomos na tela e a luz que deixamos passar,
que ainda não sabemos como vai ser.
É quase intuitivo, algo que sentimos, que fazemos por instinto.
Keith Richards tem um som e uma abordagem à guitarra próprios,
diferente de todos os outros que já ouvi.
É a forma como ele toca no meio do braço
e um certo martelar, golpear.
Adoro riffs, adoro uma boa ligação entre notas
que possam repetir-se
sem serem monótonas, sem serem aborrecidas.
É isso que é um bom riff.
É sempre a mesma coisa, mas está sempre a mudar.
Daqui a 50 anos, as pessoas ainda vão estar a tentar tocar o que ele toca.
Não haverá outro igual.
É difícil descrever a forma de tocar de Keith Richards.
Acho que é uma extensão orgânica
dele próprio, da sua alma.
É como falar ou andar.
É uma manifestação musical de quem ele é.
Nem todos os músicos são assim.
Keith sempre soube o que queria na guitarra.
A forma como toca... Primeiro define o som com Pierre, o seu técnico,
e as várias formas de atingir o efeito desejado.
É aqui que ele dedilha.
Está tão gasta que já não tem alguns pontos.
Isto parece que foi escavado, mas não. Está gasto.
Está a desgastar esta parte,
é típico do sítio onde ele toca ao dedilhar.
É ótimo quando vemos a pessoa que ouvimos há tantos anos
manter uma relação com o seu instrumento.
Tem cinco cordas. Só tem três notas porque duas são duplas,
duas são ré, duas são sol e uma é si.
O som dela não se consegue ouvir numa guitarra normal.
Não tem a ver com acrescentar.
Quem ainda pensa no que pode acrescentar e não no que pode tirar,
está numa fase inicial.
Eu não queria ser guitarrista, queria fazer barulho
e se, para isso, era preciso usar uma guitarra, eu usava.
Tornei-me muito bom em certos aspetos.
Isto significa que uso a guitarra como instrumento de percussão.
Para mim é uma questão de ritmo.
Adoro tocar solos,
mas sempre pensei que os solos vão e vêm,
enquanto um riff é para sempre.
Sabes, é uma série de... Se não rimar, não soa bem.
- Essa é boa. - A sério?
Eu e o Mick costumávamos pegar nas guitarras
e compor. Era o que fazíamos.
Compor canções e fazer discos é como um puzzle,
nunca sabemos o que vem a seguir.
Quando tudo encaixa é uma sensação incrível
e todos os que estão envolvidos nesse processo, quando acontece
sabem que é um momento especial,
uma altura especial e sentem-se, de certa forma,
privilegiados por fazerem parte disso.
Todas as grandes canções nascem de uma conversa.
São precisas duas partes para criar essa sinergia e essa energia.
São os perfeitos Yin e Yang.
O Mick começa e o Keith acaba.
O ritmo é inegável.
Foi ele que pegou no material de Chuck Berry e de Johnnie Johnson
e o transformou em guitarra de rock em afinação aberta.
Podemos escrever grandes canções com alguém, mas é quando a dinâmica
é maior do que os dois elementos que surge o melhor material.
Foi uma banda construída com base no "nós", não no "eu".
Foi a química de todos
que fez com que resultasse.
Não podemos dizer, se eu tivesse composto "Angie", tipo, ouve isto
e o Keith dizia que preferia compor blues.
Não, foi ao contrário. Foi o Keith que me mostrou uma melodia.
Eu podia dizer que não eram blues,
que era uma balada sentimental,
mas não disse, claro. É uma música muito bonita.
O que quero dizer é que os Rolling Stones são muitas coisas.
Uma das coisas boas dos Rolling Stones
é que abarcam muitos tipos de música.
São uma banda de blues, uma banda de rock.
Criaram "Painted Black",
tocaram rock clássico, tocaram música para dançar.
Temos de insistir na inovação,
porque, ao envelhecer, só queremos uma coisa.
Ao longo dos anos, Mick e Keith
sempre se aceitaram e respeitaram mutuamente
em termos do que ambos trazem para a banda.
E acho que, na verdade,
foi Mick que sempre os impulsionou
e foi Keith que sempre zelou pela credibilidade
da música que faziam para garantir que continua consistente.
Keith disse: "Ouçam, continuamos a ser uma banda de blues
Independentemente da pirotecnia e das 200 mil pessoas a ouvir-nos.
Continuamos a ser a banda que tocou no Marquee em 1962 para 100 pessoas.
Era o Keith a olhar para trás e a reter aquela rara densidade musical
e Mick a impulsionar a banda para o que o futuro lhe reservasse.
Se sai dos Rolling Stones, são os Rolling Stones.
De vez em quando, eu e o Mick criávamos uma música
e olhávamos um para o outro e dizíamos: "Não é dos Stones."
Há poucas parcerias a compor como o fazem Jagger e Richards.
E apesar das suas várias desavenças,
a sua relação sempre prevaleceu.
Tínhamos esta imagem daqueles dois tipos
como o primeiro exemplo de uma relação vocalista/guitarrista.
O Mick queria ser o líder, é o líder da matilha.
O Keith não quer ser o líder, mas acha que é.
São completamente diferentes.
Mick quer experimentar coisas novas, quer viver o que estiver a acontecer.
Keith é um tecnofóbico.
É uma das coisas que ainda os divide.
Todos têm vidas e identidades separadas
e musicalmente são Yin e Yang.
Estão unidos pela anca.
Houve momentos de desavenças? Claro que sim.
Mas respiram fundo, olham um para o outro e dizem:
"Tanto quanto sei, o todo é maior do que a soma das partes."
Mesmo quando Mick e Keith não estavam nos seus melhores momentos juntos,
desafiava-vos a meterem-se entre eles. Têm um laço inquebrável.
Ao fim de todo este tempo, Mick e eu olhamos um para o outro
e dizemos: "Não sei o que é, mas alguma coisa de bom nós fazemos."
É fantástico pensar que entusiasmamos gente há 60 anos!
Mas tudo é implacável. É como ser um peso pesado.
Vemos estes indivíduos já mais velhos a entrar no palco,
a subir as escadas, com uma energia que aumenta a cada degrau.
Quando entram no palco é como se se desse um relâmpago,
é como ir à Terra do Nunca.
A música está primeiro.
Luzes, gravações, concertos. É aí que eles estão.
Quando saírem do palco pela última vez,
todos saberemos que não voltaremos a ver nada assim.
Sabe Deus o que eu teria sido, se não fizesse isto.
É o meu pior pesadelo.
Na verdade, só queria tocar música,
fazê-lo cada vez melhor, ajudar a banda.
Poucos têm a oportunidade de o fazer
com milhares de pessoas, como profissão.
Quando existe esta valorização mútua
é profundamente comovente.
A música é resiliente
e às vezes penso que é a única coisa em que podemos confiar.
Há muitos anos que desisti de analisar
este grupo, a razão pela qual funciona e como funciona.
O melhor é metê-los a todos numa sala
e dizer: "É assim: 1, 2, 3, 4."
E os problemas desaparecem.
Maria José Ferreira Iyuno-SDI Group
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