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É difícil manter a imagem que temos de Mick Jagger?
Não tento fazê-lo.
- Mas a sua imagem, de Mick Jagger. - Não acredito em imagens.
É a imprensa que gosta de imagens,
porque quer categorizar as pessoas.
Então, como se vê?
Isso é o mais difícil,
é o que passamos a vida toda a descobrir.
A maioria dos documentários repetem as coisas vezes sem conta.
Repetem tanto os mitos, que se tornam reais.
As pessoas querem tudo em caixas
e torna-se uma espécie de caixa de clichês.
O mais fácil é continuar a repetir tudo.
Ao falar, tentamos ampliar essas caixas.
As pessoas devem gostar disso.
Os Rolling Stones são a melhor banda de rock and roll.
É pura magia.
Criaram esta magia e fazem-na há quanto tempo?
São um produto do seu tempo, mas ajudam-nos a definir o nosso.
Juntos têm uma química, uma inspiração criativa que é mágica.
E Mick Jagger é o seu rosto há 60 anos.
E vai cantar e dançar para nós e mostrar os seus primeiros passos.
Parecem os Rolling Stones, agem como os Rolling Stones
e soam como os Rolling Stones.
Definiram o padrão de como uma banda de rock deve soar,
parecer e fazer-nos sentir.
Se começar a parecer muito triste e aborrecido, espicacem-me.
Os Rolling Stones recriaram música, moda.
É um facto.
A suprema marca de música pop,
são a ligação entre a contracultura da década de 1960
e o mundo comercial moderno.
Ao longo de sete décadas, escreveram o manual do rock and roll moderno.
Já percebi. Vou tentar manter isto leve.
Esta é a história dos ingredientes-chave
da receita especial dos Rolling Stones.
A química é algo que não se compra. É a magia de uma banda.
Keith Richards, Ronnie Wood e o saudoso Charlie Watts.
Para nós eram deuses. A sério.
E na voz, Sir Michael Philip Jagger, mais conhecido como...
Mick Jagger, claquete três.
Comecemos com um cliché.
Não. Clichés não. Hoje não era suposto haver clichês.
Mick Jagger é Mick Jagger. É o melhor líder nesta área.
Sobe ao palco, faz a cena dele
e oferece-a ao público, de coração.
É o que está à vista.
Tem muitas facetas e cambiantes,
mas é um homem honrado, por baixo dessa porcaria toda.
Uma das minhas tarefas mais importantes é dar espetáculo.
É mesmo assim.
É suposto fazer as pessoas sentirem-se bem durante duas horas,
proporcionar-lhes uma boa experiência, uma ótima noite.
Creio que é esse o meu papel.
Sempre me agradou a ideia de ser o Mick, um dos melhores vocalistas,
a maior estrela de rock .
E de como isso seria incrível.
É verdadeiramente inspirador.
São os pioneiros. São eles que escrevem a história.
Isso requer muita atenção aos detalhes.
Mick Jagger fá-lo incrivelmente bem.
Com o Mick nada corre mal, porque ele controla tudo.
Podemos confiar nele.
É mais controlador e organizador do que se pensa.
Foi feito para isto. Quer ver o barco navegar.
Não sou controlador.
Isso deve ser muito aborrecido.
Alguém tem de controlar um projeto como este.
Não é só música.
Represento a banda, para garantir que ninguém a lixa.
Mick Jagger é o líder dos Rolling Stones há mais de meio século.
Tinha vários vizinhos na minha comunidade suburbana,
que tocavam guitarra.
Tocávamos juntos
e eu costumava ir a uns bailes, acho que era isso,
que tinham umas bandas rascas a tocar.
Eu perguntava se podia, com 15, 16 anos,
se podia cantar uma canção.
E a malta era simpática e deixava.
E corria sempre bem.
Comecei a pensar que era capaz
e, aparentemente, as pessoas gostavam de mim. Mas não tinha uma banda.
Os Stones formaram-se em 1962.
Rapidamente surgiu o primeiro alinhamento clássico.
Mick Jagger, Keith Richards, Charlie Watts, Bill Wyman
e o fundador da banda, Brian Jones.
Esta música, "Honey, What's Wrong?", é da sua primeira demo.
Na mitologia dos Rolling Stones
eles começaram como uma banda de blues.
É verdade, mas os Rolling Stones são uma banda rock.
A mitologia é uma treta.
O rock é que era. Adorávamos o rock dos anos 50, discos
como Sweet Little Sixteen, Chuck Berry.
Éramos novos e cheios de energia.
Éramos conhecidos por tocar música rock. Era isso.
Mas tínhamos de nos definir como uma banda de blues,
para conseguir um concerto.
Não éramos apenas uma banda de blues, éramos uma banda de tudo.
Em apenas alguns meses os Stones fazem sucesso no Reino Unido,
com som e visual prontos para fama quase instantânea.
Como é ser um Stone 24 horas por dia?
Habituamo-nos a isso, até porque já o fazemos
há cerca de dois anos.
Ao fim de dois anos, já faz parte da nossa vida.
Perguntei uma vez ao Mick como era ser famoso
e disse-me que não estava a perguntar à pessoa certa,
porque ele era famoso desde os 17 anos.
Do seu primeiro número um no RU
e desta versão de "Little Red Rooster", de Willie Dixon,
o sucesso dos Stones foi rápido.
Fazem parte de uma revolução do pop britânico que se dá no ecrã.
A televisão é muitíssimo importante.
Milhões de pessoas viam aqueles programas.
Quando era adolescente, havia alguns concertos de rock
e nunca os perdíamos, porque era um por semana.
O facto é que as ruas deste país estavam vazias à sexta à noite,
porque estavam todos a ver Ready, Steady, Go!
Era muito importante.
Toda a gente via.
Isso podia destacar-nos dos outros
e era preciso aprender a usar o meio.
Tínhamos de perceber como podíamos causar impacto.
Eu já ia ao Ready, Steady, Go! antes de atuarmos.
Analisava como funcionavam os ângulos da câmara.
Pensava no que íamos fazer.
Praticava os meus movimentos em casa, ensaiava.
Mas para terem sucesso no Reino Unido e nos EUA,
os Stones precisavam de mais músicas,
de sucessos e de preferência escritos por eles.
Andrew Oldham, o nosso agente na altura,
disse que tínhamos de escrever canções como os Beatles.
Não podíamos só fazer versões dos outros.
Sabíamos que tínhamos de ser uma banda pop.
Queríamos escrever músicas pop.
O Andrew não tinha propriamente um talento.
O Andrew era apenas o Andrew.
Mas o Andrew viu as possibilidades.
São as canções originais que tornam os Stones superestrelas mundiais!
Os compositores dos êxitos foram Keith e Mick, não o Brian.
Deixa-me ir cumprimentar o Brian.
Brian é um dos compositores da maioria das coisas, certo?
Na verdade não sou. Não sou compositor.
Ele era muito musical. Pegava em vários instrumentos
e inovava muito.
Muitos dos seus contributos
não foram melodias, letras ou isso,
mas os excertos que tocava, enquanto músico.
Mick e Keith são quem mais compõe.
São estes dois os talentos da composição.
- São vocês que compõem? - Exatamente.
Ele dizia que era a banda dele
e nós respondíamos: "A sério?
A sério, a tua banda? Pensávamos que era a nossa banda."
O futuro como Rolling Stone é muito incerto.
São Jagger e Richards que acabam por dar aos amigos
Lennon e McCartney uma luta renhida.
Se ouvirem as músicas populares há dez anos,
muito poucas têm significado
ou têm a ver com o que as pessoas fazem.
As canções não tinham nada a ver com o que as pessoas faziam,
levantar-se, lavar-se, ir trabalhar, voltar
e revoltar-se contra certas coisas.
A vida para o trabalhador nunca mudou.
Vivia numa casa da câmara, tinha de pagar a renda
e, de repente, ouvia...
Lembro-me da primeira vez que a ouvi e de pensar: "Que raio é isto?"
Em Clearwater, na Florida, havia uma piscina e um motel
e lembro-me de escrever uma canção chamada "Satisfaction" com o Keith.
Andrew Oldham achou que ia ser um sucesso.
O Keith não gostava dela e não queria que fosse um single.
Ficou logo em primeiro lugar.
Foi impactante
e tornou-se a música de marca, o cri du coeur,
a sexualidade, a controvérsia.
É preciso uma canção de que todos se lembrem.
Entusiasmava toda a gente. Era uma canção brilhante.
Aqueles miúdos estavam a construir uma estrada para o futuro.
Foi uma mudança enorme
e posicionou-nos num período muito mais confiante
de escrita, produção e tudo isso.
Há aqui pelo menos 15 grandes sucessos:
"Paint It", "Black", "Ruby Tuesday", "Get Off of My Cloud"...
A maioria das bandas ficava feliz só com uma dessas.
Boa!
Por trás está o tipo de cinismo e realidade dos blues,
que ouvia desde muito novo.
Uma forma de falar e de abordar a vida
e rodear o sexo, sendo sexualmente provocador.
O Mick é sexy. E ele sabia que era sexy. Confiante.
Era mesmo fixe, com aqueles lábios.
Para mim, que adoro beijar,
eu beijava-o, percebe?
Lembro-me de o conhecer, com 15 anos.
Ia um pouco cautelosa,
mas o Mick disse: "Olá, Lulu."
Tentei articular algumas palavras e creio que falei com ele.
Não sei bem o que disse,
nem se fui capaz de manter uma conversa.
Tinha medo. Tinha medo dele.
Toda aquela imagem sexual que transparecia
metia-me medo.
Era emocionante e assustador.
O Mick Jagger tem a capacidade
de projetar o animal selvagem, que há em todos nós.
É isso que somos.
Celebramos a natureza do ser humano, quando vemos o Mick Jagger.
- Boa! - Boa!
- Boa! - Boa!
Quando tive de me apresentar em palco,
não sabia o que fazer.
Quero toda a gente de mão no ar.
Foi Little Richard que me ensinou.
Dizia-me para os envolver.
Tínhamos de os pôr de pé e se não se pusessem
dizíamos-lhes para se levantarem, compreende?
Quero todos a dizer: "Boa!"
Boa!
- E todos o faziam. - "Tu
Tu
Tu"
Quando estava em palco, sentia mesmo
a energia que as pessoas me davam.
É algo que não se entende, mas que se sente.
Não se sabe o que querem dizer, o que querem,
o que precisam de nós ou da vida,
mas sente-se que precisam de algo
e estão a transmitir-nos isso.
Ele sabe o que quer e percebemos quando o sabe, porque começa a reagir
e a cantar e a mexer-se.
E não para.
E depois começa a curtir a vida.
Ouvi Keith gabar várias vezes
as qualidades de Mick enquanto artista.
Ele podia atuar numa mesa de café.
Tem muito orgulho nele
e sabe a responsabilidade que o Mick assume.
É preciso ter muita coragem para liderar 100 000 pessoas.
Não somos a mesma pessoa no palco e no resto do tempo.
Temos de ser muito egocêntricos,
porque estamos a representar para as pessoas,
não somos verdadeiramente nós.
O que procura fazer ao atuar?
Entreter as pessoas.
Os artistas de maior sucesso foram sempre os mais egocêntricos.
Todo esse ego fica no palco.
Que tipo de pessoa é fora do palco?
Só tenho metade desse egocentrismo.
O Mick Jagger tem o dom maravilhoso
de fazer um estádio enorme parecer uma sala pequena
e envolver toda a gente.
É esse o segredo.
Ele arranja sempre forma de tornar
o maior dos espetáculos, o mais íntimo possível.
E Mick Jagger fá-lo incrivelmente bem.
Ele esforça-se muito e mexe as ancas
e mexe as pernas.
Tem o seu estilo e dança que se farta.
Não é a dança da moda, que todos querem imitar.
É a dança dele, que ele faz maravilhosamente bem.
O Mick aprende com alguns dos melhores de sempre.
Muitos deles partilham o palco com os Stones em digressão.
Ele observava todos os meus movimentos.
Esta pessoa de cara branca por trás das colunas
observava-me enquanto eu atuava.
O Mick vinha sempre aos bastidores, ao camarim
e nós mostrávamos-lhe passos e assim.
Corria bem, mas não achei que resultasse em nada.
Desculpa, Mick.
A música rock é mais personalidade, que virtuosismo.
Não é o que é melhor e às vezes nem é bom.
Se querem ver qualidade, vão ver um musical em que todos são formados.
Creio que as pessoas não acham que o Mick seja uma grande voz,
mas é o Mick Jagger.
É um ótimo dançarino, porque é capaz de se expressar.
É como quando vemos uma criança a aprender a dançar,
mas que o faz com tanta vontade, que nos entusiasma.
Ele dança exprimindo
confiança total e liberdade de expressão e individualidade.
A transformação está terminada.
Eis Mick Jagger, o vocalista carismático.
Aqui está Michael com uns sapatos desportivos,
que se usam para jogar ténis.
Aqui temos o Mike Jagger, uns anos antes.
Um adolescente estudioso e desportivo com ambições académicas
e visão elevada.
Esforçava-me muito na escola. Era muito aplicado.
Queria ir para a universidade e, por isso, não podia fazer asneira.
Esteve dois anos na London School of Economics, certo?
Sim. Desde essa altura, tento desaprender o que aprendi lá,
mas acho que estou quase lá.
Alguma vez pensou em voltar?
Acho que não. Não gostei lá muito.
O que é que não gostou desse ensino académico?
Não tinha liberdade.
Mas Mick vai descobrir,
que a liberdade pode ter consequências que não controla.
Vai a caminho de Redlands,
a nova casa de campo do Sr. Keith Richards.
"Caro Mick, espero-te numa bela festa em Redlands. Há ácido."
Acho que o convite não dizia isso, mas não me lembro.
O Keith deve lembrar-se porque tinha de o comprar.
Tinha comprado e remodelado Redlands
e queria que todos a vissem. É normal,
porque remodelou uma casa de campo
e queria que todos lá fossem no fim de semana.
Era um fim de semana boémio.
Fomos dar um passeio.
Havia muita droga: LSD, haxixe.
Estávamos só a divertir-nos, mas a bófia apanhou-o.
É muito estranho sermos apanhados drogados.
Nunca é divertido sermos presos, mas sob o efeito de ácido é mau.
Invadiram-me a casa.
Era a polícia contra ti.
Autoridade desnecessária.
O Estado estava contra ti.
Sempre senti que implicavam comigo.
Estão todos contra nós. Querem acabar connosco.
Isso só reforçou a minha desconfiança da autoridade.
Queriam acabar com os Stones.
Ainda sinto algum rancor. Apetecia-me mesmo um charro.
O assunto foi sério.
As detenções envolveram os Stones numa onda de controvérsia.
Rusga a drogas, Jagger preso, Keith Richards preso,
tudo isto contribuía para a imagem de rebelde.
A primeira reação foi não saber o que fazer
e pensar na minha mãe.
Diziam que podia ir preso cinco anos.
Tínhamos sido desviados da nossa vida divertida de cantores pop.
A carreira e os sucessos deixaram de ser importantes.
Éramos um grupo de drogados e não um grupo de músicos talentosos.
Mas a banda sempre arriscou ser vítima da sua imagem rebelde,
invenção do seu agente, Andrew Loog Oldham.
O Andrew quis encenar o perigo,
por contraste com os Beatles.
Tinham sido polidos pelo seu agente
para os tornar mais apelativos ao público,
caso contrário, eram uns porcos nojentos como nós.
O Brian Epstein não os queria vender assim.
Eram uns malandros adoráveis e divertidos, porventura sarcásticos,
mas sempre adoráveis.
O Andrew queria-nos mais terríveis e sujos,
mais arrojados,
o que vendia bem e não era difícil para nós.
Naquela idade é fácil ser arrojado.
Os jornalistas continuam à espera.
Jagger está meia hora atrasado para a conferência.
O seu desprezo por convenções parece irritar os jornalistas.
Acha que ele vai ter um público hostil?
Imagino que sim.
Os jornalistas eram condescendentes.
- Bom dia! - Boa tarde.
O que acha dele?
Ele faz muito bem o que quer,
que é ser um exibicionista pago. Ganha muito dinheiro
e sempre a rir-se, como o Liberace.
- Gosta de conferências de imprensa? - Não.
Porque não?
Gosto de manter a minha privacidade.
A certa altura, o Brian usou a palavra "esotérico"
numa conferência de imprensa estúpida.
"É um pouco esotérico."
E também usava muito o termo "eclético".
Ficaram chocados.
Nós provocávamo-los e comportávamo-nos como idiotas.
Eles não sabiam o que esperar.
Se vocês querem promover na televisão
o lixo que a imprensa publica, não são grandes jornalistas.
Tenham cuidado.
Uma parte de nós arma-se em forte e a outra parte diz
que sabe do que está a falar.
O Mick Jagger precisa dos jornalistas e vice-versa.
Uma espécie de relação amor/ódio.
A imprensa pode ser selvagem, é preciso ter cuidado.
Foi o "News of the World" que ajudou à sua detenção.
Mas num famoso editorial, o "The Times",
esse bastião do Sistema, acaba por defendê-los.
Argumenta que os artistas não devem ser esmagados pela Justiça.
E a Justiça escutou.
Claro que houve um conluio entre a Polícia e o jornal,
mas isso não está em questão.
Fui libertado pelo Sistema.
Há anos que a multidão não se juntava para um veredito,
mas eram os Rolling Stones, com os fãs em força.
Jagger saiu em liberdade condicional
e Richards teve pena suspensa,
por isso os ídolos pop foram embora já sem a sombra da prisão.
Hoje, Mick Jagger fez um breve comunicado
depois do Presidente do Supremo
revogar a sua sentença de três meses por posse de anfetaminas.
Foi uma perda de tempo para todos. Basicamente, tretas.
Publicidade, já que o caso dividiu a sociedade
entre os que condenam a anarquia dos Stones
e os que são a favor de maior liberdade individual.
Teve consequências para além da mera apreensão de droga.
Teve implicações sociais. Que mal tem as pessoas fumarem droga?
Quando tudo isto surgiu, tornou-se uma grande discussão.
Vocês são, muitas vezes, um símbolo de rebelião.
Sentem necessidade de se rebelar contra a sociedade
em que vivem
ou estão mesmo a rebelar-se?
Estamos mesmo a rebelar-nos.
Os miúdos procuram outras coisas ou outros valores morais.
Os pilares da sociedade e os valores
anteriormente aceites podiam ser alterados,
mas cabia-lhes a eles lutar por esses ideais,
em vez de seguirem a mesma rotina,
que os pais seguiram.
A violência da guerra do Vietname faz voltar
a violência às ruas.
A violência nas ruas é uma consequência direta da guerra,
que legitima o direito à violência,
porque o Estado está a ser violento com outras pessoas, em grande escala.
Em Grosvenor a Polícia aguardava a multidão.
Foi dito que não haveria violência e é o que esperam.
1968 foi um ano turbulento
e Mick está mesmo no meio.
Temos de nos manifestar ao estilo deles.
Se usam cavalos,
teremos 10 000 pessoas a cavalo e logo se vê.
Adoro.
Era o que pensava na altura e era o que devia ser.
Fiquei estupefacto com a brutalidade da Polícia. Metia medo.
A Polícia montada perseguia as pessoas com os cavalos,
em plena Grosvenor Square.
Mesmo assustador.
A multidão não estava a ser violenta.
Foi muito pacífico, mas a Polícia não foi pacífica.
É disso que me lembro.
Com 1968 a rebentar,
Mick escreve uma canção que perscruta o coração das trevas.
AS NOSSAS OPINIÕES TÊM VOZ
Quando se envolve religião, o impacto é maior.
Tem, obviamente, implicações religiosas.
Quando escrevi a canção, não tinha noção de como era provocadora.
Li muitas coisas sobre si
e há quem lhe chame a encarnação do Diabo.
Não sei quem começou com isso.
Jornalistas britânicos...
- Você não é a imagem que têm de si. - Não sei que imagem é.
Uma espécie de homem sexy, mau, satânico e bom.
Posso ser agradável, mau, masculino, feminino, tudo isso.
Todos somos tudo isso.
Tenta dar-lhe mais vida, não conjunto.
Sem o querer, Mick torna-se o símbolo de uma época conturbada,
que acaba em tragédia.
Ouçam,
não sei como fazer isto, mas vou tentar dizer
em algumas palavras o que sinto pelo Brian
e vocês também, com certeza,
o que sentimos por o ver partir de repente, sem contar com isso.
Fazem silêncio ou não?
"Paz, paz
Não está morto, não dorme
Despertou dos sonhos da vida
Somos nós que nos perdemos Em visões tempestuosas
E mantemos com fantasmas Quezílias infrutíferas
E num transe louco Atacamos com a faca do espírito."
Muito bem!
Seis meses após a morte de Brian, outra tragédia,
quando num concerto gratuito caótico na América se dá um homicídio.
Está confirmado.
Decidiram fazer o concerto na pista de Altamont.
SÃO FRANCISCO
Na década de 60 só queria
ser um bom músico, um bom artista
e deixei os outros controlarem tudo, o que foi um erro.
O diretor da digressão falou em Altamont,
um sítio que ninguém conhecia.
Disse que era São Francisco, estava tudo bem,
nenhuma preocupação, só paz e amor.
Afinal, era a antítese de paz e amor,
era uma enorme confusão.
A segurança estava a cargo dos Hells Angels.
Nada estava controlado e ficámos assustados.
Sentíamos que se passava algo de mal, as pessoas eram loucas
e estavam ao nosso lado.
Foi assustador. Estava tudo descontrolado.
Altamont, Califórnia.
Quatro elementos do público de um concerto extra, gratuito, morreram,
um deles esfaqueado.
Só queríamos sair, sem arranjar sarilhos.
Foi um pesadelo.
A vida de Rolling Stone está a tornar-se um caos.
Depois desse tempo, dos anos 60, tivemos de assumir o controlo.
Tive de assumir mais esse papel,
não que eu quisesse.
Nesta situação, o ideal é
ter alguém que faça isso por nós,
mas nunca encontrei essa pessoa.
Já se sentem mais satisfeitos?
- Sexualmente ou filosoficamente? - Ambos.
Sentimo-nos mais satisfeitos sexualmente.
Financeiramente insatisfeitos.
Os Rolling Stones descobrem,
que os seus impostos não são pagos há anos
e que não são tão ricos como eles ou o Governo britânico pensam.
Ninguém geria o dinheiro dos Rolling Stones.
Os Rolling Stones não tinham dinheiro no banco.
Eu tinha de descobrir
como resolver este enigma.
Para gerar rendimentos, decidimos que o melhor
era sair do Reino Unido, para pagarmos menos impostos.
Na altura, parecia uma maldição.
Depois de resolvido, já me parecia uma bênção.
Na verdade, éramos grandes demais para Inglaterra.
O Keith diz que foi expulso de Inglaterra pela Polícia.
Pode acreditar nisso, mas a banda saiu de lá por dinheiro.
Mick assume a responsabilidade do dinheiro da banda.
A banda teria voz sobre tudo, claro.
E se não quisessem pronunciar-se
sobre certos pormenores, seria eu a decidir
e dizia-lhes o que íamos fazer.
Concordam? E diziam que sim.
A partir de agora vai ser assim.
A palavra "democracia" é usada para apaziguar os ânimos,
mas qualquer organização precisa de um líder forte.
Temos de confiar em alguém, que saiba mais do que nós.
O Mick não deixa que nada corra mal, porque controla tudo.
Estava armado com o manual da London School of Economics
e via-se que estava bem armado.
Ele trouxe rigor, disciplina,
uma visão de 360º sobre tudo.
Analisou todos os detalhes, examinou todas as propostas
e para interagir com ele, temos de dar o nosso melhor,
ser de topo, para conseguir acompanhá-lo.
Alguém tem de decidir o que devemos fazer.
Podem discordar e dizer que não,
ou que querem fazer algo diferente.
Mas não me importo de controlar certas situações
em que sei do que estou a falar.
O primeiro passo para os Stones 2.0 é um novo acordo,
negociado entre o Mick e a Atlantic Records para ter a própria marca.
A banda está prestes a tornar-se uma marca.
Estávamos a fazer a capa do Sticky Fingers
e, não sei porquê, achei que devia ter um logo.
Lembro-me de parar numa estação de serviço da Shell Oil
e ver uma grande imagem de uma concha amarela, sem letras.
Todos sabem que é a Shell. Precisamos de um logo que se imponha.
Pensei em falar com John Pasche,
para pensarmos em algo original.
E fiz-lhe uma sugestão.
Estava a estudar Desenho Gráfico na Royal College of Art.
A universidade recebeu uma chamada dos Stones,
para que um aluno fosse falar com Mick Jagger.
Que oportunidade! Muitas pessoas acham que são os lábios do Mick,
mas não é bem assim.
Sugeri a língua incorpórea de Kali
e ele modernizou-a.
Via-a como um símbolo de protesto, de antissistema.
Pareciam os miúdos a deitar a língua de fora.
Tinha de funcionar como um símbolo autónomo da banda,
o que não era comum.
Havia marcas para empresas e isso,
mas não no mundo do rock and roll.
Relacionava-se com a banda. Havia uma ligação.
Cor, vão-se lixar, originalidade. Acho que foi por isso que pegou.
Acho que a língua é tão importante como qualquer logótipo da moda
e provavelmente é reconhecida em todos os países e cidades,
sabendo-se exatamente o que é.
É um logo que já deu a volta ao mundo.
Fim de semana Stones na Radio One
com o seu disco a subir sete lugares, para número sete na tabela,
os Stones, "Fool to Cry".
Mas Mick Jagger é mais do que um simples gestor de marca.
É um músico tão essencial como um refrão de Keith Richards
para o som caraterístico dos Stones.
Acho que quando se tem a sorte de ter um timbre
de voz especial e distinto,
isso ajuda muito.
Assim que abre a boca, sabemos que é ele.
Quando ele conversa com alguém,
parece um cavalheiro inglês.
Podemos não pedir responsabilidades,
mas ter de assumir responsabilidades
quando somos empurrados para a ribalta nesta esfera em particular.
Quando começa a cantar, transforma-se num negro do Sul,
a voz Mick Jagger.
Ouvia as vozes dos cantores de blues
e dominava-as.
Há muitas pessoas com vozes ótimas,
há grandes guitarristas,
mas podem não ter sucesso.
- Você tem uma boa voz? - Não.
- Tecnicamente. - Nem por isso.
Tenho a sorte de ainda conseguir cantar
mais ou menos as mesmas notas de quando tinha 19 anos.
Não tenho grande voz, mas cumpre a sua função.
Mick Jagger, o vocalista, um homem fascinante,
tem sido descrito como "o objeto sexual supremo
da cultura ocidental moderna",
ou "um misto de ameaça e energia",
ou ainda "uma aberração sadomasoquista". É fascinante.
O Mick não era a mesma pessoa que conheci em Londres,
quando estava atrás das colunas.
Tinha saído da casca, pois tinha encontrado
aquilo que o levava a atuar da forma que ele queria.
Mick tornou-se um grande artista. Mick tornou-se no Mick Jagger.
O Mick decidiu como queria ser em palco,
algo com ar boémio, brilhante,
com maquilhagem nos olhos, tornando-se muito andrógeno.
Era o mais camaleão possível,
mas não queria saber, fazia o que queria.
Isso influenciou-me a entrar mesmo no mundo da moda.
Os Stones inovaram com aquele visual androgénico.
Era uma forma de vestir feminizada, com a roupa das namoradas,
misturada com as suas roupas.
Para atrair 50 mil pessoas
para os verem em palco, adaptaram o seu estilo.
Como foi possível tornar um visual andrógeno tão másculo?
Nem sabia que estava a ser andrógeno. Era muito ingénuo.
Mas é verdade, era androginia.
Mas, obviamente, eu era mesmo assim.
Eu era um pouco místico.
Lembro-me do Brian me criticar,
por me achar demasiado feminino.
Tinha os meus momentos.
Ele atrai as atenções com qualquer roupa.
Há muito trabalho de bastidores no teatro
e o rock and roll, de certa forma ainda faz parte do teatro.
Tinha um ótimo maquilhador, o Pierre, que me maquilhava demais,
e eu tinha de tirar algumas camadas.
Eu adorava vestir-me.
Vestia-me de forma efeminada,
mas não agia de forma efeminada.
Em 1972, Mick era já altamente famoso ou infame.
Mais do que uma estrela de rock,
era uma celebridade mundialmente reconhecida.
Pode ser incomodativo, porque as pessoas presumem coisas sobre nós,
mas há formas de lidar com isso
e algumas pessoas aguentam, outras não.
É uma espécie de pacto com o diabo.
Corta!
De repente, recebi um convite para ir ao casamento dele com a Bianca.
Achei que ia ser divertido.
Percebi que era no sul de França.
Ele tinha fretado um avião.
O avião estava cheio de artistas e gente famosa na época.
Foi um fim de semana fantástico.
Estávamos todos pedrados e por isso o ambiente era ótimo.
Este deve ser o casamento mais caótico do ano
e Mick Jagger chega a Saint-Tropez com a sua noiva, Bianca de Macias.
Quando Jagger soube dos fotógrafos,
recusou casar-se num aquário.
Contudo, apesar da confusão e dos gritos,
pelo menos um Rolling Stone assentou.
À medida que a fama de Mick aumenta, cresce a sua ambição para a banda.
A partir dos anos 70, aumentam os espetáculos ao vivo.
Tenho aprendido sobre luzes e tem sido bom,
mas acho que ninguém sabe tratar das luzes como deve ser.
Nova Iorque viu e ouviu finalmente os Rolling Stones.
Fomos a última paragem de uma digressão badalada
e que foi logisticamente muito complicada,
por implicar o transporte deles e de mais de 100 pessoas
e do equipamento, de cidade para cidade.
Os Stones foram a primeira banda com palcos próprios
desenhados por eles, que eram extraordinários.
Foi o Mick e mais ninguém.
Nas duas décadas seguintes, os Stones criaram um festival ambulante,
controlado exclusivamente por eles.
Senti algo que nunca tinha sentido.
Senti a energia de 20 000 pessoas dirigida ao Mick
e foi uma sensação incrível ver o foco dessa energia.
É indescritível.
Quando estas luzes ficam vermelhas, quero o palco vermelho
e não apenas a parte da frente.
Voltamos à grua. Era para retirar a grua.
A Steel Wheels, em 1989, foi uma digressão pioneira em estádios.
Foram as primeiras atuações em estádios, cada vez maiores.
Três ou 4 noites em Madison Square Garden eram pouco.
Foram eles que criaram o concerto rock em estádio.
Os Rolling Stones são vistos por várias gerações,
porque são incontornáveis,
uma experiência de vida, um ritual de passagem.
A experiência no estádio era avassaladora.
Estava a projetar uma sala enorme para mim
e subia a parte de trás de um palco com 27 metros de altura,
sem igual.
Era como o circo, de antigamente.
Quando a música rock atingiu este nível, tornou-se gigantesca.
Era o Mick que mandava e acho que mandou sempre,
e todos gostavam que o fizesse.
Estão prontos?
Falávamos da digressão nos grandes estádios
e dos palcos gigantes, muito caros.
Alguns eram loucos e maravilhosos. Tínhamos imensas ideias,
nem todas práticas.
O Mick queria um elefante a aparecer no final de um concerto
e a dar-lhe uma rosa, que levava na ponta da tromba.
A sério?
E Mick é insistente.
O Keith é quem consegue travar isso.
Ele travou o elefante em palco.
O suspiro de alívio, quase rebentou com o edifício.
Às vezes, o Mick ia mais longe
do que a banda queria ir.
Quando isso acontecia, gerava-se discussão,
ou, se não havia discussão, alguém dizia:
"Não aceito e não me podes obrigar."
Quer falar-me da sua relação com o Keith?
Temos uma boa relação,
com altos e baixos.
Ao fim de 30 e tal anos, se não há altos e baixos,
alguma coisa está errado na relação.
Houve uma altura em que Mick e Keith não se abraçavam,
porque não estavam muito bem juntos.
A banda não é para ser melada e isso é que os torna incríveis.
Tem tocado guitarra, não tem?
Sim, no palco. Sim.
Mas não toco muito. Gostei de tocar guitarra.
O Keith está sempre a fazer ajustes ao som quando canto.
Se fizesse isso com ele, passava-se.
Essa raiva criou um tipo de faísca.
A raiva ajuda a compor canções.
O Mick foi sempre o capitão do navio.
O Keith não gosta de ouvir isso, mas nos anos 70
todos sentimos que tínhamos muita sorte.
Vejo agora o amor e o respeito que têm um pelo outro
e fico sensibilizado.
O problema das bandas é que...
É uma banda, um conjunto de indivíduos,
que supostamente são como irmãos, como família.
Mas não são uma família.
Tenho um irmão e sei como é ter irmãos
e não é assim com o Keith.
É amizade e trabalho em conjunto.
Nas amizades ou no amor
as pessoas têm papéis, mas esses papéis mudam,
vão fluindo, nunca são os mesmos.
Trata-se dos Rolling Stones,
que já duram há tanto tempo e é o que se verifica.
Jagger e Richards dependem um do outro mais do que pensam.
"Eles discutiram."
"Meu Deus!" Uma tempestade num copo de água.
Era assim...
Eu e o Mick já inventávamos discussões,
para a malta ficar feliz.
Era ridículo. Nós damo-nos bem.
Porque é que a sua banda em particular durou tanto tempo?
- Porque estamos unidos, creio. - E gostamos.
Temos os nossos desentendimentos,
mas sem violência desde 1965, acho eu.
- O que aconteceu em 1965? - Foi aquilo do frango?
Alguém roubou uma sandes de frango. Foi a última discussão que tivemos.
Imagina-se com 60 anos a fazer o que faz agora?
Sim. Facilmente.
O que acontece a alguém como Mick Jagger quando envelhece?
O mesmo que acontece consigo.
Os Stones já tocaram ao vivo para mais de 15 milhões de pessoas
em todos os continentes.
Tiveram um recorde de público no Rio, em 2006, e em Havana,
dez anos mais tarde, um país que baniu a sua música durante décadas.
Eu tento fazer coisas inéditas ou difíceis,
mas não gosto muito de tratar dos negócios.
Preferia só atuar e não ter de tratar de nada.
Mas gosto de criar espetáculos.
Ir a Cuba parecia impossível.
Tentámos e a resposta era que não podíamos.
Insistimos
e continuamos a insistir.
Havemos de encontrar uma forma.
Gosto de ouvir no intercomunicador às oito e cinco
o diretor e o produtor a dizerem:
"Estamos a caminho."
São três minutos até ao palco,
começa a abertura e depois o espetáculo.
Ainda sinto um friozinho na barriga e a emoção nesse processo.
Às vezes, penso que os Stones continuavam sem mim ou o Mick,
que continuavam, de alguma forma.
Se analisarmos a história da música pop, nada dura para sempre.
Podemos questionar como é que esta rebelde banda de rock se aguentou
e se mantém unida.
E o Mick é a resposta.
Não se incomoda por não ser quem era há 40 anos atrás.
Sabe quem era há 40 anos.
Sabe quem era há 50, 60 anos.
Eles não vão acabar.
Existem desde que eu estava no sexto ano,
e vão continuar até cair.
O mais difícil no rock and roll é manter a banda unida.
É preciso manter a banda unida.
É preciso manter a banda unida. E Mick Jagger fê-lo.
Maria José Ferreira Iyuno-SDI Group
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