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Feliz Natal ILHA DO DIABO 1895
- Celeste! - Sim?
Alguém do vapor que acabou de chegar quer vir à terra.
Tenho ordens do chefe dos guardas da prisão...
preciso esperar aqui caso os guardas queiram procurar pela praia.
Três prisioneiros escaparam na noite passada.
Faça o que eu digo. Você está sob liberdade condicional.
Você não é melhor do que um detento, mesmo podendo entrar e sair.
Uma palavra minha e você volta à prisão, então faça o que eu digo.
Está bem.
Os três prisioneiros que escaparam na noite passada...
são perigosos, você ouviu?
Sim. Tentaram matar um guarda.
Tentaram? Ele não está morto?
Devo estar perdendo minha força.
É a comida da prisão. Não se preocupe, voltará logo ao normal.
Se não formos apanhados primeiro. Que fuga...
deitados aqui à vista de todos e com as roupas da prisão.
Quem irá notar mais três liberes entre 1.200 na condicional?
Parecemos com eles, eles se parecem conosco. Quem notará mais três?
Tire essa cobra de perto de mim.
Por favor. Ele pode te ouvir. O Adolphe é sensível.
- Vai deixá-lo nervoso, Jules. - Eu é que o deixo nervoso?
- De todo jeito, ele precisa comer. - Também estou com fome.
Vamos roubar alguma coisa.
Albert! Aqui não é Paris.
Só uma coisinha.
Poderíamos ser presos só por nossa aparência.
Eles não vieram atrás de nós.
Eles perdem o faro quando chove. De qualquer jeito, estamos bem.
Agora precisamos de uma chance de partir naquele barco no porto...
e então voltar para Paris.
- Gosta dessa idéia? - Sim.
- Isto é para você. - Obrigado.
Pode me dizer onde fica a Secretaria de Saúde?
Obrigado.
Você saiu daquele navio no porto?
Oficial médico. Há doenças a bordo. Temos que ficar de quarentena.
Dará tempo para novos passageiros embarcarem no navio?
- Você é uma espécie de oficial? - Sou uma espécie de prisioneiro.
Todos os três são prisioneiros? Criminosos?
Eu sou um criminoso. Estes são assassinos.
Bem, é melhor eu tratar dos meus negócios.
A chuva parou. Secretaria de Saúde. Muito...
- Por ali. - Obrigado.
O que conseguiu?
Cinco francos. A nova geração não faz economia.
"Companhia de Comércio de Felix Ducotel, Caiena. "
Ducotel.
É o depósito geral.
O famoso Ducotel, aquele que dá crédito.
- Não há dinheiro aí. - Espere um minuto.
Que tal nós o entregarmos para o Ducotel?
Ele pode nos dar alguma coisinha pelo incômodo.
Se não, roubaremos alguma coisinha pelo incômodo.
Joseph.
Só um instante.
Boa tarde. O que posso fazer por vocês?
Desculpe-me. Pensei que era um cliente.
- Carta para o senhor. - Obrigado.
Posso lhes oferecer alguma coisa pelo incômodo?
- Um charuto, talvez? - Nada de dinheiro?
Bem, os negócios...
Seu telhado está vazando.
Eu sei e a estação das chuvas está só começando.
- Devia mandar consertar. - Bem...
Tive uma idéia esplêndida. Esses homens estão procurando trabalho.
- Quem? Nós? - Trabalhar como fazíamos na...
Você terá o melhor telhado de Caiena, vamos consertá-lo.
E talvez limpar um pouco a loja.
Mas não posso pagá-los.
Só de ficar em sua linda loja entre todas essas lindas coisas...
já é pagamento suficiente. Mais do que suficiente.
Sim. Pregos, martelos, piche, você tem essas coisas?
Os pregos estão aqui, e as ferramentas e outras coisas e...
Suba pela escada.
Vocês sabem consertar telhados?
Especialistas. Deixe a estação das chuvas chegar, você ficará seco.
E limpo também.
Virem para a esquerda. Por aquela janela ali.
Lá está o nosso navio.
Amanhã ele terá mais três passageiros.
E sobre os documentos, carteiras de identidade, passaportes?
Só me dê uma boa caneta e algumas horas...
e eu lhe farei um passaporte que o levará à lua.
Falsificação não é um hobby para mim. É uma arte.
Podemos ter problemas, você sabe. Falsificação é ilegal.
Tudo o que precisamos está lá embaixo.
Logo que escurecer, vamos pegar o que precisamos.
O velho pode não deixar.
Se ficar no nosso caminho, será muito ruim para ele.
Descemos desse telhado e cortamos sua garganta como presente de Natal.
Isso é o tipo de coisa que pode fazer alguém não acreditar em Papai Noel.
Sabe, Felix, eu não o compreendo.
Já disse centenas de vezes para não deixar prisioneiros andarem pela loja.
- Eles roubam e você deixa. - Bem, o que importa?
Uma perda a mais para as contas é como uma enxaqueca para o afogado.
É difícil de notar, exceto para ele.
Não vai acabar a declaração de fim de ano?
- Acabei com a tinta vermelha. - Espere até ele ouvir isso.
Bem, ele tem de compreender que o primeiro ano do negócio...
é sempre de lucros e prejuízos.
Andre Trochard só acredita em lucros. Se perder esse cargo...
Ele vai entender, Amelie, ele não vai me despedir.
- Além disso, somos parentes. - Primos. Só primos.
Seria melhor se fôssemos irmãos, é claro...
mas me atrevo a dizer que é tarde até para isso.
Felix, você não muda nunca.
Tudo o que temos, nossa casa, tudo pertence ao Andre.
A única coisa boa sobre este lugar pavoroso é que está a 5.000 km...
de Andre Trochard.
Amelie, não pedi que gostasse dele...
mas quando eu estava falido em Paris, quem pagou tudo que eu devia?
Foi ele. E quem tirou seu negócio em troca do favor?
Bem, ele me deu a oportunidade de administrar esta loja.
E fica ameaçando te colocar para fora se o negócio não melhorar.
- Fico contente por não ser irmão dele. - Não pretendia te chatear ou te ferir.
É uma mulher extremamente bonita. Extremamente.
Acho que vou pensar nela na hora de dormir essa noite.
Se alguém vai pensar nela, este alguém será eu.
Ela é sua. Desculpe, não sabia que estava interessado.
É porque já estou tão cheio da Sarah Bernhardt.
Há alguém no telhado!
O que é isso?
Sim, esqueci de contar.
São aqueles prisioneiros que lhe falei. Estão consertando o telhado.
Vou dizer uma coisa sobre eles, estão tendo um dia de trabalho honesto.
Feliz Natal!
Alguém aqui?
Madame Parole. Feliz Natal.
Feliz Natal, se é possível dizer isso a 40 graus à sombra.
Não posso ficar.
Só parei para pegar uma garrafa de Chartreuse para Ernest.
É minha surpresa anual de Natal para o pobre Ernest.
Ele sempre me dá uma lata de biscoitos.
Ele os come, é claro, e eu bebo o Chartreuse.
Vou pegar uma garrafa.
Reparei nos homens no seu telhado quando entrei.
Prisioneiros. Muito conveniente e tão barato.
Claro, você tem que ter cuidado, você não...
contratou um ladrão ou um maníaco sexual.
Assassinos são melhores, eu acho. São tão educados.
Vou pegar o Chartreuse.
Vai? Gosto muito dele. Obrigada.
Joseph, posso sonhar com ela?
Há muito com o que sonhar.
Minha! Toda minha.
Chartreuse, madame. Cordezio.
Precisa de um prisioneiro para ajudá-lo na loja, como meu Octave.
Ele é fantástico.
Claro, ele fala muito sozinho...
mas ele é tão limpo e arrumado e tão eficiente.
Você devia vê-lo afiando facas. É um especialista de verdade.
- Ponha na conta. - Sobre sua conta, madame Parole.
Minha conta, claro. Preciso dar uma olhada nela um dia desses.
Logo depois das festas.
Dê lembranças à sua linda filha, Isabelle.
Que pena que ainda não se casou.
Feliz Natal.
Adeus.
Ouviu o que ela disse sobre Isabelle?
Quem?
Nossa filha, Isabelle. Já esqueceu que temos uma filha?
Filha? Quer dizer Isabelle.
Madame Parole falou sobre a Isabelle?
Sobre ela não ser casada.
Bem, ela só tem 18 anos.
Aos 18, estava casada há um ano contigo e Isabelle já estava a caminho.
Agora Isabelle tem 18 e onde está ela?
Você me deixa confuso. Isabelle não está?
Não. Ela está na igreja. Você nunca me ouve.
Amelie, não fique zangada.
Amelie, não vamos procurar mais problemas.
Não fique chateada. Isso me deixa infeliz.
Você sabe como fico deprimido quando estou infeliz.
Que tipo de mãe eu seria se não me preocupasse?
Tudo acontece de uma vez.
Pobre Isabelle, a loja, nem uma venda à vista hoje e Natal, também.
- Pobre Isabelle? - Sim, ela está apaixonada por Paul.
O sobrinho dele? Como? É impossível. Eles não se vêem há um ano.
Foi antes de sairmos de Paris.
Pensei que já tinha esquecido dele, mas não.
Em todas as páginas de seu diário você pode ver o quanto ela o ama.
Você lê seus pensamentos secretos?
Por que você acha que lhe dei o diário? Seu botão está solto.
Então, ela ama Paul. E daí?
Acha que seu primo iria permitir que seu sobrinho casasse com nossa filha?
Por que não? Minha família é tão boa quanto a dele.
De fato, é a mesma família, pensando bem.
Não conhece Andre tão bem quanto eu.
Para ele, casamento é um negócio, como qualquer outro.
Você dá o mínimo que puder e tira o máximo possível.
E eu não tenho nada para dar. É isso?
Só amor, e isso não compra nada.
Você está certa. Pobre Isabelle e pobre Amelie, também.
Não estava falando de mim. Não trocaria você por nada.
Se Isabelle se casasse com alguém como você, não me preocuparia.
A única coisa que fiz de que me orgulho foi ter casado com você.
E não sei como consegui.
Foi minha idéia. Eu o amava, lembra?
Eu me lembro de tudo.
Pensei que pudesse mudar o mundo para você, mas fracassei.
O mundo ainda é o mesmo.
Não exatamente o mesmo. Sou adulta e tenho dois filhos agora.
Isabelle e você.
É melhor assim. Esse é o modo certo de celebrar o Natal.
Eu me lembro do Natal de 1892 em Marselha.
Terrível, lugar perverso, péssimo...
e eu adorei cada minuto dele.
Ainda estão nisso.
Notável. Casados há 18 anos e em um clima desses.
"Felix Ducotel. "
Boa tarde. Em que posso ajudá-la?
Papai, sou eu, Isabelle. Sua filha.
É mesmo. Esqueci que era tão bonita.
Você só fala isso porque pareço com você.
Mas você é bonita. Se não fosse tão tímida.
Nunca sou tímida com você.
Talvez seja por isso que me ache bonita e isso me faz pensar...
Estou ficando confusa.
Papai, uma carta para você. Não foi aberta.
- Uma carta? - Você esqueceu?
Que carta? Sim, a que os prisioneiros trouxeram.
- Prisioneiros? - Os do telhado.
- É você, Isabelle? - Sim, mamãe. Voltei da igreja.
Todos adoraram meu vestido.
Faz um barulho bonito quando me mexo.
Padre Edward me olhou esquisito duas vezes durante a missa.
Puxa, tem lama na saia. Essa rua horrível!
Desculpe. Devia ter olhado por onde andava...
mas estava pensando em coisas maravilhosas na volta para casa.
Você sempre pensa em Paris, querida?
Como sabia que eu estava pensando em Paris?
Dobre seu braço.
Na volta, meu coração me dizia para voltar para lá.
Estar lá, pelo menos por uma hora.
Sente tantas saudades assim?
Há uma razão. Uma razão especial.
Mamãe, nunca lhe contei. É Paul.
Paul Trochard. Estou apaixonada por ele.
É mesmo?
Lembra-se de quanto chorei quando precisamos deixar a França? Lembra?
Foi por isso, por causa de Paul.
Bem, eu nunca teria adivinhado.
Diga-me, tem certeza que Paul a ama?
Ele nunca lhe escreveu, nem uma carta.
Nós combinamos não escrever.
Ele achou que seria melhor assim.
Esperar um ano e então ver se ainda sentiríamos o mesmo.
E, mamãe, ainda sinto o mesmo.
Pode ir, querida.
Olhe para elas. Também são prisioneiras, como nós.
Como as pessoas podem se meter numa confusão dessas?
Tenho uma filha da idade dela.
Espero que esteja com a mãe. Mulher maravilhosa, a mãe dela.
- Queria ter me casado com ela. - Amelie!
- Amelie! - O que é isto?
Ele está aqui. Aqui em Caiena.
- Quem? - Primo Andre.
Está aqui no navio no porto, em quarentena.
"E você fará a gentileza de me tirar de uma vez dessa banheira.
"Sinceramente, Andre Trochard. "
E isso não é tudo. Ele não está sozinho. Paul está junto.
- Paul? - Ambos estão aqui.
Queria estar bêbado. Queria estar morto.
Queria ser um bêbado morto.
Vou até o Departamento de Saúde tomar providências...
para tirá-lo logo do barco.
Não podemos tirar Paul...
e deixar o primo Andre onde está, pelo menos até o feriado?
Ele pensou nisso.
Ele diz que quer passar o Natal examinando as contas.
Eu ouvi papai. Algo errado?
Nada com você querida. Para você será um Natal maravilhoso.
- Paul está aqui em Caiena. - Paul?
Você deve ter rezado muito na igreja essa manhã.
Inacreditável. Tem certeza?
Eles vão ficar conosco. É melhor eu me vestir e me preparar.
"Eu cheguei esta manhã e fui mantido em quarentena. "
Ele vai ficar pelo menos uma semana, talvez mais.
Carta engraçada.
Tudo vai indo bem e de repente o céu desaba.
Aqui está.
"Paul é meu único herdeiro e eu arranjei um casamento...
"com a filha de Audibert, o construtor de navios.
"Preciso de navios no meu negócio. "
Precisamos fazer algo, mas esqueci o quê.
Li que, quando uma dama desmaia, você tem que afrouxar suas roupas.
Esse tipo de leitura é que te mete em problemas.
- Traga um pouco d'água. - Água, sim.
Água! Onde está a água?
Quem é você?
Aqui está.
Isabelle!
Não precisa ter medo. Estávamos com ela.
- O que vocês fizeram? - Nada.
Estávamos lá quando aconteceu.
O pai dela saiu, você deu a carta, ela leu...
na segunda página, o parágrafo mortal.
"Ele é meu único herdeiro e eu arranjei um casamento com a filha de... "
Um primo do seu marido.
Quando ela abrir os olhos é melhor que primeiro veja você.
Não que sejamos feios, mas é que ela terá tempo para se acostumar.
Querida. Minha querida Isabelle.
- Paul? - Olá!
Tudo que fiz foi sorrir.
- É o bastante. - Ela deve ter um estômago fraco.
Que faço com ela?
- Pode levá-la para o quarto? - Claro.
É por aqui.
Depois dessas portas, por ali.
Minha querida!
- Por aqui. - Claro.
Chegamos.
Obrigado. Vou buscar os sais para cheirar.
- Talvez seja uma boa idéia se você... - Se eu...
Claro que sim.
Seus amigos são muito gentis...
especialmente aquele que levou minha filha.
Como ele se meteu em confusão?
Perseguindo uma garota.
Perseguindo uma garota? Isso é crime na França?
Não, não exatamente. Infelizmente, ele a apanhou.
Tudo bem. Jules está aqui também.
E tudo que fez foi matar a esposa.
Mas é o que se deve fazer quando uma garota desmaia.
Não deve entrar, madame, ela está chorando e...
Minha pobre filha.
Graças a Deus, um cliente.
Em uma hora dessas.
Qualquer hora é hora para um cliente. Posso atendê-lo?
Será um prazer para mim. Já faz muito tempo.
Ele vai atender seu cliente, madame.
Ele é um tipo de gênio, uma vez desviou nove milhões de francos...
e não se encontra um homem desses todo dia.
Acho que não, afinal, ter um prisioneiro atendendo um cliente...
- Fazemos você ficar nervosa? - Acho que sim.
Não precisa se preocupar...
embora, é claro, nenhum de nós foi para a cadeia por roer as unhas.
Eu mesmo tive uma carreira maravilhosa.
Ele arrombava cofres.
- Só cometi um pequeno erro. - E qual foi?
Uma ligeira divergência de opinião com minha esposa.
Que lindo conjunto de pente e escova de prata! Foi feito para você.
Você sabe que está com sorte? É o último que temos.
- O que farei com ele? - Exercício.
Será bom para você. Além disso, só por tê-lo, vai enganar a todos.
Pode deixar para sua família, um dia.
- Não tenho família. - Aí está a questão.
Outro dia, vendi um igual para um homem completamente careca...
- e você devia vê-lo agora. - O que aconteceu?
Ele morreu, mas morreu com cabelo. Lindo e escovado.
Vou pegar seu troco.
Tem troco? Consegui 117 francos.
- O que vendeu? - Conjunto de pente e escova de prata.
Isso estava lá há 10 anos. Para quem vendeu?
Ele disse que era chefe dos correios.
O chefe dos correios? Ele é completamente careca.
Então é melhor nos apressarmos, antes que descubra.
Oh, Deus. Meu marido está com a chave.
Bem, permita-me.
Já faz muito tempo, mas tenho certeza que o velho mestre ainda consegue.
Só sei fazer isso no escuro, fiquem quietos, por favor.
Obrigada!
Tem certeza que era o chefe dos correios?
Ele queria uma colcha.
E lhe vendeu um conjunto de escova?
Não tinha colchas.
- Há muitos de vocês no... - Sim. De todos os tipos.
É um mundo como qualquer outro.
Mas vender prata e cuidar de garotas desmaiadas...
É um antigo costume de família, carregar garotas.
Venda de tônico capilar para ele. 11 francos.
Obrigada.
Bem, de volta ao telhado.
Onde está Adolphe?
Há quatro de vocês?
De certo modo, sim. Adolphe é uma pequena cobra em uma gaiola.
Como nós, exilado e prisioneiro.
- Adolphe nos fez um favor uma vez. - Um grande favor.
Costumávamos ser vigiados por um guarda...
um cara desagradável com um chicote.
Um dia, estava gritando de modo especialmente maldoso...
e deve ter sido algum tom em sua voz que irritou Adolphe...
porque, sabe, víboras são répteis muito musicais...
mais musicais do que as pessoas pensam.
E afinal, a cobra perdeu a paciência...
entrou pelo colarinho do guarda...
e, acredito, teria sido o pescoço...
e...
Foi uma questão de segundos.
E foi um grande favor.
Sim, depois disso ele foi um guarda muito melhor.
Terrível.
Acho que não é seu tipo preferido de história.
Não se mova, senhorita.
- Encontrei isso no meu quarto. - Eu disse: Não se mova.
O que é isso?
Podia ter mordido você. Ele não sabe fazer nada melhor.
É uma cobra, vê?
Minha filha, minha pobre filha.
Deve ser o dia dela de ficar inconsciente.
Aonde quer que a coloque desta vez, madame?
No mesmo lugar.
Precisa afastá-la desse hábito.
Desmaiando assim, ela pode quebrar alguma coisa.
Vamos. Não há ninguém na loja agora.
Vamos fazer o inventário.
Escolha alguma coisa bonita para mim.
Vamos removê-la.
Não, poupem a vida dela.
Levem meu dinheiro. Levem tudo que tenho, mas poupem minha esposa!
Você precisa de óculos.
A última vez que os vi, vocês estavam no telhado.
O que aconteceu? Desabou?
- De volta da Secretaria de Saúde? - Sim.
E que tal o primo Andre?
Não vão deixá-lo sair do barco até amanhã.
Isso é bom.
O que está fazendo com minhas contas?
Contas? Chama essa bagunça de matemática sem nexo de "contas"?
Peguei 10 anos por livros melhores que esses.
Onde estão os sais? Obrigada.
Amelie, não consigo entender.
Prisioneiros trabalhando nos meus livros e em outras coisas.
Quando souber do que houve vai querer agradecer a esses cavalheiros.
- Isabelle leu a carta. - Sobre Paul se casar?
Sim. Venha.
Essa gente tem problemas suficientes sem nós.
Talvez devêssemos desistir da idéia de roubá-los e fugir.
Está ficando mole?
Você talvez goste da idéia de voltar às grades. Eu não.
Ainda acho que devemos fugir, mas não nos aproveitando deles.
Isso faz com que eu me sinta um criminoso.
Vamos subir ao telhado e esperar até escurecer.
Não podemos esperar um minuto?
Aquela garota. Gostaria de vê-la com os olhos abertos.
Outro cliente.
É a vida dele, vender para quem não quer comprar...
por mais do que podem pagar.
- Se vamos sair, temos que sair. - Não me importaria em ficar.
O Natal sempre foi um dia especial para mim.
Foi como me meti em encrenca. Cheguei para o Natal, sem avisar...
e encontrei minha esposa dando um presente para um amigo meu.
Muito ruim. Sinto ouvir isso, Jules.
Foi tudo minha culpa.
Devia ter escrito, dizendo que estava chegando.
Está muito apertado.
Sim, está um pouco justo.
Vou pegar um maior no estoque.
Estarei de volta em 10 segundos.
O que está fazendo?
O inspetor da alfândega quer um tamanho maior.
É o único tamanho que temos.
- Eu sei. Levarei esse de volta. - Mas é o tamanho errado.
Não vendo uma mercadoria. Vendo uma idéia.
Sabe a sorte que tem? Esse é o último que temos.
Obrigado.
Aí está.
Agora encolha a barriga só um pouco.
Um pouco mais. Assim está melhor.
Sem estômago nenhum. Pare de respirar.
Essa linha de ombros.
Um homem com esses ombros bonitos não devia tentar escondê-los.
Está respirando de novo. Assim está melhor. Que diferença.
Dois números maiores fazem com que pareça 10 anos mais novo. É notável.
Obrigado.
Deve ser uma jaqueta de dois botões. Bem, volte sempre.
- Obrigado. - Gosto desse paletó. É bonito e fresco.
- Ele levou. - Por que não? Serve perfeitamente...
desde que não coloque nada nos bolsos ou se abaixe.
É melhor colocar isso no cofre, assim sabemos que está em lugar seguro.
Estamos quase acabando.
Vou ajudá-los.
Um momento.
Minha esposa me contou como foram prestativos.
Sabe, essa é a Noite de Natal...
e minha esposa pensou e eu concordei com ela...
que, se não tiverem outra coisa para fazer...
Está nos convidando para ficar para a ceia de Natal?
Não importa o que tenhamos que fazer, nós aceitamos.
Estou tão feliz.
Esperava ser capaz de convencê-los.
Claro, podem estar esperando você na prisão.
- Pode ter certeza disso. - Deixe-os esperar. Bem feito para eles.
Sim. Sempre têm tudo o que querem.
De qualquer forma, com sua filha desmaiando...
vai precisar de quem a carregue para lá e para cá.
Combinado. Vou dizer à minha esposa que consegui convencê-los.
Vamos fazer um Natal de verdade, com árvore, enfeites e presentes.
Preparem tudo, vou comprar um peru.
- Você disse "comprar"? - Em homenagem ao feriado.
Pode demorar um pouco. Primeiro tenho que roubar o dinheiro.
O que...
Estômago nervoso. Sempre acontece antes das refeições.
Precisamos de algumas flores.
Como as do jardim do governador?
E não pise na grama.
Claro que não. O que você pensa que eu sou? Pisar na grama...
Precisa de ajuda?
É você, um dos prisioneiros.
O que a carrega por todo lado a tarde toda.
Vai a algum lugar?
Vou me matar.
Com 60 anos você vai usar um chapéu assim para os homens não olharem.
Não agora. Você tem um belo rosto.
Como posso fugir sem chapéu?
Por que fugir, por estar zangada com o Paul?
Estávamos no telhado. Sabemos tudo sobre você e Paul.
Então, você sabe por que estou fugindo.
Por que Paul viria aqui se não fosse para vê-la novamente?
Seu tio o mandou vir.
Não. Aposto que há outra razão. Aposto que ele veio para fugir com você.
Não é muito provável, é?
Um homem não viaja 6.500 km só para provar que é um patife.
Podia fazer isso por carta, como eu sempre fiz.
Engraçado, mas eu quero acreditar em você.
Achei que deveria.
O mínimo que pode fazer é esperar para ouvir a história do Paul.
O que realmente me incomoda sobre o Paul é que...
eu não o culparia por não me querer.
Sei que sou meio desajeitada. Nunca fui atraente para os homens.
Eu sou homem.
Você me acha...
Quer dizer, você me acha? Acha?
Poderia ser preso pelo que estou sentindo agora...
Se já não estivesse.
Agora dê um belo sorriso e não magoe as pessoas que ama.
- Você é surpreendente. - Por quê?
Por causa disto? Não nasci em uma cela, sabe.
Você não parece um criminoso para mim.
Se o crime aparecesse no rosto de um homem não haveria espelhos.
Posso?
- Você gostou da nossa decoração? - Está bonito.
Sabe, eu esqueci de que lado fica a faca.
- Vou ajudá-lo. - Certo.
Estava dizendo alguma coisa antes. Não me lembro exatamente o que era...
mas algo sobre eu ser atraente ou alguma coisa assim.
Muito atraente. E acredite, eu sei.
Foi assim que me meti em confusão, por uma mulher.
Eu precisava de dinheiro, meu tio não me dava.
Mandaram você para a cadeia porque pediu dinheiro ao seu tio?
Foi o modo como pedi.
No julgamento, disseram que bati na cabeça dele 14 vezes.
- Como você fez isso? - Com uma pá, mademoiselle.
De qualquer modo, está tudo acabado agora...
e estávamos falando sobre outra coisa, lembra-se?
Sobre eu ser como você disse.
Você pensa mesmo que sou atraente para um cavalheiro?
Acho que precisamos de mais algumas xícaras e pires.
Você deve estar melhor, querida. Sua cor está voltando.
Nunca estive tão feliz em minha vida.
- Está usando meu avental. - Foi tudo que encontrei.
Não me importo. Ficou muito bem. Você fica bem de rosa.
- Gosta de mim de rosa? - Faz ressaltar a cor de seus olhos.
Diga alguma coisa.
- Vá em frente. Diga qualquer coisa. - Não tenho nada a dizer, nada mesmo.
- Exceto... - Exceto o quê?
Joseph, é verdade.
Faz mesmo ressaltar a cor de seus lindos olhos castanhos.
Oh, se eu fosse um pintor!
Que lindo peru. Onde o conseguiu?
Ele me seguiu contra minha vontade.
Olhe para tudo isso.
Como um homem como você chegou até aqui?
Foi fácil. Eu tinha uma fábrica de ar.
Vendíamos ar engarrafado a quem o médico receitasse mudança de ares...
Eram de três tipos: Ar do mar, da montanha...
e ar de uso geral, só para respirar.
- O custo de produção era bem baixo. - Pelo menos tinha coragem.
Não é preciso coragem para ir preso.
Só alguma fraude e um pouco de má sorte.
Você fez o que queria.
O que eu queria sempre era contra a lei.
Quero dizer, falando por mim mesmo, saí da escola, casei...
e então quase vinte anos se passaram, anos sombrios e monótonos.
Dez desses anos passei na prisão.
Ficaria surpresa como nada acontece na prisão.
Eles se esforçam para que não seja emocionante.
- Se pudesse fazer tudo de novo... - Faria exatamente tudo igual.
Para mim, o único erro que cometi foi ser apanhado.
Bem, depois de tudo por que passaram, você e os outros...
são muito gentis em nos ajudarem e à Isabelle, que nem conheciam. Por quê?
Ela lembra ao Juley de sua juventude...
a mim da casa e da família que nunca tive, e ao Albert...
Albert é um porco.
Amelie, onde conseguimos um peru?
O peru o seguiu, contra sua vontade.
- Pegarei vinho para o jantar. - Richebourg seria bom.
Não com peru. Chateau d'Yquem '88.
Chateau d'Yquem?
As condições na prisão devem ser melhores do que eu pensava.
- O que é esse pobre objeto? - A árvore de Natal! Esqueci os anjos.
Aqui estão. Os três anjos. Estavam na primeira árvore de Natal que tive.
Não seria Natal sem eles. Viu? Como na cantiga.
"Três anjos vieram à Terra aquela noite E em toda parte as estrelas brilhavam"
Eu me lembro.
Seus anjos tiveram uma viagem difícil para a Terra.
As asas estão um pouco avariadas.
As plumas foram embora.
E eles não têm auréolas também.
Têm, sim. Eles têm auréolas. Pelo menos, para mim.
As asas estão perfeitas e as plumas brancas como a neve...
e eles vieram das estrelas, mesmo que pareçam vir do telhado.
- Mas não abuse. - Claro que não.
- Para as senhoras. - Obrigado.
Estou pronta.
Obrigada.
Por aqui, por favor. O Natal é por aqui.
Não é bonito?
Que flores adoráveis, parecem as do jardim do governador.
Peru à Ducotel, molho Isabelle...
decoração à guilhotina.
Olhe!
- Que linda árvore. - Puxa, ela cresceu!
As estrelas brilham luminosas
Os pastores se encantam com a visão
E três anjos desceram naquela noite
Com roupas brancas resplandecentes
Trazendo notícias alegres
Para a manhã de Natal que chegava
Vamos, Paul.
Quanto vai cobrar para nos levar até a loja do Felix Ducotel?
Nesta noite de Natal, oito francos, monsieur.
Vou lhe dar três francos.
Mas três francos não alimentam os cavalos, monsieur.
O hábito de alimentação dos cavalos não é problema meu. Vá em frente!
Eia! Vamos!
Espero que seja de uma safra especial.
Engarrafado em 1888, no mesmo ano que eu.
Feliz Natal, senhores.
Feliz Natal.
Momentos românticos
Momentos que compartilhamos
Durarão para todo o sempre
Na minha memória
Momentos românticos
Como eu guardo cada um deles
E os revivo sempre e sempre
Quando meu dia acaba
Aqueles passeios alegres e sem fim
A conversa serena
A música
As coisas loucas que os amantes fazem
Quando surge o amor
Momentos românticos
vamos desfrutá-los novamente
E ficaremos mais próximos um do outro
Mais próximos
Como costumávamos ser
Minha esposa achou e eu também...
Não tivemos tempo para escolher um presente para vocês...
Presentes de Natal, quero dizer. Gostaríamos de...
Bem, feliz Natal...
Está ficando tarde. Acho melhor...
- Boa noite. Feliz Natal. - Obrigada pela festa.
Boa noite.
Pessoas desse tipo... Como podemos enganá-las?
Não é fácil.
Ninguém é gentil comigo desde...
outubro de 1891.
Se ao menos não confiassem em nós.
Não é justo. Aqui estamos nós, três criminosos desesperados...
que fariam tudo para escapar da ilha do Diabo...
e acabamos nos envolvendo com gente simpática.
Vocês agem como se não quisessem enganá-los.
Falando por mim, eu não os enganaria.
Além do mais, poderia estragar o Natal deles.
Não me importo que sejam gentis. Eles não vão me amolecer.
Estamos fugindo, essa é nossa única chance.
Viemos aqui para roubá-los e é isso que faremos.
Bater na cabeça deles, arrancar os olhos, cortar as gargantas.
Assim que lavarmos a louça.
Olá!
- Não pode ser um cliente. - Papai Noel.
Prisioneiros.
Que fazem aqui na noite de Natal?
Somos os Três Reis Magos.
Olhem só o rapazinho aqui. Devem ser Paul e o primo Andre.
Como saíram da quarentena, um pequeno suborno?
Lá se vai o Natal pela janela.
Pensei ter ouvido alguém...
Primo Andre.
Muito bem-vindo.
Vinte e quatro horas no porto em um navio muito quente...
oito horas tentando convencer um médico curandeiro idiota...
de que eu nunca estive exposto à peste bubônica.
E quando finalmente piso em terra firme...
sou recebido por um comitê de recepção da penitenciária.
Amigos, sem dúvida? Convidados para a noite?
- Na verdade... - Trabalhamos aqui.
Não me lembro de perguntar, mas se trabalha aqui, tudo bem.
Pegue nossa bagagem.
- Você se lembra de Paul, naturalmente. - Paul. Naturalmente.
Só os esperávamos amanhã. Seus quartos não estão prontos.
Então prepare! Estou com calor e cansado.
Imediatamente. É claro.
Amelie! Isabelle!
- Esse cara é minha presa. - As coisas estão melhorando.
Estava ficando entediado, todo mundo gentil com todo mundo.
Gosto mais assim.
Passaportes, roupas, dinheiro. Tudo que precisamos, até passagens.
Que presente de Natal.
Andre, lamento não estarmos prontos.
Você sempre lamenta. Não muda nunca.
Lamento.
Esses prisioneiros parecem perigosos. Suponho que ande sempre armado.
Não.
Eu planejo dormir com uma pistola na mão. Pense nisso.
- Vamos, Andre. - Obrigado.
Amelie aprontou seu quarto. Cuidado com isso. Não deixe cair.
Cuidado, homem. Cuidado.
- Amelie, Isabelle, Andre e Paul. - Boa noite.
Boa noite, Amelie. Boa noite, Isabelle.
Boa noite. Fez boa viagem, primo Andre?
Está brincando comigo?
Os quartos estão quase prontos. Iremos para o estábulo.
- Sem detalhes, não me interessam. - Desculpe.
- Estou tão contente em vê-lo, Paul. - É bom ver você, Isabelle.
- Paul. - Sim, titio.
Faça o favor de ir para a cama imediatamente.
Temos muito trabalho amanhã. Diga boa noite para as senhoras.
- Boa noite, Isabelle. Amelie. - Seu quarto é aqui, Paul.
É o meu quarto. Espero que não se importe com minhas coisas lá.
Vão tornar o quarto mais agradável.
Boa noite, Paul.
- Você, pegue minha bagagem. - Eu?
- Não. Você não. Você! - Albert!
Desculpe.
- Este é o seu quarto, primo Andre. - Tem insetos aqui?
Era o nosso quarto, meu e de Felix.
Talvez esteja tudo bem. Boa noite, Amelie.
- Boa noite. - Boa noite, Isabelle.
O que está olhando?
Você. Nunca vi nada como você.
Já vi, mas não no Natal.
Seus empregados não são muito bem treinados.
Disciplina nunca foi uma de suas virtudes, Felix.
E falando de disciplina...
Gostaria que entendesse certas coisas desde o início.
Sem idéias entre Isabelle e Paul. Está claro?
Ela tem estado ansiosa para vê-lo novamente.
Gostam um do outro há muito tempo.
Se Isabelle pensa em se casar com Paul por causa do meu dinheiro...
ela pode esquecer esse plano imediatamente.
Além disso, Paul está noivo da filha de monsieur Audibert...
o construtor de navios, um homem muito rico. Preciso dos navios para...
O que você quer?
Tudo o que quero é tomar conta de você eu mesmo, pessoalmente.
Ele quer dizer, talvez você queira comer algo...
um pouco de peru, talvez. Tivemos peru no jantar.
Eu o felicito. Os negócios devem estar melhores do que pensei.
- Bem... - O peru é barato aqui.
Quando eu quiser essas pequenas informações, eu lhe pergunto.
Me dê umas frutas.
Sim, senhor. Certamente, senhor. Estarão prontas pela manhã.
Rude, grosseiro!
Depois de você, grosseiro.
Mandei Paul para a cama para podermos esclarecer tudo rapidamente.
Deixei tudo bem claro, eu espero, em minha carta...
mas existem alguns pontos que quero reafirmar antes de ir para a cama.
Esta não é uma viagem de prazer. Você entende?
Estou aqui devido aos seus relatórios confusos e irregulares...
e não quero ser importunado com nenhuma conversa fútil.
- Sua fruta, senhor. - Faca, garfo. Como se come isso?
Come-se como uma maçã.
Quero saber como vão os negócios.
E por que, em quase um ano...
não tivemos sequer uma pequena margem de lucro.
Todos os relatórios sublinhados em vermelho.
Passei o ano me acostumando com as coisas.
Acostumar-se, suponho que queira Deixar tudo ir para o inferno.
Onde estão as receitas brutas do último mês?
Último mês? Acho que não foram somadas ainda.
O último mês foi novembro.
Estamos quase no fim de dezembro...
e você ainda não fechou as contas de novembro?
Claro que sim, senhor.
Em novembro, conseguimos 32.815 francos.
Vocês conseguiram?
- Nós conseguimos? - Nós conseguimos.
Até aqui em dezembro, conseguimos...
33.824 francos e 12 centavos.
Somente um cálculo aproximado. O movimento de Natal, o senhor sabe.
Sim.
- Tem certeza do total até dezembro? - Se tenho certeza?
Janeiro, fevereiro, março, abril, maio, junho, julho...
Esse é um mês ruim. Por causa das chuvas.
Agosto, setembro, outubro, novembro, dezembro.
Esse é o total. 33.824 francos, 12 centavos...
exatamente.
Mas quanto disto é crédito?
Crédito?
O Sr. Ducotel diz que dar crédito é o mesmo que dar um presente.
Você diz?
Acho que o julguei mal. Saberei amanhã depois do inventário.
Amanhã? Nós vamos trabalhar no dia de Natal?
Assim, não seremos perturbados.
Não pretendo passar o resto dos meus dias aqui, você sabe.
Mas eu...
Eu disse amanhã. Boa noite, Felix.
Boa noite.
- Você ficou maluco? - Eu?
Sabe o que quero dizer. Esse negócio sobre nossas receitas.
Amanhã, quando ele vir os livros...
Os livros? Ah, os livros.
Está preocupado com os livros.
Senhores, ele está preocupado com os livros.
Os livros estão no cofre e eu não vou dar a combinação.
Ele não vai nos dar a combinação. Mestre.
- O que quer com meus livros? - Temos a noite toda para ajeitá-los.
Vai precisar de mais de uma noite para isso.
Em uma noite ajeitei os livros de uma empresa...
que devia possuir sete fábricas.
- Quantas fábricas possuía? - Nenhuma fábrica. Apenas acionistas.
Vigie a porta. Não confio nele.
O que vai fazer?
Ele é o Michelangelo da Guiana Francesa.
Farei de você o mais bem-sucedido empresário...
da ilha do Diabo.
Não. De forma alguma.
Mexer nos seus livros vai ser um grande prazer para mim.
Veja você, nos negócios, como em tudo mais...
existe a aparência e existe a realidade.
Mas sou um homem honesto.
É claro que é. Isso é a realidade. Você é um homem honesto.
Qual a vantagem, se seus livros lhe fazem parecer desonesto?
Vou fazer com que seus livros se ajustem à sua personalidade.
Uma entrada aqui, uma casa decimal, uma rasura ou duas...
e logo terá 33.824 francos em dezembro...
e 12 centavos.
- Fora do meu caminho, seu grosseiro. - Você me assustou.
Queria alguma coisa, primo Andre?
Queria lembrar-lhe que eu acordo cedo, às 7:00 em ponto.
- Vou me lembrar de chamá-lo. - Não se esqueça disso.
Sim. Mais uma coisa.
Seus livros. Gostaria de dar uma olhada antes de ir dormir.
- Meus livros? - Suas contas.
Estas.
Eu estava apenas atualizando.
Vou examiná-las como estão, puras e inocentes.
- Mas eu não coloquei a receita de hoje. - É verdade.
Faremos isso amanhã, quando eu fizer o inventário.
Não importa. Você ainda é um grande artista.
De que adianta ser um artista se não se tem com que pintar?
- Estou aliviado. Estou até feliz. - Por quê?
Eu estava tentado. Admito isso.
Poderia tê-lo deixado ajeitar os livros e sei que me arrependeria.
Sou um homem honesto. É o meu jeito. O que eu posso fazer?
Não sei. Nunca tentei do seu modo.
Vou para a cama agora e espero dormir bem.
Boa noite, senhores.
Boa noite.
Você tem que admirá-lo, mesmo que não queira.
Não o ajudamos muito.
Temos que pensar em nós mesmos. Já fomos nobres o bastante.
Sim, se vamos fugir, vamos fugir logo.
Não podemos fazer nada por ele.
- Ainda tem a garota e o Paul. - Não gosto dele.
- Você gosta dela. - É, sim.
Vamos ajeitar as coisas para ela e cair fora.
Não sei se estaríamos fazendo um bem a ela ou não.
Ela o quer e isso basta para mim.
O que é isso?
"Querida Isabelle, preciso de você. Quero você.
"Venha" o quê? "Venha... "
"Venha para mim, minha adorada, meu amor. "
- Assinado "Paul"? - Assinado "Paul".
E se ela conhecer a letra dele?
Se recebesse um bilhete como esse...
ia perder tempo comparando assinaturas?
Não. Desde que fosse assinado por uma garota.
A família está dormindo no estábulo. Acorde-a e lhe entregue isso.
Encontre o quarto certo e não faça nada além disso.
E em relação a ele?
Diga para ela encontrá-lo no quiosque. Ele estará lá.
Trancado.
O que vocês querem?
Queremos falar com você.
Onde compram esses chapéus?
Sabe, isso não vai ser fácil.
- Onde está ele? - Espere um pouco.
Quando um rapaz lhe manda um bilhete como esse, você não corre.
- Mas ele pode mudar de idéia. - Se ele fizer isso, você muda de volta.
Como poderia?
Paul estará no quiosque. Está uma noite quente e agradável.
Um pouco disso, um pouco daquilo, e vai dar certo.
- Tem algum perfume? - Sim.
Entorne um pouco.
Esse roupão de banho. Tem medo de ficar resfriada?
Qual o problema com meu roupão de banho?
Bem, para começar, não se pode ver através dele.
Você está começando a entender.
- Assim? - Isso vai funcionar.
Albert, onde aprendeu tanto sobre... Tanto assim?
Eu leio muitos livros.
Isso é um ultraje completo!
Porque lhe pedimos para ir ver uma jovem doce...
em uma linda noite tropical?
- Você está doido. - Não estou apaixonado por ela.
Você não vai lhe dizer isso, não é?
- Não. - Ele não é tão estúpido quanto parece.
- O que vou dizer? - Deixe que ela fale.
Diga "sim, querida", de vez em quando e concorde o resto do tempo.
- É assim que se ama. - E se ela parar de falar?
- Beije-a. É o costume. - Mas eu não quero beijá-la.
Você vai. Na sua idade, não vai demorar muito.
Você percebe que não vai funcionar, não é?
Tio Andre vai saber pela manhã.
Quem está aí?
É você!
Como posso ser outra pessoa?
Estou procurando Isabelle. Ela não está no quarto.
Não se preocupe.
Paul também não. Ela não está com ele, está?
Sim. Mas estão bem acompanhados. Meus amigos estão lá.
Ele não é o homem certo para ela.
Ele não é o homem certo para ninguém, mas ela tem que descobrir sozinha.
Ela vai perguntar muitas coisas e ele não vai responder.
Se ele não for bom, e acho que não é, ela descobrirá.
- Dê uma chance a ela. - Você sabe tudo, não é?
Experiência. Muito tempo atrás.
- Você é um vendedor de verdade. - Obrigado.
Você sabe...
Devo desculpas a você e seus amigos.
Pensei que fossem como os outros prisioneiros.
Pensei que fossem nos roubar.
O que a fez pensar assim?
Eu estava errada. Vejo isso agora. Vocês gostam de nós, não é?
Eu invejo você e Felix. Vocês são uma linda família.
Uma bela casa e uma boa loja.
- Amanhã ajeito a campainha da porta. - Obrigada.
Por aí não.
- Vamos ver se eles não têm idéias. - Obrigado novamente por tudo.
Boa noite.
Esse ano todo me lembrei de você e do que dissemos um ao outro.
- Ele já a beijou? - Não.
Está esperando ser subornado.
Agora estamos juntos, com todo o futuro à nossa frente.
Tio Andre tem planos para meu futuro.
Você pode ganhar a vida sem a ajuda dele, aqui mesmo.
Como em uma serraria ou em uma plantação.
- Não sou muito bom com as mãos. - Não precisa ser.
De manhã você sai a cavalo e dá as ordens...
depois volta para casa e eu coloco meus braços em volta de você...
e jamais pararemos de fazer amor.
- O que você me diz? - Eu não sei montar a cavalo.
O que aconteceu com a França?
Se soubesse o quanto sonhei com isso.
O que o primo Andre vai dizer quando souber que estamos apaixonados?
- Acha que devo contar a ele? - Isso será fácil.
Você chega até ele e diz:
"Eu amo Isabelle e nada mais importa. " Vamos lá, tente.
- "Eu amo Isabelle. " - Eu amo Isabelle.
"E nada mais importa. "
- E nada mais importa. - Está vendo?
Bravo!
Tio Andre.
Vá para o seu quarto já.
- Mas, tio Andre, eu... - Você me ouviu.
Diga a ele, Paul. É nossa única chance.
- Tio Andre, eu... - Eu disse: Vá para o seu quarto.
Leve isso com você e estude.
Quero discutir isso mais tarde.
Paul.
Sinto muito.
Acho que é melhor assim.
Agora escute, minha jovem.
Não deve flertar com Paul. Eu proíbo.
Se acha que vai apanhá-lo junto com a minha fortuna...
- está muito enganada. - Não quero seu dinheiro.
Bobagem. Todos querem meu dinheiro. Paul mais do que todos.
- Isso não é verdade. - Não seja tola.
Ele mal pode esperar eu morrer para pegar meus milhões.
E é assim que deve ser. Eu era assim na idade dele...
Se isso fosse verdade, eu não amaria o Paul, eu o odiaria.
O senhor faz tudo parecer mau porque é assim que é.
Sua opinião não tem valor em dinheiro.
A propósito...
examinei os livros de seu pai e pode ser que ele...
tenha que permanecer na ilha do Diabo não como um cidadão comum.
Boa noite, querida. Bons sonhos.
O que vocês fazem aqui? Saiam do caminho!
- Cale-se. - É melhor do que ser educado.
É melhor ir para a cama. Ninguém aqui está conseguindo dormir.
Isso é ultrajante!
Qual o problema? Está um pouco nervoso, talvez?
Desculpe. É isso que está procurando? Limpei para você.
Agora as coisas são diferentes.
Não muito, porque eu tive que limpar as balas também.
- Vou mandar prender todos vocês. - É um pouco tarde para isso.
- Isso já foi feito há algum tempo. - Permanentemente.
- Vocês são assassinos. - Você está certo.
Não eu. Sou um maníaco.
Conheço as leis daqui.
Liberdade condicional. Amanhã vou ver o governador. Ele vai saber disso.
Vou cuidar para que ele dê a vocês um Natal inesquecível...
Cinco anos na solitária!
- Que tal esse presente de Natal? - Um lindo presente de Natal.
Mas como vai embrulhar isso tudo?
Tio Andre! Estava examinando isso. É simplesmente inacreditável.
É melhor dar uma olhada.
Vamos fazer isso pela manhã.
Não está sendo educado. Não vou fazer esse inventário com você.
Não se preocupe.
Acho que descobriremos que Felix e esses ladrões...
têm nos roubado. Venha, Paul. Logo descobriremos.
Não deviam deixar bandidos como eles na ilha do Diabo.
Não. Isso daria má fama ao lugar.
Ele já viveu demais, esse é o problema. Tempo demais.
Sabe o que tenho em mente?
Você sabe o que ele tem em mente?
Oh, isso.
Insisto que tudo seja legal.
Vamos dar a ele um julgamento legal.
É uma boa idéia.
O tribunal está em sessão. Albert, você é o advogado de acusação.
Você é o advogado de defesa. O julgamento irá começar.
Meritíssimo, membros do júri...
Eu exijo que o veredicto seja "culpado".
Se o veredicto não for "culpado", arranjarei outros jurados.
Se houver alguma objeção, ela será negada.
O tribunal agora convoca...
o ilustre advogado de defesa.
Meritíssimo...
membros do júri.
A defesa...
nada declara.
Como foi a defesa?
Lembrou o meu advogado.
Membros do júri, chegaram a um veredicto?
O veredicto é a morte.
A defesa tem algo a dizer?
A defesa nada tem a dizer.
- Insisto em uma apelação. - Negado.
- Mantido. - Não é você quem diz isso.
Meritíssimo, o julgamento vai se arrastar para sempre?
De acordo com a lei...
meu cliente entende que sua posição é irreversível.
Ele entende que deva ser executado. A pergunta é: Como?
Como?
Nós fugiremos. Eu irei para Paris trabalhar na empresa dele.
No fim do ano ele irá à falência e vai então estourar os miolos.
A idéia tem algum mérito, mas por que precisamos esperar tanto?
- Não podemos ser mais rápidos? - Isso é bem rápido.
Adolphe. Naturalmente.
Vamos embrulhá-lo como presente de Natal...
e dá-lo ao primo Andre. Feliz Natal.
Colocamos na cama dele. Nossos amigos perdem um parente asqueroso.
A sessão está encerrada.
Podemos fazer uma fortuna criando essas pequenas criaturas.
Bem, o que vai ser? "Feliz Natal" ou "surpresa"?
Acabo de pensar em uma coisa. Não podemos fazer isso.
Está preocupado com Adolphe? Ele não vai sofrer.
Estou preocupado com a família. O que vai parecer...
se o primo Andre se transformar em cadáver até amanhã?
- Quem se importa com os vizinhos? - Estou pensando na garota e na mãe.
Primo Andre morto na cama, uma terrível infelicidade.
Eles vêm até nós e dizem: "Vocês fizeram isso?"
Quem poderá olhar nos olhos deles e mentir sobre isso?
Estou num ninho de ladrões. Bela escrituração. Olhe para isto!
Quatorze relógios faltando no estoque. Três gaitas.
Um aparelho de louça de 410 peças.
Deve haver bandidos nessa ilha.
Sim, e os maiores bandidos estão bem aqui.
O que é isto?
Outra coisa roubada do estoque, eu suponho.
- Isso é meu. - Não diga isso! Sei muito bem.
Os prisioneiros não devem ter objetos pessoais. O que tem dentro?
- Uma cobra. - Não minta para mim. Como se abre?
Eu perguntei: Como se abre isso?
Por que não digo a ele?
Não.
É propriedade dele. Devolva a ele.
Não até que eu saiba o que tem dentro. Você não vai roubá-la se puder evitar.
Alguém deve correr até lá e avisá-lo.
Jules, corra até lá e avise...
antes que seja tarde. Diga que há uma cobra na caixa.
Ele não vai acreditar. Ele não gosta de mim.
- Albert. - Estavam falando comigo?
Você deve correr e avisá-lo.
Por que não decidimos nas cartas?
Boa idéia. Vou pegar as cartas.
Quem corta primeiro?
Detesto ser o primeiro. Dá azar.
- Depois de você. - Amigos, vocês são maus desportistas.
É com você.
Vou correndo avisá-lo.
Esqueci o que devo dizer.
Diga-lhe para não abrir aquela caixa de jeito nenhum.
Diga a ele que se tentar...
e colocar a mão dentro da caixa...
para saber o que há lá dentro...
ele terá uma surpresa desagradável.
Diga a ele...
que há uma cobra...
venenosa e mortal...
dentro da caixa.
Diga a ele.
Você não disse a ele.
Ele já sabe.
Bom dia.
Quais são as novidades?
O próprio primo Andre não notaria a diferença.
Essa ele escreveu. Essa fui eu.
Que perfeição.
"Eu, Andre Trochard, na posse de minhas faculdades físicas e mentais...
"declaro ser minha vontade que este testamento," etc.
Bem, não adianta permitir que o velho morra...
com fortuna em total desordem.
Deixo tudo para Paul e Felix, em partes iguais.
- Você é muito generoso. - O que entra fácil, sai fácil.
Coloque isso na valise e deixe bem à vista.
- Como está nosso cliente esta manhã? - Ainda morto.
É assim mesmo, "no melhor da vida," etc., esqueci o resto.
- Espero que pareça bem. - Parece ótimo.
Acho que ele está ainda melhor.
Sim, ele era muito pálido quando estava vivo.
Bem, tudo isso foi muito agradável.
Precisamos começar a pensar em sair daqui.
O navio no porto não vai ficar lá para sempre.
Não podemos sair daqui tão desarrumados.
Primeiro alguém tem que achar o corpo e o testamento.
Então partiremos.
Primeiro alguém tem que achar o corpo.
- Teria muito prazer. - Estou sempre preparado para gritar.
Tem que ser um espectador inocente.
Alguém aqui? Sou eu, madame Parole!
É aquela deliciosa mulher gorda de ontem.
A pessoa ideal para achar um cadáver.
Vou ver se consigo conversar sobre o assunto.
- Precisamos achar o Adolphe. - Dê a ele um morango por mim.
Bom dia.
- Em que posso ajudar? - Quero reclamar com o Sr. Ducotel.
- É sobre isto. - O que tem isto?
Aqui dentro só tem água. Gostaria de reclamar.
Sem dúvida. Acho que deve. Isto é sério.
Andre Trochard, o proprietário, chegou ontem à noite.
Sugiro que fale com ele pessoalmente.
Traga-o aqui.
Acho melhor não. Se seguir por esse caminho.
Onde está ele?
Nesse momento, na cama.
Não tenho intenção de falar com ele até que se levante.
- Isso vai demorar um pouco. - Bem, então volto mais tarde.
Tenho muitas coisas a dizer ao Sr. Trochard...
sobre a direção deste estabelecimento.
Antes de ir, sobre sua conta.
Que tal um pequeno pagamento usando sua linda bolsa?
Não tenho nenhum dinheiro comigo.
A senhora não olhou. Podemos olhar juntos, está bem?
Como se atreve?
- Se imaginasse essa falta de confiança! - Confiança é a essência do negócio.
É só por causa da falta de confiança que estou aqui na ilha.
- Falta de confiança? - Dos outros.
Não esqueça. Pagou por ele.
- Não conseguimos encontrar Adolphe. - Olhamos em todos os lugares.
Ele não é um enfeite para ser deixado por aí.
Provavelmente está se recuperando. Afinal, ele mordeu Trochard.
Ele vai morrer sem um antídoto.
Uma coisa assim deve ter exigido muito de Adolphe. Pobrezinho.
Deve estar em algum canto...
enrolado como uma pulseira.
É melhor encontrar antes que alguém coloque no braço.
Adolphe.
Bom dia.
O que estão fazendo?
- Bem... - Sim.
- Perdemos uma coisa. - Uma pequena...
Sim, uma...
- Pulseira. - Isso!
- Deste tamanho. - Vou ajudá-los.
Não, obrigado! Afinal, parece que estava saindo.
Sim, eu ia para a primeira missa.
Tem certeza que não querem que eu ajude?
Sim. Há uma coisa que pode fazer.
Talvez o primo Andre queira ir à igreja.
Podia perguntar a ele.
Por que não entra lá e pergunta: "Que tal ir à igreja?"
Tenho certeza de que está morrendo de vontade de ir.
Não quero falar com ele, não depois da noite passada.
Depois da noite passada, precisa da igreja mais do que ninguém.
Por que você não o chama?
Para ele gritar comigo de novo? Não, obrigado.
Mas nunca se sabe. Ele pode ter mudado.
Não seria surpresa se o achasse mais tranqüilo hoje.
Espero que sim. Vou rezar por ele.
Sim, ele precisa.
Vou rezar por vocês também.
Bem, é sempre assim.
Quando um corpo não é para ser achado, todo mundo descobre.
É melhor encontrarmos Adolphe antes que alguém tropece nele.
Talvez tenha saído pela janela para o jardim. Ele gosta de flores.
- O que foi? - Desculpe. Perdemos uma coisa.
- Lá em cima? - Não é muito pesada.
Bom dia. Fico feliz em vê-lo.
- Dormiu bem? - Sim, obrigado.
- Meu primo já está acordado? - Não. Ele não moveu um músculo.
Não acha que está na hora de chamá-lo?
Não. Deixe-o dormir. Quando acordar, meus problemas vão começar.
Um homem dessa idade não precisa de tanto sono.
Por que não entramos todos e o surpreendemos?
Não quero vê-lo agora.
Vou caminhar. Minha mulher está preparando o desjejum.
Se ela me chamar, venham me chamar no café.
Café? Aposto que está escapando para tomar um drinque.
Até que gostaria de um.
Aqui estamos, com um morto...
e não conseguimos que o encontrem.
Eu costumava querer escapar da cadeia. Agora quero escapar daqui.
Não posso abandonar o Adolphe. Ele é perigoso.
Procure em cada centímetro da sala. Você olha na loja.
Vou verificar se não está lá fora.
Adolphe. Sei que está aí.
O que estão fazendo?
Bem, vamos embora logo...
e pensei que era melhor arrumar nossas coisas.
- Posso? - Obrigada.
Não acha melhor continuar com o serviço da casa?
Estou aprontando o desjejum.
Pensei que talvez quisesse arrumar tudo mais cedo.
Tirar o pó, talvez. O quarto do primo Andre. Fazer a cama.
Isso pode esperar um pouco.
Gostaria de lhe falar, se tiver alguns minutos.
Um homem condenado sempre tem alguns minutos.
Pensei que estivesse húmida.
Bem, você é muito atencioso.
Eu tento. Eu tento muito.
Pode parecer estranho, mas eu invejo você.
- A mim? Um criminoso? - Gostaria de ser como você.
Não está pensando em cometer um crime?
Eu estava, a noite passada.
Sei que não vai acreditar...
mas estava pensando em diversas maneiras de matar Andre Trochard.
Isso é muito engraçado.
Eu sei que parece ridículo.
Sim e não.
Isso é o mais longe que eu iria.
Só uma idéia no fundo da minha mente.
Uma fantasia.
Enquanto fantasia, não perca a esperança.
Adolphe.
- Bom dia. - Bom dia.
- O que está fazendo aí embaixo? - Você é o escolhido.
- O quê? - Para acordar seu tio.
Meu Deus! Ele ainda não se levantou?
Estranho. Ele queria acordar cedo esta manhã.
Você não o chamou?
Eu bati na porta, como me pediu...
mas eu não queria entrar porque...
Entendo. Muito bem. Vou chamá-lo.
Que bom que disse isso. Com licença.
Monsieur Trochard?
Viva!
Albert. Heureca!
- Encontrou Adolphe? - Não.
Meu tio. Meu tio está morto.
O quê? Impossível!
- Está morto, estou dizendo. - Você está brincando?
Quer dizer que o querido primo Andre não está mais entre nós?
E ainda dizem que uma longa viagem faz bem à saúde.
Sim, é o que dizem.
Ele não estava com boa aparência ontem.
Bem, ele nunca teve mesmo.
Nossos profundos pêsames.
Agora precisamos começar os arranjos para o funeral.
- É melhor eu me vestir. - Não há pressa.
Não podemos, em nome do decoro, enterrá-lo antes do almoço.
Foi um choque terrível para eles.
Não posso acreditar. Andre morto?
Acontece com todo mundo.
Onde está meu marido?
Eu a levo até ele. É o mínimo que posso fazer.
Sim?
Seu olhar triste é muito convincente.
Vai ficar ótimo ao lado do túmulo.
O que está fazendo com a mala do meu tio?
Achamos que gostaria de examinar seus papéis.
Achamos que pode haver um testamento ou coisa assim.
Deixem-me em paz.
Não vê como estou triste com a morte de meu pobre tio?
- Eu não estou conseguindo parar de rir. - Saiam!
Eu te digo, adorei aquele olhar triste. É muito convincente.
- Que vergonha ter desejado sua morte. - Não, não deve ter vergonha.
Cometeu o crime perfeito. Parece tudo resolvido lá em cima.
Sem provas, sem testemunhas, só resultados. Eu te invejo.
Felix, tenho notícias terríveis para você. Andre está morto.
- Morto? - É verdade. Morreu durante o sono.
- Foi muita consideração dele. - Não sei o que fazer.
Primeiro, certificar-se de que está morto. Não confio nele.
Você tem minha palavra. Ele está morto, sim.
Precisamos de um médico. Para dar o atestado de óbito.
Vamos até a Secretaria de Saúde.
- Que presente de Natal. - Não me entenda mal.
É verdade que nunca gostei do meu primo, só porque não era amável.
Tinha algumas coisas boas. Só não consigo pensar em nenhuma.
Ontem havia três prisioneiros no telhado.
Hoje um deles estava na loja e me disse que era o novo ajudante.
Alguma coisa está errada.
Se eram três, madame, é melhor contar ao comandante.
Temos que vigiar esses prisioneiros e assassinos o tempo todo.
Adolphe.
- Rapazes, precisamos sair daqui. - O quê?
Sua deliciosa amiga gorda estava falando com as autoridades.
- Não encontramos Adolphe. - Adolphe é dispensável.
Não podíamos fazer um minuto de silêncio?
Não temos tempo.
Onde está todo mundo? Felix!
Ele encontrou meu testamento.
Vocês. Venham cá.
- Onde está Felix? Quero falar com ele. - Sobre o testamento?
- Não. Sobre o funeral. - Vamos cavar um buraco para ele.
Espero que aqui os preços sejam menores do que na França, é claro.
Ele não deixou seus últimos desejos, um testamento?
Não. Vi no inventário que temos algumas braçadeiras pretas no estoque.
- Pegue uma para mim. - Espere. Sobre o testamento.
Tem certeza que olhou em tudo? Naquela pasta?
Examinei os papéis dele com muito cuidado.
Meu tio não deixou nenhum testamento.
Então como seu parente mais próximo, vou herdar tudo.
Só que acho que todos são honestos, menos eu.
- Desculpe? - E a respeito de Isabelle?
Não vão começar o teatro da noite passada novamente, vão?
- Foi divertido na hora, mas... - Mas não divertido o bastante...
para durar a vida toda, é isso?
Tenho responsabilidades agora. Preciso pensar no futuro.
E o futuro não inclui Isabelle?
Temo que não.
Com ela, seria casamento ou nada, e isso está fora de questão.
- E Ducotel. O que será dele? - Não tenho nada contra Felix.
Ele pode continuar aqui, desde que, claro, o estoque esteja certo.
Caso contrário, ele sai. Sentimentos não valem dinheiro.
Agora, com licença, é melhor me ocupar com as coisas do meu tio.
Vou deserdá-lo. Vou escrever outro testamento.
Ele vai se livrar dele como se livrou do primeiro.
- Ele é tão ruim quanto o tio. - Pior.
Se achássemos Adolphe, ele poderia fazer outro favor.
Adolphe se foi. É mais esperto do que nós.
Vocês sabem alguma coisa sobre cobras nesta ilha?
Acabei de ser picado por uma cobra.
Uma cobra pequena? Deste tamanho?
Sim.
Toda colorida, como uma linda pulseira?
E quase nem sentiu porque ela foi muito rápida?
Sim.
Ela não deve ser muito perigosa.
- Não se preocupe por tão pouco. - Por tão pouco.
Já está tudo resolvido.
Mesmo assim, acho melhor um médico dar uma olhada.
Ele acha melhor um médico dar uma olhada.
- Ele quer mandar buscar um médico. - Diga a ele para poupar seu dinheiro.
Ele diz para poupar seu dinheiro. Bom conselho. Acredite em mim.
Acho que está certo. Antes doeu, mas agora não sinto nada.
- Não sente nada. - O que ele disse?
Ele disse que não sente nada.
- Em outras palavras, não está doendo. - Bom.
Como aconteceu?
De um jeito bobo. Ela estava no bolso do meu tio.
No bolso dele? O que você estava fazendo no bolso dele?
Eu estava só...
Só examinando os livros. Nós sabemos.
Estou um pouco tonto. É melhor me sentar.
Ali.
Agora, onde o colocamos?
Bem, esse lugar está ficando cheio. O quiosque.
Ele vai ficar pitoresco no quiosque.
- Vá pegar Adolphe. - Sim.
Para onde estão me levando?
Lá para o quiosque onde vai ficar pitoresco.
Vocês estão sempre me levando para o quiosque!
Adolphe, você não devia se esconder assim, meu anjo.
Já pegou?
Sim. Ele está exausto, o pobrezinho.
Cavalheiros, os Ducotels têm menos um parente.
Nas palavras imortais de um ou outro: "Parabéns, Adolphe. "
Sim, foi bem rápido e indolor.
Deixou-nos com um sorriso nos lábios e suas últimas palavras foram:
"Sem crédito. "
Como vamos contar a ela?
Deixa comigo. Vou dar as más notícias com cuidado.
Cumpri minha promessa. Rezei por vocês e pelo primo Andre, também.
Isso foi bom, porque ele está morto.
Que bom que contou com cuidado.
- O primo Andre está morto? - Sim. Morreu dormindo...
após abrir seu presente de Natal.
Não posso acreditar. Que horror.
Até agora, você é a única que pensa assim.
Pobre Paul.
- Deve ter sido um choque para ele. - Não sentiu nada.
Não, ficou bastante calmo.
Cerrou os lábios. Só isso.
É melhor trocar de vestido antes de falar com o Paul.
Não gostaria que pensasse que não me importo.
Antes de ir, sobre Paul... Você e Paul, é isso.
Está tudo bem. Eu sei que Paul não me ama.
Não deve lembrar dele assim. Quero dizer, de manhã, ele dizia...
Sim, ele dizia o quanto amava você.
Ele não falou sobre outra coisa, só sobre você.
Não queríamos que pensasse nele como não amando você.
Sim, ele te ama.
Fiquei acordada a noite toda pensando nele...
e eu de repente percebi que foi tudo um conto de fadas.
Algo para uma criança acreditar.
- Eu cresci essa noite. - Quer dizer que não o ama mais?
Eu só amo vocês três, porque mentiram para mim.
- Não nos saímos tão mal. - Contanto que ela esteja feliz.
Um dia, um bonito rapaz irá aparecer, feito para ela.
- Só que não serei eu. - Assim é o mundo.
Em Paris, há um ano, se você tivesse...
dobrado a esquina certa na hora certa...
você e Isabelle poderiam ter se esbarrado acidentalmente.
"Peço desculpas, senhorita. "
"Não foi nada, cavalheiro. Eu devia ter olhado para onde ia. "
- Já teriam um filho agora. - É.
Como está, será uma outra pessoa...
que tocará a campainha um dia desses.
Sob encomenda.
Está predestinado, é assim mesmo.
Não. É aquele cara do barco.
Sou médico.
Me falaram na Secretaria de Saúde sobre uma morte aqui.
- Posso fazer alguma coisa? - Isso depende. Você é casado?
- Desculpe. - Perguntei: "Você é casado?"
Não.
Nada mal. Ele não é nada mal.
Não me leve a mal, Albert, ele combina melhor do que você.
Não sei o que isso tem a ver com o morto.
Não há pressa. Seus clientes vão ficar no mesmo lugar.
- Acha que ela vai gostar dele? - Ele é bom.
- O uniforme ajuda. - Ele parece com um copo de leite.
Ele parece ser bem inteligente, o que é mais do que esperávamos.
- Eu ainda não entendo... - Não estrague tudo.
Bem, o que acha, Albert?
Está tudo bem para mim.
Não acho o Paul. Não está no quarto.
Bem, ele estava no jardim.
- Acho que talvez ainda esteja lá. - Com certeza.
Com licença.
- Quem é aquela jovem? - Ela mora aqui. Bonita, não é?
- É muito atraente. - Sim, mas veja bem.
Você também é atraente. Seja educado com ela...
e muito paciente e muito gentil.
Ou conhecerá um amigo nosso chamado Adolphe.
- Ela vai voltar logo? - Assim é melhor.
Assim que ela encontrar a felicidade.
Pronto. Ela encontrou.
Permita-me. Lá fora no jardim.
No jardim.
- Agora eu a perdi mesmo. - Você nunca a teve realmente.
- Não tem mais jeito. - Eu culpo meu tio.
Se ele tivesse me dado o dinheiro quando eu pedi.
Se tivesse sorrido e dito: "Olá, meu rapaz. "
"Olá, meu rapaz. Aposto que veio aqui pedir dinheiro.
- "Seu danadinho. " - "Acho que não posso te enganar, tio. "
"Não, não pode. Eu também já fui jovem.
"De quanto precisa?"
Mas não disse isso nem nada parecido. Então você pegou uma pá...
e deu nele. E aí está você.
Aqui estou eu... E o chamaram de vítima.
Ela está desmaiada.
- Eu li em um livro, quando uma garota... - Ele é médico. Vai pensar em algo.
- O que eu faço? - Coloque-a deitada em algum lugar.
O quarto dela é lá em cima, cuidado com a cabeça dela no corrimão.
Certo.
Casal atraente.
Olá.
Sim. Com ele, ela parece bem.
- É você? - Difícil de acreditar, não é?
- Parecem diferentes. - Estamos diferentes.
Adeus, madame. Adeus, senhor.
- Estão indo embora? - Nosso trabalho terminou.
- Consertaram o telhado? - Consertamos tudo.
Agora devemos seguir nosso caminho. Obrigado pela hospitalidade.
Faz muitos anos que não tínhamos um Natal tão bom.
Adeus.
Cumprimentos natalinos.
Feliz Natal.
Ali está nosso barco. Ainda está esperando.
O resto é fácil.
Tudo o que precisamos é subir a bordo e deixar a ilha do Diabo para trás.
Engraçado como tudo aconteceu.
Foi um tipo de milagre, isso tudo, quase como se tivesse sido planejado.
Até a própria garota nos chamou de os três anjos.
Não somos anjos.
Engraçado, quando eu era livre, estava sempre encrencado.
Não sei por que tenho tanta pressa de me encrencar de novo.
Acho que gostariam de nos ver de volta na prisão.
Posso dizer uma coisa a favor da prisão. Encontramos gente melhor lá.
Sim. Há muito o que dizer a favor da prisão.
Você sempre sabe onde está quando acorda de manhã.
Sim. E eu consigo dormir.
O que está dizendo? A prisão não era tão ruim.
Vamos todos voltar. Pensem nas boas-vindas que vamos receber.
Se as coisas não correrem bem, faremos tudo de novo, ano que vem.
Fim
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