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Fechem a porta, sentem-se e esperem. A Zulmira j� a� vem.
Hoje n�o � a Zulmira, av�. � o Quim.
A minha m�e est� com pneum�nica. O meu tio vai fazer a opera��o.
O teu tio? Um homem?
� enfermeiro na Armada. A minha m�e ensinou-lhe tudo.
N�o se preocupem.
Ele � melhor do que ela.
Tem o dinheiro?
Um homem?
- S�o uma ou duas, Maria Jos�? - Duas.
- Sentem-se. Ele vem j�. - Fidalgas?
A modo que meias.
- Est�o � nossa frente? - N�o, pode passar a senhora.
Obrigada, sente-se.
D�-lhe tempo para ganhar coragem. Tamb�m s� tem 13 anos, coitadinha.
Foi o padrasto. Sabe, descuidei-me.
Fomos postas no olho da rua.
O que � que a senhora quer? S�o homens.
Queres-te sentar?
N�o � preciso, minha senhora, estou bem aqui.
- Quem � o fregu�s que se segue? - S�o elas.
- Cobraste? - Cobrei.
- E a outra, quer ver? - Acho que n�o.
Importas-te?
- Olha a tua fada. - Para com isso, C�cero.
Est� bem, eu paro.
Mas o que � que decides? � sim ou n�o?
J� te disse que n�o.
Mas ainda vamos a tempo, Manel. Temos meia hora.
Em dez minutos estamos na esta��o.
Para com isso, porra! N�o � n�o! Nunca.
Tu �s uma besta, ela alinhava. Est� pronta a tudo por ti.
N�o.
Tens medo do qu�? Ou vai a bem ou vai a mal.
Vou buscar o carro ao largo, enfiamo-la na cesta de vime e ala.
30 segundos, canja.
Tu est�s doido? Mete-me isso no bolso!
N�o posso ter uma arma? Toda a gente tem uma arma.
Estamos em guerra, mano.
Pronto, est� bem.
Mas pensa nisso.
Se n�o for hoje � amanh�. H� comboios todos os dias.
Viu aquele enterro?
Isto � que s�o funerais. Cinco de uma assentada!
N�o � s� para ricos.
Disparates, minha senhora. N�o lhe ligue.
- Era uma pistola a s�rio? - N�o, uma velharia.
Deve t�-la achado no lixo. Parvoeiras.
Desculpe, minha senhora. Pe�o-lhe desculpa.
- Era para mim? - O qu�, minha senhora?
A pistola.
Para si? Para qu�?
Para me matar. Para que servem as pistolas?
Mat�-la, o C�cero? Mas porqu�?
Sei l�. Ci�mes, talvez.
Sim, o C�cero. O que � que ele quer fazer com aquela pistola?
O C�cero n�o faz mal a uma mosca.
Ent�o era s� para me assustar? Para eu n�o voltar c�?
N�o. � mais uma daquelas ideias malucas dele.
- Que ideia? - Uma parvo�ce.
Nada, minha senhora. � uma estupidez.
Que ideia, Manuel? Qual era a ideia dele?
Assustar-me? Fazer-me desaparecer?
Era essa a ideia dele?
Que ideia, Manuel?
Que � que disse? N�o ouvi.
Rapt�-la.
Raptar-me.
Para pedir um resgate?
Aqui? Em sua casa?
Sequestrava-me aqui?
N�o, n�o aqui. L� para cima, em casa de uma tia dele, desabitada.
� mais uma das ideias dele. Amanh� j� se esqueceu.
N�o tarda inventa outra.
Manuel, deite-se.
N�o � nada, j� passou.
Trouxe-lhe a c�nfora. Vou-lhe fazer uma fric��o.
- N�o vale a pena. - Deixe-se de caprichos. Dispa-se.
Est� frio?
Pele de menina.
Raptar-me...
E quanto � que pensa que eu valho?
No fundo a ideia dele n�o � t�o disparatada como isso.
Minha senhora! Minha senhora!
O que aconteceu? Que � que tens?
A Idalina.
- Onde? - No quarto.
A cumprir o seu degredo
As cordas da minha guitarra
S�o de ouro acastanhado
S�o cabelos que eu roubei
Das tran�as da minha amada
A que horas � o comboio?
- Que comboio? - O comboio do outro.
- Ele n�o falou num comboio? - O outro?
- O teu amigo, o anarquista. - O C�cero. O comboio para...
- Esse. A que horas? - N�o sei. �s duas.
Ele disse �s duas.
Temos todo o tempo, ent�o.
Vem.
N�o levou nada.
Nada. Isso dizer que volta?
Ou que se est� nas tintas para n�s e para o resto.
- Ent�o, j� acabaste? - Sim, acabei. Ia-lhe mostrar.
Uma senhora da melhor sociedade, 48 anos, aparentando muito menos,
estatura m�dia, cabelo escuro e rosto regular,
vestindo modestamente, abaixo da sua...
Aparentando cerca de 40 anos.
Fei��es regulares, distinta, doen�a de que padece.
- It�lico, corpo 12. - Primeira p�gina?
Claro. Ela n�o te disse mesmo nada?
Nada
- Nem uma palavra, juro-lhe. - Para de jurar, j� n�o tens idade.
Provavelmente em virtude da exacerba��o da doen�a
- de que padece. - Clotilde!
Arrume tudo.
Raquel!
Uma senhora da melhor sociedade, aparentando ter 40 anos,
vestindo modestamente, abaixo da sua condi��o,
desapareceu da sua resid�ncia em Lisboa.
A idade, meu caro Alfredo. A idade.
Que idade?
A cessa��o do catam�nio.
O catam�nio?
As regras. A menstrua��o, o fluxo.
A menopausa, a idade cr�tica da mulher.
Pois, a menopausa.
- Perd�o, que tem isso que ver? - Tudo.
A emotividade excessiva, a paix�o do teatro.
Lembra-se: Aperta-me bem nos teus bra�os.
Faze-me sofrer, Noel.
Sinto-te no meu sangue, na minha alma.
Sim, sim. Mas, enfim, era a pe�a do Dantas.
Mas, caramba, que mem�ria.
Deforma��o profissional. Mas eu ainda n�o acabei:
Perdida j� eu estou. Perdida de corpo e alma!
Perdida!
Se soubesses como � bom sofrer por ti...
Faze-me padecer ainda mais.
Sofrer, padecer ainda mais. Que exalta��o!
Que arrebatamento!
Sim, a pe�a � do Dantas, mas a exalta��o e o arrebatamento
� da vossa esposa.
- Da Maria Adelaide? - Da Maria Adelaide.
Acha...
Quer dizer, acha que h� um homem?
Enfim, outro homem?
Provavelmente.
Um primo Bas�lio.
O homem � uma intelig�ncia servida por �rg�os.
Isto n�o � meu, � de um fil�sofo franc�s.
Mas eu acrescento:
a mulher � um �tero servido por �rg�os.
A menopausa, meu caro Alfredo, � a loucura l�cida do furor uterino.
Derrubam todas as barreiras inibit�rias, acredite.
D�o azo a maus afetos, a inclina��es perversas,
a anormalidades morais.
As mulheres ricas das grandes cidades s�o as mais vulner�veis.
A leitura de romances inconvenientes,
esse Primo Bas�lio, justamente, os espet�culos sugestivos, o teatro.
- Pai! - � dela!
Estou viva, mas em condi��es que me considero morta.
� prefer�vel que me considerem como tal. Adelaide.
Viva, mas morta.
- Vai voltar. - Diz que est� morta.
Mas fez-se viva.
Vai voltar.
Acha mesmo que n�o volta, pai?
De livre vontade n�o.
Boas noites e bom proveito para Vossas Excel�ncias!
Perd�o, doutor, ele empurrou-me!
Eu disse-lhe que n�o estava, mas ele passou-me � frente!
Calma, doutor, paz e prosperidade, a guerra j� acabou.
Os modos s�o maus, mas as inten��es s�o boas.
Estou aqui para servir Vossa Excel�ncia.
Eu sei do paradeiro da senhora.
Podes ir, Clotilde.
O nome da terra.
O nome da rua.
E o n�mero da porta.
Est� sozinha?
Est� com o Manel, mas eu afasto-o quando vos aprouver.
- O Manel? - O Manuel Claro.
- O motorista? - Exato.
O chauffeur que o doutor p�s no olho da rua h� dois meses.
Esta gente sai pela porta e volta pela janela.
Mas � um fedelho!
- E pouco mais velho do que eu. - Gostos.
Est� aqui no seu jornal uma generosa recompensa.
� tudo?
Clotilde!
N�o precisa de me agradecer, senhor doutor.
- N�o fiz isto por si nem por ela. - Acompanhe este senhor.
Nem pela sua generosa recompensa. Fiz isto por ele.
Pobre diabo, nem sequer sabe onde se meteu.
O Alfredo n�o se ofende, pois n�o?
N�o se preocupe, n�o me ofendo. Ria � vontade.
Tem raz�o, � ris�vel. O chauffeur, um fedelho.
- Falou-lhe de n�s? - Quem?
- A Maria Adelaide. - A que prop�sito?
- Ela sabe. - Como � que pode saber?
Sabe. Adivinhou.
Porque � que acha que ela fugiu com o mi�do?
Sei l�. A menopausa, as hormonas,
a f�ria uterina, a idade, as leituras, o teatro!
Tretas.
Fugiu para se vingar de si.
Do seu poema.
Para lhe provar que a saz�o do sonho e dos amores,
para ela, ainda n�o acabou.
E sobretudo... para o humilhar.
Para o ridicularizar diante de Lisboa inteira.
Maria Adelaide, Maria Adelaide...
Fugir com um motorista com idade para ser filho dela!
E o pior, calcule: eu despedi o rapaz
porque me parecia efeminado.
Veja l�! Sou, de facto, um cretino.
Idalina?
N�o tinha mais nada, espero que n�o se importe.
Pelo contr�rio. Fica-te muito bem.
Mas se soubesse tinha comprado maior.
Acha-me rid�culo.
Acho-te picante.
N�o sabia se tomava ch� ou caf�. Fiz os dois.
- Caf�. - Tomo eu o ch�.
Se quiseres continuar a usar esse roup�o
� melhor rapares os pelos.
Se prefere.
Est� a fazer tro�a.
N�o leves a mal.
Estava a brincar.
Mandaste a carta?
H� quatro dias. De Viseu, da esta��o.
O que acha que eles v�o fazer?
N�o fa�o ideia. Procurar-me em Viseu.
Ou se calhar nem isso.
At� lhes conv�m que eu desapare�a.
S� que sem mim n�o podem vender o jornal.
O que � que tens?
O que � que foi?
Deixei a �gua ao lume, para a barba.
�s mesmo doido! Que est�s aqui a fazer?
- Est�s linda! - Fica-te a matar!
Fala mais baixo, porra! Que � que c� vieste fazer?
Calma, mano! Vim saber se estavas bem.
N�o te vou roubar a velhota, vou-me j� embora, descansa.
- Que � isso? - V�.
- Que dinheiro � este? - Expropria��o prolet�ria.
Estou a reinar, mano. � dinheiro ganho honradamente.
E gra�as a ti. A s�rio, mereceste-o.
� a pura da verdade, vai por mim.
Meteste-me c� um susto, sacana!
Desapareceste sem dizer �gua vai, filho da m�e!
Ainda por cima arranjei-te um emprego.
Um trabalho de chauffeur. � tudo legal.
S� tens de levar um marmelo de Aveiro a Braga. Ida e volta.
- Um marmelo? - Sim, um negociante de vinhos.
Agora �s um homem de fam�lia, tens de te fazer � vida.
Isto n�o � s� andar no forrobod� com estas roupas de gald�ria.
N�o � meu! N�o tinha mais nada.
- Mas � verdade, esse emprego? - Alguma vez te menti?
S� tens de estar em Aveiro hoje. O homem estar� � tua espera.
Tens o nome e a morada no envelope.
Cuida-te, mano.
Adeus.
Que barulho foi esse?
Nada, uma mota, um militar.
Desculpe. Quer o seu roup�o?
Se mo emprestares.
- Pe�o-lhe desculpa. - N�o te desculpes.
Est� quentinho!
Fica-te melhor do que a mim.
Tenho de fazer umas cortinas para estas janelas.
V�-se tudo c� dentro.
Estou horrivelmente atrasada. O Gast�o vai-me puxar as orelhas.
Mas afinal ele entra ou n�o entra no Governo?
Resolveu recusar, veja l�. O Sid�nio ficou furioso.
Mas desde que ele ouviu o discurso l� do coiso,
o professorzeco de Coimbra, n�o quer ouvir outra coisa.
- Que discurso? - Um discurso no Porto.
A alma portuguesa: Deus, P�tria, Fam�lia,
Religi�o, Gl�ria, Amor.
E a Maria Adelaide? Que � que conta fazer?
N�o sei. Vou l� e dou um tiro no rapaz.
Ou nela. Ou nos dois.
Parece vazia.
Ser� mesmo esta?
- Quando Vossa Excel�ncia quiser. - Parece vazia, � mesmo esta?
- Sim. - Proceda, mas nada de viol�ncias.
- E se ele resistir? - Referia-me a ela.
�s suas ordens, doutor.
- N�o � melhor ir com eles? - Vai a sua tia. Deixe-os acabar.
Fique aqui. Se ela quiser sair avise-me.
Est� sozinha. Diz que o rapaz foi a Braga.
- A Braga? - Sim, volta depois de amanh�.
E ela?
Recusa acompanhar-nos, como previa.
Bom, vou l� eu agora.
- Acho que � melhor. - E n�s n�o vamos com eles?
Est�o l� em baixo? Os dois?
Professor?
Minha senhora.
Mademoiselle Julie.
Que leituras.
Foi o Alfredo que lhe pediu para vir?
Digamos que fui eu que lho propus.
Porqu�?
Podem sair, por favor.
Porqu�, minha amiga?
Qual � o dever de um m�dico perante a doen�a?
Acudir ao doente, n�o � verdade?
Podes sair, por favor.
- N�o estou doente. - Est�.
Acha que estou qu�?
Transtornada?
Algo nesse sentido, sim.
Quer dizer demente, louca, doida, maluca.
N�o dramatizemos, por favor.
Est� numa fase complicada, aquilo a que n�s chamamos menopausa.
Agravada por uma heran�a particularmente pesada.
A minha heran�a. Era isso que preocupava o Alfredo.
N�o � isso. Refiro-me � hereditariedade, � gen�tica.
Estou a ver, os meus antepassados. Falou com o Cid.
Com efeito. Troc�mos impress�es. E o J�lio de Matos tamb�m.
Pena que o Miguel Bombarda j� tenha falecido.
Passavam a ser quatro, como os Tr�s Mosqueteiros.
N�o me leva a s�rio?
Devo levar a s�rio as descobertas do doutor Cid?
E deve juntar-lhe o seu pr�prio quadro cl�nico.
Cito de cor: convuls�es antes do parto, f�stula anal,
ovarites, enterites, febre tifoide na inf�ncia.
Bom, mas tudo isso � passado, n�o � verdade?
O passado deixa marcas.
E que tratamento me prescreve a sua junta m�dica?
- Uma cura de repouso. - Onde?
- Numa casa de sa�de. - N�o.
Eu lamento dizer-lho, mas n�o pode recusar.
O doutor Alfredo da Cunha, seu esposo,
ordena o seu internamento compulsivo com base neste diagn�stico.
S� saio daqui � for�a.
Eu n�o lho recomendo.
Al�m de ser in�til e desagrad�vel para toda a gente,
a sua resist�ncia pode ter consequ�ncias,
sobretudo para o rapaz. - Que consequ�ncias?
A deposi��o de uma den�ncia por rapto, por exemplo.
Ent�o?
- Est�-se a vestir. - Aceitou.
N�o teve outro rem�dio.
Vou v�-la.
M�e.
Tamb�m tu, meu querido filho?
- Como � que p�de? - N�o podes perceber.
Um mi�do!
Da minha idade, podia ser seu filho!
Um servi�al.
Por favor, saiam. Tenho de vestir-me.
Falamos mais tarde.
Senhora dona Maria Adelaide.
Professor.
Minha senhora.
Magalh�es Lemos, sou o diretor desta casa.
Queiram fazer o favor de se sentar.
Compreendo a sua ansiedade, mas enquanto aqui estiver
ser� tratada com total defer�ncia.
Como, ali�s, exigiu o seu marido.
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