All language subtitles for (1985-03-01) - A Murder Is Announced [1950] (2-3)

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Original subtitles

1a.Exibição (1 Março 1985)

PARTICIPA-SE UM CRIME PARTE 2

Não me contou tudo sobre o

Rudy Scherz, pois não, Myrna?

Sim... Contei-lhe tudo.

Contei-lhe...

... praticamente tudo.

Quero saber o resto.

A minha mãe disse-me...

... que seria considerada cúmplice.

- Sabe o que isso significa? - Soa-me a algo terrível.

Estou certo que a sua mãe se enganou. O que aconteceu?

Bom...

... na noite em que o Rudy morreu,

éramos para ir ao cinema e quando me disse que não íamos,

fiquei bastante zangada, pois tinha ido arranjar o cabelo

e disse-lhe que não gostava de ser tratada assim por um estrangeiro.

Ele ficou zangado e mostrou-me aquele anúncio do jornal.

- O que anunciava o assassínio? - Disse que era uma partida inglesa.

Estava sempre a falar das partidas inglesas parvas.

O que disse ele que ia fazer?

Disse que ia encenar um assalto,

fingir que era um gangster e assustar toda a gente.

- E porquê? - Porque tinha sido pago para isso!

Disse que ia receber muito dinheiro e que me compraria... um relógio.

Pagaram-lhe para colocar o anúncio no jornal e para fazer o assalto?

- Quem? - Não me disse.

- Tem a certeza? - Claro. Certeza absoluta.

Se soubesse que não seria acusada de cumplicidade, tê-lo-ia dito antes.

- Sabia que ele tinha uma arma? - Se soubesse, nunca sairia com ele.

Além disso, não acredito que tivesse uma arma.

Disse-me que era uma partida inglesa

e que ia gozar com as caras de parvo dos ingleses.

Se soubesse que ia ser alvejado, nunca o teria feito, não acha?

la ser muito divertido, disse ele.

Mas não teve piada nenhuma...

Inspector Craddock. Conseguiu alguma coisa da Myrna?

Tinha razão, Miss Marple. Não me tinha contado tudo.

Bem me pareceu...

Alguém pagou ao Rudy Scherz para colocar o anúncio e fazer o assalto.

- E não tem ideia de quem foi? - Nenhuma.

Vou ficar em Chipping Cleghorn durante uns dias, Inspector.

Não deve haver nada que possa fazer,

mas se precisar de mim, estarei em casa do pároco.

Em casa do pároco?

A Mrs.Harmon, a esposa do pároco, é minha sobrinha afastada.

Tomei a liberdade de me fazer convidada.

Talvez nos voltemos a encontrar em Chipping Cleghorn.

É o que parece...

Adivinha.

Querem consagrar-me Arcebispo de Canterbury?

Não estás muito longe... A tia Jane vem passar uns dias connosco.

- Melhor ainda. - Sabia que ias ficar satisfeito.

- A tia Jane vem passar uns dias? - Foi o que acabei de dizer...

Um homem morre em circunstâncias duvidosas

e, de repente, a tia Jane vem passar uns dias?

Sim. Também reparei nisso.

Quer dizer que, quem pagou ao Rudy Scherz,

deve ser a mesma pessoa que tentou matar a Miss Blacklock?

É possível. Ele, ou ela,

podia ter estado atrás do Scherz, disparado os tiros e largado a arma.

- ''Ele ou ela''? - Temos de manter uma mente aberta.

Refere-se àquela refugiada que trabalha na casa?

É uma tonta.

Não, não me refiro à criada, mas a termos uma mente aberta.

Parece óbvio que o Scherz não era um assassino

e não há provas de que a arma lhe pertencia.

Era uma pistola automática alemã.

E desde a guerra que há imensas dessas por aí.

Qualquer pessoa que combateu na guerra, tem uma como lembrança.

Laura, querida!

- Não encontro a minha arma. - Não precisas dela hoje, pois não?

A questão não é essa.

- Não sabes mesmo dela? - Foi exactamente isso que disse.

Meu Deus!

Devia estar aqui dentro.

- Quando a viste pela última vez? - Só Deus sabe... Há meses.

- Lembro-me de a ver no sábado. - No sábado? Tens a certeza?

Absoluta.

Estavas a resmungar por causa dos colarinhos...

Eu nunca resmungo, querida.

Estavas a resmungar e lembro-me de a ver nesta gaveta.

Foi no dia a seguir ao incidente em Little Paddocks

e lembro-me de pensar que, pelo menos não tinha usado a tua arma.

A não ser que a tenha levado, utilizado e devolvido.

E roubava-a de novo? Seria complicado, visto estar morto.

Bem observado. Não vale a pena incomodar a Polícia com isto.

É uma lembrança da guerra. Nem sequer tinha balas.

Nem licença. Bico calado.

- Tu és a minha lembrança da guerra. - Tenho de ir escrever umas cartas...

A história que o Rudy Scherz lhe contou, era mentira.

Não era filho do proprietário do ''Hotel des Alpes'', em Montreal.

Por isso não o reconheci... Mas quem era ele?

Teve vários empregos. Trabalhou no hospital de Berne,

foi empregado de mesa e empregado de balcão...

Onde quer que estivesse, desapareciam coisas.

- Era um larápio insignificante? - Exactamente.

A Polícia suíça estava farta dele, por isso decidiu vir para Inglaterra.

Era mais uma pessoa deslocada, com um passado muito bem inventado.

- Mas porque veio ter comigo? - Porque quereria matar a Letty?

Ele não queria matá-la, Miss Blacklock.

Pareceu que sim. Entrou aqui com uma arma e...

- Foi pago para fazê-lo. - Pago?

Há outra pessoa que me quer matar?

É isso que está a insinuar?

- Tudo indica que sim. - Ninguém pode querer matar a Letty!

Veja se entende, Inspector.

Não tenho Rembrandts escondidos, não tenho inimigos

e não tenho segredos, nem meus, nem de ninguém.

- A sua empregada está em casa? - A Hannah está na cozinha.

Por ser estrangeira, é automaticamente suspeita?

Não, não é isso...

É muito trabalhadora e tem os documentos em dia.

O mesmo acontecia com o Rudy Scherz.

O falecido Rudy Scherz.

- Estou a perder a paciência. - Ele só quer proteger-te, Letty.

Proteger-me? Sou perfeitamente capaz de tomar conta de mim.

- Mas não vês que... - Não vejo o quê?

Se pagaram àquele jovem para te matar

e não conseguiu,

podem voltar a tentar.

Sim, peço desculpa.

Não estou muito alerta, pois não?

É normal. Passaste um mau bocado.

Seja como for,

acho que devias contar tudo ao Inspector Craddock.

O que interessa o que digo? Sou uma simples refugiada.

Se disser a coisa errada, mandam-me para casa.

A não ser que me mandem para a prisão.

Além disso, não devia falar comigo,

mas com aquela inglesa simpática.

- Qual inglesa simpática? - A Mrs.Haymes.

Porque haveria de falar com ela?

Quando o jovem veio pedir dinheiro à Miss Blacklock...

- ... está a par disso? - Sim, a Miss Blacklock contou-me.

Vi-o partir.

Ele parou na estufa, para conversar com a Mrs.Haymes.

Do que estariam a falar?

A planear roubar o dinheiro, talvez.

A Miss Blacklock não é rica.

É mais rica do que eu. E do que a Mrs.Haymes.

A Mrs.Haymes é muito simpática, viúva e com pouco dinheiro.

Tem o filho a estudar e trabalha como jardineira.

Não é trabalho para uma senhora fina.

Dá-me licença? Preciso de ficar sozinha.

Tenho de preparar um molho muito complicado.

Essa porta não abre, Inspector.

Antigamente, eram duas salas. A mesa costumava estar ali.

- E quando foi mudada? - Há cerca de duas semanas.

Por causa das flores.

A Phillipa - a Mrs.Haymes - fez um arranjo enorme,

cheio de ramos e paus,

mas prendia o cabelo das pessoas, por isso mudámos a mesa de sítio.

- A porta está selada? - Não, apenas trancada.

Tem a chave?

Acho que está aqui... Aqui está.

Cuidado, pode haver algo do outro lado!

Foi utilizada recentemente.

As dobradiças foram oleadas.

Não me diga!

- O que significa... - Que precisa de lavar as mãos?

''O que significa''... ?

Quando o Scherz esteve cá,

alguém podia ter utilizado esta outra porta

e disparado contra si, Miss Blacklock.

Está a insinuar

que um dos meus simpáticos vizinhos

utilizou esta porta e tentou matar-me?

Quem é o seu principal suspeito? A mulher do pároco?

Temos de ser directos, Miss Blacklock.

Quem beneficia com a sua morte?

O Patrick e a Julia.

E a Bunny recebe algum dinheiro e toda a mobília da casa.

Não fazia a mínima ideia!

- Obrigada, Letty. - Não é coisa que se comente...

Mas continuo a achar que devias contar ao Inspector.

Eu sei, Bunny e vou fazê-lo!

Gostaríamos de tomar um chá, se não te importas...

Peço desculpa. Vou tratar disso.

O que quer ela que me conte?

Por enquanto, não vale a pena matar-me...

- ... mas daqui a umas semanas, sim. - Como assim?

Vou ser uma mulher muito rica.

Sente-se, por favor.

O nome Randall Goedler diz-lhe algo?

Talvez não, foi há demasiado tempo.

Era um financiador. Morreu antes da guerra.

Sim, em 1938.

Até à data da morte dele, fui sua secretária.

Era praticamente sócia dele.

Quando morreu, deixou tudo à mulher, a Belle,

mas se ela morresse antes de mim, eu herdaria...

Muito dinheiro.

O Randall Goedler era milionário. Muito dinheiro, sim.

Disse que em breve seria rica.

- A Mrs.Goedler está a morrer? - Sim.

Pode parecer-lhe insensível, mas tenho de ser directa.

A Belle Goedler é

uma senhora muito querida... e muito doente.

Escrevemo-nos todos os Natais

e a enfermeira dela mantêm-me informada sobre o estado de saúde.

Julgo que é apenas uma questão de semanas.

- Onde vive a Mrs.Goedler? - Na Escócia.

Talvez me pudesse facultar o endereço dela.

Voltando um pouco atrás...

... o Patrick e a Julia são quem beneficia com a sua morte.

Mas o que acontece se falecer antes da Mrs.Goedler?

A Belle e o Randall não tinham filhos,

por isso, nomeou como herdeiros os filhos da sua irmã Sonia.

E quem são eles?

Não se ria, Inspector, mas só os conheço por Pip e Emma.

Pip e Emma?

- Quem são e onde se encontram? - Ninguém sabe.

Sonia, a irmã do Goedler, casou com um vigarista grego

chamado Stamfordis e perderam o contacto com o casal Goedler.

Só se sabe que tiveram dois filhos, nascidos no início dos anos 20.

- Pelo que hoje terão... - 25, 26 anos.

A mesma idade do Patrick e da Julia?

Será possível?

A Miss Blacklock nunca os viu e a Mrs.Goedler também não,

portanto é possível. Há muita coisa para investigar.

- Onde vamos? - De volta para a esquadra.

Não vamos, não. Quero falar com a Mrs.Haymes,

para saber o que estava a fazer na estufa.

Não me importo de assinar uma declaração, se isso me ajudar.

Quanto a Rudy Scherz, o falecido... Disse-me que não o conhecia.

Alguma vez conversou com ele na estufa de Little Paddocks?

Na estufa?

Que absurdo. Quem lhe disse tal coisa?

Alguém me disse que tinha sido vista a falar com ele.

Deve ter sido a Hannah.

Ela está a mentir. Nunca conheci o Rudy Scherz.

E nunca o poderia ter visto, pois passo o dia inteiro aqui.

Obrigado, Mrs.Haymes.

Bom dia, Coronel.

- Bom dia, Inspector. - Levantou-se cedo.

Já é um hábito. Estou a vigiar o perímetro defensivo.

- Soube que tem uma arma alemã. - Sim, mas não é oficial.

É uma lembrança da guerra. - Posso vê-Ia? Oficialmente?

Para dizer a verdade, Inspector, o raio da coisa desapareceu.

Estou a ver... Quando?

A minha mulher diz que a viu na gaveta, no passado sábado.

Quer dizer que desapareceu após o assassínio?

Segundo a minha esposa, sim.

Estou a ver...

Vou então deixá-lo a vigiar o perímetro defensivo.

As aldeias inglesas mudaram muito após a guerra.

Talvez porque o mundo inteiro esteja diferente.

Uma aldeia como Chipping Cleghorn, por exemplo...

... pode parecer igual às outras, simples e pacata, mas não é.

Antigamente, toda a gente se conhecia

e se aparecesse alguém de fora, trazia uma carta de apresentação.

Ou tinham estado no mesmo regimento,

ou no mesmo barco de alguém que vivia na aldeia.

- E isso já não acontece? - De maneira nenhuma.

As casas grandes são vendidas, os chalés são remodelados

e aparecem pessoas de todo o lado.

Da Índia, de Hong Kong, da Itália...

Com dinheiro de parte para a reforma.

Não há cartas de apresentação, nem há raízes.

Temos de acreditar e confiar nas histórias delas.

Nos seus livros de mantimentos e nos bilhetes de identidade.

Dá para acreditar que isso existe?

Que coisas horrorosas. Desumanas.

Quer dizer que o Patrick e a Julia podem ser o Pip e a Emma?

Muito possivelmente.

Mas parecem-me pessoas divertidas e nada dadas a assassínios.

Vou tentar descobrir qualquer coisa.

- Tenha cuidado, sim? - Com certeza.

Um polícia a fazer perguntas levanta suspeitas...

Mas uma velhinha a fazer perguntas é só uma velhinha a fazer perguntas.

- Quem é a velhota? - É tia da Mrs.Harmon.

Posso ir para o meu quarto e fingir estudar...

A Mrs.Harmon é divertida.

É melhor que os palermas da aldeia.

- Queres que seja divertido? - Não, é melhor não.

Que horror... Chipping Cleghorn começa a parecer Chicago.

- Fiquei petrificada. - Foi uma experiência alarmante.

Parece justiça divina, o jovem ter-se alvejado a si próprio.

Hoje em dia, os assaltos são muito violentos.

Antigamente, possuíam uma certa delicadeza...

- A culpa é da guerra. Não acha? - E da valsa de Viena.

- Sem dúvida. - Sim...

Aquela é a porta por onde ele entrou? - Exactamente.

- E havia buracos de balas... - Estão aqui, Miss Marple.

- Nunca vi nenhum. Posso? - Com certeza.

- É um milagre a Lotty não ter morrido. - Meu Deus.

- Mas ficou ferida, não ficou? - Já recuperou, Miss Blacklock?

Claro, foi apenas um arranhão. O penso é só para terem pena de mim.

Infelizmente...

... não resulta.

Estava aqui quando aconteceu?

Tinha ido buscar os cigarros, quando as luzes se apagaram.

- Que candeeiro tão bonito! - É um Dresden.

- A sério? - O par está na sala de estar.

A sério? Já nem me lembrava...

Gosto de coisas bonitas. E a senhora?

Sim, sem dúvida.

Não sou uma pessoa muito materialista.

- Gostas de coisas bonitas? - Prefiro coisas malandras.

Tenho poucas coisas, mas são muito estimadas.

Cada uma traz-me uma memória.

E quanto a fotografias...

As pessoas já não guardam fotografias. Eu tenho centenas.

De todos os meus sobrinhos, desde quando eram bebés até serem pais.

Tem uma minha, estrábica e com um Fox Terrier.

E apesar do que diz a vossa tia,

estou certa que tem centenas de fotografias guardadas.

Somos primos afastados.

Para dizer a verdade, Miss Marple,

só este ano soube da existência deles,

depois de receber uma carta da mãe deles,

a dizer que vinham estudar para esta zona.

E quando foi a última vez que viu a minha mãe?

Há cerca de 30 anos.

Lembro-me que era muito bonita. - Felizmente herdámos isso dela.

E não só. Tem toda a razão, Miss Marple,

a tia Letty tem fotografias giríssimas.

Vimo-las no outro dia.

- Não sou obcecada pelo passado. - Eu tenho mais passado que futuro.

Não seja tonta, tia Jane!

És casada com um pároco, deves ter consciência destas coisas.

Dão-nos uns anos para gozar e os meus estão a chegar ao fim.

- Fez de propósito, não foi? - O quê, minha querida?

Falou sobre fotografias.

Agora sei que a Miss Blacklock nunca tinha visto o Patrick e a Julia,

até terem aparecido à porta dela.

- E tocado à campainha? - Exactamente.

- Amanhã vou explorar a aldeia. - Não vai demorar muito. É pequena.

''Há mais coisas em Chipping Cleghorn, Horácio,

- do que em toda a tua filosofia''. - Parece que sim...

Não havia uma ponte com o nome dele?

- Bom dia, Phillipa. - Olá.

- O que está a fazer? - Não vê?

Não sou jardineiro. Parece estar a fazer furos na terra.

- Estou a plantar alfaces. - E muito bem, se quer que lhe diga.

- Não veio aqui fazer nada, Edmund. - Engana-se! Vim, sim!

A Mrs.Lucas telefonou à minha mãe,

ansiosa por trocar as abóboras dela,

por um pote de mel.

Temos abóboras com fartura.

Como vê, tenho um álibi. Não que seja um termo apropriado...

Não estou a tentar agrada-lhe. - Óptimo.

''Imperfeitamente perfeita, gelidamente normal,

esplendorosamente inexpressiva''... - Como?

Tenerson escreveu isso sobre a Maud mas, na realidade, é sobre si.

Esplendorosamente inexpressiva.

- Não é um grande elogio. - A intenção não era essa.

A intenção era fazê-la falar. O que sente?

- Não tem nada a ver com isso. - Tenho, sim.

Não percebe que estou pelo beicinho?

Não queria apaixonar-me por si,

só queria preocupar-me com a classe operária

e escrever um livro sobre as desgraças do mundo.

Depois apareceu você e nem sequer quer falar comigo.

- Estou a falar consigo agora. - Isto não é falar.

Fale-me sobre o que quiser. Sobre o seu marido.

Conhecemo-nos e casámos.

O Harry nasceu.

E o Ronald foi morto em Itália.

Gosto muito do Harry. E acho que ele também gosta de mim.

Case comigo, Phillipa.

Continua a trabalhar em jardinagem

e eu continuo a escrever o meu livro.

A minha mãe pode sustentar-nos.

Não vejo muito bem, mas sou muito honesto.

Não me parece.

Nesse caso, é melhor dizer-me onde estão as abóboras.

- Está a vigiar-nos, Sargento? - São ordens do Inspector Craddock.

Vamos dar um passeio até à aldeia.

A Hannah está de folga. A casa está vazia.

- Estou a ver. - Se não se importa...

- Quer que vigie a casa? - Sim, por favor.

- O Sargento podia tomar um chá. - Com certeza, Sargento.

A porta está aberta. Nunca trancamos nada. Vamos, Bunny.

Assustou-me, Sargento. Pensava que era outro ladrão!

Não, Mrs.Swettenham, sou só eu.

- Veio pela porta das traseiras? - Sim, está sempre aberta.

Trouxe alguns marmelos.

Pode dizer à Miss Blacklock? Vou deixá-los aqui.

Parece que todos entram à vontade.

Claro! Caso contrário, seria impossível vir deixar marmelos.

- Murgatroyd? - Sim, Hinch?

- Tenho andado a pensar... - Em quê?

Naquela pantomina da outra noite. Cheira-me a esturro.

- Segura nesta arma. - Isso é uma colher de jardineiro.

- Eu sei. Não temos armas, pois não? - De facto, não...

E nesta lanterna.

Vai lá para fora, volta a entrar,

acena a lanterna e a arma e diz: ''Mãos ao alto''.

Mas porquê?

Porque o que aconteceu é muito estranho

e quero descobrir porquê. - Vou tentar.

Mãos ao alto!

- A porta não fica aberta! - Exactamente! Cheira-me a esturro.

A porta em Little Paddocks é igual. A Letty Blacklock

comprou aquele enorme travão na loja da Elliot, lembraste?

Talvez o ladrão tenha usado isso, para manter a porta aberta.

É muito pouco provável, Murgatroyd!

Abria a porta, gritava ''mãos ao alto'' e dizia:

''Só um momento, enquanto coloco o travão na porta''?

É tudo muito estranho...

Dá-me a arma. Ter-te-ias alvejado a ti própria.

Foi o que lhe aconteceu, não foi?

Alguém deve ter segurado a porta.

E não sei se ele se alvejou a si mesmo...

Queres dizer...

... que alguém o alvejou?

Pela minha experiência, é a única alternativa possível.

- Tens experiência? - De crimes violentos? Imensa!

Hinchcliffe ''Duas Pistolas'', o terror de Kidderminster.

- Não acredito em ti. - Nem eu.

Mas se não fomos nós que matámos o rapaz, foi alguem como nós.

Miss Marple?

- Faca favor de se sentar. - Muito obrigada.

Estou sozinha.

O vento está tão frio...

Fico aflita do reumatismo.

O ano passado tive dores de ciática. Foi um horror.

- Quer um café e bolinhos? - Sim, por favor.

Para duas pessoas. Obrigada.

Estes bolos não parecem tão bons como os que comi em sua casa.

- Foram feitos pela Hannah. - A Hannah?

É a nossa cozinheira. É muito boa. Acho que é uma estrangeira suíça.

- Só tenho pena que grite tanto... - É sinal que está cheia de vida.

E a outra pessoa que mora lá? A jovem que não cheguei a ver.

É a Phillipa. Chamamos-lhe ''a nossa hóspede''.

De certa maneira, é-o.

- Phillipa...? - Haymes.

Conheci um Coronel Haymes, da cavalaria indiana.

Seria pai dela?

Ela era casada com um Haymes. Agora é viúva.

O marido foi morto na Sicília, ou na Itália.

Que pena... Aqui estão os bolinhos.

- Posso servi-la? - Se faz favor.

Café...

- São muito cor-de-rosa, não são? - Deve ser um corante.

Obrigada.

E ela tem muitos admiradores?

Aquela empregada? Duvido, é demasiado carrancuda.

Refiro-me à Mrs.Haymes.

O jovem Edmund Swettenham anda sempre atrás dela.

É um rapaz muito estranho.

É escritor e ouvi dizer que é... comunista.

Deve sentir-se muito sozinho, em Chipping Cleghorn.

Dizem que é uma fase. Acredita nisso?

- Sim, sim. Acho que sim. - Ainda bem.

Conhece a Miss Blacklock há muito tempo?

Andámos juntas na escola.

Depois perdemos o contacto.

Ela era secretária do milionário Goedler e...

Não procedi mal, pois não, Miss Marple?

Não faço ideia a que se refere, Miss Bunner.

Vivia sozinha num quarto, com a minha pensão

e vi o nome da Letty no jornal.

Tinha ido a um almoço de caridade,

a favor do hospital de Milchester e decidi escrever-lhe.

Não foi uma carta a pedinchar.. - Estou certa que não.

Escreveu uma carta amigável a uma colega de escola e encontraram-se.

Ambas se sentiam sozinhas e convidou-a a viver com ela.

A senhora compreende.

Compreendo tudo sobre senhoras de idade solitárias.

É muito agradável conversar consigo, Miss Marple.

Fico tão zangada quando vejo pessoas a aproveitarem-se da Letty

e espero que eu não seja como elas.

Ela vai deixar-me dinheiro e as mobílias da casa,

mas foi tudo ideia dela. Juro que não me aproveitei dela.

Tenho a certeza que não. Não.

Mas há pessoas que se aproveitam?

O jovem...

... Patrick.

Que eu saiba, já lhe pediu dinheiro duas vezes.

E a Letty desculpa-o, dizendo que os jovens devem gozar a vida.

Isso é verdade.

É atraente e um tanto insolente, mas por outro lado...

Vi-o com uma lata de óleo. No jardim.

A sério?

E a porta que estava trancada, foi oleada.

E, no outro dia, ouviu-o a discutir com a Julia.

Isso faz parte da natureza humana. Os irmãos discutem...

Pastores e pastoras...

- Como disse? - O candeeiro da mesa.

Reparei que era o da pastora...

... e não o do pastor...

Café e coscuvilhices, Bunny? Bom dia, Miss Marple.

Bom dia. Sente-se connosco.

Obrigada, mas estamos atrasadas. Já fizeste as compras, Bunny?

Tenho de ir à farmácia.

Preciso de aspirinas e de pensos para os joanetes.

Vou pagar a conta. - De maneira nenhuma...

- Obrigada. - Vamos embora. Adeus, Miss Marple.

- Adeus. - Com licença...

- Vamos, Bunny. - Adeus, Miss Bunner.

A Miss Marple é muito simpática. E muito boa ouvinte.

Não lhe deves ter dado hipótese de escolha, Bunny.

- Não, esse, não. - Não?

Já provei e sabe a salmão.

- Nesse caso, só quero café. - E mais seguro.

- De que estavam a falar? - De lealdade na família.

- Parece-me um pouco entediante. - Não, foi até bastante elucidativo.

Maior parte das pessoas pensa que se mata por ódio,

mas pode ser por lealdade. Ou amor.

Por amor?

Diz-me novamente quem estava na sala.

A Miss Blacklock, o Rudy Scherz...

A querida Dora e o atraente Patrick.

A Mrs.Swettenham dos potes de mel e o seu filho carrancudo...

O pukka sahib Coronel Easterbrook e a espampanante Mrs.Easterbrook.

Não esquecendo a serena e distante Phillipa Haymes.

- E...? - Estou a esquecer-me de alguém?

- A Julia! - Exactamente. A Julia.

''A bonita Julia, tão estranha''...

São três e 60 e não sou esquisita, Mrs.Harmon.

Peço desculpa, referia-me a uma canção.

Não sabia que o seu nome era Julia. - Não se preocupe.

- Muito obrigada. - Muito obrigada, Miss Marple.

- E acreditamos no Pip e na Emma? - A Miss Blacklock diz que existem.

Mesmo sem nunca os ter visto, sem saber como são?

Mas são os únicos que beneficiam com a morte dela.

Não necessariamente.

Qualquer um deles pode ter casado e os pais podem estar vivos.

Pode haver muita gente interessada.

Portanto, a Polícia devia procurar...

Um homem ou mulher na casa dos 20,

ou alguém da minha idade.

Disse que podia ser alguém que matasse por amor.

Sim, mas por um amor muito especial.

Um profundo amor por grandes quantidades de dinheiro.

Excepto... - O quê?

A empregada pensava que estavas a falar dela...

Foi apenas um engano.

Sim...

A Mrs.Goedler está ansiosa por recebê-lo, Inspector.

- A sério? Não é habitual... - Ela recebe muito poucas visitas.

- Tenho uma pergunta a fazer-lhe. - Calculo o que seja.

- E então? - Ela está a morrer.

Sobrevive à base de medicamentos e da sua força de vontade,

mas não durará mais do que algumas semanas.

E a minha querida Miss Blacklock não ficou ferida?

- Sofreu um raspão na orelha. - Pobre Blacky...

- Conhece o passado dela? - Não.

- É relevante para a investigação? - Não faço ideia.

Vou começar a falar

e quando estiver entediado, diga-me. Combinado?

Combinado.

Eram duas irmãs. O pai era médico e um tirano.

A Letty aborreceu-se e fugiu para Londres,

tendo ido trabalhar como contabilista.

Charlotte, a outra irmã, era muito doente.

Quando o pai delas morreu,

a Blacky deixou a firma para ir tomar conta da irmã.

O Randall ficou furioso e gritou imenso com ela,

mas ela estava determinada. E levou a irmã para a Suíça.

- Fale-me sobre a sua cunhada. - A Sonia?

Era muito irreflectida.

Eu gostava dela, mas perdemos o contacto.

Casou com um tal de Stamfordis, um verdadeiro vigarista.

O senhor teria gostado de o prender.

O Randall não concordou com o casamento,

mas a Sonia não quis saber.

Recebemos uma carta dela, 18 meses após o casamento,

a dizer que tinha tido gémeos.

Tinham nascido depois do meio-dia,

por isso decidira chamar-lhes Pip e Emma.

Nunca mais pensámos neles, o que é terrível de se dizer.

Mas o Mr.Goedler deixou-lhes tudo,

caso a Miss Blacklock falecesse antes da senhora?

Os advogados chatearam-no imenso.

Ele disse-lhes que a Blacky era forte como um touro

e que eu era muito delicada, mas eles insistiram.

Os advogados são assim.

Levam a vida e a morte muito a sério.

E não faz ideia onde possam estar.

Os seus cunhados e os filhos.

Podem ter morrido. Podem estar em qualquer lado.

Podem estar em... Chipping Cleghorn.

É verdade.

Não os deixe fazer mal à Blacky. Ela é demasiado boa pessoa.

Sandes de sardinha e tomate e aqueles scones que fazes tão bem.

E quero aquele teu bolo especial. - O meu bolo?

Vai dar alguma festa?

É o aniversário da Miss Bunner e temos alguns convidados.

Festas de aniversário, na idade dela? Seria preferível esquecer.

Ela não quer esquecer, quer um bolo. Quero que tenha um bolo.

Não tenho ingredientes para fazer o bolo.

Preciso de manteiga, açúcar, chocolate e passas de uva...

Manteiga. Açúcar.

Chocolate. E passas de uva.

- Onde arranjou tudo isto? - Não é da tua conta, Hannah.

Muito bem. Farei um bolo.

Com cobertura.

- E vou escrever ''Felicidades''. - Obrigada, Hannah.

Vou mostrar aos seus amigos ingleses, o que é um bolo.

Os bolos ingleses sabem a areia.

- Este bolo vai ter um sabor divinal! - Tenho a certeza que sim.

Mas diga ao Mr.Patrick para não lhe chamar nomes!

Ele nunca lhe chamaria nomes.

Da última vez, chamou-lhe ''Morte Deliciosa''.

- Mas isso é um elogio! - A morte é um elogio?

- ''Morte Deliciosa''. - A Hannah não gosta que diga isso.

- Ela não gosta de nada que eu faça. - Tem óptimo aspecto.

Os estrangeiros fazem bolos tão bons...

Mas quando se trata dum pudim cozido, ficam aparvalhados.

Jardineiro novo, Miss Blacklock? Vi um tipo perto da estufa.

Não, é o nosso detective.

- Um detective? Mas porquê? - Para proteger a Letty.

- Isso ainda não terminou? - Adiaram o inquérito.

- A Polícia não está satisfeita. - Nunca está.

- Acho que somos todos suspeitos. - Suspeitos de quê?

Diria que somos suspeitos de preguiça premeditada.

Que engraçado... Premeditação de quê?

De cometer um assassínio, à primeira oportunidade.

Por favor, Mr.Swettenham! Que horror!

Estou certa que ninguém quer matar a Letty.

- Não fiques assim. - Então, Bunny...

Normalmente sou eu que estrago a festa, com piadas de maus gosto.

Boa tarde, Mrs.Swettenham.

Mr.Swettenham, Sra. Easterbrook, Coronel...

Boa tarde.

Sargento Fletcher! Decidimos trazer-lhe um pouco de bolo.

Muito obrigado.

Os suspeitos já se foram. Vai continuar aqui?

Só mais dez minutos e depois fica cá um agente.

- Dormimos melhor convosco perto. - Óptimo.

- Gostou da festa? - Sim, mas estou com dor de cabeça.

- Foi excitação a mais. - Foi bolo a mais.

E aqueles chocolates... Onde os encontrou?

Desde que se infrinja a lei, é fácil.

Acho que vou tomar uma aspirina...

... e deitar-me um bocado.

- Quer que tranque os patos, tia? - Se o fizer como deve ser...

Não lhe prometo nada, mas vou tentar.

Basta certificar-se que o fecho está corrido.

- Eu sabia que havia um segredo... - Não se preocupe, eu trato disso.

Não sei onde coloquei as aspirinas.

Nesta casa não faltam aspirinas. Estão em todos os armários.

Tenho um frasco no quarto.

As minhas estão na mesa-de-cabeceira, Bunny.

Obrigada, Letty.

Os patos.

Basta...

- ''Correr bem o fecho, Julia''. - ''Correr bem o fecho, Patrick''.

Imagine que era o Pip e a Emma. O que faria?

Vinha para Inglaterra, sem dinheiro...

Se fosse dado a falcatruas, procurava os parentes ricos.

Sabia que o meu tio, o Randall Goedler, tinha deixado uma fortuna,

pelo que procurava a viúva dele, ficava a saber que estava viva

e que o único obstáculo entre mim e o dinheiro,

era a Miss Letitia Blacklock, de Chipping Cleghorn.

Portanto... - Assassinava a Miss Blacklock.

- Investigaram o Patrick e a Julia? - São exactamente quem dizem ser.

O Patrick tem um bom historial de guerra.

- O Fletcher tem andado ocupado. - Estou a ver que sim...

- Toma algo? - Se faz favor.

Ainda esperei que me oferecessem,

mas a Escócia parecia estar totalmente seca...

Facilita a concentração.

Bunny?

Phillipa! Phillipa!

Sim... Estou a ver. Não se vá embora, houve mais um.

A Dora Bunner! Mas que injustiça.

O guarda da aldeia estava de serviço. Mandou chamar o médico.

Falta fazer a autópsia, mas tudo indica que tenha sido envenenada.

Mas ela era uma inocente!

Os inocentes estão destinados a sofrer?

Muitas vezes, sim.

Apesar da inocência dela? Ou por causa da inocência dela?

1a.Exibição (1 Março 1985)

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