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Original subtitles

Está tudo bem?

Ontem foi um dia de merda e hoje passava bem sem esta visita.

Há dois anos que esperas por esta visita.

Música

Argumento

Produção

CÉZANNE E EU

Um filme de

Como estás?

Bem e tu?

Gorgonzola!

Pobretanas!

Bando de idiotas!

Não têm vergonha, seus cretinos?!

O que foi?

Que se passa aqui?

Desapareçam!

Paul.

Émile.

Obrigado.

É o exército em marcha contra os do sexto ano!

Foi o que tu fizeste!

Batistaing, Émileu... Émileu quê?

Zola.

Não é um nome francês. É italiano.

Ele é italiano, vem de Paris e é um pobre estrábico.

O teu pai trabalha na barragem? Porquê na barragem?

Como todos os italianos.

O meu pai morreu.

Caiu de lá de cima como os outros?

Era engenheiro. Morreu com uma doença nos pulmões.

O Paul mora aqui?

Procuras o Paul Cézanne?

Olha o italiano! Entra.

É da minha mãe. Para te agradecer...

Mas tu não és órfão?

Sim, mas só meio.

Olhem.

Quem será a primeira? Uma puta?

Uma virgem?

Uma viúva?

Renasci!

As cores! Os cheiros!

Odeio Paris!

Vocês não se lavam?

Olá, Chapéu Rosa.

Ele nem tentou dar-lhe um beijo.

Que romântico...

Até amanhã.

Voltamos ao mar, sim?

Até amanhã. Até amanhã.

Dei cabo de tudo, percebes?

És um poeta, o que importa se dás cabo do bacharelato?

Olá, inseparáveis.

Olá, Achille.

Despacha-te Paul, está na hora.

Espera por mim, Achille!

Onde vais? A casa do Gibert. Aulas nocturnas.

Gibert? Mas tu és péssimo a desenho!

Precisamente.

Apanhei quatro.

Para o jantar.

Aqui estão.

E então?

Disseste-lhes que te ias embora?

Está um frio de rachar,

trabalho como um escravo e tenho um salário miserável.

Tratam-me como um ingrato.

As docas não são para ti, Émile.

E o teu encontro com o senhor Hachette?

Pelo menos lá temos sol.

Não veio nenhuma carta?

Sentes a falta dele?

Ele sonha deixar Aix e eu sonho voltar para lá.

Que ironia.

Que idade tens, mamã?

Quase 40.

O teu pai diz-te:

"Morremos com génio, comemos com dinheiro.

"Não o oiças.

"Ganha coragem para lhe dizer:

"Não me tranques no teu Banco, estou a sufocar..."

etc, etc...

"O teu amigo Zola".

Nunca gostei daquele miserável.

Aquele moço que nem é francês!

Elisabeth, que má influência para Paul...

"Tive um sonho no outro dia.

"Tinha escrito um belo livro, um livro sublime

"que tu tinhas ilustrado

"com gravuras sublimes.

"Os nossos nomes brilhavam em letras de ouro

"e nesta fraternidade do génio

"passavam inseparáveis à posteridade."

É bonito, não é?

Estava na ribeira com o Batistin...

O que significa "fazer de árabe"?

É o meu amigo Émile em Paris.

Ele está a morrer de frio e de fome,

mas despe-se e pendura as roupas

para escrever poesia, enrola-se num cobertor

e senta-se no chão de pernas cruzadas.

Ele chama a isso "fazer de árabe".

Agora lês as minhas cartas?

A última é maravilhosa!

Vou dar em doido se ficar aqui... Ou alcoólico! Pior,

vou arruinar-vos as finanças!

Fui ver o senhor Gibert. Ele está de acordo comigo.

É um idiota! Pensa como um professor.

E achas que não pensam assim, em Paris?

Está frio.

Vi a tua pequena florista esta manhã.

Estava lá como sempre.

Já decidiste falar com ela?

Não é florista, faz arranjos de flores artificiais.

Que pena.

Já não há carvão, vou buscar mais.

Vais dar-me notícias dessa rapariga.

Lembraste? "É preciso pintar cenouras."

Cenouras?

Olha, ele está ali!

O Courbet que disse a um artista:

"Muito parecido. Conheces Cristo, tu?"

Vamos ser muitos. Boa noite. Tudo bem?

Tudo óptimo. Boa noite.

Tudo bem?

Conheces o Paul?

Acho que sim.

Já não estás na Suíça, Camille?

Não, vim ver os meus amigos.

É um bom motivo. O que vamos beber?

Um minuto de silêncio! Uma garrafa de quê?

Uma grande vitória! Qual?

Fomos todos recusados! Bravo!

Um novo encontro daqui a 10 anos. É tarde demais.

Sr. Pissaro.

Sim, eu trouxe isto.

É uma combinação à minha maneira: carmesim e vermelhão.

Padre Tanguy, está tudo bem? Senhor Renoir...

Francesco conheces o Padre Tanguy, o nosso misturador de cores?

Senhor Cézanne... Não! "Senhor" Cézanne é o meu pai.

Boa noite a todos. Boa noite, padre Tanguy.

É o mundo tal como ele é:

Violento, feio, cruel.

Devolveram o meu manuscrito, aterrorizei-os.

Todos os dias luto por esta cópia do Titien.

Merda, Francesco, procura!

Encontra alguma coisa nova! Sempre a copiar...

Eles compram as cópias dos quadros que estão no Louvre.

Como comemos?

É verdade, todos passámos por isto.

Até eu na época, copiei Titien e Ingres também...

Ingres!

Rabos em forma de vírgula,

carnes pálidas, pequenas flores no cabelo.

Mas é o rabo da burguesia que via Ingres,

uma pintura domingueira para fazer crer a estes infelizes que se alvitram.

Copiar Ingres...

E depois irrito-me.

O que é que ele te faz sentir?

Tu próprio dizes que Manet abre uma lacuna.

Vou esperar a minha namorada lá fora.

Então?

Camille, Achille,

Francesco, Auguste,

Emile. E o senhor Manet, um grande artista.

Uma água mentolada para a senhora.

Um artista muito grande.

Gabrielle.

É a florista de quem te falei.

Mas eu já não sou florista.

Não, perdão,

agora é lavadeira. E toca bandolim.

Costureira.

O senhor também é artista?

Eu... Eu sou...

Faço entregas numa editora de momento.

É um poeta. Dos bons, muito bons.

A Gabrielle posa?

Porque não?

Vamos, é a minha vez.

Solange, azeite não!

Gostaria de lá ter estado pelo teu pai.

Mas não pude deixar Paris, mesmo agora com o comboio...

É rápido, não é? Desta vez foram menos de 28 horas.

O velho não te suportava.

E vocês dois?

Nos últimos tempos como estavam?

Depois de tantos anos de hostilidade esperava um pouco de bondade.

Mas no final a indiferença dele foi suficiente.

Um dia ele disse-me "Casa com ela, filho".

No final de contas, as amantes velhas são melhores mulheres.

E sim. Ela acabou por me agarrar.

Estava na altura. Que idade tem o meu afilhado? Dez, onze?

Dezasseis.

Pois.

Está tudo em ordem.

Estão todas aliviadas.

A Hortense, a tua irmã, a tua mãe... A tua mulher.

A Alexandrine?

Bem,

receber uma mulher que vivia em pecado como uma burguesa...

Uma grande burguesa! Há anos que a Alexandrine consente...

Ela consente.

É isso mesmo.

Podemos por uma única vez evitar falar da tua relação com a Alexandrine?

Decididamente, a Alexandrine não me preenche.

Para mim será sempre a Gabrielle.

Eu só...

Estás aqui!

Cheiras sempre tão bem!

Parabéns!

A Hortense veio contigo?

Está a desfazer as malas.

Ficam alguns dias? Espero que sim.

Se me deres a honra de posar para mim outra vez...

Se jurares não me espetar selvaticamente no quadro...

Não posso prometer!

Radiante.

O hálito a alho...

Pelo menos sente-se o cheiro de Provence.

Mas estas piadas de mau gosto e esta arrogância!

O meu espartilho, por favor.

E o descaramento?

Entrar assim no teu escritório

quando sabe muito bem que tu não suportas ter lá ninguém...

Quanto tempo ficam desta vez?

Não sabes. E não lhe vais perguntar.

Estou a ler, Alexandrine, por favor...

Obrigada, minha querida.

Este coelho à caçador deu cabo de mim.

E depois o marisco...

Estou arrependida.

Espero que também tenhas provado, Jeanne?

Sim, senhora.

E este periquito que não pára de falar...

Está frio.

Anda, "meu querido lobo".

Eu aqueço-te.

Estou a provocá-lo com palavras da Nana.

Enerva-te?

Até amanhã, Jeanne.

Boa noite, Jeanne.

Ainda assim tens umas velharias podres.

Pode ser que seja uma vingança pelas nossas infâncias apodrecidas.

E aviso-te desde já que "velharias podres" são a minha fórmula.

O meu pai também lia os teus livros.

Que cúmulo!

"O teu amigo Zola". O idiota nunca te chamava Émile.

"Pelo menos ele foi bem sucedido."

E é verdade.

Sabes o que queres, sempre soubeste. E tens o que é preciso.

Cala-te, Paul.

Sucesso, uma bela casa.

Sempre vão aumentar a casa?

Não.

Ficamos assim.

Não, os meus diabetes...

Há algo que me confunde sempre.

Tu que escreves sempre coisas tão modernas.

Não te sentes oprimido por todas estas velharias?

Pelo contrário, elas tranquilizam-me.

Adoro procurar antiguidades com a Alexandrine.

É como fazer uma caça ao tesouro.

E quadros? Não penduras mais quadros?

Recuperámos as cortinas e também ainda não tivemos tempo de os voltar pôr.

Bem, ainda há o pequeno quadro de Manet no corredor.

Bem.

Vais começar outra vez? Não.

Ele está aqui, mas...

Perto das latrinas consola-me mais.

Isto é da Rua Soufflot?

Guardaste-o.

Isso consola-te em relação a quê?

O que é isto?

Agradeço ao autor dos Rougon-Macquart e peço

que me permita apertar-lhe a mão em memória do passado.

Desde quando é que me apertas a mão?

Desde quando é que me falas na terceira pessoa?

O início...

Qual início? O início da carta.

"Meu Caro Émile, acabei de receber a Obra..."

A começar pelo título: a Obra. Não quer dizer nada. A Obra.

"Acabei de receber a Obra que tu me quiseste dirigir.

"Agradeço ao autor dos Rougon-Macquart."

A carta é muito simpática.

A nossa amizade é uma memória?

Os teus "Respeitos à Sra. Zola"?

Que estilo é este? Estás a gozar comigo?

Deixa estar, não me incomoda.

Desta vez

tens a vida facilitada, não é?

Não há necessidade de ir até à mina,

ou enviar os teus amigos para um bordel

para o teu pequeno dossier preparatório.

Não! Memórias, ajudam!

O meu velho amigo Paul ajuda!

As tuas fraquezas, as tuas angústias, a tua impotência.

Vais-me pagar pelos direitos de autor, espero?

Mas, Paul, uma personagem não é "Ele sou eu, o outro é ele".

Uma personagem são histórias ouvidas, histórias esquecidas, livros,

memórias, de acordo, notas...

Gostaria de ver eu mesmo esse dossier.

Porque tenho a certeza de que verei o meu nome em todas as páginas!

A escrita não é a verdade Paul!

Um romance não é a verdade.

É coragem a cada página de um romance!

Sim, a coragem de pisar os outros?

Parecia que me estava a ver num espelho deformado.

Quem é este monstro? Sou eu?

Sim, sou eu!

Diz-me, então, a minha cara feia nos teus retratos irritou-te?

Destruí-os todos.

Não é nada de que te possas orgulhar! Ouve.

"Ele corria pelo campo, terras vermelhas carregadas de ferro

"onde galopavam cada vez mais.

"Um céu de chumbo, nem uma sombra,

"nada mais do que oliveiras anãs, amendoeiras em pequena folha,

"sempre com um livro de poesia no bolso.

"Depois do sexto ano, os 3 inseparáveis

"estavam apaixonados por longas caminhadas.

"Nesta província remota,

"no meio da estupidez sonolenta das pequenas cidades,

"o pintor, o escritor e o seu amigo

"viviam isolados, entusiasmados,

"possuídos por uma febre de arte e de literatura.

"Hugo foi o primeiro a encantá-los.

"Depois Musset tocou-os com a sua paixão e as suas lágrimas.

"Uma raiva por se debaterem num buraco profundo

"onde a água se juntava,

"de passar lá os dias, nus a secar sobre a areia ardente.

"Com a infância fugidia os jovens homens voltaram à cidade

"pelos ardores perturbantes das noites de Julho. Mais tarde..."

Raios te partam... Que merda, és um grande sacana.

E uma vez mais escreves como um Deus benevolente.

E os teus diabetes?

Não quero saber.

Diz-me,

voltaste a ver a Chapéu Rosa?

Morreu no ano passado.

Pesava 100 quilos.

Nunca ousaste beijá-la.

Deitaste-te com ela?

Agora podes dizer-me.

Ela era fácil.

Toda a gente dormiu com ela.

Todos menos tu

que não sabias.

Achavas-me muito ingénuo.

Ainda te acontece aquilo?

De te excitares enquanto escreves?

Quem te disse isso?

Tu!

Paul!

Já está! Sou francês!

Bem-vindo à terra dos miseráveis.

O que estás a fazer? Merda.

Vou para Aix.

E o meu retrato?

Toma.

Trinta e duas sessões de pose...

Queres que eu as pague?

Pode-se dizer tudo do Paul, menos que ele é mesquinho.

Por causa das Belas Artes?

Esta puta velha cortou-nos os alimentos.

E sim, um fracasso. Para um pai abastado,

que decadência!

Não podes parar agora, Paul. Não é grave.

Nem sempre somos bem sucedidos.

Deixa de aparar os golpes!

E o meu, posso levá-lo?

Toma, agora podes.

Isso não é bonito.

Não é bonito?

Vai.

Ela está a chorar.

Sim, está a chorar.

Como-a muito depressa e pinto-a durante muito tempo.

Vai.

Vai-te lixar!

Vai-te chafurdar ao sol.

Podes ter até génio, só faltam as provas.

Mas para artista não tens coragem suficiente.

Toma! Toma as tuas 32 sessões de pose!

Eram só sonhos, sonhos de criança idiota.

Sim, é isso. Depois de 20 anos trais os teus sonhos de criança.

"Salão dos recusados.

"Numerosas reclamações foram recebidas no L'empereur

"relativamente às obras de arte recusadas pelo júri do salão oficial.

"Sua majestade quer deixar o público

"julgar a legitimidade destas reclamações."

Legitimidade o diabo!

Faz-me mal aos nervos aprovar uma decisão de Sua Majestade.

É a primeira no salão dos recusados? E certamente a última.

Também não quiseram aquele quadro teu de que eu gostei?

Cuspiram no meu quadro.

Auguste!

As coisas estão a aquecer lá dentro.

Conhecem o Basille? É de Montpellier.

Frédéric, vamos voltar com eles?

Aqueles do Salão têm muita garganta.

Parece um bordel, mas em plena floresta.

Vão apanhar uma pneumonia!

É porco.

Não tem contornos, o artista é míope.

A dama tem muito calor e o senhor tem medo de apanhar uma constipação.

É azul. As árvores, os seios...

Este Manet é um doido por azul.

Vamos, crianças. Isto não é para vocês.

Que bando de idiotas!

Encontrei o meu! Está ali...

Que vergonha! Nunca vi nada tão mau!

Sim senhor! Vemos isto no Louvre, por amor de Deus!

E se nunca viu uma mulher nua, então olhe, seu idiota!

Larguem-me!

Émile.

Paul.

Porque te foste embora assim? Éramos só nós. Não estava tudo bem?

E a caldeirada? Fizemos para ti.

Havia muita gente e não era o meu mundo.

Ouve...

A Gabrielle... Queria ter-te contado da última vez em Aix,

mas não sabia se...

Se valia a pena?

Paul, vale a pena...

E o Manet não te enerva?

O que tem o Manet?

Toda nua na erva, é ela entre os tipos em casaco.

Não é ela.

E mesmo que fosse, eu também já posei nu para ti.

No entanto, o casaco é o meu.

De qualquer das formas, tu defende-los bem!

Corajoso, o teu artigo.

Arranjaste uma boa maneira de enaltecer esses merdas.

Estou sempre do lado perdedor. Somos dois, então...

Paul, tu mesmo me disseste que esta rapariga...

Nostálgico, doce, nobre, o teu artigo.

Obrigado. Mas não falas de mim.

O recusado do Salão dos Recusados, sou eu a vedeta, não?

Há dois mil recusados.

E como vês sinto-me mais recusado do que os outros.

Mas o escândalo hoje é Manet.

Aceitaram-no, agora vão esfregá-lo na lama!

Hoje é preciso focarmo-nos neste escândalo. Pode ajudar-nos! A todos!

Quem me dera que me esfregassem na mesma lama.

Estás a defendê-lo! Luta! Tu... Dizes a todos que adoras o quadro!

Quando ele parar de copiar os espanhóis...

Sim, isso faz-te muito bem...

Ouve, Paul.

Esta rapariga para ti foi só mais uma no meio de muitas...

Para mim...

Pela primeira vez eu...

Não tenho medo.

Sinto-me tranquilo. Ela acalma-me.

Ela também te excita, espero eu.

A Chapéu Rosa, a Berthe, nada disso teve importância.

Mas Gabrielle, é quem eu sempre esperei...

Seja como for, obrigada pela tua dedicatória.

Aos meus amigos Paul Cézanne e Batistin Baille.

Não, a sério. Estive à beira das lágrimas.

Paul, tens de nos perdoar. Por mim. Por ela. Em nome da nossa amizade.

Por amor perdoamos uma traição.

Já por amizade é mais difícil.

Vais onde? Para Aix.

Como sempre...

"Meu caro Paul,

"É só para ti que escrevo estas páginas.

"Sei que as vais ler com o coração

"e que amanhã vais gostar um pouco mais de mim.

"Paris não fez nada pela nossa amizade.

"Talvez precise do sol de Provença para sobreviver.

"Por vezes dizes-me que atiras os pincéis ao tecto

"quando a forma não acompanha a tua ideia.

"Como tu dizes, se eu estivesse perto de ti tentaria consolar-te.

Também deixo a caneta cair das mãos quando o desencorajamento surge.

"Não sou o teu génio mau.

"Não tenho o desejo de te ver mal por culpa da tua arte e devaneio.

"Tive medo de te perder em várias ocasiões,

"mas hoje parece-me impossível.

"Conhecemo-nos demasiado bem para nos separarmos.

"Como um náufrago se agarra à prancha flutuante

"eu agarro-me a ti, meu velho Paul.

"Secaste-me as lágrimas, ofereceste-me protecção, a mim

"que vivia como um pária e era gozado por todos.

"Felizes são aqueles que têm memórias!

"És toda a minha juventude, Paul.

"Encontro-te em cada uma das minhas alegrias,

"em cada uma das minhas tristezas.

"Lembraste dos tempos em que a vida era uma ilusão?

"Lembraste das noites tépidas de Provença?

"Imagina que estamos novamente perdidos naquele sítio perdido.

"E que somos os velhos amigos que se compreendem com um olhar.

"Ganha coragem.

"Pega de novo nos teus pincéis.

"Deixa o teu espírito errar, vaguear.

"Tenho fé em ti."

Salão Oficial, 1867

Empurrem! Estão à tua espera, Paul.

Nem merece uma moldura, é uma desgraça.

Não podem estar à espera dele mas... Sou uma desgraça.

Está bêbedo, ele está bêbedo.

Mas quem é este amador? Acho que se chama Cézame.

Cézanne!

Um olhar, uma palavra, por favor...

Não lhe aperto a mão, senhor Manet.

Não me lavo há oito dias!

Espere...

Um pouco sujo, não?

Vês? É quase tão bonito como a nossa terra!

Vamos, para a frota do Achille!

Então ela disse-me: "Para viver com o homem que amo

"tenho de viver com uma mulher que me odeia..."

Só 2 segundos, ele é simpático.

Meu pobre Paul, não é com isso que te aceitarão no Salão.

O Salão que se lixe.

Mais velha do que ele, sem um tostão, uma fraca,

ela vendia flores e nem sequer eram verdadeiras...

Já provaste o estufado de carne dela? Não se casa por um estufado.

Isso está complicado, não?

Morisot, dás-me um abraço?

Desculpem-nos, estivemos a beber.

Merda!

Não apanhem frio!

Vai ser a história de uma família.

Dez anos, dez volumes.

Uma história de família, depois de Balzac.

Não há trabalhadores em Balzac.

E depois?

Há quatro mundos.

O grande mundo, os reis, rainhas, nobres, ricos.

Depois tens os burgueses,

os comerciantes, os especuladores, os ambiciosos...

Esses eu conheço.

E depois tens o mundo à parte, as putas, os assassinos, os padres.

E depois, os trabalhadores.

Ninguém fala dos trabalhadores.

Estás-me a meter medo. Felizmente esqueceste-te dos artistas.

Que nome deste ao teu quadro?

Ao ar livre.

É muito utilizado, já não significa exterior.

E o Manet já fez...

Não me lixes com o Manet!

Ao ar livre significa exterior!

Significa sensações, emoções, merda! É isso que significa,

significa que estamos fartos de quadros pintados dentro de ateliers

onde o sol nunca entra!

Significa flores com cheiros, corpos com sexos, árvores ao vento!

É isso que significa, por Deus!

Pára, vais-nos fazer tombar.

"Satisfeito"...

Contigo nunca sei se tenho à minha frente

um cão, uma cobra ou uma borboleta.

Hoje tens uma carpa.

Tu renegas tudo neste livro, Émile.

As tuas origens, as tuas lutas, os teus impulsos.

Onde está a tua violência hoje em dia?

No fundo dos teus velhos vasos?

No jardim, enterrado debaixo dos ovos frescos!

Todos os burgueses que detestavas se tornaram teus amigos.

Não param nunca de me insultar.

Eles vomitam a minha literatura.

Sim, mas agora tu tornaste-te "neles". Aí tens.

Tornei-me burguês porque já não morro de fome?

Tornei-me burguês porque alguém ajuda a minha mulher a cozinhar?

Sim!

Já agora

quem era a bela moça com quem me cruzei, diz lá?

Tens de virar tudo para ti!

És o mais recusado dos recusados!

Só tu tens dúvidas

das tuas lágrimas, de ti, das tuas angústias...

És só tu que acordas de noite

para pintar com um pouco de vermelho aquilo que era azul!

Fica sabendo que também eu me levanto de noite,

também mudo uma palavra, uma vírgula!

Dou voltas e voltas na cama, acordo de manhã com medo

de ler aquilo que escrevi no dia anterior. E de descobrir que estava uma merda...

Também falas muito bem disso na Obra.

Realmente o título...

Reconheceste-me?

Não és a minha única fonte de inspiração.

E o "Almoço sobre a Erva" foste tu que o pintaste?

Página 239.

Quatro maçãs, uma garrafa, um copo de vinho num prato?

Quem será?

O Auguste, o Claude, o Édouard, a Camille, o bando de Batignolles...

Também os reconheceste?

Claro!

Falo de pintura, portanto falo só de ti!

Tu já não lês os meus livros. Tu julga-los.

Esta fórmula é tocante.

O seu amigo Pissarro tem razão.

Têm demasiadas sombras, estas roupas de cores chiques...

Agora, sempre que os meus pintores me pedem mais preto

eu digo-lhes que já não tenho mais!

É um favor que lhes faço.

Tome.

Assine aqui.

Acham todos que é moderno pintar de forma espessa.

Já o senhor Cézanne mantém o traço mais fino.

Pare com o "Senhor" Cézanne.

Estes são macios? São macios, são macios.

Aqui tem.

Mil e setecentos.

Obrigado.

Se tiver dificuldades, faremos como de costume. A propósito...

Tinha pedido vinte francos,

mas o senhor não tinha dinheiro suficiente.

Como ele adorava as suas maçãs

eu perguntei-lhe se ele queria que eu lhes cortasse algumas?

Fizemos negócio.

Tome.

É para si.

Obrigado.

E este ninguém quer mesmo.

Podes tirá-lo daqui? Hoje não.

O que é que estás aqui a fazer? Não estás em Marselha? E a peça?

Um desastre. Voltei para casa.

Como está, padre Tanguy? Bem, bom dia.

Jantamos juntos? Sim, viste?

Agora emolduro os meus quadros.

Boa noite, padre Tanguy. Adeus.

Espere! Veja isto...

Agora que trabalha na rua, isto vai mudar a sua vida.

Vá, tire!

Levo o azul, o vermelho e o amarelo. É suficiente.

Mas não levo o preto. Não, não.

Bom dia aos dois. Obrigado, padre Tanguy.

O que se passou?

Crítica, ódio!

"As mulheres do senhor Zola parecem as senhoras do senhor Manet

"com lama castanha e maquilhagem rosa."

A minha mãe, a Gabrielle, não aguento mais.

Os teus direitos de autor...

Não querem saber dos meus direitos de autor.

Depois, li a Comédia Humana e fiquei completamente desencorajado.

Felizmente tens o teu trabalho no Evénement. Isso ainda rende.

O Villemessant convocou-me esta manhã.

"O que escreves é muito engraçado, mas já chega!"

Dispensado.

As minhas supostas críticas, os meus últimos artigos,

as minhas posições radicais sobre todos...

Sobre mim não.

Dediquei-te o artigo!

Mas sobre o meu trabalho, nem uma palavra. Percebi.

És o meu melhor amigo, Paul. Sim!

E pode ser prejudicial para ti dizer algo de bom.

Eu defendo-te em qualquer ocasião.

Tratas toda a gente como merda. És desprezível e agressivo.

Não é assim que vais ter sucesso.

Essa palavra não. Pareces o meu pai. Essa palavra não.

Um dia vais admitir que sonhas ser aceite por esta porcaria de cúpula!

Eu não quero saber desta cúpula para nada!

Já tu... Eu assumo.

Paul, as Belas Artes...

a Academia, os museus, os coleccionadores.

Fascinar o teu pai, esfregar-lhe o teu "sucesso" na cara dele.

Sonhas com isso!

E o "sucesso", quer queiras, quer não, está lá.

Vai jantar sozinho.

Estás a aborrecer-me e eu estou cansado.

Espera por mim, raios! Sou eu que vou pagar o jantar...

Cuidado ao descer. Sim.

Ali está!

Paul!

Olha.

É bom estar aqui!

Estão bons, Srs. Zola?

Olá!

Perguntava-me se estarias aqui.

A viagem foi cansativa?

Sabes, Paris está a ferro e fogo.

O quarteirão está completamente demolido, há canhões e explosões.

Um pesadelo.

Bom dia. Bom dia.

Bom dia, Gabrielle.

Bem-vindos ao país dos ouriços do mar.

Obrigada por nos receber.

Esta é a Hortense.

Um beijo!

O paraíso depois do inferno.

É lindo.

É bom, não é? Delicioso, um regalo.

Deixaram de publicar os Rougons por causa da guerra.

Ainda bem, para a Curée nunca mais escrevi nada.

Não tenho cabeça para isso...

Não o conseguiram meter na prisão depois do artigo dele no Tribune.

Eu parto, se quiseres.

Fala de paz aos que querem a guerra, insulta o Imperador.

O meu filho é corajoso.

O Imperador saiu, não foi? Felizmente!

Paul, vais ver que o nosso reino vai chegar.

Isto é a República, percebes? Tudo vai mudar,

as mentalidades, tudo, vais ver.

Ainda há creme de anchovas?

Bem,

a guerra, a política...

Mas para quando é o casamento?

Do que estás a falar, Gabrielle?

Já não há creme de anchovas. Vou buscar mais.

É verdade, Alexandrine, por que te estás a intrometer?

Estávamos todos a falar, pensei que...

Mas é melhor ficar em silêncio, minha menina.

Ela vai pedir desculpas. De certeza que não.

Pára, mãe.

Tu amas essa rapariga?

Ela é capaz de posar durante horas sem se mexer.

E deixa-me em paz.

Ainda não nasceu a que me vai prender.

PARIS INSURGESE, Câmara cercada

Deixo-te as minhas mulheres.

Vou voltar.

O chamamento do tumulto.

Como sempre.

Ele já não me vem ver. Ele está cá? Em Paris?

Ele não para quieto,

sabes como ele é...

Depois de alguns meses, até alguns anos,

jogamos um pouco às escondidas.

Ele está cada vez mais selvagem.

Na cidade disseram-me:

"É assim, o vosso filho é pintor em Paris?"

Fiz um ar orgulhoso, mas...

Há talento. É preciso confiar nele.

Nos dias que correm, o pior dos medíocres agita a população.

Paul, nada!

Já vendeu algum quadro?

Não quer fazer concessões, não quer nenhum marchand, paralisa-o.

Não é um bom diplomata.

E depois há sempre o Salão.

Este ano com os seus amigos, Manet, Minet...

Monet.

Monet, o pequeno Renoir,

e o outro, o judeu?

Está a falar do Camille?

Camille Pissarro.

Até ele, todos aceites.

Senhor,

o Paul está desesperado.

Vive muito mal.

Já o ajudei um pouco, mas com um pouco de ajuda da sua parte...

Eu nunca teria apostado no teu futuro.

Bravo!

Já agora, eu deveria tratá-lo por "senhor".

O senhor sabe que eu também já fui maltratado.

E o teu último grande sucesso, vendeu quanto?

A Taberna? Sim, vendeu bem.

Diz-me, casaste?

Antes da guerra. O Paul foi minha testemunha.

E do lado dele, ele obstina-se.

Queria justamente falar-lhe de uma situação.

Émile! Acabaram de me avisar.

O que é?

O Paul deu-me um presente.

Mas disseram-me que iam gostar mais do que eu.

Um pêndulo!

É a minha casa em Batignolles.

É o meu tinteiro.

Um pêndulo sem agulha.

Símbolo da nossa amizade.

Da nossa amizade eterna.

É muito bonito.

Não é? É.

Vem,

vou-te mostrar a nossa horta...

Toma, para ele...

E o pequeno, continua bonito?

Vejo-o em segredo quando eles estão por aqui.

Mas tenho saudades dos bons tempos.

Já passaram.

O Paul endoideceu.

Não digas nada. Se ele soubesse era capaz de...

Ele já lhe dá tão pouco.

Ela...

O que achas dela?

Uma rapariga muito corajosa. A sério?

Poderia dizer-se que ela o prendeu.

Sim! Uma criança é para a vida.

E a Alexandrine?

Não, ainda não.

Ele escreveu-me.

"Queria conseguir pintar a fluidez do ar,

"o calor do sol,

"a violência dos rochedos."

Achas que ele algum dia vai conseguir?

Está à procura de si mesmo, mas com o tempo chegará lá, espero.

Por amor de Deus!

Merda...

Porra!

Está sempre a mudar!

O que é que está sempre a mudar? A tua pele!

Ontem era rosa, hoje estás cinzenta, completamente cinzenta...

As pernas continuam assim, mas os seios mudam.

Os... Não, não estão bem...

É isto, era o que eu pensava

há azul aqui, nas pequenas veias.

A curva que desce desde o ventre, uma sombra aqui...

É dourada?

Não, talvez carmesim...

Olha para mim!

Para mim!

Sou eu a tua mulher, Paul!

Aquela com quem já não fazes amor, que já não tocas!

E ela, ela é uma ladra!

Uma cabra!

Uma puta!

Fazes amor com ela, não comigo.

A mim, torturas-me.

Massacras-me todos os dias para que esta puta viva!

Mas é bonita, a tua amante!

Vá, deita-te com ela! Faz de conta que é um cadáver.

Ela é asquerosa!

Uma velha flor murcha, gasta, horrível.

E eu, Paul, sou velha?

Vai à merda! Eu estou viva.

Sou nova, sou bonita!

Não aguento mais esperar por um beijo, por uma carícia...

Envergonhas-me,

vês-me como uma morta.

Tenho vergonha quando os teus olhos brilham

porque pintaste um pouco mais de vermelho nas bochechas dela,

de dourado nos seus cabelos...

Isto chega-te?

Isto é que te excita.

Beija o quadro!

Chafurda-te nos teus quadros que tresandam

a cores, sempre as cores.

Vão sempre ser uma merda...

Pára, para...

Desculpa.

Paul, volta.

Volta para a verdadeira vida.

Pára de pintar. Queima os teus quadros!

Podemos partir, vamos tentar...

Mamã, por que estás a chorar?

Nunca pararei de pintar.

Morrerei a pintar.

A tua mãe teve um pesadelo. Sê gentil com ela, Paul.

Isto faz-me lembrar do período sacana, como ele diz...

Não prestes atenção à desarrumação.

Não posso varrer o chão porque estragava a pintura.

Obrigado.

Estou cansado.

A Alexandrine diz que não paro de escrever.

Tens tido sucesso.

O conforto...

E a Academia!

Não!

Doze recusas,

mas agora...

Se soubesses as horas terríveis que passo quando começo um romance.

E é pior quando o acabo, tenho vontade de rasgar tudo e recomeçar.

Para Paul.

Tu cresceste, estás forte.

Obrigada.

Voltarei no próximo mês.

Este auto-retrato é verdadeiramente...

Horrível, não é?

Não.

Olha bem para ele.

É o retrato de um homem sem carinho, sem amor.

Tem mais humanidade nas suas maçãs do que nos seus próprios olhos.

E ela, viste-a?

É assim que o homem que amo me vê.

Ele não ama ninguém.

Se te consola, ele também não se ama.

Paul!

Paul!

Émile!

Ele está a chegar!

Estás bem, linda?

Que bom verte.

Anda, vem.

Andas a alimentar-te bem.

Fizeste boa viagem? Sim, foi rápida.

Temos galinhas, coelhos, ovos frescos todas as manhãs.

E esta

é a vaca leiteira.

Está à espera do comboio Paris-Le Havre?

Agora és agricultor?

Em Paris há muito barulho e muita gente.

Trabalho muito melhor aqui.

Vais-nos escrever um romance sobre camponeses.

Está acabada.

O quê? A casa?

Sim, ainda não estava terminada quando cá vieste da última vez.

O Paris-Le Havre.

A cada 10 minutos.

Adoro isto.

Fica quieta como uma maçã, Gabrielle. Uma maçã não se mexe!

Achas que algum dia vais conseguir?

Se tu não parares de te mexer...

Alguma vez vais conseguir chamar-me Alexandrine?

"Gabrielle" está gravado na minha cabeça.

E não só na minha cabeça.

E o teu pai?

Resistente...

Falaste com ele?

Paul, tens de lhe dizer!

O pequeno tem o quê, 6 anos?

E a Hortense, como está a reagir? Não queres saber da Hortense.

Nem a vais visitar.

Achas que Alexandrine é um nome mais chique?

Pára de comer a minha natureza morta!

Cá está ele.

O céu está cinzento claro.

Doem-me as costas, estou em sofrimento.

Apetece-me tomar um banho.

Tu não? Cheiro mal?

Vais-te mudar?

Estás mal vestido e a tua barba mais parece um arbusto.

O que queres,

era uma mulher como tu que me fazia falta...

Não, estou a dizer disparates. És perfeita para o Émile.

Verdadeiramente perfeita.

Bonita, eficaz, música, discreta...

Principalmente com o teu passado.

Arranha-te a língua fazer elogios.

Tens de acabar sempre com um insulto.

É descabido o testemunho dos dias em que não havia pão.

Na altura em que tu ainda te chamavas Gabrielle...

Nessa altura estava apaixonada por ti.

A melhor coisa que me aconteceu na vida foi deixar de te amar.

Tu nunca farás uma mulher feliz, Paul.

A tua mulher...

Nem sequer é a tua mulher.

E os teus amigos,

por vezes adora-los, por vezes odeia-los.

A tua pintura

num dia é a melhor, no dia seguinte tu vomita-la.

Encheste com a minha comida mas quando te fores embora, vais dizer:

"Que merda a casa dos Zola, com o comboio que nos dá cabo da cabeça a cada 10 minutos."

Vamos atracar no cais!

Onde encontraram este barco? É uma prenda minha!

És doido, é um barco de cruzeiro!

O Guy apelidou-o de Nana.

Sim! Como toda a gente lhe quer pôr a mão em cima.

Bom dia, Émile.

O Paul está aqui, gostava de o ver. Quem é?

Cézanne, o meu amigo de infância, o nosso amigo de infância.

Finalmente, vais conhecê-lo.

Vê-lo com frequência? Agora está escondido.

A Hortense também está cá?

Desta vez não. Vão andando, já lá vou ter.

Estou a morrer de fome. Aqui vais comer muito bem.

Esta tarte de ruibarbo é divinal.

É ela que cozinha?

Sim, até quando não havia dinheiro em Batignolles, lembraste?

Então o Guy à minha direita,

o Auguste à minha esquerda,

a Angèle ao lado do Batistin,

não se separam os recém-casados.

A Camille ao lado do Auguste.

E o Paul ao lado da Émilie...

O Émile suplicou para eu o acompanhar a Chabanais.

Adoras isso!

Confesso, eu adoro bordéis e a ele aterrorizam.

Também confesso!

Para o meu dossier preparatório precisava de ir a um.

Sim.

Portanto fomos os dois a Chabanais.

E uma rapariga disse-lhe: "Conheço-te? Tens uma cara familiar!"

Na "Maison Tellier".

E o Émile, muito sério disse: "Não, a senhora está enganada."

Qual é o seu último livro? "Bola de Sebo".

Sempre o mesmo galã. "Acredite que me arrependeria."

Mas criámos memórias sagradas em Aix.

Não foi Batistin?

Degas pinta sempre bordéis muito ligeiros, muito felizes,

sempre achei isso sinistro. Serve para quê?

Para as putas! Tu não gostavas,

nós preferíamos as putas maternais, não era Batistin?

Estávamos na idade de mamar.

O Flaubert defendeu-te bem. O velho uma vez disse-me:

"Senhor, é preciso saber admirar aquilo que não gostamos."

Nada mal, não? Um dia usarei essa contra ti.

Que contador de histórias este Mérimée, não?

Sem a querer chocar, Angèle, prefiro o retrato de uma sociedade

que passa o tempo a correr, como diz Émile, aos contos de Mérimée.

Onde está a salada?

Não há mais.

Adoro a cena em que a Nana chicoteia o Muffat como se fosse um cão.

Batistin!

Havia um quadro do Frédéric na exposição, não havia?

Era uma pena se não houvesse lá. Quem é o Frédéric?

Tinha 28 anos, grande e forte, atingido em cheio no peito!

Frédéric Bazille, um do grupo.

Partilharam um atelier, não foi? Sim.

Se a guerra tivesse levado os imbecis em vez de ter lavado os bons...

Ainda bem que sobraram alguns imbecis, ou tu e a burguesita jantariam sozinhos.

Mais arroz de vitela antes de passarmos às aves?

Vendas excepcionais, certo?

Só no primeiro dia foram cinquenta mil! Desde aí tem vendido sem parar.

Que eles continuem a vender o seu pão com especiarias!

Pão com especiarias?

Sim, na Feira do trono, vendiam porcos feitos de pão de especiarias

e tinham escrito em açúcar os nomes "Zola" ou "Nana".

Que caricaturas horríveis!

Não é engraçado.

É sim, mamã! É engraçado, é a glória.

Quando penso em toda a situação de ver um porco nu

com uma folha de vinha tenho vontade de rir.

É horrível.

Ele tem razão, Émilie!

Cuspirem-nos em cima faz parte da vida!

Não há nada pior do que o silêncio.

E tu, Paul? Que vais apresentar no Salão este ano?

Um monte de merda.

Não tenho inveja de vocês artistas!

O que é para ti um artista?

Estar disposto a dormir toda a vida numa barraca por um minuto de aplauso,

e ainda...

Estás bem, mamã?

É preciso fechar os museus.

Transformá-los em estações.

Já ninguém vai ao Louvre e toda a gente viaja.

Nós ficámos quase uma hora em frente à Jangada da Medusa.

Possuir um quadro desses, pendurá-lo no quarto...

A mim irritar-me-ia

abrir os olhos para ver aquela merda de naufrágio em frente à minha cama!

Quando cheguei a Paris com o Paul passámos os dias inteiros no Louvre.

E o realismo de Géricault impressionava-te, Paul.

É verdade. Sobretudo o realismo do par de tomates ao ar que estava no quadro.

Cara Angèle, se a senhora tivesse a felicidade de possuir tal obra,

poderia comê-la todos os dias com o seu pequeno-almoço!

Paul, basta!

Está tudo bem Batistin,

vai antes limpar a mancha de arroz de vitela

que tens no teu lindo fato de merceeiro milionário...

Está bem, chega!

Desculpem.

É rica, a noiva?

Muito rica.

Que frio que estava na cama.

Se pelo menos tivesses bebido...

Não me deves convidar.

Por que te fechas?

Foges sempre, estás a tentar...

O meu "Triunfo da Mulher" foi inspirado na tua "Nana".

E tu claramente preferes a que fez o Manet.

Tu és tão dotado, Paul.

Mas por vezes as tuas personagens não exprimem nada.

E se eu, teu irmão, não te puder dizer.

Destruíste outra vez o retrato da Alexandrine?

Era demasiado parecido com ela.

Quando tu descreves a multidão

sentimo-nos transportados para ela,

quase conseguimos acariciar a pele da tua Nana,

conseguimos respirar o carvão do Germinal.

Gostava de pintar como tu escreves.

Sempre acreditei em ti.

Um dia verás,

e daí talvez não vejas...

Depois da Commune as pessoas têm medo, economizam.

Compram livros porque não valem mais do que três centavos.

Os quadros...

Eu venderia os meus de bom grado ao preço de um livro.

Anda, vem.

A sobremesa são farófias.

Consola a Gabrielle. Diz que eu me vou embora amanhã.

Conheço-o desde criança, nunca foi feliz.

Faz quadros monstruosos,

e aquela linguagem rude, faz de propósito!

Se não gostas de ovelhas de quatro patas esquece o Paul.

Ele é demasiado orgulhoso.

Orgulho, orgulho mal colocado...

Lembraste quando finalmente o aceitaram no Salão no ano passado?

Nem me fales disso.

Sim, conta-nos.

Depois de mil tentativas,

entre aspas, porque o Paul não gosta dessas expressões,

mas bom, é uma história para outra altura...

Enfim, escolhem um quadro dele, e fui ter com ele ao Salão.

Estava a olhar para uma tela horrível, uma composição história,

uma moldura monumental, um dilúvio de ninfas rosadas,

monges que bebiam até cair.

E ao fundo, minúsculo, o seu pequeno quadro.

Um crânio? Um ventre?

Era impossível de ver sem binóculos.

Fiquei desesperado por ele.

Temi que a minha presença o fosse humilhar ainda mais

e fui-me embora.

Partiu-me o coração.

Émile,

tens um coração meigo, todos o sabemos, mas peço desculpa,

o teu amigo é um falhado.

Eu mesmo vi o seu quadro, uma pintura pesada, estranha...

O pior é que depois ficou inacessível. Já na época...

Em Paris chegas a qualquer lado com ele e sabes que vais estar lixado.

E fazemos o quê?

Fechamos a porta aos amigos porque conhecemos os seus defeitos

ou abrimo-la a desconhecidos porque ainda não sabemos quais são os seus?

O Émile acredita em amizade eterna.

Eu acho que isso ainda é mais difícil do que amor eterno.

Quem quer tisana?

E esta brutalidade! Ele é sempre assim?

É a brutalidade dos tímidos. Por vezes o Émile...

Está a dizer disparates, Émilie.

O Paul é um bruto. O Émile é doce.

Só nos seus livros é brutal...

Assim que ele vira as costas ponho os quadros todos na arrecadação.

Aqui tens.

Camomila ou verbena do jardim?

Estou a sufocar, desata isto, por favor.

Tu também estás a sufocar?

Perdão.

Estavas aí?

Estás bem, mamã?

Estás a chorar?

Estou sensível neste momento...

Já lá vai quanto tempo?

Demasiado.

Dois anos?

Para onde foi o teu cabelo?

Para a tua grande barriga!

Já fizeste um testamento?

A minha mãe morreu, não tenho filhos, só tenho a Alexandrine.

Não gosto muito de notários.

Mas tenho 46 anos e tenho diabetes.

A minha irmã casou com um imbecil. Irritante até mais não.

O meu pobre pai está senil.

Vou proteger a minha mãe e o meu filho.

E a Hortense? Não somos casados.

Exactamente.

E já lá vão 15 anos.

A Hortense vive a vida dela...

E eu também vivo a minha.

Pinhões, queres?

São bons.

Chegou isto a Médan para ti.

As putas não escrevem. As virgens não são para a nossa idade.

É uma viúva?

Uma duquesa?

É uma empregada!

Não, guarda-a, por favor.

Estou a ser perseguido. Estão sempre a observar-me.

Assediam-me.

E dizes tu que ela vive a sua vida. Não, a minha mãe e a minha irmã!

Elas querem que eu case com a Hortense.

Elas odeiam-na!

Agora que há outra elas já a odeiam menos.

Portanto não é uma duquesa.

Há quanto tempo é que te deitas com esta mulher?

Deitar?

Beijei-a. Acariciei-lhe os seios.

Já não tens doze anos, Paul.

Sim. Já não sei o que faço.

Consegui voltar a pintar, é um milagre.

Vens ver?

Tenho o meu atelier em Jas agora.

Durmo lá muitas vezes, a luz...

Ela chama-se Fanny...

Alguma vez traíste a Gabrielle?

Perda de tempo. Tenho muito trabalho.

Com a Alexandrine sinto-me... Apaziguado, eu sei.

Engana-te a ti próprio.

Tu troças de mim mas tu também és novo no amor.

Tu economizaste-te durante toda a vida.

Tens enormes reservas no teu coração...

Não só no coração.

A Alexandrine é o meu pilar. Sem ela vacilaria.

Toma. O que achas disto?

Queres realmente a minha opinião?

Não sobre os desenhos, idiota. A outra parte, o texto.

"...Vi-te e permitiste-me beijar-te.

"A partir desse momento,

"uma preocupação profunda não parou de me agitar.

"Não seria melhor

"manifestar os meus sentimentos em vez de os esconder.

"Nana... permite-me exprimir-me...

"Senhora, as tristezas morais procuram um adocicamento

"na confissão feita a um ser adorado..."

Não vais enviar isto?

Não?

Queres que te rabisque uma, como tu dizes?

Farias isso?

Bem, sobre que é o teu livro?

Parece que escreves sobre artistas, isso inquieta-me.

Ainda é cedo para falar dele, estou com dificuldades.

"A sua palete encontrava-se a seus pés,

"numa mão segurava a vela e com a outra mão pintava.

"Tinha olhos de sonâmbulo,

"gestos precisos e rectos...

"Baixando-se a cada instante para ir buscar cores,

"erguia-se

"e nem um suspiro.

"Naquela divisão só havia uma imensa escuridão silenciosa...

"Quanto mais ansiava

"mais a incoerência aumentava.

"Um arrastar de tons pesados,

"um esforço espesso e fugidio no desenho.

"Ela recuou 3 passos.

"E num grande gesto ela tirou a camisa,

"encontrava-se desnuda, imóvel!

"Ela apontou para a cara no quadro.

"Acorda, abre os olhos e olha.

"É horroroso, lamentável, grotesco.

"Temos coxas em ouro e flores sobre o ventre?

"Podes comparar, eu sou mais jovem do que ela...

"Mais vale pores-lhe jóias na pele.

"Está desbotada como uma folha seca.

"Eu tenho sempre 18 anos porque te amo."

Magnífico.

Senhor de Maupassant!

Um autógrafo, por favor...

És um ladrão, Émile.

Um voyeur e um violador.

Eu escrevo romances.

Escrevo para ganhar a vida...

Eu não recebo pensões ao final do mês.

Já fazia muito tempo, não?

O teu pai morreu, podes parar de pintar se quiseres.

É um conselho?

Não, é um luxo.

Eu também já passei fome, está bem?

E já agora, obrigado por todas as vezes em que...

Não passamos fome da mesma maneira quando sabemos que vamos ser ricos.

Comes demais.

Mas tu perdes o cabelo.

Pelo menos eu posso parar de comer.

Perdi 8 quilos!

Posso confessar-te uma coisa?

Às vezes ia a casa do Manet pedir-lhe emprestado 3 centavos

para tos dar.

Isso é uma piada.

Vá, vai pintar.

Tenho de escrever.

Pelo menos isso é simples como o vento.

Vês, é aqui que me sinto melhor.

Não lhe esconderemos o seu passado.

Ela é nova? Uma pequena pérola.

É linda.

Muito doce, tímida.

Perdeu os pais muito jovem.

Trabalhadora.

Muito apegada.

Vou convencer o Émile a levá-la quando formos a Royan este Verão.

Os órfãos são perigosos, especialmente os doces e tímidos.

Tu também eras linda. Órfã e costureira.

Mas não doce e tímida.

A cena mais bonita do livro é a da sala de jantar.

Achas?

Tenho gosto em saber.

Quando o pobre Lantier os ouve a destruírem-no ao lado da porta

é patético.

Sentimo-nos mal por ele, é perturbador.

Fez-me lembrar a noite em que eu vi a tua mãe pela última vez.

Ela pediu-me para lhe desabotoar o corpete.

Ela perguntou-me se eu também estava a sufocar.

Eu estava mal, como sempre.

Ajudei-a a ir para o quarto. Falámos durante parte da noite.

Sempre que olho para a janela dela tenho vontade de chorar.

Foi por ali que saiu o caixão.

A escada era muito estreita.

Já te agradeci?

Por a teres acarinhado,

a tua doçura com ela...

Não fazia o teu género.

A Alexandrine também foi maravilhosa.

Elas acabaram por fazer as pazes.

Não.

A minha mãe idolatrava-me.

A Alexandrine amava-me sempre mais ou nunca o suficiente.

A mamã nunca lhe perdoou nada. Especialmente por causa da criança.

Tens sorte, Paul.

Para nós é uma falta terrível.

É ela? Sou eu?

É uma fatalidade.

A tua mãe achava que era uma punição divina.

Uma punição divina?

Por causa da criança.

Por a Gabrielle ter abandonado aquela menina no passado.

Tu sabias disso?

Eu conhecia antes de ti, esqueceste?

Sim, tu conheceste-a antes de mim! Sim, ela deixou-te!

Larga-me!

Tu odeia-la! Tu odeias todo o mundo.

Uma única palavra,

sobre esta história à minha mulher e eu juro...

Adorámos!

Estão bons, vocês os dois? Os actores perguntaram por ti.

Tu devias ir. Fizeram progressos...

A jovem rapariga que faz o papel de Catherine é poderosa.

Estava lá muita gente? Estava cheio!

Depois fomos tomar um chocolate ao Café de la Paix.

Ouvi uma senhora a perguntar e depois também eu fiquei de te perguntar,

porquê este título, "Germinal"?

É a Primavera.

É uma metáfora.

Desculpa-me, Hortense, mas esta noite...

Assim vocês vão viver para a Suíça?

Certamente que não.

Mas tu prometeste-me!

Agora que temos posses para ir. Porque para mim, Aix...

Talvez façamos uma viagem.

E se quiseres podes ficar lá, mas sem o pequeno.

Que ideia! Sem o meu filho!

Imaginam isto?

Não, nunca poderiam imaginar.

Cala-te Hortense. Vai deitar-te. Só dizes disparates.

Os retratos, isto tudo, em breve... Vocês, os pintores...

Viste a minha leiteira? O Vermeer tem de dar o braço a torcer.

Até podemos contar os azulejos.

A leiteira vejo-a. Os azulejos também.

Mas o artista não.

Estou estafado...

Fisicamente, lembraste?

Mas vês, hoje, esta pintura clara,

estas manchas por todo o lado, estes reflexos,

já não aguento mais... Tentei!

Conheces a minha paixão pelos impressionistas.

E o último Salão, queres a minha opinião?

Todos iguais, paredes cobertas de toalhas de mesa deslavadas por lixívia.

Todos obcecados.

Ao ar livre! Ao ar livre!

Isso é que é novo!

Viste os últimos quadros de Monet? Pontos, esboços,

não importa...

Pára, estás a dizer disparates.

É ela que canta todo o dia, isto não te enerva?

É a Jeanne.

É parecida com a Chapéu Rosa, não achas?

É um sol...

Solta-se dela uma felicidade

violenta

que me desespera.

Comeste-a?

Não!

Então come-a.

Sem remorsos.

O romantismo na tua idade...

Sim, eu sei. É ridículo.

E perigoso.

Que coragem! Li até ao fim!

Ousas escrever que um artista se suicida porque pintou um mau quadro?

Todos os dias queimo quadros,

e recomeço!

Não estás sozinho!

Tratas todos os pintores como vencidos, na tua merda de livro!

Se todos os artistas se suicidarem

porque pensam que só fazem merda...

Pára, por amor de Deus!

O pobre Helzepfel! Enforcou-se à frente do quadro quando o Salão o recusou.

E fez bem! Era uma merda.

Quem é que te agarrou, quando te recusaram, para não saltares da janela?

E o meu filho! Tu matas o meu filho!

Sim! Na página 375 tu mata-lo!

E ousas escrever que faço o retrato do cadáver do meu filho!

O teu filho está muito bem!

Negas?

As casas, os odores, os sonhos,

as árvores que subimos, as raparigas que beijámos...

Tu cometeste assassinato!

A cada página eu lia a minha própria morte.

Em cada página me enterras mais.

E o teu herói, um impotente...

"Impotente"! Pobre cretino!

O meu Lantier é um idealista,

um criador sublime, um verdadeiro artista!

E sabes por que é que o faço sofrer?

Por causa da sua ambição desmesurada,

do seu egoísmo destruidor.

Aí tens!

Isso diz-te alguma coisa?

És tu? Sou eu?

Vai à merda!

Um impotente, até na cama!

Como é que tu dizes? "As tristezas secretas da noite".

Não recuas perante ninguém, estás pronto para tudo?

E este artista infeliz, doente, histérico passa a ser mais um fracassado,

um homem gasto, um desprezível e um vencido.

Sou eu? É assim que me vês?

Há mais neste livro para além dos detalhes de merda

mais ou menos inspirados na tua vida de merda!

Nem mudaste o nome da minha casa.

Há vinte anos que tenho este livro dentro de mim,

sabes por que não o escrevi antes?

Por causa de ti.

Isso é certo, talvez esperasses que eu tivesse sucesso

para depois me apunhalares pelas costas,

isto já começa a ser longo.

Eu sou o verdadeiro vencido, Paul.

A tortura de escrever.

A minha impotência.

A dúvida... A morte em cada página...

É verdade, Paul...

O Lantier suicida-se porque se recusa a enganar a arte.

A enganar a vida.

É um herói.

Porque se recusa a escrever um livro sem cor.

A pintar.

A pintar.

Nunca mais encontrarei em mim a emoção de escrever o Germinal.

Hoje já não saberia escrever a Nana.

Sou estéril,

a mamã morreu,

os meus amigos estão a morrer

tirando alguns dos meus velhos amigos ninguém me defende.

A Academia

é um bando de cretinos de nariz empinado.

Eu sou vulgar,

obsceno.

Esta palavra que me persegue à noite, há muito tempo.

Eu repito-me.

Escrevo para vender.

Talvez eles tenham razão.

Já não faço amor.

Estou acabado.

Amo como um rapaz uma rapariga que tem menos 27 anos do que eu.

E tu,

meu irmão, meu melhor amigo,

tu não vês nem compreendes nada.

Sim...

Vens aqui depois de meses de silêncio,

vens para me atacar,

insultas-me.

Não me consigo lembrar porque te amei tanto.

Não tens coração, Paul.

É por isso que nunca serás um grande artista.

Vai-te lixar.

Era a irmã do meu marido,

trabalhava na casa grande.

Agora assim de repente compram isto em Paris?

A grande casa?

O "Jas" de Bouffant, a do pai do Cézanne.

Deixa, já sei onde está.

O pintor está sempre lá, tem o atelier lá em cima.

Cuidado.

Devagar.

Aqui têm, mil francos.

Ainda havia mais um!

Quer que suba?

Não, está bem assim. Obrigado.

Vamos trocar de lugar! Não, avó. És muito pequena.

Sr. Vollard!

Bom dia.

Como está o senhor? Bem e o senhor?

Obrigado! É um estudo que queria fazer.

Já conhece o meu filho, a minha mãe...

Então e essa exposição?

Compradores, estrangeiros, americanos.

E era ele que fazia furos nas suas telas quando era pequenino?

Ele divertia-se.

A sua esposa não está cá?

Ele tinha 20 anos.

1860.

Nós tínhamos vinte anos.

Fiz alguns progressos, não acha?

Vamos voltar.

Fui vê-lo não há muito tempo. Ele falou-me de si.

Estava verdadeiramente emocionado. Afectuoso, até.

Queria que ele me mostrasse os seus Cézanne.

Então deve ter ido ao sótão.

Deveria ir vê-lo um dia, quando estiver por lá.

Já não vou muito a Paris.

O frio começa a chegar.

Ele também poderia vir cá verme, não?

Com este acontecimento desastroso...

O senhor acha que algum dia verei um dos meus quadros num museu?

Justamente, o director da Galeria Nacional de Berlim,

o senhor Tschudi, veio verme.

Aparentemente o Imperador odeia os impressionistas, mas...

Eu também!

Disse-lhe isso, espero eu?

Não se mexa, por Deus!

Uma maçã não se mexe.

Cretino de merda...

Perdão?

Amo tanto o Zola...

Então por que razão esta...

Esta discussão? Mas não houve discussão.

As domésticas, as conversas ocas,

o escritório em madeira esculpida,

parecia que estava a visitar um ministro.

Portanto deixei de o ver. É tudo.

E depois...

Aquele livro.

Qual livro?

Paul!

Paul!

Ele está cá!

Em Beaufort.

O Émile! Ele está em Aix!

Não me interrompas, Achille. Estou a trabalhar.

E queria dizer-vos que sou Dreyfusard porque não somos muito...

Estou muito feliz.

Mas é graças a si.

Acha que vai voltar?

Por favor, senhor Presidente,

não falemos disso hoje. Aqui não.

Fugi literalmente de Paris para me escapar de tudo isto.

E passar alguns dias de tranquilidade com a Jeanne.

E também mostrar à Denise e ao Jacques

este sítio onde criei tantas memórias!

Crianças, vamos ver a minha escola?

E a ribeira, papá, tu prometeste-nos!

E a barragem! A que era do nosso avô.

Sim, eu prometi-vos.

E também deverá ir a casa do seu amigo, o senhor Cézanne?

O meu amigo Cézanne?

Ele está bem?

Vê-o de tempos a tempos?

É um homem bastante discreto. Não sai muito.

Que carácter...

Era um génio.

Um génio abortado.

Que pena.

A Jeanne e os seus dois filhos

trouxeram a Émile uma felicidade inesperada e harmoniosa.

Apesar das dificuldades de uma vida dupla

que Alexandrine acabou por aceitar.

Em 1902, Émile morre misteriosamente

asfixiado por causa de uma chaminé obstruída.

A sua literatura assim como o seu empenho

e coragem marcaram a história.

Conta-se que depois do anúncio da sua morte,

Paul passaria os dias a chorar o seu amigo.

Em 1906, Paul morre de pneumonia

que apanhou ao pintar durante uma noite de tempestade.

Graças a Ambroise Vollard ganhou algum reconhecimento.

Mathis disse: "Cézanne é uma espécie de Deus bom da pintura."

e Picasso: "foi o pai de todos nós."

Dos milhares de quadros de Paul Cézanne,

mais de 700 estão expostos em museus de todo o mundo.

Um filme de

Montagem

Produtor executivo

Produção

Tradução e Legendas: Cinemundo, Lda por Luís Zanguineto

CÉZANNE E EU

FIM

Ripadas por: guardiao

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