All language subtitles for Steppenwolf 1974 BR

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Original subtitles

Só para loucos!

O dia passou, como os dias costumam passar.

Matei-o com o meu estilo de vida primitivo e fechado.

Trabalhei por uma ou duas horas, tinha dores...

usei ópio, e deitei em uma banheira quente por duas horas.

Fiquei feliz quando as dores consentiram em desaparecer.

De modo geral, não era exatamente um dia de arrebatamento.

Talvez seja hora de seguir o exemplo de Adalbert Stifter.

Um acidente fatal enquanto se barbeava.

A dor para. Fico contente.

Um contentamento que me enche de ódio.

No desespero fujo para outras regiões...

se possível, para a estrada do prazer...

ou se não for possível, para a estrada da dor.

Em mim, ferve um desejo selvagem de esmagar, incendiar...

destruir, humilhar ídolos, seduzir garotinhas...

dinamitar a ordem estabelecida, as coisas importantes.

Teatro mágico: A entrada não é para todos.

Só para Loucos.

-Sr. Haller. Tudo bem? -Sim, estou.

Desculpe se o assustei. Não o ouvi chegar.

Pensava na...

-colheita de algodão. -Tem certeza de que está bem?

-Posso ajudá-lo a subir? -Não, não há necessidade.

Sente-se um momento, se tiver tempo.

Não tenho o hábito de sentar na escada da porta de outra pessoa.

Sim, claro.

Agora você me envergonhou. Deixe-me explicar.

Tive muito trabalho para deixar esse pequeno vestíbulo...

lustrado, esfregado, brilhante como o da sua tia abaixo.

Sempre respiro fundo quando passo ao lado.

Tem cheiro de paz e tranquilidade.

Sempre procurei lugares assim para viver.

Preciso disso, pode ver?

-Mas está doente. -Besteira.

Sou apenas um pobre e velho coiote...

rastejando pelas escadas das casas de outras pessoas.

Às vezes, tenho dores como as pessoas idosas.

''ldoso'' é um pouco exagerado. Ainda não deve ter 50 anos.

Não, está certo, aumenta a piedade.

Mas não precisarei esperar muito.

Espere. Você! Deixe-me ver o seu sinal.

Que diversão noturna é essa? Onde está?

Não é para todos.

Agora, o que tem aqui? Quero comprar algo de você.

Tratado do Lobo.

''Havia um homem chamado Harry, que andava em duas pernas...

usava roupas, e era um ser humano.

No entanto, era na verdade um lobo das estepes.

Na infância era selvagem, desobediente e desordeiro.

E aqueles que o criaram declararam guerra contra seu animal interior.

E isso lhe deu a idéia de que realmente era um animal...

com apenas uma fina camada humana.

Se Harry tivesse um belo pensamento

ou sentisse uma nobre emoção, o lobo ria com amargo desdém.

Ele sabia bem o que o satisfazia.

Mas quando Harry se comportou como um lobo,

sua parte humana caiu em uma emboscada...

o chamou de ''bruto'' e ''animal'', e estragou todo o prazer...

de sua simples, saudável e selvagem vida de lobo.

É inegável que geralmente estava muito infeliz.

E que também podia fazer os outros infelizes.

Pois sempre levava sua própria natureza dupla e dividida...

para os destinos dos outros.

Todavia, estava secretamente e persistentemente...

atraído pelo mundo burguês, vestia-se com respeito,

tinha dinheiro no banco e apoiava causas sociais.

Era capaz de amar o político criminoso...

ou o sedutor internacional.

Mas quanto a roubo, assassinato, ou estupro...

não saberia como deplorá-los...

se não fosse de uma maneira completamente burguesa.

Agora, o que chamamos de burguesia

como um princípio da existência humana...

não é nada além de uma busca pelo balanço.

O burguês busca andar no meio da estrada.

Sempre acomodado entre o certo e o errado, entre o bem e o mal.

Ele nunca se renderá seja para o martírio do espírito...

ou para o martírio da carne.

A força vital da burguesia reside em seus intrusos.

Artistas e intelectuais como Harry...

que se desenvolvem bem além do nível possível para o burguês...

conhecendo a glória da meditação, não menos

do que as alegrias obscuras do ódio e da autodepreciação.

Ele é, no entanto, prisioneiro da burguesia...

e não pode escapar disso.

A menos, que o sofrimento torne o espírito rígido e elástico,

ele encontra uma maneira de reconciliação

e fuga dentro do humor.

O intruso tem duas almas, duas entidades...

Deus e o Diabo, dentro dele.

E esses homens cujas vidas não repousam...

vivem seus raros momentos de felicidade...

com força e beleza indescritíveis.

A rajada de seu êxtase momentâneo...

é arremessada alto sobre o vasto mar do sofrimento...

e sua luz toca os outros com seu encantamento.

Mas apenas os mais fortes forçam a passagem

pela atmosfera do mundo burguês para atingir o cósmico.

Nunca houve um homem com um desejo

por independência tão profundo e tão apaixonado...

quanto Harry.

Nunca se vendeu por dinheiro, por uma vida fácil,

por mulheres, ou para aqueles no poder.

E jogou fora centenas de vezes suas chances de felicidade...

para proteger sua liberdade.

Mas em meio a sua liberdade, Harry, de repente, percebeu...

que sua liberdade era a morte e que estava sozinho.

Finalmente, por volta dos 47 anos...

teve uma idéia feliz, mas não inofensiva...

que frequentemente o divertia.

Ele marcou seu 50º aniversário,

como o dia em que deixaria este mundo.

Deixar algo acontecer a si próprio.

Poderia poupar algum sofrimento dizendo à sua dor...

espere mais 2 anos e serei seu mestre''.

E assim, cultivou essa idéia na manhã de seu 50º aniversário.

O suicídio, coiote infeliz, não servirá aos seus propósitos.

Sabe muito bem disso.

Está ciente da sabedoria dos imortais.

Está ciente de seu próprio Teatro Mágico.

Esse espelho que te trás uma necessidade amarga de olhar...

e onde você se encolhe com um pavor mortal.

Não haverá show esta noite? Bem, quis dizer, no teatro.

Tente o ''Black Eagle'', amigo. Se é um show o que quer...

Desculpe. Acho que o confundi com... Desculpe.

Meu caro, Sr. Haller.

Está aqui a todo esse tempo e não veio nos visitar nenhuma vez.

De modo algum, eu... cheguei apenas há alguns dias.

-Sinto ouvir isso. -Tenho andado...

Aqui está você, querida.

Estava lendo sobre seu homônimo depreciativo, esse Haller.

-Quem é? Um escritor? -Um escritor?

Meu caro, não, um escriba, um escriba desprezível.

Um jornalista, um patriota podre e gatuno.

Aqui, veja. Soletra-se da mesma forma, não é?

Sim.

Considera-nos responsáveis pela guerra. lmagine.

-Podemos entrar, por favor? -Claro.

Algo engraçado aconteceu comigo hoje.

É mesmo?

Sim.

Assim que saímos para a biblioteca, a propósito.

Não consegui de parar de pensar nisso.

Bem, estava subindo os últimos degraus...

em direção à Martinsgasse.

Quando repentinamente um pequeno...

cortejo passou. Um cortejo fúnebre.

-Meu caro! -Venha, venha, venha!

-Senhor. -Não...

Eu apenas...

Desculpe.

Rezo para que um herói nasça entre nós.

Nascimentos miraculosos não estão excluídos.

Para filtrar os mínimos detalhes...

os contornos do arquétipo dentro de nós.

O apocalipse é a nossa única esperança.

Estou vendo.

Espero que Goethe não seja realmente assim.

Esse arrogante ar de nobreza...

o grande homem cuidando da ilustre companhia.

Seu orgulho venerável é suficientemente ruim...

-mas retratá-lo dessa forma... -Não! Meu Deus!

Querida, está doente?

Terão que tomar o café sozinhos, senhores.

Terei que me retirar.

Ela ficou magoada. Goethe é sua possessão favorita.

Ninguém leva nossa herança cultural mais a sério

-do que minha Hildegard. -Desculpe.

Mesmo que esteja certo, não precisava ser tão sincero.

Bem, tenho o vício de falar o que penso.

Como Goethe. Pelo menos, em seus melhores momentos.

Peço sinceramente perdão a você e à sua esposa.

Por favor, diga a ela que sou esquizofrênico.

-Se me permitir, vou embora. -Mas e o café, e nossa conversa.

Estou ansioso por nosso debate sobre Mithras, Krishna e outros.

lnfelizmente, meu interesse por Krishna desapareceu...

junto com a minha paixão por debates aprendidos.

Além disso, tenho mentido. Não ficarei na cidade

apenas alguns dias, e sim meses.

Entretanto, não me encaixo mais em uma sociedade decente.

Estou quase sempre de mau humor...

atormentado pelas gotas, e geralmente estou bêbado.

Finalmente, me insultou de maneira deplorável mais cedo.

Aquele patriota podre, chamado estranhamente, Haller,

está à sua frente não regenerado.

Na realidade, seria melhor para o mundo...

se os poucos de nós capazes de pensar...

ficassem pela razão e pelo amor a paz...

Espere, meu caro...

Ao invés de buscar obsessivamente uma nova guerra.

Boa noite.

Não aguento mais. O lobo uivando em meu calcanhar.

Sei o que quer, um fim para o nosso sofrimento.

Então, deixe este dia diabólico ser nosso último.

Mas quero viver. Corra, Harry, corra.

Mas para onde?

Para longe, para qualquer lugar.

No fim, é tudo igual.

Vá em frente e pegue um, senhor.

É o que eu sempre digo, no fim é tudo igual.

No fim, é tudo igual.

Deve ir para casa.

Tente permanecer tranquilo...

antes do desespero.

Vá para casa. Pegue a lâmina...

solte-a novamente.

Deixe a covardia triunfar mais uma vez sobre o desespero.

Por outra hora...

outro dia.

Não importa quantas vezes eu solte a lâmina...

eu a pegarei novamente...

e novamente...

até que...

finalmente...

Olá.

Não diga que meu nariz está brilhando de novo.

Assim está melhor. Noite dura?

Onde estou?

Onde mais poderia estar a essa hora?

-Não faço idéia. -No ''Black Eagle''.

Se é um show o que quer...

Não entre em pânico.

Cuidarei de você. Qual é o seu problema?

Esqueceu o caminho para casa?

Não, mas... Sim.

-Não posso ir para casa. -Fique aqui se quiser.

-O que é isto? -Pode fazer isso aqui, se quiser.

Pelo amor de Deus, é só uma piada.

Disse apenas para se limpar um pouco.

Olhe para si próprio.

Vai acabar assustando alguma pobre garota.

Pelo menos limpe os óculos. Não consegue ver nada.

Agora, o que vamos beber? Vinho?

Onde pegou essa... essa lâmina?

Sempre carrega uma lâmina em sua mala?

-Geralmente. -Por quê?

Olhe, é uma história longa, complicada e muito distorcida.

Contarei outro dia. Um amigo a deixou em minha casa.

-lmagino que tenha muitos amigos. -Tenho. Você não tem?

-Não. -Meu Deus, pobre coitado.

Aposto que faz muito tempo que não obedece a ninguém.

-É do que preciso? -A obediência é como o sexo.

Nada como ele quando não o faz há muito tempo.

-Obedecerá às minhas ordens. -Obedecerei?

Tem outra escolha?

-Não. -Bom. Já é um começo.

Limpamos os seus óculos, demos comida.

Vamos limpar as suas botas e dançar um ''shimmy''.

-Não sei dançar. -Que triste.

Nunca aprendi. Está vendo, sou um caso perdido.

Então, talvez seja melhor ir para casa e se enforcar.

Desculpe.

Não tem ninguém para cuidar de você?

Uma esposa, um amor?

Sou divorciado. Um amor, sim, mas ela não vive aqui.

E, de qualquer forma, não nos damos bem.

Bem, você é difícil.

-Não devem aguentá-lo. -Apenas não me repreenda.

Sei que sou impossível, sem esperança, um caso perdido.

O que é isso?

A música mais triste do mundo, tocada no menor violino do mundo.

É corajoso por dizer que provou a vida até o fundo...

e não encontrou nada lá.

Sendo que ainda não provou a parte mais fácil e divertida.

Só posso dizer que fico feliz por não ser sua esposa.

Meu Deus, Harry, desculpe. Tenho que ir. Tenho um encontro.

-Com quem? -Não interessa.

-Um amigo. -Ouça, pensei...

-Pensei que ficaria aqui comigo. -Então, deveria ter me pedido.

-Mas estou pedindo agora. -Tarde demais.

-Certo, amanhã, então. -Talvez.

Espere. Ouça.

Pelo menos me diga o seu nome.

Só agora perguntou. Você é um homem apavorante.

-Terá que adivinhar. -Margaret. Molly.

Madeleine.

Deixe para a próxima vez.

Vamos jantar terça-feira no ''Old Franciscan''.

Eu sei, provavelmente não é elegante para você...

mas adoro o lugar. Me faz sonhar com São Francisco.

-É religiosa? -Não. Não sou mais.

Mas sabe, quando vejo uma daquelas fotos estúpidas...

e mentirosas de São Francisco que as pessoas tem...

fico realmente irritada.

Mas imagino como São Francisco deve ficar desapontado...

quando olha em meu coração e vê a imagem que tenho dele.

Sou apenas humana, e tento ser misericordiosa.

Já que não pode ir para casa, durma aqui esta noite.

Pegue isto, também. Não precisa usar, sabe.

Tu “comprends''?

Até logo, então. E bons sonhos.

Sua excelência o receberá agora.

lmportaria-se em dizer ao Sr. Goethe

que sou apenas um jornalista que veio para uma entrevista?

Para não se importar com o outro negócio.

Que outro negócio?

-Vocês jovens. -Sr. Goethe.

Quer dizer, é claro, sua excelência.

Não se importam com nós idosos, não é?

Claro que sim, sua excelência.

Só o consideramos um pouco vaidoso...

pomposo, ou pouco franco, só isso.

Poderia fazer a gentileza de explicar?

Bem, por exemplo...

bem, você claramente reconheceu...

a total falta de esperança da condição humana.

-Reconheci? -Sim!

Mas prega exatamente o oposto. Fé, otimismo...

a ilusão de que nossas aspirações espirituais significam algo,

que elas duram.

lmagino que não se importe com a Flauta Mágica de Mozart?

-Como ousa, senhor. -Ela prega otimismo e fé.

Sim, mas Mozart não viveu até os 82.

Ele cantou suas melodias divinas e morreu.

Sem as pretensões de ser eterno...

e de exaltar a dignidade como você.

Que visão limitada de Mozart.

Deveria ter sido um diretor de escola, querido.

-lsso não é justo. -Você vê seu ser perfeito...

como um presente supremo e especial...

que não custa nada a ele.

Não está esquecendo de sua paciência...

sob os últimos extremos da solidão...

de sua renúncia, de seu sofrimento?

Agora quem está pensando como burguês, querido?

-Conhece o ''black bottom''? -Certamente não.

Nunca tive tempo.

Não me admira ser tão nervoso. Se vai levar o tempo a sério.

Não há tempo na eternidade... apenas um momento...

apenas o momento para uma piada.

Orquídeas.

-Harry, você é um idiota. -Sinto muito se não gostou.

Não é isso. lmagino que as orquídeas

sejam as únicas flores suficientemente caras.

Bem, de qualquer forma, obrigada, mas já chega, certo?

Não aceitarei mais os seus presentes.

-Desculpe. Só quis... -Sei o que quis.

Ouça, vivo para os homens, mas nunca viverei para você.

Não parece bem hoje. Agora que o tiramos da forca.

Gostou?

Bem, precisa de um pouco de estilo...

um pouco de brilho, sabe...

Mas assim, já é um bom começo.

-Já executou as minhas ordens? -Que ordens?

Quer dizer que ainda não aprendeu o ''foxtrot''?

-Tive apenas 2 dias. -Poderia aprender em uma hora.

O ''black bottom'' em duas.

O tango requer mais tempo, mas você não precisa.

É tão fácil quanto pensar e muito fácil de aprender.

Ficaremos com este.

Poderíamos ter comprado há 3 horas e 4 lojas atrás...

já que essa foi a 1 ª em que olhamos.

Mas não teríamos nos divertido procurando.

-Obrigado. Tchau. -Obrigada.

Já sabe toda a verdade escandalosa sobre mim...

e nem sequer sei o seu nome.

-Mas você sabe. Olhe. -Não.

Sim, você me lembra alguém.

Alguém de muitos anos atrás.

Não, não é Rosa Kreisler. Ela tinha cabelos escuros.

-Quem era Rosa Kreisler? -Meu 1 º amor.

Tínhamos 14 anos. Ela nem sequer sabia disso.

Nunca tive coragem para lhe dizer.

-Nenhuma palavra? -Nenhuma.

Harry, que triste. Ela provavelmente era louca por você.

De qualquer forma, não é Rosa.

-Conte. -Adivinhe.

-Não consigo. -Consegue.

Hermann.

Hermann.

Hermine.

Viu, não foi tão difícil, certo?

Mas como você... fez isso comigo?

-Não se esqueça do que prometeu. -O quê?

Obedecerá a todas as minhas ordens.

Sim.

A maioria será divertida. E fácil.

Mas no fim, como você diz...

também terá que realizar o meu ultimo desejo.

Sim. Qual será?

Jura pela sua vida que realizará?

Fale.

Juro pela minha vida.

Sim, preciso de você, porque estou desesperado.

Terá que me jogar na água antes que eu nade.

A água me trará novamente à vida.

Mas também preciso de você. Não agora, mais tarde...

quando tiver se apaixonado por mim.

Preciso de você para algo muito importante e bonito.

-Será meu último comando. -O que devo fazer?

Me matar.

Bem, não diga que não avisei.

Desculpe.

-Quem é essa? -Erica.

-Não é bonita? -Sim.

Meu amor pobre e raivoso.

-E essa? -Sua vez de adivinhar.

Bem, é Hermann, claro. Quem era ele?

Meu único amigo no seminário, que nós dois odiamos.

Ele só ficou lá por 6 meses.

Cansou-se de matemática, Novo Testamento, grego...

e gelo nas pias.

Concordamos que não queriam realmente educar ninguém.

O que queriam, na realidade, era...

soldados obedientes e sargentos para o estado.

Então, um dia saiu e nunca mais o vi.

E?

Ele trabalhou como aprendiz em uma fábrica de relógios...

e como assistente em uma livraria de Tübingen.

Ele publicou um livro de poemas promissor...

-e deu um tiro na própria cabeça. -lmagino que admire isso.

Pelo menos se salvou das dores e dos horrores da Grande Guerra.

Sem mencionar algumas outras coisas.

Sim, o admirava. Eu o adorava.

Desde então, acho que não teve um dia...

em que de alguma forma não pensasse nele.

-Vai embora? -Devo ir.

Dançaremos no Hotel Balances amanhã.

-Ouça, não posso dançar. -Besteira.

Não, as pessoas precisam de talento para dançar.

Como alegria, inocência, futilidade, elasticidade,

talentos que nunca tive e nunca terei.

Não seja tão convencido. Lembre-se...

está sob ordens.

Por que está tão certa de que obedecerei às suas ordens?

Bem, não fique sentado, vá dançar.

-Mas não conheço ninguém. -Chame qualquer uma.

Não encontrou nenhuma mulher bonita aqui?

-Claro que sim. -Que tal...

Não posso. Ela pensará que sou um velho sujo.

-Você é um bebezão. -Mas ela vai rir.

Pobre Harry, a garota asquerosa vai rir dele.

-Vamos lá, tente uma vez. -Não posso.

Vá!

Quer dançar?

-Na verdade, estou com ele. -Desculpe.

Mas meu namorado parece ter ficado preso no bar.

Então, vamos.

-Estou aprendendo. -Não importa, relaxe um pouco.

Olá!

Pablo, meu amigo Harry.

-Encantado. -Encantado.

Cigarro? Não? Vai se arrepender.

-Ele é rico? -Não.

-Mas ele é muito bonito. -Sim. Muito bonito.

Jimmy esteve aqui ontem procurando por você.

-Olá, Harry. Gosta de música? -Sim. Bem, sim e não.

Nunca pensei que seria capaz de curtir esse tipo de música.

-Que tipo de música? -Acho que é jazz.

-É jazz, não é? -Se quer dar nomes.

Bem, é muito diferente da nossa tradição sinfônica, certo?

Acho que sim, acho que sim. Certo.

Como sabe que ainda não estou apaixonado por você?

Gosta de mim, posso ver. Porque penetrei em seu isolamento.

É muito bom para mim. Mas ainda não está apaixonado.

Talvez seja a mesma coisa.

O que mostra como sabe pouco sobre isso.

Não, quero que se apaixone por mim.

Por quê?

Porque é meu objetivo e minha natureza...

fazer os homens se apaixonarem por mim.

-Bravo! Bravo! -Obrigado, obrigado, obrigado.

Obrigado. Obrigado.

Muito bem.

Ela é adorável, não é?

Por que não faz amor com ela?

-Fazer o quê? -Não seja hipócrita.

Ninguém está pedindo para casar com ela.

Não precisa levar todo amor tão a sério.

Apenas um momento de diversão...

dormir outra vez com uma bela garota, Sr. Coiote.

Acredite, não tenho tal aspiração.

-''Ciao'', Alfredo. Tchau. -Obrigado.

Vamos comer algo. Depois, tocaremos no ''City Bar''.

-A noite toda? -Por que não?

-Bem, estou um pouco cansado. -Posso cuidar disso.

Desculpe-me, senhor.

lmagino se faria uma gentileza, é só um momento.

-Pablo resolve qualquer coisa. -Qualquer coisa?

O que quiser.

lsso é bom.

Nem sempre pode conseguir o que quer,

mas sempre pode conseguir o que precisa.

-O que estamos esperando? -Vamos.

Depois, vamos até a galeria.

Enfim em casa, deprimido pela tristeza e pelo desespero.

Quando penso no compromisso de amanhã no Cecil Bar...

penso com amargor não só por mim,

mas por Hermine também.

Com suas boas intenções, deveria ter me deixado perecer...

ao invés de me colocar nessa futilidade...

onde nunca serei nada além de um alienígena...

e onde o melhor de mim está desmoralizado e rebaixado.

Olá, você.

Como diabos você...

Me diga, o Pablo...

também é um de seus amantes?

-Com ciúmes? -Não.

-Ele parece sempre tão sonolento. -Pode ser acordado.

Então, o que está fazendo com um velho como eu?

Não está em uma competição, sabe.

Te amo... porque é tímido e meigo...

e porque posso ver em seus olhos...

que está satisfeito por eu ser tão bonita.

Com outro, seria exatamente o oposto.

Ficaria excitada se me usasse e não desse a mínima.

Mas uma vida sem amor, eu não aguentaria.

Maria, eu te amo.

Sabe, Pablo disse que devo tratá-lo com carinho...

porque você é muito infeliz.

Como ele chegou a essa conclusão extraordinária?

Ele disse, ''Olhe para seus olhos. Ele não sabe sorrir''.

Sr. Harry, vamos dar uma volta em meu carro.

-Pablo, olá. -O que quero lhe pedir, campeão,

é um empréstimo de 20 francos...

e poderá ter Maria outra vez esta noite, se quiser.

Comercializar uma mulher é a maior das degradações, Sr. Pablo.

Não ouvi sua proposta.

Onde diabos conseguiu esse carro?

Olha, não durma com a Maria se quiser evitar problemas...

mas empreste o dinheiro assim mesmo, certo?

É para o pequeno Augustino com o violino, sabe. Está doente.

Deveria ter falado.

Mas ainda não respondeu sobre o carro.

-É emprestado, sabe. -Quem emprestou?

Não sei.

Deus do céu, porque pegou emprestado um carro tão visível?

Ouça, este carro tem 200 cavalos.

Pode ser visto, mas não pode ser alcançado.

-Pelo amor de Deus. -Olá.

Harry, rápido. Rápido, rápido, rápido.

Alto!

Diga, Pablo. Porque não gosta de discutir sobre música comigo?

Porque sabe mais sobre isso do que eu. Eu só toco.

É tudo igual para mim.

Mas não é a mesma coisa, certo?

Não pode colocar Mozart no mesmo nível de...

do último ''foxtrot'', ou do que quer que seja, pode?

Não costumo comparar o nível das coisas.

Apenas toco o que me dá vontade.

Pablo.

Diga, Pablo. O que quer da vida?

-Fora a música? -Não sei.

Um sorriso, uma risada...

chutar o balde de vez em quando...

-''beaucoup de poule''. -Estou vendo. Um hedonista.

''Paus e pedras quebrarão meus ossos''.

Sua vez. O que quer?

-Luz. -Você já tem sua luz interior.

Só precisa sair das sombras para vê-la.

Podemos ir todos para a cama, se quiser.

Não.

-Não, obrigado. -Somos todos amigos.

Se ele não quer...

Que pena. É tão moralista. Não há nada a ser feito.

Assim mesmo... teria sido lindo, muito lindo.

Acho que preciso deitar.

Por que você ainda não é a esposa de um rei...

de um revolucionário, ou de algum tipo de gênio?

Tenho sido uma cortesã de muito bom gosto.

É o que a vida me permitiu.

-Já exigiu mais? -Sempre.

-O quê? -A eternidade.

-Onde espera encontrá-la? -Em um reino especial...

do outro lado das aparências.

O reino de Deus, se você é religioso, mas não importa.

Chame como quiser, é nosso lar.

Harry. Temos que atravessar tanta sujeira e trapaça...

para chegarmos em casa...

e ninguém para nos guiar além da saudade.

Agora, vou embora.

Então, amigos e amantes, tenham uma noite divina.

Vejo vocês no baile.

Por favor.

-Por favor. -Desculpe.

Harry.

Viu Hermine por aí? Procurei a noite toda. Sem esperança.

Pode pelo menos me dizer como é a roupa dela?

Procure a si próprio. Vai encontrá-la.

-Que diabos isso quer dizer? -Não, não, não.

Não perca o senso de humor, não hoje.

Perdeu o seu número? Pegue o meu.

-Dance comigo. -Não posso.

-Estou a caminho do inferno. -Vamos.

Maria.

Hermine está me esperando no inferno.

Eu sei, querido. Corra.

E adeus, Harry. Não o esquecerei. Nunca.

Adeus.

-Hermine. -Então, finalmente me encontrou.

É assim que fará eu me apaixonar por você?

Está pronto para ir ao inferno me encontrar?

-Há outra maneira? -Você sonhou em fugir.

Você tem o desejo de abandonar este mundo...

para penetrar em um mundo além do tempo.

Sabe que esse outro mundo existe.

Não posso lhe dar nada que já não tenha dentro de você.

-Só posso lhe dar a chance. -lrmão Harry,

eu o convido para um pequeno entretenimento.

Só para loucos, e com um único preço...

sua mente. Está pronto?

Agora, vou mostrar o nosso pequeno Teatro Mágico.

Quantas portas quiser.

E atrás de cada porta, exatamente o que está procurando.

Mas o preço da admissão...

será um pequeno suicídio sem valor.

Não se importa, não é?

Para conquistar o tempo e a realidade...

deve extinguir esses conceitos supérfluos...

que chama de personalidade.

Só precisa de uma risada sincera.

Excelente, Harry.

Excelente, Harry. Ainda rirá como os imortais.

Penetrar em um mundo além do tempo.

É uma ilusão. O Teatro Mágico, não é realidade.

Nada que já não tenha dentro de você.

Pablo! Hermine!

Tem o desejo de abandonar este mundo.

Não posso lhe dar nada que já não tenha dentro de você.

A chance. O impulso.

Eu o ajudarei a fazer seu filme...

Quantas portas quiser. E atrás de...

A transformação mutante para qualquer animal

ou planta que quiser.

A Grande Caça Automobilística.

A transformação do tempo em espaço.

O compêndio da arte.

Gustav! Santo Deus!

Que bom encontrá-lo aqui. O que está fazendo?

Sou professor de teologia, Harry.

Peguei o desgraçado dessa vez!

O que está acontecendo?

Finalmente, a guerra contra a máquina.

Vamos.

É exatamente o que estava esperando, Harry.

-O quê? -Uma guerra contra a máquina.

Não o ouça.

Você é obrigado a impulsionar a maré crescente de anarquia...

fomentada por intelectuais inférteis...

que rejeitam cinicamente as bênçãos...

da ordem, do trabalho e da propriedade privada.

O que isso tem a ver com a máquina?

A tecnologia é a criação mais sublime da mente humana.

E, eventualmente, libertará o homem.

-O que acha? -Seis de um, meia dúzia do outro.

Vilões. Traidores. Depois de tudo que fizemos por vocês.

Vamos. Saia. Vamos.

Saia. Vá!

Acho que deveriam saber, não acho isso muito patriota.

Olhe.

Me ajude aqui. Quero estar pronto quando chegarem.

E pensar que costumava ser pacifista.

De onde vem essa sede por sangue? Estou certo que não é racional.

Claro que não é. É pura infantilidade.

É uma guerra, infantilidade em uma escala gigantesca.

Sim. Nem sempre devemos reduzir o irracional para o racional...

como os americanos, e os bolcheviques, também.

Ambos são extraordinariamente racionais...

e produzem uma opressão assustadora

e empobrecimento da vida.

Você é um ''lulu'', Harry. Fala como um livro.

Mas não destruiremos carros com filosofia.

Todas as mãos nas estações de batalha.

Bravo! Viva! Viva! Viva!

Sou o procurador geral Loering. Por que atirou em nós?

Por exceder o limite de velocidade.

Estávamos na velocidade normal.

O que era normal ontem não é normal hoje.

Qualquer velocidade que um carro anda é alta.

E agora, saia, por favor, seu carro será destruído.

-Prefiro ser destruído com ele. -Como quiser.

Deus sabe, como promotor público...

assassinou sua porção de pobres demônios em seu tempo.

Era a minha obrigação.

Uma concepção obviamente desconhecida para você.

Que obrigação? Trabalhei para o estado,

servi como soldado, matei sob ordens

e paguei taxas para comprar mais armamentos...

até não conseguir mais levantar de manhã sem vomitar.

Você me irrita. Seja cuidadoso ao fazer seu trabalho.

Minha cara, sabe manejar armas de fogo?

Poderia me ensinar.

lmagino que vai querer almoçar logo.

Comprou curativo para o meu dedo?

Está sangrando muito.

-O que acontecerá conosco? -Não sei.

Mas meu amigo Harry sabe. Ele é fã de garotas bonitas.

Ele vai procurá-la. Vamos.

Se tivesse pepinos, faria alguns sanduíches.

Enquanto isso...

quantas quiser...

e atrás de cada porta...

você tem desejado abandonar este mundo,

para penetrar em um mundo além do tempo.

A queda do oeste, preços moderados, nunca sobrepujados.

Um suicídio prazeroso, vai morrer de tanto rir.

-Grande Caça Automobilística... -Esse Kamasutra...

lnstruções...

Quantas portas quiser.

Pablo?

-Quem é você? -Não sou qualquer um.

Sou um jogador de xadrez. Quer instruções...

-para construir sua personalidade? -Sim, por favor.

-Posso ver as peças, por favor? -Peças?

De sua personalidade. Não posso jogar sem as peças.

Qual é você?

Errado.

Você é o jogo todo.

Mas todas essas personalidades em uma pessoa, é esquizofrenia.

Não importa querido. Veja.

-Como se chama este jogo? -Vida. Sua vida.

Complique-a ou enriqueça-a como quiser.

Sua alma caiu aos pedaços e partes.

Bem. Reorganize-se.

O Maravilhoso Domador de Lobos.

O Lobo Domador de Harry.

Harry!

Que diabos está fazendo aí?

-Meu Deus, você se machucou. -Sim.

Pobre Harry. Sempre quis saber o que havia lhe acontecido.

-Todos esses anos. -Você não mudou nada, Rosa.

A última vez que o vi aqui, aquela tarde de primavera...

-você não falou nada. -Eu precisava. Eu queria.

Mas estava com medo. Tinha apenas 15 anos.

-Meu coração tremeu. -Tremeu? Verdade?

Chorei até dormir naquela noite. Depois comecei a esquecer.

Não totalmente, de qualquer forma.

Mas você nunca me conheceu.

Ouça, Rosa, poderia tê-la destruído. Sabe, às vezes sou...

Tenho compulsões terríveis, desejos que me dominam.

Terá que deixar eu assumir o risco.

Todas as mulheres são suas!

Costumava sonhar que estava tendo um filho seu.

Você nunca perguntou. Nunca ouviu.

Esperava que fosse diferente dos outros.

Hermine!

Hermine!

Adeus, e bons sonhos.

Não importa. Relaxe um pouco.

Hermine!

Hermine.

Mas também preciso de você.

Não se esqueça do que prometeu.

Preciso de você para algo muito importante e bonito.

Mas no final, como você chama...

também terá que realizar o meu ultimo desejo.

Mate-me.

Mozart.

Viu? Fica bom sem o saxofone.

De qualquer forma, para garantir, não queria pisar nos dedos...

-daquele famoso instrumento. -Onde estamos?

No último ato. Liberello está de joelhos.

Certamente, há aspectos muito humanos...

mas também pode ouvir o outro mundo...

-a risada. -Riqueza. Poder.

É a última grande música já escrita.

Não se exceda. O senhor é músico?

Estou aposentado, mas gosto de entrar de tempos em tempos...

para ver como estão os negócios.

Olhe, lá está Brahms, buscando redenção.

Vai precisar por um tempo ainda.

É Wagner. Por que estão aqui?

Uma densa orquestração. Sem falhas pessoais, entendeu.

-Foi um erro da época. -Mas eles não podem ajudar.

Também não podem ajudar Adão comer a maçã...

-mas terão que pagar por isso. -Mas é terrível.

A vida sempre é. Não podemos ajudar,

mas somos responsáveis de qualquer forma.

Um nasce e o outro é culpado.

Onde está a sua fina educação religiosa?

Quer dizer que prestarei contas pelos livros que escrevi?

Sr. Mozart?

Munique está se revelando. É uma sinfonia de Friedemann Bach.

O que está fazendo? Ouça.

Essa máquina infernal assassina a música.

Pare de falar e ouça, meu amigo.

Esqueça a máquina e ouça a música. E como a vida.

Deve olhar além da aparência para ver a realidade interior.

De qualquer forma, é muito pouco para ser um crítico do rádio...

ou da vida. Aprenda a ouvir primeiro.

Aprenda o que deve ser levado a sério e ria do resto.

Acho que estou começando a entender.

Você é um grande piadista, Harry. Que bagunça é essa?

Não podia pensar em nada melhor para fazer...

com essa jovem encantadora, do que isso?

Espero que agora esteja procurando uma maneira...

para escapar das consequências desse massacre sombrio.

Você não entende, Sr. Mozart.

Quero pagar. Quero pagar e pagar novamente pelo que fiz.

Quero colocar minha cabeça sob o machado.

Você é um covarde patético, Harry.

Mas ainda aprenderá a ter humor.

O humor da forca.

A EXECUÇÃO DE HARRY

Todo humor é o humor da forca.

-Pronto, meu amigo? -Estou pronto.

Senhores...

este é Harry Haller acusado e julgado culpado

pelo uso impróprio de nosso Teatro Mágico.

Haller não apenas insultou a majestade da arte...

também amaldiçoou nossa linda galeria de quadros

com a chamada realidade e apunhalou até a morte

a reflexão de uma garota com a reflexão de uma faca.

Além disso, demonstrou a intenção de usar nosso teatro...

como um mecanismo de suicídio e se mostrou desprovido de humor.

Então, condenamos Haller à vida eterna...

e suspenderemos por 12 horas

sua permissão para entrar em nosso teatro.

Você realmente estragou tudo, Harry.

Perdeu o seu senso de humor.

Todo esse negócio com a faca, e sua feia realidade.

''Je pensais que vous auriez mieux joué le jeux que ça''.

Pablo, estou começando a entender. Eu te entendo. E Goethe.

Ainda tenho todos os pedaços em meu bolso.

Se ao menos tivesse outra chance.

Quantas quiser. lsso não é o fim, sabe.

-Apenas um começo. -Para onde vou agora?

O caminho da inocência conduz para frente, não para trás.

Não volta ao mundo de uma criança...

só vai ainda mais adiante em direção ao pecado.

Conhece mais profundamente a vida humana.

A penalidade, também, de ser humilhado na corte...

pode não ser perdoada. Senhores, todos juntos...

1, 2, 3.

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