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AS SAND�LIAS DO PESCADOR
Lakota, prisioneiro pol�tico 103592R.
Apresente-se no gabinete do comandante.
Prisioneiro pol�tico 103592R.
Apresente-se no gabinete do comandante.
Theodor.
Prisioneiro 103592R. Apresente-se!
Sr. George Faber, Emin�ncia.
Foi bom ter vindo, Sr. Faber.
Uma convocat�ria do Vaticano � um evento importante.
- Por favor, sente-se. - Obrigado.
Sr. Faber, gostar�amos de lhe oferecer uma hist�ria.
Um exclusivo.
- Com os enredos habituais, Emin�ncia? - Desta vez, com algo mais.
Bem, primeiro gostaria de saber o que s�o.
A hist�ria � pol�tica. Muito pol�tica.
Precisamos de alguma reserva, uma certa discri��o na apresenta��o.
J� nos conhecemos h� muito tempo. Eu tenho a minha reputa��o.
� uma boa reputa��o, Sr. Faber.
Mas ter� de aceitar a hist�ria, tal como lhe for dada, ou recusar.
Se recusar, entrego-a aos franceses.
Gostaria de a revelar por uma fonte americana...
... preferencialmente na televis�o.
- �, portanto, uma entrevista? - Isso mesmo.
N�o pode pedir-me demasiado, Emin�ncia.
Nem sempre posso controlar o que uma pessoa pode dizer.
Sim ou n�o?
Se � o melhor que pode fazer, Emin�ncia.
O melhor.
Kiril Pavlovich.
Piotr Ilych Kamenev.
Boa noite, primeiro.
Estamos muito longe da pris�o de Lubianka, n�o � assim, Kiril?
Sente-se, por favor.
Obrigado.
Quer beber algo comigo?
Se assim deseja.
Porque me trouxe para aqui?
Estava curioso em saber como os anos o tinham tratado.
- � tudo? - N�o.
H� 20 anos que me assombra, Kiril.
Pense em Lubianka.
Foi um inferno m�tuo, n�o foi?
Eu, o atormentador. V�s, o atormentado.
O homem no espelho...
... o homem que olhou para o espelho.
No final, nenhum de n�s sabia quem era quem, correcto?
Correcto.
Eu desmanchei-o em pe�as, como um rel�gio...
... depois, montei-o outra vez.
Foi uma experi�ncia muito �ntima.
Nunca consegui esquec�-lo.
Posso fazer-lhe uma pergunta?
Nunca hesitou antes.
� verdade.
Isto � a sua pessoa.
Prisioneiro pol�tico 103592R, Kiril Pavlovich Lakota.
Tudo sobre si est� aqui, desde que nasceu, at� hoje.
Excepto a resposta a uma pergunta.
O que aprendeu em 20 anos de reclus�o.
Isso � uma grande quest�o, Piotr Ilych.
A resposta � importante para mim.
O que aprendi?
Aprendi que sem algum amor...
... um homem definha como uma uva numa vinha moribunda.
� tudo?
Estou a tentar aprender mais.
Aprendeu o suficiente para enfrentar a liberdade?
H� muito tempo que sou livre.
Talvez n�o inteiramente.
Mas ainda n�o respondeu � minha pergunta.
Porque me trouxe para aqui?
Quero mostrar-lhe um mundo que enlouqueceu.
Venha.
A mobiliza��o chinesa est� agora 80 por cento completa.
O mapa indica tr�s novas divis�es em direc��o � fronteira da URSS.
O fracasso de colheitas em grandes �reas da China...
... fazem da fome uma certeza absoluta.
Como resultado, relat�rios mostram que os chineses preparam ataques...
... �s zonas de arroz de Birm�nia, Tail�ndia, Vietname do Norte e...
... simultaneamente, a tomada de Hong Kong.
A 7� Esquadra dos Estados Unidos est� no local,
em posi��o de combate no Mar da China.
Quatro submarinos com m�sseis de desenho avan�ado...
... foram adicionados � frota.
Todos os dias nos interrogamos sobre o que podemos fazer...
... antes que o pesadelo se torne num cogumelo que bloqueia o Sol.
Est� a ver este sujeito.
Pode n�o parecer grande coisa, mas n�o se deixe enganar.
� o l�der do povo chin�s.
Com a mesma certeza de que o �...
... dentro de tr�s meses, pode n�o conseguir aliment�-los.
Um mundo de loucos.
Fazemos um pa�s passar fome at� � guerra nuclear.
Vou mand�-lo de volta para este mundo, Kiril Pavlovich.
Que quer dizer?
Vamos libert�-lo.
Libertar-me?
- N�o enten... - Acord�mos a sua liberta��o.
Acordaram?
N�o fa�o parte de nenhum acordo.
Faz sim, sabe.
� um homem contra a autoridade. Sempre o foi.
A autoridade fez o acordo. Vai aceit�-lo, percebe?
Porque me trouxe aqui para me dizer isto?
Porque � um homem simples que assombrou...
N�o, isso n�o � suficiente!
Porque onde quer que esteja...
... sei que h� um homem que me conhece, t�o bem como eu o conhe�o...
... e que pode dizer a verdade sobre Piotr Ilych Kamenev...
... e a sua R�ssia.
N�o deve esperar que pode usar-me.
N�o espero.
Primeiro...
... este � o Padre Telemond da Secretaria de Estado do Vaticano.
- Sua Excel�ncia. - Aqui est� o seu homem.
Kiril Pavlovich Lakota, antigo arcebispo de Lvov.
- Meu senhor, Arcebispo. - Por favor.
O seu passaporte, meu senhor.
A partir deste momento...
... Sua Senhoria � cidad�o do Estado da Cidade do Vaticano.
Goza de imunidade diplom�tica at� � sua sa�da da Uni�o Sovi�tica.
Kiril Pavlovich deve ser informado das outras condi��es de liberta��o.
Que s�o?
O Vaticano publicar� apenas o facto...
... da liberta��o do Arcebispo Lakota.
O Arcebispo Lakota n�o far� nenhuma declara��o p�blica...
... em rela��o a condi��es ou pessoas da Uni�o Sovi�tica.
N�o posso aceitar essas condi��es.
Mas elas foram aceites em seu nome.
� sua liberdade, Sua Excel�ncia.
Ao meu ex�lio.
Quando chegaremos a Roma, Padre?
Dentro de cerca de hora e meia.
E depois?
Ficar� hospedado no col�gio Ucraniano.
Dever� ser recebido imediatamente pelo Santo Padre.
Est� a sentir-se mal, Padre?
N�o, tenho um inimigo no sangue. Um dia, matar-me-�, segundo dizem.
- Lamento saber disso. - Deseja uma bebida?
Temos de aprender a habituar-nos � ideia.
Est�... Est� a escrever um livro?
Quem me dera. N�o, n�o.
O meu trabalho est� a ser examinado por uma comiss�o pontifical especial.
Porqu�?
Durante anos, fui proibido de ensinar ou de publicar o que quer que fosse.
Era suspeito de ter opini�es perigosas para a f�.
Como conseguiu este trabalho?
Fui expulso para uma congrega��o sagrada, para ficar fora das decis�es.
De facto, sou antrop�logo.
Passei muito tempo na �sia.
Vi o mundo de l� a explodir em milh�es de bocas famintas.
Tive de questionar-me...
... que tipo de sabedoria a Igreja tem para superar esta explos�o.
Assim, comecei a escrever, tornei-me fil�sofo.
E...
J� escreveu muitos livros?
- Dez. - Dez?
- Quantos publicados? - Nenhum.
A Scandinavian Airlines...
... anuncia a chegada do voo SK681 de Moscovo e Copenhaga.
- Desembarque no port�o 10. - Ol�.
O poder do olho humano.
- Que est�s a fazer aqui? - Nunca te vi trabalhar. Gostava de...
Eu disse-te que isto ia ser s�rio. Ningu�m devia saber.
- N�o posso s� observar? - N�o, querida.
Metade do Vaticano est� l� em cima � minha espera.
Eu n�o estou apresent�vel?
George...
Sim.
Espera por mim no bar.
N�o vou esperar.
- Jantamos esta noite. - N�o sei, George.
Olha, tenho de ir. Eu...
Olha, eu ligo-te.
Emin�ncia.
Como est�?
S� algumas perguntas, Excel�ncia.
Quando foi informado da sua liberta��o?
A noite passada, em Moscovo.
Ficou surpreendido?
Bem, foi um choque.
Foi maltratado durante a sua reclus�o?
H� muito tempo que n�o.
Ultimamente, estive a trabalhar na ind�stria pesada.
Nessa perspectiva, submeteu-se ao sistema?
Desde que, Sr. Faber, qualquer sistema providencie...
... p�o, trabalho e dignidade, estou preparado para cooperar com ele.
Estas coisas s�o boas por si mesmas, quer seja em Roma ou na Sib�ria.
E p�o, trabalho e dignidade, existem na Sib�ria.
Foi-lhe permitido exercer o sacerd�cio como padre?
N�o, exerci, sim, sem permiss�o, entre os meus colegas prisioneiros.
V� alguma esperan�a para o dia em que a f� Crist�...
... em especial, a f� Cat�lica Romana, seja praticada em pa�ses marxistas?
N�o tenho informa��es privilegiadas...
... de como o reino de Deus vai ser estabelecido.
Bom, j� � suficiente. Muito obrigado.
Obrigado. Obrigado.
Obrigado.
Creio, Emin�ncia, que conseguiu apanhar um T�rtaro.
Penso que posso ter apanhado um crist�o.
Obrigado.
O Reverendo Kiril Lakota, Arcebispo Metropolitano de Lvov.
O nosso irm�o Kiril.
Vinte anos, e Deus devolveu-o a n�s.
- Sente-se, sente-se. - Obrigado, Santidade.
- Sente-se bem, forte? - Estou muito bem, Santidade.
- Fez uma boa viagem? - Muito boa.
Foi bem recebido aqui? Os seus aposentos s�o confort�veis?
Estou a ser tratado como um pr�ncipe.
Bom, de facto, assim o �.
Agora vai ser anunciado.
O nosso irm�o Kiril � ordenado padre cardeal...
... sob o t�tulo de S. Atan�sio.
Sua Santidade...
... rogo-lhe que me dispense desta honra.
N�o me conhece.
N�o pode saber o que os anos me fizeram.
Mas porqu�? � a mais alta honra concedida.
Serviu a f�. Defendeu-a.
N�o desejo discutir com a autoridade.
Mas n�o terei utilidade aqui.
Isso cabe a n�s decidir.
Em qualquer futuro contacto com o Kremlin, pode ser inestim�vel.
Plane�mos o seu trabalho para a Secretaria de Estado.
Excel�ncia, agora deve tomar o seu lugar connosco.
Pe�o-vos, Sua Santidade...
... que me d� uma miss�o simples onde possa estar com homens simples.
Penso que � necess�rio ficar em privado com o Irm�o Kiril.
Uma lenda a seu respeito diz que um dia lhe foi pedido que negasse a f�.
Ataram sete padres e fuzilaram-nos.
Perante os seus olhos.
Mesmo assim, n�o negou a f�.
Essa hist�ria � verdadeira?
Tento n�o olhar para esse, nem para os outros dias, Santidade.
Deus est� consigo, meu irm�o.
Acredito que Deus o enviou.
Confie em n�s para fazermos o melhor uso de si.
Mas, primeiro, deve ser honrado.
Ajoelhe.
� assim ordenado padre cardeal sob o t�tulo de S. Atan�sio.
- Lydia. Lydia. - Com licen�a, minha senhora.
Aqui est�s.
- Marquesa. - Ol�, Sr. Faber.
Tens um cigarro?
Estava a dizer a esta jovem que deve assentar e casar-se.
N�o concorda, Sr. Faber?
N�o ouso dar conselhos a jovens.
Raramente os seguem.
� muito discreto.
Uma virtude necess�ria. Roma � uma cidade pequena.
Com muitas intriguinhas.
A Lydia preocupa-se comigo, George.
Tens muita sorte em ter uma amiga t�o atenciosa.
Sou uma mulher antiquada, Sr. Faber.
Acredito na vida, no amor e na persegui��o da felicidade.
Mas � necess�rio conhecer as regras do jogo.
N�o deve subestimar o meu marido, Marquesa.
Ele conhece todas as regras.
Dr.� Faber.
Mario, traz algumas bebidas.
Lamento o atraso, mas metade de Roma parece ter escarlatina.
N�o se preocupem, estou bem lavada e desinfectada.
Como est�?
Bem.
- Vim com o Mario. - Sim, eu vi.
Ele � muito elegante. N�o achas, George?
Sim, � muito elegante.
Que idade tem ele?
Penso que devias fazer-lhe essa pergunta, Ruth.
Estou certo que a Marquesa gostaria de vos apresentar.
N�o.
Independentemente do resto, sou realista quanto � minha idade.
Com licen�a, Marquesa.
George.
Marquesa.
Chiara.
V�? Ela � terrivelmente m� para ele.
- Est�s muito espirituosa. - Obrigada.
N�o era um elogio.
Queres dizer que n�o aprovas?
N�o, Ruth, quando tens ci�mes sem raz�o.
Tenho ci�mes sem raz�o porque o ci�me me tira a raz�o.
- Sua Emin�ncia. - Posso entrar?
Por favor.
- Interrompo alguma coisa? - Claro que n�o.
Os meus parab�ns.
Obrigado.
- Posso levar-lhe o casaco? - Por favor.
Que surpresa.
Isto pede uma celebra��o. Posso oferecer-lhe uma bebida?
Isso seria �ptimo.
Frascati.
O que... O que � isto?
Encontrei-o no Museu do Vaticano. � um vegetal.
- Com apenas uns milhares de anos. - A s�rio?
Este aqui � encantador, o peixe.
- Tem mais de 200 milh�es de anos. - N�o me diga?
Padre, de certeza que est� a receber os melhores cuidados m�dicos?
Os m�dicos n�o sabem nada. S�o como mec�nicos de autom�veis.
- Porque n�o se senta. - N�o, n�o se incomode.
- Desculpe a confus�o. - Obrigado.
A sua audi�ncia est� marcada para amanh�, n�o � assim?
Dez e meia. Teve oportunidade de ler o meu livro?
Sim, tive.
N�o vou morrer com a verdade.
Encontrei pouco da f� Crist�, tal como a conhe�o, no seu livro.
Durante 20 anos, essa f� manteve-me vivo.
Continue.
Achei-o...
... especulativo, perigoso...
... e cheio de...
- Heresia. - � que...
Desafia a f�.
Por exemplo, Jesus Cristo fala da salva��o da alma.
N�o encontrei uma �nica men��o � palavra "alma" nos seus escritos.
Mas est� l�, s� que com outro nome!
Porqu� mudar um nome se n�o tem medo dele?
Para expressar em termos modernos...
... a realidade e a verdade mais claramente.
Bom, Padre, se acredita verdadeiramente nisso...
... porque continua a ser padre?
- Est� a acusar-me de desonestidade? - N�o estou a acus�-lo de nada.
Isso cabe a si responder.
Mas tem a certeza que est� a ser honesto consigo mesmo?
Tenho uma senten�a de morte. N�o posso fazer de outra forma.
- Posso oferecer-lhe outra bebida? - N�o. N�o, obrigado.
Sabe, David, para muitos homens, a cren�a � um local de ref�gio.
Claro, v�o tem�-lo e acus�-lo.
Os seus escritos s�o um perigo para a seguran�a de tais pessoas.
N�o tenho medo de ser acusado.
S� tenho medo de ser silenciado.
Sabe, nem Deus proferiu a �ltima palavra sobre a sua cria��o.
Gostava de ouvir um pouco de Shostakovich?
Com certeza.
Emin�ncia, est� a destruir-me antes da comiss�o o fazer.
David, essa n�o foi a minha inten��o.
N�o, na verdade, depois de ler o seu livro a semana passada...
... n�o consegui dormir.
Vi uma mente brilhante a querer alcan�ar as fronteiras do pensamento.
Um local onde n�o me aventuraria.
Vim para lhe desejar o melhor para amanh�.
Direi a minha missa por si.
Obrigado.
Este...
... � o Padre Telemond.
Isto � uma comiss�o e n�o um tribunal.
O objectivo � examinar o conte�do dos seus trabalhos...
... para determinar se est�o conforme os fundamentos da doutrina Crist�.
O senhor, propriamente, n�o est� em quest�o.
Pe�o-lhe que acredite que a sua reputa��o nunca esteve em causa.
Fico contente por ouvir isso, Emin�ncia.
Aqui est� o primeiro problema, Padre.
Atravessa todo o seu trabalho.
O que se considera? Fil�sofo? Te�logo, poeta, cientista?
Como devemos julg�-lo?
Julguem-me como um homem que tenta responder �s quest�es dos homens.
Que s�o?
Quem sou eu? Porque estou aqui? Para onde vou?
Existe algum sentido na beleza? Na fealdade?
No terror? No sofrimento? Nas mortes do dia-a-dia...
... que constituem o padr�o da exist�ncia.
- A� fala o poeta. - Porque apenas o poeta?
Porque n�o o te�logo e o cientista?
Eles tamb�m respiram. Tamb�m morrem.
Ent�o comece a elucidar-nos, Padre.
Eu cavei atrav�s da crosta da terra de Deus.
H� um longo registo de vida escrito a�.
Um registo repleto de maravilhas.
Dinossauros ou r�pteis voadores, toupeiras gigantes.
Tudo desaparecido.
Mas a linha est� clara...
... tra�ada pelo dedo criador de Deus.
Aponta sempre na mesma direc��o, para n�s:
O homem com conhecimento, o homem pensador.
Aponta para al�m de n�s.
Para o qu�?
Ou este mundo � uma tr�gica armadilha...
... na qual o homem vive sem esperan�a e morre sem dignidade...
... ou �, como escreveu Teilhard de Chardin h� muitos anos...
... um grande des�gnio...
... no qual a humanidade � lan�ada para a gloriosa realiza��o em Cristo.
Eu acredito no plano da realiza��o.
Acredito na futura uni�o do mundo com Cristo C�smico.
Deixe-me entrar no seu pa�s por algum tempo, Padre.
Os dinossauros desapareceram da hist�ria.
Porqu�?
N�o temos a certeza.
As provas apontam para o facto de terem sido criaturas...
... adaptadas a um ambiente especial.
Quando o ambiente mudou, morreram:
Como?
Por vezes pela doen�a. Por vezes pela viol�ncia.
Quando criaturas mais fortes os devoraram.
Ent�o, o dedo de Deus tamb�m escreve viol�ncia e destrui��o?
Sim. Fazem parte do padr�o do crescimento.
Da evolu��o.
O veado � uma criatura proliferante.
Comeria as terras at� � exaust�o. O le�o abate o veado.
- O equil�brio da Natureza est� salvo. - Correcto.
Agora chegamos a isto. Falando sobre o homem...
... chamou-lhe um animal muito especial.
O animal com conhecimento, e que sabe que o possui.
Exacto.
No nosso museu est� o cr�nio dum homem pr�-hist�rico.
Est� partido por um machado de pedra.
Foi morto, obviamente, por um dos semelhantes.
Sim, j� o vi.
- Um acto de viol�ncia, sim? - Certo.
Um acto de destrui��o, sim?
Cometido por uma criatura pensante e com conhecimento?
Sim.
� o mesmo acto dum homem baleado num beco de Paris?
Essencialmente, sim.
O acto, � assim, parte do des�gnio de Deus?
O des�gnio inclui-o.
N�o respondeu "sim" a esta pergunta. Porqu�?
Porque percebo que est�o a influenciar-me.
Exactamente.
Estamos a lev�-lo para o problema do bem e do mal.
Certo ou errado, no sentido crist�o.
A morte do homem da Idade da Pedra por outro homem:
- Estava certo ou errado? - N�o sei.
Pe�o perd�o, Padre.
- N�o sabe? - N�o, n�o sei.
Pode ter sido um acto imposto sobre ele...
... pelas necessidades dum tempo e lugar do qual pouco sabemos.
Imposto pelo plano evolucion�rio?
Sim.
Por outras palavras, o plano de Deus?
Sim.
Ent�o Deus � o autor do bem e do mal.
Isso � heresia, Padre.
N�o, n�o � heresia.
A realidade � esta:
Para certas tribos primitivas...
... o homic�dio era um acto religioso. Para n�s, � um crime.
A evolu��o duma atitude para outra � prova dum plano divino.
Mesmo hoje, muitos crist�os justificam o homic�dio em massa com a guerra.
Amanh�, Deus me oi�a, a guerra ser� banida como crime.
- O que foi? - Perdoe-me, Emin�ncia.
Sua Santidade, o Papa, teve um colapso.
Paulo, tu e o Lou, peguem na carrinha e v�o para S. Pedro.
Na pra�a! V�o para l�, sim?
- O George deixou um contacto? - N�o. Ligo para casa dele?
N�o. N�o. Ligas para o Clube de Imprensa?
Se n�o conseguires nada l�, tenta este n�mero, sim?
Posso chegar tarde, outra vez, esta noite, Ruth.
Vais ter com ela para jantar ou ao apartamento dela?
Devemos ao menos partilhar as tarefas.
Quero dizer, podias deixar-lhe as camisas sujas.
- Pronto, Ruth. P�ra com isso. - Parar com o qu�?
P�ra de ser vulgar. � isso que quero dizer.
Pe�o desculpa.
Quando vais ter com ela, ela abre-te a porta ou j� tens uma chave?
Queres contar as minhas chaves?
Aqui est� a chave da arrecada��o, da porta da frente...
P�ra de v�-la. N�o v�s mais ter com ela.
- Assina o cheque... - N�o preciso de assinar nada.
N�o me digas se ela � uma ordin�ria paga ou gratuita.
Trata dela. Agora.
Escolhes um momento dos diabos para isto.
Entro no ar dentro de 47 minutos.
Brian, fala o George. Sobre o...
George, �s o �ltimo jornalista na Europa...
... a saber que o Papa est� a morrer.
Porque n�o me ligaste?
Onde est�s, George?
Tent�mos o outro n�mero.
Vou j� para a�.
- Brian, eu... - D�-nos uma ideia, sim, George?
- Um, dois, tr�s, quatro, cinco. - Pronto.
Dez segundos, Sr. Faber.
Tr�s, dois, um.
Est�s no ar, George.
Sou George Faber, observando a Pra�a de S. Pedro, em Roma.
O Santo Padre teve um colapso.
Dr. Carlo Antonelli, um dos maiores especialistas card�acos de Roma...
... chegou ao Vaticano esta tarde.
Houve uma comunica��o...
... de que foi requisitada uma garrafa de oxig�nio.
Um trabalhador ansioso e incans�vel...
... possivelmente um dos pont�fices mais autocr�ticos deste s�culo.
O sino toca.
O Papa morreu.
Ou�am o sino.
Este � o soar da morte...
... que toca do Arco delle Campane apenas para o pont�fice.
Ou�am. H� um segundo sino.
Em breve, a estes sinos juntar-se-�o sinos de toda a cidade.
De todas as cidades. De todo o mundo.
O Papa morreu.
O Cardial Carmerlengo ir� anunci�-lo.
O mestre de cerim�nias, os not�rios, os m�dicos...
... ir�o consign�-lo sob assinatura para a eternidade.
O seu anel ser� desfigurado.
Os selos ser�o quebrados.
Os apartamentos papais ser�o trancados e selados.
Enquanto os sinos tocam...
... o corpo pontifical ser� entregue aos embalsamadores...
... para que seja um objecto pr�prio de venera��o dos fi�is.
Colocar�o o seu corpo...
... entre velas brancas na Capela Sistina...
... enquanto a guarda nobre mant�m a vig�lia da morte...
... sob os frescos do ju�zo final de Miguel �ngelo.
No terceiro dia...
... ser� enterrado, vestido com vestes pontificais...
... com uma mitra na sua cabe�a e...
... um v�u p�rpura na face.
Um cobertor vermelho de arminho para o aquecer na cripta.
Ser� selado em tr�s caix�es.
Um de cipreste...
... um de chumbo, para o proteger da humidade...
... e para levar a sua certid�o de �bito.
O �ltimo, de olmo...
... para que possa parecer, finalmente, como os outros homens...
... que v�o para a campa numa caixa de madeira.
O Papa morreu.
Ser-lhe-� deitado luto com nove dias de missas...
... e receber� nove absolvi��es...
... das quais, por ter sido maior que os outros homens...
... pode ter mais necessidade durante a sua morte.
� estranho.
Quando um presidente morre, � substitu�do em uma hora.
Quando um rei morre, longa vida para o rei.
Quando um Papa morre, tudo p�ra.
David, a raz�o porque o chamei...
... � porque me disseram que preciso de um secret�rio no conclave.
Eu...
Ser� que aceitar� a posi��o?
� uma grande honra, Emin�ncia.
Mas receio ser o homem errado.
- Porqu�? - Estou sob suspeita.
Bom, n�o houve veredicto, nem julgamento.
A comiss�o est� suspensa at� o novo Papa ser eleito.
Quem ser� ele?
Quem ficar naquela varanda, espero que publique os meus livros.
Rinaldi seria um bom Papa?
� um homem encantador.
Mas acho que precisamos de um homem do nosso tempo.
Ent�o, o Cardeal Leone.
Receio n�o ser o indicado para falar sobre o Cardeal Leone.
Vamos almo�ar.
Ent�o, quem?
Em todo o caso, tem de ser um italiano.
Sim, suponho que sim.
Sou um homem velho, Valerio.
- J� enterrei tr�s papas. - Somos todos demasiado velhos.
N�o h� mais que meia d�zia de n�s que possam dar � igreja...
... o que ela precisa neste momento.
- Perdoe-me, Padre. Digo, Emin�ncia. - Pe�o perd�o.
- Pensas ser um deles? - Um dos quais?
Um da meia d�zia.
Sei que n�o sou.
Pensas que tenho hip�teses de ser eleito?
- Espero que n�o. - N�o te preocupes. Sei que n�o.
Segura o candeeiro.
Sabes, Valerio, devia ter sido um padre do campo...
... com apenas teologia suficiente para ouvir a confiss�o...
... e latim apenas para dar a missa.
Sentava-me em frente � minha igreja nas noites de Ver�o...
... para falar sobre as colheitas.
D� c� o candeeiro, Franko.
Emin�ncia.
Obrigado, Emin�ncia.
Franko!
Franko!
Que sou eu agora?
Uma enciclop�dia andante de dogmas.
Um dicion�rio de teologia com duas pernas.
Cada um tem a sua cruz.
Aquilo parece muito confort�vel.
Sabes qual � a minha? A minha cruz, quero eu dizer.
Estar rico, contente e realizado...
... sabendo que n�o mere�o nada disso.
Quando for chamado a julgamento...
... devo depender somente da miseric�rdia de Deus.
Somos o que somos.
Deus deve tomar a responsabilidade, mesmo com os te�logos.
Agora, diz-me...
... onde vamos procurar o nosso Papa?
Os Cardeais do Sagrado Col�gio assumiram a curadoria...
... da igreja at� o novo Papa ser eleito.
Os cardeais vir�o de todo o mundo...
... com o peso de anos de autoridade...
... para colocar o chap�u dos pr�ncipes e sentar no conclave...
... para a elei��o do sucessor de S. Pedro.
Assim que for eleito...
... o novo Papa escolher� a data da sua coroa��o...
... um espect�culo que trar� pessoas de todos os cantos do mundo.
Fora deste pequeno enclave do Vaticano...
... o mundo vive um clima de crise...
... onde poderemos em breve estar envolvidos numa guerra at�mica.
Mas para os homens do Vaticano h� apenas uma pergunta:
Quem cal�ar� as pr�ximas sand�lias do pescador?
Quem preservar� e proclamar� a mensagem de Cristo...
... aos homens que vivem neste conturbado e d�bio S�c. XX?
Atr�s das portas fechadas do Vaticano...
... haver� duas vota��es por dia.
Uma pela manh� e uma pela tarde.
Se a vota��o n�o for bem sucedida...
... os pap�is ser�o queimados com palha molhada...
... e o fumo da capela ser� negro.
Se a vota��o for bem sucedida, os votos s�o queimados em seco...
... e o fumo ser� branco.
O vice-presidente do Todo-Poderoso ser� aclamado ao povo.
Sou George Faber, em Roma.
Boa noite.
Temos algumas imagens dos cardeais. Podes ver no B.
Receio n�o haver muito dos favoritos. Leone e os romanos.
Sabes, estiveste um pouco aqu�m esta noite, George.
Queres dizer que a tua vida seria muito mais f�cil...
... se eu fosse encontrado num n�mero, nomeadamente de minha casa.
Sim, seria. Muito mais f�cil. Assim como a tua.
�s o perito em protocolo.
Como faziam os brit�nicos antigamente...
... quando queriam cortar rela��es?
N�o ensinam essas coisas em Cambridge?
Em Cambridge, n�o. Aprendi mais tarde no bar.
� aconselh�vel, velho amigo, escolher terreno neutro.
Terreno neutro?
- Que tal uma catedral? - Ena, p�.
Talvez um jardim zool�gico?
Para Sua Emin�ncia, Cardeal Leone, 29.
Para Sua Emin�ncia, Cardeal Columbi, 15.
Para Sua Emin�ncia, Cardeal Fracci, 12.
Insuficiente para elei��o.
Para Sua Emin�ncia, Cardeal Leone, 23.
Para Sua Emin�ncia, Cardeal Peumens, 19.
Para Sua Emin�ncia, Cardeal Rinaldi, 14.
Insuficiente para elei��o.
Insuficiente para elei��o.
Depois da sexta vota��o, ainda s� existe fumo negro...
... a sair da janela da Capela Sistina.
A �nica certeza � que nenhum dos preferidos dever� ser eleito.
Poder� ser qualquer um dos Cardeais.
Poder-se-� levar um tempo indefinido para o eleger.
Entretanto, o atraso come�a a causar ondas de crise pelo mundo...
... com o aumento da preocupa��o.
Quem ser� o pr�ximo Papa?
� uma quest�o tamb�m para n�s, tovarich.
Pergunta importante.
H� quest�es maiores, e muito mais imediatas.
Quem importa quem governa dois quil�metros quadrados de Roma?
Seja quem for, fala com a voz de Deus...
... para um quarto do mundo.
Isso transformar� as pedras em p�o para milh�es de chineses?
A n�o ser que sejam alimentados, vamos para a guerra:
� a� que quero chegar, tovarich.
Se tivermos um inimigo em Roma, pode causar-nos imenso mal.
Se houver um homem razo�vel, pode ser uma tremenda vantagem.
Especialmente com a confus�o que enfrentamos.
Ent�o...
... viras-te para a magia. Esta magia romana.
Que te aconteceu, Piotr Ilych?
Vou contar-te.
Suponho que acontece a todos os homens que se sentam no meio.
Cheguei ao fim do livro de regras.
Dentro de meses, haver� um massacre universal.
J� se me esgotou a matem�tica.
A revolu��o est� no ar e n�o estamos preparados para ela.
Os padres jovens est�o preparados.
Est�o a descobrir formas de viver com a mudan�a e fazer mudan�as.
Sim. �s vezes, eles assustam-me.
Porqu�?
Eles v�em injusti�a e querem corrigi-la.
Criam mais ainda, atrav�s da ignor�ncia e da inexperi�ncia.
O nosso amigo Lakota deve ser um perito em revolu��o.
N�o. N�o sou nenhum perito.
Mas viveu sob um regime revolucion�rio.
Bom, n�o � bem assim.
O Marxismo na R�ssia � muito conservador.
Agora a sua revolu��o � para exporta��o.
O nosso problema � igualarmo-nos a eles com o nosso produto.
- Que �? - N�o, por favor.
- Por favor, preferia ouvir. - N�o, gostar�amos de ouvi-lo.
Sim, sim, por favor.
Devemos fabricar a verdadeira revolu��o do Cristianismo.
Trabalho para todos, p�o para todos, dignidade para todos os homens.
Mas sem viol�ncia.
Bom...
... desculpe-me, mas a viol�ncia...
... � a reac��o contra a situa��o que se tornou...
... intoler�vel. N�o �?
Bom...
... nos campos da Sib�ria, pass�mos fome e fomos brutalizados.
Eu roubei.
Roubei algum p�o.
Dei-o, aos peda�os, a um homem cujo maxilar fora partido por um guarda.
Eu...
Lutei com o guarda para salvar o meu amigo.
Podia t�-lo morto.
Foi uma experi�ncia aterradora. Eu, um bispo...
... podia ter morto um homem.
Como bispo, daria a sua aprova��o � desordem social?
Poderia ser for�ado a aceit�-la como pre�o da mudan�a social.
Sim.
Est� a caminhar numa corda bamba moral.
Todos temos de caminh�-la. � o que pagamos por sermos homens.
E se tivesse morto o guarda?
N�o sei.
N�o sei, Emin�ncia.
Sei que estamos em ac��o num mundo brutal.
Temos de proteger os filhos de Deus e se tivermos de lutar...
... lutaremos.
Eu...
Penso que j� falei demasiado.
- Boa noite, Emin�ncia. - Boa noite, Sua Emin�ncia.
Descanse bem.
Kiril.
Kiril.
Meus irm�os.
Meus irm�os.
J� falh�mos sete vezes para chegar a uma elei��o.
Levanto-me agora para exigir um direito da Lei Can�nica.
Com toda a humildade...
... proclamo que � a minha cren�a que entre n�s est� um homem...
... que j� foi marcado por Deus para se sentar na cadeira de S. Pedro.
Tal como o primeiro dos Ap�stolos...
... este homem sofreu pris�o e reclus�o pela f�.
A m�o de Deus tirou-o da reclus�o para se juntar a n�s neste conclave.
Anuncio-o...
... como meu candidato e a ele dedico o meu voto...
... e a minha obedi�ncia.
Cardeal Kiril Lakota.
Obrigado, Emin�ncia, mas eu...
N�o posso consenti-lo.
Eu tamb�m o proclamo.
Tamb�m eu o proclamo.
- N�o, por favor. Por favor, esperem. - Tamb�m eu o proclamo.
Proclamo-o.
Por favor, o tempo j� passou por mim.
- Tamb�m eu o proclamo. - Eu proclamo-o.
- Eu tamb�m, o proclamo. - Pe�o-vos!
- Tamb�m eu o proclamo. - Eu, tamb�m, proclamo-o.
- Pelo amor de Deus! - Tamb�m eu o proclamo.
Proclamo-o.
Por favor, reconsiderem o que est�o a fazer.
Aceita a elei��o?
Deve responder agora.
Aceita a elei��o?
Eu...
Aceito.
Que Deus tenha piedade de mim.
Como escolhe ser chamado?
Escolhemos ser chamados pelo nosso nome.
Kiril.
Foi o nome do santo que primeiro...
... carregou o Evangelho para o nosso pa�s.
Sua Santidade.
Como est�? Que...
Parab�ns, Sua Santidade.
Mas que...
Dispa-se, por favor, Santidade.
- A cruz. - Obrigado.
Com licen�a.
- Como se chama? - Gelasio, Santidade.
Sou Kiril Lakota.
Por favor, reze por mim.
Obrigado.
Emin�ncia, espero que tenha percebido o que fez.
Gaudium magnum. Not�cias alegres. Temos um Papa.
� o russo.
Kiril Lakota.
Elegeram um Papa russo.
O Col�gio dos Cardeais elegeu o primeiro Papa n�o italiano...
... desde Adriano VI...
... h� 400 anos.
Com o mundo em crise, � imposs�vel avaliar nesta altura...
... que ramifica��es isto pode ter.
- Santidade? - Oh, Emin�ncia.
- Os compromissos de hoje. - Sim.
Com licen�a, os meus �culos.
Todos querem ver o Papa.
Bispos, homens de neg�cios.
Actores de cinema?
Sugiro que se ponha em dia com o maestro di camera, Santidade.
Sim, claro que sim. Hoje.
N�o, temos de fazer algumas mudan�as, Leone.
De outra forma, nunca vou conseguir ter trabalho feito.
Ainda bem que � Sua Santidade e n�o eu.
Mas eu preciso de tempo para pensar.
E para rezar.
Odeio a sensa��o de ser gerido.
A gest�o dos pr�ncipes.
- Costumava ser um jogo especial. - Sim.
Elege-se um homem ao poder absoluto e depois limita-se-lhe o uso.
�s vezes n�o � uma m� ideia.
O assunto do Padre Telemond...
... ele tem uma mente brilhante e espiritualidade profunda.
Gostaria de o ter pr�ximo de mim...
... como meu conselheiro pessoal.
Com respeito, Santidade, devo aconselh�-lo contra isso.
- Porqu�? - As suas opini�es s�o suspeitas.
- Andam a ser examinadas. - Pode ter opini�es suspeitas...
... mas a pessoa, acreditamos ser um homem de Deus.
Se Sua Santidade escolhe o Padre Telemond...
... entregar� protec��o e autoridade a uma pessoa inapropriada.
Houve alguma imputa��o contra o seu car�cter ou a sua vida como padre?
S�o as opini�es que s�o suspeitas, n�o o homem.
Isso torna a situa��o muito perigosa.
Reconhecemos o risco, mas estamos dispostos a aceit�-lo.
Comunicar� aos comiss�rios o nosso desejo dum r�pido veredicto...
... sobre os trabalhos do Padre Telemond.
Farei isso, Santidade.
Mais uma vez, devo enfatizar o perigo real...
Como Sua Santidade decidir.
Obrigado.
A fome voltou a aumentar na China.
A ac��o militar aparenta estar iminente.
H� um p�s-escrito que quero que ou�am todos.
Uma carta pessoal do Presidente Peng.
"Estou preparado para medidas extraordin�rias...
... com a Uni�o Sovi�tica e os EUA. Para evitar um desastre horr�vel.
Mas tenho de avisar-vos, se os termos forem muito exigentes...
... ou se houver viol�ncia contra a dignidade do povo chin�s...
... a situa��o sair� do meu controlo...
... para o controlo do ex�rcito.
Pe�o-lhe que conven�a o mundo Ocidental da nossa necessidade...
... assim como do risco da guerra, que nos confronta a todos."
Estamos a um minuto da meia-noite, tovarich.
Se as formigas marcharem para fora do formigueiro...
... haver� ru�na e mis�ria demasiado horr�vel para contemplar.
Pr�xima fotografia, por favor.
Porque se riem?
Riem-se porque este homem foi um prisioneiro pol�tico durante 20 anos.
Hoje foi eleito chefe do Estado da Cidade do Vaticano.
Ele � o l�der espiritual de 800 milh�es de pessoas.
Pode falar com todos os l�deres do Oeste com maior autoridade.
O voto cat�lico na urna.
Devem pensar nisso, sabem, tovarich.
Pensem no que poderia significar se ele desse a palavra certa...
... na altura certa.
Sua Santidade est� pronta.
Sua Santidade?
- Sim? - Sr. Igor Bounin.
Pode mandar entrar.
Sr. Bounin?
Enviei-lhe um presente.
Terra da Ucr�nia. Sementes de girassol.
Piotr Ilych Kamenev.
N�o h� outra mensagem?
"O meu respeito e os meus cumprimentos pela sua elei��o.
A terra � sagrada porque � tudo o que temos onde ficar.
As sementes s�o sagradas...
... porque h� vida fechada dentro delas.
Espero que possam vir a florir no seu jardim."
J� ouvi a sua voz antes.
J� nos conhecemos.
Sim, senhor, j�.
- Tinha outro nome. - Tenho muitos nomes.
Claro.
Estava em alguns dos interrogat�rios com Kamenev.
Sim, senhor, est� correcto.
Continue a sua mensagem.
"Devemos entrar em guerra dentro de dois meses.
N�o h� forma da China conseguir..."
Pe�o desculpa, desculpe, pode repetir, por favor?
"Devemos entrar em guerra dentro de dois meses.
N�o h� forma da China conseguir chegar a acordo...
... com os poderes capitalistas."
Continue.
"Pode consagrar-se a um risco duplo?
Falar com o mundo Ocidental em nome dos chineses...
... e com os chineses em nome do Ocidente?
Isto vincularia um encontro cara-a-cara com o Presidente Peng.
Ele concordou aceitar, se v�s aceitardes."
� tudo?
- H� um pouco mais. - Sim?
"V�s acreditais usar os sapatos de Deus.
Eu tenho de usar os meus.
Sauda��es, Piotr Ilych Kamenev."
Sr. Bounin...
... como interpreta a... A carta?
N�o tenho interpreta��o, senhor.
Nem sobre assuntos desta import�ncia?
N�o, senhor. � um assunto entre Kiril Lakota...
... e Piotr Ilych Kamenev.
Foi instru�do para levar a minha resposta?
Se houver uma, sim.
- Tome. - N�o, senhor, eu lembrar-me-ei.
Sim, claro.
Eu estou...
... comovido pelo seu presente.
Quando voltar� para Moscovo?
Esta noite.
O encontro que sugere...
... � arriscado...
... deixando-nos a todos...
... vulner�veis.
Mas porqu� o jardim zool�gico?
Porque havemos de nos encontrar aqui, com tantos s�tios?
Bem, aqui... � divertido! H� mi�dos e animais.
- Odeio o jardim zool�gico. - Odeias?
Traziam-me aqui para passeios longos e chatos, quando era mi�da...
... al�m disso, os animais deprimem-me.
Vamos a qualquer lado beber um copo.
Hoje est�s muito estranho. Vais fugir daqui a meia hora?
N�o, n�o tenho pressa.
�ptimo. Ent�o vou beber uma margarita.
- Porqu� uma margarita? - Nunca bebi nenhuma.
Parece maravilhoso.
Querido.
Ol�, Gelasio.
N�o, n�o, n�o. Por favor. Por favor. Deixe ficar.
Obrigado.
Gelasio!
Gelasio.
Sua Santidade deseja algo antes de se retirar?
- Caf�, ch�, leite quente? - N�o, obrigado.
Gelasio...
... vamos estar juntos durante muito tempo.
N�s...
Bom...
... dever�amos conhecer-nos melhor.
Suponho que sim, Santidade.
- N�o quer sentar-se? - N�o, eu...
N�o, n�o. Por favor.
Bom, fale-me de si.
- Que idade tem? - Quase 60, Santidade.
Sessenta? N�o.
- � casado? - Sou vi�vo.
- Tem filhos? - Um rapaz e uma rapariga.
Est�o ambos crescidos e casados.
- Onde nasceu? - Aqui, em Roma.
- Trastevere. - Em Roma?
Fale-me de Roma.
Que posso dizer, Santidade? Roma �...
Roma �...
Roma � Roma, Santidade.
Para si, sim. Para mim, Gelasio, �...
... um pa�s desconhecido. No entanto, sou bispo desta cidade.
Diga-me...
... que pensar�o as pessoas dum Papa estrangeiro?
V�o fazer anedotas sobre isso.
Com o tempo, v�o aceit�-lo.
- N�s, romanos, j� vimos tudo. - Sim, j� viram.
Diga-me, como � que se entra e sai deste s�tio?
- A Cidade do Vaticano? - Sim.
H� port�es.
Todos temos um passe.
- O Papa tamb�m? - N�o.
Ele � l�der da Cidade do Vaticano.
Ele pode sair para onde quiser e quando quiser.
Pode, de facto?
Gelasio, arranja-me uma batina?
- O guarda-fato de Sua Santidade. - N�o. Uma preta, como a de um padre.
E um chap�u preto.
Eu...
N�o sei.
Posso tentar.
Sente-se bem?
Desculpe.
Estava com pressa. Tenho um caso urgente ali em cima.
Quase arranjou outro doente.
- Receio que v� perder este. - Lamento. Posso fazer alguma coisa?
Sim. Sim, pode.
Ali em baixo, � esquerda. H� uma farm�cia de servi�o.
Compre isto por mim. Leve ao segundo andar.
- N�mero 13. - N�mero 13.
� urgente.
Com licen�a.
Com licen�a, a m�dica disse que � urgente.
S� um momento.
S�o 3500 liras.
Lamento. Esqueci-me do meu dinheiro.
Posso envi�-lo amanha de manh�.
Posso deixar-lhe uma nota.
Uma nota � um peda�o de papel, Padre.
- Bom, vou ter com a m�dica. - Mas vou confiar em si.
Obrigado. N�o me esquecerei.
Onde � o 13, rapazes?
Doutora.
Meu Senhor Jesus...
... sou teu filho.
- Por qualquer mal que tenha... - Ele n�o compreende, Padre.
Ele n�o � crist�o. Aqui, somos quase todos judeus.
Ele agora est� confort�vel.
- Posso fazer alguma coisa? - N�o.
Morrer � f�cil.
� o viver que nos derrota.
Shalom.
Shalom aleichem.
- Devemos ir embora. - Sim.
Shalom.
Shalom aleichem. Shalom aleichem.
Onde aprendeu hebreu?
Fui estudante b�blico quando era novo.
Isso n�o o justifica, pois n�o?
N�o.
Trabalhei com um rabino num campo...
... na Sib�ria.
J� o vi antes, n�o vi?
Sim, suponho que sim.
Pense em mim como o padre que mandou ao farmac�utico.
O que est� a fazer aqui assim?
Tinha de sair.
Tinha de sair um pouco.
Angelo!
Queria ouvir todos estes barulhos das pessoas a viver.
Simplesmente a viver.
Angelo!
Estava com fome disto.
Consegue compreender isso?
Gostava de sentir a vida assim t�o apetitosa.
Aquele homem l� em cima, � um paciente de longa data?
A minha cabe�a estava longe daqui.
Vamos?
Sim. Posso levar a sua mala?
Sabe, tinha 11 irm�os e irm�s.
Onze em dois quartos.
Desculpe, eu...
N�o sei o seu nome.
Ruth Faber.
Onde ser� que est� o Angelo?
Acha que pode ser o mais novo?
Sabe, o do meio tem sempre a vida mais dif�cil.
- Dr.� Faber, �... - Porque ser� o meu casamento assim?
� errado uma mulher ter um emprego? Ser� porque n�o temos filhos?
Ser� porque ambos vivemos longe dos nossos pa�ses?
Ser� pelas tenta��es de Roma, pelas raparigas t�o bonitas?
T�o bonitas.
A resposta ao porqu� do meu casamento ser assim...
... � porque o meu casamento � assim.
Sabe, �s vezes dava tudo para ser aquela mulher.
Gritar pelo Angelo, tomar conta dele.
Fazer a pasta, passar tempo a lavar a roupa.
Mas parece que nos d�o os nossos pap�is.
Sou este tipo de esposa.
Fui escolhida para isto.
Esta � a mulher dele.
Que tem o homem das longas vestes a dizer de tudo isto?
O homem das longas vestes teria de consultar o concelho pont�fice...
... para estudar as ramifica��es.
Mas o homem dentro das vestes...
... teria reparado que em tudo o que disse...
... nunca mencionou a palavra "amor".
Est� a dizer que n�o o amo?
- Ou ser� que sim? - N�o posso dizer isso. Ningu�m pode.
H� apenas uma �rea a pesquisar.
Se o amor n�o for encontrado...
... onde o viu pela �ltima vez?
Se n�o consegue lembrar-se...
... talvez nunca tenha sequer existido.
Sim, existiu.
Ent�o anda perdido.
Deve encontr�-lo.
Sente o cheiro de cozinhados?
Tem fome?
Quando somos um de 11 filhos, temos sempre fome.
Conhece algum s�tio onde possa levar um prisioneiro foragido a comer?
Sim. Conhe�o o s�tio ideal.
�ptimo.
Obrigada.
- Sua Santidade, o carro est� aqui. - Obrigado.
Bom...
Tem de ir, n�o � assim?
Sim, suponho que sim.
Todos estamos presos, de uma forma ou de outra.
Sim, e os que sabem isso sofrem mais que os outros.
Boa noite.
Eu...
Tenho meias para ele...
... camisas e camisolas...
... para ele.
Tenho pap�is para ele, l�pis para ele.
Por uma raz�o que n�o sei justificar...
... uma boquilha de �mbar para ele.
Vais para casa da M�e?
N�o, pensei que era para onde tinhas ido.
A vida tem as suas alegres compensa��es, n�o tem?
Mesmo quando um homem est� prestes a despedir-se da sua...
... pequena tolice.
Que v� ele, sen�o as �rbitas verdes e penetrantes da sua esposa?
Quando ele encontra uma forma de lidar com essa situa��o infeliz...
... comprando baldes de champanhe, flores...
... algumas j�ias e alguns...
... cart�es de "vamos ficar juntos"...
... o meu telefone toca...
... e sou chamado a Paris.
Por outra pequena tolice?
N�o, por algo que faz o nosso problema parecer muito pequeno.
Sou capaz de concordar.
- Ouviste as not�cias? - N�o.
Todos fomos chamados a Paris. Todos os correspondentes da esta��o.
A luz vermelha pisca em alerta. Devemos aceitar isso de �nimo leve.
Querida, eu...
la pelo menos tentar persuadir-te que estava...
... definitivamente a acabar tudo com a Chiara.
Vai ficar tudo bem.
Quero dizer, n�o apenas n�s.
Sei que vai.
Dou os teus cumprimentos a Paris.
Com esta mensagem...
... Kamenev enviou-me isto.
Est� cheia de solo russo e sementes de girassol.
Mas tem um significado.
Se n�o encontrarmos forma de criar a paz entre os povos...
... a terra ficar� enegrecida.
As flores deixar�o de existir, para qualquer um de n�s.
Como responderia a Kamenev, se estivesse nas sand�lias do pescador?
Esperava, Santidade.
N�o tivemos tempo para estudar as consequ�ncias de tal reuni�o.
- N�o tivemos tempo. - Porque n�o h� tempo.
Muito bem, meus amigos.
Digam-me o que fazer.
Atrasar, Santidade.
Atrasar o suficiente para considerar o que est� em jogo.
Virar as costas e lavar as m�os, como P�ncio Pilatos?
N�o posso lavar as m�os do mundo, nem podem voc�s.
Meus irm�os, se este � o �ltimo som emitido pelo �ltimo homem vivo...
... que seja gritado em alto e bom som.
A vida...
... � um dom de Deus.
Acredita que Jesus Cristo � Deus?
Sim.
Que ele morreu e se levantou dos mortos?
Sim.
Para que fim? Com que prop�sito?
Antigamente dir�amos: "Ele veio para nos redimir e salvar."
Ou como dizem as boas freiras, "para nos comprar ao diabo...
... e levar-nos para o C�u."
Mas n�o o coloca dessa forma.
Receio n�o acreditar dessa forma.
Como acredita, Padre?
Acredito que o homem nasce amarrado.
A qu�, Padre?
� sua pr�pria hist�ria.
E Cristo, o Salvador?
Como � que ele retira o homem dessas amarras?
A morte de Cristo foi o acto...
... pelo qual o homem foi redimido.
O que me preocupa agora...
... � como o acto de reden��o prossegue atrav�s de n�s...
... neste muito conturbado s�culo?
Como observa isso, Padre?
Isto � crucial.
Eu sei.
Deixem-me tentar explicar...
... cuidadosamente.
N�o tenho filhos.
Mas se tivesse, que poderia oferecer-lhes?
Apenas o amanh�.
Morrerei em breve, talvez.
Que me � oferecido?
A n�o ser que saiba a resposta a essa pergunta...
... n�o me resta esperan�a.
Cristo morreu, levantou-se dos mortos...
... foi para o C�u, fora deste mundo.
Mas se ele j� n�o est� aqui...
... connosco, neste mundo...
... estamos verdadeiramente perdidos.
Ent�o...
... chegamos � pergunta cl�ssica.
O que pensa...
... de Cristo?
Desculpe, Emin�ncia, pode voltar a fazer a pergunta?
O que pensa de Cristo, Padre?
Quem � ele?
Ele � o ponto para o qual tende toda a evolu��o.
Ele � o ponto para o qual todo o Universo deve chegar...
... como os raios duma roda se dirigem ao centro.
Ele � o Universo, todo somado.
Ele � o Cristo C�smico.
Padre Telemond...
... est� escrito na escritura:
"Jesus Cristo. Ontem, hoje e sempre."
N�o est� a criar outro Cristo para si?
N�o estou a cri�-lo.
Estou a revelar uma face dele que ainda n�o foi vista.
Tem alguma revela��o privada, Padre?
Talvez tenha, Emin�ncia.
Se tiver, o m�rito n�o � meu.
Na verdade, � um tormento para mim.
N�o posso renunciar a este Cristo que vejo...
... assim como n�o posso renunciar a ele, que pende da cruz.
Coloca-nos grandes problemas.
Muito do que disse e escreveu...
... � de extraordin�ria profundidade e beleza.
Muito ainda n�o � claro.
E, como j� viu, � enigm�tico para n�s.
Ajudaria se nos desse um depoimento esclarecedor...
... daquilo em que acredita.
Acredito num Deus personificado.
Acredito em Cristo. Acredito no Esp�rito.
Mas se devido a alguma revolu��o interna e arriscada...
... eu perdi a minha f� em Deus...
... em Cristo e no Esp�rito Santo...
... penso que continuaria a acreditar no mundo.
Sim, acredito no mundo.
Na bondade do mundo, nos valores do mundo.
Isso, em �ltima an�lise, � a primeira e �ltima coisa em que acredito.
� por esta f� que vivo.
� a esta f� que no momento da morte...
... ultrapassando todas as d�vidas...
... me renderei.
� a opini�o dos membros da comiss�o, portanto...
... que os trabalhos do Padre Telemond...
... apresentam ambiguidades, e at� erros graves...
... em temas filos�ficos e teol�gicos que ofendem a doutrina Cat�lica.
Recomendam que o Reverendo Padre Telemond seja proibido...
... de ensinar ou publicar as opini�es d�bias...
... at� que um exame total e formal...
... seja feito.
O Segundo Concelho do Vaticano n�o afirmou em termos claros...
... a liberdade da consci�ncia do homem e o direito...
... � pesquisa em liberdade?
Sim, Santidade.
Mas com grande respeito...
... submeto que o que um fil�sofo possa publicar sem causar dano...
... tem um significado diferente do que � escrito...
... por um conselheiro papal.
Emin�ncia...
... tem os nossos agradecimentos.
Como devem estas not�cias ser transmitidas ao Padre Telemond?
Eu pr�prio lhe comunicarei.
Tem a nossa permiss�o para ir.
Isto � uma m�goa para Sua Santidade. Eu sei.
- Gostava de poder partilhar... - A nossa m�goa � privada.
Agora gostar�amos de ficar a s�s.
David.
� pior do que pensava.
- David, talvez com o tempo... - N�o h� tempo, Santidade.
� noite, ou�o bater no port�o.
De repente, o trabalho est� desfeito.
Este � o momento...
... pelo qual sempre receou.
Mas eu estou consigo.
Sou seu amigo. Sou seu irm�o...
Mas estou condenado ao sil�ncio absoluto, Santidade!
Isto foi entregue em vosso nome.
Por favor, dizei-me o que devo fazer.
Vou dar-lhe uma ordem.
Vai descansar.
Vai submeter-se a cuidados m�dicos...
... e manter-se-� em sil�ncio.
David...
... � o terror da vida.
Ningu�m pode carregar o fardo de outro homem.
Tamb�m � o terror da Igreja. Odeio-a!
No entanto, n�o posso abandon�-la.
Amo-a.
No entanto, n�o posso viver na sua paz.
Com a sua permiss�o, Santidade.
Meus amigos.
Obrigado por ter vindo, Emin�ncia.
Sua Emin�ncia. Como est�?
N�o tenho muito tempo.
Mas por favor aconselhem-me e questionem-me sem medo ou reserva.
Posso perguntar a raz�o das vestes algo invulgares de Sua Santidade?
� mais f�cil sentirmo-nos iguais se parecemos iguais.
Sua Santidade far� uma declara��o no encontro ou depois?
N�o farei nenhuma declara��o, al�m de cortesias...
... at� regressar a Roma e consultar-vos a todos.
O presidente dos Estados Unidos foi informado da sua visita?
Sim.
Tal como todos os chefes de Estado europeus e asi�ticos.
Nem todos aprovam, mas todos, creio eu, nos desejam boa sorte.
O que espera Sua Santidade ganhar...
... de um encontro privado com dois l�deres marxistas?
A compreens�o das coisas que os levam, e ao mundo, para a guerra.
A sua confian�a em mim como honesto porta-voz nesta altura de crise.
Mais alguma pergunta?
Obrigado. Gelasio?
Ser�o os guardi�es da igreja durante a minha aus�ncia.
Subitamente, sinto-me s�.
- Estamos todos convosco, Santidade. - Obrigado.
Nem todos concordamos, mas todos estamos com Pedro.
Todos oferecemos a nossa ora��o para a sua jornada.
Pai Nosso que estais no C�u...
... santificado seja o Vosso nome. Venha a n�s o Vosso reino.
Seja feita a Sua vontade, assim na Terra como no C�u.
Piotr Ilych.
A certa altura, pensei que n�o viria.
- Porque n�o? - N�o tenho direitos sobre v�s...
... assim como n�o tem raz�es para confiar em mim.
N�o tenho a certeza se posso ajudar. Estou disposto a tentar.
Est� mudado.
N�o me sinto diferente.
Outrora houve orgulho em si. Mais, uma arrog�ncia...
... como se carregasse a verdade numa mala pessoal...
... a qual ningu�m podia disputar consigo.
Quando o odiei, e fi-lo, foi por causa disso.
Aprendi o que sou.
Um homem inferior, que se senta demasiado alto para os dons que tem.
Deixe-me avis�-lo:
Com Peng, n�o podemos ser muito inferiores.
Se assim for, ele vai desprezar-nos.
Se fomos muito superiores, ele vai rejeitar-nos � partida.
Ele vive pela figura. No entanto, n�o se atreve a perd�-la.
Peng compreende que estamos tanto em risco como ele?
N�o penso que estejamos.
Somos os opulentos. Ele tem 800 milh�es de pessoas.
H� fome em tr�s prov�ncias...
... que em breve se espalhar� a todo o territ�rio.
Deus no ajude com o que vamos fazer agora.
Se ele est� onde nos possa ouvir, espero que o fa�a.
Presidente Peng da Rep�blica Popular da China.
Bem-vindo, camarada.
Presidente, Sua Santidade, Papa Kiril I.
Senhor Presidente.
Vamos colocar-nos � vontade?
- Querem... - N�o, obrigado.
Concordei em reunir-me.
N�o estou convencido que possa fazer alguma coisa por n�s.
Apenas tenho uma voz, mas alcan�a muitas pessoas.
Estou preparado para us�-la.
Com que fins?
Primeiro, alimentar o povo chin�s. Para prevenir uma guerra.
A que pre�o?
Da minha parte, nenhum.
Mas os capitalistas estipular�o um pre�o:
O Camarada Kamenev, que j� � semi-capitalista, tem um pre�o.
N�o posso dizer qual � exactamente.
Posso apenas dizer o que n�o lhe devem pedir como pagamento.
Eu digo-lhe o que n�o pagaremos.
N�o vamos destruir o que a revolu��o conseguiu.
N�o nos submeteremos a amea�as militares e explora��es coloniais.
Mas devem retirar as vossas amea�as militares...
... das na��es do Sudoeste Asi�tico.
Deixem os americanos dar-nos uma hip�tese de negocia��o...
... com as na��es do arroz, como fazemos h� s�culos.
Que a R�ssia retire os m�sseis apontados aos centros de produ��o.
Tropas e tanques em milhares de quil�metros de fronteira.
Que os americanos retirem as col�nias militares da Tail�ndia e do Vietname.
Ningu�m pode fazer isso duma vez. Em fases, � poss�vel.
O importante � haver um come�o em conjunto.
A R�ssia pode igualar cada ac��o que fizer para reduzir a tens�o...
... assim como dar o cr�dito que puder para comprar noutros mercados.
Os mercados que necessitamos est�o fechados para n�s.
Estou preparado para advogar e negociar para que se abram.
As palavras s�o baratas.
Senhor Presidente, em que assenta a sua revolu��o?
Em que assenta a revolu��o da R�ssia?
Um homem, que passou a maior parte da sua vida no Museu Brit�nico...
... foi enterrado num pequeno cemit�rio de Inglaterra.
Karl Marx nunca usou uma arma, nunca lutou nas barricadas.
Tudo o que ele tinha eram palavras.
Palavras e uma ideia, que em 60 anos mudaram a face da Terra.
Pensa que consegue faz�-lo outra vez?
Quero tentar.
Mas n�o posso ter sucesso se me devolve as palavras...
... no momento em que s�o proferidas.
Preciso da sua coopera��o no que fizer.
Assim ter�.
Vai falhar. E depois?
Voltamos para a selva!
N�o estava a falar disso.
Estava a falar disto:
Sua Santidade, Kiril I, volta para Roma.
Faz um grande discurso.
Escreve cartas, envia mensagens.
Ser�o ignoradas. Muito educadamente, claro.
Que ir� ele perder? Nada.
O que ter� a ganhar? Muito.
� um homem nobre. Um promotor da paz...
... que infelizmente falhou em fazer a paz.
Presidente, veio porque pensou que eu poderia fazer algo.
Diga-me, o qu�?
Pagar algum do pre�o que temos de pagar.
Que espera que ele possa pagar? Como?
Ao vir aqui hoje, coloquei a cabe�a em risco de execu��o.
Quando atravessar aquela fronteira, ela pode ser cortada.
Esse risco � meu. Qual � o seu?
Obrigado por ter vindo a uma hora t�o tardia.
Que posso fazer por si, Santidade?
Preciso da sua ajuda.
Farei tudo o que puder para ser �til.
Obrigado.
Queira sentar-se.
Eu...
S� quero pensar em voz alta.
Primeiro que tudo, quero dizer como...
Como lamento...
... o que tive de fazer.
Santidade, aceitei o veredicto da comiss�o...
... como um acto de obedi�ncia.
Claro, n�o posso abandonar...
... a minha busca pessoal pela verdade,
nem por v�s, nem por ningu�m.
- N�o seria honesto para comigo. - Compreendo.
Mas, por favor, saiba...
... que aceito a sua decis�o sem reservas:
Sem qualquer ressentimento, com a consci�ncia limpa...
... e um cora��o humilde.
Sua Santidade n�o deve sentir nenhum fardo da minha parte.
Estou verdadeiramente grato.
Isso � um presente magn�fico.
David...
... sinto-me perdido.
Estou perturbado pela ideia da minha coroa��o.
Porqu�?
N�o estou preparado para ser coroado com a pomposidade dum pr�ncipe...
... enquanto homens famintos vivem na sombra da morte.
Porque na emo��o do momento...
... posso ter errado em aceitar a elei��o.
V�s sois Pedro.
H� uma consola��o.
Como Papa, n�o posso pregar o erro...
... n�o interessa a tolice que possa cometer.
A Igreja sobreviver�.
- David... - Perdoai-me.
- David, o que foi? - Perdoai-me.
Gelasio!
Gelasio.
Gelasio!
Gelasio!
Emin�ncia.
Pedimos para ficar a s�s.
Vim oferecer...
... os meus p�sames a Sua Santidade pela morte do Padre Telemond.
Sinto-me culpado.
N�o tem raz�es para tal.
N�o posso evitar, Santidade.
Tenho de fazer uma confiss�o.
Nesse caso, sugiro que a fa�a ao seu confessor.
Estou em desassossego, Santidade. V�s sois um sacerdote.
Tem raz�o.
Tive ci�mes de David Telemond.
Fiz o que estava correcto...
... mas a minha inten��o n�o foi correcta quando o fiz.
Porque teve ci�mes dele?
Por vossa causa, Santidade.
Porque precisava, mas n�o podia ter, o que lhe deu.
Intimidade. Confian�a.
Afecto.
Porque sou um homem velho que serviu a Igreja por muito tempo...
... e pensei que merecia mais.
Estava errado.
Nenhum de n�s merece nada...
... al�m da paga prometida ao trabalhador da vinha.
Emin�ncia...
... tamb�m eu pequei.
Mantive-o � dist�ncia...
... porque n�o consegui tolerar a sua oposi��o.
Estive em falta para com o Padre Telemond.
Eu...
Liguei-me a ele porque...
Estou contente por ter vindo.
Leone...
... como sabe um homem se as suas ac��es s�o para si ou para Deus?
N�o sabe.
Tendes o dever de agir.
Mas n�o tendes o direito de esperar aprova��o...
... ou sequer um resultado de �xito.
No final, meu amigo...
... estamos s�s?
Sim.
J� vi tr�s homens sentados nesta sala.
V�s sois o �ltimo que verei.
Cada um deles, na sua vez...
... chegou ao ponto onde estais agora.
O momento da solid�o.
Tenho de dizer-vos que n�o h� solu��o para isso.
Estareis aqui at� ao dia da vossa morte.
Quanto mais viverdes...
... mais solit�rio vos tornareis.
Usareis este e aquele homem para o trabalho da Igreja.
Mas quando o trabalho estiver feito...
... ou o homem se mostrar incapaz, deix�-lo-� e procurar� outro.
V�s quereis amor.
Precisais dele, tal como eu.
Apesar de ser velho.
Podereis t�-lo por algum tempo...
... mas voltareis a perd�-lo.
Gostai ou n�o, estais condenado a uma peregrina��o solit�ria...
... desde o dia da vossa elei��o, at� ao dia da vossa morte.
Isto � um Calv�rio, Santidade.
E ainda agora come�ou...
... a subir.
"Aceitai esta tripla tiara...
... pois sois o Vig�rio do nosso Salvador, Jesus Cristo."
Estas s�o as palavras com as quais Kiril I ser� hoje coroado.
Agora, estou sozinho aqui.
Mas ao meio-dia, a pra�a e todos os seus arredores...
... estar�o entupidos com cerca de 500.000 pessoas.
Para muitos, a cerim�nia elaborada, a maior da Terra...
... ser� antiga e obsoleta.
Para outros, ser� o s�mbolo da continuidade.
Dois mil anos de mensagem de Cristo.
Desde Pedro, o Pescador, a Kiril I.
Deram-me poder absoluto.
Devem submeter-se ao meu uso dele.
- Est� ligado a prud�ncia, Santidade. - Estamos ligados primeiro � caridade.
- Sua Santidade prop�e o incr�vel... - O imposs�vel.
A Igreja tem de funcionar como uma sociedade no S�culo XX.
- Isso � verdade. - Precisa de recursos financeiros.
- Cristo nunca disse isso. - Santidade, fez um voto...
... de n�o renunciar a nenhum poder ou posses...
... necess�rios � sobreviv�ncia da Igreja.
A �nica coisa necess�ria � Igreja � o esp�rito de Deus.
O que propondes � uma afronta aos vossos predecessores.
Eles usaram a luz que lhes foi dada, eu usei a que me foi dada a mim.
Tendes a certeza que � luz, Santidade, e n�o uma ilus�o?
Acredito que � a luz.
A minha consci�ncia obriga-me a diz�-lo, Santidade.
Estais a fazer uma coisa imprudente e perigosa.
Se os restantes concordarem com Sua Emin�ncia...
... estou preparado para abdicar...
... agora:
Ent�o?
N�o.
Este � Pedro.
E eu estou...
... com ele.
Mais perto da cerim�nia estar� o cl�rigo mais antigo...
... do pr�prio Vaticano.
A seguir, os arcebispos, os bispos, os monsignore...
... as freiras de todo o globo, representando a sua ordem ou pa�s.
Para ser convidado a entrar, sem ser um homem do clero...
... teria de ser provavelmente um pr�ncipe papal...
... um monarca de outro territ�rio...
... um membro do governo italiano, um general ou um diplomata s�nior.
A n�o ser, claro, que o fa�a da velha forma romana...
... que � conhecer algu�m que conhece algu�m...
... que tem forma de entrar.
O Nosso Senhor Jesus Cristo...
... de cujo Vig�rio eu sou...
... foi coroado de espinhos.
Apresento-me perante v�s de cabe�a descoberta...
... porque sou Vosso servo.
Por favor.
Embora fale com as l�nguas de homens, e de anjos...
... se n�o tiver caridade...
... torno-me num barulho amorfo...
... ou num tinido de c�mbalo.
Embora eu tenha toda a f�...
... para poder mover montanhas...
... sem caridade...
... n�o sou nada.
Estamos...
... em tempos de crise.
N�o posso mudar o mundo...
... n�o posso mudar o que a hist�ria j� escreveu.
Eu...
... apenas posso mudar-me a mim mesmo.
Come�ar a escrever um novo cap�tulo com m�o segura.
Sou o conservador da riqueza da Igreja.
Penhoro-a neste momento.
Todo o nosso dinheiro...
... todos os nossos bens em terras...
... edif�cios e obras de arte...
... para o al�vio dos nossos irm�os famintos.
Se para honrar este penhor...
... a Igreja deve reduzir-se � pobreza...
... assim seja.
N�o alterarei este penhor.
N�o o irei reduzir.
Agora...
... pe�o aos grandes do mundo...
... assim como aos pequenos do mundo...
... para partilharem a sua abund�ncia...
... com os que nada t�m.
Sincronia��o: DricaAlmeida
Ripadas por: olimac
Legendagem: SDI Media Group
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