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''A COMUNIDADE''
Eu ouvi! Vai trabalhar numa discoteca.
Vai trabalhar como contador? Como assim? Segurança!
Ficou louco? Vão te matar!
Depois, você me conta. Você não pára de me ligar.
Desculpe. Claro! Eu te amo muito.
Estou nervosa, pois não vendi nenhum apartamento.
Só a primeira semana foi boa.
Além disso, os clientes estão me esperando na porta.
Está frio e chove muito! E eu com esta roupa.
Você tem sorte. Pelo menos, pode trabalhar de moletom.
O que disse?
Alugar um smoking? Você é louco?
Você não sabe que são eles que têm de te dar a roupa?
Ou você acha que os bombeiros compram o capacete?
Nos falamos depois. um beijo enorme.
Eu te amo muito. Tchau.
Que chato!
Luis La justicia? Sou Julia Garcia, da imobiliária.
Desculpe, falava com um cliente que está interessado no apartamento.
Eu lhes disse que é maravilhoso? Vamos.
-Sim, nos disse. -Ao telefone.
As vantagens são muitas. Fica próximo ao metrô, perto do centro...
tem escola para as crianças e um parque para brincarem.
-É completo. -Não temos filhos.
Não? Melhor assim. Nem eu.
Assim, dá para ir ao cinema, ou ao bingo.
Não que eu vá sempre ao bingo, foi só um exemplo.
Esta é a grande vantagem, pode ir a pé a todos os lugares.
-Não tem garagem? -Não. Não tem garagem.
Vamos ver! Deve ser esta.
Tem mais uma coisa. Estes apartamentos antigos...
Normalmente, têm móveis antigos...
e papel de parede estilo anos 7O.
-Já estou imaginando. - Precisa mesmo ter imaginação.
Os donos destes apartamentos, normalmente, são relaxados ou idosos.
Às vezes, até fedem.
Mas este não é o caso. Vejam que maravilha.
Este apartamento é ótimo, pronto para morar.
Está todo mobiliado. Tem quadros...
abajures, televisão, rádio, sofá...
Acho que é um sofá-cama. Não, é apenas sofá.
Parece ser de couro.
Couro puro.
Bem diferente do que tenho em casa.
Sempre que mostro a alguém, penso o mesmo: ''Queria morar aqui''.
Mas gosto não se discute. Não vou pressioná-los.
-Mas o dono mora aqui? -Creio que não.
Aqui diz que está livre. Podemos fechar o negócio...
e vocês se mudam amanhã mesmo. O que acham?
-Podemos ver os outros cômodos? -Claro que sim. Vamos ver o quarto.
Mas, antes, os armários. Tem lugar para tudo, até para as vassouras.
O quarto fica...
Que linda cama! uma cama rara de ver!
-Cama d'água! Como em Las Vegas! -E qual é o preço?
Nunca estive em Las Vegas, mas esta cama é demais.
Muita gente não gosta de muito movimento, me entenderam, não é?
E, se ficarem enjoados, podem desligar. Deve haver um botão em algum lugar.
-E qual é o preço? -Não lhes disseram?
Então, vão pensar? De qualquer forma, peguem meu cartão...
Não muito.
Que elegante! Parece um boneco de ventríloquo.
Isso, pode rir! Tive um dia!
Saí da discoteca, peguei um táxi e adivinhe quem encontrei.
-Quem? -Antonio Pesadas.
-Aquele que trabalhou comigo. -Sei quem é. Ele é insuportável.
Continua insuportável, só que virou taxista.
-Também foi demitido. -Como você.
Não fui demitido por incompetência. Fizeram um corte!
Foi isso que eu quis dizer. Ele também estava sobrando.
Não sei se ele estava sobrando, mas está dizendo que eu estava!
Por favor! Isso foi há quatro anos, esqueça!
Mas você vive me lembrando!
E diz que fui demitido depois de sete anos, pois estava sobrando.
Pois vou lhe dizer uma coisa! Pesadas podia estar sobrando...
mas eu não! Eu era fundamental!
O que é isso?
-um jantar romântico. -Mas de quem é esta casa?
De ninguém. E, como sou a única que tem a chave, pensei que...
Deixe-me ver se entendi.
Este é um dos imóveis â venda, e você resolveu cozinhar aqui!
Não comece a fazer o papel de pai responsável!
Não estou fazendo! Mas você faz o que quer sem me consultar!
O imóvel está vazio! Jantamos, limpamos, e pronto. Ninguém saberá.
-Se descobrirem, será demitida. -E daí? É um trabalho temporário.
Em 15 dias estou na rua. Além disso, vale a pena. Tem uma Jacuzzi.
uma banheira de hidro! E sauna finlandesa.
-Finlandesa? Tem certeza? -E não é o melhor!
Venha!
-Ela se mexe! -É de água!
Dá para controlar a temperatura!
-E se quiser que ela pare? -Deve ter algum botão.
Sabe que preciso relaxar para fazer isso.
Faz seis meses que esperamos este momento!
Tanto tempo?
Entenda! Fico nervoso, achando que pode chegar alguém!
Estamos sozinhos. Relaxe e deixe comigo.
-Ouviu isso? -São os canos de calefação.
Não! É a televisão do vizinho. Dá para ouvir como se fosse aqui.
-As paredes são muito finas. -Esqueça e se concentre.
Se podemos ouvi-los, com certeza, eles podem nos ouvir.
Pare de ser paranóico! Deixe que nos ouçam. Talvez até gostem.
Sai daqui! Sai daqui!
O que foi agora? Que nojo!
-De onde elas vieram? -Disse que não devíamos estar aqui!
Não comece com seu complexo de culpa de escola jesuíta, por favor!
-Mas somos culpados. -Sim, somos culpados.
Estamos aqui fornicando feito dois animais...
mas as baratas não sabem disso!
Por isso, não comece a dizer bobagem, pois me deixa louca!
Tem razão, desculpe. Mas tenho horror a baratas.
Eu também. Vamos fazer uma coisa.
Fechamos a porta, vamos para a sala...
Limpamos tudo, e vamos para casa, por favor.
-Não! Vamos ficar aqui! -Por quê?
Porque sim! Nossa casa é tão fria, que nem dá para dormir!
Aqui tem calefação! Esta é uma noite especial.
uma noite de Valpúrgis!
Não precisa dizer, eu sei. Não quer.
-E você não liga? -Não, tudo bem.
Viveremos como monges. Amanhã, vamos pedir grana no parque.
Seria melhor do que trabalhar numa discoteca.
um moleque de 12 anos disse que vai me matar...
só porque lhe pedi a identidade.
Também, quem o mandou trabalhar numa discoteca?
Disse que faria qualquer trabalho.
-Vamos assistir TV? -Para quê? Não ouve a do vizinho?
E isso aqui era um jantar romântico.
O urubu é um pássaro devorador de carniça.
Assim que ele localiza um animal morto outros vinte aparecem...
para compartilhar. um chacal voraz se une a eles.
O sombrio banquete continua até que não sobre nada.
Ricardo, acorde!
São os clientes das 9:OO!
-Acorde! -Só mais um pouquinho.
Agora, você quer? Vai entender os homens!
Ainda temos tempo para uma rapidinha.
-Vista-se! -O que é isso?
A campainha! É um cliente. Tenho que explicar tudo?
Sou Julia Garcia, da imobiliária. Eu os estava aguardando.
Primeiro, a localização. As vantagens são muitas.
Fica próximo ao metrô, perto do centro...
tem escola para as crianças e um parque para brincarem.
Perfeito.
Couro, dos melhores. um sofá para a vida inteira.
-O que é isso? -Veja! Não mancha de jeito nenhum!
Agora, vou lhes mostrar o quarto.
Não! É melhor mostrar a cozinha antes.
É toda equipada. Tem até torradeira.
Eu disse que era melhor ver a cozinha.
-O que é isso? -um problema de umidade.
-O que vai fazer? -Chamar os bombeiros.
- Não é preciso. Podemos dar um jeito. - É melhor não esperar.
O vizinho de cima deve ter deixado a torneira aberta.
Se a imobiliária descobre...
Pare aqui!
Rápido!
- O que houve? - É hoje! É hoje!
-O velho? Não acredito! -Só pode ser uma desgraça!
-Rezei tanto por isso! -Tomara que não seja alarme falso.
Deus queira.
Parece que deixaram uma torneira aberta.
-Não é aqui. -Desculpe, é ali.
Por favor! Precisamos de espaço!
Por favor! Vocês não têm o que fazer?
O que foi?
Já disse para não vestir isso! Parece um travesti!
-Por que não tocam a campainha? -Não se meta!
É verdade. Deviam tocar antes.
Por que nos chamaram aqui? Para tocar a campainha?
-Eu não chamei ninguém. -Não ouça. Derrube a porta.
-E se ele estiver dormindo? -Não está dormindo!
Além disso, mesmo se tocar a campainha, ele não atenderá.
Ele é um louco! É perigoso.
Qualquer dia, deixará o gás aberto, e explodirá tudo.
Vamos, derrube!
Não encoste no machado! Que droga!
Deve estar trancada.
-Tem uma barra de ferro. -E correntes.
-O que foi? Não entraram ainda? -Estão tentando. Avise Maria e Salas.
Senhora, isto não é um circo! Quem é o síndico?
Ele não está. Foi para a Disneylândia.
Naquela de Paris. Não na outra!
Tinha que acontecer justo hoje!
Você não é o síndico?
E quem é ela?
Não a conhecemos.
É a nova vizinha. Comprou o apartamento do engenheiro.
-Não comprei... -Julian Chueca, da videolocadora.
Prazer. Acabamos de conhecer seu marido.
Muito elegante.
Ele trabalha num cassino. É crupiê.
Curioso. Ele nos disse que ia para a discoteca.
É uma discoteca cassino.
O que você acha?
A serra!
Desçam todos!
-Eu estava na lnternet... -Todos para baixo!
Meu filho tem razão! Por que não podemos ficar?
-Porque estou dizendo. -Não precisa ser grosseiro!
-Desçam! -E ela?
Que fedor! O que é isso?
-Que nojo! -De onde você saiu?
Do meu apartamento! A porta estava aberta...
-lsso não é brincadeira! -Tudo bem.
O vazamento é aqui. Deve ter rompido um cano.
Como alguém pode viver num lugar desses?
-Eu não o conhecia. -Ouviram algo?
Ele está aqui, assistindo TV.
Santo Deus!
-O que fazem aqui? -Ele está morto.
Claro que está. Vemos isso todos os meses.
Morreu há semanas.
Era um homem sozinho. Não tinha família para cuidar dele.
-E este cheiro? -Este cheiro é de carne podre.
O gato devia estar se alimentado do corpo para sobreviver...
e eu lhes asseguro que não é uma visão agradável.
Chega de conversa!
Oi.
Você está aí?
O que está fazendo?
O que está procurando?
Quinze homens vão no cofre do morto
E procuram,e procuram A garrafa de rum
-Levante mais. -Não vamos conseguir.
Levante um pouco, e verá como passa.
Agora, sim!
Ele era um homem magro.
Ele está escorregando. Segure isso.
Em que estado ele ficou!
-Anda, droga! -Calma.
-Devagar! -Como fede!
Saiam da frente!
-Por favor, senhora! -Não empurre!
É ela?
-Ela mesma. -Como conseguiu entrar?
Pelo jeito, foi ela que chamou os bombeiros.
Filha da mãe!
Palavras cruzadas?
Olá, querido.
Estou numa lanchonete.
Sim, os bombeiros vieram. Era um vazamento.
Por que disse que o imóvel era nosso?
Agora, acham que moramos aqui! Quero dizer, lá.
Não é bobagem. Se notarem que não estamos, ligarão na imobiliária.
Acho que passarei a noite lá. Vai para casa?
Então, nos vemos amanhã.
E cuidado com aquele menino. um beijo.
Vamos lhe oferecer muito futebol...
e,com certeza,o melhorcinema.
Via digital,damos tudo.
E agora consegue...
O segredo é o Sr. Brilho!
É fácil de passar!
Fantástico! Agora,só falta cuidar de mim!
O Sr. Brilho faz o trabalho pesado para você.
O segredo é o Sr. Brilho.
Se Ricardo souber, me mata.
Quinze homens vão No cofre do morto
E procuram,e procuram A garrafa de rum
Está solto!
O que está fazendo?
Não agüento mais. Quero falar com ela.
Com uma faca? Ficou louco! Me dê essa faca.
Quer causar uma desgraça?
-O que está havendo? É ela? -Quieto, não ouço nada.
Deixe-me olhar.
Castro, para trás. Controle-se! Que foi?
-Como? -Vai jogar o lixo?
Sim. É muita coisa quando a gente se muda.
Espere um pouco. Não saia daí!
-Não se preocupe. Eu faço isso. -Imagine! Vou com você.
-Não é preciso, não me importo. -Mas eu sim.
-E o seu marido? -Está na cama, exausto.
-Sabe como é uma mudança! -Nem imagino.
Nasci aqui e aqui morrerei.
Não vi vocês trazendo muita coisa.
O apartamento estava pronto para morar.
-Conhecia o engenheiro? -Quem?
-O antigo proprietário. -Não, comprei de uma imobiliária.
Não entregaria meu imóvel a uma imobiliária.
-Por quê? -São todos ladrões.
Ganham sem fazer nada.
-Vamos subir? -Não, vou comprar cigarros.
Cigarros!
-Espere! -O que foi?
É só papel.
-Espera, já vou. -Meu marido leva para reciclar.
Reciclar!
3OO milhões!
Calma.
Sou uma mulher madura.
É uma coisa que aconteceu. Tem de aceitar com naturalidade.
Não vou perder o controle por isso.
Sou uma multimilionária, só isso.
Sou muito rica.
Posso aplicar e passar o resto da vida vivendo dos juros.
Nunca mais trabalhar.
Posso dar a volta ao mundo quantas vezes eu quiser.
Acha que isso me afetaria?
Não. Continuo sendo a mesma.
Milionária, mas a mesma.
O que faz aqui?
-Não queria me ver? -Não. Quero dizer, sim.
-Mas disse que ia para casa. -Se quiser, eu vou.
-Não seja tolo. O que houve? -Nada. A discoteca já era.
-Foi mandado embora? -Não, eu saí!
-Por que sempre diz isso? -O menino de 12 anos lhe fez isso?
Não, pior. O dono da discoteca.
A pedido do pai do menino.
Durou dois dias. Sou o rei dos seguranças de discoteca!
Sou King Kong!
-Grande segurança de merda! -Quer uma cerveja?
Tem cerveja aqui? Nos mudamos para cá definitivamente?
Ouça, Ricardo. Tenho algo importante para lhe dizer.
Não quero saber esta noite. Se é coisa ruim, conte amanhã.
Não é ruim, pelo contrário.
Imagine que algo aconteça e mude tudo.
Quero dizer tudo mesmo! um golpe de sorte.
Olhe bem para mim! Olhe para a minha cara!
Não tenho nada!
Me bateram, me humilharam...
Me sinto ridículo. Prefiro não imaginar nada.
Se não quer saber, tudo bem.
A DROGA MAlS FORTE NÃO É A VELOClDADE.
É O DlNHElRO.
Qual você prefere? Rover ou Mercedes?
Eu prefiro Mercedes. Tem classe, é elegante.
Vou ter que morrer e reencarnar num filho da mãe para ter um.
Nessa vida, jamais poremos a bunda num carro desses.
Só se pegarmos o táxi do Pesadas.
O desgraçado tem um Mercedes.
-Isto está destruindo seu caráter. -Sempre diz que não tenho caráter.
Mas antes não sentia amargura.
Agora, sou um amargurado? É isso que está dizendo?
O que é que você queria? Sempre me olha com um ar superior!
O quê?
Não se faça de ofendida. Vive dizendo que ninguém me agüenta.
''O que foi? Foi demitido?''
- O que está dizendo? - É isso mesmo.
Ouça. Está cansado, as coisas não estão bem e não tem esperança.
Mas não tem o direito de ser grosso.
Durante anos, foi o grosso que manteve essa história viva.
-Que história? -Nossa relação!
As contas, o aluguel, tudo!
Vamos dormir. Amanhã, nós conversamos.
Antes, vivíamos bem. Mas agora que estou desempregado....
e você está trabalhando, vive esfregando isso na minha cara...
para mostrar que você é quem manda. Acha que não percebo?
Jantar romântico, velas...
Mas eu estou numa grande merda!
Não posso comprar nem Audi nem Mercedes! Não posso, está bem?
Eu ia lhe dar uma boa notícia...
mas acabou me deixando de saco cheio!
Eu também estou de saco cheio! Só que de ficar aqui.
-Aonde vai? -Para casa.
Sabe por que não quero ficar aqui? Porque é algo que jamais teremos.
E você não percebe.
Nunca terei esse apartamento, o carro, nem a moça da propaganda.
-E tem que se conformar comigo? -Não disse isso.
Foi o que quis dizer.
Certo. Tenho que me conformar com você e você comigo. E daí?
Pelo menos, não fico esperando um golpe de sorte como você.
Ricardo!
O quê?
Não imagina o erro que cometeu.
Quique, atenda aquela senhora.
-Está tudo certo? -Este é o melhor desjejum de Madri.
-Tem algum jornal? -Se não tiver, eu arrumo.
Com licença. Napoleão ficou exilado na ilha de Elba...
nas ilhas Canárias ou na llha do Tesouro?
-Como? -Estou quase ganhando o jogo.
Acho que foi em Elba.
Paquerando, Charli? Cuidado com este rapaz.
Só estava perguntando sobre Napoleão.
Ele não sai da máquina.
E eu levo bronca da mãe dele, pois gasta todo dinheiro das compras.
O que está dizendo? Que falta de respeito!
Minha mãe não tem nada a ver com isso.
- Mora no quinto andar, não? - É a nova vizinha.
Meu nome é Julia.
É um prazer. Se precisar de algo...
Preciso ir ao açougue. Peguei a senha de número 35.
Chamaram o 25 há 1O minutos.
São 1.525. O melhor preço de Madri.
-Não vai dar. -Não vale?
Claro que sim. No Mercado Comum Europeu, vale tudo. O banco troca.
-Mas sua conta já foi paga. -Por quem?
Osvaldo, o cubano. Ele é professor de dança.
Sabe dançar merengue, salsa, lambada...
-Ele é muito bom. -Agradeça a ele por mim.
VELHO MORRE ASSISTINDO TV
CIFuENTES, 88 ANOS, SEM PARENTES CONHECIDOS...
-O que está fazendo? -Já chegou?
Consegui tirar! Silicone.
Algum safado colocou isso na fechadura de todos.
Bem, não quero atrapalhar. Se precisar de mim, estou no terceiro andar.
Cuidado, tem muito ladrão por aí.
Como vai?
Não, estou no hospital com meu marido. Ele sofreu um acidente.
Foi espancado numa discoteca. uns vinte o pegaram.
Estes fanáticos por futebol. Não sei por que brigaram com ele.
Por isso, não pode ir â agência. Mostrar um apartamento agora?
Acho que não vai dar. Qual?
Outros compradores. Aquele pronto para morar?
E quando eles vão? Agora?
Eu vou lá! Chego em cinco minutos.
Não, não mande ninguém.
Não é nada grave. Foi na cabeça ou na coluna.
Não entendi muito bem.
Estou perdendo o sinal. Depois, nos falamos.
Olá, sou Julia Garcia.
-Podemos ver o apartamento? -Claro, entrem.
Vamos âs grandes vantagens.
Fica próximo ao metrô, mas as senhoras estão velhas para pegá-lo.
É bem centralizado. Tem um bingo ao lado...
onde podem beber algo e jogar.
Tem escola para as crianças...
-Vocês não devem ter filhos. -Como?
-Devem ser do tipo ''tesoura''. -Como?
Ela acha que somos costureiras.
''Tesoura''. Eu vi o anúncio.
''Casal de múmias lésbicas procura apartamento para encontros.''
Por favor! O que quer dizer?
Pensem no assunto. Depois, nos falamos.
Cale-se! Não entendeu?
Parece que não cheguei em boa hora. Vai viajar?
Estou sempre de um lado para outro!
Agora, vou levar umas roupas para o meu marido no hospital.
-O que houve com ele? -Nada. um caminhão o atropelou.
-Sinto muito. -Foi horrível.
O caminhão transportava produtos químicos e desfigurou seu rosto.
Que horror!
-É melhor eu ir. -Tudo bem. A culpa não é sua.
Vim convidá-la para uma festa.
-E quando é a festa? -Esta noite, no meu apartamento.
Todos os anos, comemoro o dia em que cheguei a Madri.
-Puro sentimentalismo. -Eu também comemoraria.
Claro que vou.
E o seu marido?
Ele não se importa com isso. Além disso, não posso fazer nada.
Ele está cheio de tubos e sondas. Entende?
Claro. Você precisa relaxar.
-Então, eu a aguardo esta noite. -Por volta das 21:OO?
Perfeito.
Obrigada pelo café.
Avistamos o alvo. Aguardamos instruções.
Vamos levá-la para o Lado Obscuro. É hora de usarmos as armas especiais.
A Força... Sinto a Força.
Está vindo! A Força!
A Força! A Força!
A Força!
Charli, abra já esta porta. Sei o que faz quando se tranca!
A Força está vindo! A Força!
Pare com isso!
Lucia? Aqui é a Julia. Lembra-se de mim?
Faz muito tempo mesmo.
É bobagem, mas, como trabalha num banco...
Você vai rir!
uma amiga herdou um grande valor em dinheiro dos pais.
Eles deviam guardar em casa, sob o colchão.
Ela quer colocar no banco e quer saber se precisa justificar.
Como? Claro que não estou metida em confusão.
Não sei exatamente quanto. uns $ 3OO milhões.
$ 3OO milhões debaixo do colchão! E daí?
-Normal,não é. -Que seja! Se uma pessoa chegasse...
com esse dinheiro todo no banco, o que você faria?
Sem pensar?
Vou avisar minha amiga.
Obrigada, um beijo.
Nos falamos quando nos encontrarmos.
Chamaria a polícia. ldiota.
É ela.
Atenção! Preparem-se!
Não estava muito animada, mas aqui estou.
Que festa!
uma pessoa quer conhecê-la.
Olá, Julia. Sou Emilio.
O síndico? Prazer. Como estava a Eurodisney?
Vejo que as notícias voam.
Estou aqui há dois dias e sinto como se já conhecesse todos.
Foi maravilhoso. É um sonho, um paraíso para as crianças.
Sua família está aqui?
Não, eles ficaram. Não têm culpa de eu ser síndico.
Estou aqui sozinho.
Todos que estão aqui são vizinhos, não?
Sim, é uma comunidade muito unida.
Nos preocupamos com o bem comum.
Nos preocupamos com o edifício. Alguns sempre viveram aqui.
-Ramona nasceu aqui. -Eu a conheço desde menino.
Tem certeza de que ela não saiu?
Não saiu desde que o cubano esteve lá.
Não agüento mais isso. Emilio andou dizendo umas coisas.
Já disse mil vezes, mas ninguém me ouve. Ele está maluco.
O que você faria?
Conseguimos trazê-la aqui, não? O que estamos esperando?
-Dou um jeito nisso num instante. -Sem que Emilio saiba?
-Ninguém vai conseguir sair daqui. -Cookie! Esta é a nossa música!
Anime-se!
Não tenho música nenhuma, droga! Não me enche o saco.
Vá dançar com o retardado.
Não ligue. Ele é um homem apaixonado!
Apaixonado? O que quer dizer?
Ele se apaixona pelo que faz.
-Gosta de fazer o serviço completo. -Lá em casa não é assim.
Assistimos a filmes todas as noites.
Não quero saber da vida íntima de ninguém.
Mas, já que ultimamente andam tão amigos...
Pare de dizer bobagem! Vá dançar, que é melhor.
Você é muito mandona.
-Tire o paletó, vai passar calor. -Não quero!
Não quer que as meninas vejam que está gordo.
Comeu todos os canapés!
Que coisa horrível foi acontecer!
-Sim, aquele pobre velho. Foi horrível. -Estamos falando de seu marido.
Claro, o acidente. um horror.
Acidente? Não foi espancado pelos skinheads?
Digo que foi acidente, pois o confundiram com outra pessoa.
-Conheciam o velho do quinto andar? -O morto?
-Todos nos conhecemos aqui. -Ele era estranho.
Estava sempre sozinho, nunca saía.
-Pirou depois que ganhou na loteria. -Ele ganhou na loteria?
-Na loteria esportiva. -Mas isso já faz muito tempo.
Não saía de casa, pois tinha medo de nós.
Não é uma tolice? Ter medo de nós!
Medo!
-Posso ir? -Não.
Emilio disse que todos têm que ficar.
Você me obrigou a assinar.
Quer terminar como o engenheiro?
E pare de beber!
-Como anda a coisa? -Não sei. A desgraçada é esperta.
-Mas ela está com o dinheiro. -Não temos certeza disso.
-Ramona a viu com umas sacolas. -Ramona enxerga o que quer.
Por que não revistamos o apartamento dela agora?
Não! Acalme-se. É preciso ter muita cautela.
Devíamos ter feito isso desde o princípio!
Por causa da Eurodisney, nós nos ferramos!
Quando, finalmente, tiro férias...
Você foi muito corajosa de entrar lá com os bombeiros.
-Devia parecer uma cova, não? -Mais ou menos.
O que viu assim que entrou?
Baratas, sacolas de lixo e muita sujeira.
E nada mais?
Deve achar estranho ficarmos perguntando.
Passamos anos tentando imaginar como era.
Se quiserem saber mais, perguntem a ele. Entrou comigo.
Dominguez! lsso é novidade.
O safado não disse nada a ninguém.
Desculpe por deixá-la sozinha. lncomodaram muito?
São encantadoras. Aliás, todos são.
São uma segunda família para mim. Tive sorte de vir morar aqui.
Tem poucos jovens... Quero dizer, como nós!
Chamo de festa da terceira idade. Mas eles adoram dançar.
Só falta você se animar! Vamos?
-Não, só danço em casamentos. -Vamos lá.
Não precisa me acompanhar. Posso ir sozinha.
-Os cubanos são educados até demais. -Gostamos de cuidar das mulheres.
-Aposto que diz isso a todas. -E funciona!
Que vergonha! Fomos os primeiros a sair juntos!
Eu posso ter ido para minha casa e você, para a sua.
Mas você já estava na sua casa. Não precisava sair de lá!
É verdade!
Devem estar pensando o pior!
Então, não podemos decepcioná-los.
Já que vão falar mal, que tenham motivos.
Espere! E o seu marido?
Meu marido! O chato do meu marido!
Não quis dizer antes, mas ligaram do hospital.
-Ele morreu. -É mesmo?
Sim. Sofreu um enfarte quando tomou a anestesia.
Mas não quero pensar nisso agora, quero esquecer. Preciso...
-Precisa se distrair. -Preciso me distrair!
É incrível! Ela faz ondas!
-O engenheiro tinha bom gosto. -Você o conheceu?
Não, mas é como se conhecesse. Todos falam muito dele.
O que aconteceu no teto?
Foi o dedo de Deus que me castigou outro dia.
Sabe de uma coisa?
Vamos lhe dar motivos para castigar.
Profanaremos esta cama de água benta, cometendo um ato selvagem.
Espere! Espere um pouco.
-Tem sorvete na cozinha. -Adoro sorvete, mas volte logo.
Esqueceu o sorvete.
-Estavam bisbilhotando? -Estavam batendo em Dominguez.
Deve ser o Castro. É sempre assim. Tem gente que não sabe beber.
-O que foi isso? -O quê?
Na sala! Tem alguém na sala.
Julia, volte aqui.
O que é isso?
O que fazem aqui?
Como entraram? Saiam já da minha casa!
Sua casa?
-Vamos. -Vou chamar a polícia!
-Tem certeza? -Largue isso!
-O que quer dizer? -Que eu duvido.
-Esqueça, Romana. Vamos. -Ela não me engana.
Vagabunda.
Desculpe, eu sinto muito.
Largue, não é seu! Eu lhe compro um.
Vamos sair daqui.
É inacreditável! Estavam aqui como se nada...
Saia da minha casa.
Saia agora mesmo!
Tinham combinado. Todos os vizinhos!
Veio aqui para abrir a porta!
Como pude ser tão idiota de achar que você... Saia daqui!
Saia!
Espero que seja mesmo inocente. Pelo seu próprio bem.
Saia daqui!
Aonde pensa que vai?
-O que houve? -Quase me mataram por culpa sua!
-Não tenho nada a ver com isso! -Mentirosa!
Disse que eu estava com o dinheiro!
-O que você quer? -Acha que vai sair daqui?
Estão lá embaixo. Vão nos matar!
-Você está louco. -Louco?
Eles estão loucos. Sabe o que houve com engenheiro?
Não quis participar da comunidade, e desapareceu.
-Não estou entendendo. -Então, escute, pois vai morrer!
Nós vigiávamos o velho dia e noite. Pode imaginar?
Todos os dias, durante anos.
Como sabiam que ele tinha dinheiro em casa?
O pessoal do banco veio aqui e entregou dois sacos enormes a ele.
-Os 5OO milhões não saíram de lá. -Não são 5OO, são 3OO.
-Disseram que eram 5OO! -São 3OO, eu contei.
Tanto faz!
Antes, tudo era um sonho, uma ilusão que nos ajudava a viver.
Esperar o velho morrer e pegar o dinheiro.
Agora, ele está morto, e eles querem o dinheiro. Não pode descer.
-Saia. -Primeiro, a mala.
A mala! Vão nos matar por causa dessa droga!
Me ajude.
-Me ajude! -O elevador quebrou de novo?
-Me ajude! -Avise ao Sr. Emilio...
...que o elevador quebrou. -Não chame ninguém.
-Não se aproxime! -Só queremos ajudar.
Volte para dentro e não se meta.
Me tire daqui!
Largue isso, ou eu te mato!
-Você me ouviu? -lsso é tudo culpa sua!
Foi se meter onde não devia.
-O que aconteceu? -Vá para o seu quarto.
Está me esmagando. Está me esmagando.
-Não consigo. -Direi a Emilio que está tudo bem.
Diga que pode ficar com a mala se me tirar daqui!
Deus!
Não, Meu Deus!
-Foi um acidente! -Vamos, vamos!
Se gritar eu te mato! Vamos!
Para dentro! Para dentro!
Não temos nada a ver com isso!
-É culpa do Emilio. -O síndico?
Foi idéia dele. O pobre velho vive na miséria.
Só não queríamos que o dinheiro ficasse para o governo!
Tão gentis.
Vamos. Ela deve estar lá fora.
Quieta.
Emilio entende do assunto, é contador.
Disse que, se ficássemos unidos e tivéssemos paciência...
...dividiríamos o dinheiro. -E vocês acreditaram?
Não, alguns caíram fora.
Os outros assinaram um acordo para receber partes iguais.
Era uma coisa séria. Mas nunca pensamos em fazer mal a ninguém.
Quero morrer agora se estiver mentindo!
-Não quero! -Cale-se!
Vamos sair. Fique de boca fechada.
Você também.
Vamos, saia!
-Vai matar minha mãe? -Não sei, depende!
-Ela está aqui! -Avise meu marido na locadora!
-Controle-se! -Solte-a!
-Vamos conversar. -Tem o bastante para todos.
-Podemos dividir. Terá a sua parte! -Não faça nenhuma loucura!
-Não se aproxime, ou eu a mato! -Você não é uma assassina.
Mas vocês são! Vou sair daqui a qualquer custo!
Está assustada. O que aconteceu com Dominguez não foi nossa culpa.
Foi um acidente, posso provar. O elevador já estava ruim.
É verdade. Chamamos o técnico várias vezes.
-Não fizemos nada. -Como pode pensar isso de nós?
Somos pessoas normais, como você.
Normais? Mataram Dominguez e agora querem me matar.
Ela está certa. Por que não cortamos logo a garganta dela?
Castro, cale a boca. Entregue a mala!
-Não dou! -Entregue a mala e vá embora.
Atormentaram o velho até que ele morresse de medo!
Não vão ficar com o dinheiro dele, malditos!
-Avisem meu marido, por favor! -Ela vai matá-la e ficar com o dinheiro.
-Esperamos tanto tempo por nada? -Deixe-me pensar, droga!
Não tem o que pensar! Ou eu saio daqui...
ou verão um massacre que jamais esquecerão na vida!
Deixem ela levar o dinheiro! Deixem ela levar!
Vou matá-la!
Largue isso!
Castro!
Saiam da frente!
Quem chamou a polícia!
Ainda bem que vieram!
Sou o síndico do prédio.
O corpo está ali. Foi uma cena horrível.
Não olhem. Foi um terrível acidente.
Vocês já estão acostumados com esse tipo de coisa.
-É síndico há muito tempo? -Não vai sair daqui.
-Quer que eu grite? -Pode gritar.
Vai dizer o que tem na mala?
Por favor, Julia.
Estava dizendo que você foi a última pessoa a vê-lo vivo.
Sim, mas foi tudo tão rápido, que..
-É melhor irmos até a delegacia. -Fazer o qué?
Tomar seu depoimento. É apenas uma formalidade.
Sinto muito, não posso ir. Tenho que pegar um avião.
Vai viajar? lsso explica a mala.
Vou viajar a trabalho por apenas alguns dias. Ligo assim que chegar.
Infelizmente, não é possível.
Tem que prestar o depoimento antes.
Por que não fazemos isso aqui?
Me desculpem, mas sei como são essas coisas.
Sem a declaração da testemunha, nada podemos fazer.
É rápido. Eles precisam cumprir seu dever.
Vamos ao meu apartamento.
Não é necessário. Vamos ao meu apartamento.
Obrigada pela ajuda, Emilio, mas não precisamos mais de você.
Vamos subir.
Acho que é tudo, não?
Pode ser chamada futuramente. Por enquanto...
Gostaria de lhes dizer uma coisa.
Aqui, neste edifício, tem alguma coisa estranha acontecendo.
O que aconteceu? Aconteceu o que tinha que acontecer.
Deixou sua esposa sozinha, e ela quase foi morta.
Eu estava na locadora de vídeo.
Mentira. Fui chamá-lo, e só estava a loira lá.
Devia estar no bar tomando um café. Sei lá!
Se não sabe, quem vai saber? Estamos vigiando desde as 7:OO.
-O que faremos quando ela sair? -Não sei, preciso pensar.
-E se ela contar a eles? -Contar o quê?
-Sobre o elevador, a festa... -Não pode contar nada.
Ela não contaria sobre o dinheiro. Viram como segurava a mala?
Não é isso. É complicado.
Digamos que eles passaram anos procurando uma coisa...
que, em poucos dias, eu encontrei.
-''Eles''? -Os vizinhos, a comunidade.
Sabem que está comigo, e querem me matar.
E o que foi que encontrou?
O que encontrou?
Este apartamento.
Sei que parece bobagem, mas é raro.
É mobiliado, tem uma bela vista... Encontrei por acaso.
Eles trabalharam anos para conseguir o que têm.
Tem gente que sente inveja.
E o que isso tem a ver com o elevador?
Acha que querem matá-la, pois seu apartamento é melhor.
É um absurdo, não? Me desculpem, mas estou nervosa.
-Está tudo bem? -Tudo em ordem.
-Ela está saindo. -Faça alguma coisa.
Aceitariam beber alguma coisa? Que tal uma cerveja?
Obrigado, mas temos que ir.
-Poderia nos trazer umas cervejas? -Claro.
-E umas azeitonas. -Vamos tomar umas cervejas.
Gostaríamos muito, mas não podemos beber em serviço.
uma cerveja não mata ninguém.
-Só faz bem. -Já disseram que não! Vamos.
-Julia, uma coisa... -Está falando com você.
Você deixou a porta aberta.
O quê?
Esqueceu de fechar a porta. Vamos, suba.
Feche-a para mim. Até a volta.
Se vai viajar, é melhor passar a chave.
Sabe que há ladrões por aí. Não concordam?
Ele tem razão. É melhor trancar.
-Está bem, mas não saiam daqui. -Fique tranqüila.
Rápido, vai perder o avião.
O policial lá embaixo está chamando.
Vamos esperá-la?
-Vamos deixá-la. -Tem certeza?
É louca.
Não sinto prazer em fazer isso.
Queríamos que fosse mais uma...
a compartilhar a sorte de viver aqui.
Até fizemos uma festa de boas-vindas.
E como nos retribuiu?
Rindo da nossa cara! Tentando fugir, que ê o pior de tudo.
Dominguez não estaria morto se não o tivesse enganado!
Disse a ele que levaria a metade? Que os idiotas iam se ferrar?
Pobre Dominguez, não merecia este fim.
Sabe há quantos anos planejo isso?
Sabe o esforço que fiz para convencer todo mundo?
Rejeitei empregos, bons empregos...
só para continuar aqui.
Sabia que, se eu saísse, não daria certo.
Viu o que acontece?
Só para agradar aos filhos...
a única vez que saio de fêrias em 2O anos...
você aparece, e estraga tudo!
Quem você pensa que ê? Eu vou lhe dizer.
É uma vadia mentirosa que não tem onde cair morta!
Este apartamento nem ê seu! Mas isso não importa.
-Sinto pena de gente como você. -O que está dizendo?
Você sabe muito bem do que estou falando.
São todos iguais, só pensam em si mesmos.
Você nem deve ter uma família. Isso tambêm deve ser mentira.
Claro, não querem ter responsabilidades!
Só querem viver o presente, desfrutar a vida...
e que se dane o mundo! Mas aqui não ê assim!
Somos uma comunidade.
Garcia ê doente...
e vai comer na casa da filha todos os dias.
Ele precisa de um carro para poder se locomover.
Paquita, do quinto andar, tem 4O anos e ainda ê solteira.
Sabe por quê?
Porque sua boca ê nojenta. Nunca foi beijada.
Precisa arrumar os dentes.
Está tudo aqui nesta lista, corrigida ano após ano.
Sabe do que estou falando?
De solidariedade! De respeito!
Nós respeitamos as pessoas.
Mas você desconhece essa palavra.
-Acabe logo com isso. -Não me diga o que fazer!
Você matou o engenheiro, não?
Ele não queria vigiar o velho. Eram apenas duas horas por dia.
Mas ele se achava superior! Claro, não sustentava ninguêm!
Só dormia de madrugada!
Bêbados que entravam e saíam!
Ninguêm conseguia dormir.
Ele estava destruindo a comunidade.
Então, me mate tambêm e me poupe desse sermão.
Você ê um farsante e um ladrão, como eu e todo mundo!
Eu não sou ladrão! Não sou ladrão!
Tenho direito! Tenho direito!
Fizemos o jogo da loteria juntos.
Sem mim, não teria acertado nenhum resultado.
Quando não sabia, perguntava para mim.
Ele disse:
''Sporting contra Real Sociedad.''
E eu...
E eu disse...
''Empate''.
Não sei, veio da minha alma.
Ninguêm mais em toda a Espanha marcou ''empate''. Só eu!
Eu disse: ''empate''.
Quando soube que ele havia ganhado...
fiquei feliz.
-Juro que fiquei. -E ele não quis dividir?
Como se não existíssemos. Fomos vizinhos a vida inteira.
Nos encontrávamos no elevador, no bar...
Isso não significava nada para ele.
Podia ter nos dado uma parte, um bom presente.
Mas não, queria tudo só para ele.
Maldito ganancioso.
Desde então, sonho com esse momento todas as noites.
Se não tivesse dito nada, se tivesse ficado de boca fechada...
se não tivesse dito ''empate''...
o maldito não teria arruinado nossa vida.
Vai ficar com todo o dinheiro?
Não mataria por 3O milhões, mas por 3OO milhões, sim.
As pessoas matam atê por 15 mil pesetas.
Precisava dos vizinhos.
Não podia vigiar o velho sozinho o dia inteiro.
-Planejou isso desde o começo. -Isso ê mentira!
Não precisa mais deles! Como vai fazer para fugir?
Vai matar todos?
Vai precisar de uma boa desculpa para sair com a mala.
Mas com certeza já tem uma.
Teve 2O anos para pensar em tudo.
Atê o que irá fazer com sua esposa e filhos queridos.
Amo minha mulher como a amava quando nos conhecemos.
Deve ser uma boa mulher para agüentar tanto tempo sem fêrias.
Mas agora que vai ter dinheiro, pode ter algo melhor.
Cale a boca.
Alguêm que não saiba o que fez...
que combine com sua nova casa com piscina...
e seu novo conversível.
Não pensou nisso?
Entre na banheira, não quero sujar o chão de sangue.
Mandei entrar na banheira.
1OO, 2OO, 3OO...
O que está fazendo? Por que comprou isso?
Não me distraia, tenho que contar tudo de novo!
Estava preocupada. Você está bem mesmo?
Estou! Me deixa em paz!
Aconteça o que acontecer, não saia daqui.
No final, tudo vai dar certo.
Sim, sou eu. Quem ê?
Que agência?
A imobiliária!
O que foi?
Desculpe, mas agora não posso.
Como? Quem disse isso?
um vizinho.
É verdade, fiquei aqui e certamente estou despedida.
Não se preocupe, estará tudo limpo em uma hora.
Digamos uma hora e meia.
Como? Está chegando alguêm?
Só tem esse apartamento em Madri?
Não tem ninguêm. Entrem.
É um ótimo apartamento.
Agora as grandes vantagens. Fica próximo ao metrô, perto do centro...
tem escola para as crianças e parques para brincarem.
Querem ver a cozinha? É bem equipada.
- Não tem garagem? - Não. É a única coisa que falta.
Se tivesse, já teria sido vendido.
Olá. Sou Julia Garcia, da imobiliária.
-Está ouvindo alguma coisa? -Devem ser amigos dela.
Isso ê de plástico! Não dá para ouvir nada!
Com licença.
-Gostaria de falar com você. -Tudo bem.
-Como se chama? -Javier Pacheco.
Temos que avisar o Castro.
Pediu que eu dissesse que estava no bar.
Que beleza. Vou chamá-lo.
Mas ele não está lá. Não quer que sua mulher saiba, entendeu?
-Saiba o quê? -Do seu caso com a loira.
-Da locadora? -Não sabia?
Não notou que está sempre carregando filmes?
Acho que já viu todos os filmes da locadora.
Não pode ser.
Ela ê gostosa. Atê eu me associei e nem vídeo tenho.
Não quero saber da vida de ninguêm!
Mas como me perguntou...
-Você me bateu! -E devia bater mais.
É só ver um par de peitos que se esquece de tudo.
Só tem merda na cabeça.
Ouça, Jaime ou Javi... Preciso de um favor.
Toquei três vezes a campainha. Disseram que iam avisá-la.
Fez bem, fez muito bem.
Só não quero que mostre o quarto.
-E o que digo a eles? -A verdade. Que tem uma goteira.
-É por isso? -Não.
Digamos que não estava sozinha ontem...
e que hoje, tambêm não.
-Ele lhe fez isso? -O amor âs vezes ê estranho.
Mas ê você ainda ê muito jovem.
-Viu como tem uma goteira. -Não vale a pena mostrar a eles.
É novo, por isso não sabe. Mas isso ê normal no ramo.
Os chefes sabem. É um tipo de benefício.
Bem, vou esperar uns meses antes de começar a trazer as namoradas.
Antes tem de ter uma namorada.
Bem, hoje ê por sua conta, amanhã, por minha.
A SORTE CHEGA À RuA SAN JERONIMO
Tem alguma coisa na minha cabeça.
Me ajude.
Julia, o que você fez? Venha cá.
Julia, venha cá.
Sou eu, Osvaldo. Abra.
Desculpe, não vou abrir.
Onde está o Emilio? Ele machucou você?
-As pessoas estão esperando. -Quem o mandou aqui?
Castro? Ramona?
Não, esqueça-os. Estou sozinho.
Esta ê nossa chance de fugir. Logo eles estarão de volta.
Você só quer a mala, como todos eles.
Quero o dinheiro, mas quero dividi-lo com você, não com eles!
São todos uns loucos. Tenho medo.
Julia, me ajude.
O aeroporto não fica distante daqui. Amanhã estaremos longe.
-Juntos? -Por que não? Há algo entre nós.
Você sabe disso. Precisamos um do outro.
Somos como náufragos. Como dois náufragos numa ilha.
uma ilha cheia de monstros.
Não chore, você ê forte. Não deixarei que a machuquem.
Abra, meu amor. Preciso de você...
mais do que tudo no mundo.
Julia, meu carro já está lá embaixo. Abra.
Você me ouviu? Abra.
Desgraçada!
Vamos!
Não pode ser verdade! Meu Deus!
Me ajude! Querem me matar!
Não me ouviu? Me ajude!
Olá, como vai?
Saia daí!
Tambêm queria fugir, não ê, velho louco?
-Abra a porta! -Empurrem!
Pai nosso que estais no cêu...
Julia? Rápido!
-Charli? -Sim, sou eu. Suba, rápido.
Venha, venha! Onde está a mala?
Esqueça o dinheiro! Eles já estão aqui!
A mala primeiro! A mala!
Aonde vamos?
Ele era meu amigo. Íamos fugir juntos.
Então sabe como sair daqui?
Morreu depois de passar a vida procurando uma saída. Não ê justo.
Corra!
Filha da mãe!
-Estão lá em cima! -Vamos.
Malditos! Vão fugir com a mala!
Por aqui. Sobe.
Esse ê meu plano. Eu os distraio enquanto você foge.
-Como no filme. -Que filme?
Han Solo distrai os soldados enquanto Luke e a princesa fogem.
-Não se lembra? -Isso não ê um filme!
-A Força está comigo. -Eles podem te matar.
Fique tranqüila, nada acontecerá. Me faço de bobo, como sempre.
Tarde demais! A princesa fugiu.
A revolução triunfará! Viva a República!
República! República merda nenhuma!
-O que esse retardado faz aqui? -Parem, assim vão matá-lo!
-Não o deixe sair daqui. -Vamos, Castro!
Depois eu cuido dele!
Disse para não sair de casa!
Ela disse que gostava de mim. Vamos nos casar.
Seu pai tinha razão. Devíamos ter te afogado na banheira.
A mala ê minha!
Meu Deus!
Me ajude.
Me entregue a mala!
Você vai cair! Você vai cair daí!
Se me deixar ir, ela ê sua! Juro que não conto a ninguêm.
Me dê a mala!
Atire, Ramona!
Atire de novo, idiota. Ela vai fugir!
Idiota? Você não me conhece!
Atire logo!
Meu Cookie não! Meu Cookie não!
O que está fazendo, Ramona? Fique calma.
Estamos juntos nisso!
O que está fazendo?
Eu vou te pegar, linda!
Não corra tanto!
Você vai sair daqui, mas vai voando!
Me entregue essa mala já!
Queria levar a melhor! Queria ficar com tudo!
Desgraçada!
O que fez com Emilio? O quê?
Queria ficar com a mala?
Então fique com tudo!
O que acha disso?
Me entregue a mala. Não vai precisar dela.
Me deixe.
Você ê uma grande mentirosa!
Veja como segura a mala! Como se fosse sua vida!
Você ê como nós! Como todos!
Não posso ser como vocês.
Isso não ê uma escolha. Nasceu assim!
Está no seu sangue.
Não respeita ninguêm!
Diga que ê como eu! Diga!
Não, Ramona! Você jamais faria isso.
VIZINHOS SE MATAM POR DINHEIRO QuE NÃO EXISTE
CAVALEIRO JEDI PROCuRA PRINCESA PARA NAMORAR
ENCONTRE-ME NO EL OSO Y EL MADROÑO
Levei 3 dias para descobrir que ''El Oso y El Madroño'' era um bar.
Por que não me contou da troca? Quase me mataram.
Porque eles iriam notar e você não conseguiria fugir.
Só por isso?
Não. Queria saber se não era como a minha mãe.
-Quer um caldo? -Com um pouco de xerez.
-Mais um, por favor. -O que tinha na outra mala?
Charli, como você mudou!
-Pegue. Tire uma folga. -Caramba, Charli!
-Vamos dançar? -Está bem.
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