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UM DOCUMENT�RIO ORIGINAL NETFLIX
Eu sempre disse que, se o Uruguai fosse um pa�s grande,
o mundo talvez dissesse que a democracia social
foi inventada no Uruguai.
Isso definiu toda a nossa hist�ria e a nossa natureza nacional.
� por isso que, at� 1950,
�ramos considerados uma anomalia na Am�rica.
Chamavam-nos a Su��a da Am�rica.
Ap�s 1950, a realidade provou que �ramos verdadeiros latino-americanos.
Mas permaneceu um legado muito forte, que nos influenciou a todos.
A outra influ�ncia foram os anos que pass�mos atr�s das grades.
Uma pris�o significava grande solid�o.
E para nos mantermos vivos,
t�nhamos de pensar e repensar muito.
Devemos muito �queles anos de solid�o.
Na verdade, n�o ser�amos quem somos
se n�o tiv�ssemos passado por um clima pol�tico t�o terr�vel e adverso.
Para mim... Vou dizer algo que pode parecer cruel,
mas acho que o homem aprende muito mais com a dor e o sofrimento
do que com vit�rias e coisas f�ceis.
A nossa luta continuar�,
independentemente dos anos
que esta e outras gera��es ainda possam ter para viver.
Mas o socialismo triunfar�.
A minha admira��o pela natureza � tal que,
l� no fundo, acho que � divina.
O mundo, o universo mineral,
o universo do hidrog�nio,
� t�o vasto e t�o pequeno,
a part�cula de vida que podemos conceber e tocar,
que sinto afeto pela vida.
Manuela.
Vou tomar um duche, fazer a barba e vestir um fato.
Vou vestir um fato...
O fato que vestirei � o mesmo
que usei quando tomei posse.
Mandei-o � lavandaria e est� como novo.
Os melhores governantes...
... s�o aqueles que, quando se retiram,
deixam atr�s um grupo de pessoas que s�o muito melhores do que eles mesmos.
Esta � uma luta coletiva, uma luta de gera��es. Obrigado.
No dia 26, o Uruguai n�o para, mas continua a efetuar a mudan�a...
JUNTOS PELA TERCEIRA VEZ
... como o Tabar� Vazquez e o Pepe Mujica fizeram. For�a!
Este foi o �ltimo dia da presid�ncia de Pepe
e ele disse ao povo:
"N�o vou partir, estou s� a chegar."
Isso significava que o esp�rito militante continuava,
o compromisso continuava.
1 MAR�O, 2015 �LTIMO DIA DA PRESID�NCIA DE PEPE MUJICA
PRA�A INDEPEND�NCIA MONTEVIDEU
Particip�mos no movimento estudantil,
no trabalho social em La Teja
e tamb�m com os trabalhadores de cana-de-a��car em Artigas.
Bom dia.
� uma honra.
EX-MINISTRO DA DEFESA - EX-MEMBRO DO MLN
E come�ou a surgir a repress�o,
por causa de todos aqueles movimentos,
no in�cio dos anos 60.
Foi quando nos conhecemos.
Em La Teja, El Cerro,
os bairros humildes, a trabalhar, socialmente.
Ele chamava-se Facundo. Exato.
OBRIGADO, PEPE
Ele tamb�m se juntou ao MLN.
Est�vamos sempre juntos, em tudo.
E... termin�mos os 13 anos de pris�o celular.
Conhecemos todas as pris�es do pa�s.
Passei anos a viver em quart�is.
Treze.
Dia e noite.
Muito do que vos digo hoje
nasceu naquele tempo de solid�o na pris�o.
Eu n�o seria quem sou hoje.
Seria mais f�til, mais fr�volo, mais superficial.
Mais virado para o �xito, mais de vistas curtas.
Mais agressivo.
Provavelmente. Mais seduzido pelo �xito.
Mais escultural.
Mais tudo isso, que n�o sou hoje,
eu seria se n�o tivesse vivido
mais de dez anos de solid�o profunda.
� por isso...
� esquisito, Kusturica.
O que lhe vou dizer n�o pode ser interpretado
com uma atitude tacanha.
�s vezes, o que � mau � bom.
E, �s vezes, por sua vez, o que � bom � mau.
INAUGURA��O
PRESIDENTE MUJICA COM LOS OLIMARE�OS
TOMADA DE POSSE PRESIDENCIAL MAR�O DE 2010
O mundo est� ao contr�rio.
Voc�s deviam estar aqui no palanque. E n�s, a aplaudir-vos.
Porque esta batalha...
Esta batalha que realizam...
... n�o � infal�vel.
Precisa de todos v�s.
Amanh�, a nossa p�tria continua
e o nosso compromisso continua.
Companheiros, isto �-vos dito, pedido,
e rogado por um velho lutador.
Neste momento, n�o preciso de dinheiro. De todo.
Para viver, n�o preciso de mais do que tenho.
Al�m disso, vou criar aqui uma funda��o,
com a minha casa, a minha quinta, aquele campo,
a escola... E tudo ir� ficar para a funda��o.
Vou incluir alguns vizinhos,
para que, mais tarde, a possam gerir, apoiar a escola e seguir
porque temos de nos preparar para a viagem sem regresso.
Como n�o tenho filhos... e n�o gosto dos direitos sucess�rios,
se a deixar para o estado, h� a nossa burocracia,
que � pior do que a burguesia.
Irm�o,
o tango � pura nostalgia.
Por aquilo que tivemos.
Por aquilo que n�o tivemos.
� algo para as pessoas que aprenderam a perder na vida.
Temos de ter sofrido algumas derrotas
para come�armos a gostar de tango.
A minha vida com o Pepe foi t�o importante
porque unimos duas utopias.
A utopia do amor e a utopia do esp�rito militante.
E isso ajudou-nos
a vencer muitas experi�ncias dolorosas...
... de circunst�ncias dif�ceis que enfrent�mos
e a ter muitos momentos belos.
Este local testemunhou uma parte da dolorosa hist�ria do Uruguai.
PENITENCI�RIA DE PUNTA CARRETAS
Estas portas n�o estavam aqui.
Eu ainda era um rapaz.
Havia algo chamado Centro Um.
Naquela altura, os prisioneiros...
Os chamados "prisioneiros pol�ticos",
misturavam-nos com os comuns.
Os comuns aprendiam muito com os pol�ticos.
Antes disso, os comuns nunca tinham tido
poetas, m�sicos, direitos humanos nem nada do g�nero.
Tinham uma Pol�cia dura.
Isto n�o tem nada que ver com aquilo.
Aqui, havia um corredor central com mesas e bancos
e ali, em forma radial, as celas da pris�o.
Esta foi uma penitenci�ria onde me mantiveram preso.
Eu sei.
Naquela altura, era um pouco diferente.
Est� bem?
Quero pensar por um minuto
em algo a que eu chamaria uma inova��o.
Porque algumas inova��es s�o venenosas.
Ol�!
� que algu�m teve a ideia de p�r uma c�mara nos telem�veis.
Fez-me perder imenso tempo.
Perco horas por causa disso.
Todos estes telem�veis t�m muitas caracter�sticas criativas.
E cont�m montes de coisas.
Como sou velho
e tenho problemas na pr�stata, como todos os velhos,
anseio que haja uma sanita nos telem�veis.
Que loucura!
Exato, telem�veis com sanitas para velhos.
Teriam de ser de borracha para serem el�sticos.
Com uma tecla para os esvaziar logo.
- Somos brasileiros. - Est� bem.
� um prazer conhec�-lo.
- Est� tudo muito mudado. - Bom dia, presidente.
Mataram-nos com estas flores artificiais.
Mas tamb�m h� naturais.
- Mataram a ind�stria. - N�o, tamb�m temos naturais.
Sim, eu sei, mas estas s�o maravilhosas.
E duram indefinidamente.
Para simplificar, os homens apaixonam-se pelas mulheres
e as mulheres apaixonam-se pelos homens.
� assim que o mundo funciona. E isto acontece em qualquer situa��o.
Se o analisarmos demasiado,
perdemos a poesia da vida.
Quando inseguros,
acho que os homens t�m uma necessidade de amor mais intensa,
talvez devido a uma necessidade instintiva de se sentirem mais seguros.
� uma forma de amar a vida. Sou velho
e vejo-me na minha juventude, que j� passou.
E a minha companheira � o meu ref�gio das tens�es e vice-versa.
O amor n�o � sempre um ref�gio?
As flores s�o duras.
T�m uma dureza terna.
S�o delicadas. Adoecem.
Precisam de uma agricultura muito inteligente.
Temos de aprender a identificar as cores.
As folhas dizem-nos: "Preciso de azoto."
"Tens de me dar f�sforo."
Obrigam-nos a observar.
Est� cientificamente provado que as plantas s�o sencientes.
E? Qual � o lucro?
Vendem-se todas a um pre�o alto.
Os cris�ntemos s�o caros.
Mas temos de ter muito tempo.
Porque esta limpeza familiar � cara.
D�-me outro quilo de carne picada. Nunca � de mais. Dois chacareritos.
Este c�o � mais caro do que um porco.
Em todo o governo, o mais fiel a mim � o c�o.
Posso pagar-lhe?
N�o � o mesmo discutir pol�tica e assuntos privados.
Os assuntos pol�ticos devem ser totalmente independentes.
Na verdade, est�vamos de acordo nuns e noutros n�o.
O compromisso tem de estar presente
quando estamos certos e tamb�m errados.
Porque n�o estamos sempre certos.
Nunca imagin�mos que o Pepe se podia tornar presidente.
Os presidentes da rep�blica t�m de se dedicar a coisas importantes, n�o a isto.
O que achas desta comida para c�es?
N�o � como as pastilhas que vendem agora.
Foi tudo enquanto... E num momento muito dif�cil.
Da� ser dif�cil transmitir...
... como � poss�vel
o amor nos distrair de qualquer perigo circundante.
� dif�cil misturar as duas coisas.
Na verdade, quando levamos uma vida clandestina,
os afetos rom�nticos s�o essenciais.
Porque perdemos muitas coisas.
Ent�o, quando nos envolvemos numa rela��o ou nos apaixonamos,
ganhamos muito.
Os anos na pris�o foram �teis porque pusemos a imagina��o a trabalhar.
E foi um tempo muito curto
porque fomos presos.
Depois, pass�mos por uma longa espera.
�ramos nove ref�ns. Tr�s, tr�s e tr�s. Tr�s grupos.
O meu grupo era o Mujica, eu e o Rosencof.
�amos sempre para todo o lado do gulag...
... que formaram l� dentro.
Sim, senhor.
Como est�?
Como vai a sua sa�de?
- Ia perguntar-lhe o mesmo. - Bem...
Um dia, o �ato fez as contas e viu que n�s os tr�s t�nhamos vivido mais tempo juntos
do que com as nossas mulheres.
Exatamente.
Conhecemos todas as pris�es do pa�s.
Porqu�?
Porque �ramos muito perigosos, diziam eles.
Porque eram t�o perigosos?
Porque �ramos os l�deres,
os criadores da guerrilha urbana...
... os n�o ortodoxos que n�o...
Que usaram a cabe�a
e n�o participaram na guerrilha rural, mas inventaram
a melhor guerrilha urbana daquela altura.
Feita no Uruguai.
Peixe frio!
Leve-o para casa!
Uma expropria��o.
Tivemos de obter os recursos econ�micos
necess�rios para a nossa luta, de cometer crimes.
Cham�vamos-lhes "expropria��es",
mas, em termos simples, eram crimes
na linguagem do nosso atual estado legal.
Entre ali.
O Movimento de Liberta��o Nacional - Tupamaros passou
de uma guerrilha urbana rom�ntica, que roubava aos ricos para dar aos pobres,
para um ex�rcito de pol�ticos armados que,
abrigados na clandestinidade,
sequestravam empres�rios, diplomatas, assessores e agentes estrangeiros.
ASSASSINARAM HOJE DAN MITRIONE
Ocuparam cidades, assaltaram arsenais, bancos...
DE OLHOS VENDADOS E AMORDA�ADO
... empresas estrangeiras e organiza��es militares.
Cham�mos-lhes "expropria��es" e era isso que eram.
Assaltar um banco n�o era pecado.
Ent�o, diz que o maior crime...
Porque a delinqu�ncia �, nos Estados Unidos,
criar um sistema banc�rio e fazer dinheiro sem trabalhar.
� o escal�o mais alto
da delinqu�ncia humana, n�o sangrenta,
em princ�pio, que se pode ambicionar.
� a gl�ria do capitalismo, trabalhar e fazer dinheiro com o dos outros.
Nem sequer com o trabalho dos outros,
com o dinheiro deles.
� a quinta-ess�ncia...
� capitalismo na forma mais pura.
Vou dizer o que o Mack the Knife disse
em The Threepenny Opera,
de Bertolt Brecht.
A Pol�cia prende o Mack the Knife porque tinha assaltado bancos.
Ele tem uma audi�ncia perante o juiz.
O argumento do Mack the Knife em tribunal
foi dizer: "Senhor juiz,
vai comparar um assalto a um banco
com a funda��o de um banco?"
� lindo entrar num banco com uma .45.
Toda a gente nos respeita.
Toda a gente nos respeita.
Na altura, era o segundo anivers�rio
da morte de Che Guevara.
E essa foi uma das raz�es
por que decidimos organizar
uma afetuosa homenagem a ele,
al�m de outros objetivos.
Da� termos ido tomar a cidade de Pando.
Era um ardil em que fing�amos
que algu�m que morrera em Buenos Aires era trazido para o Uruguai,
os restos mortais dele,
e, por isso, t�nhamos contratado servi�os f�nebres...
... para o enterrar em Pando.
Na verdade, era tudo falso...
CORTEJO F�NEBRE FALSO
... para a cobertura e os ve�culos
chegarem a Pando sem levantar suspeitas, com um grupo bastante grande de pessoas.
Naquela altura, us�vamos normalmente
o calibre .45.
E havia algumas Lugers de nove mil�metros.
E tamb�m algumas Walthers.
Era assim.
Naquela altura, isto era um foco,
uma vez que n�o havia telem�veis.
Cortando este local, imped�amos significativamente a comunica��o.
A coisa mais dram�tica foi que uns pol�cias vieram connosco.
Um deles acabou a beber cerveja connosco e os outros foram presos.
E alguns ficaram feridos quando tentaram resistir.
Mas, quatro ou cinco dias depois, est�vamos a operar na rua.
At� hoje, n�o sei por que raz�o,
os bandos fascistas proliferaram em Montevideu.
Come�aram a atacar o partido comunista,
os judeus...
Com navalhas, esculpiam su�sticas
nas coxas das raparigas.
A esquerda, que era pequena,
e os sindicatos
come�aram a organizar grupos de autodefesa,
especialmente contra aqueles bandos,
que at� invadiram a Universidade da Rep�blica
e a ocup�-la
com o apoio ou a cumplicidade da Pol�cia.
Como Maidan.
- Como Maidan. - Quem estava por tr�s deles?
A direita.
E os Estados Unidos.
Obviamente.
N�o h� fontes de direito
mais criativas do que as revolu��es.
As revolu��es causam sempre novas ordens legais.
N�o conhe�o nada mais pol�tico do que uma revolu��o.
E as pessoas sentem-se ofendidas quando dizem que os atos pol�ticos acabam
acima dos atos legais.
Ou melhor ainda, que a lei � a express�o congelada
de um tempo pol�tico.
Que, como est� congelada, por vezes
se torna inconsistente � medida que o tempo passa.
At� vir uma nova onda e a reformar.
Eu sabia do Bordaberry h� muito tempo.
Porque sabia da Opera��o Gladio,
do ex�rcito secreto da NATO,
criado logo ap�s a Segunda Guerra Mundial com os servi�os secretos nazis.
Eu estava preso com o Pepe
e v�amo-los trazer...
Ouv�amo-los trazer gente da Argentina
para Rocha.
Isso foi em 1974.
Eu j� sabia que havia um plano de transfer�ncia
para todas as ditaduras no Cone Sul.
O primeiro golpe de estado foi no Uruguai.
ABAIXO A OLIGARQUIA
Junho.
Primeira tentativa e golpe fracassado no Chile.
Setembro. Chile.
Triple A na Argentina.
Depois, o golpe de estado de 1976.
A seguir, na Bol�via.
E, em 1964, tinha havido um no Brasil.
Os jornais americanos falaram do golpe de estado no Brasil
antes de ter lugar.
EX�RCITO REVOLUCION�RIO DO POVO
Publicaram-no na hora errada.
E, naquela altura, dizia-se: "N�o h� nenhum golpe de estado na Am�rica
porque n�o t�m nenhuma embaixada americana."
A ditadura uruguaia fazia parte da chamada "Opera��o Condor",
uma opera��o coordenada por governos militares da Am�rica Latina,
promovida pelos Estados Unidos,
para encarcerar, sequestrar, torturar e fazer desaparecer advers�rios pol�ticos.
Quantas vezes o alvejaram?
Encarceraram-me e, l�, tive...
Tr�s les�es numa perna e duas no abd�men.
Uma delas era muito grave.
Perdi o meu ba�o.
E tenho meio pulm�o com fibrose
e uma infe��o no p�ncreas.
Por isso, vivo com um pulm�o e meio.
Fui capturado em 1969,
quando t�nhamos tomado a cidade de Pando.
Depois, fugi da pris�o, com o Pepe,
pelo t�nel de Punta Carretas.
Em julho de 1971,
mais uma vez, os Tupamaros chegam �s manchetes internacionais.
Da penitenci�ria de Punta Carretas,
fogem 106 guerrilheiros.
Um evento que est� no Guinness Book of World Records
e que foi um exemplo de organiza��o e criatividade
para se realizar a maior fuga da pris�o na hist�ria.
N�o nos import�vamos de correr riscos.
N�s pens�mos: "Est�o a vigiar os canos de esgoto."
Depois, fui capturado de novo,
num tiroteio em 1972,
quando me capturaram quase morto,
visto que tinha muitos ferimentos de bala.
E eu j� n�o podia voltar a fugir.
Declararam-nos oficialmente ref�ns.
Eram t�o brutos
que informaram o mundo que �ramos ref�ns.
Que por tudo o que se passara no Uruguai,
�amos pagar com as nossas vidas
ou com os nossos corpos.
Eles privavam-nos de �gua ou davam-nos s� um copo por dia.
Podemos tolerar a fome, mas n�o a sede,
porque as entranhas come�am a doer. � insuport�vel.
E descobrimos o truque
de que, se urin�ssemos numa lata, deix�ssemos repousar um tempo
para os sais pousarem e ficar � temperatura ambiente,
pod�amos beber como se fosse um champanhe importado.
Bebiam mesmo?
Claro.
- Como? - Gole a gole.
Do �nico modo que a podemos beber.
- Como vai o trabalho? - Vai andando.
- Causa-lhe problemas? - Muitos.
Bem.
Estas s�o as mulheres encarregadas do trabalho.
J� come��mos a construir isto
numa das �reas mais pobres.
Constru�mos-lhes casinhas
ou reparamos as que eles t�m,
melhorando-as, adicionando uma casa de banho, fornecendo-lhes �gua.
Este � o primeiro projeto no bairro.
- Estas s�o duas casas juntas, certo? - Duplas, sim.
Duplas, com ch�o, a parte modular por cima.
Esta � a forma mais barata de se construir
porque os pre�os de constru��o s�o agora muito altos no Uruguai.
E o mercado nunca dar� casas aos pobres. Jamais.
Mas a ideia � n�o esperar
que paguem alguma coisa de volta.
� apenas dar.
Porque os setores mais pobres
s�o tamb�m os que t�m mais filhos.
E come��mos a trabalhar.
Recolhemos coisas do estado.
Os ve�culos que o estado descarta ou vende, n�s reparamo-los.
Conseguimos uma loja abandonada.
Come��mos a recolher aqui e ali coisas n�o usadas
e a pedir donativos.
Invisto aqui 70 % do meu sal�rio.
Todos os meses.
Deviam trabalhar para os uruguaios,
n�o para o IMF e todos aqueles...
S�o os fantoches deles?
E quem lhe disse isso? N�o lhes pedimos um �nico c�ntimo.
- N�o, mas seguem as regras deles. - N�o.
Mas se n�o tivermos uma conta no IMF...
- Mas eles estabelecem limites. - Abra a mente.
Todos t�m limites.
N�o tem limites em casa?
- O qu�? - O que julga que �?
O rei da Mong�lia?
Quem manda sou eu, n�o a minha mulher.
Voc� n�o manda, meu caro.
- E voc�s, no Uruguai? - Fazemos o que podemos.
Sou m�e e tenho dez filhos.
Hoje, vivemos de outra maneira.
Eu j�...
Por exemplo, quando chove, eles podem olhar pela janela.
Isso � diferente.
E como a minha, todas as outras fam�lias.
N�s, as 86 fam�lias, apoiamo-lo.
Mas estamos a fazer progressos.
Constru�mos cerca de 1500 casas.
Mas isto � s�
para os mais pobres do Uruguai.
Os verdadeiramente indigentes.
Foi o Pepe Mujica quem teve a ideia do Plan Juntos.
A partir da�, nasceu tudo.
Ele gosta de trabalhar com os mais pobres.
Sobretudo onde h� crian�as, m�es solteiras que t�m de as criar.
� uma bela ideia, n�o �?
O que faz? Cruza os bra�os � espera que chova?
- O que est�... - Para arruinar tudo.
- Para... - Fa�a uma coisa...
Voc�.
Est�o a cagar na nossa bandeira no Est�dio Centen�rio.
- E os arruaceiros como voc�... - Fant�stico.
- Os arruaceiros como voc� dizem asneiras. - Sou...
Sou da sua idade, companheiro.
Sabe que mais? � uma l�stima...
Uma verdadeira l�stima estarem a perder o Uruguai.
E por sua culpa.
- N�o seja mais um deles, cobarde. - O que...
Sou o qu�?
� um cobarde de merda!
- N�o. Cobarde � voc�. - Voc� � que �.
Cabr�o cobarde de merda!
N�o me lembro.
Tenho uma mem�ria seletiva.
Apaguei-a.
Foi a coisa mais dif�cil de fazer.
J� n�o temos um problema econ�mico. Temos um problema aqui.
H� nove anos, quando subimos ao poder,
t�nhamos uma taxa de pobreza de cerca de 39 %.
H� nove anos.
Agora, � de 11 %.
A educa��o tornou-se mais facilmente acess�vel.
Agora, bem...
Isso � uma melhoria material e econ�mica, n�o � moral.
Havia cinco por cento de indig�ncia.
Agora, temos 20 000 fam�lias indigentes.
Corresponde a 0,5 %.
Quando o conheceu? Lembra-se?
Quando o viu pela primeira vez?
Foi numa a��o militar,
em que ele desempenhava um papel e eu outro.
E depois...
... trabalhei num departamento que fazia documentos falsos.
E ele ia buscar documentos.
Na altura, t�nhamos documentos que...
A qualidade era melhor do que se v� hoje.
Aqueles eram mais perfeitos.
N�o o sab�amos.
Mas foi assim.
Como um rel�mpago na noite.
Passaram muitos anos. E c� estamos.
Com ele. N�o estarei aqui amanh�.
- Aonde vais? - A Maldonado.
Ela est� em campanha eleitoral. Est� em roadshow total.
Mas � f�cil tornarmo-nos um casal
quando partilhamos uma causa pol�tica.
Devido � semelhan�a de ideias
e porque a vida de um militante
se torna intoler�vel quando a outra pessoa n�o � militante.
Porque n�o h� hor�rios fixos.
Bem...
Pode haver circunst�ncias n�o planeadas, eu sei l�.
Apresento-vos a nossa querida camarada Luc�a Topolansky.
Irm�os e irm�s,
obrigada por se juntarem a n�s esta tarde.
Agrade�o � Virginia, ao Daniel,
aos nossos companheiros nesta luta do partido Frente.
Digo sempre aos jovens militantes
que a primeira coisa que t�m de fazer � recrutar os parceiros e as fam�lias.
Para que entendam o que se passa.
Sen�o, ir�o perder este apoio b�sico.
Sou republicano, mas sabe qual � o defeito?
As presid�ncias tendem a agir como monarquias.
Um tapete vermelho...
E as rep�blicas t�m de ser diferentes.
Porque, se o poder estiver na maioria,
temos de tentar viver como vive a maioria.
N�o como a minoria.
Na pol�tica, caros camaradas,
temos de escolher pessoas com cora��es grandes e bolsos pequenos.
AM�RICA LATINA EM TRANSFORMA��O BEM-VINDO
Hoje, o Presidente Mujica teve um dia agitado,
come�ando com uma reuni�o com George Soros,
onde o assunto da marijuana e as normas de mercado
foram discutidos e isso foi o t�pico central. Al�m disso...
Em vez de apenas nos escondermos atr�s de medidas policiais,
dev�amos procurar pegar nesse mercado, conhec�-lo, organiz�-lo
e, nos casos cr�nicos, ap�s o conhecermos,
poder trat�-lo como uma doen�a.
� o que o Uruguai est� a tentar fazer.
E queremos que a humanidade observe.
E nos ajude.
Se estivermos equivocados,
iremos reconhec�-lo e corrigi-lo.
Mas n�o pensem que o Uruguai ser� um destino tur�stico
para se consumir drogas. N�o.
N�o venham com essa ideia. A inten��o n�o � essa.
V�rios imp�rios quiseram,
do exterior e de cima, dividir-nos
para nos dominarem politicamente e, assim,
nos roubarem em termos econ�micos.
Vivemos numa �poca em que temos de aprender ingl�s.
N�o h� como o evitar.
E vivemos numa �poca em que temos de aprender ingl�s. Sim ou sim?
E t�m de se tornar um pa�s bilingue. N�o h� como o evitar.
E t�m de se tornar um pa�s bilingue. Sim ou sim?
Porque a for�a das mulheres latinas � admir�vel.
Porque a for�a das mulheres latinas � admir�vel.
E elas ir�o encher este continente
de pessoas que falam espanhol.
E elas ir�o encher este continente de pessoas...
E tamb�m portugu�s.
... que falam espanhol e tamb�m portugu�s. E tamb�m portugu�s.
A Europa est� a tornar-se uma col�nia americana.
Napole�o queria uma Europa at� aos montes Urais.
E Putin quer que a Europa...
Que a R�ssia fa�a parte da Europa.
At� Vladivostok.
Os EUA n�o. Nem a Gr�-Bretanha.
E os pa�ses europeus...
... t�m desempenhado um papel vergonhoso na Ucr�nia.
Porque quando a Sra. Nuland disse
que os pa�ses europeus...
... "que se lixe algo", n�o sei o qu�, ela insultou-os.
A toda a Uni�o Europeia.
E imp�s a destabiliza��o na Ucr�nia.
Com cinco mil milh�es de d�lares investidos em ONG.
Em ONG.
Que n�o s�o n�o governamentais.
S�o muito governamentais.
Esse � o maior feito dos Estados Unidos.
O papel da cultura � incomensur�vel.
Creio que a batalha cultural
� aquela que n�o lut�mos.
N�o haver� uma humanidade melhor se n�o houver transforma��o cultural.
A cultura n�o s�o os quadros que penduramos,
ou isto que est�o a fazer.
A cultura � o conjunto de valores di�rios que seguimos.
Isso � parte da constru��o de uma sociedade melhor.
Viajo e percorro muitos quil�metros para tentar transmitir
algo que ser� fundamental no futuro.
Estou?
Tudo bem.
Posso falar um pouquinho.
BEM-VINDO
BEM-VINDA - GERA��O DE 2015
Eu e a minha mulher dedic�mo-nos a mudar o mundo
e perdemos a oportunidade de ter filhos.
E aproximamo-nos da sepultura,
por isso, temos de pensar no que deixamos para tr�s.
Sei que nenhuma destas coisas pode mudar o mundo,
mas precisamos de milhares delas
para que o mundo mude.
Est� bem. Pronto.
Come�amos a mover a terra entre as plantas,
um pouco, assim, com a p�.
Veem? D�-me.
Temos de a empurrar de baixo para cima.
E de a mover com cuidado, para o torr�o n�o se partir.
Agora, se...
Se pusermos duas...
Que tal? Quem gostaria de tentar?
Devagar, de baixo para cima.
Devagar, sem pressa.
Temos de esperar dois meses para a comermos.
E s�o as curgetes redondas.
� bom ensinar aos pobres como cultivar flores.
Porque, neste mundo, tudo cresce.
E haver� sempre pessoas muito ricas.
Ent�o, se elas cultivarem flores
para venderem aos ricos, safam-se bem.
Levar�o uma pequena parte das fortunas deles.
Os pobres, pelo menos aqui na Am�rica, n�o consomem flores.
Eles t�m de consumir alimentos.
Mas quando h� poderes sedent�rios, h� procura de flores.
� f�cil e r�pido deitar uma parede abaixo,
mas constru�-la n�o � f�cil nem r�pido.
Mas para aprendermos isto, temos de envelhecer.
Quando somos jovens, achamos que � f�cil
quebrar coisas.
� muito mais dif�cil construir.
Lamenta alguma coisa na sua vida?
Sim.
N�o ter tido filhos.
O meu pai era da terceira gera��o,
originalmente do Pa�s Basco.
A minha m�e era de Col�nia,
da segunda gera��o de italianos.
Eles conheceram-se em Carmelo.
Compraram uma casa l� em Paso de la Arena.
O meu pai come�ou a trabalhar nos servi�os p�blicos rodovi�rios.
Mas fumava muito.
Adoeceu e morreu quando eu tinha cerca de sete anos.
O que faria se tivesse, como o mexicano, 80 mil milh�es de d�lares?
Seria imposs�vel. Mas eu viveria como ele,
desesperado por descobrir quem me andava a roubar.
Acho que deve ser a maior preocupa��o dele.
Mas se tivesse 80 mil milh�es, o que faria pelo seu pa�s?
N�o, eu nunca poderia ter essa quantia.
N�o a posso ter. Eu gast�-la-ia muito antes de l� chegar.
N�o.
A humanidade precisa
de investimentos gigantescos.
A favor da vida.
Temos de levar grandes massas de �gua salgada para o cora��o do Sara.
De mudar o clima.
De evaporar muita �gua salgada.
Temos de criar novos rios
com os degelos do norte da Sib�ria.
E de levar �gua doce para a Mong�lia,
para a parte seca da �sia.
Temos de nos aproveitar do degelo no Alasca
e criar um rio dentro das montanhas Rochosas
que corra no norte do M�xico.
Isso �... H� muitos projetos para a humanidade inteira.
Temos de tornar a Patag�nia habit�vel. � poss�vel.
Podemos mudar o clima no deserto de Atacama.
Podemos plantar �rvores em Atacama, o deserto mais seco do mundo.
Pode ser feito. O homem pode faz�-lo.
Em vez de termos velhos a acumular riqueza,
ou de fazermos carros de um ou dois milh�es de d�lares.
Pode ser feito, mas...
� a mesma tese
a favor da vida. N�o contra ela.
Perten�o a uma gera��o
que pensava que o socialismo estava ao dobrar da esquina.
A minha juventude pertence ao mundo da ilus�o, como a de tantos outros.
A hist�ria ensinou-nos que era muito mais dif�cil.
E aprendemos isto.
Para podermos ter uma humanidade melhor,
a quest�o cultural � t�o importante, sen�o mais,
que a quest�o material.
Podemos mudar o lado material, mas se a cultura n�o mudar,
n�o h� mudan�as.
A verdadeira mudan�a acontece nas nossas mentes.
Bem...
Presidente, bom dia. Como se sente nestes �ltimos minutos como presidente?
Sinto o mesmo que em qualquer outro dia.
N�o compreende. N�o pode.
O dia mais emocionante da minha vida
foi quando me transferiram de Paso de los Toros para a pris�o
porque percebi ent�o que a ditadura estava a cair.
Isto n�o � nada comparado com isso.
Obrigado, rapazes.
- O que fez esta manh�? - Trabalhei.
Cortei pasto com o meu trator. Bastante nervoso.
Obrigado, Pepe.
Imensas pessoas
que eram socialistas emigraram para o capitalismo.
O capitalismo seduziu-as.
E h� outras,
como eu e outros, que tentamos limitar o que podemos do capitalismo.
Mas o capitalismo n�o � a solu��o.
Temos de encontrar outra coisa. Outra forma.
Pertencemos a essa busca.
Na Am�rica Latina, n�o h� solu��es, h� buscas.
Viemos da Argentina para c�!
Obrigada, velhote!
N�s adoramo-lo!
- Obrigada, meu querido camarada. - N�s adoramo-lo, velhote!
Como iriam as pessoas perceber que n�o existe o teu e o meu?
Isso � porque, no fundo, somos animais greg�rios
e, como tal, somos socialistas.
Mas a hist�ria e os desenvolvimentos
na hist�ria transformaram-nos em capitalistas.
Em individualistas. Porque h� uma contradi��o
em n�s.
Para sobrevivermos, lutamos pela vida.
E esse � um ego�smo saud�vel
que todos os seres vivos na natureza partilham.
Contudo, tamb�m somos solid�rios porque temos de criar sociedades.
Porque n�o somos o Robinson Crusoe.
N�o podemos viver na solid�o.
E essa verdade de civiliza��o e solidariedade,
o maior bem poss�vel,
como uma esp�cie, pode ajudar-nos a viver.
Superar esta contradi��o
e ter a solidariedade acima do ego�smo,
vem a um pre�o exorbitante.
Qual foi a melhor qualidade do discurso dele?
Ele sabia comunicar t�o facilmente com uma dona de casa,
um cidad�o vulgar, um trabalhador de campo,
como com um empres�rio, um intelectual,
um cientista. Ele tinha uma flexibilidade maravilhosa.
E empregava palavras extremamente simples
para explicar coisas complexas e profundas.
Isso separou-o dos outros camaradas.
E come�ou a torn�-lo um orador p�blico,
em primeiro lugar, um comunicador de ideias
que eram sempre discutidas coletivamente
na nossa organiza��o pol�tica.
Por isso, creio que foi essa combina��o
de comunica��o, uma linguagem que era simples,
e compromisso
e a integridade de viver de acordo com os ideais,
que geraram a f�rmula que o levou ao governo
e a um governo que era diferente, a uma presid�ncia diferente de outras.
Uruguai!
Uruguai!
Preparado!
- Meu caro Pepe! - Como correu a viagem?
Como est�s?
Querido povo, passaram cinco anos fratricidas.
Passaram rapid�ssimo, querido povo.
Querido povo,
obrigado. Obrigado pelo vosso abra�o.
Obrigado pela vossa cr�tica.
Obrigado pelo vosso amor.
E sobretudo, obrigado pela vossa profunda camaradagem
em cada uma das vezes
que me senti s�
enquanto era o vosso presidente.
Se eu tivesse...
Nunca o duvidem,
se eu tivesse duas vidas,
dedic�-las-ia a lutar as vossas guerras.
Porque � a forma mais pura de amar a vida que pude encontrar
ao longo dos meus quase 80 anos.
N�o vou partir,
estou s� a chegar!
Partirei com o meu �ltimo alento.
E onde quer que esteja, estarei l� para v�s,
estarei ao vosso lado,
porque essa � a melhor forma de abra�ar a vida.
Obrigado, meu querido povo.
Tem de cuspir o primeiro. � demasiado forte.
Vamos ver.
Ele deixa-o meio cheio.
Se calhar, n�o gosta.
Temos de fazer assim...
Tem de soar vazio.
Cant�vamo-la na cama.
"Conta-me a tua senten�a, fala do teu fracasso.
N�o v�s a pena que me tem ferido?
E fala comigo simplesmente daquele amor ausente."
Legendas: Ana Paula Moreira
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