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Um filme de Lajos Koltai
SEM DESTlNO
Direc��o de fotografia Gyula Pados
M�sica Ennio Marricone
Produc�o Andras Hamori
Argumento lmre Kertesz
Realiza��o Lajos Koltai
Baseado num caso ver�dico
HOje n�o fui � escola. istO �: fui...
Mas para pedir ao professor que me deixasse ir para casa.
Dei-lhe a carta que o meu pai me confiara para lhe entregar.
O professor quis saber o motivo.
Disse-lhe que o meu pai tinha sido convocado para trabalhos for�ados.
Ele n�o insistiu.
Fui direitinho � nossa loja.
O meu pai disse que estaria l� � minha espera.
Ol�, meu amigo.
Mas que bela "condecora��o"!.
N�o ter�s de a usar muito tempo esta afronta n�o h�-de durar.
- O professor deixou-te sair? - Sim.
Disse-lhe que o pai foi chamado para trabalhos for�ados.
- E ele? - Deixou-me sair.
E pronto. O armaz�m � um caso arrumado, Sr. Suto.
Tudo corre sempre bem entre velhos conhecidos, Sr. Koves.
Se calhar, o melhor era desfazermo-nos de tudo...
Antes que as autoridades deitem a m�o a todo o equipamento.
Os pre�os nunca estiveram t�o inflacionados!
Deixo isso ao seu crit�rio. Sei que posso confiar em si.
Ent�o, nesse caso... o melhor era...
... entregar-lhe j� as mercadorias.
Mercadorias?
Pois claro! As "mercadorias". Eu devia dar-lhe um recibo...
Ora essa, Sr. Suto... n�o h� qualquer necessidade.
Eu sei que o senhor confia em mim...
Mas existe um modo correcto de fazer neg�cios.
N�o � verdade, Sra. Koves?
De qualquer forma, estaremos permanentemente em contacto.
Quanto mais n�o seja, para fazer a contabilidade.
Estamos a contar com a sua ajuda e experi�ncia...
Como fizemos nos �ltimos anos.
Adeus e boa sorte.
Sr. Koves, s� me ocorre dizer-lhe...
... que nos tornaremos a ver muito brevemente!
� o meu desejo, tamb�m.
Menos uma coisa com que nos preocuparmos.
N�o dev�amos ter ficado com o recibo?
Era in�til. At� as autoridades nos roubam!
Chamou "mercadorias" �s j�ias por minha causa?
- Eu sei o que tem a caixa. - � segredo, Gyurka. Ouviste?
Est�? Sim, sou eu.
Desculpa, mas n�o posso deixar-te ver o Guyrka hoje.
Gostava de o ter comigo neste meu �ltimo dia...
- Antes de me ir embora. - Gyurka, j� tens 14 anos e meio.
Sei que o teu pai pode confiar em ti...
para te pores como deve ser neste dia t�o triste.
� a tua m�e.
N�o, n�o posso.
� o �ltimo dia dele aqui. A m�e ouviu.
Claro. Segunda-feira. Est� bem.
J� n�o vou precisar das chaves.
- Tens fome? - Imensa!
Quase n�o comeste nada.
N�o consigo comer.
N�o podes entrar em desespero.
Vou ter tantas saudades tuas!
- Estar�s por tua conta. - N�o estarei, n�o!
Ambos tomaremos conta um do outro, at� ao teu regresso.
- N�o �, Guyrka? - Claro.
N�o tenho fome.
- Ol�. - Ol�.
N�o! Est�pido!
Ent�o e aquilo que se passou ontem � noite, durante o ataque a�reo?
Eu estava com medo e tu aproveitaste-te de mim!
Est�s zangada?
Podes aparecer l� hoje � tarde? Para jogarmos �s cartas.
- Sim! N�o... N�o posso. - Porqu�?
O meu pai foi chamado para trabalhos for�ados.
Ent�o e amanh�?
� melhor depois de amanh�.
Talvez.
Como tudo isto � terr�vel!
Ao que chegou o mundo!
- Meu filho. - M�e, por favor, sente-se.
Vais para fora?
- O que se passa? - Eu digo-lhe.
- Sim... - Isso mesmo. Sentadinha a�.
Sim...
Mas al�m...
N�o � preciso. � muito cedo.
Ainda n�o estamos � mesa.
H� negocia��es secretas em curso.
N�o vos posso dizer mais do que isto. � uma informa��o de confian�a!
Como as tuas dicas para as apostas, que eu perco sempre...
Antes de o Vili ter o neg�cio das apostas...
Era um dos melhores corretores da Bolsa.
Os Alem�es sabem que a sua situa��o na frente de combate � catastr�fica.
Est�o a servir-se de n�s, os judeus de Budapeste...
Para pressionar os Aliados a efectuarem concess�es.
- E as execu��es massivas na Pol�nia? - Isso � diferente!
A Pol�nia n�o � a Hungria.
- E os guetos da prov�ncia? - Um boato sensacionalista!
Para aumentar a parada.
Ent�o, para qu� apresentar-me no campo de trabalhos?
Talvez seja outro boato!
Bem, eu n�o te aconselhava a fazeres isso.
Mas vais ver que est�s de novo em casa n�o tarda.
Estamos a ser usados como parte de um mega processo de chantagem.
As negocia��es h�o-de dar frutos muito em breve.
Se eu tivesse tanta certeza acerca das minhas apostas...
N�o seria um pobretanas!
Gostava de falar contigo.
Claro. Mais daqui a pouco...
Gostava de te dar uma palavrinha.
- O teu pai vai-se embora amanh�. - Eu sei.
E de certeza que tamb�m sabes que os teus dias...
De jovem sem preocupa��es chegaram ao fim.
Agora �s parte integrante do destino comum dos judeus.
Sabes o que esse destino implica?
A estrela amarela, por exemplo?
E muito mais coisas.
Milhares de anos de persegui��es implac�veis, que temos de suportar...
... com paci�ncia e resigna��o. - Porqu�?
Deus imp�s-nos tais penas, pelos nossos pecados,
e s� d"Ele podemos esperar miseric�rdia.
- Tens rezado pelo teu pai? - N�o.
Preocupava-me eu n�O entender O que est�vamOs a dizer a Deus.
Acho que me embrulhei um bOcadO...
Mas ao chegar ao fim da ora��o senti...
Que t�nhamos conseguidO fazer alguma cOisa pelo meu pai.
- O meu nome � Steiner. - Boa noite, meus senhores.
Os nossos vizinhos: o Sr. Steiner e o Sr. Fleischmann.
Por favor, n�o se levantem. Viemos despedir-nos.
Todas as noites, passamos a guerra em revista.
Guerra de que eu pr�prio farei parte amanh�.
Pois, mantenha essa postura abatida e nunca perca o desalento!
Ora, n�o se preocupe!
N�s tomaremos conta da sua mulher e do Gyurka.
Fa�am favor de continuar a jantar.
N�o, � porco!
Era o que havia no mercado negro!
Acreditem em mim:
As coisas v�o mudar de forma dr�stica muito em breve.
Que o Todo-Poderoso nos ajude...
A sentarmo-nos brevemente de novo � mesa para uma refei��o de fam�lia...
Em paz, amor e sa�de!
� tarde, Gyurka.
N�o quero acordar-te de madrugada.
Eu talvez regresse um dia.
At� l�...
... cuidem um do outro.
A tua m�e...
... pode tentar tirar partido do facto de eu n�o estar contigo.
Ela pode tentar aliciar-te a ires morar com ela.
Mas tu sabes qual � o teu lugar.
A tua madrasta construiu-te um lar, e a tua m�e abandonou-nos.
Deves ficar aqui, apoiando-a.
Eu escrevo-te.
E tu, escreve-me, Gyurka.
Filho!
O seu abra�o foi completamente inesperadO.
N�O sei se fOi issO que me fez chorar, ou se fOi a exaust�o.
A verdade � que desde que a minha madrasta o insinuara...
Que eu me preparava para,...
Mais tarde ou mais cedo, ter de chorar, conforme se esperava de mim.
Fico contente por ter sidO daquela forma.
E senti que o meu pai tamb�m tinha gostado.
DepOis, mandOu-me para a cama.
Estava estoiradO...
Mas senti que pelo menos ele iria partir para o campO de trabalho...
Com a mem�ria de um belo dia.
Estamos em plena guerra.
Eu estou s�...
Tenho saudades tuas.
Porque nos abandonou, a mim e ao meu pai?
A decis�o foi dele, n�o minha.
Tens-me amor?
Claro que sim.
Ent�o porque insistes em ficar com aquela mulher?
Eu n�o insisto, mas...
O amor n�o se pode provar por palavras!
- Tu n�o me amas mesmo. - Isso n�o � verdade!
Mas a briga � vossa: Tua e do pai.
Eu n�o posso ir contra a vontade dele...
Agora que est� no campo de trabalho.
Vai-te embora. J� falta pouco para o recolher obrigat�rio.
Eu n�o sou abrangido por ele. Tenho um passe.
Ent�o, amanh� come�as a trabalhar!
- Ainda bem que ele tem um passe! - Tem raz�o, minha querida.
S� oi�o falar de raids da pol�cia e de gente a desaparecer.
- N�o sejas porta voz da desgra�a! - E tu n�o enfies a cabe�a na areia!
E o que diz o nosso amigo nas suas cartas?
Aquilo que lhe permitem.
Diz que tem sa�de...
Que consegue aguentar o trabalho, que o tratamento l� � humano...
Mas o que dir� ele por entre as linhas?
Enquanto as cartas chegarem regularmente n�o h� problema.
Pelo menos, escreve.
- E como vais tu para o emprego? - Deve ser de comboio, n�o?
Ainda baralhas o rapaz!
Ele deve ir � de autocarro!
Ent�o, comboio ou autocarro?
- Comboio! - Autocarro!
O autocarro p�ra mesmo � entrada da refinaria.
Se lhe deres ouvidos, ter�s de andar imenso.
- Comboio! - Autocarro!
Deus sabe tudo, mas o Steiner tem a mania que sabe mais! Comboio!
Autocarro!
- Comboio! - Autocarro!
Est�vamos mesmo a falar de ti! O que � que fazes l� no trabalho?
Misturo argamassa e passo tijolos.
Oper�rio de constru��o!
Quem havia de dizer?
- Tens fome? - Mais ou menos.
Eu vou andando.
Como lhe hei-de agradecer, Sr. Suto?
Ora, n�o � nada, Sra. Koves!
Uma promessa � uma promessa.
E diga ao seu marido que pode contar sempre comigo.
Sim.
Ando a par das novas leis.
� vergonhoso!
O que � isso?
- Uma pequena lembran�a. - N�o posso aceitar, Sr. Suto.
N�o me trate como um estranho, Sra. Koves.
Achas que devia ter recusado a lembran�a?
Vou a casa da Annamaria, jogar �s cartas.
- Ainda n�o comeste. - Como quando voltar.
Passa-se alguma coisa? N�o houve jogo?
- N�o. D�i-me a cabe�a. - A culpa � da estrela amarela.
Passou a tarde a falar disso.
- Do qu�? - De que as pessoas a odeiam.
Eu disse que n�o me importava que elas me odiassem,
- Se existisse l�gica nisso! - N�o estou a perceber.
- As pessoas n�o te odeiam? - Quem haveria de me odiar?
- Toda a gente. - Mas porqu�?
- Por causa disso! - Isto? Bem, elas podem odiar-me...
Mas acho que n�o � a mim em particular que odeiam.
- � uma coisa mais gen�rica. - Elas odeiam em geral?
Sim, em geral.
N�o �s tu nem sou eu, mas sim uma ideia que fazem dos judeus.
Boa! � que eu n�o fa�o ideia o que isso seja!
- Isso o qu�? - Ser-se judeu.
- Toda a� gente sabe o que �! - � uma religi�o.
A mim interessa-me saber o que significa.
S� sei que � uma diferen�a, algo que nos separa das outras pessoas.
Como se tu pudesses decidir qual � a nossa diferen�a...
- Para al�m da estrela! - Eu n�o uso a diferen�a na roupa...
Ela est� dentro de mim.
Mas n�o sei se deva ter orgulho nela, ou vergonha.
N�o devias ter nem uma coisa nem outra.
Ent�o para qu� usar esta maldita estrela amarela?
Estava para lhe dizer que n�O se preOcupasse...
Porque, para mim, aquilo n�o significava nada.
Eu n�o a rejeito por causa da sua religi�o.
Mas n�o sei porqu�, pela primeira vez senti...
Algo parecido com vergonha.
Aten��o! Quem tiver estrela amarela tem de sa�r!
H� aqui algu�m com estrela amarela?
- Algu�m com estrela amarela? - Sim.
Tens de te apear.
- Sou oper�rio de guerra. - Muito bem. Tens de descer.
Podem vir!
- Ele n�o te aceitou o passe? - N�o.
- O que � que vos aconteceu? - Tamb�m n�o aceitou os nossos.
Para tr�s do dique! Toca a andar! Depressa! Um, dois...
Isso mesmo.
Passageiros com estrela amarela, saiam!
Venham c�!
- Rapazes, � o Rozi! - Onde? A s�rio?
Mostraram-lhe os passes?
Temos de estar na refinaria Shell �s sete horas.
- Pois hoje v�o chegar tarde. - Porqu�?
Porque vos vou prender.
Para tr�s do dique!
Baixem-se! Depressinha! Um, dois... Toca a baixar!
Al�m, al�m! Isso mesmo!
Baixem-se! Baixem-se!
- Ele vai prender-nos porqu�? - Deve ser brincadeira.
Que mal faz atrasarmo-nos? � menos trabalho que temos.
Que diabo vou eu fazer convosco?
Desculpe, mas n�o o posso ajudar a descobrir.
Pergunta-lhe!
Quando � que nos vai deixar ir?
Quem me dera saber!
Esperem aqui. Eu j� volto.
Sim, sim!
Mas O que � que fazemOs? Eu digo o qu�?
Ele est� a telefonar.
- Consegues ouvir? - Convosco a falar, n�o.
O encarregado deve estar a estranhar.
A culpa n�o � nossa. O pol�cia h�-de explicar-lhe.
Temos de aguardar novas ordens.
Voc�s parecem rapazes instru�dos.
Deixem c� ver. Conhecem o jogo da Cabra-Cega?
- Quem era? - O Moskovich.
N�o!
Bom dia, senhor encarregado!
Sempre � verdade! Ouvi dizer que os mandou descer do autocarro.
Estes rapazes foram designados para trabalhar para mim.
- Eu sei, vi os passes. - Ent�o liberte-os imediatamente!
Acha que os tenho aqui por brincadeira? Recebi ordens!
Os rapazes est�o ao meu cuidado.
O que digo eu �s m�es, se eles n�o voltarem para casa?
Isto � uma certifica��o de identidade. Os documentos deles est�o em ordem.
H�o-de voltar para casa. Est� a perceber?
N�o v� que eles s�o mi�dos?
Que � do seu sentido de responsabilidade enquanto pol�cia?
Mais uma palavra sua, e prendo-o juntamente com eles.
Mostre-me os seus documentos!
Ao diabo os documentos!
Ora bem...
Vamos l� continuar.
O bom do encarregado mostrou-lhe como era!
- Quem quer jogar �s tr�s-Marias? - Como �?
Pega-se numa m�o cheia de pedras, atiram-se as pedras ao ar...
E quem apanhar mais, ganha.
Olhem!
Tenho uma reuni�o do conselho de administra��o mais logo.
Sou essencial para a produ��o aeron�utica.
- Amanh� tamb�m � dia. - Ouvi-o telefonar.
Permite-me que fa�a uma chamada?
Lamento, mas o telefone � para uso oficial.
- Incr�vel! - O senhor � importante, n�o �?
- O que � que nos vai acontecer? - N�o se preocupe.
Vai-se esclarecer tudo. Ele � um simples pol�cia de giro.
Queria visitar a minha m�e, que est� doente...
Levei tr�s dias para conseguir a autoriza��o.
Mas hoje tive de passar primeiro pelo emprego...
Queria visitar a minha m�e, que est� doente.
Foram precisos tr�s dias para arranjar um livre-tr�nsito.
C� est� ele. Termina �s duas da tarde de hoje.
Mas fui tratar de um assunto de trabalho primeiro e havia bicha.
Quando acabei aquilo j� s� tinha duas horas e meia...
Partir ou n�o partir...
Eu parti!
Porque a m�ezinha estava � minha espera.
Se tivesse perdido o autocarro do meio-dia...
Mais cinco minutos e eu j� n�o estaria aqui.
Cinco minutos.
- Ainda n�o queres? - N�o. Toma l� disto.
Obrigado.
J� recebi novas ordens.
� uma mera certificac�o de identidade. Fa�am fila aqui fora!
V�! Toca a andar!
Em fila indiana!
Toca a andar!
Nada de sonharem acordados!
Andor! Andor!
Mais depressa!
Judeus!
Amanh� iremos investigar apuradamente os vossos neg�cios!
N�o tenham esperan�a em esconder os ganhos que obtiveram ilicitamente...
Ou os bens transaccionados no mercado negro.
Ponham esta canalhada judia no lugar dela:
Os est�bulos!
Toca a despachar!
� andar!
- � andar! - Mais depressa!
Judeus de merda!
N�s vimos os sinais que fizeram, com velas, aos avi�es brit�nicos.
Ainda vos fazemos em mil peda�os!
"A bomba cair� Ou n�o?" Essa era a quest�o.
Eu tinha apenas de recOnhecer a insignific�ncia da parada...
Para tamb�m poder apreciar o jogo.
COme�ava a perceber o singelo segredo do meu universo:
"Em qualquer lugar, em qualquer altura...
... eu poderia ser morto".
Pr�ximo!
Tens os teus documentos?
Esvazia os bolsos.
O rel�gio tamb�m.
Podes seguir.
Isto � o meu canivete.
Nem olhou para o meu passe.
- O teu qu�? - O meu passe.
De uma forma ou de outra, mais tarde ou mais cedo,... ...Toda a gente que aqui est� ser� encaminhada para a Alemanha.
Quem se oferecer para ir agora, vai em vag�es com 60 pessoas.
Esse n�mero passar� depois a 80 e l� para a frente ser� ainda superior.
Portanto, ofere�am-se para ir j�. H� falta de comboios.
- As fam�lias ficar�o juntas? - Sim, as fam�lias ficam juntas.
- A bagagem pode ir? - A bagagem tamb�m vai.
Temos de preparar o transporte de amanh�.
Ser� melhor sermos n�s a decidir, entre n�s...
Vamos?
... Do que deixar que os gendarmes espetem connosco nos vag�es.
Tudo � melhor do que estes malditos gendarmes!
Venho juntar-me a v�s, rapazes, para ver se me alegro um bocado.
V�o oferecer-se?
- Ainda n�o temos a certeza. - Eu tamb�m n�o.
Aquilo l� ser� melhor?
- O que � que sugerem? - O senhor devia recuperar primeiro.
Ainda tem um olho negro.
Eles acusaram-me de ser um especulador de guerra.
E, no entanto, eu disse-lhes que s� queria levar...
Uns rem�dios � minha m�e, que est� doente.
- Cinco minutos que mudaram tudo. - Os Alem�es s�o uma ra�a culta.
Os campos na Pol�nia s�o o melhor exemplo de "cultura"!
Por favor, n�o espalhe boatos.
O senhor sabe tanto como eu: ou seja, nada.
Boatos!
At� agora n�o ouvi sobre os Alem�es outra coisa que n�o boatos...
- E eram todos verdadeiros. - Ent�o, n�o vai agora?
� capaz de me dizer porqu�?
O que � que sabe? Quais s�o os boatos?
Ponha-me na lista.
- O nome, por favor. - lstvan Goz.
Ouviram? Ele ofereceu-se para ir e �... um fulano importante.
Eu vi-o a falar com um oficial Alem�o. Palavra!
Um oficial Alem�o a s�rio?
- Ele tem garra! - Dirigi-me a ele.
Queria falar com algu�m que tivesse autoridade.
- E ele falou consigo? - Para que perguntam, se viram?
Eu sou engenheiro e falo fluentemente Alem�o.
Disse-lhe que o meu trabalho fora comprometido, moral e fisicamente...
Que n�o procuro vantagens ou privil�gios...
Mas que sou um perito no meu campo e que gostaria de trabalhar...
E ele? Disse o qu�?
N�o fez grandes promessas...
Mas disse que a Alemanha estava a precisar de especialistas como eu.
E qual � a garantia?
A diferen�a entre as palavras. objectivas...
De um oficial Alem�o de alta patente...
E esta gente que nem consegue perceber o que � melhor para ela.
E a minha avalia��o de car�cter.
Sem esperan�a estamos perdidos...
E a esperan�a deriva apenas da f�.
O momento da Sua vit�ria chegar�...
E todos aqueles que tiverem esquecido o seu poder...
Arrepender-se-�o a uma s� voz...
E invoc�-lo-�o a partir do p�...
� poss�vel sobreviver tr�s a quatro dias.
Mas n�o se deve comer.
Sobretudo carne e alimentos picantes.
E se eu tiver fome?
Podes escolher: A fome ou a sede.
Tudo depende da dura��o da viagem.
�gua!
Pessoal! Chegaram � fronteira H�ngara.
� a �ltima vez que ouvem falar H�ngaro.
Estou a falar convosco de ser humano para ser humano.
Se algu�m tiver algum dinheiro, valores ou algo mais...
� melhor que mo entregue agora.
Para onde v�o, n�o s�o precisos valores.
Os Alem�es h�o-de tirar-vos tudo o que tiverem escondido.
N�o acham prefer�vel deixar as coisas em m�os H�ngaras?
Apesar de tudo, voc�s tamb�m s�o H�ngaros!
Filho da puta!
�gua. Dev�amos pedir-lhe para nos dar �gua...
Est� bem.
D�-nos �gua em troca.
�gua?
Oficialmente, � proibido... Mas eu roubo alguma do po�o.
Em que quantidade?
Depende do que me derem.
J� vai ver o que lhe damos. N�o ficar� desiludido.
Para que hei-de esfor�ar-me por vossa causa, se talvez nem compense?
D�-me qualquer coisa, primeiro.
Antes, d�-nos dois baldes de �gua.
D�o-me qualquer coisa ou n�o?
Judeus d"um raio!
Ainda querem transformar em neg�cio as coisas mais sagradas!
At� os �ltimos trocos preferem levar para os Alem�es!
Morram � sede, ent�o!
Morram � sede!
Morram � sede!
N�o me consigo esquecer do que disse aquele gendarme h� quatro dias.
O qu�?
Que para onde vamos n�o precisaremos de nada.
Vamos para onde?
- Consegues ver alguma coisa? - O edif�cio de uma esta��o, creio.
- Tem algum nome? - Sim.
A-usch-witz
Bir-ke-nau...
Algu�m sabe onde...
- O que � que disseste? - Auschwitz-Birkenau.
Auschwitz-Birkenau. Nunca ouvi falar deste s�tio!
E diz-se voc� professor de Geografia!
Consegui ir acompanhando o percurso atrav�s da Eslov�quia.
Est�vamos a ir em direc��o a nordeste.,
Eu diria que estamos na Pol�nia.
Mas os Alem�es rebaptizaram os locais por estas bandas.
Sabich�es! H� quatro dias que andam a tentar perceber onde est�o.
Acordem! Somos capazes de ter chegado.
Dezasseis! Dezasseis!
- Temos dezasseis anos. - Eu sei.
Tu tamb�m tens dezasseis anos, Moskovich.
Senhor tenente, eu sou engenheiro.
Falo fluentemente Alem�o.
Que idade tens?
- Dezasseis anos. - Dezasseis.
Dezasseis. Trabalho.
Dezasseis anos.
Que idade tens?
Dezasseis anos.
Ol�, Koves.
Conseguimos! Que maravilha!
N�o me surpreende nada. No nosso pa�s tamb�m havia c�maras de g�s.
Que disparate!
Eu n�o sabia ao certo que havia c�maras de g�s, mas desconfiava.
Sabia que eles estavam a esconder a verdade.
Vamos morrer todos.
N�o vamos nada.
Isto � Auschwitz, um campo de exterm�nio...
Mas eles disseram que ser�amos levados para um Arbeitslager...
Um campo de trabalho. � diferente.
Coitado do Moskovich!
Ele podia ser pequeno...
Caixa de �culos...
... e judeu...
... mas eu simpatizava com ele.
N�o dev�amos ter estudado nada, a n�o ser Auschwitz.
Eles ensinam-nos:
"Caro jovem, quando cresceres vais para Auschwitz".
"H�o-de enfiar-te numa c�mara de g�s...
Para arderes como deve ser".
Ouvi dizer que eles s�o muito simp�ticos connosco at� ao fim...
Rodeando-nos de todos os cuidados e aten��es...
E que o lugar onde nos asfixiam...
� um lindo jardim com relva, �rvores e florzinhas...
Buchenwald fica no cimo de uma regi�o montanhosa.
O ar � puro e a toda a volta se pode ver a floresta...
E os telhados vermelhos das casas da aldeia.
Os banhos s�o � esquerda.
Eles apontam o nosso nome num livro e d�o-nos um tri�ngulo amarelo...
E uma tira de lona.
O tri�ngulo cOnt�m um "U" para se saber que somos H�ngaros...
E a lona ostenta um n�mero.
O meu � 64921.
Disseram para aprender a debit�-lo depressa e bem em Alem�o
- Vier-und-sechzig, neun... - Ein-und-zwanzig...
Porque era o que teria de dizer, se algu�m me perguntasse quem eu era.
Algu�m aqui fala Alem�o?
Aten��o! O Herr Kapo perguntou se h� aqui m�sicos...
Grupos culturais ou parecido, que possam interpretar algo...
Enquanto eles organizam o transporte?
- Os Kolmanns. - Os Kolmanns?
Kolmanns!
Um piano!
Eisemann, Zagon.
"Numa Noite Estrelada".
O que sonha uma rapariga...
Numa noite estrelada?
Que o seu pr�ncipe surja...
Numa alva montada...
� um sonho t�o doce.
Que se perde ao acordar...
Os pr�ncipes n�o abundam...
E � f�cil errar...
Por�m, nuvens pequeninas Est�o no c�u, a pairar...
Enquanto as pudermos ver A esperan�a iremos guardar....
O que sonha uma rapariga...
Numa noite estrelada?
Que o seu pr�ncipe surja...
Numa alva montada...
N�O h� nada mais cansativo dO que o fastidioso processo...
Por que temos de passar de cada vez...
Que chegamos a um novo... campo de concentra��o.
Depois de Auschwitz e Buchenwald, foi a mesma coisa em Zeitz.
Percebi logo que aquele campo de concentra��o era pequeno...
Pobre e "provinciano", por assim dizer.
Os duches e os cremat�rios...
s� existiam nos campos mais importantes.
O �nico objectivo das infind�veis contagens e dos infinitos empurr�es...
Era posicionar toda a gente em frente dos respectivos dormit�rios.
Olhei � vOlta, � procura dos outros rapazes...
Mas vi-me rodeado de estranhos.
De onde �s?
De Budapeste.
Eu tamb�m! A Grande Avenida ainda l� est�?
E o el�ctrico n� 6?
- E a Rua Nefelejcs? - N�o vou l� h� s�culos.
Tamb�m eu. Pelo menos h� quatro anos. Sou de l�.
Ainda hei-de voltar a percorrer aquelas ruas!
Como vieste aqui parar?
Tiraram-me do autocarro.
- Como assim? - A pol�cia mandou-me apear.
A pol�cia?
- Eles mandaram-te para aqui? - Claro.
N�o sabes o que se passa por l�?
O meu nome � Bandi. Bandi Citrom.
Disse-te que passei quatro anos em trabalhos for�ados na Ucr�nia...
- N�o me disseste. - Estou a dizer agora.
E fazias o qu�?
Desenterrava minas terrestres, como os outros gajos.
- Como? - Se tivermos tempo, mostro-te.
Precisas de uma p� e de um bocado de arame. E sorte, carradas dela!
E depois?
- Estupor d�um raio! - O que foi que ele disse?
Que lhe doeu... foi isso.
O qu�? Seus merdosos!
Porcos! Eu j� vos mostro!
Seus merdosos!
- Doeu? - Nem um bocadinho.
Limpa o nariz. Cabe�a para tr�s.
Porque n�o te calas? Vais trazer-nos sarilhos...
- N�o lhe respondas. - Quem � ele?
- N�o � um de n�s. - Mas fala h�ngaro.
� let�o. Ortodoxo.
- O outro caramelo deve ser maricas. - Maricas?...
Esquece. Parece um treinador de circo.
E aquele perfume rasca...
Onde � que ele o arranja? O gajo � prisioneiro!
N�o. � um dos dirigentes do campo.
- Viram o seu tri�ngulo verde? - Eu vi.
- Significa que � um criminoso. - N�o � judeu?
Um paneleiro assassino representa a ordem neste s�tio!
Isto � um campo de concentra��o, n�o � um sanat�rio.
Vamos embora, vamos embora!
Depressa!
P�r� formatura!
V� se ganhas genica, ou perdemos o caf�.
Todos em formatura. L� fora!
O pr�ximo!
Mais para cima!
Aproxima-a do panel�o. N�o consegues ver?
Mais para cima! V� l�!
Quantas vezes � que eu te disse para aproximares mais a malga?
Pr�ximo!
Toma l�.
Pr�ximo!
Depressa!
Pr�� formatura!
Barrac�o 5! Aten��o!
Descobrir... a cabe�a!
Porque n�o fizeste a barba?
- Temos de descarregar isto, j� vi. - E juntar em quatro pilhas.
Como eles quiserem.
Pergunte a� a esse Herr se podemos tirar os casacos e as camisas.
Tem pinta de porreira�o, o tosco.
Queres um cafet� e um chap�u de pele?
Vamos l� mostrar-lhes o que vale a rapaziada de Budapeste!
- N�s somos da prov�ncia. - Vai dar ao mesmo.
Uma bela lavagem � fundamental. Fa�a neve, fa�a gelo... Sempre.
Para n�o arranjares feridas.
Anda sempre com um nico de p�o no bolso.
E de onde vem ele? Da ra��o da v�spera.
N�o d� para tudo, claro. Tens de racionar.
Tira do pequeno-almo�o. E n�o observes a malta a comer.
S� um nico, para mastigar. Mas � fundamental.
Por causa da auto-estima. Sabes o que isso �?
� t�o importante como o p�o e a sopa.
Queres voltar para casa?
Queres voltar a andar pelas ruas de Budapeste?
Sem auto-estima n�o vais conseguir.
Olha para ali!
Olha. O "Chamin�"!
Onde?
Continua a fumar.
Assim n�o, H�ngaro. Menos entusiasmo.
Porque n�o poupas as for�as?
Carregar assim, para estes?
Afinal de contas, voc�s tamb�m s�o judeus!
Qual � o problema?
Vamos a despachar!
Trabalha!
V�, continua!
P�e-te a trabalhar! E j�!
J�, imediatamente!
Lava a pila tamb�m, que � nela que se alojam os piolhos.
Anda, seca-te l�!
Aquela hora concreta...
Situada entre O regresso da f�brica e a chamada da noite.
Uma hora especial, vivida em alvoro�o e liberdade...
Uma hora aguardada ansiosamente e apreciada acima de tudo no campo.
Uma hora que, acrescente-se, coincidia com o tempo do jantar.
Ol�, �s tu?
Quem mais est� aqui, do grupo da alvenaria?
- Em que dormit�rio est�s? - Neste, o cinco.
� pena. Eu estou no seis.
Fic�mos espalhados.
Estamos todos separados.
Sabes o que significa este "U"?
- Claro. Ungar. H�ngaro. - Est�s enganado.
Quer dizer Unschulding.
Inocente.
Inocente.
N�o, companheiro, dividimos isso depois da sopa.
N�o te deixarei devorar a ra��o de amanh�.
Mas nunca seremos cobardes...
- Est�s sempre a cantar isso. - Era a nossa can��o na Ucr�nia.
E se um camarada tombar...
De volta uma mensagem ser� enviada...
Aconte�a o que acontecer, Sempre permaneceremos leais...
� nossa querida p�tria amada...
- O que � que tem de mal? - Nada.
Lembra-me sempre aquele gendarme de quem te falei...
O que disse que n�s, afinal de contas, tamb�m �ramos H�ngaros.
E somos mesmo.
N�o tarda nada estou de novo a andar na Rua Nefelejcs!
N�o come�o sem que estejam em fila!
V�, todos em fila! Ral�!
Ele era o advogado com mais procura l� na Hungria.
Escapa ao meu entendimento...
Sopa de cenoura.
Tamb�m � a minha preferida.
� bem grossa.
Vejam!
Um naco de carne, inteirinho!
Isto � quando a ilumina��o p�blica de Budapeste se acende.
Lembras-te do an�ncio da graxa Schmoll?
Schmoll... o qu�?
Um avi�o iluminado voava em torno do Oktogon todas as noites.
Desapareceu, faz imenso tempo, por causa do blackout.
Dizes c� uns disparates!
O fim do blackout j� deve estar para breve.
Esse � o momento em que as mi�das saem de casa com os seus pares.
Sapatinhos de salto alto e passo ligeiro...
Hei-de descer novamente a Rua Nefelejcs!
Rua Nefelejcs...
N�o � um grande objectivo, mas que importa?
� um objectivo, isso � que conta.
Uma rua, uma mulher...
Uma biblioteca...
Longas tardes de lnverno...
Antes de se acenderem os candeeiros.
Coisas que eu j� nem consigo imaginar...
- � sexta-feira. - Sexta-feira qu�? Qual � a data?
Eles carregam o eterno fado judeu.
Nada faz diferen�a para eles, est�o aqui na Terra de passagem.
Mas persistem, tenazmente, porque t�m um objectivo.
Toda a gente precisa de uma obsess�o revigorante...
Algo que lhes consiga manter a esperan�a viva.
Mas eu n�o tenho nada, nenhum objectivo.
Sim, tenho.
Tenho, pois, tenho de levar os meus filhos para casa.
Sopa em caldo.
Quanto?
Uma malga inteira de sopa de cenoura.
Aposto que algu�m est� escondido, novamente.
Ou morto.
Ou ficaram a dormir algures e n�s estamos aqui desde madrugada.
Qual � o pre�o?
Aguenta-te s� mais um pouco, filho.
J� falta pouco para isto acabar.
- Meia ra��o de p�o e a margarina. - O que � isso?
Sopa em saldo.
J� vamos �s latrinas que chegue, mesmo sem a tua sopa!
Compraste alguma?
Vai ficar encharcado e depois � pior do que nada, tipo esponja molhada.
Mant�m-me quente.
Dev�amos comer o nosso p�o antes da parada.
- Um ter�o de ra��o hoje. - D� para n�s os tr�s.
"Lindinho".
"Lindinho"!
Est�o em saldo.
Batatas de ontem � noite. Eu ofere�o o sal.
- Quanto quer por elas? - A sopa da noite.
Voc� n�o come sopa.
A de hoje � de p�es �zimos e isso podemos comer.
- Ningu�m sabe o que nos v�o dar. - Eu sei.
Meia por��o de sopa.
E a margarina.
Camelo! Eu tamb�m sou judeu, como voc�!
Di bist ka iid, di bist a shegets. N�o �s judeu.
- Ent�o que fa�o eu aqui? - Como hei-de eu saber?
D� c� isso!
- Maldito judeu! - N�o fa�o mais barato.
D�-me c� isso!
- Queres o qu�? Desanda! - E o meu pre�o.
- O pre�o combinado. - Compraste-lhe alguma coisa?
Compraste?!
�s judeu, sabes contar, n�o �? Sabes quanto custa uma saca?
Desenrasca-te! Ora lambe l� isso!
Eu j� te mostro o que significa deixar cair uma saca. Despacha-te!
N�o vais deixar cair mais nenhuma!
HURRA! ESTOU DE VOLTA!
P�r� formatura! Vamos a formar!
V�, todos em fila!
Vamos ficar aqui at� de manh�.
Tr�s judeus de Riga. Era �xito garantido.
Falavam um Alem�o perfeito. Tinham mapa, tudo...
O Todo-poderoso n�o quis.
Pelo menos algu�m tentou.
Perdeste o ju�zo, foi?
Fazes ideia do que est� a acontecer � tua volta?
Sim. Hoje n�o h� jantar.
Aonde � que vais? H� quanto tempo n�o te lavas?
Abandalhaste-te por completo, tu! Tens piolhos e escaras...
Quem te mandou dar-me ordens? Desanda, traste!
Queres morrer aqui? N�o queres voltar para casa?
- Tenho frio. - Fiz-te uma pergunta!
Tenho frio.
Escuta. Perguntei-te se querias voltar para casa.
- Para casa, percebes? Na Hungria. - Tenho frio.
Olha que eles d�o-te porrada!
Tu s� trazes sarilhos!
Descobrir....
... a cabe�a!
Destro�ar!
- Levanta-te! Daqui a nada jantamos. - N�o podemos deix�-lo aqui.
- Porque n�o te levantas? - N�o consigo.
- Claro que consegues! - D�i-me!
- O que � que te d�i? - O meu joelho.
Poisem-no a�.
Jantar! � para jantar!
Venham comer!
Jantar!
A seguir.
V�, vamos! Larga a manta! Tens de a largar, percebes?
V� l�. N�s damos-ta de volta.
Tenho de abrir a ferida, para a limpar.
Vai doer, mas prometo ser r�pido.
Tens fOme?
Imensa.
Protesto! Tenho direito a uma cama individual.
- Pergunte ao doutor! - Estamos a abarrotar de doentes.
- Chega-te para l�. - Protesto!
Protesto!
N�o podia dar-nos outra manta?
Protesto! Tenho direito!
Deita-te de lado. Assim ficamos com mais espa�o.
N�o entendes?
Tens �gua?
�gua? Tamb�m me dava jeito a mim.
- E cigarros? - Nem um.
Caf�!
Caf�!
Caf�!
N�o v�s que ele est� a dormir? D�-me a malga dele.
Sopa!
Ele n�o pode estar a dormir h� dois dias inteiros!
Est� morto.
Vou chamar algu�m para vir c�.
Obrigado.
Carregadores de cad�veres, apresentem-se no pOrt�o.
Barbeiros apresentem-se no balne�rio.
- Protesto! - Ainda queres viver?
Protesto!
Pro-testo!
Sopa de cenoura.
Sopa de cenoura.
Espera, espera! Eu ajudo-te, v�.
Tens diarreia?
Falas Polaco?
Russo?
Como te chamas?
64921.
N�o � o n�mero. O teu nome.
Nome!
Gyorgy Koves.
O qu�? O qu�?
Gyorgy Koves.
Olha...
Escrevi bem?
E agora o teu n�mero.
Era 6...
... 4921.
64921.
Nacionalidade?
H�ngaro.
�ptimo.
Voc� fala H�ngaro?
Sim, falo H�ngaro.
De onde �?
De Budapeste.
Quando � que aqui chegou?
Em Novembro.
Aqui d�o-nos de comer?
Aqui vais ficar mais forte e poder�s voltar para casa...
- Quarto n�mero 6! Comida! - Tenho de ir! Cuida de ti.
Obrigado.
Apagar todos os cremat�rios!
Todo o pessoal SS...
Evacuar de imediato o campo!
Como est�s?
- Fumas? - Obrigado, senhor. N�o fumo.
N�o fumas.
Sinto muito.
O teu Ingl�s � bom. Onde � que o aprendeste?
Na escola, em crian�a.
De onde �s?
Da Hungria.
Hungria?
- Budapeste fica na Hungria, n�o �? - Sim.
Olha para isto.
Perd�o?
� um local da cidade.
�s judeu, n�o �s?
Eu sou judeu.
N�o vais voltar para l�.
- Mas tem de ser. - N�o!
N�o �s obrigado a fazer mais nada, agora.
N�o �s bem-vindo na Hungria. Devias ir para a Su��a ou para a Su�cia.
Eles l� cuidariam de ti. E mais tarde poderias vir para os E.U.A.
E estudar, ir para a universidade. Terias um bom futuro.
Mas o meu pai... Tenho de ir.
Tens fome? Queres comer?
Est� bem. Mas pensa no assunto. N�o percas esta oportunidade.
Arrisca.
A gente ainda se v�.
Vamos l�! Ent�o! Ent�o!
Coragem, v�! Vamos l�!
Alto!
V�o sentir-se melhor com o ar puro.
Construiremos uma nova Hungria. V�, em filas de tr�s.
Vamos l� a marchar! Um, dois, tr�s, quatro...
A postos, de guarda... As muralhas de Madrid.
Enfrentar o troar dos canh�es, Aconte�a o que acontecer...
A postos, de guarda... A zelar pelos sonhos dos concidad�os...
Prontos a resistir Ao mais selvagem dos cercos...
Mais uma vez. Um, dois, tr�s, quatro...
A postos, de guarda... As muralhas de Madrid...
Algu�m aqui fala ingl�s?
- Fazia o favor de traduzir? - Sim.
Meus senhores, tent�mos assegurar-nos...
De que regressam � Hungria de livre e espont�nea vontade.
S� podemos levar-vos at� ao limite da zona.
A� entregar-vos-emos �s autoridades sovi�ticas.
N�o nos podemos responsabilizar por v�s a seguir a isso.
Fa�am boa viagem. E boa sorte.
Obrigado.
Teria preferido n�o te ver aqui.
Ainda podes descer.
Est� bem.
A vida � tua.
Obrigado.
Vamos l�! Aguentem mais um pouco!
Prometeram-nos que, a partir de amanh�, ter�amos transporte.
Esta escola foi-nos atribu�da por esta noite.
Amanh� chegamos a Dresden.
L� podemos apanhar um comboio para Bratislava.
Depois se ver� como chegaremos a Budapeste. V�, para dentro!
Vamos l� a entrar!
A camisa, desgra�ado!
Porque n�o despes a camisa?!
Ele nunca despe a camisa!
Despe a camisa, parvalh�o!
- Eu n�o fiz nada! - Ele tem a marca das SS.
Est�o a ouvir? C� est� ela!
O que � que se passa? O que vem a ser esta gritaria?
Reparei que ele nunca despia a camisa.
C� est� a tatuagem das SS, debaixo do bra�o.
Eu s� ficava de plant�o.
J� chega! Parem!
Eu n�o fiz nada. S� quero voltar para casa.
Infiltraste-te entre n�s para evitar ser feito prisioneiro?
- Eu n�o fiz mal a ningu�m. - Juntaste-te �s SS na Hungria?
Eu s� ficava de plant�o. Juro que n�o fiz mal a ningu�m!
Algu�m o conhece?
N�o. Ele pode ter estado num campo pequeno, como Ohrdruf...
Onde quase ningu�m sobreviveu.
Vi o meu irm�o ser morto a tiro por um cabr�o destes!
J� chega! Aqui n�o h� linchamentos.
Quatro de voc�s levem-no ao comando sovi�tico.
Eles l� arrancam-lhe a verdade.
Amarrem-no bem, para que n�o fuja!
Tu, tu, tu e tu!
D�i-me a perna.
Sim, claro... Ent�o tu.
N�o, isso n�o!
Dresden.
Vim c� uma vez.
N�o imaginam que cidade era esta.
Uma das mais selectas da Alemanha.
Eles estavam bem a pedi-las, estes Herrenvolk.
Agora rastejam.
Era o que eles queriam... Pois foi o que tiveram!
� bem feita!
Pela primeira vez, sinto realmente o significado da palavra "vit�ria".
T�m pena deles?
Eles n�o tiveram pena de voc�s quando vos enfiaram no campo.
- Tenho, ou n�o tenho, raz�o? - Tem.
Ora a� t�m. S�o livres.
E est�o vivos.
Tentem alegrar-se com a vida... e com a vit�ria!
Viram? Viram-no?
- Viste o meu marido? De certeza? - Lamento, n�o o vi.
� um homem de 43 anos com cabelo preto encaracolado.
Sempre a sorrir.
Sinto muito. N�o o vi.
- E o senhor? - Lamento.
Gostaria de te fazer outra pergunta, se me permites.
- Sim? - Viste as c�maras de g�s?
- N�o, ou n�o estaria agora aqui. - Elas existem mesmo?
Depende. Em Auschwitz existiam.
- Mas eu venho de Buchenwald. - De onde?
- Buchenwald. - De Buchenwald?
Ent�o, ouviste falar das c�maras de g�s...
Mas n�o as viste com os teus pr�prios olhos. � isso?
Exacto.
Obrigado. Era tudo o que eu queria saber.
Venham! Aproximem-se mais! Depressa!
Vamos reunir-nos aqui!
Des�am do comboio!
V� l�! Juntem-se � minha volta!
Procuras algu�m?
Sim.
- Quem? - Bandi Citrom.
Ele n�o est� em casa.
N�o est� neste momento ou...
N�o est� mesmo.
- Quem �? - Onde est�s...?
Procuro o Bandi Citrom.
N�o est� em casa.
Volta mais tarde.
Daqui a uns dias.
Talvez.
Espera!
Espera!
Bilhetes, por favor.
- Bilhete! - N�o tenho bilhete.
Ent�o compra um.
N�o tenho dinheiro.
Sem bilhete n�o podes viajar.
D�i-me a perna.
Lamento, n�o fui eu que fiz a lei.
Chega de conversa! D�-me um bilhete.
- Obrigado. - N�o me agrade�as.
Certas pessoas deviam ter vergonha!
- Vieste da Alemanha, meu rapaz? - Sim.
- De um campo de concentra��o? - � evidente.
- Qual deles? - Buchenwald.
J� ouvi falar.
Mais um dos c�rculos do inferno...
- De onde te arrancaram eles? - De Budapeste.
Deves ter sofrido muitas atrocidades.
Depende daquilo que considerar "atrocidades".
Por certo que passaste fome e tamb�m deves ter sido espancado...
- � evidente. - Porque dizes tanto "� evidente"
- Quando � tudo menos evidente? - Num campo de concentra��o, �.
Isso � verdade, mas...
Um campo de concentra��o em si mesmo n�o � �bvio, � uma aberra��o.
O principal � que acabou tudo.
Conseguiste sobreviver!
O que � que sentes agora que est�s de regresso ao teu pa�s...
E � cidade que deixaste para tr�s?
�dio.
N�o temos nada.
O que � que queres?
- Desculpe, mas eu vivia aqui. - Tu?
Deves ter-te enganado no n�mero da porta! Esta casa � nossa!
Gyurka!
Gyurka! Entra!
- Entra, meu rapaz! - Olhem s�!
Eu toquei � campainha, mas apareceu outra pessoa � porta.
O que aconteceu?
Entra l�.
Entra.
- Ele voltou! - Quando? Conta-nos tudo!
Entra depressa, filho!
- Quando � que chegaste? - Deixa-me olhar para ti!
Eu toquei, mas veio outra pessoa � porta.
N�o tens fome?
Tu dantes adoravas p�o, embebido em gordura de carne, e rodelas de cebola.
- Senta-te, al�m. - lsso mesmo.
E o meu pai?...
- Est� morto? - Ele n�o sofreu muito.
Os amigos deram-nos not�cias dele. Vieram de um campo Alem�o.
Situado em territ�rio Austr�aco.
Como � que se chamava?
- Ora, bolas! - Era Maut...
- Mauthausen. - Mauthausen! � isso mesmo!
- Sabem alguma coisa da minha m�e? - Claro.
Ela est� bem. Sobreviveu. Est� �ptima.
Apareceu aqui na semana passada � tua procura.
E a minha madrasta?
Bem, ela casou-se...
Mas com quem?
- Qualquer coisa Kovacs, creio. - Kovacs n�o. Era mais Futo...
Futo!
- Suto. - Suto!
- � isso mesmo. Claro! - Suto!
Ela tem muito que lhe agradecer.
Ele salvou os bens da fam�lia.
E escondeu-a a ela naqueles tempos t�o dif�ceis.
- Talvez se tenham precipitado. - Talvez...
Mas compreende-se.
Come, meu rapaz.
Lembram-se da �ltima vez em que me sentei aqui?
Discutiram se eu devia ir de comboio ou de autocarro para Auschwitz.
Como haver�amos de saber que o teu caminho te levaria...
- Ao inferno dos campos? - Os campos n�o s�o um inferno.
O que s�o, ent�o? S� os consigo imaginar como inferno.
- Eu n�o consigo imaginar o inferno. - E qual � a diferen�a? N�o entendo.
O lnferno n�o existe, mas os campos de concentra��o existem.
Existiam. Ainda bem que acabou tudo.
Est�s de novo aqui.
Devias estar a pensar no teu futuro.
- O meu futuro? - Antes de tudo o mais.
Porqu�?
- Para podermos viver. - Viver em liberdade.
N�o podemos come�ar uma nova vida com esse fardo.
Ent�o e a minha vida anterior? Essa tamb�m � minha.
J� passou. O destino que nos foi atribu�do outrora era outro.
Mas eu aceitei esse destino.
- Todos n�s o aceit�mos. - N�o t�nhamos alternativa.
- Mas agora somos livres. - Sempre o fomos!
Houve tempo mais do que suficiente.
Esper�mos um dia inteiro na alf�ndega.
Em Auschwitz esper�mos pelo menos meia hora.
As coisas poderiam sempre ter corrido de forma diferente.
Tanto em Auschwitz como na nossa casa...
Quando nos despedimos do meu pai.
- Que mais poder�amos ter feito? - Est�s cansado.
Fizeste uma longa viagem. Muito longa mesmo.
A tua m�e est� � tua espera. Vai ficar t�o feliz de te ver!
Corre para casa! F�-la feliz!
- V�, Gyurka. - Toca a andar!
Gyurka!
Qual � o teu aspecto?
Foi muito horr�vel?
J� descobriste o que significa ser-se "judeu"?
Isso agora n�o interessa. Acabou tudo.
- Lembras-te como choraste? - Eu chorei?
Tentei reconfortar-te... Mas sem direito...
- Pois tamb�m eu era judeu. - Porqu�, o que �s agora?
N�o sei.
Talvez nem sequer exista.
Est�s t�o estranho.
Mudaste.
Morri uma vez.
O que queres dizer com isso?
J� n�o consigo ter raiva.
Para ganhar for�as parei um minuto na pra�a.
Era aquela hora m�gica.
Mesmo agora, mesmo aqui, reconheci-a...
A minha hora favorita no campo.
Invadiu-me um sentimentO lancinante, pleno de dor e impot�ncia...
Senti saudades de casa...
Sim, de certa maneira a vida era mais linear e simples.
Vieram-me � mem�ria aqueles que me salvaram.
Pela primeira vez pensei neles com um ligeiro ressentimento...
Uma esp�cie de brando rancor.
Mas n�o exageremos.
Eu aceito qualquer opini�o em troca de poder viver.
Naquela pac�fica e melanc�lica pra�a, olhei em redor...
Para aquela rua t�o fustigada, mas t�o prometedora.
Senti acender-se em mim uma enorme dilig�ncia...
Eu iria continuar a minha vida, agora imposs�vel de continuar.
Lembrei-me que a minha m�e fizera projectos...
Para que eu fosse engenheiro ou m�dico.
E � o que vai acontecer...
Pois n�o h� nada t�o inimagin�vel que n�o se possa suportar.
De certa forma, j� sei...
Que � minha espera no trilho da vida - Qual inevit�vel armadilha -
Est� a felicidade.
Mesmo para al�m das chamin�s, na pausa entre tormentos...
Havia algo parecido com ela.
As pessoas s� me interrogam sobre as atrocidades...
Para a pr�xima, eu devia falar sobre a felicidade dos campos, e se me perguntarem.
Se � que alguma vez ir�o perguntar. E se eu pr�prio n�o me esquecer.
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