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Durante muitos anos,
muitos jornalistas pediram-me para contar a hist�ria da minha vida.
Recusei sempre.
Concordei em cooperar com o Alan Friedman
porque confio nele.
Como Steve Jobs disse ao seu bi�grafo:
Contar-lhe-ei a minha hist�ria
e o senhor escrever� o que quiser.
BASEADO NO LIVRO DE ALAN FRIEDMAN
Perto de Mil�o,
numa pequena cidade chamada Arcore,
fica a Villa San Martino, a casa de Silvio Berlusconi.
Berlusconi � um magnata do ramo imobili�rio e dos media,
o primeiro-ministro italiano que mais tempo ficou no cargo,
um homem, h� d�cadas, perseguido por esc�ndalos.
O Minist�rio P�blico italiano investigou-o durante mais de 20 anos.
Enfrentou mais de 60 julgamentos, sendo acusado de corrup��o,
suborno, liga��o � M�fia,
e, por fim, sexo com uma prostituta menor.
As suas amizades com l�deres mundiais colocaram a It�lia no mapa pol�tico,
mas foram sempre amizades controversas.
Quer se tratasse da sua amizade com George W. Bush,
ou com Vladimir Putin, ou, at�, com Muammar Gaddafi,
o ditador l�bio.
Para alguns, um empres�rio brilhante com um toque de g�nio,
os seus cr�ticos consideram-no um palha�o e um criminoso.
No fim de contas, como Al Capone, foi apanhado devido aos impostos.
A sua villa em Arcore � a Terra do Nunca de Berlusconi,
o seu Parque Disneyland privado.
73 hectares de parques e jardins, o seu pr�prio campo de futebol,
o seu heliporto e os seus est�bulos.
Quando entrevistei Berlusconi pela primeira vez, na sua villa,
estava rodeado de pessoal.
Gestores de imagem, porta-vozes, seguran�as, secret�rios,
estava l� toda a gente para o proteger.
Ap�s uma longa espera, Berlusconi apareceu finalmente,
cumprimentando todos, cheio de carisma e charme.
Calma, d�i-me o ombro.
Nas v�rias vezes que nos encontr�mos, na sua casa de Arcore,
pass�mos pelos v�rios cap�tulos da hist�ria da sua vida,
virando as p�ginas, uma a uma.
A minha vida foi uma s�rie de desafios, uma grande batalha.
Todos os objetivos que estabeleci eram muito dif�ceis de atingir,
porque eram sempre muito ambiciosos.
Berlusconi orgulha-se da sua villa do s�culo XVIII,
apesar das acusa��es de a ter comprado ao desbarato nos anos 70,
num neg�cio controverso, engendrado pelo seu advogado,
Cesare Previti, que, mais tarde, foi condenado e enviado para a pris�o
sob a acusa��o de ter subornado um juiz.
Arcore � o lugar onde se sente mais em casa?
Sim.
� a casa principal da minha vida.
E a Sardenha.
E a Sardenha, no ver�o.
Certo.
Antes de me contar a hist�ria da sua vida,
Berlusconi insiste numa visita guiada � sua villa com 72 divis�es.
Este � S�o Martinho, que deu metade da capa ao mendigo.
� dele que vem o nome da casa, de S�o Martinho.
Esta � a capela.
- Sinto que ainda estou com eles. - S�o as cinzas dos seus pais?
Sim, do meu pai e da minha m�e.
E, aqui, est�o as cinzas da minha irm�,
da minha irm� mais nova e da sua filha, que j� faleceram.
- Estavam no centro. - Maria Antonietta?
Maria e a sua filha.
Algu�m p�s isto aqui sem eu saber, mas vou voltar a p�-las aqui.
Quero arranjar algo ali
para ficarem mesmo � vista, mesmo no centro.
Ap�s ver a capela da fam�lia,
quis mostrar-me a sua cole��o privada de arte.
V� l�!
Eu avisei para manterem os c�es fora daqui!
Esta escultura chama-se As Tr�s Gra�as.
� uma escultura de Cellini ou, em todo o caso, da sua escola.
E, aqui, temos...
E, aqui, temos uma cole��o de quadros do s�culo XVI.
Este � famoso.
� um autorretrato de Rembrandt.
Muito bonito.
E este � de Ticiano.
Este � muito famoso.
Durante muito tempo, disse-se que este era de Rafael,
mas, depois, foi rebaixado � categoria de "Escola de Rafael".
� incr�vel, muito bonito.
D� mesmo para ver que � da escola de Rafael.
Esta parte da villa foi restaurada nos anos 80,
quando se tornou no quartel-general de Berlusconi.
Este � o po�o original da casa...
... de onde costumavam tirar �gua.
Veja o qu�o bonito �. A �gua estava ali em baixo.
Isso parece uma sala blindada.
Sim, � o meu escrit�rio.
Tive equipas de cinco desportos.
No v�lei, campe�es do mundo.
No rugby, campe�es da Europa.
No h�quei, campe�es da Europa. No rugby, campe�es de It�lia.
E equipas de basebol e futebol.
LIGA DOS CAMPE�ES
- Esta secret�ria � hist�rica. - Sim, exatamente.
Est� tudo na mesma. H� muitas mem�rias aqui.
E estes s�o alguns dos meus muitos projetos imobili�rios,
cidades-sat�lite inteiras que constru�.
- "Milano 2." - "Milano 2", "Milano 3".
V�rios centros comerciais.
E aquele quadro, com o microfone? Quem � a pessoa com o microfone?
Sou eu!
- O senhor? - Eu, a cantar, com 16 anos.
� uma foto minha, a cantar, quando tinha 16 anos.
Como lhe disse, fui sempre o tipo mais giro na praia.
E, aqui, est�o montes de pr�mios, todos os pr�mios que recebi.
- E isto? - Isto �...
Isto � o fim da Guerra Fria.
CIMEIRA DE ROMA
Eu, entre o Putin e o Bush, em 2002, em Pratica di Mare, em Roma.
Isto que fiz foi muito importante,
de entre as coisas que consegui de que tenho orgulho.
E, ali em cima, est�o alguns trof�us que ganhei com o AC Mil�o.
Ainda sou o presidente do clube de futebol com mais t�tulos da hist�ria.
Isto s�o objetos que o Gaddafi me deu.
- Quais? - Os quatro.
Penso que v�m das antigas ru�nas romanas na L�bia.
- Tamb�m costumava dormir aqui. - Onde?
Costumava trabalhar e dormir aqui.
Tem tudo. Casa de banho, chuveiro, tudo.
Tamb�m tem um jac�zi, completamente equipado.
E estes s�o todos os presentes que me ofereceram.
"Silvio Berlusconi, pelo contributo para as transmiss�es internacionais.
1992, Cidade de Nova Iorque." Um Emmy.
Isto s�o duas bandeiras de quando me dirigi ao congresso dos EUA.
A BANDEIRA DOS EUA
Falei ao congresso e consegui um recorde pessoal.
Tive o maior n�mero de ova��es de p� durante um discurso.
Isto foi-me dado pela rainha de Inglaterra.
- Pela rainha Isabel II? - Pela rainha Isabel II.
� uma televis�o de 1936, o ano em que nasci.
Nessa altura, o �nico pa�s com televis�es era a Gr�-Bretanha.
Berlusconi orgulha-se de tudo,
incluindo da sua frota de jatos privados.
� a minha frota de jatos privados. Estes helic�pteros e avi�es s�o meus.
- Quantos avi�es tem? - Cinco.
- Cinco? - Sim.
Este � o meu teatro. A estreia foi h� 30 anos.
Exatamente... na temporada de 1978.
TEATRO MANZONI
1973, 1978, 1988, 1998, 2008 e 2014, ou seja, h� 36 anos.
Este � o cartaz do Teatro Manzoni.
Nessa altura, eu era o empres�rio do teatro.
E aquelas eram as pe�as que costumavam fazer com os atores...
Entre os atores do Teatro Manzoni, estava uma tal de Veronica Lario.
Berlusconi viu-a pela primeira vez
quando representava uma cena em palco, seminua,
durante uma com�dia, em 1980.
Foi nos bastidores do Teatro Manzoni
que Berlusconi cortejou Veronica Lario.
Apesar de j� ser casado e pai de dois filhos,
Marina e Piersilvio, ele juntou-se com a atriz,
e, cinco anos depois, come�ou a separar-se da primeira mulher.
Tive dois casamentos,
tive dois filhos do primeiro, e tr�s, do segundo.
Fui sempre um marido que vivia a vida familiar,
tentava sempre passar o tempo livre, especialmente os fins de semana,
com os meus filhos.
Berlusconi seduziu a primeira mulher, Carla Dall'Olio,
em 1960, com apenas 24 anos.
Ele conheceu-a numa esta��o de comboios em Mil�o.
De repente, vi a graciosa silhueta de uma rapariga � minha frente,
que se estava, tamb�m, a despedir de um amigo.
Pensei: "Estamos ambos sozinhos,
pod�amos fazer companhia um ao outro."
Mas foi s� algo em que pensei. Depois, desci as escadas da esta��o.
E voltei a v�-la, a caminhar � minha frente,
e voltei a admir�-la.
Fui buscar o meu carro e passei pela paragem do el�trico,
e l� estava ela novamente, com a sua silhueta
que parecia dizer-me: "Leva-me!"
"Leva-me!", parecia dizer-lhe a silhueta da sua primeira mulher.
Quando lhe perguntei o que procurava numa mulher, n�o foi nada t�mido.
Primeiro, temos de gostar muito dela. Ela tem de ser bonita.
Tem de nos provocar desejo.
Acho que nunca fui para a cama com uma das minhas esposas,
nas alturas em que est�vamos muito apaixonados,
sem a desejar nem sem fazer amor com ela.
A villa de Berlusconi est� cheia
de mais do que mem�rias das ex-mulheres.
Tem a vida toda aqui,
desde recorda��es pessoais a pr�mios oficiais.
Aqui, est�o os pr�mios todos que recebi.
Tenho muitos.
Todos os pr�mios que recebi.
Cerca de uns 1000, no total, creio eu, em 20 anos de governo.
Havia muitos mais, mas n�o os vejo.
N�o sei para onde foram.
Estranho. Estavam muitos aqui.
Berlusconi parece pensar que tem um ladr�o em casa.
� estranho. Havia muitas coisas. Devem ter-mas roubado.
Algu�m as deve ter levado, porque eram coisas lindas que ganhei.
Quem sabe onde estar�o!
Eram coisas lindas e agora foram-se. Bem, vamos embora.
Adiante, tenho mais cinco divis�es assim.
Isto s�o tudo coisas que as pessoas me enviam.
Tenho 300 quadros de mim mesmo. Um dia, farei uma grande exposi��o.
S�o 300 quadros que me enviaram. Veja este, de mim como Super-Homem.
- E esse? - � melhor n�o filmar.
Estou a brincar.
Adiante, tenho oito divis�es assim, cheias de coisas.
� melhor n�o filmar isto, porque � perigoso.
Em It�lia, n�o � permitido.
Recebi como prenda, n�o � da minha responsabilidade.
Mais quadros, como pode ver.
Eu e a minha m�e.
- Qual � a sua m�e? - A minha mam�.
Tenho 300. Tenho oito divis�es como esta.
A minha mam� de novo. E de novo.
Ao conhec�-lo, percebi que a sua m�e desempenhou um papel preponderante
na forma��o do futuro l�der.
Silvio Berlusconi nasceu numa fam�lia de classe m�dia-baixa,
em Mil�o, em 1936.
Com seis anos, foi evacuado com a fam�lia para a regi�o rural
ap�s os bombardeamentos em s�rie dos Aliados,
durante a Segunda Guerra Mundial.
Foi a�, com a sua m�e, irm� e fam�lia,
que cresceu da forma mais dif�cil.
Na escola, n�o era muito popular,
como os outros mi�dos que tinham sido evacuados de Mil�o.
E havia um rufia
que estava sempre a implicar comigo.
Um dia, em junho,
houve uma tempestade, em que choveu imenso.
Nesse dia, estavam l� todos os mi�dos,
e esse rufia disse-me algo mau.
E, pela primeira vez, reagi.
Agarrei na cabe�a dele, pu-la debaixo de uma torrente de �gua e gritei-lhe:
"Nunca mais dir�s isso! E, agora, quem � que manda?"
- Ele disse: "Tu." E eu soltei-o. - Resultou?
A partir desse momento, tornei-me l�der para o resto da vida.
A inf�ncia de Berlusconi durante a Segunda Guerra Mundial
foi uma experi�ncia formativa,
tal como os seus anos numa escola cat�lica em Mil�o.
COL�GIO SALESIANO DE S. AMBR�SIO
Era um ac�lito durante a missa.
Depois, comecei a tocar �rg�o.
E, depois, especializei-me a fazer discursos de boas-vindas
quando havia convidados importantes. Um bispo, um cardeal, um superior.
Eu era o orador oficial.
Na minha fam�lia, tenho muitas tias freiras.
Quando um cardeal chegava,
elas estavam no p�blico, a assistir � cerim�nia de boas-vindas.
E costumavam dizer-me: "Que grande cardeal darias."
E foi assim.
H� uns 20 anos, a �ltima tia que me restava ouviu um dos meus discursos
e disse-me: "Terias dado um grande papa."
O papa de agora comunica muito bem, quase t�o bem como o senhor.
At� disse que ele faz o trabalho dele...
Tal como eu teria feito. Sim.
E, depois, algu�m me disse: "Tu e o papa t�m a mesma idade."
E eu respondi: "Sim, mas eu pare�o muito mais novo."
O amigo de inf�ncia Fedele Confalonieri
lembra-se bem dos dias na escola secund�ria.
Em adolescente, Berlusconi era um l�der carism�tico?
Como � que ele era?
Talvez a palavra "l�der" seja muito forte para um adolescente.
PRESIDENTE DA MEDIASET
Mas j� tinha algumas caracter�sticas, como a simpatia,
a capacidade de seduzir os outros, de entreter.
Nos seus vinte e poucos, Berlusconi fazia de tudo,
cantava em cruzeiros no Mediterr�neo e num cabar� de Paris.
Trabalhar em cruzeiros era muito duro porque come��vamos de manh�
com jogos no conv�s.
- Eu organizava os jogos. - Como um animador?
Sim, um animador dos jogos de conv�s.
� tarde, ancor�vamos num porto, para visitar as cidades,
cidades que nunca vira antes.
Mas era o guia da visita?
Informava-me antes para ser o guia.
Costumava explicar: "� direita, � esquerda..."
Tinha lido sobre tudo num livro.
Depois, � noitinha, das 21 � meia-noite,
a orquestra tocava e os passageiros dan�avam.
E da meia-noite �s tr�s da manh�, era eu, "Uma voz e Uma guitarra".
Como v�, tinha muito trabalho.
Antes de acabar a escola, fui para Paris, melhorar o franc�s
e estudar direito comparado.
Direito italiano e direito civil franc�s.
E tive a oportunidade de cantar num cabar�.
Em Paris?
Sim, cantei nesse cabar�, at� o meu pai ir l� numa noite.
Algu�m lhe tinha dito.
Ficou na parte de tr�s do sal�o e, quando acabei de cantar
e voltei ao meu camarim, ele foi aos bastidores e disse:
"Est�s a pensar ser um cantor a tua vida toda?"
Abracei-o e, no dia seguinte, regress�mos juntos a Mil�o,
onde voltei a estudar...
... e a minha carreira de cantor acabou.
Aos 25, Berlusconi convenceu um cliente do banco do seu pai
a torn�-lo seu s�cio no seu primeiro projeto imobili�rio.
Come�ando, assim, a sua fase de Donald Trump,
ganhando milh�es como construtor imobili�rio
no boom dos anos 60 de Mil�o.
Como Trump, o jovem Berlusconi tinha tanto de ator como de vendedor,
fazendo quase tudo para vender o seu primeiro apartamento.
Tive de construir uma esp�cie de escrit�rio de vendas na estrada
que ficava ao lado do local de constru��o.
Lembro-me de que est�vamos em julho.
Eu era um rapaz bem-parecido e queria ficar bronzeado,
por isso, l� estava eu, a pintar a barraca, de tronco nu.
De repente, apareceu um casal que me disse:
"A nossa filha vai casar aqui perto,
est� a ver, naquela casa ali.
Gostar�amos de encontrar um apartamento aqui.
Podia dar-nos alguma informa��o?"
N�o lhes podia dizer que era tamb�m o dono da empresa
e que estava a pintar. Por isso, disse:
"Esperem um segundo, que vou chamar o patr�o."
Entrei l� para dentro, vesti-me, pus uma gravata e sa� a dizer:
"Bom dia, como posso ajud�-los?" E compraram o primeiro apartamento.
O marido da senhora disse-me: "Sabe que vi um rapaz aqui,
muito parecido consigo, a pintar, um rapaz bem-parecido..."
Eu respondi: "Sim, � meu primo. � um pouco...
N�o quero dizer burro, mas sabe, temos de ajudar os familiares."
Berlusconi era um grande vendedor,
� medida que os seus projetos cresciam,
continuava a receber apoio financeiro
da Banca Rasini, em Mil�o, onde o seu pai trabalhava...
... um banco uma vez descrito pelo famoso criminoso Michele Sindona
como tendo liga��es � m�fia.
O antigo procurador de Palermo, Antonio Ingroia,
passou anos a tentar estabelecer liga��es
entre o banco, a m�fia e Berlusconi.
O que era a Banca Rasini?
Era o banco em que o pai de Silvio Berlusconi trabalhava...
ANTIGO PROCURADOR ANTIM�FIA
... mas, principalmente, o banco fundado por Michele Sindona.
Era o banco que tinha sido o cofre do tesouro da m�fia em Mil�o.
Conseguimos encontrar microfilmes
com algumas das opera��es financeiras que mostravam grandes discrep�ncias,
sobretudo no n�mero de holdings
que estavam por tr�s da Fininvest.
Holdings em que, de repente e periodicamente,
enormes quantias eram depositadas, mas cuja origem nunca foi explicada.
Berlusconi nunca explicou de onde veio esse dinheiro.
Berlusconi nega categoricamente
que dinheiro da m�fia o tenha ajudado a come�ar no ramo imobili�rio.
Mas admite que muito do capital de investimento inicial
veio de contas de bancos su��os.
Porque foram investimentos em It�lia financiados por empresas su��as?
Primeiro, gostaria de dizer que, em rela��o � Fininvest,
o sistema de 22 holdings foi-nos imposto pelo nosso advogado fiscal.
As holdings eram todas italianas, e n�o, su��as.
Mas o financiamento veio...
No in�cio, �ramos...
... de fundos de Lugano, com nomes como Rezzonico...
... financiados por alguns fundos de Lugano, porque t�nhamos
s�cios como o Sr. Piccitto, um conhecido consultor fiscal,
ou o Sr. Rasini, o dono do banco em que o meu pai trabalhava,
que tinha dinheiro leg�timo depositado na Su��a.
Assim, investiram no capital, enviando dinheiro da Su��a.
Mas como responde �s acusa��es de uma poss�vel liga��o entre a m�fia
e a Banca Rasini, onde o seu pai trabalhava?
E isto explica a liga��o. Tem conhecimento destas acusa��es?
S�o uma completa tolice!
Inventaram isso para me prejudicar, porque tinham inveja de mim
e consideravam-me um inimigo.
Berlusconi negou as acusa��es
de que teria oferecido subornos para poder construir em Mil�o,
mas admite que os subornos eram uma pr�tica aceite na altura.
Para conseguirmos as licen�as para construir uma casa,
t�nhamos de ter um envelope cheio de dinheiro � m�o.
Confaloniere nega as hist�rias sobre dinheiro da m�fia.
Dinheiro da m�fia? Por favor!
Berlusconi come�ou com 30 milh�es,
o dinheiro da indemniza��o por despedimento do pai,
que ele investiu, com os seus s�cios.
Na altura, o ramo imobili�rio estava muito bem.
A linha de investiga��o mais forte que seguimos
baseou-se na ideia...
... da introdu��o de dinheiro sujo da m�fia
no patrim�nio de Silvio Berlusconi.
Na altura, foi a hip�tese inicial,
a origem il�cita dos fundos da Fininvest.
Alguns informadores,
sobretudo o mafioso Francesco Di Carlo,
falaram-nos de uma reuni�o crucial.
Uma reuni�o em que Stefano Bontade, o chefe da m�fia siciliana na altura,
acompanhado de Marcello Dell'Utri e Vittorio Mangano,
se encontrou com Silvio Berlusconi. Nessa reuni�o, chegaram a um acordo.
A m�fia investiria em Mil�o, atrav�s de Berlusconi,
e Berlusconi receberia prote��o.
Os procuradores de Palermo podem ter suspeitado de liga��es � m�fia,
mas nunca conseguiram prov�-las.
Tamb�m investigaram o estranho caso de Vittorio Mangano,
um assassino da m�fia e traficante de droga, que nos anos 70
foi contratado para tratar da villa e est�bulos de Arcore de Berlusconi.
De todos os candidatos entrevistados
para serem o respons�vel, ou capataz, desta casa de Arcore,
para tratarem da villa e dos cavalos...
... porque lhe indicaria Dell'Utri algu�m t�o perigoso
como um assassino da m�fia condenado...
... na altura, ainda n�o era condenado, isso foi depois,
mas porque escolheria algu�m t�o perigoso como Vittorio Mangano?
Porque quando o contratei, n�o havia nada nele
que me pudesse fazer pensar que estava ligado � m�fia.
S� isso.
Quando comprei esta propriedade,
tive de encontrar um respons�vel por ela,
sobretudo algu�m que conseguisse tratar dos cavalos.
T�nhamos uns dez ou 12 na altura, que participavam em corridas.
Coloc�mos an�ncios, mas n�o encontr�mos ningu�m.
Ent�o, o meu amigo e assistente Dell'Utri
lembrou-se de uma pessoa em Palermo.
E perguntou-lhe se conhecia algu�m
que fosse bom com cavalos,
e a resposta foi: "Se � para o Berlusconi, vou eu!"
Em rela��o ao Vittorio Mangano,
a sua �nica liga��o a cavalos eram as apreens�es de drogas,
�s quais ele chamava "cavalos"
durante as escutas telef�nicas que a pol�cia fez na altura.
Temos uma conversa telef�nica, em que Mangano pede a um traficante,
seu c�mplice, que v� buscar "os cavalos" ao hotel.
� improv�vel que Vittorio Mangano tivesse cavalos num quarto de hotel.
De acordo com os investigadores, Mangano era o elo entre a m�fia
e o mundo empresarial pr�ximo da m�fia,
incluindo o amigo de Berlusconi Marcello Dell'Utri,
que foi, mais tarde, condenado pela sua associa��o � m�fia.
Mangano, segundo alguns, estava em Arcore
para servir de prote��o contra raptores nos anos 70.
A verdade � que eu era o empres�rio famoso mais proeminente
de It�lia nessa altura.
Nesses dias, a m�fia costumava raptar muitas pessoas ricas.
Havia cartas sobre mim,
das quais os procuradores de Mil�o tinham conhecimento,
com amea�as de rapto em rela��o ao meu filho.
N�o tentativas, mas amea�as.
Fui for�ado a levar a minha mulher e os meus filhos para fora,
tendo de atravessar v�rios pa�ses at� os p�r em Espanha.
Dell'Utri, anos ap�s Mangano ser condenado,
continuou em contacto com ele.
Sabia que ainda comunicavam?
N�o, n�o sabia isso.
Na sua opini�o, Dell'Utri n�o � um mafioso?
Ele � a melhor pessoa que pode imaginar.
� uma pessoa extremamente culta, o maior bibli�filo italiano.
De entre muitas coisas, sabe a Divina Com�dia de cor.
Tem uma linda fam�lia, quatro filhos.
Era membro da Opus Dei, � um cat�lico praticante.
Todos os seus empregados gostam dele e respeitam-no.
Tenho a certeza de que est� na pris�o e de que foi condenado
apenas por ser meu amigo.
Berlusconi n�o se sente � vontade e o seu pessoal tenta ajud�-lo
com alguns gestos fora da objetiva da c�mara.
Durante a grava��o das entrevistas, o pessoal tenta sempre proteg�-lo.
Por vezes, tentam at� bloquear as c�maras.
Umas vezes, subtilmente, outras, mais claramente.
J� chega!
Para Stefano Folli, o analista pol�tico mais respeitado de It�lia,
houve sempre algo de suspeito nas finan�as iniciais de Berlusconi.
Acredito que haja algo de obscuro na forma como Berlusconi...
ANALISTA POL�TICO
... construiu inicialmente a fortuna. Houve um pecado original.
Mas, independentemente da fonte de dinheiro de Berlusconi,
at� os seus cr�ticos coincidem em que era um inovador.
Estou convencido de que Berlusconi foi sempre um inovador.
Primeiro, no ramo imobili�rio, depois, na televis�o,
o que significa que modernizou v�rios setores.
Mas esteve sempre ligado � pol�tica.
Ele era muito astuto e cuidadoso no modo como ligava a fortuna pessoal
aos contactos pol�ticos.
Berlusconi fez o primeiro milh�o, como jovem empres�rio, nos anos 70,
quando inventou o Milano Due,
uma comunidade autossuficiente na periferia de Mil�o.
Nessa altura, ele n�o vendia apenas um bloco de apartamentos,
mas um novo estilo de vida yuppie.
A verdadeira novidade foi a cria��o aqui, em It�lia,
de uma cidade completamente autossuficiente.
Com todo o tipo de servi�os, desde infant�rios a escolas, igrejas,
hospitais e centros comerciais, tudo junto.
Por volta do final dos anos 70,
� medida que se tornava um empres�rio imobili�rio famoso,
Berlusconi n�o descansava e, nessa altura, o seu interesse
come�ou a virar-se para o mundo do espet�culo, para a televis�o.
De que estamos a falar?
Do in�cio da televis�o privada, se n�o se importar.
Estou pronto.
Foi gra�as a uma s�rie de senten�as de tribunal
que Berlusconi come�ou a pensar em enfrentar o monop�lio
da esta��o televisiva p�blica italiana RAI.
Assim, colocou o irm�o Paolo ao comando do imp�rio imobili�rio
e aplicou o seu toque de Midas na televis�o.
Na altura, s� havia esta��es p�blicas na Europa.
As esta��es eram propriedade privada de pol�ticos
As �nicas pessoas com acesso � televis�o eram jornalistas,
amigos de pol�ticos e empresas
que tinham uma boa rela��o com pol�ticos.
Berlusconi sentiu que aquilo podia ser uma oportunidade
de neg�cio extraordin�ria.
Em 1978, ele compra um pequeno canal de televis�o,
compra as frequ�ncias e cria a TeleMilano58.
Coloca no ar um canal de TV local,
mas apercebe-se de que uma esta��o local...
... n�o � suficiente.
Por isso, re�ne uma s�rie de canais locais e regionais,
que eram o tipo de canais permitidos por lei.
Porque a lei dizia que se podia criar uma esta��o privada,
mas apenas localmente.
At� certo ponto, percebi que, para ter melhores anunciantes,
era necess�rio mostrar os an�ncios
n�o s� localmente, como a n�vel nacional.
Foi a� que inventei a transmiss�o ao vivo,
que n�o era verdadeiramente ao vivo.
Gravava programas de televis�o com uns dias de avan�o.
�s quintas, grav�vamos os programas de domingo,
e eu punha grandes letreiros no est�dio a dizer:
"Lembrem-se! Hoje � domingo!"
Assim, grav�vamos o original e mand�vamo-lo para todos os canais
que trouxemos para o nosso cons�rcio, para a nossa rede.
Berlusconi comprou os direitos televisivos de Dallas e Dinastia.
E trouxe o hedonismo americano da era Reagan para a It�lia.
Drive in
Drive in
Drive in
Revolucionou, tamb�m, a forma como os espa�os publicit�rios se vendiam.
As ag�ncias publicit�rias faziam tudo
para as empresas.
N�o apenas a mensagem, o pr�prio an�ncio,
como tamb�m o posicionamento da publicidade numa rede ou noutra.
Assim, dei a volta completa �s intera��es com as ag�ncias,
indo diretamente �s empresas.
- Foi dif�cil entrar nesse mundo. - Afastou as ag�ncias de publicidade?
Sim, fui obrigado, porque as ag�ncias n�o nos davam nada.
Elas pediam 15 a 20 por cento.
Pois, mas davam-nos s� migalhas.
A dado ponto, para convencer as empresas deste novo m�todo,
inventei uma f�rmula que era arriscada para n�s,
� qual cham�mos "Opera��o Risco".
A Opera��o Risco consistia no seguinte...
Diz�amos a uma empresa:
"Voc�s investem 100 milh�es. Em vez de 100 milh�es,
n�s passaremos an�ncios no valor de 500 milh�es,
por nossa conta e risco.
E voc�s s� nos pagam se as vossas vendas aumentarem."
A intui��o de Berlusconi revelou-se um grande sucesso
e no in�cio dos anos 80
tinha criado e comprado tr�s esta��es nacionais.
Estava a invadir o monop�lio das esta��es p�blicas
e a tornar-se um bilion�rio.
Mas estava a infringir a lei que proibia as emiss�es nacionais.
Em 1984, as suas esta��es de TV encerraram por decis�o do tribunal.
O homem que o salvou na altura foi o primeiro-ministro Bettino Craxi,
amigo e aliado pol�tico de Berlusconi.
O primeiro-ministro Craxi, um amigo seu na altura,
assinou tr�s leis em separado que voltaram a p�-lo no ar,
basicamente, legitimando-o.
O que � que se passou? Houve quem dissesse que subornou.
Disseram que usou a sua amizade. Disseram muitas coisas.
Qual � a verdade?
Penso que a minha amizade com Craxi
teve import�ncia nessa decis�o. Expliquei detalhadamente ao Craxi
como a televis�o privada era fundamental para a economia.
E fiquei grato ao Bettino Craxi por isso, mas ele f�-lo
com o apoio da maioria. - Dos cinco partidos.
O primeiro-ministro Craxi foi depois julgado e condenado por corrup��o,
e Berlusconi condenado por transferir milh�es de d�lares
para uma conta offshore de Craxi.
A condena��o foi mais tarde anulada por ter prescrevido.
Berlusconi, claro, nega tudo.
Nunca tive esse tipo de rela��o com algum pol�tico.
Durante v�rios meses,
perguntei v�rias vezes a Berlusconi sobre o caso Craxi.
Falemos do processo All Iberian.
Foi a empresa offshore
que o grupo Fininvest
foi acusado de usar para financiar partidos ilegalmente.
E os ju�zes declararam-no culpado
de transferir 22 mil milh�es de liras
para Bettino Craxi entre 1991 e 1992.
Foi condenado, mas a condena��o foi rejeitada no recurso,
por o prazo ter prescrevido.
Pode contar-me a sua vers�o desta hist�ria e, sobretudo,
se disseram que havia dinheiro na conta de Craxi
e houve uma condena��o,
como � que o pode negar?
Nego-o, porque n�o � verdade. Bettino Craxi era um amigo �ntimo.
O dinheiro que os partidos pol�ticos obtinham, de uma forma ou de outra,
era essencial para manterem as suas subdivis�es abertas,
para pagarem as contas telef�nicas, para a propaganda, para cartazes.
Esta � a verdadeira hist�ria.
� claro que tamb�m havia casos de corrup��o pessoal, etc.
At� os pol�ticos mais honestos
tiveram de financiar as suas atividades de alguma forma.
Recordemos que os partidos pol�ticos s�o institui��es
necess�rias, essenciais � democracia.
Assim, para concluirmos este assunto, que, para muitos italianos,
� um s�mbolo do �dio que sentem por si...
A esquerda repete isto h� 20 anos...
Berlusconi pagou a Craxi... O senhor, a Fininvest, ou algu�m em seu nome,
os seus amigos, ou empres�rios, ou financiadores...
Berlusconi e companhia nunca deram um c�ntimo a Craxi
e a condena��o foi falsa?
Eu n�o me lembro dessa condena��o.
Ter� sido uma condena��o em primeira inst�ncia, ou assim.
- Em primeira inst�ncia, sim. - E ent�o?
Isso faz parte da publicidade antiBerlusconi.
N�o me surpreende que tenha financiado de v�rias formas
e ainda me surpreende menos que o negue.
Pensa que prescrever
� o mesmo que absolver, mas n�o �.
Veja, estou a derramar sangue por si.
Meu Deus.
Num dia de grava��o, Berlusconi cortou-se numa folha de papel.
Mas, voltando � nossa hist�ria, ap�s as esta��es de TV privadas
serem legalizadas por Craxi, Berlusconi fez milhares de milh�es,
com o lucro proveniente de an�ncios a subir em m�dia 48 % por ano,
durante os anos 80.
Nessa d�cada, trouxe estrelas pop como Barbara Streisand e Rod Stewart
a It�lia, e tentou repetir o sucesso do seu Canale5, ao lado, em Fran�a,
com um canal chamado La Cinq, e em Espanha, com a Telecinco.
Enquanto o desabrimento italiano
do estilo televisivo de Berlusconi se traduziu bem em Espanha,
n�o foi esse o caso na fechada cultura francesa.
Ap�s seis turbulentos e dif�ceis anos, La Cinq foi encerrada,
um raro fracasso para Berlusconi.
Mas, no mesmo dia de 1986
em que Berlusconi lan�ou o seu canal em Fran�a,
come�ou uma nova aventura em It�lia,
ao comprar o clube de futebol AC Mil�o.
O treinador de longa data Adriano Galliani,
lembra-se de como Berlusconi
fez a sua dram�tica entrada, fazendo voar tr�s helic�pteros
sobre o est�dio de Mil�o,
com estrelas de futebol a saltarem para o campo.
Lembro-me perfeitamente. Foi no dia 18 de julho de 1986.
Se bem me lembro, inspirou-se no Apocalypse Now ou algo assim...
Sim, tratou-se de duas coisas.
Uma, foi a ideia de chegarem de helic�ptero...
CEO DO AC MIL�O
... em vez de virem de carro ou no autocarro do clube.
Para dar uma sensa��o de import�ncia, uma sensa��o de grandeza.
Nesses anos, houve um filme que tinha tido muito sucesso,
o Apocalypse Now, por isso, decidimos entrar no est�dio de helic�ptero
e usar a banda sonora, com a "Cavalgada das Valqu�rias".
Mas, naquela altura, para o p�blico...
ESPET�CULO REBENTA EM MIL�O
... mais do que tratar-se de Wagner, tratava-se do Apocalypse Now.
Berlusconi ainda gosta de fazer uma grande entrada
e adora a sua viagem de helic�ptero semanal
ao campo de treinos do AC Mil�o em Milanello.
- Primeiro-ministro... - Como est�?
- Muito bem, o senhor? - Bem, obrigado.
- Ol�, como est�? - Ol�. Bem.
Ali est� a trabalhadora regi�o de Brianza.
Armaz�ns, f�bricas, casas... Tudo junto.
- Ol�, como est�? - Bem, obrigado.
Quando construiu Milanello?
Penso que foi constru�do em 1935.
Revitalizei-o um pouco, modernizei-o, adicionei mais uns campos.
C� estamos! Como est�o?
Ficas melhor assim.
Ol�. Os jornais disseram que est�s melhor.
Ol�.
- A tua mulher? - Est� bem.
- As crian�as? - Tamb�m.
- Est�o bem? - Sim.
E a casa? Est�s a adaptar-te bem?
Sem problemas?
Para o seu anivers�rio, quisemos dar-lhe algo.
N�o, a s�rio?
Muito obrigado, sinto-me honrado.
Numa divis�o da minha casa, tenho todos os presentes
que os jogadores do Mil�o me deram nos �ltimos 30 anos.
H� um, em particular, do qual gostei mesmo,
mas n�o posso dizer qual agora, porque nos est�o a filmar.
Dir-vos-ei noutra altura.
Que bonito! Percebo o que isto �.
Nunca vi tantos rapazes bem-parecidos como os que est�o aqui.
Voc�s s�o muito bem-parecidos e elegantes, com a Casa Milan atr�s,
a mais bonita sede de um clube de futebol do mundo.
Muito obrigado.
Eu vi os vossos dois �ltimos jogos.
Voc�s souberam fazer um jogo harmonioso e divertido,
jogaram como uma grande equipa.
Vi que estiveram muito bem nos cantos.
Mas, lembro-vos, t�m de estar todos na �rea
quando a bola j� partiu, ou est� quase a partir.
Para a rea��o instintiva do defesa, que n�o consegue olhar para voc�s
e para a bola ao mesmo tempo, ser bloquear o vosso caminho.
Ganhei muitos pen�ltis desta forma, mas t�m de o fazer bem.
Quero ainda recordar-vos para, quinze a 20 minutos antes do fim,
manterem a posse de bola.
O que grita o treinador da linha lateral?
- Atacar! - Atacar!
Mas tens de gritar alto: "Atacar!"
O que significa colar a bola ao p�.
E, depois, virar e ir na outra dire��o.
- Vamos ver se te conseguem ouvir. - Atacar!
Mais alto!
- Vou perder a voz. - Mais alto, estamos num est�dio!
- Atacar! - Mais alto!
- Atacar! - Oi�am: "Atacar!"
Quem foi melhor? Eu, certo? Sou sempre o n�mero um.
Adeus! Obrigado pelo presente.
Muito obrigado. Adeus.
Parab�ns pelos golos e por tudo. Muito bem.
Obrigado.
Quando � que me apresentas � tua mulher?
S� para a ver, j� sou velho, j� n�o consigo fazer nada, mas...
Todos dizem que � a mais bonita.
Adeus! Fiquem bem, rapazes!
H� quantos anos est� no AC Mil�o?
Trinta.
Trinta anos! Parab�ns. Parece mais novo.
Quase mais novo que eu.
Adeus e obrigado, pessoal!
Quero formar uma equipa.
Vou vir aqui todas as sextas-feiras, a come�ar por esta.
Quero um Mil�o como antigamente.
Quero que sejam italianos, jovens, sedentos de dinheiro e gl�ria,
sem tatuagens nem brincos.
O �nico s�tio em que podem ter um brinco � no p�nis.
Com os triunfos repetidos do Mil�o,
Berlusconi tornou-se um her�i nacional,
com milh�es de f�s de futebol a tornarem-se f�s de Berlusconi.
Mais tarde, usou o c�ntico de futebol "Forza Milan"
para criar um partido pol�tico a que chamou "Forza Italia",
ou "For�a, It�lia".
Creio que o desporto foi essencial para Silvio Berlusconi.
Tamb�m nisso foi um inovador.
Ningu�m em It�lia usara um clube de futebol
para construir uma imagem p�blica.
Decidi entrar no campo da pol�tica,
porque n�o quero viver num pa�s iliberal.
Criaria o Forza Italia das cinzas de um partido pol�tico italiano,
que fora destru�do por uma s�rie de esc�ndalos conhecidos,
em It�lia, como os esc�ndalos Tangentopoli.
A �nica possibilidade que havia era criar algo que se opusesse
ao ganho de poder por parte do partido comunista italiano,
ou seja, criar um novo movimento italiano conservador e liberal.
A maioria do pa�s compunha-se de italianos moderados.
Vi-me for�ado a tomar essa decis�o.
Se quiser, conto-lhe sobre a noite em que eu...
Sem d�vida, por favor. Quando foi isso?
Quando disse aos meus amigos, aos meus gestores, aos meus filhos
e � minha m�e a decis�o que ia tomar.
Aqui, em Arcore? Quando?
Sim. Convidei-os para jantar. Em janeiro de 1994.
E olhei para a situa��o com eles.
E disse: "Sinto que � meu dever dar este passo."
Nem imagina...
... como eles reagiram.
Opuseram-se todos � ideia.
E a minha m�e, que sempre teve olho para o futuro, disse:
"V�o tentar destruir-te.
Viste o que fizeram a outros, afastaram-nos do caminho."
Quais eram os riscos?
A magistratura coloca-nos sob o microsc�pio
e descobrir� o que houver para descobrir.
Quando ele decidiu ir para a pol�tica, j� havia investiga��es
de que tivesse conhecimento?
Ou foi s� uma an�lise racional da cultura italiana?
Havia investiga��es. Em abril,
as autoridades tribut�rias j� tinham vindo aos nossos escrit�rios.
- Em abril de 1993? - De 1993.
E porqu�? Pelo financiamento ilegal de partidos pol�ticos.
Mas estava l� nessa altura, em 1993,
os cr�ticos de Berlusconi sugeriram que tinha ido para a pol�tica
porque estava sob investiga��o e pensava conseguir imunidade
ou porque a sua empresa estava falida e ele precisava do dinheiro.
� verdade ou mentira?
Completamente mentira, uma falsidade.
Essa foi a primeira pedra de um castelo de mentiras
constru�do contra Berlusconi.
Se perguntarmos a Berlusconi se � verdade que foi para a pol�tica
para proteger o imp�rio empresarial e evitar ser processado,
recebemos uma nega��o clara.
S�o mentiras absolutas, o oposto da realidade.
Em qualquer dos casos, n�o h� d�vida
de que Berlusconi lan�ou a carreira pol�tica de forma espetacular.
Reuniu as tropas na Mediaset, o seu imp�rio televisivo.
As estrelas, o pessoal do marketing, os pesquisadores de opini�o,
os grupos de estudo, e apresentou-se...
PARA CONTAR MAIS NA EUROPA
... a ele e ao partido, como um an�ncio.
Lan�ou o seu partido em janeiro de 1994,
com uma populista mensagem em v�deo de nove minutos para a na��o.
Digo-vos que conseguimos faz�-lo.
Digo-vos que temos de construir um novo milagre italiano juntos,
por n�s e pelos nossos filhos.
Do princ�pio ao fim, levou 60 dias a ser eleito.
Berlusconi tirou muito partido da televis�o
e da sua imagem
de empres�rio proeminente dos meios de comunica��o.
Principalmente, ele apresentou-se como algo de novo,
sobretudo, devido � linguagem corporal e � sua apresenta��o.
Uma figura completamente inovadora,
apesar de as pessoas saberem algumas coisas sobre o seu passado,
sobre as liga��es a Craxi e a outros l�deres pol�ticos desacreditados.
Berlusconi n�o pareceu imediatamente capaz de governar.
De facto, estava mais habituado a ser CEO do que primeiro-ministro.
E n�o tinha muito respeito pelo parlamento.
Foi um desastre.
Um desastre porque houve uma altura
em que participei nos trabalhos no parlamento,
que n�o passa de um grande p�tio onde as pessoas bisbilhotam
e falam mal nas costas.
Poucos elementos do parlamento trabalhavam,
pod�amos dizer, uns 100 ou isso.
Para um empres�rio que trabalhava desde manh� cedo at� bem tarde,
era um desastre.
O primeiro mandato de Berlusconi n�o durou muito tempo.
Acabou apenas seis meses ap�s ter tomado posse do cargo.
Durante uma confer�ncia da ONU em N�poles sobre crime organizado,
Berlusconi foi atingido pelas manchetes...
BERLUSCONI INVESTIGADO
... que diziam que estaria sob investiga��o por corrup��o.
Tinha de estar dispon�vel para ser interrogado
sobre as alega��es de ter subornado funcion�rios fiscais.
Colocaram-me sob investiga��o,
o que era, basicamente, suficiente
para afastar qualquer um da pol�tica.
O governo de Berlusconi caiu,
e ele enfrentaria seis longos anos afastado dos holofotes pol�ticos,
colecionando acusa��es de suborno,
lavagem de dinheiro e corrup��o, entretanto.
Mas, ap�s seis anos, a sua velha magia regressou
e conseguiu reunir o consenso do centro-direita italiano.
Silvio Berlusconi � uma pessoa muito persistente.
� um lutador formid�vel. Tem-no sido a vida toda.
J� est� velho, mas nos melhores dias, era muito forte.
Apesar de ter estado seis anos afastado do panorama pol�tico,
ele conseguiu manter a sua influ�ncia pol�tica,
a sua lideran�a e reconstruir alian�as pol�ticas.
Num pa�s ainda zangado e frustrado,
apresentou-se como algu�m capaz de liderar no mundo pol�tico.
Em 2001, regressou ao gabinete do primeiro-ministro
e fez novos amigos no palco mundial.
Dois deles depressa se tornariam melhores amigos de Berlusconi,
George W. Bush e Vladimir Putin.
Para Silvio Berlusconi, ao conhecer Bush, foi amor � primeira vista.
Aqui... Para o Silvio, com respeito e admira��o,
George W. Bush.
Eram amigos pr�ximos e tinham mais do que uma mera alian�a pol�tica,
trabalhavam juntos.
Tenho de dizer que sentimos logo uma liga��o entre n�s.
Berlusconi conheceu Bush no ver�o de 2001.
Criaram la�os no meio da tr�gica viol�ncia da cimeira do G8 em G�nova,
nesse julho, em que protestantes tornaram-se violentos
e a pol�cia matou um jovem.
Foi na mesma cimeira que Berlusconi conheceu outro l�der mundial
que se tornaria num amigo pr�ximo, Vladimir Putin.
Acho que foi amor � primeira vista,
pelo menos da minha parte,
e acho que o mesmo se passou com ele.
Aos poucos, torn�mo-nos amigos e, um ano depois,
consegui uma coisa da qual tenho muito orgulho,
enquanto homem do estado.
A reuni�o em Pratica di Mare, na It�lia, que aconteceu em 2002.
Isso, na minha opini�o,
p�s fim � Guerra Fria que nos devastou durante d�cadas.
FOR�A A�REA
A maioria dos seus cr�ticos n�o � t�o generosa sobre o seu papel
e lembram que a Guerra Fria terminou dez anos antes do pomposo
tratado assinado durante a cerim�nia em Pratica di Mare.
No entanto, mesmo cr�ticos
como o correspondente de longa data em Roma do Le Figaro,
Richard Heuz�,
dizem que n�o h� d�vidas sobre a import�ncia simb�lica do evento.
Foi talvez o ponto mais alto nas rela��es p�s-Guerra Fria
entre Washington e Moscovo.
A cimeira da NATO em Pratica di Mare foi crucial por ser a primeira vez...
CORRESPONDENTE EM ROMA
... que a R�ssia regressava ao contexto global,
como parceira em negocia��es internacionais.
E isso foi mesmo gra�as a Berlusconi,
� sua rela��o pessoal com o l�der russo,
que teve um grande peso no sucesso da cimeira.
� medida que Moscovo e Washington come�avam a cooperar
na guerra contra o terrorismo,
Berlusconi teve um papel nos bastidores,
como intermedi�rio entre o Oriente e o Ocidente.
O pr�prio Putin admitiu isso numa rara entrevista no Kremlin.
Espero que concorde comigo, o Sr. Berlusconi � o homem
PRESIDENTE DA R�SSIA
... que ficou mais tempo no governo em It�lia,
no per�odo do p�s-guerra, o que significa
que conseguiu atrair n�o s� a aten��o dos italianos...
Vladimir � exatamente o oposto da imagem
que os meios de comunica��o ocidentais passam dele.
� um verdadeiro defensor
da liberdade e da democracia no seu pa�s.
... mas tamb�m persuadi-los
de que todas as suas a��es
s�o no interesse dos italianos,
s�o para salvaguardar os interesses do povo italiano.
Esse � o primeiro ponto.
O segundo � ele ser uma pessoa muito interessante,
not�vel e direta.
E tudo isto, creio eu, d�-nos motivos para acreditar...
... que, enquanto pol�tico e pessoa,
Silvio Berlusconi ficar�, sem d�vida,
na hist�ria de It�lia.
Mas n�o se fica por a�.
Putin tamb�m confirmou que ambos concordaram numa s�rie de quest�es,
desde a oposi��o � invas�o do Iraque por Bush,
� oposi��o � mudan�a de regime na L�bia, aquando da Primavera �rabe.
As conversas que tivemos n�o se limitaram, em regra,
apesar de, claro, falarmos dessas quest�es tamb�m,
mas fal�vamos bastante menos das quest�es do dia-a-dia.
Ele prefere abordar quest�es numa perspetiva a longo prazo.
Que dizem respeito � It�lia, � Europa e �s rela��es internacionais.
Neste sentido, ele �, sem d�vida, um homem verdadeiramente not�vel.
S�o, certamente, um par estranho,
e Berlusconi nega as acusa��es de ser um porta-voz de Putin,
mas tende a estar sempre a defend�-lo,
mesmo em rela��o � anexa��o da Crimeia pela R�ssia.
Putin levou simplesmente o seu ex�rcito
at� � fronteira com a Crimeia, com um �nico objetivo,
ele n�o disse: "Estou a invadir-vos." N�o, ele disse: "Cuidado.
N�o se oponham � vontade
do povo da Crimeia, porque, se o fizerem, invadir-vos-ei."
N�o restam d�vidas, Berlusconi adora Putin.
N�o quero fazer compara��es.
Digo-lhe que Putin � uma pessoa determinada e profunda.
Tem um car�ter calmo e doce.
Nas rela��es humanas, � um amigo muito querido.
Vladimir Putin chega a defender Berlusconi
em rela��o �s d�zias de acusa��es e julgamentos.
FICHEIRO �UDIO
Gostaria de dizer uma coisa.
O Sr. Berlusconi come�ou na pol�tica em 1994, creio eu.
Entrou para a pol�tica em 1993 e tornou-se primeiro-ministro.
Antes disso, era empres�rio
e nunca teve quaisquer problemas com as for�as da autoridade.
Mas, assim que se tornou primeiro-ministro,
foram levantadas tr�s d�zias de processos criminais contra ele.
E esta divis�o?
S�o tudo coisas que me foram dadas.
Isto � S�o Petersburgo.
Estou aqui, na foto, mas n�o sou mesmo eu.
Foi o Putin que decidiu: "N�o quero o Prodi,
quero a cabe�a do Berlusconi." E p�s-me ali.
Sabem mesmo como mudar a hist�ria, n�o?
Esta � a minha irm� mais nova, sou eu...
Putin falou de tr�s d�zias de casos contra Berlusconi...
DIAS FELIZES
... mas, com o tempo, Berlusconi enfrentaria mais de 60 no total,
que iriam colorir e definir a sua vida,
quase tanto como as tr�s vit�rias nas elei��es.
Durante 20 anos, Berlusconi dominaria a na��o, mas sempre com esc�ndalos.
Tenho a certeza absoluta da minha conduta. Sempre tive.
Em mais de 60 processos, s� fui condenado uma vez.
Ap�s 23 anos de investiga��es, acusa��es, processos...
Desculpe, mas s�o muitos mais anos.
Tamb�m tem de considerar os anos de Silvio Berlusconi, empres�rio,
e ver� que o total s�o quase 50 anos de investiga��es e processos.
Disse-me que, em todos esses anos,
gastou 600 milh�es em despesas legais?
- Quase 600 milh�es. - De euros?
De euros.
Os seus rivais pol�ticos dizem que escapou � justi�a muitas vezes,
mudando as leis, para descriminalizar certos crimes,
para lhe dar imunidade e para reduzir os prazos de prescri��o.
As leis foram mudadas.
Berlusconi conseguiu mudar as leis e reivindicar imunidade.
Dizia que n�o o podiam condenar,
mas quando estavam quase a faz�-lo, ele mudava tudo de novo.
Gra�as � maioria no parlamento
e � sua influ�ncia nos meios de comunica��o,
conseguiu mudar a dire��o pol�tica e cultural do pa�s.
Foi isso que aconteceu em It�lia.
Os italianos come�aram a desconfiar da magistratura,
a mudar a dire��o pol�tica e cultural que o pa�s estava a tomar,
porque, hoje, o pa�s parece-se mais com Berlusconi,
em termos de cultura e mentalidade.
Ele foi absolvido porque reduziu os prazos de prescri��o.
Berlusconi safou-se dos crimes, n�o gra�as a uma verdadeira absolvi��o,
mas gra�as � redu��o dos prazos.
Mas, durante o processo,
o prazo de prescri��o tornava-se muito mais reduzido.
Berlusconi era muito bom a mudar as regras do jogo.
� acusado de ter feito aprovar v�rias leis � sua medida,
por exemplo, a descriminaliza��o da fraude contabil�stica,
o que o ajudou a n�o ser condenado.
Como responde a essa acusa��o?
Tretas.
E em rela��o � fraude contabil�stica?
N�o estou a passar um bom bocado aqui, sabe.
- S�o tudo coisas antigas. - Primeiro-ministro Berlusconi...
Hist�ria atr�s de hist�ria...
- Primeiro-ministro... - J� foi tudo esclarecido.
Primeiro-ministro Berlusconi, fizemos 24 entrevistas nos �ltimos 14 meses.
Esta � a vig�sima quinta.
Seria negligente da minha parte se n�o lhe perguntasse
sobre as acusa��es que foram feitas contra si,
incluindo as mais s�rias...
Desse ponto de vista, agrade�o-lhe.
Foi acusado de liga��es � m�fia,
de corromper Craxi, de v�rias coisas, primeiro-ministro.
Precisamos de esclarecimentos, de uma vez por todas,
j� que estou a escrever a sua biografia!
- � um estrangeiro. - Mas, mesmo em It�lia.
Oi�a, n�o estou aqui para o julgar, mas para obter respostas.
J� s� faltam quatro ou cinco perguntas.
Tenha paci�ncia, por favor!
Confio em si.
No in�cio de 2011,
Berlusconi foi indiciado pelo crime de sexo
com uma prostituta menor, Ruby Rouba Cora��es, de 17 anos,
cujo nome real � Karima El Mahroug, nascida em Marrocos.
Os magistrados de Mil�o
... tinham-no atingido em cheio.
Tinha tudo a ver com as chamadas festas Bunga Bunga,
alegadamente, noites com m� fama de lap dances e fetiches sexuais
na villa de Arcore.
Berlusconi negou tudo,
mas ofereceu uma visita guiada � divis�o que afirmou
ter sido a infame divis�o Bunga Bunga.
Agora, vou mostrar a lend�ria sala de culto das famosas
noites Bunga Bunga.
- Sente-se com coragem? - Sim.
- Vamos l�, ent�o. - Vamos.
Aqui?
- Est� preparado? - � a divis�o Bunga Bunga?
- Esta mesma. - � apenas uma grande sala de jantar.
� uma sala de jantar. Era aqui que aconteciam os ser�es.
Eu sentava-me ali. A orquestra estava ali em cima.
Pronto.
A mesa est� igual, nada mudou.
Na verdade, como lhe disse, continuei, e ainda continuo,
a fazer esses ser�es, essas festas mesmo aqui,
com diferentes convidados. Nessa ocasi�o,
havia v�rias raparigas bonitas
do mundo da televis�o e do cinema, porque sou produtor de filmes.
Fa�o televis�o e estavam contentes por visitar o primeiro-ministro,
o presidente do AC Mil�o, o magnata do cinema,
o homem que ganhou �scares italianos com os seus filmes,
que faz televis�o.
Al�m disso, acho que sou divertido, um primeiro-ministro an�malo.
E onde se sentou Ruby?
- N�o me lembro! - Mas era uma das convidadas?
Sim.
Berlusconi diz-me que esta � a famosa divis�o Bunga Bunga,
Mas Ruby, a Rouba Cora��es, tem uma vers�o diferente.
O que havia na divis�o? Como era?
Quando desc�amos as escadas, havia uma consola...
... com umas poltronas ao p�.
Havia uma esp�cie de coluna, com outras poltronas em quadrado.
Havia um poste para dan�as?
- Sim. - Muito bem.
E enquanto a m�sica tocava, algumas raparigas come�avam a dan�ar.
Algumas, vestidas de enfermeiras.
Vi...
Lembro-me de alguns nomes... Nicole Minetti estava vestida de freira.
- Tamb�m estava l� a Marysthell... - Marysthell Polanco?
Sim, ela vestia-se sempre de duas personagens,
uma era de Obama, e a outra, n�o sei.
Soube, mais tarde, que era a Ilda Boccassini.
Qual � a origem da express�o "Bunga Bunga"?
Bunga Bunga � uma velha hist�ria. Vem de um acontecimento real.
O Gaddafi queria sempre que eu fosse � cerim�nia "Rei dos Reis".
Um ano, n�o consegui ir porque tinha um compromisso muito importante.
Assim, ele pediu-me para enviar dois representantes, o que fiz.
E aqui come�a a hist�ria.
Os dois foram capturados pela �nica tribo revolucion�ria que resta.
S�o amarrados a um poste, no centro da aldeia,
e realizam uma dan�a tribal ao redor deles.
A tribo faz sons guturais, e a �nica coisa que percebem �
"Bunga Bunga".
A dan�a termina e o feiticeiro aproxima-se de Cicchitto,
um deles os dois, e pergunta: "Preferes morrer ou Bunga Bunga?"
E, como qualquer um faria, entre morrer ou "Bunga Bunga",
ele escolheu "Bunga Bunga".
E, ent�o, todos os guerreiros da aldeia foram a ele!
O feiticeiro aproxima-se do meu outro emiss�rio, o Bondi,
e pergunta-lhe: "Queres morrer ou 'Bunga Bunga'?"
O Bondi, tendo visto o que acontecera ao Cicchitto, responde: "Morrer!"
O feiticeiro disse: "Est� bem, mas antes um pouco de Bunga Bunga!"
Apesar de acabar por ser absolvido da acusa��o de prostitui��o infantil,
Berlusconi voltaria a ser indiciado, desta vez pelo crime de subornar
muitas das raparigas, para comprar o seu sil�ncio
e cometerem perj�rio no primeiro julgamento.
De novo, negou tudo.
Todos as convidadas que participaram, mesmo que apenas uma vez,
nos meus jantares, viram os seus nomes nos jornais.
Desde a�, os seus nomes ficaram ligados a este processo
e, se os procurar na Internet,
essas raparigas parecem as acompanhantes de Berlusconi,
era como os ju�zes queria que ficassem conhecidas.
As suas vidas foram destru�das para sempre.
N�o conseguem come�ar uma fam�lia ou arranjar um namorado a s�rio.
N�o conseguem arranjar trabalho, nem mesmo nas minhas empresas,
nem na Mediaset,
porque os produtores e realizadores recusam-se a contrat�-las.
N�o conseguem arranjar casa, porque n�o t�m um trabalho permanente
e ningu�m quer ser seu fiador.
Disse sempre que n�o era culpado de nada.
O que aconteceu n�o � culpa minha.
Mas sinto-me respons�vel, porque participarem nos meus jantares
acabou por lhes destruir as vidas.
� por isso que as ajudei.
� por isso que ainda as ajudo e porque continuarei a ajud�-las,
at� sa�rem desta situa��o.
Durante esta entrevista, a namorada de Berlusconi, Francesca Pascale,
que � 50 anos mais nova que ele, ouvia no p�rtico da mans�o.
Francesca Pascale trabalhava na televis�o local em N�poles.
Est�o juntos desde 2012.
Enquanto brincava no jardim com os seus caniches, Dudu e Dudina,
a namorada de Berlusconi parecia brincar sobre o julgamento
de Berlusconi em rela��o �s acusa��es de sexo com uma prostituta menor.
C� est�o eles, os dois menores, Dudino!
Seria a hist�ria mais gentil para ele
se tivesse levado uma vida privada mais discreta?
Claro que, se tivesse sido discreto, teria conseguido evitar muita coisa.
Mas o que fez mesmo Berlusconi? Essa � a quest�o.
Induziu uma menor
a prostituir-se?
- Nem pensar, esque�a! - O que quer dizer?
- Acha que n�o o fez? - Por favor!
Mas alguma vez participou nas noites "Bunga Bunga"?
N�o, porque n�o estava interessado.
Berlusconi mostrou-me a divis�o e disse: "� a divis�o Bunga Bunga."
Disse-me que nada se passara ali, apenas jantares e cantorias...
Berlusconi adora cantar.
Adora estar rodeado de pessoas... E, sejamos honestos, sentia-se s�.
- N�o tinha mulher. - Em casa.
Estava sozinho, na sua pr�pria casa.
Sabia que todos os que foram a Arcore foram interrogados
como se fossem mafiosos, como se fossem gangsters?
� essa a grande irregularidade deste pa�s,
n�o que Berlusconi estivesse rodeado de raparigas
com quem podia fazer o que quisesse.
C� VAMOS N�S DE NOVO
Em 2011, o esc�ndalo Bunga Bunga de Berlusconi tinha explodido
nas primeiras p�ginas dos jornais de todo o mundo.
Estava a ser julgado por ter tido sexo com uma prostituta menor.
A It�lia estava chocada.
Berlusconi, j� famoso pelas suas gafes diplom�ticas,
tornou-se uma piada para os l�deres mundiais.
O PALHA�O DA EUROPA
O esc�ndalo Bunga Bunga foi terr�vel para ele.
Berlusconi viu-se em conflito com a Igreja,
e a Igreja, em It�lia, tem um papel muito importante.
Viu-se em conflito com as mulheres,
e as mulheres italianas contam muito na hora de votar.
Digamos que o seu comportamento n�o foi muito elegante.
Depois, tudo mudou.
A Primavera �rabe explodiu na Pra�a de Tahrir
e espalhou-se rapidamente do Cairo para a vizinha L�bia.
Uma cimeira urgente sobre a L�bia foi convocada pelo presidente Sarkozy,
que, durante anos, apaparicara Gaddafi, recebendo-o em Paris
e tentando vender-lhe avi�es de ca�a franceses.
Mas agora, a popularidade de Sarkozy estava em queda livre,
tinha apoiado os ditadores errados no in�cio da Primavera �rabe.
Agora, um furioso e agressivo Sarkozy
queria usar os ca�as franceses para bombardear Gaddafi.
Na cimeira de Paris, defendeu que a L�bia tinha de mudar de regime
perante a secret�ria de estado Hillary Clinton.
A Sra. Clinton, naquilo que, mais tarde, viria a ser criticado
por alguns como sendo um erro,
apoiou Sarkozy na sua inten��o de deitar abaixo Gaddafi.
Silvio Berlusconi tem outra hist�ria para contar.
Quando Sarkozy come�ou a miss�o de bombardear Gaddafi antes da cimeira,
o senhor e Hillary Clinton achavam que era um erro?
Sem d�vida.
Explicara a minha posi��o � Sra. Clinton.
Gaddafi, inicialmente, fora inimigo dos EUA e do mundo ocidental.
Tentei parar essa opera��o...
... porque, apesar de Gaddafi
poder ser criticado por muitas coisas,
ele j� tinha sido, digamos,
domado pelo seu amigo Silvio Berlusconi.
J� �ramos amigos
e ele tinha aceitado a ideia
de que tinha de cooperar com a Europa
para melhorar a sua imagem.
Segundo Berlusconi, apenas Gaddafi podia manter o pa�s unido.
Expliquei aos meus colegas ocidentais
que a L�bia estava unida
apenas gra�as ao governo da ditadura de Gaddafi,
e que o pa�s estava dividido em 105 tribos,
que se encontravam todos os anos
e confirmavam Gaddafi como o "Rei dos Reis".
Mas essas tribos, bastante armadas, estavam tamb�m em conflito.
Veja o que se passa na L�bia.
Tornou-se um barril de p�lvora,
h� armas traficadas da L�bia para todo o lado
e, sobretudo, � um s�tio onde a Al-Qaeda opera.
Mas Sarkozy passou a perna a Berlusconi,
com o apoio de Hillary Clinton.
Quando a Fran�a e todo
CORRESPONDENTE EM ROMA
o mundo ocidental disseram: "Basta de Gaddafi!"
E quando Gaddafi enviou os tanques para Bengasi,
Sarkozy decidiu intervir, enviando ca�as franceses
para destruir as colunas de ve�culos armados uma noite.
Berlusconi foi apanhado de surpresa, porque ningu�m o tinha avisado.
Berlusconi tem a sua teoria do porqu� de pa�ses como a L�bia e o Iraque
n�o deverem ser governados como uma democracia.
Quando, em 2003...
... soube que o presidente George Bush
queria declarar guerra contra Saddam Hussein,
quis tentar prevenir esse erro.
Fui, de prop�sito, a Washington,
pedi a George Bush que reunisse os assessores mais importantes,
e eu e o meu assistente Valentino Valentini almo��mos com eles.
Tentei fazer-lhes ver...
A minha posi��o sobre o Iraque, que � muito simples de explicar.
O Iraque � um pa�s com fronteiras que foram desenhadas artificialmente,
habitado por tr�s grupos �tnicos, que lutaram sempre entre si,
e 65 por cento da popula��o � iletrada.
Um pa�s assim n�o pode ser governado por uma democracia,
tem de ser governado por um regime.
Por um l�der que n�o seja um ditador sedento de sangue.
Por um l�der como consideravam que Assad era.
Por algu�m como o rei da Jord�nia ou como o rei de Marrocos,
mas n�o por uma democracia.
Mas, com a Primavera �rabe,
veio outro acontecimento ainda mais desestabilizador para Berlusconi,
2011 viu tamb�m
o come�o da pior crise financeira europeia desde a Grande Depress�o,
a crise do euro.
A Gr�cia estava falida, os mercados num turbilh�o,
os especuladores visavam a It�lia.
Era uma tempestade de propor��es in�ditas e um Berlusconi enfraquecido
tentava manter o seu governo unido e manter a sua credibilidade
e a nota��o de cr�dito da It�lia.
Durante esse ver�o de 2011, Berlusconi era um l�der eleito,
que n�o exercia grande lideran�a.
ANALISTA POL�TICO
Tinha usado a sua lideran�a para ganhar as elei��es,
mas n�o para levar o seu governo a fazer reformas
E estava sempre a sujeitar-se aos interesses
das v�rias pessoas que formavam o seu governo.
As lutas constantes com os seus aliados, ou pseudoaliados,
mostravam que a sua lideran�a estava enfraquecida.
O que causou uma deteriora��o.
E, a dado momento, Berlusconi perdeu o controlo da situa��o.
No fim desse ver�o de 2011, com os especuladores a atacar It�lia
e a credibilidade de Berlusconi a perder-se,
Sarkozy e Merkel decidiram que a �nica solu��o
era tentar substituir Berlusconi como primeiro-ministro italiano.
Isso deu in�cio a uma conspira��o internacional,
ou como o ex-secret�rio do tesouro americano Tim Geithner lhe chamou,
um "esquema" de pol�ticos europeus para for�ar Berlusconi a demitir-se.
A ideia era envergonh�-lo com um empr�stimo do FMI a It�lia,
para que se demitisse.
Sarkozy e Berlusconi nunca gostaram um do outro.
Eles chocavam em muitas coisas. O tempo todo.
A ideia de que Angela Merkel e Sarkozy
CORRESPONDENTE EM ROMA
colocaram press�o no Fundo Monet�rio Internacional
para que deitasse abaixo Berlusconi
� muito plaus�vel, porque nenhum deles o suportava.
Estavam sempre em desacordo.
Merkel e Sarkozy provavelmente odiavam a sua superficialidade,
a sua arrog�ncia, o seu sorriso irritante
e, especialmente, o facto
de nunca ter cumprido uma �nica promessa que fizera.
A rela��o com Sarkozy era t�o m� que,
quando Berlusconi chegou � cimeira do G8,
em Deauville, a mulher de Sarkozy, Carla Bruni, teve o cuidado de beijar
os outros l�deres nas duas bochechas, com exce��o de Silvio Berlusconi,
que, em vez disso, recebeu um educado e distante aperto de m�o.
E a rela��o de Berlusconi com Angela Merkel n�o era melhor.
Em setembro de 2011, dizia-se que Merkel estava furiosa com o italiano.
Acusaram-no de ter dito que Merkel era uma "bucha que ningu�m queria".
Isso � completamente falso. Nunca disse isso.
Silvio Berlusconi n�o usaria essas palavras sobre ningu�m.
Isso foi inventado por algu�m que me queria prejudicar
e colocar a Sra. Merkel contra mim.
No fim de outubro de 2011, Merkel e Sarkozy mostraram o que pensavam
de Berlusconi num momento �nico.
CONSELHO EUROPEU BRUXELAS
O que disseram exatamente ao Sr. Berlusconi?
Ele deixou-os mais descansados?
O momento mais dram�tico, por�m, foi na cimeira do G20 em Cannes,
realizada no in�cio de novembro de 2011.
Uma testemunha foi o antigo presidente da Comiss�o Europeia
Jos� Manuel Barroso.
J� se passava alguma coisa na Europa.
EX-PRESIDENTE DA COMISS�O EUROPEIA
De facto, tivemos uma reuni�o do Conselho Europeu uns dias antes,
e t�nhamos recebido uma carta do primeiro-ministro italiano,
propondo-se a fortes compromissos.
Era uma carta longa, com umas oito p�ginas.
Por isso, disse: "Se o FMI tamb�m quer monitorizar,
� muito bem-vindo, mas acredito que n�o ser� �til ter a It�lia
sob um programa do FMI, porque pode ser um mau ind�cio para os mercados."
Continuo a acreditar que foi a decis�o certa,
porque se o resultado de Cannes tivesse sido:
"Agora, a It�lia est� sob o FMI."
Isso teria originado uma rea��o de p�nico.
Geithner, mais tarde, revelaria que ele e o presidente Obama
recusaram unir-se a Sarkozy e Merkel
contra Berlusconi.
No seu livro de mem�rias, Stress Test,
escreveu: "N�o podemos ter o seu sangue nas m�os."
Houve uma reuni�o na noite de 3 de novembro,
que come�ou �s 21:40, � qual compareceu com o presidente Obama,
com Mario Draghi, com Merkel, com Sarkozy,
com todo o grupo de Frankfurt.
Nessa reuni�o, Sarkozy, como l�der do G20,
estava mesmo decidido a tentar for�ar a It�lia a um programa.
Chamar-lhe-ia sens�vel, dram�tico? Como descreveria Sarkozy?
O Nicolas Sarkozy, que conhe�o bem, � um l�der muito voluntarista,
� um animal pol�tico, como se costuma dizer.
Consegue ser muito en�rgico a demonstrar o que pensa.
Como era o presidente da reuni�o por ser o presidente do G20,
estava muito decidido a fazer ver a necessidade
de um programa para It�lia, sim.
Porque, no dia anterior, ele tinha dito a Silvio Berlusconi:
"O G20 come�a em duas horas, tens de pedir o programa do FMI."
Algo assim.
Outra testemunha da cimeira do G20 foi o primeiro-ministro espanhol
Jos� Luis Rodr�guez Zapatero.
Foi uma ofensiva por mar, ar e terra.
Lembro-me das express�es "a It�lia n�o tem credibilidade...
EX-PRIMEIRO-MINISTRO ESPANHOL
... n�o fez quaisquer reformas."
Chistine Lagarde, a supostamente imparcial presidente do FMI
e antiga assessora de Sarkozy,
tentava pressionar Berlusconi
a aceitar um empr�stimo de 80 mil milh�es de d�lares do FMI,
para Geithner isso era o beijo da morte para um l�der.
Se o compararmos com o que t�nhamos feito ou com o que �amos fazer
com as firewalls, 80 mil milh�es n�o eram suficientemente cred�veis,
o que nos poderia deixar com o pior dos dois mundos, isso era claro.
P�nico nos mercados e a troika em Roma?
N�o haveria nada pior.
Por Sarkozy querer tanto um programa para It�lia,
pareceu instigar Lagarde a ir � reuni�o,
ela, que tinha sido sua ministra at� h� poucos meses,
e a palavra usada para descrever a forma como Lagarde se comportou
foi "pappagallo" e o assistente portugu�s em Bruxelas disse-me:
"Na verdade, Sarkozy parecia um ventr�loquo.
Ele dizia: 'Christine, a It�lia precisa disto.'"
- Lembra-se disso? - Sim.
Fale-me disso. De que se lembra?
Lembro-me de Christine Lagarde nesse jantar,
e na reuni�o oficial, foi muito dura com It�lia e Espanha.
� por isso que n�o me esqueci.
N�o tinha raz�es para isso, para mim.
� surpreendente ver que o FMI...
... e falo da minha experi�ncia nesta crise
com os v�rios presidentes do FMI...
... tinha um papel completamente de acompanhamento...
... � posi��o que, em cada momento,
parecia ser a das grandes pot�ncias...
... sem opini�o pr�pria.
- Refere-se � Fran�a e � Alemanha. - Sim. Ou aos Estados Unidos.
Mas sem opini�o pr�pria.
Fomos convocados pela Merkel e pelo Sarkozy para duas reuni�es,
em dois dias consecutivos.
Nessas reuni�es,
houve uma tentativa de me fazer aceitar uma interven��o
do Fundo Monet�rio Internacional.
Garanti que as nossas finan�as estavam em ordem
e que n�o precis�vamos de ajuda externa.
Recusei a oferta,
porque isso teria significado a coloniza��o da It�lia,
como tinha acontecido com a Gr�cia, com a troika.
O que Berlusconi n�o sabia na altura
era que Merkel e Sarkozy estavam decididos a acabar com ele.
Segundo uma transcri��o n�o publicada do que Geithner disse ao seu pessoal,
o plano para afastar Berlusconi acabou por ter �xito,
ou como Geithner disse "fizeram-no com grande mestria".
Acredito que o presidente Obama estava do meu lado
quando insisti na ajuda para a Gr�cia
e quando transmiti o meu desacordo absoluto
contra as pol�ticas de austeridade que iam impor a todos os pa�ses.
A Casa Branca pode ter dito que n�o, mas, em Roma, o presidente italiano,
um antigo pol�tico do partido comunista chamado Giorgio Napolitano,
tinha os seus pr�prios planos.
Segundo Berlusconi, Napolitano e Merkel falaram frequentemente
durante esse outono.
Segundo o Wall Street Journal, discutiam como e quando substituir...
CRISE L�DER CONTRA L�DER
... Berlusconi no fim de outubro de 2011.
Falei com o presidente Napolitano ao telefone.
Na verdade, ele ligou-me...
- Durante a reuni�o. - ... durante a reuni�o de Cannes.
Ele sabia da press�o feita sobre o primeiro-ministro italiano
e quis ligar-me para garantir, enquanto presidente da comiss�o,
que a It�lia faria tudo o que fosse necess�rio
para evitar uma grande perturba��o.
Nesse dia, falei ao telefone com o presidente Napolitano
e, sim, essa era a minha posi��o, queria evitar uma tareia � It�lia,
ou o que podia ser considerado como uma humilha��o para a It�lia.
� verdade que j� havia conversas
sobre uma poss�vel substitui��o de Silvio Berlusconi
como primeiro-ministro de It�lia.
Ap�s essa chamada, os dados estavam lan�ados.
Barroso percebeu o que estava prestes a acontecer
e, em breve, o resto do mundo perceberia tamb�m.
- Primeiro-ministro! - Palha�o!
BERLUSCONI RETIRA-SE (POR AGORA)
Ele voltaria a Roma acabado.
Estava prestes a ser substitu�do por um tecnocrata,
neste caso, um professor de economia de Mil�o e antigo comiss�rio europeu
chamado Mario Monti.
O plano de Merkel e Sarkozy de for�ar um empr�stimo do FMI a Berlusconi
n�o resultou,
mas Berlusconi foi obrigado a demitir-se na mesma.
Meros dias ap�s o fim da cimeira do G20, Berlusconi estava fora.
E Monti estava dentro.
Ap�s 2011, as coisas foram de mal a pior.
No ver�o de 2013, Berlusconi recebeu uma senten�a definitiva...
RENDIDO JUSTI�A FOI FEITA
... do Supremo Tribunal, foi condenado por fraude fiscal.
Foi expulso do senado italiano,
ficou ineleg�vel para se candidatar ao governo durante seis anos
e foi sentenciado a um ano de servi�o comunit�rio.
Primeiro-ministro! Como correu?
Ap�s a condena��o em 2013,
ANALISTA POL�TICO
veio a �ltima fase da vida p�blica de Berlusconi.
Foi um per�odo de grande decl�nio.
Esse decl�nio come�ou com a condena��o.
Foi durante o seu ano de servi�o comunit�rio que Berlusconi e eu
pass�mos mais de 100 horas juntos,
nas entrevistas para a biografia que eu estava a escrever
e para este document�rio.
Teve frequentes mudan�as de humor, tendo ficado deprimido nas semanas
ap�s a sua absolvi��o no julgamento Bunga Bunga.
No fim de 2015,
Berlusconi tentou voltar a ressurgir na pol�tica,
formando uma alian�a com Matteo Salvini,
um pol�tico extremista anti-imigra��o,
cujo pr�prio partido tinha suplantado o Forza Italia.
A alian�a com Salvini � prova da queda de Berlusconi.
� uma alian�a na qual j� n�o � o l�der,
na qual � Salvini o l�der, na qual Berlusconi usa uma linguagem
e uma pol�tica que nada t�m a ver com a sua hist�ria.
Berlusconi foi sempre um liberal tolerante.
Salvini era diferente.
Para Silvio Berlusconi, era o Outono do Patriarca,
uma par�bola em c�mara lenta para um homem cujo fim chegara.
Um novo e vivaz primeiro-ministro tinha irrompido em palco,
Matteo Renzi,
que estava a conseguir implementar todas as reformas que Berlusconi
prometera, mas falhara em cumprir.
Mas Berlusconi n�o queria sair de cena
e jurou que n�o sairia da pol�tica at� conseguir outra vit�ria.
E, sendo Berlusconi, ningu�m podia descartar isso,
apesar de se estar a aproximar do seu 80� anivers�rio.
Uma pessoa como Berlusconi aparece muito raramente,
n�o apenas em It�lia, mas em todo o mundo.
Foi um grande empres�rio.
Criou a televis�o privada em It�lia, mudou a pol�tica italiana.
Qualquer que seja a nossa opini�o, positiva ou negativa,
ele fez coisas extraordin�rias.
Silvio Berlusconi mudou a It�lia.
Hoje, a It�lia � um pa�s muito mais � imagem de Berlusconi
do que era quando ele estava no poder.
Porque tivemos 20 anos de Berlusconi.
Da mesma forma que tivemos vinte anos de regime fascista,
tivemos tamb�m 20 anos de regime Berlusconi.
N�o quero dizer que Berlusconi � como Mussolini,
que o seu regime foi como o regime fascista.
Foi diferente.
Mas, em rela��o � forma como mudou a cultura e a mentalidade italianas,
h� muitas analogias.
Para Vladimir Putin,
Berlusconi ter� o seu muito merecido lugar na hist�ria italiana.
Para outros, foi um brilhante empres�rio, mas um pol�tico falhado.
A hist�ria considerar� Berlusconi um encantador de massas,
que conseguiu unir
as discrepantes for�as pol�ticas de direita.
Dessa forma, conseguiu dar voz � direita italiana.
Mas ser� tamb�m lembrado, e este ser� o seu maior legado,
como um homem muito superficial.
Algu�m que n�o conseguiu fazer as reformas essenciais
que a It�lia precisava para competir nos mercados internacionais.
Os historiadores do futuro concluir�o que Berlusconi foi um empres�rio
competente, inovador e sem escr�pulos.
Como pol�tico, concluir�o que foi um homem
que teve todas as oportunidades
e todo o tempo necess�rios para mudar este pa�s a tempo,
mas que n�o soube como o fazer ou n�o o quis fazer,
devido � pouca considera��o pelas institui��es
e � demasiada considera��o por si pr�prio.
Ap�s o meu livro ser publicado,
soube que Berlusconi n�o ficou muito agradado.
Dissera-me que esperara um livro que celebrasse a sua vida.
Em vez disso, escolhi contar a verdade sobre este fascinante,
mas imperfeito indiv�duo.
E, ap�s deixar a villa de Arcore, pela �ltima vez, no outono de 2015,
nunca mais voltar�amos a falar.
ANTIGO POL�TICO, AMIGO, ADVOGADO E BRA�O-DIREITO DE SILVIO BERLUSCONI
CONDENADO EM 2006/2007 A SEIS ANOS DETIDO.
AP�S UNS DIAS DETIDO, CUMPRIU O RESTO EM PRIS�O DOMICILI�RIA.
PRIMEIRO-MINISTRO DE 1983 A 1987
AMIGO �NTIMO E PADRINHO DA FILHA DE BERLUSCONI
CULPADO EM 1996 DE CORRUP��O E EM 1999 DE FINANCIAMENTO ILEGAL.
RECEBEU V�RIAS PENAS. MORREU NA TUN�SIA EM 2000.
ANTIGO POL�TICO, GESTOR, COFUNDADOR DO FORZA ITALIA,
AMIGO �NTIMO E COLABORADOR DE BERLUSCONI
CONDENADO EM 2014 POR LIGA��ES � M�FIA
CONDENADO A SETE ANOS NA PRIS�O DE PARMA, IT�LIA
CHEFE DA M�FIA ASSASSINO E TRAFICANTE,
CAPATAZ EM 1974/75 DA VILLA DE BERLUSCONI
CULPADO DE TR�FICO, FRAUDE, CHANTAGEM E HOMIC�DIO.
LIBERTADO EM 2000.
MORRE 4 DIAS AP�S SENTEN�A POR HOMIC�DIO.
EX-PRIMEIRO-MINISTRO ITALIANO
MAGNATA IMOBILI�RIO E DOS MEDIA, L�DER DO FORZA ITALIA
CONDENADO EM 2014 POR FRAUDE FISCAL A QUATRO ANOS NA PRIS�O
E EXPULSO DO SENADO.
CUMPRIU DEZ MESES DE SERVI�O COMUNIT�RIO.
SOBREVIVEU A MAIS DE 60 PROCESSOS
POR SUBORNO, CORRUP��O, PERJ�RIO, FRAUDE E SEXO COM UMA MENOR.
OPERADO AO CORA��O EM 2016, COM QUASE 80 ANOS
Legendagem: Vania Moises
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