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Tradução L
Tradução Lu
Tradução Lum
Tradução Lump
Tradução Lumpy
É verdade que você é poeta?
Poema... Prefiro ser poema.
Jaime
E agora?
Agora, tudo.
Desculpe-me, desculpe-me.
O que há de errado com ele?
Gosta de biniboys?
Mestiços?
Entre.
Por que está dormindo aqui? Vá para o seu quarto.
Não faça barulho. Minha mãe está dormindo.
Como você gosta?
-Bom dia. -Bom dia.
Você está bem?
Obrigado.
Tchau, Johnny.
Sr. Zhang, não consigo entender
a razão da sua contra-oferta.
Não é uma contra-oferta.
A porcentagem da colheita que nos obrigam a pagar aos camponeses
é excessiva.
Vamos perder porcentagem.
Não vamos. Meu pai...
nunca permitiria.
Insisto em manter a porcentagem acordada, mas...
estou disposto a fazer um esforço e reduzir 1 milhão.
O Sr. Zhang
não pagará mais do que 8 milhões.
9 milhões é um acordo excelente.
O Sr. Zhang quer saber se podemos continuar amanhã.
Não.
Impossível.
Sr. Zhang, é um prazer conversar com você, mas...
ficamos por 11 dias negociando este contrato e preciso voltar
ao meu país.
Sr. Zhang quer saber se você quer mais chá.
Ouça.
Há uma mulher
esperando por mim em Barcelona
e não agüento ficar mais 1 dia sem vê-la.
Sei que você é um homem sábio
e me compreenderá.
O Sr. Zhang quer saber
como é essa mulher.
Linda.
Bom pra você. Não a deixe esperando mais.
Vou esquecer tudo isso.
Não tanto como você pensa.
Por que?
O que está acontecendo, Víctor?
Estas são as menos comprometedoras.
De onde saíram essas fotos?
Não sei. Apenas paguei um intermediário.
-Está querendo fazer chantagem? -Desculpe, Jaime.
Mas seu pai me pediu que te protegesse.
Meu pai?
Meu pai está sabendo disso?
Olha, Jaime. Não quero me meter na sua vida particular, mas...
Então não se meta.
Então descobri que estava indo.
Em qualquer lugar que fosse, teria uma cama e um livro pra ler.
Outros, sem trocas, não poderiam ir.
Eles continuariam por anos e anos esperando sem raiva as 7 horas
para escapar e pular para o outro lado da vida.
E isso, a miséria absoluta, é viver continuamente perseguido
pelas necessidades.
Sua vida será assim, será por toda a sua vida.
Senhoras, o comunista voltou.
Você não estava lá.
Muitos camponeses tiveram que vender seus filhos como se fossem escravos.
Jaime, por favor! Que desagradável.
Quando papai chegar, proponha que doe suas plantações aos camponeses e
e ouça sua opinião.
Não gosto que falem de política na mesa.
Isso não é política, mamãe, é justiça.
Pois guarde-a para os seus poemas.
- Jaime, escreveu algo novo nas Filipinas? -Dois versos em três meses.
Sr. Jaime, à porta estão alguns senhores da polícia política
perguntando por você.
Diga que esperem no gabinete.
No calor,
depois da espessura,
o rio volta a pulsar.
Meu avô,
presidente da câmara
durante a república.
Boa tarde.
Sou o inspetor Creix.
Esse é o sub-inspetor Garrido.
- Queremos falar um minuto com você. -Do que se trata?
Você escreve...
poesia, certo?
Sim... eu tento.
Você se relaciona com outros poetas e escritores?
Com alguns.
Conhece-os?
Sim, conheço todos. Alguns mais do que outros...
Sabia que todos são comunistas?
Alguns já foram presos
e outros não demorarão para cair.
Está me advertindo
ou me ameaçando?
Leia.
Aparentemente é possível declarar-se homem
Aparentemente é possível dizer não.
Dizer não outra vez na rua
por todos e por todas as vezes que não pudemos.
Você escreveu isso?
Sim.
Folhetos como este foram entregues na greve dos estudantes.
Você sabia?
Como saberia se fiquei por três meses nas Filipinas?
Um conhecido seu
nos falou de você na delegacia.
O que ele disse?
Que você é um veado...
muito inteligente.
Não pense em passar por Barcelona neste momento.
Em Cadaques você pode ficar tranqüilo.
-Jaime. -Manuel.
-Como você está? -Bem.
Continue escondido por um tempo.
Houve prisões.
Mas nos livramos dos candidatos oficiais da universidade.
Serão processados... É um contratempo.
E serão mandados pra casa, são todos filhos de vencedores.
Manuel, também me arrependo de todas as surras que não levei.
Não percebe, Jaime?
Um inimigo em casa mudaria tudo.
Eu sei.
E quero estar envolvido. Essa é a verdade.
Sua gin tônica.
Obrigado.
-O Sr. Marcel está aqui. -Mande-o entrar.
Veja só, o escritor-operário.
Parabéns pela sua novela. É excelente!
Obrigado.
Devo parar de trabalhar já que agora sou escritor.
O regime está balançando, Juan.
Alguns dizem isso há 20 anos.
Juan é cético de nascimento.
Por isso escreveu uma novela tão decadente.
Não me limito a descrever apenas aquilo que vejo.
-Sr. Baldwin no telefone. -Droga, tinha esquecido.
Jimmy está aqui. Quer um guia noturno e pensei que você...
Ainda não me encontrei com Luis.
Esta noite Yvonne e eu comemoramos nosso aniversário de casamento.
Ou vai você ou vai eu...
Certo.
Jimmy, como vai?
Lembra-se do meu amigo Jaime Gil?
Quer ir junto, Juan?
Eu gostaria, mas trabalho das 7 as 3 na relojoaria e ficará muito tarde
e não tenho tempo.
O tempo é uma criança que joga dados.
Heráclito
A prova final.
Anime-se. Ela vai lhes mostrar a Sagrada Família e depois vá pra casa.
A Sagrada Família...
Conhece lugares mais edificantes?
Jaime!
Não te esperava esta manhã.
É que não vivo sem você.
O que faz aqui?
Tive uma reunião com os anunciantes...
e voltei para tirar um cochilo.
Está indo muito bem.
-Vou me vestir... -Espere, espere, espere...
Vamos acabar com esta terrível abstinência.
Conheço você e suas abstinências.
Prefere "billyboys" ou "mestiços"?
Prefiro espanhóis porque esquecem que fazem isso por dinheiro.
Não me importo em pagar.
Mas eu gosto...
de ser apreciado.
Percebi que os filipinos mudaram seus hábitos.
Olha pra mim!
Olha pra mim!
-O que você tem? -Nada.
Não tenho nada.
Por quê não vamos jantar e conversamos?
Depois falamos sobre isso...
o quanto você quiser.
Mas antes...
devo ir ao exterior.
Quero que você me acompanhe.
Outra vez, não.
Vamos.
Vamos te mostrar 4 obras, estão prontos.
Está certo.
Meninos, querem ver um negro?
Blues espanhol, Jimmy.
Qual o problema deles?
Nunca viram um negro na vida.
Adoro chocar as pessoas.
Negro!
Bem-vindo à África!
Vamos, chega de se mostrar.
Vamos a um lugar normal.
Mas isso é normal.
Proust não teria sido o que foi sem o gueto homossexual.
Nem suas novelas sem homens negros
num país de homens brancos.
Eu acho...
um mundo fechado
ajuda a criar boa literatura,
porque fixa os componentes semânticos.
Então, vamos brindar ao gueto.
Se você fosse negro nascido no Harlem, não brindaria.
Você diz isso porque nasceu escravo e eu negreiro, certo?
Exato.
Então vamos brindar por você estar absolutamente certo.
Luis, pode me dar mais um pouco de vinho, por favor?
Pegue você. Estou farto de suas besteiras.
Você poderia traduzir o que está dizendo.
Pra que, se você não vai entender!
Juanito,
mais meio litro de menta, senão vai chupar o meu Antônio.
Isaías.
capítulo 4, versículo 6.
Bom dia, Sr. Jaime.
Seu pai quer saber se pode entrar.
Claro que sim. Diga que entre.
Quero falar com você.
É um amigo de Harlem que veio me ver.
Tire essa fantasia de Calígula.
Espero lá fora.
Tenho falado por telefone com o inspetor Creix.
Aquele assunto do folheto está resolvido.
"Os ricos são intocáveis", disse Franco.
Depende.
Pessoas como você eram fuziladas depois da guerra.
Jaime...
um escândalo arruinaria sua carreira na companhia...
e a reputação de toda a família.
A vida privada de um poeta não interessa a ninguém, pai.
Preocupa o seu pai...
e a sua mãe também.
Sei que se envergonha de mim.
Não me envergonho de você.
Você é um Gil de Biedma.
Mas gostaria que as coisas fossem diferentes.
-Onde está Jimmy? -Saiu.
E essa vagabunda não vai também?
Ainda falta algo.
Aqui.
Vista-se rápido...
-e vá. -Não vá...
Sente-se.
Foi deste veado que comentaram.
E para mim? Quanta grana vai me dar?
Agora que conseguiu um trabalho, nada.
Quando te encontrei, você só tinha um terno.
Marrom.
Você mudou desde que o conheci.
Era um cara insuportável.
Nada como foder uma cigana para descobrir a sua função social.
Pelo menos esta garota não engana ninguém.
Certo.
Você tem se dado muito bem com a associação das putas.
Jaime...
temos que conversar.
Deixe as chaves no vaso e vá embora.
Cuidado com esse Lalique que vale uma fortuna.
Acabou.
Espere, espere, Luis, espere.
Me perdoa, me perdoa.
Pelo menos leve as chaves...
Alguém sai na rua, beija uma garota ou compra um livro,
caminha feliz e o fulminam.
Mas como se atreve?
"O arquitrave"
-Ninguém vai entender isso. -Mas está bem claro.
São palavras da tribo.
Quem não entende nada é você.
O livro é uma viagem do fim da adolescência até a fase adulta.
Pode tratar de assuntos sociais.
Óbvio.
É baseado na minha experiência e classe social, mesmo que às vezes...
eu desconfie de ambas.
Eu acho que...
vestir o poeta com túnica e cantar é o desejo de se colocar numa
situação de carnaval.
Eu nasci, desculpe-me,
na idade da pérgula e do tênis.
Agora estou tentando escrever um poema sobre a Espanha
que não termine na pura fantasmagoria.
Será uma sextina.
Uma sextina medieval?
Vão chamá-lo de frívolo, vai ver.
Irônico,
frívolo não.
A Espanha aprecia mais um trabalho medieval
do que um tema literário moderno. Tenho uma larga experiência em ambos.
Por isso será uma sextina.
Para que o poema possa ser maior do que o poeta disse.
Franco voltou com os tecnocratas do Opus Dei
e retirou os falangistas de seus quartéis de inverno.
Eles querem congelar os salários e cortas gastos sociais, certo, Frederico?
Manuel está me evitando, não entendo.
Ele não tem coragem de te falar, Jaime, é que...
você não foi aceito no partido.
Por quê?
Coisas do companheiro Lenin.
O que ele tem a ver com isso?
Disse que os homossexuais por sua natureza podem
ser uma ameaça para a segurança do partido.
-Digamos que veados desacatem a polícia... -Sei.
Desculpe-me, Jaime.
São receitas econômicas ortodoxas.
Precisamos nos voltar para as greves políticas.
-E o plano de governo fracassará. E se não fracassar?
Então faremos parte da prosperidade européia...
pela escala espanhola.
Ou seja, uma prosperidade pequena e bastante sórdida.
De todas as histórias da história,
sem dúvida a mais triste é a da Espanha
porque termina mal.
Como se o homem, cansado de lutar contra os seus demônios,
decidisse encarregar ao governo a administração de sua pobreza.
Sua caixa postal.
Obrigado, Conchita.
Quero crer que nosso péssimo governo
é um negócio vulgar dos homens e não uma metafísica,
que a Espanha deva impor em sair da pobreza.
Que ainda há tempo para mudar sua história,
antes que os demônios a levem.
-Bom dia, Sr. Jaime. -Bom dia. Isso é para lavar.
Desculpe-me o atraso.
Assinou o manifesto para os mineiros?
Sim.
Isso é do exército, para você.
Deve se apresentar com urgência no portão de Bruco.
Você não é mais segundo tenente.
Você foi rebaixado.
É uma honra para mim.
Termine o seu café.
Virão buscá-lo.
O que farão com você?
Retirarão minha condecoração
numa cerimônia pública no desfile.
Como o comandante Dreyfus!
Jaime, por favor! Isso não é brincadeira!
Um ministro ligou para o seu pai e a imprensa lhe fez perguntas.
Peço que a Espanha expulse os seus demônios.
Que a pobreza avance até o governo.
Assine aqui.
Que os homens sejam os mestres da sua história.
Pode ir, Sr.
Isso é tudo?
Parece pouco?
Eu lembro de tudo sobre o final da guerra.
Enquanto meu pai chorava na janela,
as tropas do General Yagüe marchavam pela rua.
Então eu morria de medo.
Para mim, sem dúvida, foram os anos mais felizes da minha vida.
Mas o que poderia fazer se a linha de frente esta do lado?
A guerra era em Segóvia.
Um lugar com tenentes com braços nas tipóias que adoramos visitar.
Aquela guerra estava ao alcance das crianças
tal como eles queriam.
Quanto tempo sem vê-lo, Sr. Jaime.
Cada vez parece mais jovem, Austreberto.
-Obrigado! -Como faz isso?
Por aqui.
Aqui escreverá maravilhosamente.
Vamos ver o rendimento de hoje.
Tome.
Droga, escrever novelas é como preparar...
Sim, mas poesia não é para comer.
Por isso sou um poeta de domingo com a consciência de segunda.
Passei esta semana preparando um despacho
empurrando papéis com o nariz.
-Sou um homem prático. -Também tento ser...
escrevendo sério.
O que entende por escrever sério?
É poder viver do que publico.
Então acredita que um escritor escreve para a sociedade...
-comprar livros? -É isso.
E para que publica?
Para influenciar outras pessoas, suponho.
Essa história é dickensiana. O doutor disse-lhe...
que não poderia ter filhos. Ao saírem da clínica, pararam um taxi...
-e meu pai estava dentro. -Parece incrível.
Está lindíssima esta noite!
-Yvonne! -Obrigada!
Desculpe-me.
Obrigado.
Quem é esse?
Marcelino. Disse que é um corretor de Manhattan,
mas não acredito.
Acho que ele é gigolô.
Jaime, quem é aquela?
A marquesa. Ela tem uma suíte no Wellington.
Faz as festas mais loucas de Madri.
Não, a do lado.
Joaquina...
é apenas a sua companhia.
Acho que é a única pessoal normal aqui.
Carlos está ficando excitado.
Cuidado ou ele vai ficar atrás da musa...
e amanhã te dedica outro e outro e outro dos seus poema de amor.
Isso é tudo o que aprendeu em Oxford?
Jaime está insuportável.
Todos já beberam um pouco.
Nada pior do que a hipocrisia britânica importada por um ibérico
- consumido por paixões mesquinhas. -Carlos!
Deixa ele.
Qual o problema, chapeuzinho vermelho?
Nada. É esse vinho.
Ele me dá uma choradeira espantosa.
Quer outra coisa?
Um lobo para me comer.
Não há nada mais sexy...
do que uma mulher com o rímel escorrendo pelas lágrimas.
Pois vou chorar o quanto você quiser.
O...
o personagem de Teresa...
esplêndido!
Mas um namorado da Catalunha... Não me convenceu.
Essa é a minha versão da novela no final do século 19.
Num tempo em que para ser alguém, só pode ser conhecendo uma garota rica.
E a sua garota...
o que ela espera dele?
Divertir-se como uma louca num mundo que não é seu.
O rei da festa
O que dança com todas
O que pode com todos
Um príncipe azul
Mesmo que sempre vista o mesmo traje marrom.
Porque no fundo ele é só um garoto do subúrbio.
Toma.
O retrato da sua pior parte.
Camisa rosa, jeans
atitude provocadora e um sorriso
extremamente encantador.
Murciano.
Aroma de gato selvagem.
É verdade, o safado é assim mesmo.
Como um gato selvagem.
Obrigado, Jaime.
Entre, filho.
-Como foram as férias? -Revigorantes.
Um passarinho me disse que vai lançar outro livro.
Estou tentando.
Estou procurando uma editora no México.
No México?
A censura negou autorização para publicá-lo.
Tenho pensado...
em mudar de apartamento.
E de vida?
Talvez não seja tão fácil.
Sabe, filho...
eu também preciso mudar.
-Vou adiantar minha aposentadoria. -Mas a companhia é a sua vida!
Sim.
Mas a cada dia me custa mais levar este barco
É preciso alguém mais jovem.
As coisas mudam depressa e já estou cansado.
-Mas... -Jaime...
Dois livros de poesias em sete anos
não é uma carreira literária.
Seu futuro está nesta empresa.
Todos temos muita fé em você.
Para que serve, quisera eu saber,
mudar de casa?
Deixar para trás um porão mais negro que minha reputação
O que não é dizer pouco
pôr cortinas brancas ter uma criada.
Renunciar à vida de boêmio
se logo você vem
chato
hóspede perturbado, mesmo usando meus ternos,
zangão de colméia,
inútil, monte de merda
com suas mãos lavadas,
a comer em meu prato e a sujar a casa?
Entre as sombras do meu passado
há uma estrela sem redenção
que nunca soube levar meus passos
pelo caminho de uma ilusão.
Meus olhos nunca olharam alto
apenas à terra
onde viví.
Contigo vêm os balcões dos últimos bares da noite.
Os metidos, as vendedoras de flores,
as ruas mortas da madrugada.
E os elevadores de luz amarela quando chega, bêbado,
e para se reconhecer no espelho,
a cara destruída, com olhos ainda violentos,
que não querem fechar.
E se eu te repreender, você rí.
Você me lembra do passado
e diz que estou envelhecendo.
Poderia te lembrar que você já não tem mais graça
que seu estilo casual e sua autoconfiança são truculentos
quando se tem mais de 30 anos.
E que seu encantador sorriso de garoto sonolento,
que certamente gostam, é uma sobra dolorida,
um desígnio patético.
Enquanto você me olha com seus olhos se verdadeiro órfão,
você chora e me promete não chorar.
Sonhos de barro,
tudo é mentira,
fingem os lábios,
uma paixão.
Se você não fosse tão puta!
E se eu não soubesse, há um tempo,
que você é forte enquanto eu sou débil,
e que você é débil quando me enfureço.
Dos teus retornos guardo uma impressão confusa,
de pena e descontentamento.
E a desesperança, a impaciência e o ressentimento de voltar a sofrer...
mais uma vez,
a humilhação imperdoável
pela excessiva intimidade.
Dificilmente te levarei para a cama,
como quem vai ao inferno para dormir contigo.
Morrendo a cada passo de impotência,
esbarrando em móveis às escuras,
cruzaremos a casa desastrosamente abraçados,
cambaleando pelo álcool e pelos soluços reprimidos.
Flor...
do
mal.
Ó ignóbil servidão de amar os seres humanos,
e a mais ignóbil é amar a si mesmo.
E então, Jaime.
Primeiro a discoteca, depois a revista...
"Boccaccio" te mostrará o mundo aqui em Barcelona.
Aqui temos de tudo.
Arquitetos, escritores, fotógrafos, atrizes, modelos...
Seres encantadores que não trazem contribuição à vida.
Vamos acabar com esse complexo de uma vez por todas.
Em um ano isso será igual a Londres.
É um sonho de tolos. Em Londres não tem Franco.
Franco é um velho safado.
E nossa única obrigação é combatê-lo.
E se você for o redator daquela revista,
será o mais sonhador de todos.
Sabemos mostrar que a cultura é "sexy".
-Principalmente em Madri. -Um momento...
Madri pode não ter a cultura em seu estilo de vida,
mas tem marquesas e confidentes e
saber com quem a marquesa dormiu pode ser decisivo.
Assim mostram respeito pelo planalto castelhano.
Colita!
Venha beber algo comigo.
-Não posso. Estou trabalhando. -Vamos...
Bom, por quê isso?
O que foi, não estou bonito para sua reportagem?
-Bonito como sempre. -Fotógrafa mentirosa.
É que espero acontecer algo para tirar mais fotos.
Então, vamos beber algo.
Não dá.
Mas tenho uma amiga que quer conhecer você.
Uma mulher fascinante. Seu nome é Bel.
-Você se machucou? -Fiz de propósito por sua causa.
"Para saber do amor, para aprender sobre ele,
ninguém deve ficar sozinho".
"E são necessárias 400 noites com 400 corpos diferentes..."
para fazer amor".
É o que mais gosto.
Escrevi para provar...
que se pode ser infiel e estar completamente apaixonado.
Você é incapaz de ir para a cama sem estar apaixonado, certo?
Sim, mas me apaixono loucamente todas as noites.
E o que acontece quando acorda?
Eu me olho no espelho...
e a magia...
desaparece.
Lamento que certas coisas acabem.
Por mais que se recupere ainda restam cicatrizes.
Odeio rugas.
Tenho um retrato envelhecendo por mim num sótão.
Que estranho... Não encontro a sua linha da vida.
Então...
não vamos perder mais tempo.
Bom dia.
O que foi?
Seu pai teve um desmaio.
-O que ele tem? -É só pressão alta.
Nada sério.
Ele está cansado.
Jaime...
sei que não é o momento certo, mas ele ficaria muito feliz...
-se você o substituísse. -Não.
Não.
Eu... nunca poderei substituir meu pai.
Não sou bom.
Mas você é um negociador brilhante.
-E realmente conhece as transações. -Dá no mesmo...
Você também conhece, tem qualidades.
-Você pode se oferecer. -Sim, mas não sou da família.
-Ele é da família? -Miguel? O filho do telegrafista?
Os tempos estão mudando.
Casei-me aos 18 anos.
Com o primeiro imbecil só para sair de casa.
São lindos.
Veja esta garota. É bisneta de Max.
Tem medo que a polícia saiba e que a coloque na cadeia.
Não parece assustador?
Modelo prêt-à-porter e bisneta de Max.
Como estou me saindo?
Está divina. Conhece Jaime?
Não.
Mas já ouvi falar muito de você.
Que medo!
Aproveitem.
Você é uma caixa de surpresas.
É designer de jóias, tem 2 filhos,
sabe surpreender...
O que mais sabe fazer?
Espere...
Estou menstruada.
Não vou parar.
Sou um vampiro.
Oi princesa, como vai?
O que faz aqui? Já te falei que não venha de repente.
Não fale bobagens, certo?
Hoje é meu dia ponto final!
Deixe-nos em paz.
-Qual o problema? -Calma, por favor.
Venha com papai.
"O absinto proporciona à vida uma hora de serenidade
e luz para precipícios escuros", disse Baudelaire.
Na França a chamam de "La fée vert", a fada verde.
É proibida em muitos países.
Adoro a proibição.
Polícia!
Você sabe que agora devemos correr.
O que está acontecendo?
Os russos.
Estamos em guerra...
De onde você é, cabo?
Toledo, Ohio.
Você sabe onde é a Casa Emília?
No segundo andar.
Obrigado.
Inacreditável.
Veio de Ohio para foder?
Dessa forma a namorada dele não descobre.
Você é muito inteligente, cabo.
Chegará a sargento.
Está procurando putas, certo?
Pois nós somos putas.
As mais putas!
-Agora é a nossa vez. -Sim.
Sou para todos.
Gostaria de cuidar de você.
O que está esperando?
Então se não há mais perguntas...
daremos por terminada a reunião do conselho.
Boa tarde.
Jaime
Parabéns pelo relatório.
Obrigado.
Até logo, Jaime.
Quem se sentar aqui terá a sorte de tê-lo ao seu lado.
Acho que aqui falta alguém jovem, dinâmico,
com idéias novas.
Um poeta, definitivamente.
Tem certeza, filho?
Sim.
Sabe que primeiro o conselho deve aprovar,
mas conte com meu apoio.
-Jaime. -Sim.
Há uma senhorita na recepção perguntando por você.
Uma senhorita?
Disse que é sua namorada.
Aqui não. Podem estar me vigiando.
Devo ir á justiça para não perder a guarda das crianças.
Queria saber que tipo de argumento possui aquele mentecapto.
Não sei, Jaime, mas ele está muito magoado.
Calma.
Conheço os melhores advogados.
É linda.
E estranha.
Susan!
Como está nosso novelista?
Certamente escondido atrás do jornal,
não acredita que o fiz chorar,
mas acho que vai ficar muito bom.
Como vai?
Eu sabia, no final, uma loira num conversível.
E a ralé?
-Não existe aqui. -Claro, a publicidade tem regras, Juan.
Não querem pobres. Apenas lindas garotas vindas de Pedralves.
O problema é que esta moça não é de Pedralves.
-É de Copenhagen. -Melhor!
Com esta viking importada a novela será um sucesso.
Eu não disse?
Traga um copo para o Jaime.
Sentiu falta da sua ralé?
Aí está ele. Poderia ser capa do seu livro
Não olhe para ele.
Por que? Ele vai me bater?
Ciganos são imprevisíveis, ainda mais sobre isso.
Cigano...educa cigano.
Coloque outra.
Com licença.
É você o poeta Jaime Gil de Biedma?
Sou secretário geral de uma companhia, como Stalin.
Fora isso, escritor de livros de poesia.
E você, quem é?
Trabalho para uma revista. Só queria falar um momento.
Não perca seu tempo.
Melhor falar com Garcia Marquez, que está começando a temporada.
Eu só preciso que me conte alguma fofoca.
Sou responsável por uma seção chamada "Ouvindo Boccaccio"
e aqui falam de todo mundo.
-Como se chama? -Enrique.
Enrique. Vou te contar um segredo.
Sabe o que todas essas pessoas fazem aqui?
Inventam-se vidas. Precisam inventar-se vidas para
aguentar esta ditadura interminável.
Cada um faz o melhor que pode. Veja...
Ricardo Bofill, arquiteto e comunista.
Não sabe se faz um filme com sua namorada italiana
ou se compra um Alfa Romeu.
Ali temos outro exemplo.
Um personagem altamente elaborado.
Carlos Barral, poeta, editor e capitão de barco.
Anda pela Las Ramblas vestido de guerrilheiro cubano
e a polícia acha que está louco.
Ao menos meu personagem é uma obra-prima.
Mas não é uma vida, é literatura.
Deveríamos comparar vida e literatura?
A favor de que, da vida ou da literatura?
No meu caso a favor da literatura, claro. -Sempre!
Carlos pode te contar mais fofocas que eu.
Fofocas? Qual quiser, mas literárias.
O que quer saber?
Chamo para se declararem Jaime Gil de Biedma
e Alba.
O advogado da parte demandante tem a palavra.
Obrigado, Senhoria.
Sr. Gil de Biedma, você é o autor de um poema intitulado
"A uma dama muito jovem separada"?
Sim, eu sou.
Senhoria, permita-me ler alguns versos do poema citado?
"Hoje, vestida com um corsário
você foi vista com seis seis amantes de cada lado.
Isabel, menina Isabel,
sob uma tábua erguida, radiante,
despenteada por um vento só seu.,
presidindo a diversão.
Tenha cuidado, menina Isabel,
porque estamos na Espanha.
Porque são a mesma coisa os burros dos seus amantes e a besta do seu marido."
Sr. Gil de Biedma.
Devo crer que a menina Isabel do poema
é a mesma mulher acusada de adultério neste caso?
Definitivamente não.
A Isabel do poema é uma ficção?
Não é uma ficção, é uma invenção, o que não é a mesma coisa.
Sr. Gil de Biedma, tenho aqui uma entrevista
onde você se declara "poeta da experiência", ou seja,
que você não inventa nada.
Você só escreve sobre o que vê ou experimenta.
Portanto, Excelência,
os versos que acabo de ler
descrevem a vida adúltera da acusada,
uma vida que a incapacita absolutamente
como esposa e como mãe.
Excelência, posso incluir uma coisa?
Sim, por favor, vá em frente.
Se a menina Isabel do meu poema
for a acusada, então a besta do seu marido seria este senhor,
o que nos levaria a acreditar que o requerente tem um caráter...
pouco civilizado...
e talvez violento.
E nenhuma mãe decente tem a obrigação de agüentar um selvagem.
E os primeiros são os filhos...
O que quer, filho da puta safado?
Ordem no tribunal!
Na escola estudamos poesia, sabia?
É mesmo? Como?
Nós lemos.
Ah... claro. Como sou tolo. E você gosta?
Sim.
Mas diga porque você gosta.
Gosto porque é como uma canção, mas sem música.
Está na hora de sair, ou vai ficar todo enrugado.
-Anda, vamos! Vamos! -Não quero.
Deixe comigo.
Venha agora.
Então é assim? Espere aí!
A propriedade tem 15 anos, e como pode ver...
está em perfeitas condições. 5 quartos, 2 banheiros, cozinha,
sala de estar, e está perto de tudo,
incluindo 2 parques e 2 colégios. Você tem filhos?
Sim, dois.
O que está acontecendo, Conchita?
Seu pai o espera lá dentro.
Tudo bem, papai?
Os conselheiros estão nos esperando.
Todos têm um envelope como este.
Se você não quiser
não precisa entrar.
O secretário procederá a leitura da agenda do dia.
"Um: revisão dos custos fixos do nosso escritório de Manila.
Dois: venda da plantação de Guiné Equatorial.
Três: renovação de crédito com o Chase Manhattan Bank.
Quatro: propostas de candidaturas...
para o cargo de Diretor Geral."
Sinto muito, Jaime.
Nunca pensei que eles fossem tão longe.
Imagina quem poderia ter mandado as fotos?
Não, não sei.
Desta vez não consegui detê-los.
Será que o poço de chantagem vai secar?
Não entendi.
Olha, Victor...
Sabia que você era ambicioso...
mas nunca imaginei que fosse...
um ressentido e traidor.
O mal que você fez a meu pai...
Não perdoarei você nunca.
Perdoe-me, Jaime,
mas acho que você está muito nervoso.
E você está calmo demais.
-Jaime, acho que está enganado... -Ouça, imbecil...
Mesmo que se sente nesta cadeira, como próximo Diretor-Geral,
nunca será um de nós.
Sabe o que você fez?
Colocou-se numa fria.
Veremos.
Veremos.
Vá embora!
Por que está tão sozinho?
Aqui não há qualquer alma.
Qual o seu nome?
Jaime
Jaime Gil de Biedma.
Bel!
Por que ainda está assim? Esqueceu do nosso almoço?
Sim, desculpe-me.
-Tchau. -Tchau.
Acha que daria certo?
Já fui casada. Não sirvo pra isso. O que quer? Que te espere em casa?
-Que compre as suas gravatas? -Podemos envelhecer juntos, Bel.
Não quero envelhecer, muito menos você.
Ter nossa própria casa e você sendo o diretor...
viver assim mataria você.
E você e eu? Vamos continuar como sempre?
Dormindo juntos de vez em quando?
Parece pouco?
"Para saber de amor, aprender sobre ele..."
Olha, Bel... Essa música já tocou com a gente.
Não quero ficar sozinho.
É só isso que sabe fazer? Pagar e ir embora?
Não pretendo me jogar aos seus pés e pedir para ficar comigo.
Mas estou contigo.
Não percebe?
Não quero estragar tudo.
Por favor, fique.
Poucas vezes os mortos alcançam a liberdade.
Mas a noite em que você voltar, é sua.
Completamente sua.
Jaime
Prometa-me que não fará isso de novo.
Que mágoa me faz lembrar o seu sorriso.
Há tanta dureza na mina dos seus olhos.
Você me acalma pois estou perto de você neste momento.
A parte da sua morte que me dói
A parte da sua morte que tirei da minha colheita
Como poderei pagá-la?
Na parte da vida que vivemos juntos
Como poderei saber se você me perdoou apenas na cena do crime?
Como poderei dormir enquanto você treme
no canto mais triste do meu quarto?
Já vou trazer o whisky.
Jaime não pode beber muito. O doutor o proibiu.
Não se preocupe.
Um título um pouco prematuro. Vai, assine pra mim.
Não param de me ligar.
Acham que você está morto.
E estou.
Por que diz isso se está recuperado...
e bebendo entre amigos?
Todo esse alarde pra acabar outra vez aqui.
E o que queria?
Que a glória venha aos novos poetas num dia?
E por que não?
Todos os novos poetas só escrevem sobre Veneza, gôndolas podres,
-e o chato túmulo de Cipião. -Fazem bem.
Ninguém pode estar apaixonado com a realidade.
No final, a morte é a mãe da realidade.
Você pode ser fúnebre como quiser, mas assine o meu livro.
Volte a escrever, Jaime.
Não sou o único que quer ler os seus poemas.
E na sexta-feira vamos ao cinema.
Cinema...
Sim, calma.
Sem reprise, é com a Dietrich e o cara bonito de Múrcia.
Morocco?
Então eu vou.
Sr. Jaime, bom dia!
Bom dia, Cecílio. Como vão as coisas?
Eu sei...
Ah, Josefa.
-Como vai, Josefa? -Bom dia, Sr. Jaime
Não, esse não. Pegue esse.
Obrigado.
Sr. Jaime, estamos muito preocupados.
-Você sabe o que está acontecendo? -Não se preocupe, Josefa.
Vai ficar tudo bem.
Entre.
Como vai o "monsoon"?
Jaime!
Está sentindo? Pode-se sentir no ar.
Você sabe que vem, mas não sabe quando, é uma ameaça constante como...
como tudo neste país. Aceita um whisky?
-Não, obrigado? -Está muito cedo?
Não, está muito tarde. A esta hora...
prefiro opium.
Que bom que tem senso de humor. Você vai precisar.
Fechamos a fábrica de Luzón e as instalações de Mindanau.
As instalações estão velhas e todo o processo está errado.
Desde a produção à distribuição.
Desperdício de recursos de maneira absurda.
Essa é uma empresa colonial e as perdas fazem parte da lenda.
Não é uma empresa colonial, Jaime.
Nem um negócio familiar.
O mundo mudou.
Mas ainda temos tempo de nos adaptarmos.
Sim...
Estes também estão em tempo de se adaptarem?
William Arjona, Ricardo Barata, Charlie de la Cruz...
Conheço a maioria.
Por isso te chamei.
Quero que se ocupe disso.
Não sirvo pra isso.
E Anglada?
Suspeito que não está mais com a gente.
Acho que agora ele se dedica à fotografia...
Jaime, faça do seu jeito.
Este é o próximo, senhor.
O que está fazendo, Jaime?
Aqui, estou terminando.
Se você se apressar, levo você a um lugar que não conhece
que é de lamber os beiços.
-É mesmo? -Sim.
-Onde? -Aqui ao lado, em Intramuros.
Fazem um pakesin impressionante.
Com licença, só um momento.
Johnny, o que faz aqui?
Não deveria estar aqui.
Disseram para ir para fila.
Tudo bem.
Fico com meus companheiros.
Não preciso da sua ajuda.
Obrigado, Jaime
Este tempo não é meu.
E mesmo que seja meu esse cantar de pássaros fora do jardim,
sua abundância em folhas pequenas,
movimentando-me como intimidades,
não dizem a mesma coisa.
Acordo como quem ouve uma respiração obscena.
Então amanhece.
Amanhece outro dia em que não serei convidado a um momento feliz
Nem um arrependimento que, por não ser antigo,
Oh, senhor, dê-me força e coragem!
Convida-me de verdade a me arrepender com sinceridade.
Não temo mais nada que os meus cuidados
Lembro-me da vida, mas onde ela está?
...nomear Dom Jaime Gil de Biedma e Alba,
cônsules honorários das Filipinas em Barcelona.
Parabéns!
Para mim, escrever um poema é...
como ter um segredo.
É como fazer amor e tentar retardar o momento do orgasmo.
É difícil!
Minha poesia é resultado da invenção de uma identidade.
Quando essa identidade é assumida,
nada estimula mais a imaginação do que ser o que você é.
Além disso...
a maturidade é algo besta,
quando não acontece nada íntimo a não ser dores de cabeça,
e paradoxalmente a vida fica curta de forma alarmante
porque você passa o dia inteiro angustiado e com medo de morrer.
Um momento, com licença.
-Jaime, por favor... -O que?
-Autografa pra mim? -Claro! Como se chama?
Benjamin.
O olhar dos novos poetas... Parece que viram Nossa Senhora!
São jovens e facilmente impressionáveis.
Conhece a minha assistente?
Menos do que gostaria.
Leu a coluna Sagarra?
Não.
"A apresentação do Tusquet Editores na última noite no el Price
contou com a presença de toda a "Gauche Divine".
-"Gauche Divine"? O que você acha? -Um bom rótulo, tem futuro.
Foi isso o que disse o "Tele-Express".
Então vou fazer uma sessão de fotos
com um dos maiores membros da "Gauche divine".
Não sou ligado à esquerda e quanto ao "divine", muito menos.
-Vou poder tirar a jaqueta? -Sim, pode tirar.
Vou fazer a sessão de fotos, mas com uma condição...
Não se importa mesmo tirá-la?
Colita já me viu demais.
Caralho, você se parece muito com meu pai.
Começamos bem.
Olha, não estou te chamando de velho.
Só se parece quando ele era jovem.
O que foi? Você se sente velho?
Velho e fracassado.
Nossa!
Você tem dinheiro, as pessoas te ouvem, te amam...
Em seguida desaparecem e me deixam de lado.
Não me fotografe de perfil porque aparece a papada.
Sabe qual o seu problema?
Nunca olharam direito pra você.
Que espertos são os ciganos, não?
-Quem disse que sou cigano? -Olha...
Você e eu não deveríamos mais perder tempo...
porque na próxima vez que nos vermos, serei velho demais.
Vai, por favor, fique de perfil.
Era a sua primeira vez?
Sim.
Não minta tão rápido.
A primeira vez que senti algo.
Prazer? Amor?
Sim.
-Sim o que? -Sim...
Anda, fale de você.
O que mais quer saber?
Droga!
Se chegar tarde vão me matar!
Serviu no exército?
Em Galícia, como segundo-tenente.
Então fique atento
e de armas a postos.
-Para o taxi. -Como assim?
-O que quer? Que eu compre um? -Toma.
-Vou te ver de novo? -Logo mais.
Minha máquina vai ficar aqui.
Ei...
pode me emprestar um dinheiro para comprar uma moto?
Somos incapazes de ver uma paisagem sem vê-la literariamente.
Não existe natureza intocada.
Por que não deixa a natureza em paz?
Natureza é tudo o que não é literatura.
-Pode ser a realidade. -É a mesma coisa.
A natureza evoca a realidade de que é igual a si mesma, mas a realidade...
é mutável.
É provável que o uso da palavra provenha da contra-reforma.
Não, acho que é do século 19.
Só depois de Kant e Newton, quando a cosmovisão desapareceu,
o conceito da realidade foi aceito.
É verdade que você é fotógrafo?
Sim, mas já parei. Não gosto desse mundinho.
Por que?
Tem muito veado solto.
Sabe o que os marinheiros estão comentando pelos botecos?
Não.
Que te nomearam cônsul.
Sim, agora sou Cônsul Honorário das Filipinas em Barcelona.
-E que diabos isso significa? -Não sei...
Até agora só me sinto como o Cônsul de Sodoma.
E onde fica Sodoma?
Sodoma fica em todos os lugares, querida.
-Você também é cônsul? -Não.
Toni é um príncipe.
Que romântico!
-Pois eu quero ser uma princesa. -Você já é, minha filha.
A princesa mais linda do "Mare Nostrum"
Quer dançar, Sua Alteza?
Para que você vem agora, juventude,
encanto descarado da vida?
O que te traz à praia?
Estávamos tranqüilos, os mais velhos,
e você vem nos ferir
revivendo os mais temíveis sonhos impossíveis.
você vem brincar com a nossa imaginação.
É melhor gostar porque não é uma casa qualquer, é nossa casa!
Aqui não!
O que foi?
Não sei comer como seus amigos?
Não sei como meus amigos comem. Vou reparar na próxima vez.
Vou te envergonhar, não é?
Muitíssima.
Fico vermelho direto.
Jaime
Por que não me ensina?
O que?
Quero que me diga como me vestir...
qual colônia devo usar.
Pra mim isso é importante.
Bom...
se você insiste...
Iranzo sempre corta o meu cabelo.
Mas há os mais modernos.
Em você cairia bem o corte com navalha.
Meus ternos são feitos em Santa Eulália,
mas eu dou o tecido. Eu os trago de Hong Kong.
Os sapatos? Depende.
Sapatos na Sebaga tem numeração americana, números fracionados,
mas quem resiste ao couro de um Lotus?
A colônia, nem muito forte,
nem com muito álcool.
Eu uso Eau Sauvage, mas...
em você fica melhor algo como Dandy Parera.
O Rioja é o clássico.
Ainda não descobriram os vinhos de Valladolid.
Lembre-se, Toni:
O futuro está nos vinhos de Duero.
Não enfie o narigão!
Ei, você está comigo ou não?
Então que porra está olhando?
Que velho lerdo é esse?
Está verde pra ele.
Vai, homem, atravessa!
Papai!
Aonde você vai?
O que faz aqui? Papai, sou eu, Jaime.
Tenho que ir trabalhar. Gosto de ser o primeiro a chegar.
Mamãe disse que amanhã vocês vão a Segóvia.
Vai fazer muito bom para você.
Vem.
Anda, vem aqui, Adonis.
Toma.
Se você não gostar, está fodido, porque não pode trocar.
Vem aqui.
Você disse "trocar"?
Sim, mas abra.
Não deveria ter se incomodado.
Lindo.
Só te peço tempo.
Você me ama?
Acalme-se, Luis, por favor.
Mamãe tem o suficiente.
Não se incomoda mais.
Sr. Jaime!
Amigo querido.
Onde você estava?
Ele perguntou por você até o seu último momento.
Ele está aqui.
Vá vê-lo, filho.
O que está fazendo?
Que me agradeça, pai, acompanhando-me com esta confiança,
que entre os dois criaram sua morte.
Você não pode me dar nada,
não posso te dar nada,
e por isso você me entende.
Cachorro morto...
não tem mais raiva.
Um brinde ao nosso anfitrião.
Jaime Gil de Biedma.
Saúde!
Francisco Franco Bahamonde.
Morto!
Não quero brindar pela morte de Franco.
Não sei porque brindar com um morto para enterrar.
Nós mulheres vamos gostar de enterrá-lo.
Cale-se que vocês tem a Virginia Woolf até na boceta.
-Não seja vulgar. -Bem, vamos mudar de assunto?
De tanto falarem de Franco falta ele ressuscitar.
Achei esse assunto tão ruim.
O problema é que vocês querem tudo:
dinheiro
consciência tranqüila
Por que não assumem que são todos de direita?
Não tenho nenhum problema com isso.
Sou de direita.
Quero um bom carro, uma boa casa,
Quero ser rico. Sou de direita.
Que grosseiro.
É que o rapaz prestou o serviço militar, e isso...
imprime o caráter.
O forno não funciona. Já falei pra ele mil vezes para trocar,
mas ele nem deu ouvidos.
Você cozinha muito bem. Tem uma mão maravilhosa. Você está bem?
O que faz na cozinha?
A mulher mais encantadora da festa.
Vou indo.
Está muito zangado, meu soldadinho?
Por que faz isso? Não vê que estou cozinhando?
Um dia cozinhando, outro passando,
-outro lavando... -Vai tomar no seu!
Não me dê conselhos, dê logo o caminho.
Onde está o gelo?
Diga-me uma coisa, Juan:
o que teria acontecido se Teresa
tivesse se casado com um qualquer?
Ele já a teria espancado.
Não o provoque, Jaime.
Acho que com a democracia,
nascerá uma nação moderna, mas fora do seu tempo.
E nós...
nada que fizermos nos fará mais jovens.
Mas Jaime,
todos estão esperando a sua segunda floração poética.
O que eu tinha que dizer já disse, e não haverá mais floração.
E isso é tudo, amigos.
Três livros finos de poemas,
que cabem em um único volume.
Mas...
Deixe-o, deixe-o...
Cada livro que não escreve aumenta a sua fama.
Proponho que fundemos uma nova religião.
Por Deus, não! Ainda não superamos o trauma do catolicismo.
Não se preocupe.
Na minha religião nossas igrejas...
se reunirão ao anoitecer para beber,
e esquecer da vergonha do dia.
Tudo será amor e poesia.
Tradução: neste país vai se foder mais. Um brinde a ele, senhores!
Saúde!
Que nevasca! Não tinha percebido.
-Cuide-se, Jaime. -Você também.
O fim de uma época.
Tchau, Jaime!
E estes?
Por que não vão embora?
São de outra corrente.
Fizemos um poema ruim.
Como não o fizemos por dinheiro, ninguém vai nos questionar.
Acha que sou um poeta inquestionável?
Não, não...
Você é um poeta tutti-frutti.
Acima do zenital dos limões,
minha alegria salva pelos morangos,
comendo ameixa...
O que sua família faz?
Você não gosta de poesia?
Não sou tão hábil quanto seu namorado.
Não é meu namorado.
Então ele é o que?
É um amigo especial.
-Você também é um amigo especial, não é? -Não.
Sou escravo dele.
Escravo?
Não sabia que ele te maltratava.
Escravos nem sempre são maltratados.
São tratados como escravos, e ponto.
É mesmo?
E como se trata um escravo?
Assim?
Ou assim?
Vocês planejaram isso!
O que está fazendo?
-O que foi? -Vá se oferecer na esquina!
O que está fazendo, animal, pare!
Se me bater de novo juro que terminamos.
O que foi?
-Fora! -Certo! Certo!
Veja...
acabei de encontrar um verso sem fruta!
Acha isso engraçado?
Parece revoltante.
Que merda você fez?
Quem é você para mandar as pessoas embora da minha casa?
-Nossa casa! -É?
O Conde e a Condessa de Ultramort?
Não me trate como veado!
Não?
Então como devo te tratar?
-Como um cigano? -Repita isso!
Olha, agora o ciganinho bastardo ficou furioso.
Aquele que ia cuidar de mim.
Fora!
Fora da minha casa!
De que porra esta rindo?
Gentalha.
Pegue a chave do carro.
Vá embora.
Que é certo a vida passa, só se começa a compreender mais tarde
Como todos os jovens,
decidi levar a minha vida por diante.
Deixar marca eu queria
e partir entre aplausos.
Envelhecer, morrer, eram somente
as dimensões do teatro.
Porém passou o tempo
e a verdade mais amarga assoma:
Envelhecer, morrer,
é o argumento único da obra.
Não pode ficar aqui. Sente-se na platéia,
-ou me espere na cafeteria. -Certo.
Por que o deixou do seu séquito,
e desceu do seu cavalo, branco como a neve,
para andar num lugar tão escuro
na companhia de um mouro tão bárbaro?
Espera, espera um momento, Pep.
Não sei o que está acontecendo, Pep.
Você é um bom ator, concorda?
Certo. A partir de agora, quando vir para o ensaio,
faça-me um grande favor, deixe todos os seus problemas pessoais,
no cabide do vestiário.
Quero terminar, Jaime.
Bom, não sei o que quero.
Não queria viajar e fazer um estágio em Los Angeles ou Nova Iorque?
-Não foi você que disse pra eu não ir? -Não, não, Pep.
Isso é sobre o que você quer. O que você quer.
O que está fazendo?
Olha, Jaime, não vou depender da opinião dos outros.
Se quiser te beijar na rua, eu beijo e ponto final.
Sim, mas não se esqueça que até a minha mãe morrer...
não sou veado.
Vamos.
CÔNSULES DE SODOMA
Pode ser esse novo vírus de transmissão sexual, AIDS.
A doença que ataca homossexuais?
Sim, o Sarcoma de kaposi é uma das doenças oportunistas do vírus.
Podemos pedir novas análises,
mas aqui não vai conseguir nada.
Aconselho que vá para Paris ou Nova Iorque.
A Paris então. Não dizem é a doença do amor?
E vou até o "Hôtel des Invalides", se possível.
Posso perder minhas faculdades mentais?
Sim, é possível.
Você tem família?
Alguém próximo?
Sim.
Não estou para ninguém.
O que você tem?
Tenho câncer de Kaposi.
Não quero que passe por isso, Pep.
Vou morrer sozinho na minha própria guarida.
Não penso em te deixar sozinho.
Vou cuidar de você.
E quem vai cuidar de você quando estiver doente?
O tempo vai passar. Talvez até lá dê para controlar.
Já tentou observar por muito tempo um cisne
com aquele pescoço tão desproporcional?
É a ponto de ser monstruoso.
Mas só se tiver tempo.
Bel fazia...
Maravilhoso.
Repleto de energia...
com uma aura trágica e um lado de palhaço
que esteve sempre lá.
Quantas vezes já contei isso, amor?
Não, não pense nisso.
O passado não importa mais.
Às vezes a vida é tão curta
e tão completa que um minuto, quando te deixo e você se deixa,
vamos com pressa, e dura mais.
Às vezes a vida é mais rica.
e convida-nos os dois juntos a seu palácio, entre a semana,
ou aos domingos à toa.
A vida, então, já se conta por unidades do seu amor,
tão pequena que se esquecem do feliz,
e do confuso.
e tão intensa, se é seu gosto.
Até a dor que você me faz
dá outro sentido de o mundo ser.
A vida, logo, somos nós,
do extremo mais imundo.
Por que nos amarmos é um castigo,
e é um abismo viver juntos.
Eu imaginava.
Poemas de amor.
Não se preocupe, vai crescer com isso.
Não é asqueroso.
No fundo atrapalho você.
Só há uma maneira de se viver a poesia a fundo:
é viver a juventude,
escrever sobre o amor,
suas frustrações.
Mas escreva.
-Jaime. -Sim.
Estamos te esperando.
-Obrigado. -De nada.
Pep...
Sim?
Depois do jantar,
quero me perder na escuridão da noite.
Sozinho.
E agora?
Agora, nada.
Jaime Gil de Biedma morreu em sua casa de Barcelona
Legenda criada e traduzida por LUMPY.
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