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A GAROTA DA MOTOCICLETA
Daniel!
Daniel!
Meu Deus, preciso vê-lo.
Preciso ir até ele.
Raymond! Raymond!
Acorde!
Apenas me toque e eu não vou.
Hum... pele. É como se fosse pele.
Sou como um animal.
Não. Mesmo se Raymond estivesse acordado,
eu iria do mesmo jeito.
Algumas vezes, basta o instinto para voar.
Não vou me sentir culpada.
Oh! Aqui está ela.
Será que ele realmente estava dormindo ou só estava com medo de me ver partir?
Ele vai me ouvir agora!
Para que tipo de lugar você me trouxe, Raymond?
Nada além de cemitérios e campos militares.
Quase 1 milhão foram mortos aqui.
Este lugar fede a velhas guerras. E eles morreram pelo que?
Cada rua tem o nome de um soldado. Na Suíça, nós só temos uma rua
com o nome de um general. Não lembro seu nome de qualquer forma.
Outro cemitério. Mas nem todos os mortos estão sepultados.
Por que eles não se rebelam? Ao menos os jovens.
Rebeldia é a única coisa que mantém alguém vivo.
Inferno! Não trouxe dinheiro algum. Deixei até meu relógio para trás.
Ah, bem, isso bastará para me pagar uma bebida na Alemanha.
Cale a boca!
Encha, por favor. Super.
O tanque todo?
- Vai tão longe assim? - Bem longe.
Sabe quem sou, não sabe?
Meu marido é o professor Raymond Nase.
Esqueci meu dinheiro. Poderia pedir-lhe quando ele for para a escola? Ele pagará.
Assim como está vestida, parece uma piloto de corrida.
Mas eu conheço essa moto. Não há duas iguais nesta parte do mundo,
tem uma potência incrível.
Seu marido deveria usá-la. Chegaria mais depressa na escola
e as crianças não ririam tanto dele.
É minha moto. Ninguém mais vai usá-la.
Desta vez, tenho que calibrar os pneus.
Veja se os pneus estão calibrados. 28 no traseiro, 26 no dianteiro.
36 no dianteiro...
38 no traseiro.
Seu marido é um homem muito generoso.
Ou um idiota sortudo.
Seu marido é um homem muito generoso.
Raymond usar minha moto? Deixe-o ousar.
Mas, claro, ele não ousaria. Não pediria nem que tivesse que andar quase 200km.
E as crianças não ririam tanto dele.
Por que os deixa? Sinto vergonha só de você me contar, Raymond.
E o Reno nasce, de fato de onde eu venho,
Suíça.
No maciço... de... Saint... Gothard...
Por que está acenando, Philippe? O que você quer?
Queria ir ao toalete, senhor.
Está bem. Mas não demore muito.
Silêncio!
Isto é demais! Já passou da conta!
- Onde ele está? Ele colocou um rádio. - Você gosta de música?
- Onde está? - Lá!
Por ali! Está ali!
O dono do rádio deve se levantar imediatamente!
Deve ser punido!
- Pensei que o senhor gostasse de música. - É a isso que chama de música?
Onde está? Todos serão punidos.
Daniel está certo, claro. Ele está sempre certo.
As cidades estão morrendo nos subúrbios. Imagine viver numa casa assim.
Sufocante. Morte lenta e sufocante.
Até eu morrer, estar casada é como morrer aos poucos, vivendo aqui.
Cristo, eu falo como se estivesse casada há anos.
E são apenas 2 meses.
É maldita gentileza dele que está me matando.
Merda!
Veja, Daniel. Posso apagar tudo, como num caderno de desenho.
Girando o acelerador, posso obliterar essa lama e me transformo.
Rebecca! Em velocidade, numa estrada molhada, deve antever o obstáculo a 1km
à frente. Freie suavemente e volte para a 3ª, antes de freiar.
Lembre-se, hein?
Eu me lembrarei de tudo.
Todas as pequenas coisas.
Voo para você, como aqueles pássaros..
Não. Como um foguete em direção ao sol.
Você me acenderá? Eu quero estar em brasas.
Eu quero ser exatamente como... exatamente como a última vez!
Quando o relógio soar às 20h, em Heiderberg,
deverei estar em seus braços.
08h00, é muito cedo. Não devem ser mais de 04:00h.
Que horas eu saí? Não posso chegar muito cedo.
Quero que ele me espere naquela casa de verão.
Ah, ele vai sentir que estou indo. Ele pressente sua presa.
Pararei um pouco e viverei. Tome seu desjejum. Chegarei quando terminar seu café.
Ah, está tão quente. Entretanto, é cedo.
Como milhares de dedos.
Acho que só voltarei à vida quando ele me tocar.
Sou um pouco como uma folha.
Verde. Não no senso comum. Mas flexível e maleável.
Dependente. Começando a florescer. Jovem e adaptável.
E então as similaridades acabam. Fui pega por Daniel,
e no momento em que ele me pega, eu começo a morrer.
Parece que foi há tanto tempo, tão entediante
Nunca fiquei sem Daniel por tanto tempo.
Oh, você não sabe o quão entediante tem sido. Eu fico entorpecida.
E a moto, esperando, quase campeã no do páreo.
Não, muito melhor que um cavalo e mais rápida, rápida.
A última vez que passei neste lugar o sol estava tão quente em meus óculos.
Eu estava a 130km.
É uma mulher. Hoje me dia Não dá pra saber a diferença.
Eu consigo.
Sabe que estou nua sob este traje. Se mandar abrir, para ver se sou contrabandista?
Passaporte!
Não confio no jeito que eles abordam. Pode ser devido aos seus pensamentos pervertidos.
Eu só tenho a mim mesma para declarar.
Alguma coisa a declarar?
O que eu dizia.
Nada, só eu mesma, como pode ver..
É uma mercadoria muito bonita.
Nada? Tem certeza? Mostre-me.
O que?
Os documentos da moto.
Muito bem.
Pode ir.
Volte algum dia e me dê carona em sua PM.
Vou segurar bem apertado!
Agora estou deixando o país de Raymond e entrando no de Daniel.
Bom dia. Seu passaporte, por favor.
Muito obrigado.
Boa viagem.
Como é lindo o país do meu amor. E que arquitetura!
Seu corpo é como um violino num estojo de veludo.
Daniel, oh, Daniel.
Deixe-me nua.
Se querem ser homens tirem as flores do capacete.
Esse não é você.
Pobres cretinos. São só crianças.
Tiveram tempo de fazer amor? Se eles souberem como...
Você já foi soldado, Daniel? Não posso imaginá-lo recebendo ordens de alguém...
Você nunca entraria numa porcaria dessas.
Sol, rápido!
Me queime.
- O que achou, Daniel? - Sua idiota!
Não lhe disse que embreagem não aguenta 5 minutos desta maneira?
Você está se exibindo, é tudo.
Ratinha tímida. Capturada e presa,
circulando na minha gaiolinha.
Preciso perguntar a Daniel por que as pontes se parecem monstros.
Ele deve saber a razão. Se não souber, inventará uma.
Agora, acredite em mim, este é o espaço do fim.
Lá é o caminho da fuga. Por enquanto.
Imagine, eu sempre achei que os trens fossem mais ligeiros.
Pequeno e engraçado trem vermelho da montanha.
Chacoalhando bastante. Senti-me tão feliz
de ir com Jean e Catherine. São tão simples e descomplicados.
A vida pode ser bem simples e eu poderia aproveitá-la.
- Veja o que ele gosta de ler. - Schubert, sinfonia em Si maior.
Um livro de mistério não seria mais apropriado para você?
Esses livros são muito complicados para mim. Nunca consigo acompanhá-los.
- Você não se interessa por coisas normais? - Muitas.
Ele quer dizer: eu.
Chegamos.
Obrigado! Vamos, querida! Vamos subir!
Ah, é muito bonito! Estamos bem aqui.
- Nos vemos depois! - Sim, nos vemos lá embaixo.
Esse é meu quarto.
- Um quarto vermelho! Que sexy! - Vermelho para o perigo.
Muito obrigado!
Ah, que lindo.
- Meu quarto é do lado do seu. - E daí...?
Não tranque a porta essa noite!
Vamos, vamos dar mais uma volta! Vamos!
- Não, pra mim já deu. - Tudo bem, vou parar então, também.
- Por que? Não está se divertindo? - Não exatamente.
Mentiroso. Você nunca faz o que quer fazer.
Só faz o que tem que deve fazer.
Certo, vamos fazer um acordo. Vamos dar mais uma volta.
Ótimo. Pelo menos agora admitiu o que quer fazer. E você sabe o que deveria fazer?
Não.
Deveria ter me mandado calar a boca...
...e ter feito o que queria fazer.
Querido, se você for tão condescendente...
...vai me transformar em uma vadia mimada.
Você deveria procurar outra namorada. Uma legal, não como eu.
Ah, Rebecca.
Quem é aquele homem encarando você? Você o conhece?
Eu acho que já o vi entrando na livraria do meu pai.
Estúpida! Você não pode colocar Oscar Wilde ao lado de Charlotte Bronte.
Isso seria uma ofensa terrível!
- Onde eu coloco então? - Perto de Bernard Shaw e Santo Agostinho, claro.
Se tornaram péssimos colegas juntos após a morte.
- Bom dia! - Bom dia!
Eu estava passando e imaginei se a edição de African Genesis tinha chegado.
Receio que não. Esses editores só fazem o que querem e sem pressa.
Mas eu encontrei algo outro dia que talvez lhe interesse.
É uma edição de O Meio Divino, do Chardin.
- A edição de Marselha? - Não.
- Você conhece minha filha Rebecca, não? - Não.
- Ah, querida, esse é o senhor Daniel... - Coline.
De Lausanne, ele dá aula em Heidelberg.
Amor e Sabedoria Divina...
Tenho certeza que já lhe vendi um na primavera passada.
- Não o li ainda. - Que pena!
Contudo, o inverno é a estação para a sabedoria divina...
...mas o amor divino, é para todos os meses do ano.
Acho que a Rebecca concorda comigo.
Vou procurar O Meio Divino.
- Aqui está! - Mal posso esperar para pegá-lo.
- Em ótimo estado. - Vou levar com certeza.
Obrigado!
Ele é um homem interessante, mas um típico suíço.
Ele despreza o pensamento alemão, mas o explora mesmo assim.
Vocês são loucos!
- Me dê minha chave! - Você não vai precisar.
Agora estou cansado.
Ah, meu amor!
Boa noite!
Boa noite, Raymond!
Boa noite!
Aqui estou eu.
Não, não esse.
Branco! Branco para o Raymond.
Não, não posso.
O que há de errado comigo? Não consigo mais controlar isso.
Rebecca.
Rebecca.
Raymond! Ele deve estar bêbado.
Sabia que você não era o Raymond.
Nunca estive tão feliz.
Ele nem olhou para trás
Rebecca!
Rebecca?
Rebecca, sou eu!
Levante-se, Não quer esquiar! Já são 10 horas.
Vocês está dormindo há horas.
- Como você sabe? - Eu entrei no seu quarto.
- Quando? - Assim que nós subimos.
Beijei seu nariz, mas você nem percebeu Deve ser os ares da montanha!
Sim, deve ser os ares da montanha.
Raymond, nós temos que esperar três meses antes de nos casar?
Foi a ideia do seu pai, mas eu concordo e volto pro meu emprego ruim enquanto...
Vou convencê-lo.
Vamos nos casar semana que vem! Por favor Raymond, estou com medo.
- Medo de que? - De perder você! E a mim...
Se pelo menos você soubesse...
Se pelo menos eu tivesse certeza...
Então eles se casaram e viveram felizes para sempre.
Isso é uma piada! Que loucura essas garotas são loucas para se casar?
Quem vai ser a primeira a sair da escola? Aquela Gisela gorda.
Que inadequado. Só de branco, parecendo uma porca gorda no altar.
Mas por que eu fiz isso? Melhor que na livraria das 9 às 5?
24 horas presa em um subúrbio nojento a quilômetros da Suíça.
Que futuro! Muitos filhos, pouco dinheiro.
Cavando minha própria cova, sem escapatória.
Então por que me casei com Raymond? Para não virar uma vagabunda?
- Bom dia! - Bom dia!
O que você tem de Swedenborg?
Era ele, claro... o estranho.
Ele conhece mais meu corpo que qualquer outra pessoa.
Eu tenho Humanidade e Redenção. Se que o coloquei em algum lugar.
- Vou ver no escritório. - Obrigado.
Sabia que era você.
Sim, eu tenho o resumo em inglês. Mas Redenção deve estar lá embaixo.
- Quer eu eu vá pegar? - Não, tenho que me acostumar a procurar sozinho.
O problema com filhas é que elas se casam. Essa vai se casar em algumas semanas.
Parabéns! Ela parece um tanto pálida para uma noiva.
Podemos ver que ela não transparece a nada além dessa poeira dos livros.
Se ela sabe falar, gostaria de passear com ela em minha moto.
Dar um pouco de cor a essas bochechas.
Sim, pode ir junto. Por que não? Pode animá-la um pouco.
Vão, mas não demorem muito! Vou separando os livros para quando voltar.
- Obrigado. - Certo, vão!
Aqui estamos.
Segure firme! Coloque seus pés!
Não vá muito rápido! Ela nunca andou numa moto antes.
Segure firme!
Coloque as mãos em minha cintura! E firme!
Você está bem?
- Pra onde você está me levando? - Pra um lugar que eu conheço.
- Eu achei que você não viria novamente. - Foi difícil.
Se passaram duas semanas! Achei que não quisesse me ver novamente.
Foi o que planejei!
- O que? - Em não vê-la novamente.
- Por que você veio? - Cale a boca!
Por que você não queria me ver nunca mais?
É porque você não me ama mais ou porque eu fiquei noiva e vou casar?
Sim.
Espere!
Me matar enquanto eu vou com você seria sagaz,
mas eu perguntei se é porque você não gosta de mim ou se é pelo meu casamento.
- Porque eu não gosto de você. - Nós não temos futuro, não é?
Sim.
- Então por que fez isso? - Porque aqui tem um presente.
Porcaria!
Eu não tinha certeza se o negro estavam lá dessa vez.
Desse vez é melhor ele manter as mãos suaves dele longe de mim.
Ele não está aqui. Que pena. E esse é horroroso.
Identidade, documentos da moto.
Quanto dinheiro você tem?
Cinquenta marcos!
Aposto que ele é gay.
Identidade, por favor.
Sem bagagem. O que faz na Alemanha?
Apenas tentando outras estradas para dirigir.
Em Alsace, as ruas são muito estreitas. E há muito tráfego. Não é seguro.
Que imbecil nojento! Por que eu fiz questão de mentir?
Não é nada da conta dele.
Da última vez que eu vim estava tão calor.
Eu gosto de ser aquecida.
Vento gelado foi o que matou minha mãe. Talvez o frio seja um mau sinal?
Ah, sou uma tola.
Champagne! Meu querido cavaleiro!
E água para Raymond! Pobre Raymond...
Eu devo atrair professores. Tanto meu marido quanto meu amante.
Gosto da palavra amante.
Raymond provavelmente sabe que eu tenho um amante.
E continua me amando. Daniel não toleraria. Ele me trata como uma escrava.
Mesmo que ele me solte eu não serei livre.
O que você leciona, Daniel?
Filosofia?
Psicologia?
Antropologia?
Eu sei!... Você é doutor em pornografia.
Eu deveria me sentir culpada. E sei que deveria me sentir culpada.
Pobre Raymond. Eu fui uma jovem noiva infiel.
E me casei com ele porque eu era masoquista?
Daniel disse que sim, antes dele ... Daniel...
Daniel disse que em 50 anos não haverá mais casamentos.
Eu nasci cedo demais... Só amor livre...
Amor livre, campos livres. Quem determina como nos amamos?
- Quem? - A revista Playboy, Professor?
Talvez... Mas citando Tennyson...
Não sabia que pensavam em amor livre no tempo dele.
O que acha que eu quis dizer? Uma relação alternativa ao casamento.
Você come o biscoito sem precisar comprar o pacote, certo, Professor?
O que você entende por "amor livre"?
Vamos, alguém!
Foi a geração de vocês que aboliu o casamento tradicional.
Bem, amor livre é ser livre para amar alguém.
- Sem compromisso! - Muito bem! Na medida em que vai.
Amor livre: amor sem casamento. Amor sem amor.
Com amor quero dizer sexo. Então?
Desejo sem amor.
- É possível? - Claro, Professor!
Você pode gostar de uma garota sem amá-la.
Então o que é amor?
É a palavra menos compreendida em qualquer idioma e a mais mal empregada.
Nós a usamos como uma coberta para cobrir todos os sentimentos mais obscuros:
Desejo, luxúria, necessidade de machucar
e ser machucado.
Mas o amor não torna esses outros sentimentos aceitáveis?
Se você quer dizer respeitável, diga!
Se a virtude é um valor em si, então o mesmo vale para o pecado, certo?
Acredito que sim, Professor.
Então amor é só uma palavra para tornar o pecado
mais respeitável para nós, assim como tantas outras.
E o casamento uma forma de nos proteger contra julgamentos e fofocas?
- Eu acho que sim! - Ah, é mesmo?
Então vá e se apaixone, depois volte e me diga quão livre você é.
Você vai descobrir que ainda terá problemas com o amor livre.
O que há de errado com o amor livre, Daniel? Ah, sim, agora eu entendo.
Coitada! Quatro filhos e grávida. Ela parece esgotada.
Não é de vitaminas que ela precisa.
Como você disse, Daniel. Motoristas alemães andam em comboios como soldados.
Como você disse mesmo? Nós somos todos como lemingues.
Indo em direção aos cemitérios, um após o outro.
Eu pensei que tivesse uma identidade.
Minha mãe me causou essa distinção na escola.
Um pai erudito. Professores gostam disso.
Identificada por meus pais, mas sem identidade.
Eu não tenho identidade. Perdi-a em você para sempre, Daniel.
Um putinha safada que adora apanhar.
Era o que você queria, não era? Você não se importa em ouvir.
Você é um sádico, meu querido. Um sádico magnífico.
Você é um IMBECIL!
Imbecil! Imbecil!
Isso parece um mausoléu.
Daniel, fico pensando se é aqui onde você esconde seus segredos obscuros.
Meu Deus, preciso de uma bebida!
Ainda é hora de matar.
Ainda são vinte para as sete.
Espere um instante!
- O que vai querer? Café? - Não, não, Kirsch, por favor.
Do jeito que você me ensinou a beber.
Um quarto e uma garrafa de kirsch.
Certo, senhor. Quarto oito. Está livre.
- Obrigado. - Ele já esteve aqui antes.
Entre.
Obrigado, senhor.
Isso foi estúpido.
Daniel, me ensine a dirigir uma moto?
Ensino. Vamos começar amanhã.
Lembre-se. Trate a máquina como se ela fosse humana. E ela responderá.
Somente pessoas que se amam podem cuidar dessa máquina, certo?
Solte a embreagem levemente. Não mais.
Agora! Dê uma acelerada! Pronto!
Agora mude para a primeira marcha.
Agora lentamente, muito lentamente, nós vamos.
Calma, calma! Vamos!
Acelere mais! Mas não muito!
Fique calma. Acelere um pouco.
Não, foi muito! Calma.
Agora mude para segunda marcha.
Mude! Certo.
Isso.
- Consegui! - Olhe para a frente!
- O que você está fazendo, sua idiota? - Você não deveria gritar assim comigo!
Eu tenho que gritar por causa do motor.
Certo, pare de tagarelar e mude de marcha novamente.
Certo. Na próxima, vire na curva.
Não olhe para trás, idiota!
Bom! Não, não olhe pra trás!
- Então, como foi? - Razoável.
Uma pequena melhora. Sente atrás.
Eu vou mostrar a você como dirigir em curvas.
Segure firme!
Eu desacelero um pouco antes de entrar na curva.
Não tenha medo. A velocidade está me levando. Entendeu?
Sim, eu acho!
- Certo, é a sua vez. - Não, eu não consigo.
Você consegue.
Uma moto se aproxima de nós mais do que qualquer ser humano.
O carro é algo... externo a nós.
Mas a moto se torna parte de você.
Você é a sensação entre suas coxas.
- É o único amor em sua vida? - Que coisa estúpida para se dizer.
Claro que não. E amor é só uma palavra estúpida.
- Sempre cavando em um labirinto. - Amor é um sentimento.
Assim como dor de dente.
O que você faz com o dente?
Se dói muito, eu o arranco pela raiz. E não há mais problema.
Foi isso que você fez com ela?
Onde ela está agora?
- Ela morreu? - Pense o que quiser!
- Daniel, você se casaria comigo? - Não.
- Por causa dela? - Você disse que ela morreu.
Ainda pode ser o motivo.
Daniel, em três semanas me casarei com Raymond.
Anotarei isso em meu calendário e mandarei um presente de casamento.
Acabou de chegar! É o presente de casamento mais ridículo que eu já vi em minha vida!
Não faz sentido!
- Assine aqui, por favor. - Você não pode aceitar, nem pensar!
O homem pode ser rico, mas há limites! Você não pode aceitar isso! Devolva!
Então, Raymond? É o que você quer que eu faça?
Não se isso não deixar você feliz. Faça o que quer fazer.
Você teve sua chance ali, Raymond. E você desperdiçou.
Eu sei que será infeliz.
Daniel, hoje é o dia.
Vou voltar para a França de trem.
Você pode ficar com sua maldita moto.
Querido Raymond.
Meu querido Raymond. Oh, Deus!
O ponto é: eu o deixei.
Digo, eu não vou voltar.
Não posso fazer nada.
Ele também não me dá nenhuma identidade.
Ele nem mesmo diz que eu sou bonita.
Meu demônio negro! Faz amor maravilhosamente.
Assim como meu demônio vermelho, Daniel!
Você é a cafetina dele. Nessa velocidade, as putas me atirariam
nas mãos dos clientes.
Me leve até ele, minha cafetina maldita!
Oh, Deus!
Sua estúpida maldita. E ainda se diz motorista.
Você deveria ser assassinada! E você merece.
Você está certo. Fui uma puta estúpida. Mas vou me recompor.
Não se preocupe, querido. Eu vou manter meu corpo intacto para você.
Eu sei que meu corpo é a única coisa com que você se importa.
Por que estou fazendo isso?
- Daniel, por que vim aqui? - Porque você quis.
Porque eu quis? Sim.
Porque eu quero você.
Isso me torna uma ninfomaníaca? Querido, eu sou uma ninfomaníaca?
Acredito que sim.
Tão astuto me dar a moto como presente de casamento.
Se eu não tivesse aceitado, não poderia vir até você.
Sabe que tudo que o Raymond disse foi:
"Nunca imaginaria que um amigo do seu pai lhe daria um presente de casamento tão útil."
Pobre Raymond.
Eu tentei contar o tempo todo para ele. Deus sabe como eu tentei.
Mas não importa. Tarde demais.
Então eu resolvi ficar com a moto.
Apenas para irritar você por tê-la me dado e nunca mais vê-lo novamente.
- Quanto tempo mantive a promessa? - Um mês.
15 dias! Você nem percebeu.
Sabe por que eu e o Raymond nos casamos tão rápido?
Eu me casei com ele para me proteger de você.
Eu tentei fazê-lo feliz.
Eu tentei desesperadamente esquecer você.
Sabe o que eu fazia para alcançar meu objetivo?
Todas as noites, antes de dormir ficava pensando em seus defeitos.
Sua crueldade.
Sua arrogância, sua vaidade,
seu desleixo.
Nada difícil pensar neles.
Então eu me concentrava em cada um deles esperando que
na manhã seguinte não pensasse mais em você.
Mas eu pensava. E eu sei que você não me ama.
- Você mandava rosas para ela? - Sempre.
Você nunca me mandou nenhuma.
Você nunca vai deixar de amá-la. Não importa onde ela esteja!
Eu diria que nunca mais vou amar alguém novamente.
Não vamos pensar nisso!
Águas passadas não movem moinhos, minha menina!
Vou beijar seus olhos.
No caminho pra cá eu o chamei de sádico imbecil com toda a força de minha voz
e eu disse a sério.
É assim que você me vê?
Você quer que eu seja assim?
Eu não sei.
Eu não sei.
Seus dedos parecem lápides.
Obrigada.
De fato, você está longe de ser irresistível.
- Então por que me pediu para vir? - Eu nunca pedi para você vir.
Você pediu, meu querido!
Você me mandou uma linda motocicleta, e eu estou aqui pagando as prestações.
Mas agora eu terminei de pagar. Eu não virei aqui nunca mais. Nunca!
Eu lhe dou dez dias.
Mas você estava errado querido. Foram doze dias.
Eu sei, eu os contei.
Típico! Mesmo quando saem do país
esses idiotas têm que ficar sentados em seus carros.
Legendas: Lu Stoker, Brunocll e Pietraux
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