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Foi apenas um sonho.
Sei que extra�mos os sonhos unicamente da nossa pr�pria alma.
Mas como algu�m pode fazer algo assim.
Quero ser bom.
N�o quero conceder �morte nenhum poder sobre os meus pensamentos!
O amor � mais forte do que ela.
Bem...
E com isso vou acordar...
Pois segui o meu sonho at� o fim.
Meu cora��o est� batendo forte e sabe o porqu�.
N�o pulsa s� por raz�es f�sicas...
Uma correspond�ncia para voc�. Desculpe-me.
Algu�m morreu?
V� em frente, fale.
Boas ou m�s not�cias?
Ambas.
Foi depressa! J� precisa regressar �"p�tria".
J� precisa regressar �"p�tria"?
Joachim est� voltando.
Vejam s�! O que eu disse?
Podre, podre.
S� espero que essa coisa n�o tenha deixado o jovem Ziemssen putrefato.
Sra. St�hr!
O triunfo do corpo.
Ele tem planos distintos daqueles da alma.
N�o � a Sra. Chauchat.
Ziemssen est� voltando, Joachim Ziemssen!
Depois j� de um ano.
Isso n�o parece bom.
Por favor, apague a luz.
Est� me cegando.
Quando o comandante geral me deu o certificado de tenente...
... os sargentos que esta- vam sob o meu comando...
... e que j� estavam familiarizados com...
... Levantaram-se para me cumprimentar...
... E eu apenas casual- mente os dispensei.
Ou�a...
"Este tributo foi realizado antes quando Quirino governou a S�ria".
"E todos iam alistar-se, todos em sua pr�pria cidade".
"E subiu tamb�m Jos� da Galil�ia,
fora da cidade de Nazareth, para a Jud�ia..."
Devo imediatamente...
Devo imediatamente escrever uma peti��o para extender minha licen�a.
"E assim foi que, enquan- to eles estavam l�,
se cumpriram os dias que ela deveria ser entregue".
"E deu � luz seu filho primog�nito
e envolveu-o em panos..."
"E o deitou numa manjedoura,
porque n�o havia lugar para eles na estalagem".
"E havia, no mesmo pa�s, pas- tores que viviam no campo,
mantendo seus rebanhos durante a noite".
"E eis que o anjo do Senhor veio sobre eles,
e a gl�ria do Senhor os cercou de resplendor".
"E eles estavam com tanto medo".
"E o anjo lhes disse: 'N�o temais,
pois eis que vos trago boas novas de grande alegria,
que se espalhar� a todas as pessoas...'"
"'� que nasceu neste dia na cidade de Davi um Salvador,
que � Cristo, o Senhor'".
Ele foi um her�i!
Um her�i!
Devemos tocar a "Er�tica" (de Beethoven).
Um muito estimado e simp�tico jovem.
Os Literatos cometem o erro de achar que s�
o esp�rito nos torna decentes.
Na minha opini�o, o oposto � mais verdadeiro.
S� onde n�o h� esp�rito somos respeit�veis.
Um grande garoto, um grande companheiro.
Quis for�ar a natureza; sabem?
Claro, aquele servi�o l� embaixo s� constava de coa��o e de viol�ncia.
Apesar da febre, ele cumpriu o seu dever, a todo custo.
� o campo de honra, sabem?
Safou-se para o campo de honra, esse desertor!
Mas, no seu caso, a honra significava a morte, e a morte...
A morte lhe fez a honra.
Um grande companheiro.
N�o se sabe se Hans Castorp j� superara sua timidez,
se descobriu qu�o velho tinha ficado aqui em cima.
S� sabemos que a timidez que o impediu
foi a timidez da sua consci�ncia,
embora seja mais inescru- puloso de ignorar o tempo.
Ele agora sinceramente n�o sabia quantos anos tinha.
Bem, aqui estamos n�s.
Vamos ver se a comida � boa.
Boa comida � t�o importante quanto uma boa noite de sono e bons amigos.
Com isto em mente, Senhoras e Senhores, est� decidido.
- Est� resolvido.
Ei! Venha aqui.
Venha at� mim.
- Bem, qual o seu nome? - Emerentia.
Emerentia!
Isso excede as minhas expectativas.
Emerentia... Como um apelido, pode ser Rentia, mas vou cham�-la...
... Emchen.
N�o, n�o, n�o.
Vou chamar voc�...
Emmy, sim?
Eu vou te dizer uma coisa, Emmy.
No mundo de Deus, gl�ria e justi�a, que s�o pequenos em estatura,
mas a maioria certamente tem em si um cora��o valente.
E agora, por favor, me traga uma genebra.
Uma genebra, senhor, imediatamente.
Voc� viu o colar de p�rolas no pesco�o de Madame Chauchat?
Ele � um "magn�tico do dinheiro".
N�o parece ser um sinal galan- te de um marido caucasiano.
As p�rolas certamente surgiram de uma comunh�o de bens durante a viagem.
Um "magnata do dinheiro".
A designa��o, por�m, de "magn�tico" n�o � ruim.
Obviamente, h� muita atra��o por ele.
Ele disse estar muito doente.
Febre tropical, mal�ria ou coisa assim.
A Sra. Engelhart quer saber o que voc� achou dele.
Como � est� seu primo, monsieur?
Ele est� morto.
Isso � uma pena.
Morto e enterrado?
Desde quando?
J� faz algum tempo.
E Monsieur nem sequer foi assistir ao enterro de seu primo?
N�o.
Mas tu n�o vais acreditar como estava fria a testa dele.
Por que se dirige informalmente comigo?
Eu nunca vou me dirigir formalmente contigo de novo, nunca mais.
Que piada!
Estava aqui o tempo todo?
Sim.
Tenho estado � espera.
Por quem?
Por ti.
Por mim?
Voc� � louco.
Ainda tem febre?
Quase sempre.
Ela varia, mas n�o � uma febre intermitente.
Isso poderia ser um sintoma?
E onde tu estavas?
Ou�a, n�o quero que use o informal comigo.
Bem, enquanto estava fora, viajei por toda parte.
Em Moscou, em seguida, Baku.
Eu estive na Espanha.
Na Espanha, como foi?
N�o � ruim, embora a viagem seja dif�cil.
Comprei uma touca azul l�,
chamada de boina.
Monsieur poder� julgar se ela me assenta bem.
Qual monsieur?
Qual? O sentado diante de mim nesta cadeira.
Eu pensava que se tratasse do seu novo companheiro.
Ele j� julgou.
Diz que fico encan- tadora com ela.
Ele disse isso?
At� o fim?
Terminando a frase de maneira que se possa
compreend�-la?
Ah, parece que algu�m est� mal-humorado.
Procura zombar de personalidades que s�o muito maiores, melhores
e mais humanas do que a si mesmo com toda a sua conversa filos�fica.
Mas n�o tolerarei que meus amigos sejam...
Voc� ainda tem meu retrato interior?
Eu n�o sei. Vou ver se o guardei.
Eu trago o teu aqui comigo.
Al�m disso, tenho um cavalete em cima da minha c�moda, e...
Voc� � um capit�o?
N�o, senhor, n�o esta noite.
Acabo de travar conhe- cimento com o senhor...
... conhecimento com um mo�o que inspira confian�a.
Eu te respeito.
N�s poder�amos permane- cer juntos por algum tempo.
A vida � curta.
Finalmente!
Aqui est� um para voc�.
E para voc�.
E um deixe para mim, obrigado.
Estou satisfeito por ser capaz de lhes oferecer uma bebida
depois de n�o t�- los visto por 3 dias.
N�o � um dom de Deus, um dom da vida?
Com certeza, por favor, acreditem em mim.
Aceito o ascetismo quando se refere a princ�pios morais.
At� considero importante, mas para o momento,
deixem-me lhes dizer algo... Eu vou beber � sua sa�de.
O �lcool e o fumo s�o proi- bidos no per�odo da tarde.
Senhor, se me permite,
deve respeitar este jovem...
e sua pr�pria sa�de pessoal.
A minha sa�de?
N�o h� nada melhor para minha sa�de do que charutos e conhaque, voc� v�?
Perfeito para o meu bem-estar.
Tr�s dias atr�s, eu estava com febre,
e uma semana antes, n�o poderia mesmo sair da cama, e agora...
Agora tenho conhaque, e estou sentado ao lado desta beleza aqui.
E, claro, com todos voc�s.
Brevemente, professor, meu amigo, gostaria de filosofar...
Voc� ouviu isso? Extraordin�rio!
Essa � uma valsa, uma valsa!
Sim, venha!
Venha, minha filha. Venha, venha.
Engenheiro , parece que voc� admira este adorador de �dolos.
Ou que outra coisa significa estes seus olhos arregalados?
Afinal, ele mant�m a sua Clawdia longe de voc�.
E voc�, o que planeja fazer a respeito?
N�o se exceda, Sr. Settembrini. O Sr. tamb�m n�o est� isento de ci�mes.
Seu ci�me n�o o impul- siona a lutar tamb�m.
O Sr. sofre com paci�ncia.
Portanto, o poderoso Peeperkorn poderia destruir seu relacionamento
com o seu amigo, bem como eu ou Madame Chauchat poderia.
Est� tudo bem.
Estamos bem.
Bom.
Estamos bem.
Sente-se.
Voc� est� se sen- tindo melhor agora?
Professor, o Sr. despreza esse dom de Deus, o conhaque?
E se intitula um homem da Igreja?
Um homem da Igreja tem algum prazer na vida, ou...?
Como um homem da Igreja, eu tenho que me defender.
Com certeza, sim, eu o pro�bo falar em nome de Deus
e da Santa Igreja com a sua boca dolorosamente distorcida.
Possivelmente, n�o � tarde demais para explicar-lhe que a Igreja
� a personifica��o do ideal asc�tico religioso,
nunca foi, e nunca ser�, advogada ou defensora
do que voc� cobi�a e teatralmente encarna
com sua soberana e pretensiosa natureza exibindo-se para n�s.
Ao contr�rio, as mais importantes palavras no pavilh�o da Igreja
s�o: revolu��o, a extens�o radical da lux�ria mundana e poder.
Fique calmo, Professor Naphta.
Como pode inclinar-se deste modo para impor as suas teorias,
que s�o especialmente obscuras, para uma pessoa,
da qual sabemos, n�o tem absoluta- mente nenhum interesse em pol�tica?
No entanto, tenho de desafi�-lo nesta situa��o.
A Igreja �, e continuar� a s�-lo, a pro- tetora da persist�ncia � obscuridade,
Professor Naphta.
E ela continua contra o pro- gresso, mesmo que hoje
declare-se revolucion�ria com seus embaixadores eloquentes
e fan�ticos, como voc�.
Tudo � feito constante- mente sob o pretexto
de trazer a liberdade, a democracia e a educa��o,
mas, na realidade, ela est� pre- gando a ditadura do populacho
e da barb�rie.
Ou�a isto. Que grande democrata.
Voc� reduz o proleta- riado a uma multid�o.
Voc� quer dar a en- tender que a Igreja...
Senhores, por favor.
N�o Vamos discutir, embora esta seja uma discuss�o que vele a pena.
Ascetismo, senhores.
O mundo, seus pro- blemas e da Igreja...
Estas s�o todas quest�es altamente controversas e certamente importantes,
Receio que estejamos esquivando-nos imperdoavelmente de algo mais sagrado.
M�sica , voc� ouve a m�sica cigana?
O som maravilhoso... reconhece o acordo �ntimo entre vida e morte, amor e felicidade.
de vida e morte, amor e felicidade.
Tudo pode ser encontrado na m�sica se voc� ouvir atentamente.
E eu n�o acho que devemos ouvir a m�sica
como fundo de tais argumentos.
Isso seria um insulto e um ato insens�vel.
M�sica requer a nossa aten��o, absoluta e incondicional!
Assim, atenderemos �s exig�ncias do amor!
A nossa aten��o!
Fim da discuss�o!
O que est�o olhando?
Preocupem-se com seus pr�prios afazeres!
Estou calmo agora.
Sinto muito.
Sim.
Sinto muito.
Senhoras e senhores,
... Eu chamo vossa aten��o para as alturas.
Voc�s est�o me ouvindo?
Cada um de voc�s, olhem pra l�... l� em cima.
Voc�s veem?
O ponto negro circulando l� em cima contra o singular c�u azul,
como ele circula acima sem bater as asas!
Olhem para ele!
Voc�s sabem o que �?
� uma ave de rapina, um ca�ador.
Um p�ssaro de rapina de tamanho inacredit�vel.
Sim!
Sim!
Oh, meus amigos, por favor, venham aqui. Venham, venham.
Venha, meu caro rapaz.
Veja!
Veja!
Eu chamo a aten��o mais enfaticamente.
Isso n�o � um gavi�o, n�o.
N�o, isso tamb�m n�o � um abutre, certamente n�o.
N�o, isso � uma �guia. Diretamente acima de n�s descreve os seus c�rculos.
Sem bater as asas adeja em alturas grandiosas por cima das nossas...
Ela circula e progressivamente
se eleva numa altura em que nunca poderemos chegar.
Oh, meus amigos, aquele...
Aquele � o rei do firmamento,
mas tamb�m o p�s- saro dos deuses cru�is,
sim, o guerreiro dos p�s- saros, o le�o do ar!
E tem um bico de ferro!
E garras de imenso poder!
Atinge-nos os intestinos,
abre e rasga a carne em uma bagun�a sangrenta, sim!
E este p�ssaro olha para n�s com seus olhos l�cidos.
Sim, venha!
Por favor, venha!
Oh, por favor, venha guerreiro estranho! Voe para baixo e ataque!
Arranque nossos olhos!
Use suas garras, que s�o duras como o a�o,
golpeie-nos com elas, enterre-as profundamente em nossos corpos!
Arranque os intestinos dessas criaturas
que o eterno Deus criou!
Des�a, ataque, atinja-nos, sim,
at� que suas garras atinjam as v�sceras
e que em seu bico pingue o sangue!
Sangue!
Sangue!
Por favor, me perdoe.
Toquem a m�sica!
Pelo amor de Deus, por favor, toquem a m�sica!
Querido, Pierre, Pierre!
Por que...?
Por que voc� n�o dan�a com ele?
Com quem?
Com ele.
Eu voltarei para casa com os outros dois.
Queres que mante- nhamos amizade?
Que fa�amos uma alian�a a favor dele,
assim como normalmente se faz contra algu�m?
Voc� sabe...
�s vezes eu morro de medo de ficar sozinha...
... Especialmente o medo da solid�o interior.
De alguma forma, � aterrorizante.
Estou sempre com medo de que algo vai acontecer a ele.
Me sentiria muito mais segura se hou- vesse uma boa pessoa ao meu lado.
Bem, se voc� quiser ouvi-lo...
Talvez fosse esse o motivo que voltei aqui com ele.
Quero dizer, para ver voc�.
E voc� disse que a minha espera havia sido em v�o?
Lamento, senhor...
Por favor, deixem-nos sozinhos, minha filha.
- Caf� e vinho! - Lamento, mas n�s j� fechamos.
Isso ser� suficiente para permanecerem abertos?
Vou ter que per- guntar ao chef.
Diga-me, amas a Madame?
Vou repetir a minha pergunta. Voc� a ama?
Eu respeito Madame Chauchat, claro.
Voc� foi ou n�o amante de Clawdia durante sua �ltima estadia aqui?
Considere que foi uma noite fora do comum,
quase saindo fora do calend�rio, um "hors-d'oeuvre", por assim dizer,
uma noite extra, uma noite de ano bissexto...
Um 29 de fevereiro.
Um 29 de fevereiro... isso � engra�ado.
Responda-me, finalmente, voc� ama a Madame?
Desculpe-me, Mynheer Peeperkorn, mas considerando meus sentimentos por voc�,
sentimentos do maior respeito e admira��o,
n�o seria muito humano discutir com voc� os meus sentimentos
para com a sua encantadora companheira de viagem.
Ent�o, vou formul�-la de maneira diferente!
A Madame retribui os seus sentimentos, sua aten��o?
N�o digo que em algum momento tenha correspondido a eles.
Recebi a resposta, meu amigo, e agora eu entendo tudo.
Eu quero te dizer uma coisa, se eu fosse mais jovem...
... Ent�o eu responderia, de homem para homem!
Exigiria satisfa��es...
Bem, ent�o...
Vou falar de forma diferente com voc�.
N�s somos irm�os.
Declaro-nos como tal.
Voc� ser� meu aliado, meu filho.
Vamos selar uma alian�a como se estiv�ssemos lutando por algo
em que acreditamos dentro deste mundo.
E neste caso...
... Vamos nos aliar em nome do amor...
... N�s compartilhamos de outra pessoa.
E ent�o...
Est� resolvido.
E agora...
... Levante-se...
... Pegue seu copo...
... E vamos beber.
Voc� est� contente?
Ah, � claro, contentamento n�o � bem o que sinto, Sr. Peeperkorn.
Eu estou...
Estou muito feliz, tanto que n�o sei como expressar.
Mas n�o se surpreenda se eu trope�ar num primeiro momento,
especialmente na presen�a de Clawdia,
que, por ser uma mulher, pode n�o ficar t�o feliz.
Deixe isso para mim.
Eu cuidarei dela.
E agora, meu...
Meu irm�o.
Meu filho.
Por favor, me fa�a este favor e me deixe sozinho.
Me despe�o.
� verdade, est� cada vez mais escuro.
Poderia facilmente imaginar Settembrini de repente entrar
e ligar a luz de modo que a raz�o prevalecesse.
At� amanh�.
Eu espero que voc� fique alguns dias livre de febre
em que poder� cumprir com todas as demandas.
Isso me satisfaz bastante.
Boa noite.
Est� resolvido.
Estricnina...
� extrema- mente eficaz.
E ela atende �s nossas reivindica��es.
Recupera��o com a ajuda de t�xicos.
Os poderes m�gicos deste medi- camento lembram a liberta��o
de uma multid�o de presos de calabou�os subterr�neos
que s�o guiados pela luz dos rel�mpagos.
E agora deixe-me. Devo ficar sozinho.
Espere.
Entre.
Madame Chauchat pede para que des�a imediatamente.
J� irei.
Ele tinha mandado construir de acor- do com suas pr�prias especifica��es.
Foi modelado a partir de uma cabe�a de cobra.
Foi uma lembran�a da costa de Coromandia.
A envergadura dele era tamanha
que o fracasso em face da vida lhe causava
sensa��o de uma cat�strofe c�smica.
Ser� que ele sabia da nossa loucura?
Ele imaginou.
Tenho a permiss�o de lhe dar um �ltimo beijo?
Sim, como um �ltimo adeus.
Bem, meu amigo. Olha o que eu achei na biblioteca.
Acidente, Engenheiro.
Chegou ao ponto de estar jogando cartas?
N�o � bem isso.
Estou apenas atirando as cartas fora, jogando com possibilidades abstratas.
Esta manh�, tirei com facilidade tr�s jogos, um ap�s o outro,
uma vez at� em duas m�os apenas, isso representa um recorde.
Acredita o senhor que hoje de tarde j� fiz trinta e duas tentativas,
sem que nenhuma vez chegasse apenas � metade do baralho?
O Sr. foi informado sobre o estado recente da pol�tica
e o desenvolvimento da situa��o mundial, Giovanni?
A situa��o mundial moment�nea
� muito perigosa e extremamente confusa.
Ningu�m pode dizer com certeza como o seu pa�s vai reagir,
Quero dizer, a grande Alemanha.
O resultado pr�tico da t�o elogiada Revolu��o Francesa
foi o Estado capitalista burgu�s, deveras um belo produto
que alguns esperavam melhorar universalizando essa abomina��o!
O capitalismo mundial, a rep�blica em todo o mundo, cheia de democratas,
s� � regida pelo dinheiro.
� assim que a felicidade e o t�o elogiado progresso
devem ser compreendidos?
Na realidade, � como o enfermo que sempre estava mudando de posi��o
porque nisso esperava encontrar algum al�vio.
O n�o admitido, o desejo secreto e universal para a guerra � um sinal.
A guerra vir�.
E quanto mais cedo melhor.
H� ainda um rem�dio dom�stico bem testado
contra cat�strofes e estrangeiros,
que � a justi�a.
O seu nobre, o seu divino conceito de justi�a.
Deus e a natureza s�o ambos injustos.
A Justi�a nada mais � que uma palavra vazia de ret�rica burguesa.
Ou voc� sabe quan- do uma a��o � justa,
ou voc� mesmo sabe o que � uma a��o?
Uma a��o fora, por exemplo, o assas- s�nio do conselheiro de Estado Kotzebue
pelo estudante Sand.
Essa foi uma a��o.
Mas o que motivou o jovem Sand a fazer isso?
O seu entusiasmo pela justi�a e liberdade?
Foi o fanatismo moral e seu �dio pelo comportamento anti-nacional.
� sempre um erro esclarecer algo a partir de uma a��o
ou legitimar a justi�a por meio da vit�ria.
Uma a��o n�o produz nada
quando h� problemas inte- lectuais a serem resolvidos.
Professor Naphta,
me permita a pergunta: quando o senhor tenciona terminar com esses improp�rios?
Qual a express�o que voc� est� usando para descrever minhas declara��es?
Com sua permiss�o, respeitado professor,
queria dizer que estou resolvido
a impedi-lo de continuar a incomodar este jovem
com seus equ�vocos.
Convido o senhor a ponderar o que diz.
Ponderar? Tal pedido � desnecess�rio.
Estou acostumado a ponderar o que digo.
Minhas palavras foram bem escolhidas porque com elas eu digo que voc�,
com o que voc� diz,
tenta enganar e perturbar a juventude incerta e vacilante.
Sim, voc�, voc� tenta imoralmente seduzi-lo.
� uma inf�mia que palavras s�o insu- ficientes por castig�-lo devidamente.
Por isso, estou resolvido a protestar contra essa atitude.
Inf�mia? Castigo?
Ah, ent�o os cordeiros vir- tuosos se metem a berrar?
Levamos a pol�cia peda- g�gica da civiliza��o
a desembainhar a espada?
Espero que os seus princ�pios sociais
n�o o impe�am de saber o que me deve.
ou ent�o ver-me-ei for�ado a p�r esses princ�pios � prova por meios que...
Ah, j� vejo que...
... isso n�o ser� necess�rio. Eu estou no seu caminho...
... e o senhor est� no meu.
�timo, liquidemos essa pequena diferen�a
num lugar adequado.
Deixe-me dizer mais uma coisa.
Quando, na nossa fun��o de educadores, semeamos uma d�vida mais profunda
do que jamais imaginou o seu modesto esp�rito esclarecido,
sabemos perfeitamente o que estamos fazendo.
Unicamente do ceticismo radical, do caos moral, nasce o absoluto,
o terror sagrado de que carece o nosso tempo.
Isso lhe digo para justi- ficar-me e para instru�-lo.
O senhor ter� not�cias minhas.
Estarei espe- rando, Signore.
Destruidor! C�o raivoso! Devia mat�-lo, miser�vel!
Ele o desafiou.
Ele certamente o fez.
Vai aceitar?
Era uma quest�o de abstra��es, um desacordo intelectual.
O intelectual n�o pode ser pessoal.
Hans, o intelectual pode muito bem ser pessoal.
Ent�o, quem n�o estiver pronto para lutar pelo intelectual e ideal
em seu car�ter completo, com toda a for�a,
e com o pr�prio sangue, n�o � digno da causa.
E o que � mais importante na vida, apesar de tudo,
apesar de toda a intelectualidade, � que se continua a ser um homem.
Exijo pistolas!
E que seu am�vel aluno esteja pre- sente como uma testemunha neutra!
Parecia a Hans Castorp como se um dem�nio houvesse chegado ao poder,
um dem�nio cuja influ- �ncia perigosa e tola
h� muito praticado sob a influ�ncia consider�vel,
desde muito tempo j� se fizera bastan- te sens�vel, mas que, a essa altura,
se arrogava uma autoridade irrestrita, capaz de inspirar
um secreto terror e de su- gerir pensamentos de fuga.
O dem�nio que se chamava "t�dio", era vida sem tempo,
uma vida cheia de preocu- pa��es e sem esperan�a,
a vida que estagnava sob a forma de uma atividade abastardada,
a vida morta.
Voc� deve fazer um som de "dong". "Dong", "dong", "dong"!
"Dong".
Voc� n�o presta aten��o, droga?
Amor e morte, tudo certo. Perfeito!
Mas deixe-me dizer uma coisa, h� coisas que...
Mas n�o se conse- gue de outra maneira...
Todo o meu desejo foi posto em cena.
Meu amor n�o foi considerado nem ao menos uma vez.
Se Madame Chauchat tem uma alma...
Ela � um ser humano com carne e alma.
Sua alma n�o que- ria nada comigo.
E seu corpo tamb�m n�o.
Da� acontece que o meu desejo est� condenado � vergonha,
e meu corpo tem de se retorcer eternamente!
Por que lhe causa horror o meu desejo?
N�o sou um homem?
Posso ser um homem repugnante, mas sou menos homem por isso?
Sou homem no mais alto grau;
juro que ultrapassaria tudo que j� se viu,
se ela me abrisse o pa- ra�so dos seus bra�os!
Teria amado a ela com toda minha paix�o, se tivesse me deixado!
Castorp!
E os meus tr�s surtos de inconsci�ncia?
Um inferno que nem sequer daria con- ta de voc�! E eu queria muito voc�!
N�o faz muita falta.
De sanat�rio em sanat�rio o mesmo sempre acontece.
Quando eu vou sentar em minha cadeira,
quem eu encontro � minha direita?
O Sr. Hirsch, um judeu!
E quem eu encontro � minha esquerda?
O Sr. Wolf, tamb�m um judeu!
Todos judeus!
E aqui, agora que estou aqui, aqui no Sanat�rio Internacional Berghof,
que � dirigido por um ariano,
voc� est� sentado na minha frente, Sr. Sonnenschein,
e fede tanto que eu n�o sou capaz de beber meu leite!
Voc� fede como judeu!
Por que n�o vai para outro lugar?
Repita isso!
Voc� fede!
O que aconteceu? O que h� de errado com ele?
O que h� de errado?
- N�o, n�o, n�o! - Eu vou te dizer uma coisa...
� um ataque. � incontrol�vel.
Voc� n�o tem ideia, mas eu sei. � um ataque do corpo.
O qu�? O que est� dizendo?
O que isso pode ser?
O que aconteceu aqui?
Ou�a, n�s temos que chamar um m�dico!
Doutor Krokowski!
Diretor Behrens!
N�o vou mat�-lo, amico mio. Eu n�o poderia fazer isso.
Vou oferecer-me � sua bala, porque � isso que exige a honra,
mas nem por isso eu vou mat�-lo.
Saia do caminho.
Comece logo!
D� o seu sinal, Castorp.
Te amo, Giovanni.
- Senhores, n�o se apressem... - Sil�ncio!
O sinal, por favor.
O sinal!
Bem, ent�o vamos come�ar sem um sinal.
V� em frente e dispare.
Voc� atirou ao ar de prop�sito!
Eu disparo do jeito que me agrada!
Dispare de novo!
N�o tenho essa inten��o. Agora � sua vez.
Covarde!
Bom dia, senhoras e senhores.
Devo pedir a sua aten��o, por favor.
No que diz respeito � situa��o,
a administra��o do sanat�rio
considera necess�rio pe- dir a todos os pacientes,
com a exce��o dos grave- mente doentes e terminais,
para que deixem o sanat�rio dentro de uma semana.
Pe�o a sua compreens�o em nome da administra��o.
Desculpe...
O que aconteceu? Diga-me o que aconteceu?
Desculpe-me, por favor, o que aconteceu?
Por favor, n�o prestei aten��o! O que aconteceu?
Por favor, me diga, o que aconteceu?
O que h� de errado? O que aconteceu?
O que est� acontecendo? O que aconteceu?
Pelo amor de Deus, o que aconteceu? Algu�m pode me dizer o que aconteceu?
A Guerra foi decla- rada com a R�ssia!
Guerra?
Adeus, Hans Castorp.
Suas possibilidades n�o s�o muitas.
O macabro baile ao qual te arrastaram
durar� ainda v�rios anos nefastos.
N�o queremos apostar muita coisa na tua possibilidade de escapar.
Houve momentos em que viu brotar da morte e da lux�ria carnal...
... um sonho de amor.
Ser� tamb�m que, desta festa universal da morte, surgir� um dia o amor?
Tradu��o e legendas: Alexandre Blankl Batista
makingoff.org
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