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A história de Hans Castorp, que gostaríamos de contar aqui,
aconteceu há muito tempo.
Está, por assim dizer, coberta pelo tempo que passou
Em absoluto, não pode ser narrada senão na forma de um remoto passado.
Esta história é bem mais antiga do que os anos em que ela transcorrera.
Não é propriamente ao tempo que a história deve o seu grau de antiguidade.
Pelo contrário, ela ocorre... ou para evitar qualquer forma de presente,
ela "ocorreu" naquela época, há muito tempo.
Se passou na época de antes da Grande Guerra, cujo deflagrar
marcou o começo de tantas coisas, que ainda mal deixaram de começar.
Com licença.
Sim, o que você quer?
Você pode me emprestar um lápis, por favor?
Sim, se você prometer devolvê-lo.
Vê, é muito simples. Só precisa empurrar pra cima.
Castorp!
Quem te deu autorização para deixar teu lugar?
Davos-Dorf!
Então, querido primo, como foi sua viagem?
Boa, obrigado.
Não me diga que você ainda está doente?
Me olha como se já tivesse rece- bido sua promoção de tenente...
acabando de chegar das manobras militares..
Quem me dera.
- Posso ver o recibo de suas bagagens? - Sim, é só uma mala.
Estou de carruagem.
Vem comigo para casa, não é?
Com você? Quando?
Em três semanas, depois de ter descansado um pouco e
quando deverei começar a trabalhar com o velho Wilms no estaleiro.
Por que você deve? Você não está feliz com isso?
Sim, claro...
Engenheiro é uma bela profissão, mas requer bastante trabalho.
Sim, a melhor profissão mesmo é a de Oficial!
Sim senhor, aprendiz de oficial!
Mas isso só pode ser feito com pulmões saudáveis.
No meu último exame regular, o médico-chefe me disse
que eu provavelmente teria de ficar mais meio ano.
Meio ano?
Você está maluco?
Você já está aqui há seis meses.
A gente não tem tanto tempo!
Ah, sim, tempo.
Você não vai acreditar como eles tratam o tempo das pessoas aqui.
Três semanas são como um dia.
Ele é do Sanatório Schatzalp. Fica um pouco mais acima de nós.
Eles têm de transportar os corpos para baixo sobre trenós no inverno
porque as estradas são intransitáveis.
Os corpos?
Tradução e legendas: Alexandre Blankl Batista
Um filme de Hans W. Geissendörfer
Baseado no romance de Thomas Mann
A MONTANHA MÁGICA
Há pacientes que, quando têm um ataque, abrem a porta para...
que se ouça o quanto estão doentes.
Porque quanto mais uma pessoa é doente, mais estima temos por ela.
Por aqui.
Não! Por favor, não! Eu não quero!
Ainda estou bem! Eu ainda sou saudável!
Por favor, deixem-me! Estou com medo! Não! Por favor, não!
Não! Eu não quero! Não!
Não! Eu não quero! Não!
Não! Eu não quero morrer!
Não! Eu não quero morrer!
É proibido bisbilhotar em outros quartos.
Mocinha, não faça tanto escândalo!
Ali está o gongo.
Você é tão pessimista!
Aquilo que o senhor tocou ontem à noite foi horrível!
Simplesmente horrível!
Pela última vez, eu não vou lhe agradecer!
Mas poderia agradecer!
Você sabe que sou capaz de preparar 28 tipos diferentes de molho de peixe?
Mas meu marido apreciava cada uma deles.
Ele me dizia para escrever as minhas receitas antes que eu viesse pra cá.
Pode-se fazer algo com elas, ou dar alegria a alguém.
Nem toda dona de casa é capaz de fazer 28 molhos para peixe,
28 variedades de molhos, digo 28 diferentes!
A propósito, nesta manhã, fiz meus exames de "retina".
Rotina!
De qualquer forma, esta manhã, fiz meus exames, minha jovem.
Do lado direito acima...
E sobre o lado esquerdo abaixo da axila...
Devagar, devagar!
Para que comer tão rápido a ponto de se engasgar? Devagar!
Amico mio!
Veja, já está melhor.
Ficará bem.
Buongiorno! Senhor, buongiorno! Não, por favor, não se incomodem.
Meu primo Hans Castorp, Sr. Settembrini.
O Sr. Settembrini é um sábio letrado.
Ele escreveu aos jornais ale- mães sobre o elogio fúnebre
de Carducci, vencedor do prêmio Nobel.
Oh, então você é apenas um convidado aqui,
como Odisseu no Reino das Sombras, estou certo?
Posso perguntar como você está se sentindo por aqui?
É tudo ainda muito novo para mim, e eu ainda estou um pouco confuso.
- Confuso? - Sim.
Sim, e eu também não dormi bem,
e o Diretor Behrens imediatamente percebeu que eu estava anêmico.
Bem! Isso é magnífico.
Como tão bem diz na ópera o vosso grande maestro:
"O caçador de pássaros, eu sou. Sempre alegre."
Um tipo dissimulado, esse Radamanto.
Ah, aposto que o Sr. ainda não sabe. Ele é um artista. Ele pinta com óleo.
Também não é proibido, faz isso para se entreter.
Mas devo acrescentar, ele tem tendências melancólicas.
O senhor é um sarcástico!
Sarcástico? Você quer dizer malicioso.
Sr. Castorp, Vou lhe dizer uma coisa.
A malícia é a alma da crítica, entende?
e a crítica significa a origem do progresso e do iluminismo.
Oh, por favor, desculpe-me. Peço desculpas.
Dr. Krokowski!
Este é o seu lugar nesta manhã, não é?
Aqui estou falando sobre civilização, progresso, e iluminismo, também,
e lá está você, de pé atrás de mim "in persona".
- Senhores, com licença, por favor.
Sou capaz de preparar nada menos do que 28 molhos diferentes para peixe...
Um italiano?
Ele está muito doente?
Não consigo ficar calado.
Devo lhe dizer, este Krokowski só tem um pensamento em sua cabeça,
e é um pensamento imundo.
Eu juro.
Bem, eu gostaria de começar com o molho para a carpa azul,
mas talvez seja a escolha errada para começar...
É feita com duas colheres de sopa da melhor farinha
e meia noz moscada.
Mas o que você acha...?
Uma fêmea, naturalmente!
Aquela é Madame Chauchat, uma mulher encantadora.
Francesa?
Não, ela é russa,
mas seu marido talvez seja francês ou de descendência francesa.
Tenho a impressão de já tê-la visto antes.
Aquele que é seu marido?
Não, ele não está aqui. Ele nunca veio aqui.
Não sabemos dele.
Ela deve aprender a fechar a porta com cuidado, sem deixá-la bater.
É uma falta de educação.
Bem, aqui vou eu!
Pare de tocar.
- Por favor, Sra. Brandt. - Inacreditável.
Por favor, por favor! Ajude-me, por favor!
Eu não quero sair! Eu não quero sair daqui!
- Eu estou feliz aqui! - Minha querida Elly.
Você está saudável, e aqui não é lugar para pessoas saudáveis.
Você vai ter uma vida boa lá em baixo.
Agora, seja boazinha e desça até a estação de trem com seu pai,
senão perderão o trem noturno.
- Não, não, não! - Sim, sim, sim.
Não, eu não quero ir! Tire suas mãos de mim!
Eu não quero ir para casa! Tire suas mãos de mim!
Aqui é minha casa!
Aqui está o meu...
Elly.
- Elly, agora, vamos, seja boazinha. - Não, não, não!
Venha, minha querida. Vamos à estação de trem juntos.
Você estará de volta no outono.
Você estará de volta, quem sabe para mais um trimestre.
Depressa! A canção da despedida.
Oh minha terra, minha querida terra,
quando é que voltarei a ver o teu rosto,
Oh minha terra, minha querida terra...
Devo explicar a situação para você. Foi o início de maio.
O lago estava há uns poucos graus acima de zero.
Ela foi tomar banho no lago, tentando contrair alguma doença
para que ela pudesse ficar aqui, você entende?
Mas, infelizmente, sem sucesso.
Ela estava, e permaneceu, bastante saudável.
E como você está fazendo?
Eu presumo que você, como a maioria dos outros aqui,
passou seu primeiro dia, por assim dizer, na posição horizontal.
Você acha este estilo de vida sem graça?
Não estou entediado,
ainda tenho essa sensação de que estive aqui por mais de um dia.
Como se tivesse me tornado mais velho e mais sábio.
Como você tivesse se tornado mais sábio. Bravo!
Posso lhe fazer uma pergunta?
Qual é a sua idade?
- Desculpe-me? - Quero dizer, quantos anos você tem?
Você gostaria de saber quantos anos eu tenho?
Sim! Sim, eu gostaria de saber quantos anos você tem.
24.
Isso significa que eu estou com 24 anos.
Perdão, mas quase que não soube responder sua pergunta.
Diga-me francamente, se acha possível a Sra. Stöhr
saber preparar 28 tipos diferentes de molhos de peixe, como ela disse?
Eu preciso saber se ela disse que podia,
ou se eu apenas imaginei, e ela não chegou a dizê-lo.
24 anos, Signor Castorp?
28.
28 molhos de peixe.
Não molhos em geral, mas molhos para peixe em especial.
Signor Castorp, eu lhe imploro, por favor, controle-se!
e pare de falar neste lixo desmoralizado.
Você está com 24 anos, você disse?
Oh, sim, você quer dizer a minha idade.
Signor Castorp, permita-me dar-lhe uma sugestão.
Como você não se sente confortável aqui, arrume suas malas hoje à noite
e vá embora amanhã no primeiro trem.
Quer dizer que eu deveria partir?
Mas acabei de chegar.
Não...
Mas não, como é que posso julgar depois de um só dia?
- Bom dia. - Olá.
Então, meu caro juiz isento como você está?
Bem obrigado, apenas me adaptando à atmosfera peculiar daqui.
É difícil para mim, mesmo que já seja meu quarto dia.
Você realmente deve ficar durante o inverno,
mas eu ouvi que você quer ficar apenas oito semanas, correto?
- Três. - Oh, três!
Mas isso nem sequer vale a pena tirar o seu chapéu e casaco.
Bem, faça o que achar melhor.
Este é terminal. Ele passou por poucas e boas.
Se esbaldou no oxigênio ontem e hoje, este guloso.
Mas até a hora do almoço já estará "ad penates".
Bem, meu caro Reuter, você dormiu bem?
Bem, sim?
Como seria se acabássemos com mais uma garrafa?
Tchau, estarei de volta em breve.
Não há nada simples sobre o poderoso instinto de amor.
É por sua própria natureza, composto de muitos elementos.
Obstáculos emocionais e instintos corretivos
são atos para nivelar e restringir as perversidades de amor,
resultando assim em um todo sensível.
Meu Deus, Joachim, a vida é bela!
Trata-se de uma luta de castidade contra o amor, mas como ela acaba?
E uma das coisas que a torna tão bonita
é a maneira como as mulheres se vestem de forma sedutora.
Mas que sentido faz quando a mulher está doente por dentro?
Existe algum lugar em seu vestido de rendas para deixar
os homens curiosos sobre o seu corpo?
Seu corpo doente no interior?
Fique quieto!
Um amor reprimido ainda não morreu. Vive!
Eu entendo porque você proibe-se em amar a bonita Marusja.
Absolutamente sensato. Absolutamente.
Deseja a satisfação na escuridão e no segredo mais profundo...
- O que ele está falando? - Mas então o que é essa forma?
Esta máscara suprimida, o amor oculto reaparecerá?
Esta máscara, desta forma, é doença.
Toda doença é apenas amor transformado.
Obrigado, senhoras e senhores.
Obrigado por sua atenção.
Para Hans Castorp, a sua história de amor com Madame Chauchat...
... a expressão "história de amor" era usada por ele, independente de nosso julgamento...
... Para Castorp, o pulsar barulhento de seu peito dava-lhe grande satisfação.
Bastava que Hans Castorp pensasse em Mme. Chauchat...
e o fazia para encontrar o sentimento que lhe explicasse o martelar do coração.
Você não vem para o café?
Bem, o que está errado?
Tenho uma temperatura ligeiramente alta.
O que significa isso? Você se sente febril?
Tenho me sentido febril há bastante tempo, meu amigo,
durante todo o tempo.
Mas agora é uma questão de fato preciso.
Eu medi.
Você mediu? Com o quê?
Com um termômetro, é claro. Está sobre a mesa.
Só está um pouco elevado.
Sim.
Lê 99,5.
Em seguida, ele baixa um pouco. Na verdade foi 99,7.
Direito Vesicular basal.
Grosso.
Muito grossa.
Ruído.
Bem, Ziemssen, está bem.
Tudo está como era de se esperar.
- Quanto tempo você acha que...? - Você vai me incomodar de novo?
Você não pode intimidar os recrutas em volta na condição em que está.
Eu disse que eram seis meses, e seis meses vão ser.
A vida não é tão ruim por aqui. Não somos uma mina de sal da Sibéria.
Assim que é bom, Ziemssen. Terminado com você!
Pode ir.
Sim, Ziemssen.
Ah, sim, é sua vez agora.
Sim.
Você tem um...
... um primo simpático...
... Que em breve esperamos lhe dizer...
... que estará curado naquele ponto.
Ele é apenas um meio-primo, Sr. Diretor.
Agora, não vai renegar seu próprio primo, não é?
- De que lado é o parentesco? - Do lado de minha mãe.
- E sua mãe está bem? - Não. Ela morreu quando eu era jovem.
- De quê? - De um coágulo no sangue, Sr.
- E seu pai? - Ele morreu de pneumonia.
- O meu avô também. - Ele também?
Aqui.
Você ouve isso?
- Parece mais oco lá. - Muito bom.
Deveria se tornar um especialista.
É um som abafado, e sons abafados vêm de infecções antigas.
Significa que esteve doente anteriormente.
E aqui, no canto superior direito, tem uma rugosidade,
que é quase um chocalho,
e, sem dúvida, vem de uma área nova.
Em outras palavras,
sua partida prevista para depois de amanhã
não valerá a pena.
Você estaria de volta aqui muito brevemente.
Vamos bater um raio-X de você.
Você vai gostar de se ver por dentro.
Mas eu já lhe adianto,
caso como o seu não cicatriza de uma hora para outra.
Não, não! Isso é tudo.
Assim como eu havia dito a você, meu amigo.
Bem-vindo, Sr. Castorp! Bem-vindo!
Bastará lembrar da rapidez do tempo,
e de longos dias passando na posição horizontal.
Assim, sempre os dias parecem os mesmos, quase se se repetindo.
Porque a rotina sempre é a mesma.
Não é correto falar de repetições.
O foco deve ser o presente, o existente agora ou na eternidade.
Falar de tédio, em referência à eternidade, seria paradoxal.
E queremos evitar paradoxos,
especialmente em relação a este herói.
Minha querida Madame Clawdia Chauchat...
Entre.
Boa noite, engenheiro.
Comecei a pensar que tivesse partido
quando eu vi o seu assento vazio no refeitório durante o almoço.
Mas agora eu vejo que você está deitado na cama doente.
Mais uma das suas piadas, chamando nossa sala de jantar de refeitório.
Engenheiro, você sabe o que significa "estar sem rumo na vida"?
O Sr. é um escritor.
Deve ser capaz de entender que não há caminho seguro às pessoas normais
que passeiam, dão risadas, ganham dinheiro e enchem suas barrigas.
Quer dizer que você considera a doença uma substituta digna
para a vida ativa normal?
É uma loucura simpatizar com a doença,
porque a doença é muito desumana e humilhante.
Mas a doença torna as pessoas nobres, inteligentes e liberta o homem da rotina.
Uma pessoa doente é nada mais do que um corpo.
Na maioria dos casos, não é melhor do que um cadáver.
Mas aqui todos estão doentes. O Sr. não está realmente doente?
Sim, se olhar atentamente, estou muito doente.
Sim, todo mundo aqui está doente.
O doente merece seriedade e respeito,
assim como fazem com os mortos.
É evidente que o Sr. tenta argumen- tar usando diversos pontos de vista,
mas sem ainda ter um caráter definitivo.
Permita-me ajudá-lo em seus argumentos
e exercer uma influência corretiva?
"Sine Pecunia", entende?
Meu Deus.
Oh, sim Meu Deus!
Por que você sempre olha para mim de maneira tão penetrante?
Você nunca viu uma mulher antes, ou o quê?
Sinto muito.
Abrace isso.
Assim.
Agora não finja que está muito cansado.
Você receberá uma cópia gratuita, Castorp.
Então, você será capaz de projetar os segredos de seu peito na parede
para você mostrar aos seus filhos e netos depois.
Imagine algo mais, se quiser.
Isso mesmo.
Pressione o peito contra isto, com se estivesse cheio de felicidade.
Isso aí!
Respire fundo.
Prenda o ar!
Agora sorria.
Perfeito.
Agora vamos dar uma olhada.
Venha aqui.
Venha até aqui.
Assim.
Aqui vamos nós!
Venha aqui. Fique atrás de mim.
Nossos olhos devem primeiro se adaptar.
Temos que deixar a escuridão limpar nossos olhos para vermos melhor.
Estou com meus olhos fechados, como em uma oração silenciosa.
Abra os olhos!
Agora vamos começar a conjuração!
Você pode vê-lo, meu rapaz?
Posso?
Claro.
Sua respiração está correta. Continue assim.
Olhe para as cavidades aqui.
É aí que vêm as toxinas que devem protegê-lo.
Eu estou olhando para seu coração.
Vá em frente.
Meu Deus, não sei se deveria se autorizar ver tudo isso.
Como o jovem Hans Castorp realmente se sente sobre tudo isto?
Era como se as sete semanas que ele havia comprovadamente,
sem dúvida, gasto com estas pessoas passassem como meros sete dias?
Ou parece-lhe exatamente o oposto, que tenha vivido aqui e agora
muito, muito mais do que ele realmente passara?
Isso foi algo que ele sentiu no sentido mais abrangente,
no sentido em que tinha aprendido durante sua estadia aqui.
Você viu ela? Aquela do vestido azul avassalador?
Ela também é uma pessoa, sem restrição.
Sem auto-controle, rancorosa, tóxica, teimosa, irritante.
Mas essa senhora está doente.
De certo está muito doente. Tem direito de comportar-se assim.
Afinal, aqui não é uma mina de sal da Sibéria.
Ah, não! Não, meu bom engenheiro, você prefere comparações orientais?
Isso é muito compreensível, já que a Ásia engolfa-nos aqui.
Onde quer que olhamos, vemos apenas rostos tártaros.
Eu posso entendê-lo bem. A Ásia paira demais no ar daqui.
Ásia e Europa, dois gigantes lutando pelo controle do mundo.
A Europa sempre foi uma terra de rebelião, grandes críticos,
e de atividade disforme.
Ao passo que a Ásia encarna inflexibilidade e repouso ocioso.
Esta extravagância bárbara com o tempo é o estilo asiático.
Essa pode ser a razão pela qual os filhos do Oriente
sintam-se tão em casa aqui.
Mas você não deve mudar seus hábitos, engenheiro.
Diga-me, você está me ouvindo, engenheiro?
Oh, sim, claro.
O que devo fazer?
Partir.
Partir?
Eu lhe disse isso em sua primeira noite, engenheiro.
Sim, naquela época estava livre para fazê-lo, mas agora...
Ah, sim. Eu sei.
Agora você mantém seu cartão de legitimação em mãos,
prova de sua doença, estou certo?
Sim, o velho apanhador de ratos descobriu uma mancha em seu pulmão.
Quer dizer que após o diagnóstico do Diretor,
você delega a si mesmo aconselhar-me ir para casa?
Bem, sim.
Sim, engenheiro, eu delego a mim aconselhá-lo a ir para casa.
Então você é mais cauteloso comigo do que é com os outros.
Afinal, você, você mesmo, não partiu.
Isso me adoece!
Adoece-me participar desta hor- rível e contínua batalha com você,
senão eu iria responder-lhe
que sou muito mais doente do que é o Sr!
E se eu me disponho a ficar, é porque não quero
me destruir antes de chegar a minha hora!
Eu o faço sob um protesto doloroso de minha consciência
que se submete aos desejos do meu pobre corpo doente!
O que você tem contra o corpo?
Bem, eu...
Sim, eu... Eu respeito e amo o corpo,
assim como eu amo a forma, a beleza, a liberdade e o prazer.
Mas há uma força, um princípio de que é o objeto de meu mais alto
respeito e amor supremo, e esse princípio é a mente.
Diga-me, engenheiro, você sabe sobre o terremoto de Lisboa?
Não, não há nos jornais daqui.
Sim, isso é característica desta instituição, meu querido Giovanni,
mas isso não parece incomodá-lo.
Não estou falando de qualquer evento atual, mas do grande terremoto de 1755.
Portanto...
- Voltaire se rebelou contra ele. - O quê?
Ele se rebelou contra isso? Ele se rebelou contra um terremoto?
Sim, sim, ele se rebelou.
Ele protestou em nome da mente e da razão contra isso,
como vocês dizem, esta ofensa escandalosa da natureza.
E o corpo é a natureza, você entende?
Serei tão corajoso por repreendê-lo como está sendo para sorrir, Sr. Castorp,
e vou dizer porquê.
Porque é servil para aceitar o raciocínio contra a natureza
Sem resistência e defesa!
Desculpe-me.
Por que você não vai atrás de seu amigo?
Sala 86. Debaixo do telhado.
Assim, será capaz de continuar a sua discussão sobre o corpo e a beleza.
Sr. Castorp, você não notou nada nesta noite em especial?
- O quê? - Sobre Madame Chauchat.
Ela vestiu-se apenas para você.
Ela usa um vestido encantador, mesmo não sendo domingo.
- Não percebeu isso ainda? - Eu percebi sim.
Mas também percebi outra coisa, que Madame Chauchat tem marcas
asiáticas acentuadas, sem contar os itens "velha" e "sem graça".
Ela tem, certamente, mais de 30.
Clawdia, mais de 30?
No máximo, ela tem 28.
E quanto ao perfil dela, eu o proíbo de dizer tais coisas.
Clawdia é jovem e doce.
O Diretor Behrens parece encontrar graça e beleza em Mme. Chauchat.
Ela posou de modelo para ele.
Ele a chamou, e ela posou para ele pelo menos umas 20 vezes.
Tenho certeza que sonhará com sua divina Mde. Chauchat todos os dias,
Sra. Engelhart.
Tenha cuidado para a deusa não chegar muito perto de você
em um de seus sonhos!
O que você está fazendo aqui? Você não leu as regras?
- Desculpe, mas lá dentro... - Regras são regras!
Sem desculpas, por favor! Agora fique na cama!
Diga, Diretor Behrens, às vezes, você pinta quadros?
Oh, rapaz!
Desculpe, mas eu ouvi...
Algumas pessoas dizem que você pinta com óleo.
Bem, somos todos seres humanos e temos nossos passatempos.
Então, eu não nego isso.
- Paisagens? - Tal como várias de seu gosto.
Paisagens, natureza morta, animais.
Um sujeito como eu reduz-se a absolutamente nada.
-Mas não faz retratos? - Não, pouco.
Por quê? Você quer que eu me encarregue de um?
- Não, não, mas eu pensei... - Curiosidade, hum? Curiosidade!
Apenas venha comigo, antes que pegue um resfriado aqui fora...
Espere, espere. Eu vou acender a luz para você.
Um momento.
Eu conheço este rosto.
Você reconhece ela?
Sim, esta é...
Essa é a mulher que estava na mesa dos russos...
...parece viva e respirando.
Você já percebeu o jeito que ela anda?
Seu rosto é como o seu andar.
Ela é um tanto furtiva.
Olhe para sua pele!
A pele dela aqui.
É realista, ou pouco expressivo, em sua opinião?
Bastante.
Bastante realista.
Eu não acho que já tenha visto uma pele que fora, assim, tão bem representada.
Acho que quase pode-se sentir a pessoa.
Eu estou contente. Fico feliz que você goste.
A pele humana aqui é uma questão de ciência.
Sim, a ciência, isso é importante.
Eu quero dizer ... Quer dizer, eu acho que é bom se a relação artística
é acompanhada por um segundo, quando você vê as coisas, por assim dizer,
a partir de um ponto de vista diferente.
Por exemplo, de um médico.
Basicamente, estes são todos variações de um mesmo interesse,
de que a atividade artística é simplesmente uma parte de expressão,
se é que posso colocar dessa maneira.
Perdoe-me, peguei esta pintura da parede.
Lá na parede da janela ela não recebe nenhuma luz. Você vai ver.
Eu quero dizer... Com o que exatamente a ciência médica está preocupada?
Não entendo nada disso, mas sua preocu- pação principal é com as pessoas.
E é das profissões humanistas, onde a arte e a ciência estão misturadas,
na medida em que seu tema principal é os seres humanos.
Não seria muito melhor olhar daqui?
Claro, se você acha que ela pode tolerar tanta luz.
Quer uma bebida antes de dormir?
O que você está fazendo agora?
Apenas estou inclinando-a contra a parede.
No momento, é um bom lugar para ela.
Bem, isso é um pequeno instrumento feito para senhores solitários.
Costumo mantê-lo fechado para que ninguém veja isso com maus olhos.
Foi-me dado de presente por uma paciente, uma princesa egípcia.
Espero que você não se ofenda com ele.
Não, não, não me incomoda.
Pode-se até encará-lo a sério ou por um viés cerimonial, se preferir.
Os antigos dizem ter decorado os seus caixões
com coisas como esta.
Para eles, o obsceno e o sagrado estavam interligados.
Bem, ao julgar pela princesa, ela es- tava mais inclinada ao primeiro caso.
Saúde.
Saúde.
O que é o corpo?
O que é a carne?
á gua.
A substância seca é de apenas 25%,
dos quais 20% é a proteína normal,
da qual apenas um pouco de gordura e sal são adicionados.
E a proteína? Do que é feita?
Carbono, hidrogênio, nitrogênio, oxigênio, enxofre e algo mais.
Por exemplo, as moléculas de miosina
tornam-se aderentes à proteína onde os músculos causam "rigor mortis".
Ah, sim, "rigor mortis". Muito bom, sim.
E então vem a autópsia, a anatomia do túmulo.
Então, se alguém estiver interessado na vida,
igualmente deve nutrir interesse pela morte.
Então eu sempre lembro da minha infância,
a minha infância na Rússia, você sabe...
Caros convidados.
Meus caros pacientes.
Hoje, assim como em todos os anos,
estamos aqui para presentear o nosso mestre admirado,
Diretor Behrens.
Este ano nós escolhemos um presente, caro Diretor,
que iremos dá-lo todos juntos.
- Por favor, coloquem a venda. - Vendar-me? Isso é um absurdo!
Posso ficar de costas ou fechar os olhos. Não seria melhor assim?
- Mas, não! - Vamos!
Onde você vai?
E agora, caro doutor, vai ter que ajoelhar.
Muito bem, então!
Agora, coloque a cabeça aqui.
- Sim, sim. - Muito bem.
Voilà , agora ele está cego. Podem começar.
E chegou o inevitável, o que nosso herói de certo não esperava
há algum tempo atrás: Chegara o inverno.
O inverno local, aquele que Hans Castorp temia.
É verdade que ele está alimentando a Mallinckrodt com gordura e mingau
como pura caridade?
Bem, ele decidiu ajudar os casos graves e que estão à beira da morte.
Diretor Behrens e outros estão apoiando esta decisão.
Pena que Madame Chauchat não é uma mórbida.
Então seu primo teria menos problemas com ela,
e poderia alimentá-la com mingau também.
Por favor!
Muitos casos graves acabaram
nesta pista de dança,
tendo hemorragia por uma última vez.
Trilhando seu caminho para a eternidade
Aqui está.
É isso.
Isso é meu.
Minha sepultura.
Estamos nos aproximando de uma das principais atrações da noite.
Dr. Krokowski vai entrar na arena.
Com que trajes, no entanto, ele não revelou para nós.
E agora, senhoras e senhores, Sr. e Sra. Wehsaal Magnus,
Chegam diretamente dos túmulos do cemitério Davos.
Você estava dizendo algo sobre Lilith antes.
Qual Lilith você diz?
Aquela que se casou duas vezes?
Lilith, personagem de uma lenda hebraica.
Esta Lilith tornou-se um fantasma e assombrava jovens à noite.
E sabe por quê?
Porque era bonita, cabelo cheio e comprido, Giovanni.
Que nojento, um espectro com o cabelo bonito.
Tu simplesmente não toleras coisas como esta, não é?
Por isso vens aqui e tenta reacender as luzes, por assim dizer,
e assim podes reencaminhar os jovens no caminho certo.
Peço que, por favor, Engenheiro, seja formal.
Eu não lhe trato com informalidade.
Não pense que pode fazer isso!
É Carnaval!
É uma prática comum em uma noite como esta.
Vou tratá-lo informalmente,
apesar de ter de superar minha própria resistência.
Mas vou fazer isso com todo o meu coração.
Com todo seu coração?
Nós estivemos aqui juntos por tanto tempo.
Sete meses, se parar para contar, e eu acho que é hora de agradecer.
Obrigado por ter sido tão amável cuidando de mim
durante os últimos sete meses.
Esvaziarei meu copo em homenagem a teus esforços pedagógicos.
Engenheiro!
Engenheiro!
Meu bom Engenheiro, o que deu em você?
Isso soa como palavras de despedida.
Não, por que deveria ser despedida?
Hans!
Ah, Sra. Engelhart.
Eu estava procurando por você.
Você perderá o ponche.
Venha.
Então, Senhoras e Senhores, já que insistem, aqui vai uma paródia.
Isso não vai funcionar. Não é um lápis adequado.
É muito curto. Isso não é lápis!
Alguém tem um lápis?
Um lápis?
Um lápis? Um lápis?
Você tem um lápis?
Um lápis?
Eu preciso de um lápis!
Um lápis! Um lápis! Você tem um lápis?
Joachim, um lápis! Um lápis!
- Um lápis! Eu tenho que desenhar! - Engenheiro!
Um lápis? Um lápis?
Engenheiro! Um pouco de razão! Engenheiro!
Eu preciso de um lápis! Eu tenho que desenhar!
Engenheiro!
Este rapaz é louco!
O que você está procurando?
Por favor...
Por favor, pode me emprestar um lápis?
Vou verificar.
Talvez haja um na minha bolsa.
Voilà !
Certifique-se de devolvê-lo para mim.
Parece uma eternidade desde que estamos sentados aqui.
É um sonho que eu conheço bem, por tê-lo sonhado há muito tempo.
Sim, eternamente sentado aqui contigo, como estou agora.
Palavras bonitas.
Mas, diga, não teria sido mais fácil ter sonhado esse sonho antes?
A eternidade é como desenhar um leitão
com a cabeça voltada para longe e com os olhos fechados.
Parece bem à vontade na eternidade, pelo menos é o que eu acho.
Mas isso não vai durar muito, porque já estou partindo.
Você está curada, então?
Não.
Em razão de minha condição não estar melhorando,
Behrens acha que uma pequena mudança de ar me faria bem.
- Você vai voltar? - Talvez.
Eu tenho a liberdade de escolher para onde ir.
Eu amo a liberdade acima de tudo.
Ela foi tirada de mim temporaria- mente através de meu casamento,
mas minha doença a devolveu para mim.
Eu posso muito bem voltar.
Mas provavelmente você estará longe daqui muito antes disso.
Então você sabe o grau de minha doença?
Sim e não. Só sei o que as pessoas dizem.
Ouvi falar de um pequeno ponto úmido lá dentro, bem aqui,
e um pouco de febre.
100,2!
- Bem... - Essa febre!
Ah, você acha que estou aqui por prazer!
Não.
Não sou deste tipo.
O que você acha de mim?
Convencional, vindo de boa família, um aluno dócil aos seus professores.
Eu sou o oposto de você.
Virtude me aborrece.
Prefiro procurar a moral no pecado, no perigo,
ou em qualquer coisa que possa me prejudicar, ou me destruir.
Sim, parece-me que há mais moral na perdição e na ruína de si
do que tentar salvar a si mesmo.
Sei que desaprova o que eu digo,
até porque em breve voltará à planície,
a fim de ajudar a sua pátria a se tornar mais poderosa
e aumentar a sua glória.
Voilà. Lá terá a sua própria fotografia de nós dois,
um retrato instantâneo, tirado sem uma câmera.
Faltam alguns detalhes para confirmar o que Behrens encontrou.
Ah, os médicos sempre encontram o que eles querem encontrar.
Não, Clawdia.
A febre em meu corpo, o pulso forte do meu coração exausto,
a mudança nas glândulas linfáticas, não é senão o meu amor por ti.
Ele tomou conta de mim no instante em que a vi,
o amor que eu tinha antes de te conhecer.
E é óbvio para mim agora que é este amor que me trouxe até aqui.
Que loucura.
Meu amor por ti ficou dentro de mim por muitos anos.
Eu já te conhecia por uma eternidade,
tu e tua beleza.
Teus olhos oblíquos, tua boca, tua voz.
E foi a partir de então, que Behrens encontrou no meu pulmão,
o local onde prova que eu estava doente.
O carnaval acabou.
Você sabe as consequências disso, monsieur.
Eu te amo.
Eu sempre te amei.
Porque és o "tu" de minha vida,
meu sonho, minha necessidade, meu desejo eterno.
Meu pequeno burguês.
Meu pequeno burguês com a pequena mancha úmida.
É verdade que você me ama tanto?
O corpo, o amor, a morte, são só uma face da mesma coisa.
O corpo é doença e depravação. É o que produz a morte.
Amor e morte são a fonte de sua magia cruel.
O Amor é mística, nobreza, pureza e eternidade.
Ah, arrebatadora beleza orgânica,
não feita de óleos ou de pedra, mas de matéria viva e corruptível,
completa do febril segredo da vida e da decadência!
Considere a simetria maravilhosa da estrutura humana,
os ombros, os quadris, os seios florescendo de cada lado,
as costelas dispostas em pares,
o umbigo rodeado da barriga macia,
e a escuridão pubiana entre as coxas!
Veja as omoplatas mexerem sob a pele sedosa das costas,
e a coluna descendo na dobra exuberante das nádegas,
a grande rede de veias e nervos ramificando-se para fora,
e a forma como a estrutura dos braços correspondem às pernas.
Oh, o doce da superfície interna do cotovelo e a cavidade do joelho,
com sua abundância de delícias orgânicas sob a carne estofada!
Que festival imenso de lugares para acariciar!
Bom Deus, deixe-me cheirar o odor da pele por entre as pernas,
sob o qual a cápsula segmentada secreta seu óleo escorregadio!
Deixe-me tocar devotamente sua artéria femoral pulsante
onde emerge no superior de sua coxa e depois divide-se mais
duas vezes nas artérias da tíbia!
Deixe-me beber na exalação de seus poros que escorre abaixo,
água e proteína da imagem humana, destinada a morrer!
Deixe-me morrer...
Meus lábios nos seus!
Por favor, por favor, me beije!
Você é realmente um pretendente galante,
que sabe como conquistar de uma forma profunda, à maneira alemã.
Adeus, meu príncipe de Carnaval!
Não se esqueça de devolver o meu lápis.
Você já está curado, Sr. Settembrini?
Não, minha sina é a vida. Quer dizer, tenho que ficar aqui para sempre.
Sei disso há tempos.
Ainda posso envelhecer um pouco, mas infelizmente só se ficar aqui.
Mas então você tem que ficar.
É claro que eu vou ficar aqui.
Mas, infelizmente, minha situação é precária
não permite ostentar o luxo por muitos anos.
Bem, essa é a verdade.
Então, estarei hospedado com Lukacek, o alfaiate, na aldeia.
Por favor, venha me visitar alguma hora.
Para você
Causa da morte: hemorragia final devido à insuficiência cardíaca.
Hora da morte: 06:45h.
O tempo ativa o passar da hora.
Desde aquela noite de Carnaval
quando Hans Castorp pedira empres- tado um lápis da Sra. Chauchat,
nove semanas se passaram.
Três vezes mais do que Hans Castorp originalmente queria ficar aqui em cima.
A única coisa que o jovem singelo tinha recuperado
de seu tempo de mais profunda aventura, no entanto,
tinha sido a possibilidade que se aproximava da Sra. Chauchat
retornar para mais uma estadia.
Isso não significa nada. Não se preocupe, Pedro.
Só coma, beba e fique bem até voltarmos.
E nós cuidaremos de nós mesmas, também, e ficar longe da tristeza.
Deus trará o outono antes de percebermos,
e então nós duas já estaremos de volta.
Vamos.
Adeus.
Bom dia, senhoras e senhores.
Espero que vocês estejam gostando da comida.
Bom dia.
Por que não pega um pouco de molho? Assim, a comida fica melhor.
Você deve cuidar melhor de seu primo.
Ele tornou-se tão inacessível durante as últimas semanas
desde que Mme. Chauchat partiu.
Olá, Sr. Settembrini!
Eu não tive sequer uma chance de dizer adeus
quando o Sr. saiu no outro dia.
Ah, Sr. engenheiro.
Em sua caminhada desportiva, está atravessando o prado.
Diria que é uma visão encantadora.
Só posso aconselhá-lo a manter-se ativo.
Desculpe-me, deixe-me lhe apresentar o Sr. Naphta... Giovanni Castorp!
- Ele é um engenheiro... - Eu era técnico na planície.
E você quer ser de novo um técnico o mais cedo possível
e trabalhar o máximo que puder, certo?
Desculpe-me: Joachino Ziemssen, uma saudosa esperança militar prussiana
e um espírito refugiado na montanha
desde seu primeiro dia aqui.
Está redondamente enganado se acha que as futuras revoluções
terminarão em liberdade.
Nos últimos 500 anos, o princípio da liberdade se cumpriu,
mas também tornou-se antiquado.
Diria que uma pedagogia que se coloca como liberal e humanista
está retrocedendo fortemente.
Todos os grandes educadores sempre souberam
que só pode haver uma verdade central em qualquer pedagogia,
e que é a absoluta auto- ridade, uma ligação férrea
de disciplina e sacrifício,
renúncia ao ego, e a coerção da personalidade.
Em última análise, desconhece e não ama à juventude quem acha que ela...
... sente prazer diante da liberdade, das escolhas,
e na abundância de possibilidades.
Seu mais profundo desejo é obedecer.
O segredo e a existência da nossa era não são...
... a libertação e o desenvolvimento do eu.
O que ela necessita,
o que deseja, o que criará...
... é o terror.
O agente deste terror serão as pessoas que criam a teoria social
cujos princípios e objetivos coincidem
exatamente com aqueles do Estado cristão de Deus.
Os padres da Igreja qualificavam o "meu" e o "teu" como palavras funestas
e chamavam a propriedade privada como usurpação e roubo.
Eles aprenderam que a lei da propriedade privada
só levou à ganância e à injustiça.
Desprezaram o princípio capitalista como um sedutor à desumanidade.
Hoje o proletariado do mundo se opõe à podridão burguesa-capitalista...
... decadente com a huma- nidade da Cidade de Deus.
O proletariado retomou a palavra dos padres.
Sua incumbência é espalhar o terror, fazendo com que o mundo se salve
e objetive a redenção,
uma sociedade sem estados e classes.
Noite de verão.
Noite de verão.
Essa pintura foi um presente de um dos meus alunos.
Isso não é muito bom.
Eu gosto mesmo assim.
Eles estão comemorando a primeira noite de verão,
que é realmente o início do outono.
Por que eles estão tão alegres?
Porque estão agora se voltando para as trevas?
Eu sei porquê.
O ponto da viragem chegou.
O ponto de inflexão irreversível.
Noite de verão.
O ponto alto de alegria e melancolia.
É melancolia alegre.
Agem assim por puro desespero, se me permite essa expressão,
em homenagem ao círculo falaz e à eternidade...
... sem rumo duradouro, na qual tudo se repete.
Não há rumo que persista, e a eternidade não é uma linha reta,
mas um carrossel... carrossel... carrossel...
Engenheiro, chega, silêncio!
Instrua-se, mas deixe de externar suas opiniões!
Eu ficaria feliz Vê-lo nova- mente em breve, Sr. Castorp.
Não vou permitir que se esquive enquanto não professe, clara e inequivocamente,
ser partidário da mais negra das reações, prof. Naphta.
O primeiro passo em direção à verdadeira liberdade e
humanidade seria abandonar o medo covarde da ideia de reação.
Ah, isso é o suficiente! Vamos, meu bom engenheiro!
- Obrigado pelo delicioso bolo. - Sr. Castorp.
Vamos.
Vamos, meu bom engenheiro.
Venha, venha rápido.
Cuidado, não bata a sua cabeça!
Por favor, venha, meu bom engenheiro.
Gostaria de avisá-lo, Engenheiro.
Avisar-me sobre o quê?
Sobre a pessoa que acabamos de travar uma conversa.
Você sabia que este homem é um jesuíta?
O quê?
- Este homem é um jesuíta? - Sim, você adivinhou.
Um judeu convertido ao catolicismo, acredite em mim.
Ele é um irmão da Ordem dos Jesuítas, não atuante, porque ele está doente.
Realmente está tão doente quanto eu. Mas ele é um reacionário perigoso.
Eu vejo, eu vejo.
No entanto, assim como Naphta, Você está tentando me atrair
para uma forma de pensa- mento que mais lhe convém.
Tudo em minhas opiniões tem conteúdo político que corrompe o caráter.
Ah, deve haver alguns tolos em sua companhia alegando isso,
mas em tudo há política, mesmo no problema social.
A convivência com os vizinhos é a política.
Tudo é política!
Caro amigo, em um futuro próximo,
nós seremos requisitados para tomar decisões sobre o futuro da Europa.
O Sr. e todos os outros têm de tomar essas decisões,
caso contrário, seu primo, com seus impulsos militares,
passará na frente, diante do silêncio do Sr.,
para resolver os problemas pelas armas.
Vesicular.
Bem, Ziemssen, mantenha seu queixo para cima.
Pois então, ânimo! Nem tudo corre exatamente como
exige o manual de fisiologia.
- Outros cinco ou seis meses. - Behrens Diretor, gostaria...
Se você fizer o seu dever aqui
por mais meio ano, em seguida, sua carreira será refeita.
Você poderá tomar Constantinopla.
Você estará mais robusto para rebentar o regimento prussiano.
Diretor Behrens, gostaria de relatar que decidi partir.
Você sabe que é a deserção do dever?
Não, não é assim que eu vejo, Diretor Behrens.
Voltarei ao meu regimento. Estive aqui por um ano e meio.
Não posso esperar mais.
Tenho que voltar lá para baixo.
Sabe que o risco é seu?
Sim Diretor Behrens.
Bem, Ziemssen.
Vá em frente, vá embora. Deus esteja com você.
Você está tomando o controle, e a responsabilidade já não é minha
quando você assumir.
O Homem é senhor do seu destino. Você embarca em seu próprio risco.
Eu lavo minhas mãos.
Mas sua profissão se exerce ao ar livre.
É perfeitamente possível que se dê bem com ela e consiga triunfar.
Sim, Diretor Behrens.
Bem, e quanto a você, o jovem paisano?
Eu suponho que você quer ir junto?
Eu prefiro que isso dependa da sua aprovação, Diretor.
Minha aprovação? Bem.
Você pode ir.
Por quê?
Estou curado?
Sim, você está curado.
Sua temperatura, obviamente, nada teve a ver com isso.
Você pode ir.
Mas, Diretor Behrens, não está realmente falando sério, não é?
Não é sério? Por quê?
O que faria você pensar assim?
Que tipo de pessoa você acha que eu sou?
Acha que sou o proprietário de um bordel?
Não admito isso!
Não tenho nada aqui! Sou apenas empregado! Eu sou um médico!
Sou só um médico, você entende?
Eu não sou cafetão de ninguém.
Se você pretende esperar aqui o retorno
da sua rastejante amante russa, faça-o na aldeia.
Não sou nenhum Signor Amoroso da via Toledo, na bela Nápoles.
Eu sirvo a humanidade sofredora.
E se vocês tiverem uma opinião diferente de mim,
podem ir para o inferno, às favas, ou para os cães,
façam as suas escolhas!
Bon voyage!
Bem, superiores e seus ataques de raiva.
A única coisa a fazer é manter a linha
e aguentá-los.
- Aqui foi onde eu desci. - Sim, bem aqui.
Você está finalmente deixando-me aqui, do ponto onde vim visitá-lo.
Assegure-se de fazer um fiel juramento de lealdade.
Eu pretendo.
Dê lembranças para todos.
Hans!
Hans, venha logo.
Estar perdido em uma tempestade de neve é como estar doente.
Nos casos em que a doença embaralha a noção de tempo.
Perde-se a referência do espaço também,
mas nada comparado à perda da noção de tempo.
Será que ali pode-se falar de "ontem"...
em vez de há "um ano atrás"?
Ou se dizer "amanhã" em vez de "próximo ano"?
Aqui se pode falar sem dúvida de "confusão e perversão"...
... e ter motivo para ficar muito preocupado.
Não está ruim.
E agora o que fazer?
Descer aqui e depois seguindo em frente contra o vento.
Mas é preciso que aconteça alguma coisa.
Não posso ficar aqui e esperar que o Sr. Settembrini, com o seu realejo,
venha me resgatar.
Está falando sozinho, Hans Castorp.
Acho que você está um pouco confuso e fora de direção.
Mal...
Muito mal.
É como a experiência de alguém perdido numa tempestade de neve na montanha
que não encontra seu caminho de casa.
Quem ouve falar disso...
imagina que é horroroso,
mas esquece que a doença golpeia sua vítima
com o fim de adaptá-la a si própria.
Há diminuições de sensibilidade, narcoses providenciais,
medidas da natureza para dar-nos alívio.
São bem intencionadas para quem não está destinado a regressar;
mas prejudicam e devem ser combatidas, enquanto se tem esperança de regresso.
Não tenho intenção de me deixar enter- rar aqui por essa cristalometria estúpida.
Ah, maldita, maldita brancura!
Que maldição.
Essa é realmente a mesma cabana que eu passei.
Apenas quatro e meia.
Não passou muito tempo desde que começou a tempestade.
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