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(TurboScribe tarafından transkribe edilmiştir. Bu mesajı kaldırmak için Sınırsıza Yükselt.) Nasci Hermínia, lá em Guaxindiba, litoral norte fluminense.
Meu pai, seu José, era pescador.
Sempre que ele saía para o mar, ele
me fazia um carinho e me prometia um
presente, se a pescaria fosse boa.
Eu lembro daquela tarde como se fosse hoje.
Papai estava tão bonito, forte, confiante.
Aprendi muito cedo que a vida, assim como
o mar, pode trazer, mas pode levar.
Depois da morte do meu pai, eu e
minha mãe ficamos sem nada.
Mamãe, então, começou a vender camarão que ela
comprava por um precinho especial dos pescadores da
área, sensibilizados pelo trágico naufrágio.
Com muito esforço e as mãos calejadas pelos
milhares de camarões que descascou ao longo dos
anos, minha mãe conseguiu me criar com alguma
dignidade.
Eu me tornei uma jovem atraente.
Praticamente não tinha nenhuma amiga, mas vivia rodeada
pelos garotos.
Eu até deixava que um ou outro me
beijasse, mas nada além de umas caricestinhas.
Até que um dia eu conheci o Pedrinho.
O Pedrinho tinha acabado de chegar em Guaxindiba.
O pai dele era um marinheiro que cuidava
da lancha do seu Alberto, um ricaço.
Não demorou nada e a gente já estava
namorando.
Minha mãe, dona Aparecida, católica, beata, fervorosa, não
podia saber de nada.
Amém.
Aí, o doutor Alberto foi embora agora mesmo.
Sobrou muita bebida lá no barco.
Vamos lá?
Você não disse que você queria conhecer?
Você está louco, Pedrinho?
E seu pai?
E minha mãe?
Champanhe de primeira.
Saúde.
Bruta, eu gosto demais de você.
Eu também nunca tinha gostado tanto de alguém
quanto eu gosto de você, Pedrinho.
E foi lá, na cabine da lancha do
doutor Alberto, que eu perdi minha virgindade.
Ai!
Um belo dia, assim do nada, me aparece
seu Herculano.
Era um velho cliente da minha mãe.
Comerciante rico, lá em Campos.
Minha nossa, o senhor de novo por essas
bandas.
É mesmo, dona Aparecida, faz muitos anos que
não nos vemos.
Ah, é verdade, seu Herculano.
Hermínia, lembra do seu Herculano?
Acho que o senhor costumava vir aqui.
Meu Deus, não estou acreditando.
Essa é a sua menina?
Meu Deus, mas virou uma rapariga tão bonita.
Obrigada.
A partir desse dia, o velhote começou a
vir toda sexta-feira.
Comprava três quilos de camarão graúdo, jogava conversa
fora com mamãe, me comia com os olhos
e deixava uma bela gorjeta, é claro.
Naquele verão, quem passou por lá foi o
Otávio.
O gorducho punheteiro, filho do doutor Alberto, dono
da lancha.
Sei lá, não acho isso certo.
Porra, Hermínia, o cara tem muita grana.
Diz que pagava 500 cruzeiros.
O senhor nunca fez isso antes, Pedrinho.
Que então, porra?
Ia só uma olhadinha, nada demais.
Otávio, essa aqui é a Hermínia.
Oi.
Oi.
Falei que ela era uma máquina, né?
Trouxe a grana?
Trouxe.
Ó, vou fumar um cigarro lá atrás, cinco
minutos.
Aí é tempo de você ver ela pelada
e incrementar as suas punhetas.
Você nunca viu mulher pela lave?
Não, na minha frente, não.
Quer ver?
Aham.
Você tem mais dinheiro?
Tenho.
Quero.
Foi uma época tão feliz da minha juventude.
Talvez a última.
Eu, Pedrinho, a gente sonhava um dia sair
de Guaxindiba, sair navegando pelo mundo, só nós
dois.
Mas como tudo na minha vida, o que
é bom dura pouco.
Ei, o que aconteceu?
Que cara é essa?
Hermínia, eu vou embora.
Como assim?
Doutor Alberto pegou meu pai bêbado de novo
e mandou ele embora.
Doutor Alberto?
É.
Quem é Doutor Alberto?
Doutor Alberto.
Vai tomar no cu, Doutor Alberto.
Olha só, eu te prometo.
Eu te prometo que eu vou voltar pra
te levar.
Você vai me ver chegando aqui num veleiro
muito maior do que o do filho da
puta do Doutor Alberto.
E eu esperei.
Esperei, esperei.
Só que esse dia nunca chegou.
E eu percebi que se eu não quisesse
passar o resto da vida vendendo camarão na
beira da estrada que nem dona parecida, eu
precisava era de um plano pra sair de
vez de Guaxindiba.
E atenção, o estado de saúde do Papa
João Paulo II continua gravíssimo.
O terrorista turco Mohamed Ali Agha, que alvejou
o santo mortífice, está nesse momento sob interrogatório
das autoridades italianas.
Ai, meu Deus.
Você cuida de tudo, né, minha filha?
Mas a senhora vai demorar?
Bom, a vigília só vai terminar quando o
Papa se recuperar.
Nós vamos rezar a noite inteira pra ele.
Você também devia rezar.
Fica bem.
Tá, tá daqui a pouco, mãe.
Olá, Hermínia.
Oi.
Cadê a sua mãe?
Ih, seu Herculano, ela saiu agora.
Foi na igreja, na vigília em prol da
saúde do Papa.
E ela vai demorar, hein?
Que pena.
Logo hoje que eu ia convidar vocês duas
pra conhecer a minha casa em Guaxindiba.
Que frio.
Vem cá, menina.
Ai, que delícia de piscina.
Gostaste?
Muito.
Ah, então.
Sagrado Coração de Jesus, Sagrado Coração de Maria,
tem de verdade da Vossa Santidade o Papa.
Sagrado Coração de Jesus, Sagrado Coração de Maria,
tem de verdade de saúde, saúde, saúde.
Seu Herculano, eu não aguento mais viver em
Guaxindiba.
Vê se o senhor concorda comigo.
Que futuro uma moça como eu tem aqui?
Bem, sou obrigado a concordar com a menina.
Queria ir pra campus estudar.
Poder ajudar de verdade a minha mãe.
E o que a menina pretende estudar?
Quero ser secretária.
A senhora está a fazer o melhor para
a menina, Dona Aparecida.
Em campus ela vai ter mais oportunidade de
subir na vida.
Isto aqui é pra senhora contratar uma moça
para ajudá-la na baraca.
Ah, seu Herculano.
O senhor é um anjo que apareceu em
nossas vidas.
Eu não sei nem como agradecer.
Ah, Dona Aparecida.
É um prazer para mim poder contribuir com
a formação, com o futuro de Irvinia.
Pode deixar, não se preocupe.
Vou cuidar da miúda como se fosse minha
filha.
Vamos?
Vamos.
Te amo, mãe.
Está tudo armado, limpinho.
Então, gostaste?
Muito.
Agora vou ver a família, mas vou deixar
cá um dinheirinho para que possas comprar umas
coisinhas para si.
Amanhã à tarde eu volto e vamos ver
o curso.
Está bem?
Está.
Obrigada.
Ah, que isso.
Bom.
Boa tarde.
Bem-vindos à primeira aula da turma de
5 e meia do curso de datilografia Campus
dos Goitakasses.
Datilografia vem do grego.
Datilos, dedo.
Grafia, escrita.
Inventada em meados do século XIX, a máquina
de escrever foi revolucionária para as mulheres, pois
inseriu as mulheres no mercado de trabalho.
Vamos começar.
O dedo mindinho na letra A.
E vamos seguir os dedos.
A, S, D, F, G, espaço com dedão.
C, Cedilha, L, K, J, H.
Espaço.
A, S, D, F, G, espaço.
C, Cedilha, L, K, J, H.
Espaço.
A, S, D, F, G, espaço.
C, Cedilha, L, K, J, H.
Espaço.
As duas mãos, teclado.
A, S, D, F, G, com esse dedo.
Oh, seu
Herculano, essa TV não dá.
É, porra.
Juventude.
Naquele tempo eu acreditava que ia conseguir dos
homens tudo o que eu quiser.
É, sim.
Sabia que ia gostar, menina.
Ai, meu Deus.
Essa sua corninha é uma delícia, menina.
Ai, menina.
Ai, meu Deus.
Ai, que delícia.
Ai, menina.
Estava a vir.
Estava a vir.
Estava a vir, menina.
Estava a vir.
Estava a vir.
Ai.
Ai.
Ai.
Ai.
Ai.
Ai.
Ai.
Ai.
Que isso, de novo.
Vem.
Vem, caralho.
Vem pra mim.
Vem.
Ai, ai, ai.
Que isso.
Ai.
Ai.
Ai.
Ai.
Entre um professor fudido e um velho rico
porra, não era difícil decidir quem era o
pai.
Seu Herculano.
Diga, menina.
Eu tenho uma coisa para dizer para o
senhor.
Fale.
Eu acho que eu estou grávida.
Como é que é?
Não te protejo, rapariga!
Eu achei que o senhor fosse gostar.
Gostar?
Puta que os pariu!
Eu sou um casado, caralho!
Ô Arruda, eu preciso que tu me ajudes.
É urgência, é urgentíssima!
Eu vou te mandar aí uma rapariga.
Caso de vida ou morte, percebes?
Vou te mandar ela hoje mesmo.
Está bem?
Esse médico aí é no Rio?
É!
Por quê?
Algum problema com isso agora?
Não querias tanto conhecer a cidade maravilhosa?
Está aí!
Doutora Arruda, amigo de longa data de seu
Herculano.
Ele era um ginecologista renomado no Rio de
Janeiro e tinha por atividade extra-oficial o
auxílio profissional a mulheres em estado indesejado.
Calma!
Alô!
Herculano?
Arruda, Herculano.
Então, fizeste o negócio?
A situação não está boa, não.
A gravidez está em estado avançado.
Não temos condição nenhuma de realizar o procedimento.
O que estás a me dizer, Arruda?
Como é a parada?
Queres que procure outro médico?
É isso?
Herculano, ela me disse que as regras sempre
foram irregulares e ela é miudinha, assim ninguém
nota.
E qual é a solução, me diz?
A solução, Herculano, é ela ter a criança.
Não!
Puta que o pariu!
Não pode!
Não pode!
Herculano!
Herculano, o que é que é?
O que é que é, Herculano?
Herculano, por favor!
Com a morte do velho, eu não podia
voltar para campo sem ter onde cair morta,
dizendo que o filho que eu tinha na
barriga era do fodido do Vitor.
Foi aí que doutora Arruda me fez uma
proposta.
Doutora Arruda, eu não sei o que fazer.
Emeliana, eu estou acostumado a lidar com a
alma feminina nos momentos mais difíceis.
Olha, a dona Terezinha, ela vai embora daqui,
ela vai se aposentar.
Fica aqui, fica aqui trabalhando comigo de atendente
até o bebê nascer, meu amor.
Hein?
Hein?
Obrigada, até logo.
E foi assim que a mais prestigiada clínica
de aborto clandestina do Rio de Janeiro ganhou
uma recepcionista grávida.
É pra fazer procedimento?
É um procedimento cirúrgico.
Tá.
Querido Vitor, está com saudade de sua aluna
predileta?
Tive que vir para o Rio de Janeiro
resolver uns problemas, mas já vou voltar.
Espero que possamos continuar com nossas aulas particulares.
Quem é Hermínia, Vitor?
Ô, amor, Hermínia é uma aluna que teve
um problema no diploma e ela será que
resolveu...
Quem é essa tal de Hermínia?
A gente vai cuidar bem dela.
Tem certeza que não quer ficar no Rio?
Tenho.
Eu quero terminar meu curso de datilografia.
Um dia eu volto.
Obrigada por tudo.
Você foi como um pai pra mim.
Só um minutinho da atenção, por favor.
Eu gostei muito do trabalho de todos vocês.
E agora que estamos chegando ao final do
curso, na próxima aula vamos aprimorar a agilidade.
Até quinta-feira.
Muito obrigado.
Oi.
Voltei.
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