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Ida querida.
O que estamos fazendo neste depósito de lixo?
Venha.
Queria que se impregnasse desses sons,
dessa sinfonia mecânica.
Ouça!
Estou ouvindo, estou ouvindo.
E recomeça.
Fica repetindo.
Hipnotiza.
Está ouvindo?
Torna-se quase... doloroso.
É, doloroso. A palavra é essa.
E essa música...
é a marcha do tempo passando.
Isso é música?
Não.
Não. Não assim.
Ravel!
Não posso...
- Vou me atrasar, mamãe. - Não.
Pronto. Perfeito. Você está pronto, Maurice.
Você acha?
Todo mundo vai perceber o que eu sempre soube:
sua excelência.
Sua vida vai mudar.
Estamos quase prontos.
Sr. Ravel.
Eliminados na primeira fase:
Alavoine,
Brizeux,
Longeat,
Ravel...
Você podia ter morrido.
É só um prêmio, querido.
Não ligo para o prêmio deles.
É que ouvi uma melodia oriental vindo do pátio.
Devia ser o vento nas telhas.
E me aproximei para ouvir melhor.
Foi idiota.
Eu me esqueci que estava no primeiro andar.
Eu juro.
Não queria morrer, mamãe.
Um dia, aqueles imbecis do júri vão se arrepender.
Maurice!
- O champanhe não está bom? - Está sim.
Lembra-se de quando nos conhecemos?
Eu era desajeitado e desastrado!
Você foi o único a se aproximar de mim e me estender a mão.
Nunca lamentei isso.
Só lamento você não ter entrado para a família.
- Boa noite. - Boa noite.
Você teria feito minha irmã feliz.
Se tem algo que não falta a ela, são maridos.
Sra. Natanson, Sra. Edwards, Sra. Sert...
Sra. Sert?
Não por muito tempo. José Maria levou a amante para casa.
Misia se faz de orgulhosa,
mas a situação não pode durar.
Ela é uma mulher extraordinária,
presa numa vida ordinária.
E, mesmo assim, queremos salvá-la de si mesma.
E você ainda se interessa por ela.
Pena que já seja casado com a música.
Talvez eu devesse trair a música de vez em quando.
É. Deveria.
Cadê a Rubinstein?
Não a viu, alta e pintada lá em cima?
Ela o aguarda. E não para de falar nisso.
Maurice Ravel, estava procurando você!
Está se escondendo atrás dessa coluna?
A senhora vive tão rodeada que é impossível chegar perto.
Você tem um ar tão...
Um ar tão estupendamente elegante.
O tempo passa e você continua eternamente jovem.
É a senhora que é eterna.
Ah, o gentil bajulador maroto!
Um brinde à nossa futura colaboração.
É mesmo?
Exatamente. Você vai compor a música do meu próximo balé.
Mas olhe só! Está parecendo um filhote caído do ninho.
Não se preocupe. Estou pedindo com muita antecedência
pois sei que precisa de tempo.
Que tipo de balé? Tem alguma ideia, um tema?
Tema...
Não importa qual é o tema.
Veremos isso depois.
Quero algo carnal.
Envolvente.
Erótico.
E eu sei que há isso em sua música.
- Erótico? - É! Erótico!
A sensualidade do sul.
O perfume das flores venenosas.
Uma Carmen moderna!
Sua mãe não era espanhola?
Basca.
Melhor ainda.
Mais raro.
Pense no assunto.
Não, não pense. Componha.
Mas que estupenda surpresa você aqui!
- O que são três russos? - Um branco, um vermelho e um judeu!
O que são três franceses?
Um casamento bem sucedido.
Bravo.
Um triângulo é a verdadeira geometria do casal.
- Meu querido irmão. - Misia.
E você, meu querido.
Que bom que ainda está aqui.
Vamos dançar?
Você sabe como eu danço mal.
Atravessei Paris inteira para dançar com você.
Venha, vamos.
Você não é tão ruim assim.
Quase não está pisando nos meus pés.
Seu marido não veio?
Não. Ele ficou em casa com Roussy para a aula de línguas.
Não faça essa cara. Não sou ciumenta. Sabe disso.
Você mudou de perfume?
Sim, é o Shalimar.
Ficou bem em você.
Pimenta, meu pequeno basco.
Pimenta!
Ela é divertida.
É, mas meio cansativa.
Mulheres divertidas são raramente repousantes.
Não?
- Maestro, os músicos estão esperando. - Eu sei, mas não posso.
Maurice, é só um ensaio.
Ninguém liga se você está com sapato comum!
Eu ligo.
Foi você que se esqueceu do sapato envernizado.
A Sra. Revelot está trazendo de Monfort.
Eu tinha certeza de ter trazido.
Estou perdendo a cabeça?
De jeito nenhum. Não seja criança e vá até a orquestra.
Senhor?
Aqui estão.
Muito obrigado, Sra. Revelot!
Sente-se. A senhora está sem fôlego.
Marguerite, sirva um copo de água.
Sente-se, sente-se.
Não quero que morra.
Obrigada.
Tem certeza de que são os certos?
O quê?
O que foi?
Não sei se vocês têm consciência
do extremo rigor que essa valsa exige.
Precisam manter um ritmo impecável!
Não se distraiam com a melodia.
Não antecipem o embalo do crescendo final.
Preciso escrever uma música sem música para que sintam o ritmo?
Vamos retomar do compasso 96.
Isso.
Não é uma valsa da felicidade, ela deve terminar em catástrofe.
Inclusive, tudo sempre termina em catástrofe.
A execução foi esplêndida. O crescendo final foi comovente.
Você liberou sua natureza vulcânica.
Um vulcão de gelo?
O que aconteceu
mais cedo?
Enquanto estava regendo?
Ah, você notou?
Uma espécie de ausência.
Ouça, Maurice,
essa viagem para a América não é sensata.
Se é para morrer, melhor que seja viajando.
Não estou brincando.
Você me assustou naquela hora.
Parecia tão perdido.
Acho que me perdi em minha própria música.
Isso acontece, sabe.
Minha valsa me pareceu desconhecida, e não foi desagradável.
Como se eu estivesse morto.
Liberado de mim mesmo.
Talvez, um dia, você aprenda a gostar da sua música.
Minha cara Ida,
tive uma ideia.
O que acha se eu readaptar para seu balé
"Iberia", de Albeniz?
Ela ilustra toda a violência e as nuances do seu temperamento.
Se a ideia lhe agradar, começarei durante a turnê americana.
Diga-me.
PELA PRIMEIRA VEZ NA ORQUESTRA SINFÔNICA DE BOSTON
MAURICE RAVEL TOCANDO PEÇAS PARA PIANO
Alguns me chamam de "relojoeiro suíço".
Mas devo dizer que para entregar meus relógios
é necessário um longo período de gestação.
Só consigo ver gradualmente
a forma e a trajetória da futura obra.
Fico obcecado sem escrever uma só nota,
mas quando a ideia surge,
a escrita acontece rapidamente.
Eu diria...
que a ave voa livremente.
É isso.
Sr. Ravel, uma foto.
O senhor já ouviu o jazz?
- É sua primeira vez em Nova York? - É.
Está gostando?
Muito.
Onde mais esteve nos EUA?
Boston, Cleveland...
- Chicago. - Ah, eu sou de Chicago.
- Onde você ficou? - Sim...
Sim?
É uma música popular e muito simples.
Era muito mais complexo.
Era uma melodia de grande beleza,
contrapondo com a linha musical,
numa espécie de embriaguez métrica.
Não queria interromper, Maurice. Desculpe.
Boa noite, senhores.
Misia...
O que estamos bebendo?
O que está fazendo frequentando bares?
Não está trancado em casa compondo para Rubinstein?
Você a encontrou? Ela está me seguindo?
Ela diz a todos que você está terminando o balé espanhol dela.
Ela já anunciou até na imprensa.
Ainda não escrevi nenhuma nota.
- Nada? - Nadinha.
A bela exótica não o inspira?
Não acredita em musas?
Não, não acredito em musas. Acredito na música.
Eu a honro e faço preces a ela,
mas ela nem sempre me responde.
Talvez você devesse fazer preces em outro lugar...
E acha que essas preces seriam ouvidas?
Nunca vai saber se não tentar.
Vamos até a beira do Sena,
caminhar até minha insônia passar.
Então vamos andar até amanhecer?
O que posso dizer? Detesto dormir e o sono me detesta.
Vamos andar até o táxi.
Esse táxi vai chegar rápido demais.
Você quer mesmo ir embora logo?
Há outro homem em minha vida e ele é ciumento feito um tigre.
Se gosta de animais selvagens, monte um circo.
Não gosto só de tigres.
Também gosto de gatos.
Mas você os abandona no meio da noite.
Não sou como você.
Não sou um gênio nem tenho talento.
O que você pede à música, eu peço ao amor.
E ele responde, ao menos?
Você não confia o bastante na vida, Maurice.
Ouse. Ficamos melhores ao arriscarmos.
Rua Lamarck, 25.
- Olá. - Olá.
Senhoritas...
Sr. Maurice.
Que prazer. Faz uma eternidade.
Eu estava na América.
Na América? Que fascinante!
Venha cá me contar tudo.
Calma, garotas.
Há homens esperando.
Se não se incomoda.
Não precisa. Não pretendo me despir.
- Ah, não? - Não.
- É mesmo? - É, sim.
Sou jovem demais para você.
Certo.
Então o que quer?
- Só olhar? - Não, espere.
Venha se sentar.
Gostaria que vestisse essas luvas,
o mais lentamente possível.
Deixe-as cantar sobre sua pele.
- Só isso? - É.
Não. Devagar.
O que acha?
Que você é linda.
Não. Gostou das luvas?
Muito.
São de cetim?
Sim, são de cetim.
Como meu corpete.
Você fica ainda mais charmoso quando enrubesce.
Eu gosto dessa cor.
Você me acha frívola?
Não.
A beleza é coisa séria.
Tão séria quanto a infância.
- Boa noite. - Boa noite Maurice.
Meu marido.
Vamos por ali.
Cipa!
Minha querida irmã.
- Como vai, meu velho? - Indo.
Como o clima daqui.
Toque alguma coisa para despertar esses mortos.
A peça que compôs para mim!
Silêncio, por favor! Ou pego minha chibata!
Como essas belezas vêm até você?
Eu não durmo.
Nem eu. Mas não sai nenhuma maravilha disso.
Não tenho nenhum mérito nisso.
A música está em minha mente. Ela decide.
Sua música tem bom gosto.
"A Bela Adormecida"? Vamos tocar?
Não está nada bom.
Não sinto nenhuma atração entre vocês.
Não é carnal.
Tenho certeza de que nunca dormiram juntos.
O que disse?
- Ravel, somos bons amigos. - Tire suas mãos.
Nada mais seguro para um marido como eu, quanto um homem como você.
O que quer dizer com isso?
Você vive no cume das artes, num mundo intangível.
Nada é mais concreto do que a música.
Misia querida,
você terá que voltar sozinha hoje.
Vou sair para jantar
com uma jovem atriz que precisa muito de um protetor.
Aquele homem é um grosseiro!
É culpa minha. Mas me casei pelo dinheiro.
- Foi o único motivo? - Não.
Mas você é uma mulher de gosto.
Mulheres de gosto podem não ter bom gosto.
Misia, pare de se esconder por trás de jogos de palavras.
Você só engana a si mesma.
É você que me diz isso?
Não vá por aí. Para saber enganar é preciso saber amar.
Mais piruetas.
Eu sou livre, sou viva, e faço que quiser.
Você não tem o direito de me dar lições.
Você pode afirmar que é feliz, mas sabemos que não é verdade.
E daí? O que você tem a ver com isso?
Você sabe muito bem.
Acho que é melhor nos vermos outra noite,
quando estivermos de melhor humor.
Chama um táxi para nós?
- Levo você para casa? - Não. Me deixe na Avenida Du Bois.
Não quer mais nada? Mesmo?
Não.
Você já me deu muito.
Tome.
Obrigada.
Você vai voltar?
Espero que sim.
Meu Deus! A Ida!
- Ida? - É, o balé.
- Ainda não terminou? - Ainda nem comecei!
Estou bloqueado, fico adiando. É um pesadelo.
Ela já me mandou dez cartas, vinte telegramas.
Está me assediando desde que voltei.
Se ela me vir cuidando dos meus pássaros...
Ela vai arrancar suas tripas, com certeza.
As russas parecem calmas, mas podem se tornar aterradoras.
- É o que lhe agrada, inclusive. - Você me conhece bem.
Fique aqui. Já volto.
Minha querida Ida.
Obrigado, Sra. Revelot.
Que surpresa agradável.
Ainda está vivo? Fico aliviada.
Sim, sim. Estou confuso. Me desculpe...
Sabe como é o processo de criação.
Somos forçados a nos isolar, viver como eremitas.
Esquecemos do tempo, dos amigos, de todos.
Achei que eu era inesquecível.
E é!
E o balé?
Ah, meu Deus.
Eu diria que está muito bem encaminhado.
Estupendo!
Toque alguns compassos para mim. Só por prazer.
Lamento, mas nunca mostro a ninguém minhas composições antes de prontas.
Isso seria como...
receber convidados de meias!
Mas eu acho homens de meias envolventes.
Algumas notas. Só algumas notas.
Não posso. Ainda não.
Se estiver em pane... eu posso entender.
Homens têm panes, às vezes, não é? Até os gênios.
Não estou em pane.
- De jeito nenhum. - Sim.
A orquestração está quase pronta.
Já tenho as composições verticais,
e estou fazendo os ajustes das horizontais.
Depois vou eliminar todo cromatismo
e me concentrar no tetracorde inferior.
Isso leva tempo, mas é empolgante, não é?
Ah, é.
O tetracorde inferior!
O som das origens! A fundação primitiva!
Estupendo!
No início era o ritmo.
O transe, o aniquilamento.
E eu danço!
E eu danço!
Está tudo pronto.
A ópera foi reservada.
Vamos estrear em outubro. Ensaios em setembro.
Daqui a um mês? Mas preciso de quatro...
Ou três. O que diria de três meses?
Dois. Nem um dia a mais.
Está sentindo esse ar marinho, salgado, revigorante?
É o da minha terra natal.
Acho que vai trabalhar muito bem em sua terra natal.
Vai fazer um castelo de areia?
Não. Só pensei em dar um mergulho no mar.
Sim, claro.
Mas posso fazer um castelo de areia, se quiser.
Aceito tudo o que fizer para me distrair do meu trabalho.
Então comece me ajudando a tirar minha medalha.
Não quero perder seu presente nas ondas.
Está emaranhado no seu cabelo.
Então solte, por favor.
Obrigada.
Eu vou com você, por fim.
É perigoso nadar sem alguém vigiando.
O que foi?
Gosto do gesto que está fazendo.
Esse? Por quê?
Não sei.
Você poderia refazê-lo sem parar. Eu não me cansaria.
Mas uma hora tem que parar.
É,
tem.
E depois, o que acontecerá?
Nada.
Nada. Vai ser só o fim.
O fim?
Então vai ser triste.
Não necessariamente.
Depois do fim, recomeça tudo.
Tenho más notícias, Maurice.
É sobre seu balé.
Os direitos de "Iberia" já foram adquiridos.
O quê? Por quem?
Por Enrique Arbós.
Arbós.
Lamento. Falei com o advogado dele. Não há nada a fazer.
O que aconteceu?
Preciso voltar para Paris.
Mas acabamos de chegar.
Fique o tempo que quiser. Vou embora.
Maurice!
Seus sapatos envernizados!
Conhece a Sra. Volvodeskaya?
- Não. - Ela é espetacular.
Bom dia.
A Sra. Volvodeskaya está muito preocupada.
Venha, Maurice.
Ela diz que o futuro do nosso balé parece ruim.
Ela diz que não tem jeito. Temo ter me enganado sobre você.
Não conheço essa senhora... e não ligo para os astros!
No que me diz respeito,
acredito no esforço humano, nas ideias que surgem.
Tem uma escondida num canto. Eu só preciso alcançá-la.
Isso é vodca?
Ao surgimento da ideia escondida num canto.
Para a Sra. Volvodeskaya, só um russo pode parar o relógio do tempo.
A propósito,
Stravinsky vem jantar aqui hoje à noite.
Ele o admira muito, sabia?
Pois é recíproco.
Estou lhe dizendo isso porque a Sra. Volvodeskaya acha
que um russo como Igor me entregaria meu balé a tempo.
Nada a impede de tentar. Isso pode ser uma boa ideia.
É mesmo?
Está me encorajando?
E quanto tempo essa senhora acha que seu balé deveria durar?
Não sei... Uns 20 minutos.
É muito longo.
15 minutos?
Não pechinche.
17 minutos.
Certo. 17 minutos cronometrados.
Não há mais um segundo a perder.
Preciso criar a coreografia e ensaiar, repetir...
Sim, claro, a repetição. A chave é essa.
Não vou fazer o arranjo da obra de outro, como um parasita.
Vou compor uma obra original.
Estamos na Espanha.
A praça, o sol batendo, os saltos, o zapatero.
Um fandango?
Uma sevilhana!
A Sra. Volvodeskaya diz que é como você quiser.
Estou preso numa armadilha feito um rato, Marguerite!
Demorei 11 anos para compor a fantasia lírica que Colette pediu.
É, mas entre o pedido e a criação houve a guerra...
17 minutos em duas semanas!
Preciso extrair do meu cérebro mais de um minuto de melodia por dia.
É impossível. Desumano.
Calma, Maurice! Você vai passar mal.
Não é deitado na cama que vai compor.
Nunca vou conseguir.
É o fim da minha carreira.
O fim de Maurice Ravel.
Talvez seja melhor. Estarei calmo, com as emoções dominadas.
Uma paz infinita, como a morte.
Claro.
17 DE MARÇO DE 1916
Querida mãe, não fique zangada.
Usei meus pistolões para ser convocado.
As pessoas usam isso para serem liberadas,
mas o que posso dizer?
Não podia ficar para trás,
com meus amigos e meu irmão lutando na linha de frente.
Não me aceitaram na aviação,
fui designado ao serviço sanitário.
Hoje eu vi um soldado muito ferido.
Ele parecia um anjo.
O tempo estava suspenso,
para ele, na dor,
e para mim, na música.
Obrigado.
De que tipo de música você gosta?
Eu?
Bom...
Gosto muito da sua, claro, mas...
Fale sem medo. Não vou mordê-la.
Digamos que...
gosto de músicas da moda também.
Quais?
Não sei...
"Valencia", por exemplo!
É bem atual... adorável.
Gosto muito dessa musiquinha.
É acalentadora.
- Você acha? - Acho.
Não acha que esse tema tem uma espécie de persistência?
Como vai desenvolvê-lo?
Não pretendo desenvolver. Pelo menos não da forma habitual.
Essa melodia dura um minuto. Vou repeti-la 17 vezes.
E vou ter minha espanholada.
Vai repeti-la?
- 17 vezes? - É.
Não corre o risco de ser chato?
Quero dizer...
atormentador, pelo menos.
Atormentador? Sim.
Como um efeito de hipnose crescendo.
Interessante, não?
É. Interessante.
Mas daí a ser um sucesso...
O sucesso não é irrelevante, mas ele só cria inimigos.
- Ele está detestando. - Não. Por que diz isso?
Lalo é um amigo do meu marido, um aliado, digamos.
Desta vez ele vai escrever um belo artigo.
Pierre!
- Misia! - Você conhece nosso querido Ravel.
Ficou seduzido?
- É uma linda peça. - Sublime.
Não muito mal regida.
Admiravelmente bem. Então escreva isso.
Sem o mau humor do seu último artigo.
Às vezes, a influência de Debussy é forte demais.
Me perdoe, mas você roubou dele o pizzicato da Sonata para violoncelo.
Não roubei nada. Eu compus esse quarteto há mais de 10 anos.
Então Debussy o teria plagiado?
Não. Só estou dizendo
que compartilhamos um pizzicato, mas o meu veio primeiro.
Sr. Ravel, uma ideia pertence à pessoa que a usa melhor.
O senhor é um brilhante técnico,
mas incapaz de produzir a menor emoção.
Essa sempre será a diferença entre a música de Debussy
e a sua.
Mas é melhor essa falta de emoção,
assim lerá meu artigo de forma fria.
Boa noite, Misia.
Maurice, você é louco!
- Tem uma cópia, pelo menos? - Não.
Meu Deus, é insuportável.
O que é insuportável?
Esse "Bolero". Não consigo me livrar dele.
Está em minha cabeça.
Ele me exaure, me persegue, me possui.
Ele não vai deixá-lo.
- Cante para mim. - Não, isso não.
Uma vez você disse que não podia me recusar nada.
Se eu disse uma besteira dessas...
E repete,
recomeça, repete, continua,
depois tudo sai dos trilhos, explode...
e termina.
Como a vida.
- É uma obra metafísica? - É.
Não... Não sei.
É uma melodia insolente.
É. Persistente.
Dê uma chance a ela.
- O que você tem? - Nada.
Estou sem ar. Preciso parar de fumar.
Seu coraçãozinho está cansado?
Meu coração? Não.
Isso me surpreenderia.
Eu raramente o uso.
Tem certeza de que está melhor?
Não me surpreende você desmaiar num lugar tão horrível.
Eu procurei o lugar ideal
para lhe entregar isto.
Então eu estava certa em acreditar em você.
É tão cansativo sempre ter razão!
Por que você me trouxe a este buraco de rato?
Para mergulhá-la no espírito desse balé!
Eu o concebi como uma ode à modernidade.
Uma metáfora do mundo mecânico.
Aliás, o cenário pode ser o de uma fábrica.
Uma fábrica na Ópera?
É.
Que ideia diabolicamente estupenda!
Já vejo o palco. Vejo o moderno, o jamais visto!
Você e eu, Ravel,
somos incontornáveis, irresistíveis, somos a revolução!
Estamos num bordel?
Então?
O quê?
O que eu acho?
Eu acho, cara, Ida, que...
não está nem aí para o que eu acho! E acabou de provar!
O que está faltando?
Ah, sim. Sua fábrica.
A fábrica era um detalhe, uma bobagem bolchevique.
Não valia a pena.
Falaremos disso no dia em que operários forem ao teatro.
Devia me agradecer por poupá-lo dessa vulgaridade!
É a senhora que me fala de vulgaridade?
A senhora transformou meu balé em bacanal!
A vadia da Babilônia!
Não é o seu balé. É o meu.
Fui eu que o encomendei.
Eu o salvei de si mesmo
quando não conseguia compor uma nota. Não é, Marguerite?
Quanto ao senhor, deveria aprender a ler uma partitura.
O andamento permanece constante do começo até o fim!
Constante!
Lamento ter que lhe pedir para sair, Sr. Ravel.
Não precisa pedir!
É difícil acreditar que compôs isso!
O "Bolero" é uma obra carnal!
Sexual!
Já ouviu falar disso?
Não! É cego para isso tudo.
E surdo a si mesmo!
Direi ao diretor da Ópera que me oponho a essa produção!
- Pense um pouco. - Já pensei.
Você tinha razão, essa música não faz sentido.
É um exercício estilístico e não música. Bom para o lixo!
Está exagerando, Maurice!
Pronto.
Não precisa. Guarde seu dinheiro.
Tem certeza de que não quer uma companhia?
Por que não, afinal?
Vou chamar.
Não, espere.
Em vez disso, me ensine a dançar.
Mas não tem música.
Sempre tem música.
Ouça.
Está ouvindo?
Você é cheirosa.
Não podemos dançar pela vida toda.
Por que não?
Você está bem calado hoje.
Você também.
São os homens que devem distrair as mulheres.
De acordo com que leis?
As leis da atração universal.
Não gosta?
- Não é isso... - A menos que prefira homens.
Que ideia...
Então é de mim que não gosta?
Sabe muito bem que gosto.
Sua pele é macia.
Precisa deixá-la respirar de vez em quando.
Você é realmente único.
É um elogio?
Talvez seja, no fim das contas.
Pode parecer pretensioso, mas todos os homens tentam me seduzir.
Exceto você.
Você gosta que eu não tente?
Me beija.
Eu poderia beijá-la, Misia. Estaria mentindo se negasse querer.
Mas isso é algo...
que qualquer homem pode fazer.
Prefiro compor música para você.
Fico feliz, mas isso não o impede de me beijar.
Talvez sim.
Você é um pássaro estranho, Ravel.
- Impossível a engaiolar. - Às vezes isso me agradaria.
Querida mãe,
Está chovendo a cântaros.
Há quanto tempo não recebo uma carta sua?
Pedi uma licença
e espero poder abraçá-la após as festas.
Meu ânimo está bom,
mesmo se sinto a música viva em mim
sem poder deixá-la sair.
Maurice, é você?
Estava lhe esperando.
Não queria partir sem rever você.
Estou aqui, mamãe.
Vou ficar com você agora.
Sim.
Mamãe?
Estão todos esperando, Maurice.
Não estou com meus sapatos. Não sei onde estão.
Eu vou pegar.
Por que ninguém me disse que ela estava doente?
Todos mentiram para mim.
Ela nos fez jurar que não diríamos nada.
É isso que é terrível.
O que você poderia ter feito além de se preocupar?
Eu poderia...
Eu poderia... Teria desertado!
Pense.
Então...
quem descobriu a Índia?
- Magellan. - Sim.
Qual é a capital da Venezuela?
- Colombo? - Não. Vamos lá, Maurice.
- Caracas. - Sim!
Quando foi a Batalha de Austerlitz?
Por volta de 1810.
Na verdade, eu não sei.
Agora uma fácil:
Mozart compôs "Ah, Digo-te..."?
"Ah, Digo-te..." Quem?
Mamãe.
PRÊMIO DE ROMA NO CONSERVATÓRIO
MAURICE RAVEL, CANDIDATO DERROTADO...
Querido Maurice, parabéns. É, parabéns.
Não ganhar o Prêmio de Roma 5 vezes,
apesar de ser o compositor mais famoso hoje...
É uma força! Realmente.
Ao Maurice!
O que posso dizer?
Sempre preferi os perdedores. São eles que têm estilo.
Os vencedores, com seus ares satisfeitos
e sua falsa modéstia, me horripilam.
Então, ao fracasso!
Ao fracasso!
E pretende tentar pela sexta vez?
Volta, Maurice.
Não consigo.
Não é o balé que não suporto, é minha música.
Faça isso por mim.
- Parabéns, Sr. Ravel. - Obrigado.
Parabéns. Foi magnífico.
Uma obra-prima. Ravel.
- Sr. Ravel, foi divino. - Obrigado.
- Tem um cigarro? - Paris adotou sua obra-prima!
O "Bolero", minha obra-prima?
Uma pena ser desprovido de música.
- Parabéns, Sr. Ravel. - Obrigado.
- Ele não. - Sr. Ravel...
O senhor não está longe de ter me conquistado.
É realmente uma música interessante.
À primeira escuta pensei
que não tinha queimado todos os neurônios com esse ritmo!
Mas admito, pois só os imbecis não mudam de ideia,
que suas maneiras sistemáticas, que me irritavam antes,
dão a essa obra uma dimensão...
Como posso dizer?
Uma dimensão erótica
da qual não o considerava capaz.
Obrigado.
Quem imaginaria?
Eu li seu último artigo.
E acho que você fez pouquíssimo progresso.
Certo. Boa noite.
Sr. Ravel.
Maestro, sua música me eletrizou.
Poderia autografar esse programa?
Que rabisco é esse? Você bebeu ou é a emoção?
Maravilhoso, maravilhoso.
- Parabéns, maestro. Mil bravos! - Obrigado.
Bem... bravo.
E me perdoe.
Acho que nossas naturezas plácidas causaram faíscas desnecessárias.
Lamento ter falado com a senhora de forma gentil demais...
Quanto ao "Bolero", admito que há, sem dúvida,
algo estupendamente sexual
que eu mesmo não tinha notado.
Se há uma coisa que eu detesto,
são cravos. Ponha ali.
Então?
Afinal, a pequena vadia da Babilônia não o desagrada tanto assim?
Não seja modesta. Podemos chamar a vadia de muitas coisas,
mas, certamente, não de "pequena".
Seu bajulador malvado.
Um sorriso, por favor!
Mais uma!
Tem certeza de que não quer ir à festa?
A Ida ficará decepcionada.
E seus admiradores o esperam.
Não é a mim que querem ver. É Maurice Ravel.
E quem é você, senão Maurice Ravel?
Não sou grande coisa, receio.
É o sucesso que o deixa triste?
Talvez.
Talvez os sonhos devessem continuar a ser sonhos.
Seu marido ficou em casa?
Foi.
A amiga dele não gosta de música clássica.
Você não teve muita sorte com seus maridos.
Teria sido diferente se você tivesse se casado comigo.
Acha?
Quem sabe?
É. Seríamos o casal mais bem casado de Paris!
Senhora Revelot,
quebrei outra xícara.
Creio ter assassinado
todo o serviço de porcelana Haviland da mamãe.
Marguerite...
Sim, Marguerite. Já que você não vai mais a Paris,
temos que vir até você.
Eu sujei tudo.
Sou tão desastrado.
Sua cabeça está na música, como sempre.
É, sem dúvida.
Principalmente porque Wittgenstein me encomendou um concerto para piano.
Paul Wittgenstein? O pianista?
Achei que ele tinha perdido um braço na guerra.
De fato, ele perdeu.
Foi por isso.
Ele encomendou um concerto para a mão esquerda.
Só isso!
Não sei o que é. Nem os médicos sabem.
Parece que não tenho muito mais tempo.
Não diga besteira.
Não para viver, mas para compor.
Está ficando difícil transcrever a música que ouço.
Ainda ouço muito claramente,
mas até anotar...
ela me escapa.
Não fique triste, Marguerite...
Acredito plenamente que a alegria é mais produtiva do que o sofrimento.
Além disso, o fim não é iminente.
Tenho um concerto para piano no fogo.
É, para a mão esquerda, você disse.
Não. Outro.
Para duas mãos, dez dedos. E em sol maior, como o 17° de Mozart.
Engraçado, a subida do primeiro tema parece o inverso do "Bolero".
É exatamente o que eu queria. Um anti-Bolero!
Parece que essa velha história vai engolir todas as minhas obras.
Só ficam me falando do "Bolero".
Como se eu nunca tivesse feito mais nada!
O que eu gostaria
era de compor um concerto,
que gravássemos o disco e partíssemos em turnê mundial.
O que acha, Marguerite?
Do que está falando?
Ida?
Sim, Maurice?
Está aqui há muito tempo?
Desde que degustamos juntos a excelente galinha da Sra. Revelot.
Você não está bem?
Nada mais funciona.
A máquina está quebrada.
Se está me confundindo com essa professora eterna,
está realmente na hora
de você conhecer os benefícios do repouso.
E se nós viajássemos?
Conheço lugares mais propícios a relaxar do que seu escritório.
Não tenho muito mais tempo. Está tudo fugindo de mim.
Gestos, palavras, notas.
Estou vacilante...
Não posso partir.
Pronto.
Bonito como um astro.
Cipa!
Sim, é claro!
Que prazer em vê-lo!
Faz tanto tempo. Me parece que faz muito tempo.
É, realmente.
Deixe-me lhe dar um abraço.
Você não mudou.
Ainda tem seu bom e belo rosto.
Esse bom rosto que me acalmava.
Venha, por favor...
Mas nós devíamos ir ao restaurante, lembra-se?
Sim, claro.
É uma excelente ideia.
Vamos.
Obrigado, Sra. Revelot.
Essa melodia o segue em todo lugar.
Como sífilis?
Pare, Maurice.
Estou brincando.
É que me irrita ele ter se saído melhor do que eu.
Mas ele não teria conseguido sem você.
Às vezes eu tenho dúvidas...
O que foi que eu fiz? Nada.
Desperdicei meu tempo.
Ravel,
pode fazer 9 minutos disso para nós, 13 minutos daquilo?
Ravel, componha algo no estilo
moldávio ou espanhol...
ou antigo.
Para a mão esquerda, para o pé direito! E eu...
Nunca escrevi o que eu queria.
Não diga isso. Está sendo injusto com você mesmo.
De qualquer forma, não é mais questão disso.
O neurologista diz que não posso mais transcrever o que ouço,
que não posso mais compor.
Mas como é possível?
É um mistério, meu velho amigo.
É uma doença muito rara.
Suponho que eu deva me orgulhar.
Deve haver uma cura. Deve haver.
A Ida me aconselhou a ser operado.
Não quero um cirurgião mexendo no meu cérebro.
Quem sabe o que ele acharia?
Ao mesmo tempo,
o que você tem a perder?
Não muito, de fato.
Exceto a vida.
- Ela chegou. - A Ida?
Sou eu, Misia.
A propósito, você esqueceu suas luvas no táxi.
Outra noite.
Estão comigo.
Ah, não. Achei que estavam.
Que táxi?
Você sabe.
Não. Talvez não saiba.
Quando foi?
Em que vida?
Não me lembro.
E se fôssemos ao parque?
Você sabe, aquele... com o lago.
Você quase me beijou aqui.
Lembra-se?
Por que você veio, Misia?
Para estar com você.
Estava com saudades.
Então me ama um pouco?
Muito mais do que isso.
Nesse caso, nada é impossível.
O que está fazendo, Maurice?
Estou esperando.
O que é isso?
Quem compôs?
Você.
Eu compus isso mesmo?
Foi.
Não é ruim.
Sua mala está pronta?
Não. Mas não estamos com pressa, estamos?
Sim, um pouco.
Você não precisa disso tudo para ir ao hospital.
Então...
Espere, Sr. Ravel!
É muito amável, Sra. Revelot.
mas não vou precisar deles.
Leve para mim depois.
A CADA 15 MINUTOS, ALGUÉM NO MUNDO ESTÁ TOCANDO O BOLERO DE RAVEL
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