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Meu coração Não sei
porquê Bate feliz
Quando te vê
E os meus olhos ficam
Sorrindo e pelas ruas
Te seguindo, mas mesmo assim...
...foges de mim.
Ah, eu sou o rei da estranheza. Outro dia eu acordei e por dois minutos eu não
me senti estranho. Foi estranhíssimo.
Realmente esse mundo é um país estrangeiro e eu não faço ideia dessa
língua. Ai, eu que esqueci a touca de banho na cabeça e fui trabalhar.
Você acredita que eu acordei, botei a touca, aí ia tomar um banho, aí chegou
uma ligação, aí eu me atrasei, desisti do banho, saí correndo.
Eu fiz metade do ensaio com a touca na minha cabeça e ninguém falou nada.
Eles depois disseram, a gente achava que era uma moda no Brasil, touca de
plástico na cabeça. É, meu amor, mas tudo que você faz vira moda. Não duvido
nada que daqui a pouco aí em Berlim vai ter um monte de mulher andando de touca
de banho na rua. Agora, nenhuma tão linda quanto você.
Não fala assim, que eu fico com mais saudade ainda. Ah, mas isso é fácil de
resolver. É só você pegar um voo, 11 horinhas de voo, aí você já tá aqui.
Aliás, vai chegar a tempo do chá de bebê da Laura, porque vai ser aqui em casa.
Não posso, não dá.
Por quê? Casou?
Não.
Maria Alice tá mentindo pra mim.
Imagina, as mulheres não mentem. Ih, acabou de mentir. Eu sei quando você
mente, Laura. Você tremelica o cantinho do olho.
Casou. Eu senti aqui, Maria Alice, que você casou. Você respondeu rápido
demais. Não casei, Paulo.
Deixa eu ver sua geladeira.
Como assim você mandou ela mostrar a geladeira pra você?
Laura, mandei a maneira de dizer. Eu pedi com ênfase. A geladeira é a prova
se uma pessoa casou ou não. Deixa eu ver a sua geladeira. Ai, Paulo. Tá aí, ó.
Minha geladeira.
Pronto. Não, dentro, Maria Alice. Dentro da geladeira.
Casou, Laura.
Casou. Casou. Tô sentindo aqui dentro de mim que ela casou.
Pronto.
Tcharam! Aquilo ali é o quê? Leite, Maria Alice? Você não bebe leite? Por
que tem leite na sua geladeira? Eu comprei esse leite pra fazer o pudim de
leite. que eu comi sozinha. Nossa, meu amor, você comeu um pudim inteiro
sozinha, o que houve? Tá deprimida? Não, eu tô trabalhando muito.
E essa mostarda aí no canto? Essa aqui? Que mostarda é essa? Isso é abuso,
ciúme, bullying, tudo de ruim. Você não tá bem. É a Braille, é uma que só tem
aqui. Você conhece?
Conheço, já estive em Berlim.
Então você sabe que é difícil ir embora daqui.
É difícil, mas não é impossível, Maria Alice.
Tem que ir trabalhar, Paula.
Um beijo.
Você não tá bem, hein? Você precisa se tratar.
Tem razão.
Você viu o que você falou?
Você tem razão. Você concordou comigo.
Eu concordei. É, vai chover. Com certeza. O tempo já deve estar virando,
inclusive. Vamos voltar pra casa, Laura.
De jeito nenhum. A gente vai procurar um psicólogo. Agora?
Antes que você desista.
Mas por que um psicólogo?
Por que não uma psicóloga?
Paulo, então, você não pode ter uma terapeuta mulher, porque senão você vai
se apaixonar por ela.
Aliás, eu acho que se for um homem muito bonito, você também corre esse risco.
E por que Copacabana? Se você não for a pé, você não vai. Te conheço.
Esse aqui não é bonito.
Barra? E essa aqui?
Deixa eu ver.
Essa.
Você está me tirando. Laura, por favor, você está brincando com a minha saúde.
Pelo amor de Deus, espera aí.
Doutora Jones Abujam, psicóloga.
Está acabando, inclusive. Pronto, é ela. Me dá o telefone. Paulo, você vai se
apaixonar pela doutora Jones, a Bujanra, assim que ela falar alô ao telefone? Foi
um belo alô, mas eu não vou me apaixonar. Vai, claro que vai. Não vou,
Laura, não vou me apaixonar.
Olha só, se eu quero mudar, o mínimo que eu tenho que ter é confiança.
É um passo de cada vez. Eu preciso dar esse primeiro passo.
E eu não vou me apaixonar.
Só por hoje.
Bom,
tem que falar do problema, né?
É que o meu problema não é realmente um problema, só porque eu acho que com
tanta gente no mundo não faz sentido a gente ficar com uma pessoa só.
Porque eu acho que é um desperdício. Você não acha um desperdício?
Aliás, eu acho que o desperdício é um método da natureza, né? Porque, por
exemplo, são precisos milhares e milhares e milhares de espermatozoides
para gerar um bebê.
Tá, entendi. Isso aqui é aquele tipo de terapia que a doutora não fala muito,
né? Então a gente ainda tem 38 minutos.
Eu vou te contar como é que eu conheci a Maria Alice, então.
Pronto. Era Natal e eu tava fazendo uma festa na minha casa. Tava eu, Laura, o
Cabral. Aliás, o Cabral não. O Cabral não pôde ficar. O Cabral passou pra
deixar o Oliveira, que é o cachorro dele.
E aí eu contei pra ela da Maria Alice, sabe? Contei pra ela da Sara, da Gilda,
da Elisa. Eu contei pra ela de todas as mulheres incríveis por quem eu me
apaixonei. E aí eu me dei conta de que eu tava 50 minutos diante de uma mulher
completamente incrível e completamente apaixonável.
E eu não tava apaixonado. O fato é que eu entrei em uma sessão e eu já era um
novo homem. Zero paixão. Zero.
E foi aí, nesse microlésimo de segundo, que os ruídos do mundo
desapareceram, assim.
O mundo desapareceu.
E ela me disse tanta coisa com aquele olhar, sabe?
Ela me disse coisas que só os olhares podem dizer.
E eu me apaixonei.
Eu precisava daquela mulher, sabe? E ela precisava de mim também.
Eu não sei se você lembra, mas você foi pra terapia justamente pra tratar seu
excesso de paixão pelas mulheres.
Eu sempre achei uma injustiça considerarem isso uma doença. As
mulheres sempre foram a melhor parte do mundo, a melhor.
Eu tenho quase certeza de que ela é sim a mulher certa pra mim.
Encontrou sua viúva. Não, que isso, rapaz. Não tô pensando em morrer tão
cedo, não.
Alguma vai ter que ser a última. Alguma será a última. Credo, eu nunca tinha
pensado nisso. Mas vai pensar e cada vez mais. A morte é o único fato. O resto
tudo é conversa. Tudo.
E aí, sua tosse voltou? Você quer ir no médico? Eu te levo. Não, não, não. Eu tô
ótimo. A Marganete é ótima, viu?
A gente tá transando, transando, transando demais.
Que ótimo, Cabral. Já era tempo.
Então pra que você tá pensando tanto na morte?
Eu estou chegando na reta final dos meus orgasmos.
Eu acho que eu já atingi o meu limite. Vocês já calcularam isso?
Na verdade, eu tava aqui calculando quantos cupcakes uma pessoa consome num
chá de bebê. E não é uma conta ser feita, meu caro. Os orgasmos são
infinitos. A conta, a conta, a conta sim. Eu vi num documentário. Um homem
tem, em média, uns 4.233 orgasmos na vida. É uma média, é uma média. Que
documentário é esse?
Documentário americano. Eu já cheguei quase nos 5.000 já. 5.000?
Mas você chegou nessa conta com... Por favor, não me diz que você anota. Eu
calculei. Aqui, me acompanha. Eu tenho...
37 anos de vida sexual, comecei na adolescência. Isso dá 1.924 semanas,
considerando aí o quê?
Três orgasmos por semana? Não.
Passei meu limite. Não, não, não. Três orgasmos por semana não faz sentido.
Você namorou com a Glorinha 15 anos atrás, acabou de conhecer a Margarete.
É. Peraí, quanto vocês transaram?
Eu não falei transar, eu falei orgasmo. Ah!
Ah, bom, então nesse caso, 5 mil talvez seja pouco.
Meu Deus, eu tô muito, muito, muito cansado. Eu tô transando demais.
Todo orgasmo que eu tenho, eu penso que pode ser o último, o último.
Pelo menos você já tem assunto pra sua terapia de hoje. O último orgasmo. Não,
hoje eu tô focado em pegar o telefone daquela paciente pra doutora. Vem cá,
você acha que orgasmo múltiplo contabiliza como vários?
Não, porque se for isso, é uma puta sacanagem com as mulheres. Isso é uma
das nossas poucas vantagens. Além da inteligência, claro. Não, não, não, já
sei. Eu vou ficar na frente do prédio esperando ela sair.
Tá, você pode, por favor, perguntar sobre isso pra sua terapeuta, porque eu
valorizo tanto orgasmo múltiplo, eu não queria ter que ficar regulando a partir
de agora, você me entende? Meu Deus, eu esqueci de falar de você, eu não falei
de você nem um dia.
Me perdoa. Ainda bem que eu tenho essa última sessão de terapia pra me redimir.
Última sessão?
Você teve alta.
Então é isso. Eu estou me dando alta porque, primeiramente, eu estou curado.
Não penso mais na Maria Alice.
Em relação a isso, eu sou um novo homem. E também porque eu estou precisando
comprar um vinho para conquistar uma menina que eu me apaixonei, que ela é
muito requintada, sabe? Ela faz bordado, imagina só.
E a terapia está dando uma quebra no meu orçamento, de maneira que, com o preço
que eu pago numa sessão, eu consigo comprar um pino no ar excelente.
E uma terapia dura 50 minutos. Um vinho...
Sei lá, duas horas conversando. Entende? Não faz sentido.
Mas muito obrigado, viu? Você foi muito importante pra mim. O seu trabalho me
ajudou muito, muito, de verdade.
Tchau, a gente se vê. Será que você vai enlouquecer Se ela
chegar com outro e não você?
Como é que você vai ficar Se ela for embora e nunca
mais?
Oi, oi, oi, oi, oi, desculpa chegar assim, desculpa. Meu nome é Paulo,
prazer. Prazer. Mas eu precisava te falar, é que você tem um mistério que
mexe muito comigo. Não, eu tô falando sério, é uma questão de saúde, porque
chega a me dar um medo, sabe? Uma vertigem, um negócio difícil. Vem cá, eu
tenho como saber seu nome, pelo menos, só isso.
E aí eu paro de te importunar, eu juro. Vou te dar uma dica. Tá.
Eu nasci dia 25 de dezembro.
Jesus? Natália. Natália.
Pronto.
O que você está fazendo aqui?
Eu? Eu estou há uns 50 minutos subindo e descendo nesse elevador esperando você
entrar nele.
Aí sim, riu, né?
Estava louco para ver esse sorriso. Deixa eu ver.
Eu sou ótimo em fazer as pessoas rirem, sabia?
Ótimo. Quase um profissional. Sou melhor que terapia, inclusive. É mesmo?
E mais barato também.
Quer tomar um vinho comigo?
Eu pago.
Eu tenho um compromisso agora.
Ah, tá.
Então, pena.
Quer vir comigo?
Quero.
Não quer nem perguntar o que é o compromisso?
Não.
Não é só a lembrança de um vulto feliz de mulher
Que passou por meus sonhos sem dizer
adeus E fez dos olhos meus um chorar
mais sem fim Meu coração
O vagabundo quer guardar o mundo em
mim.
Quer tentar?
Eu não.
Imagina, eu tenho medo de altura. Quer dizer, não é medo, né?
É um receiozinho pavoroso, sabe? Ai, não faz sentido nenhum ter medo.
Não faz sentido aqui no chão, mas lá em cima eu tenho certeza que faz. Por que
ter medo?
Você já ouviu falar de gravidade, de osso, de fratura exposta?
Se for mesmo a sua hora, não importa a altura.
Eu não acredito muito nesse negócio de hora, mas você também é tão interessante
que eu não sei como discordar disso. Então vem.
Vou te esperar lá em cima.
Tá.
É gritante? É muito.
É muito.
Mas é alto também. Eu gosto de coisa excitante, tipo grama, praia, cama,
porque é excitante, é no chão, sabe? Amanhã eu vou fazer rapel, sábado eu vou
fazer mountain bike. Você faz algum esporte?
Alpinismo? Eu gosto de esporte tipo jogo de tabuleiro.
Por exemplo, eu sou muito bom em dan, mas... Vamos descer?
Só depois que você perder o medo.
É, mas isso pode demorar.
Pode ser bem rápido também.
É que eu não sei se eu vou conseguir me concentrar.
Desconcentra. Pra não ter medo da morte.
Só no temeiro da vida.
O que fazer com a obrigação?
Como faz pra te conhecer?
Como faz para te esquecer?
Como faz para amar você?
Você. É, isso é uma bobagem. Repete.
Pra não ter medo da morte, é só não ter medo da vida.
E o que é que isso quer dizer?
Absolutamente nada. Tanto é que o oposto também funciona. Pra ter medo da morte,
basta ter medo da vida. Vocês mulheres, vocês são tão, tão, tão complicadas.
Por favor, não generaliza, porque cada uma é um indivíduo. Eu sei, mas vocês
são todas diferentes. Vocês são todas...
Complicadamente diferente.
Isso me interessa uma mulher. A responsável pelos meus orgasmos
derradeiros. Se não é havido uma sucessão de últimos minutos.
Ou de primeiros. Ou de expectativas.
De sonhos.
Vocês dois podiam pelo menos esperar a gente ir embora, né? Vocês ainda estão
aí, é? Não, não mais. Não estamos.
Tchau, Margareth. Tchau, Cabral.
There's no sun up in the sky Stormy weather
Since my man and I Were
in together Keeps raining all of the
time
O homem lúcido sabe que ele é o equilibrista da corda bamba da
existência. Ele sabe que por opção, por acidente, é possível cair do abismo a
qualquer momento, interrompendo a sessão do circo.
Pode também o homem lúcido optar pela vida.
Aí então ele esgotará todas as suas possibilidades, todas.
Ele passeará pelo seu campo aberto, pelas suas vielas floridas, ele saberá
ver a beleza em tudo.
A mostarda. Olha quem tá aqui.
Pois é, já tem a mostarda, tem eu, agora só tá faltando você.
Traz salsicha? Ah, claro.
Vou comprar umas salsichas aqui em Berlim, aí eu clico na tela do celular e
eu apareço aí na sua casa no Rio.
Imagina, não vai nem precisar clicar na tela. Você só vai precisar dizer, me
leve ao meu amor eterno. Que sem graça.
O curso do amor verdadeiro nunca flui suavemente.
Por que não?
A gente não pode inventar a paixão sem sofrimento?
Não. São sinônimos, esqueceu?
Tô tentando esquecer.
Você tá com alguém?
Eu tenho um encontro hoje, mais tarde.
Imagina se não, você não muda? Mudo sim, agora eu tô aprendendo a viver
perigosamente. Tinha certeza que você vinha. Eu não.
E aí, pra onde a gente vai?
Deixa eu beber,
deixa eu olhar, pra tudo que você não gosta em você, pra tudo que a
gente não vê.
Deixa eu beber,
deixa eu olhar, pra tudo que você não gosta em você, pra tudo que a
gente não vê.
Porque eu quero sair dessa casa Eu quero bater as asas
E quero ficar mais solta E quero ficar mais louca
Às vezes quero você comigo Às vezes quero o impossível
Pra que ficar correndo perigo?
Quem disse que a gente não tá correndo perigo?
Que perigo que a gente pode correr aqui nessa cama?
Cheia de travesseiro, de lençol.
Que isso?
Acho que meu marido chegou.
E você?
Você é casada?
Eu nunca disse que não era. Meu Deus, é muito alto.
E ele é grande?
Grandão.
Mas aí você fez o quê? Você saiu correndo?
Não, na hora eu saí andando, calmíssimo, como se nada tivesse acontecendo.
É isso mesmo.
Eu vou descobrir agora.
Será que eles não queriam que você ficasse lá?
Não, acho que não. Seria estranhíssimo, inclusive.
Oi, amor.
Nome, nome, nome, nome.
Quer dizer, o Alfredo até que era bonitinho.
Alfredo! Rapaz!
Que satisfação em conhecer você, rapaz. Eu tava aqui... Aliás, a Natália fala
muito bem de você, viu? Só os melhores elogios. Eu tava aqui fazendo companhia
a ela, tava até lendo esse livro aqui, que é médio. Chega aqui no meio, tem uma
barriguinha e tudo mais, mas é coisa de romance longo. A gente sabe como é que
é, né? Tá, mas o marido, o Alfredo, ele não falou nada?
Nada.
Impressionante. Nem um pi. Eu vou deixar vocês a sós pra conversarem.
Calma. E aí, Natália, qualquer coisa que você precisar, você me dá uma ligada.
Valeu, querido.
Obrigada. Agora, quando eu entrei no elevador, aí meu coração ficou...
Eu acho que eu morri, que eu tenho um ataque cardíaco, alguma coisa do tipo.
Ainda perdi meu sapato, não sei se foi no corredor, no elevador, enfim. Eu sei
que cheguei em casa sem eles.
Você tá vivendo como você sempre quis, né?
Com liberdade.
Ai, meu amor, mas honestamente, eu morro de vontade. Eu tenho vontade enorme de
largar tudo isso, de liberdade, desistir de tudinho e ficar só com você.
Abraçado pro resto da minha vida.
É uma pena que você esteja tão longe.
Ué, não é você que diz que a fidelidade é uma utopia da qual a gente apenas se
aproxima?
Às vezes?
Eu já falei muita besteira na vida.
Meu sonho é e sempre foi você.
As outras mulheres do mundo, elas são reais. Você é o meu sonho eterno.
Impossível.
Todo sonho é possível.
Sonho é só sonhar.
Pô, espero que você finja que tá feliz um pouquinho melhor que isso. Esperar
não custa nada.
O que aconteceu?
Ah, Laura, acabei de falar com a Maria Alice do outro lado do mundo, de novo.
Meu Deus, é impossível alguém mais triste do que eu.
Cadê a trapezista?
Linda, né? Uma pena, vou sentir saudade. Mas você tava tão empolgado.
Ela é muito dinâmica, sabe? Muito inventiva.
O que aconteceu?
Ela era casada.
Ah! E você não quis destruir o casamento alheio. Achei muito digno dessa parte.
Muito pelo contrário. O marido apareceu do nada.
Ah, eu imaginei qualquer coisa assim.
E aí, pela reação dela, das duas, uma. Ou ela é completamente sem noção ou ia
rolar ali uma surubinha.
Talvez as duas opções estejam corretas. Oi, Paulo.
Natália! Natália!
Olha, eu esqueci que eu tinha convidado você e você veio.
Eu vim. Olha aí.
Essa é a Laura, a futura mamãe. Laura, parabéns.
Obrigada. Com certeza, opção um.
Opção um do quê?
É, de docinho. Ah.
Quer uma cerveja? Quero.
Caraca, o que foi aquilo, né?
Aquilo o quê?
Aquilo, esse é o marido chegando ontem.
Ah!
Ah! Você sabia que ele ia chegar?
Sabia. Ah!
Entendi. Escutem a treja. Não.
Não? Foi isso que você imaginou? Claro que não. Era o quê, então? Vai dizer pra
mim que ele realmente não sabia que ele ia chegar em casa e encontrar a gente
ali, já na cama, na coisa toda.
Não sabia.
Não sabia. E você ficou daquele jeito, assim, super tranquila. Você não tinha
nenhum medo de alguma reação dele, nada?
Se ele tivesse armado. Ele tava armado.
Como é que você sabe?
Eu dei uma arma pra ele de presente de Natal.
Eu não te falei que o Alfredo era segurança?
Não!
Meu Deus do céu.
A gente podia ter morrido.
E a gente não morreu. Isso não é libertador? Não, não é libertador,
Natália. A gente correr risco num tecido, naquele negócio que você se
pendura, aquilo é libertador.
Agora, você botar a vida do outro em risco, não, não é libertador. É
sacanagem. Eu sei, eu sei.
Desculpa. Mas é que eu descobri que o Alfredo tava me traindo, sabe? Eu fiquei
super mal.
Inclusive, foi por isso que eu entrei na terapia. E no bordado, mas bordado é um
saco. Aí eu resolvi dar o troco logo de uma vez, entendeu?
O troco.
Mas eu vim aqui hoje só pra te agradecer, Paulo.
Você foi muito importante pra mim. A gente tá super bem agora.
Você e o Alfredo.
Que bom.
Inclusive eu saí da terapia.
Que ótimo.
E o bordado?
O bordado eu continuei. Essa blusinha aqui, ó, foi eu que bordei. É, tá linda.
Você é um anjo.
Obrigada.
Eu vou nessa. Eu vim aqui só pra te dar um beijo. Tá bom. Tá bom? Tá bom.
Qualquer coisa, liga.
Tá.
Um anjo... Meu Deus do céu, Cabral. O que que é? Você tava escutando minha
conversa?
Desde quando? Desde quando?
Desde a hora que o marido chega e pega vocês dois transando. Aí ela diz que tá
dando troco. Ah, o troco é você.
Aí ele tem um revólver que ela deu pra ele. Você escutou tudo.
Eu espero que sim. Tem mais.
Meu filho, essa mulher tem os dois is mais perigosos de todos, hein? Ela é
infiel e inconsequente. É, e muito interessante.
Talvez, num certo sentido, seja mesmo a mulher ideal.
O sujeito pode se entregar livremente ao amor dela sem o peso do medo e da
angústia que tão mal fazem ao bom sexo. Hum, bom sexo. O que é? Tá sentindo
falta, né? Não, muito pelo contrário. A Margarete nunca atrasou tanto.
Vai gastar seus últimos orgasmos, é safadão. Por que não? Sabe aquela caixa
de bombom que você guarda o último, delicioso, pra comer depois, depois,
depois, depois, e acaba esquecendo de comer?
Não, não sei. Eu não sou de economizar. Muito pelo contrário. Você tem razão. E
agora eu sou como você.
Eu trato todo orgasmo agora como se fosse o último.
Algum é de ser o último. Gente, pensar que nos próximos anos, todos os meses,
eu vou ter uma festinha de aniversário de criança pra ir. Ela fala como se
fosse uma coisa boa.
E é! Eu adoro cachorro quente, pipoca, docinho, salgadinho.
Cupcake. E tudo sem culpa, hein? É maravilhoso, porque ele ou ela, enfim,
ainda nem nasceu e eu já estou realizando todos os meus sonhos.
Já no meu caso, o sonho acabou.
Tem brigadeiro, cara.
Você sempre diz isso entre uma paixão e outra. Um intervalo que dura geralmente
umas duas horas. Não, é diferente, Laura. Nesse caso é diferente. Por
exemplo, a doutora Jones.
Uma mulher brilhante, uma mulher saudável. Eu não me apaixonei.
Já a Natália é excitante, mas é doida. E eu também não me apaixonei.
Meu estoque de paixões acabou, se esgotou.
E a única coisa que continua gritando aqui dentro é a Maria Alice.
É a Maria Alice e esse sonho absurdo de ver essa porta se abrindo e ela entrando
por ali.
Paulo, você sempre sonha assim, ao vivo, em público?
Maria Alice!
Meu Deus do céu, Maria Alice, meu Deus do céu.
Por que você não me falou que você estava no Brasil? Eu não sabia se você
queria me ver.
E de onde você tirou essa dúvida absurda? Você falou que estava saindo
com alguém.
Eu terminei. Eu sabia que você ia voltar.
Sabia nada, nem eu sabia.
Você não sabia, mas o meu coração sabia.
E não que importe, mas por que você voltou?
Sabe aquela mostarda que você falou?
Então, aí eu pensei, mais raro que essa mostarda é você, que só existe no Rio de
Janeiro.
Não há mais motivo pra eu amar aquela mostarda. Amar o Rio de Janeiro, amar
você.
E aí?
E aí, Nando?
E aí que eu voltei.
Eu tô aqui.
Você nunca saiu daqui.
Graças a Deus, finalmente.
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