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UMA S�RIE ORIGINAL NETFLIX

- Abastecido? - Abastecido.

Cal�os em posi��o.

- Interruptores desligados. - O senhor tem a certeza?

Quando casei, fizeram-me marechal da For�a A�rea.

Consequentemente, sou o piloto mais qualificado do pa�s

e nem sequer sei pilotar.

- Sim, tenho a certeza. - Muito bem.

- Preparado? - Preparado!

Aqui vamos n�s!

Credo.

- Est� bem? - Sim, estou �ptimo.

- � a sua vez. O comando � seu. - O comando � meu?

Lembre-se do que lhe disse.

Tome aten��o ao alt�metro e � b�ssola e mantenha a alavanca nivelada.

Muito bem, est� equilibrado.

Para a esquerda, depois para a direita.

- E nivele. Perfeito. - � barulhento, n�o �?

Est� melhor?

Meu Deus...

- N�o � maravilhoso? - � um para�so.

Combateu na Batalha da Inglaterra, n�o foi?

Sim. Fiz parte do esquadr�o 257.

- E o que pilotou? Spitfires? - Sobretudo Hurricanes.

- E matou algu�m? - Um ou dois.

N�o dever�amos ligar o motor? O ch�o parece terrivelmente perto.

Estamos demasiado baixos. Faremos a aterragem sem motor.

- O comando � meu. - O comando � seu.

Foi maravilhoso.

- Para a semana, � mesma hora? - Que tal amanh�?

INTERVEN��O DIVINA

- Os valores mais recentes. - Obrigado.

Obrigado.

INSTITUTO DE METEOROLOGIA 4 DE DEZEMBRO DE 1952

Johnson, o que acha disto?

Interessante.

Chefe?

Acho que devia ver isto.

Compreendo.

Chefe.

Meu Deus.

Desculpe, n�o pode entrar a�. Est� a ouvir?

Queira desculpar, mas acho que devia ver isto.

Santo Deus.

Temos de emitir um alerta.

Para nos protegermos.

Kenneth, como cientista-chefe, o alerta deve ser redigido por si.

Mande para o PM.

Claro que n�o o ler�, mas o importante � que o mandemos.

Vou j� mand�-lo para Downing Street.

Espere a�, por favor.

Se Vossa Majestade puder, incline-se para a frente.

Respire fundo...

E expire.

O ar est� um pouco pesado. Talvez ajude se abrirmos a janela.

N�o enquanto estiverem a ensaiar.

O que est�o a ensaiar?

O meu funeral.

Est� aqui. Menina Scott.

- Sr. Thurman. - Sr. Collins.

- Pedi isto para o senhor. - Obrigado.

N�o sou cientista, n�o posso dizer que perceba,

mas sei que n�o se recebe um alerta clim�tico assim todos os dias.

Nem todos os meses, quanto mais.

Ali�s, acho que nunca recebemos um.

O nome Donora diz-lhe alguma coisa?

Donora?

SEDE DO PARTIDO TRABALHISTA

Claro que me lembro de Donora. Foi um esc�ndalo.

Uma terriola americana, nos arredores de Filad�lfia?

Pittsburgh.

Apanharam um nevoeiro de fumo causado por um anticiclone inesperado

que reteve as emiss�es de... cobre?

- Zinco. - No nevoeiro.

- Em poucos dias, muitos morreram. - Vinte.

E milhares ficaram gravemente doentes devido a esse nevoeiro t�xico.

Uma delega��o interpartid�ria foi enviada � cidade

para redigir um relat�rio urgente.

Recomendaram que �reas de ar limpo fossem implantadas em Londres

como medida preventiva.

- Nunca cheguei a ver o relat�rio. - Faz sentido.

O primeiro-ministro deitou-o fora. Disse que n�o era uma prioridade.

- Tem provas do que diz? - Tenho, Sr. Atlee.

As actas do conselho de ministros sobre a mat�ria.

Ele insistiu que o pa�s queimasse carv�o de forma descomedida no Inverno

para dar a ilus�o de uma economia s�lida.

- Isto � fant�stico, Clem. - Sem d�vida que � interessante.

S� n�o percebo uma coisa.

Porque � que algu�m de Downing Street, que trabalha para o governo,

me trouxe estas informa��es?

Eu li A Eneida, Sr. Thurman.

"N�o confiem no cavalo, troianos.

Temo os gregos, mesmo quando trazem presentes."

Sr. Atlee, eu estou ao servi�o do povo

e do governo, seja ele qual for,

mas tamb�m sou um cidad�o respons�vel

e n�o posso ficar de bra�os cruzados enquanto o caos reina � minha volta.

Isto n�o � um governo, Sr. Attlee.

� uma cambada de velhos hesitantes e medrosos,

incapazes de destituir outro ainda mais velho, tir�nico e alucinado.

O seu governo foi o mais radical e progressista

que este pa�s j� viu.

N�o percebo como perdeu as elei��es.

Ningu�m percebe.

Acredito que eu estaria a fazer um favor ao povo e ao pa�s,

se eu ajudasse a correr com ele e trouxesse o senhor de volta.

E, para tal, procura-me com um grande plano

que requer que crucifique os Tories por n�o conseguirem lidar com um nevoeiro

do qual ainda nem h� sinal?

Neste momento, estou a ver estrelas.

- Boa noite. - Boa noite.

OS MEUS PRIMEIROS ANOS WINSTON CHURCHILL

Menina Scott!

Obrigado pelo cuidado, mas � tarde.

- V� para casa. - Estou a ir!

N�o me serve de nada cansada. Boa noite.

- Ainda c� est�? - Boa noite, senhor primeiro-ministro.

Boa noite.

- Boa noite, Pat. - Ol�.

Nem te mexeste.

Presumo que a resposta continue a ser "n�o".

- A qu�? - Ao meu convite para ir sair.

Ou seja, irmos ao bar, sentarmo-nos a beber um copo,

fazermos olhinhos a uma cambada de ordin�rios,

deixar que nos embebedem para os trazermos para casa

s� para confirmarmos que s�o realmente ordin�rios?

N�o, obrigada.

Credo. O que vais fazer na minha aus�ncia?

Vou passar tempo na companhia de uma pessoa extraordin�ria.

"Ou�am o que vos digo, jovens do mundo inteiro,

e gritem aos sete ventos.

A terra pertence-vos, em toda a sua plenitude.

Sejam gentis, mas destemidos,

pois s�o hoje mais importantes do que nunca.

Vistam o manto da mudan�a, pois chegou o vosso momento."

PRIMEIRO DIA 6 DE DEZEMBRO DE 1952

Bom dia.

S�o 8h, hoje � 6 de Dezembro e estas s�o as not�cias do dia.

Londres parou devido a um nevoeiro denso que desceu durante a noite.

Formaram-se muitas filas nas vias principais

e h� relatos de automobilistas a abandonar os carros e a seguir a p�.

O aeroporto de Londres dever� fechar.

Santo Deus.

O Instituto de Meteorologia emitiu um comunicado

a atribuir a culpa a um anticiclone que paira sobre Londres.

O fumo das chamin�s est� preso ao n�vel das ruas,

o que intensifica o nevoeiro.

Dada a falta de vento, prev�-se que dure algum tempo.

Cuidado l� fora. � um verdadeiro nevoeiro de fumo.

O carro est� pronto?

A visibilidade reduzida n�o permite fazer o trajecto.

O qu�? 200 metros?

Foi considerado muito arriscado.

Tenho marcada na agenda uma visita � minha av�

e tenciono faz�-la.

Se conduzir � demasiado arriscado, s� h� uma coisa a fazer.

Eu vi isso.

Ser� que pode fingir que n�o viu?

A rainha est� aqui, Majestade.

- Pode ser mais espec�fica? - Majestade?

- Qual das rainhas? - A rainha Elizabeth.

- Qual? S�o duas. - A jovem.

A rainha!

Pensei que todas fossem rainhas.

- Deram-me uma lista. - E somos.

Fui a rainha enquanto o meu marido, o rei, foi vivo,

mas, ap�s a sua morte, deixei de ser a rainha

e passei a ser s� rainha Mary.

A vi�va do meu filho tamb�m era a rainha mas, com a morte do marido,

tornou-se rainha Elizabeth, a rainha-m�e.

A filha dela, Elizabeth, � a rainha actual, o que faz dela...

- A rainha. - Bravo.

As enfermeiras e as freiras sofrem do mesmo mal.

- Somos todas chamadas de "irm�". - � verdade.

Ela est� l� fora. A rainha.

Mande-a entrar, irm�.

- Venho em m� altura? - De todo.

- Como est�? - Melhoro sempre que te vejo.

E posso melhorar ainda mais, se me prometeres uma coisa.

- � s� dizer. - N�o me perguntes como estou.

Todos me perguntam o mesmo.

Se n�o morro de uma doen�a pulmonar, morro de conversas que n�o interessam.

Est� bem, eu prometo.

Mas, se realmente estiver bem, queria falar-lhe de uma coisa.

Est�s � vontade.

Eu estava a ouvir a r�dio esta manh�

e descreveram este nevoeiro como interven��o divina.

Na carta que me enviou,

a av� disse...

"Ser leal aos ideais que herdaste � o teu maior e principal dever

porque o chamamento vem da mais alta inst�ncia: Deus."

Sim.

Acredita mesmo nisso?

A monarquia � a miss�o sagrada de Deus para aben�oar e dignificar a Terra.

Para dar aos comuns um ideal ao qual aspirar,

um exemplo de nobreza e incumb�ncia para melhorar as suas tristes vidas.

A monarquia � um chamamento de Deus.

Da� a coroa��o ser numa abadia e n�o num pr�dio governamental,

sermos ungidos, n�o nomeados.

� um arcebispo que p�e a coroa na cabe�a,

n�o � um ministro nem um funcion�rio p�blico.

Como tal, tu respondes perante Deus, n�o perante o povo.

N�o sei se o meu marido concordaria.

Ele diria que, em qualquer sociedade moderna e justa,

Estado e clero devem estar separados.

Que, se Deus tem servos, eles s�o padres, n�o reis.

Tamb�m diria que viu a pr�pria fam�lia a ser destru�da

porque eram vistos pelo povo

como a personifica��o de ideais indefens�veis e inconceb�veis.

Mas ele representa uma fam�lia real cheia de oportunistas e novos-ricos

que remonta a quando? H� noventa anos?

O que sabe ele sobre Alfred, o Grande? Do Ceptro da Igualdade e da Miseric�rdia?

De Edward, o Confessor?

De William, o Conquistador, ou de Henry VIII?

� a Igreja de Inglaterra, querida,

n�o a Igreja da Dinamarca ou da Gr�cia.

Pr�xima pergunta.

Est� um caos l� fora.

Perturba��es nas linhas dos comboios, voos cancelados...

Esta manh�, na Richmond Bridge, a visibilidade oficial era de um metro.

Caso n�o saiba, � o valor mais baixo de sempre.

O nosso amigo troiano de Downing Street

anda a falar com os amigos do Instituto de Meteorologia.

Dizem que � s� o come�o. Que s� deve piorar.

Sei que quer que avance com uma mo��o de censura

e decerto me achar� demasiado cauteloso por n�o o fazer,

mas o primeiro-ministro precisa de ter uma oportunidade,

mesmo que seja s� para se queimar.

Vejamos como reage o velho caduco.

Pronto, pronto...

Cuidado! Saia da frente!

Bom dia.

Ainda bem que algu�m conseguiu vir. Ningu�m esperava por esta, pois n�o?

N�o.

Senhor primeiro-ministro? Est� aqui?

- Ainda bem que conseguiu vir. - Queira desculpar, s� estava a...

N�o, fez bem em vir. Aposto que metade n�o veio.

N�o foi f�cil. At� atravessar a rua � arriscado.

Ent�o, n�o venha. � demasiado importante para n�s.

Ora, s� trago coisas para assinar e levo-as novamente comigo.

Faz com que tudo ande sobre rodas,

o trabalho seja feito e o pa�s governado.

Mas qual � a minha contribui��o pessoal?

Melhora a vida de todos � sua volta.

Um bibel�. Uma flor.

Com a minha idade, o senhor j� tinha obras publicadas

e era um oficial de cavalaria, destacado na �ndia,

que lutava contra tribos locais na fronteira noroeste.

Quem lhe disse isso?

Pediu-me para me relacionar com um jovem da minha idade.

Por isso, ando a ler a sua autobiografia.

N�o era bem isso que tinha em mente.

"Ou�am o que vos digo, jovens do mundo inteiro,

e gritem aos sete ventos.

A terra pertence-vos, em toda a sua plenitude.

Sejam gentis, mas destemidos,

pois s�o hoje mais importantes do que nunca.

- Vistam o manto da mudan�a... - Pare.

... pois chegou o vosso momento."

O senhor tinha 24 anos.

Um po�o de energia, esperan�a, paix�o e fogo.

� extraordin�rio.

Encontrou algo de que gostasse naquele jovem?

Encontrei.

Bom dia.

S�o 8h, hoje � 7 de Dezembro e estas s�o as not�cias do dia.

O nevoeiro denso que parou ontem grande parte da capital

mant�m-se esta manh�,

deixando os servi�os de emerg�ncia � beira da ruptura

e o pa�s mergulhado no caos.

Sinalizadores est�o a ser usados para guiar automobilistas na capital.

Os comboios est�o parados ou com v�rias horas de atraso

nas principais esta��es londrinas.

O PM enfrenta duras cr�ticas por n�o resolver a crise crescente.

O aeroporto voltou a fechar.

- Todos os voos foram cancelados. - Bolas.

Prev�-se que o nevoeiro persistente, j� com mais de 50 km de extens�o,

mergulhe a cidade na escurid�o �s 14h de hoje.

Est�s bem?

N�o est�s.

V�, levanta-te.

N�o, eu estou bem. Juro.

� s� porque a janela estava aberta.

Vai trabalhar. Tens o teu emprego.

Vamos come�ar pela tens�o no Egipto,

onde as paix�es anticoloniais continuam fortes

e os nossos soldados continuam a ser atacados

por insurgentes nacionalistas.

� fundamental que resistamos e defendamos o canal do Suez,

um ponto que discutirei pessoalmente com os dirigentes da Commonwealth

quando os receber em Chequers, no fim-de-semana.

- Se o tempo o permitir. - � verdade.

Quais s�o as �ltimas informa��es?

Sobre o clima?

� nevoeiro. Acabar� por dissipar-se.

Esperava uma explica��o mais cient�fica.

Ent�o, amanh�, tratarei de incluir um relat�rio barom�trico na sua caixa,

cheio de gr�ficos de press�o atmosf�rica e humidade.

O Inverno est� a ser particularmente frio

e h� um limite para as coisas �s quais eu, o primeiro-ministro,

aceito sujeitar os seus s�bditos como recompensa por ganharmos a guerra

e triunfarmos sobre o fascismo, a maldade e a tirania.

Deix�-los morrer congelados n�o � uma delas.

- N�o parece muito preocupado. - E n�o estou.

Sabe que o meu falecido pai escreveu, h� muitos anos, aos seus antecessores

preocupado com as centrais a carv�o que o seu partido estava a construir.

� um facto.

E eu acolhi com compreens�o as preocupa��es dele na �poca,

como acolho os artigos dos jornais de hoje,

sedentos de sangue, a exigir a minha demiss�o.

As pessoas precisam de ter raiva de algu�m

mas, como l�der, n�o posso reagir a tudo.

Precisamos das centrais, do carv�o.

As pessoas precisam de queimar carv�o para aquecer as casas.

- � o clima! Vai passar. - Espero bem que sim.

Nem que seja por o meu marido estar com um humor insuport�vel.

Porqu�?

Por estar preso. Por n�o poder voar.

Voar para onde?

Para lado nenhum. Ele est� a aprender a pilotar.

Para qu�?

N�o temos pilotos qualificados para lev�-lo aonde quer que precise?

Quer ser ele a pilotar.

� um sonho de inf�ncia. Algo que ele sempre quis.

Porque n�o consultou o governo?

Porque � um assunto particular. E eu sou a favor.

Nada do que suas altezas fazem � um assunto particular.

E o pai do futuro rei da Inglaterra

a arriscar a vida sem necessidade � inaceit�vel.

Pe�o-lhe que n�o restrinja ainda mais as liberdades pessoais do meu marido.

J� lhe tiraram a casa, o apelido.

Tem de haver limites.

E estabelecer esses limites cabe ao conselho de ministros, n�o a si,

algo que o seu querido pai certamente lhe teria ensinado,

se tivesse tido mais tempo para completar a sua educa��o.

E, agora, o nosso tempo acabou.

At� para a semana.

Senhor primeiro-ministro.

Relat�rio meteorol�gico...

Bom dia. S�o 8h, hoje � 8 de Dezembro e estas s�o as not�cias do dia.

O nevoeiro intenso e sufocante,

que j� causou dois dias de caos por toda a capital,

piorou durante a noite.

As grandes centrais el�ctricas a carv�o em Battersea e Fulham

tentaram reduzir as emiss�es do t�xico di�xido de enxofre,

mas foi-nos dito que � improv�vel que isso produza mudan�as significativas

na qualidade do nosso ar.

Espera-se um comunicado do governo ao fim do dia.

- V�, vamos ao hospital. - Eu estou bem.

N�o est�s nada. V�, toca a levantar.

Sapatos.

V�...

Um bra�o, agora o outro.

- N�o consigo respirar. - Faz o que te digo e agarra-te a mim.

Anda.

D�-me a m�o.

Deixem passar!

A senhora est� bem?

Estamos a perder o controlo da hist�ria.

A oposi��o est� danada. Temos de replicar.

Replicar como?

Sugiro a abertura de um inqu�rito p�blico.

Um inqu�rito � caro.

As pessoas est�o furiosas. Somos vistos como culpados.

De qu�? � nevoeiro! Nevoeiro � nevoeiro.

Aparece e desaparece.

Que bom que o primeiro-ministro ainda arranja tempo para brincar.

Talvez deva lembr�-lo da gravidade da situa��o.

Esta manh�, um comboio passou por cima de um grupo de funcion�rios da ferrovia

matando v�rios e ferindo muitos mais.

Em v�rias partes da capital, h� um colapso total da lei e da ordem.

Os hospitais est�o atolados porque os cidad�os londrinos

est�o a respirar fumos t�xicos...

�s vezes, temos sol.

Se temos sol a mais, chamam-lhe seca.

Depois, temos chuva.

Se for chuva a mais, chamam-lhe dil�vio

e tamb�m tratam de nos culpar por isso.

� interven��o divina, Bobbety. � o tempo.

Quer queiramos, quer n�o, apanhamos bom e mau tempo na ilha.

Francamente, h� assuntos mais urgentes para tratar.

- Como o qu�? - O duque de Edimburgo!

Tem uma chamada. � o marqu�s de Salisbury.

- Agora n�o. - Pede para dizer que � importante.

- Bobbety. - Obrigado por atender, Dickie.

- Est� sozinho? - Estou.

Algu�m pode ouvir o que est� a dizer?

- N�o. - �ptimo.

- � o caos! - Eu sei.

As enfermarias est�o cheias, os corredores idem.

Muitos m�dicos est�o doentes, os que est�o bem n�o conseguem vir.

Nem na guerra estivemos t�o mal.

De que precisam? Mais equipamentos? Mais m�scaras?

As m�scaras s�o s� uma fachada para o governo ficar bem visto.

- O que � necess�rio? - Dinheiro, gente, pessoal treinado.

Precisamos de ajuda e com urg�ncia.

Deixe-a descansar, por ora.

Talvez possa falar com pessoas que fazem a diferen�a.

- Como quem? - O primeiro-ministro, por exemplo.

Vai a Downing Street sussurrar-lhe isso ao ouvido?

Mais ou menos isso.

O meu dia j� est� mau o suficiente sem levar com piadas de alucinadas.

Com licen�a. Enfermeira? Enfermeira?

- Vai ver. - Saia do caminho.

- Jim, onde est�s? - Aqui.

Chamem uma ambul�ncia!

Quanto tempo mais vai dar ao velho? A maioria � pequena.

Basta uma mo��o de censura e o governo ser� derrubado.

Sabe o que ele lhe chama?

Sei. Cordeiro em pele de cordeiro.

Talvez seja altura de provar que n�o o �.

Muito bem. Vamos redigir uma mo��o e informar os l�deres parlamentares.

- Boa tarde. - Obrigado.

A RAINHA

- Alguma coisa interessante? - Sim.

- Podes partilhar comigo? - N�o.

Adoraria mostrar-te diagramas de gradientes adiab�ticos

como um acordo de troca por troca.

Um planeio em troca de alguns minutos no conselho de ministros, por exemplo.

N�o? Um �ngulo diedro ou um tecto absoluto.

S�o conceitos muito interessantes que podes aprender

em troca de um relat�rio do Minist�rio dos Neg�cios Estrangeiros.

� preciso voltar a explicar a minha posi��o?

- N�o. - �ptimo.

"Depois de experimentar voar, passar� a andar de olhos postos no c�u,

onde esteve e para onde desejar� sempre voltar."

Sabes o que torna isto extraordin�rio?

Diz l�.

Foi escrito 300 anos antes de o Homem entrar num avi�o.

Leonardo da Vinci.

Philip, eu sei...

Lorde Mountbatten, Majestade.

- O que faz o meu tio Dickie aqui? - Sei tanto quanto tu.

- Disse que era importante. - Obrigada.

Elizabeth.

- Ol�. - Vim assim que pude.

Ent�o...

A reuni�o � com a Elizabeth, a tua sobrinha, minha mulher?

- Ou com a rainha? - Com a segunda, desculpa.

Certo, ent�o j� conhe�o o meu lugar.

- O que � que ele tem? - Nada.

S� se sente um pouco preso. Ignore-o.

Muito bem, sou toda ouvidos.

Hoje recebi um telefonema do Bobbety Salisbury.

Parece que, mesmo entre os pares, a opini�o � que o primeiro-ministro

n�o � capaz de lidar com uma crise nacional.

Pode mesmo estar a ser visto como o respons�vel por essa crise.

Os hospitais est�o atolados, as pessoas est�o a morrer.

Como soberana, tem o direito de exigir

que um governo em seu nome mostre uma lideran�a eficaz.

A oposi��o vai avan�ar com uma mo��o de censura.

Como tal, diria que chegou a hora

de convocar Churchill e...

E o qu�?

Insistir para que ele saia.

- N�o posso fazer isso. - Pode e deve.

Isso n�o seria uma viola��o da Constitui��o?

Como rainha,

tem o direito de ser consultada,

o direito de encorajar, de avisar

e de nomear um novo primeiro-ministro na eventualidade da sua incapacidade.

E muitos diriam que o comportamento de Churchill

constitui agora uma incapacidade.

- A revolu��o que venha de dentro. - Est�o a esfor�ar-se nesse sentido.

Ent�o, esforcem-se mais.

� o que far�o, mas preferiam que n�o houvesse sangue.

Por isso, pedem a sua ajuda e influ�ncia.

N�o posso nem vou fazer isso.

N�o esque�amos que foi Churchill

quem negou aos filhos do Philip o apelido do pai.

- Dickie. - E insistiu que morassem no pal�cio.

Como todos moraram.

E, agora, com pilhagens nas ruas

e os corredores dos hospitais cheios de mortos,

ele s� se interessa por uma coisa:

impedir o Philip de voar.

O qu�?

No conselho de ministros de hoje,

onde s� se devia falar da crise que a na��o enfrenta,

o primeiro-ministro s� quis discutir

o novo passatempo do seu marido.

- Sinto muito. - Quem s�o os pais dela?

O pai dela � um cl�rigo, de Suffolk.

- J� foram notificados. - Quero ir ao hospital.

H� uma reuni�o na C�mara na qual o senhor deve comparecer.

A C�mara que espere.

- Deseja falar comigo, Majestade? - Sim, Tommy.

Sei que o meu pai contava muito consigo

e que trabalhavam com grande proximidade,

raz�es pelas quais lhe pe�o um conselho hoje.

Parece que o primeiro-ministro,

um homem que liderou o pa�s em v�rios per�odos de crise,

j� n�o nos est� a liderar.

Foram-me feitas solicita��es

atrav�s de um intermedi�rio do governo

para interceder e pedir que ele renuncie,

passe a pasta a um homem mais jovem,

o que me traz � minha pergunta.

Quais s�o as minhas responsabilidades como chefe de estado?

O que devo fazer?

Quando � pelo interesse nacional, at� onde posso ir?

N�o sei se Vossa Majestade sabe, mas, pouco antes da morte do seu pai,

o Ministro dos Neg�cios Estrangeiros, Sr. Eden,

veio implorar que o rei interviesse,

se n�o a n�vel oficial, ent�o como amigo,

para pedir ao primeiro-ministro para renunciar.

- E o que disse o meu pai? - Bem...

Sua Majestade era, como o pai fora, muito fiel � tradi��o e �s conven��es

e jamais faria algo que violasse a Constitui��o

ou ultrapassasse os limites.

- J� tenho a minha resposta. - Mas isso foi o rei, n�o a rainha.

E eu leio os jornais, ou�o o r�dio

e a situa��o que vivemos hoje

� muito diferente daquela que viv�amos quando o Sr. Eden procurou o seu pai.

Outra situa��o, outro soberano.

Espere por mim aqui.

Senhor primeiro-ministro?

Era apenas uma crian�a.

Uma linda crian�a.

Acabo de ter not�cias do Pal�cio de Buckingham.

- A rainha pediu uma audi�ncia. - Para quando?

O mais depressa poss�vel.

"Um po�o de energia, esperan�a, paix�o e fogo."

Senhor primeiro-ministro?

- Os jornais sabem que estou aqui? - N�o.

- Mas isso � f�cil de conseguir. - Ent�o, trate disso.

E diga � rainha que irei amanh�, logo pela manh�.

Depois de sa�rem os jornais.

Hoje...

Santo Deus...

Santo Deus.

Entrem. O primeiro-ministro chegar� dentro de instantes.

- Est�o prontos. - Sim, s� um momento.

Sil�ncio, por favor!

Sr. Churchill?

Hoje presenciei, neste hospital,

cenas que n�o via desde os dias mais sombrios do Blitz.

Mas, al�m do sofrimento, tamb�m vi puro hero�smo.

E, onde h� hero�smo, haver� sempre esperan�a.

Apenas Deus pode dissipar o nevoeiro,

mas eu, como primeiro-ministro,

tenho o poder de aliviar o sofrimento.

Para tal, pe�o a disponibiliza��o imediata

de mais fundos para equipas m�dicas,

equipamento e um inqu�rito p�blico completo

sobre as causas da polui��o a�rea

UM VERDADEIRO L�DER NA CRISE

para assegurar que tal calamidade

nunca mais volte a recair sobre n�s.

Obrigado a todos.

"O primeiro-ministro foi o �nico pol�tico

a visitar hospitais e a responder � crise pessoalmente

e foi recompensado com as aclama��es e os aplausos

de quem sofre com a maior nuvem de fumo que j� vimos."

Na manchete l�-se "Um Verdadeiro L�der na Crise".

O primeiro-ministro chegou.

"Os paralelos entre a sua apari��o de ontem

e os anos da guerra foram impressionantes

e a sua popularidade junto do povo mant�m-se inc�lume."

Estou?

Clem, ainda est� a�? Estou? Clem?

Clem, consegue ouvir-me? N�o? Est� bem...

O primeiro-ministro, Majestade.

Vossa Majestade.

- Mandou chamar-me? - Mandei.

H� uma quest�o delicada

que achei que devia tratar consigo pessoalmente.

E que quest�o � essa?

O seu lugar.

O meu lugar?

Sim, o seu lugar...

... como primeiro-ministro.

Prossiga.

Nessa altura, ela hesitou e pediu-me

para escolher entre Khawaja Nazimuddin, do Paquist�o,

ou Sidney Holland, da Nova Zel�ndia.

- Para qu�? - Para ficar ao p� de mim no jantar.

N�o posso crer. Ela chamou-te para isso?

N�o, acho que me chamou para me dar um raspanete por causa do nevoeiro,

mas a neblina dissipou-se

e ela teve de tomar uma decis�o ali, naquele preciso instante, no sal�o.

Dava para ver as engrenagens por tr�s dos olhos dela

e ela mudou de t�ctica sem hesitar, a espertalhona.

- Espertalhona, n�o. Arguta. - Porqu�?

Porque me desarmou e tamb�m me obrigou a mudar de t�ctica.

Em rela��o a qu�?

A deixar que o Philip aprenda a voar.

- Agora j� pode. - �ptimo.

Mas ainda deve pedir permiss�o para dar voltas e reviravoltas.

O que foi, minha querida?

E se o nevoeiro n�o se tivesse dissipado?

E se o governo tivesse continuado a debater-se?

E se as pessoas tivessem continuado a morrer?

E se Churchill tivesse continuado agarrado ao poder

e o pa�s tivesse continuado a sofrer?

N�o me parece certo, como chefe de estado, n�o fazer nada.

- � o mais certo. - �?

Mas n�o fazer nada � n�o trabalhar.

N�o fazer nada � o trabalho mais dif�cil de todos.

E consome toda a tua energia.

Ser imparcial n�o � natural, n�o � humano.

Haver� sempre quem queira que sorrias, concordes ou franzas o sobrolho

e, ao faz�-lo, marcas uma posi��o, um ponto de vista.

E � a �nica coisa, como soberana, que n�o tens direito de fazer.

Quanto menos fizeres, disseres, concordares ou sorrires...

Ou pensar? Ou sentir? Ou respirar? Ou existir?

... melhor.

Isso � bom para a soberana,

mas como � que eu fico?

Diga l�.

Quanto tempo demoro a tirar o brevete?

Um aluno passaria, normalmente, 100 a 120 horas num destes.

Acha que consigo em tr�s meses?

Isso seria invulgar.

Aprendo depressa e, acredite, n�o tenho mais nada que fazer.

Reparei que encheu o dep�sito.

- D� 68 litros? - Sim.

- Vamos almo�ar a Edimburgo? - Edimburgo?

Sendo duque de Edimburgo, devia ir l� de vez em quando.

- A n�o ser que tenha compromissos. - N�o, Alteza.

�ptimo. Vou ajustar as rota��es e a velocidade para um voo longo.

Teremos de pousar para reabastecer no RAF Finningley.

- A s�rio? Onde fica? - Em Doncaster.

Em Doncaster? Est� bem.

O Grande Nevoeiro persistiu de 5 a 9 de Dezembro de 1952.

Um relat�rio revelou posteriormente que matou entre 3500 a 4000 pessoas.

Estudos mais recentes indicam uma taxa de mortalidade de at� 12 mil.

A Lei do Ar Puro de 1956 foi promulgada para evitar a repeti��o da crise de 1952.

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