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Meu coração, não sei porquê
Bate feliz quando
te vê E os meus olhos ficam
sorrindo E pelas ruas vão te seguindo Mas mesmo
assim
Foge de mim.
Agora são dois terços de xícara? Isso aí é um copo, não é uma xícara, hein? Mas
tá bom.
Tá, então mexe em movimentos circulares e vai acrescentando água aos poucos, mas
não pode parar de mexer.
Estão tocando aí, Paulo. Eu sei, mas agora eu não tenho condição, não posso
parar de mexer.
Oi!
Tem alguém aí?
É urgente! Paulo, acho melhor você dormir.
Tá, eu ligo pra você depois.
Oi, tudo bom? Prazer, é o seguinte.
Eu me mudei pro apartamento aqui de baixo, quer dizer, na verdade eu tô
cuidando do gato do meu amigo que foi viajar.
Eu sou até alérgica a gato, inclusive, na verdade.
Mas vai passar já, porque eu tomei um anti-alérgico.
Por que as pessoas se apegam tanto a gato, né?
Sei lá, acho esquisito. Você não tem um clonazepam?
Matia maconha?
Pau!
Caramba, eu não tô acreditando. Como é que você vem parar de cuidar de gato?
Meu Deus do céu!
Meu Deus do caramelo!
Agora, eu sempre fui péssimo em química. Você não lembra que eu quase botei fogo
no laboratório?
Tem ou não tem? Uma fluoxetina também? Um bromazepam? Mas daquela vez que a
gente roubou o Santo Antônio do altar da escola e botou a plaquinha dizendo foi
almoçar, volto logo. E a nossa corrida de saco?
Lembra disso? Você tem o troféu ainda?
Não tenho. Eu não guardei.
Que saudade.
Você está cada vez mais linda. Vamos na farmácia?
Vamos.
Então quer dizer que você trocou a maconha pelo clonazepam? Cara, maconha
eu parei faz muito tempo. Agora eu tô só no legalizado, assim, remédio, álcool,
os carros.
Mas clonazepam pra mim é muito segunda, quarta, sexta, terça, quinta, sábado, é
mais um bromazepanzinho, uma floccitinazinha, entendeu?
Rainha, obrigada. Coisinha mais leve, né?
E aí, melhor?
Sim. A vida é química, né?
Faz sentido. Gente, isso é muito bom. O quê? A vida é química. Eu vou tatuar
isso nesse braço aqui, ó. O que você acha aqui dentro, que não tem nada?
Ou só a tarja preta? Só uma tarja preta grande aqui? Não, a tarja preta é vício.
O que é isso, Paulo? Um caretor, é? Eu? É.
Eu? Ah, pelo amor de Deus, Martinha, parece que você não me conhece. Eu sou
maluco saudável, agora careta jamais, que isso, careta.
Desculpa. Não, eu sou loucaço. É? Eu parecia um pouco, você é um pouco... Eu
não, eu gosto de... É, claro, eu sou sapé, cara. Sapadão? Eu sou, muito.
Muito? Muito. Sem diário? Uhum.
Gostoso? Me cansei de lero-lero.
Dá licença, mas eu vou sair... Oh, para aí, desculpa, desculpa, desculpa.
Pera. O que foi? Não, daqui a uns minutos eu vou estar mais relaxada. Ah,
eu gostei dessa ideia, hein?
Gostou? Gostou muito?
Quer?
Quero, claro.
Vamos ficar louco, né?
Vamos curtir. Não,
tô acostumado.
E aí,
bateu?
Parece que eu acordei num domingo.
E aí notei que era cedo demais e virei pro lado.
E ainda era domingo.
Cedo.
Você conhece o meu amigo que mora aqui embaixo, seu vizinho? Ele falou que o
vizinho dele era legal.
Que rolava umas festas aqui.
Que o pessoal era gente boa.
Ele achou que era uma república, na verdade. Já foi república aqui? Não, né?
Você tem cara que nunca casou, Paulo. Você já casou, não, magrinho, né? Você
não casou, não.
Aliás, esse caramelo aí que você tava fazendo, se você tiver pra receber
visita, pode me falar que eu saio, tá?
Eu não tenho problema nenhum com isso, não.
Ih!
Bateu. As aulas vão rolar, não vou chorar.
Se por acaso morrer no coração... Bom
dia, bom dia, bom dia, bom dia, bom dia, bom dia, café.
Bom dia.
E rodiolã, já tomou?
Hum?
Rodiolã. Tira o cansaço, elimina a fadiga e dá energia.
Bora correr na praia?
Acho que vou ficar só no café.
Ótimo, café e nervida.
Eu vou lá embaixo pegar um tênis e uma roupa de correr, tá?
Dormimos juntos e não transamos. O nome disso é evolução.
Não, não é uma evolução porque você não teve escolha. Você tombou com o remédio?
Ah, eu acordei e também não fiz nada.
Por enquanto, né?
É. Agora a gente vai correr.
Correr? Na praia? Isso sim que seria uma evolução.
Agora eu não entendi.
Vocês foram namorados, é isso? Não, não.
Estudamos juntos.
A gente aprontou muito, nossa.
Ela era ótima de corrida de saco, sabe?
Ela realmente é muito interessante.
Só o café dela que é péssimo. Nem me fala, eu ando enjoadíssima de café.
Ah, ela deve ter algum remédio pra isso, que ela tem remédio pra tudo.
Hipocondríaca? Não, eu diria viciada em química.
A vida é química, né, Laura?
Tem que desligar. Beijo. Depois eu falo com você, tem que desligar.
Bora partir correr na praia? 12 quilômetros, vamos?
Endorfina é uma droga muito poderosa. É, eu tinha pensado num outro tipo de
esporte. É, um esporte aeróbico, aeróbico? É, uma mistura de crossfit com
funcional e lambar.
Que bom, porque esse energético também foi muito poderoso.
Cuidado, hein? O que é isso? Feito de pimenta caiana, safrão da terra,
gengibre, canela, ingrediente secreto e limão.
Não,
não, não
E aí E aí
E
aí
Esse teto, esse lustre é igual do meu amigo aqui debaixo.
Ele falou, vem baixinha pra minha casa, você vai adorar.
Eu achei que a gente ia passar o final de semana junto.
Mas não, ele só queria que eu cuidasse do gato dele pra ele viajar.
As pessoas, elas não sabem... Elas não sabem ser amigas mais.
Cadê a empatia?
O universo tá expandindo, mas é pro lado errado, Paulo.
Vai ficar cada um boiando no universo sideral. Cada ser vivo cada vez mais
sozinho.
Cada vez mais triste.
Não, calma, calma.
Tá tudo bem, não é assim.
Calma, cadê o seu clonazer pra estar na sala?
Ah, eu vou pegar pra você, calma.
Vem cá, vocês acham que eu devo dar dois pra ela?
Não, remédio não. Remédio faz mal. Dá logo uma dose de uísque. Não, uísque
não. Se ela tá mal, vai piorar. Açúcar. Você tem goji berry em casa? Eu acho que
tenho. Mas açúcar é uma droga ótima. É verdade.
Brigadeiro com ovo na receita.
Ovo tem ferro. Brigadeiro com ovo, goji berry.
Gengibre. Gengibre. Gengibre não tem erro?
Ferro. Por que vocês estão sentadinhos assim, um do lado do outro? Quem é que
tá segurando o celular?
Ah, nós estamos gravando nosso canal online. Você está atrasando as
gravações, depois eu te mando um link.
Um beijo, tchau. Ô, Paulo.
O universo começou numa dor e terminará numa lágrima. Isso é super bonito. Eu
quero começar o próximo com essa fala.
Tá. Mais louco é quem me diz e não é feliz.
Pode ser?
E a ação? Pode ir.
O universo começou com uma dor e terminará com uma lágrima.
Se você aí tem alguma dúvida sobre o que é mais forte, Prazer ou a dor, basta
comparar o prazer do animal que devora com a dor do bichinho que é devorado.
Não entendi. Como é que eu vou comparar o prazer de comer um caranguejo com a
dor do caranguejo?
Simplifica. Prazer e dor são irmãos.
O amor é muito possessivo, muito possessivo.
O cupido vem, lança uma flecha, crava, dói.
Depois você vai retirar a flecha, dói. Mais, mais ainda.
Eu, por exemplo, com o amor da minha vida, eu fiz tudo errado.
Tudo errado, porque eu não tenho nenhum conselho que funcione para dar para quem
quiser ser mais feliz, para quem quiser viver em paz.
Além disso, eu acho uma bobagem gravar esse vídeo.
É uma bobagem, porque aquilo que você não aprende por você mesmo, você não
aprende de jeito nenhum. Dito isso, eu encerro aqui a minha carreira de
influenciador dessa coisa aí. Digital.
Digital.
Você nasceu para isso, tá?
Corta.
De onde veio isso, tem muito mais. Curta, compartilhe. A gente quer
biscoito.
Ei.
Oi.
E aí?
Tá tristinho ainda?
Eu? Triste por quê? Eu tava rindo.
Não, eu tava chorando. Ah, não, mas pra você saber se eu tô triste, tem que ver
se eu tô rindo.
Quando eu tô rindo demais, aí é tristeza demais.
Eu só choro de felicidade.
Entendi.
Que isso?
Uma quente?
Pois é, pra você.
Eu fiz também brigadeiro, cuidado que tá quente.
Mas chocolate é bom porque libera dopamina, que é uma droga potentíssima
que causa sensação de felicidade.
É por isso que chocolate me dá vontade de chorar.
Eu gosto.
Tá uma delícia, amor.
Tá gostoso?
Tá gostoso.
Não uso mais droga, tomo ansiolítico, em estado
crítico, na crise de pânico, propofol
orgânico.
Vitinha besta, vitinha furreca,
vitinha chifrinha, vitinha de meta.
O que foi que a gente comeu mesmo?
Tô me sentindo meio mal.
Você tá bem? Tô triste, Laura.
Eu não gostei dessa coisa de youtuber, não.
Gosto de falar com as pessoas olhando pra elas, olhos nos olhos.
Sabia que os olhares conversam mais que as palavras?
Que lindo isso.
Vamos fazer um vídeo sobre a força do olhar? Não.
Vai, vamos.
Ó, quem sabe a Glorinha assiste lá de Amsterdã?
Se anima? Glorinha não me ama mais.
Se bem que você disse que eu fico com aparência mais jovem no vídeo, não é?
Era verdade isso?
É, super.
Quem sabe ela vendo, ela lembra dos nossos tempos e se anima, né? Vamos,
vamos fazer.
Vamos? Vamos, vamos, vamos.
Outra pessoa, outra pessoa. Laura, não te assusta essa distância tão curta
entre a depressão profunda e a euforia, não?
Você tá parecendo Martinha Maconha, hein? Versão sem drogas. A paixão é uma
droga violenta. Vamos falar sobre isso. Vamos falar sobre a influência dos
agentes externos na modulação dos sentimentos românticos no homem moderno.
Não, simplifica.
Tesão e química, Laura.
Maravilhoso.
Ação.
A paixão.
Ai, que saco.
Adivinha quem é.
Paulo.
Oi, tudo bem? Você tá atrapalhando o vídeo.
A Martinha tá no hospital.
O que aconteceu?
Não vi. Eu acho que ela tomou alguma coisa, porque ela estava chorando. O que
quer dizer que está tudo bem, porque quando ela começa a rir muito é porque
ela está triste, entende?
Claro. E aí, de repente, apagou.
Vamos sair daqui?
O que é isso? Acabou de chegar.
Só dá uma saidinha. Só dá uma saidinha. Tem um cheiro horrível aqui, né? Muito
ruim.
Laura, você vai quebrar a janela do hospital, Laura. Pelo amor de Deus.
Esse hospital está me deixando enjoada.
Você tá grávida.
Quê?
Não, isso é impossível.
Impossível? Como assim? Você não vê TV, não vê filme, não? Dez entre dez pessoas
que dizem que estão se sentindo enjoadas é porque estão grávidas. E as que estão
com dor de barriga? São homens.
Fala da Martinha. Como é que ela tá?
Estão acabando de fazer uma lavagem estomacal nela. Ela deve estar se
sentindo péssima.
Eu adorei a lavagem estomacal, eu adorei. Parece que eu nasci ontem, eu tô
nova, tô limpa por dentro. Sim, você tá limpa por dentro.
Você já fez amizade com o médico?
Qual? Lucas dos Santos.
Eu vi o nome dele no crachá. Não.
Mentira que é a Laura. É a Laura. Laura!
É a Laura!
Vem cá!
Nossa!
Fátima também.
Linda!
Ai, esse soro tá... Quer que chame alguém? Não, tá me deixando maravilhosa.
Quer um pouquinho?
Quero, acho que vai cair bem um soro. Não, não, não. Nem brinca porque a Laura
tá grávida. Para com isso!
Ponto final dessa história, que eu não tô grávida. Eu não consegui entender
você. Você sempre quis engravidar. É, mas isso era quando eu achava que eu
podia ter um filho antes dos 40. Com licença. Olha quem chegou.
Lucas dos Santos, que saudade. Lucas dos Santos, eu falo.
Tenho um pedido muito, muito, muito especial pra te fazer. Você é
sagitariano? Você tem cara de sagitariano, não tem?
Vem cá, quanto tempo que eu tenho que esperar pra fazer outra lavagem dessa,
doutor? Doutor Lucas, o senhor acha que a gente consegue abrir a janela do
quarto? Melhor não, né?
Você vai terminar com a Martinha aqui, no hospital?
Ela é animada demais.
É demais pra minha cabeça. Eu não tô dando conta, não. Eu vou comer alguma
coisa. De repente, me deu muita fome. Mica, esse filho pode ser meu? Eu não tô
grávida. E não, não pode. A gente só transou de camisinha.
Você seria uma linda mãe.
Seria? Ou serei?
Porque você tá grávida? Não.
Quer dizer, não.
Vamos focar no seu problema. O que você vai dizer pra Martinha? Eu vou falar. Eu
acho que nós estamos sendo um pro outro. Como é que eu posso dizer?
Tóxicos. Boa. Não, não é boa. E eu acho que você pode seguir o seu caminho e eu
seguir o meu, porque eu realmente não tenho saúde pra acompanhar você.
Sr. Paulo? Ótimo.
Com licença.
Oi. Aqui tá a alta da senhora Marta. Ótimo. Uma coisa importante.
Não deixa ela sozinha nem um minuto.
Ok?
Tá?
Por que mesmo que eu aceitei vir pra cá com vocês?
Porque você não queria ficar em casa sozinha, pensando na possibilidade de
estar grávida.
Desculpa, eu não tô legal, gente.
Eu não tô legal, tô sentindo uma dorzinha de cabeça, assim, no fundo da
minha cabeça.
Acho que eu precisava de um remedinho. Não, nem pensar.
Foca aqui, no portal de Brandemburgo. Olha lá, olha que maravilha.
Ih, cachumis, mulher!
Caramba, agora vamos ver essa janelinha aqui. Onde será que está a pecinha que
casa aqui? Eu comi, Paulo.
Eu comi, eu engoli. Vocês estão me tratando que nem criança. Eu não sou
criança, não. Eu vou descer.
Olha o brigadeirinho aqui, ó.
Ah, eu quero.
Hoje é dia 15?
É dia 15. Eu vou ficar viciada em você.
Acontece muito.
Mas tem tratamento. Maria Alice, por exemplo, foi se internar em Berlim. Olha
que chique.
Gente, o meu filho é do Luiz Arthur?
Que Luiz Arthur?
Luiz Arthur, aquele idiota que você transou uma vez na vida?
Mais uma vez pra engravidar. Peraí, quer dizer que com o Luiz Arthur você não usa
camisinha? Agora eu, que sou seu amigo há milhões de anos, tenho que usar.
Vocês transam? A gente transava passado, não se preocupa, não.
É, Paula, porque homem casado é um desastre com camisinha, né?
Ai, desculpa que eles dão.
Óbvio. É, eu sei, mas eu aceitei a desculpa e agora eu tô aqui com o filho
na barriga. Calma, não é melhor você fazer o exame pra ter certeza?
Caramba, Martinha, você sobra de uma sensatez.
Eu sou o verdadeiro pai dessa criança. Não é, não. Sou sim, senhora. Não é.
Sou. Gente, vocês querem que eu saia? Não, não, não, não. Olha só, ela só
transou com o idiota do Luiz Arthur porque ela estava brava comigo.
Ou seja, eu sou o pai da ideia de você transar com o idiota do Luiz Arthur.
Logo, eu sou o verdadeiro pai dessa criança.
Eu realmente preciso de um remédio de dor de cabeça. Gente, é sério. Gente,
pelo amor de Deus. Toma um remédio.
Pronto. Cada um com suas prioridades. Eu preciso descobrir se minha vida mudou
pra sempre.
Boa sorte.
Paulo, pelo amor de Deus. Peraí, peraí. Não brinca comigo. Eu tô sensível. Eu
acabei de descobrir que eu vou ser pai.
Resisti.
Não tenho quebra-cabeça em vez de tomar o remédio. Aê!
Agora vamos pra drogas mais fortes, ó. Então, mas agora eu posso, né? Não. Eu
mereço um prêmio! Eu me esforcei muito! Calma, Martinha, não tá aqui o prêmio.
Pronto, biografia, livro de contos ou ficção científica.
Eu quero um relaxante. Não, mas olha só, a literatura também relaxa. A leitura
relaxa o cérebro, relaxa os músculos, diminui a frequência cardíaca. É
igualzinho um clonazepam.
Nem fala clonazepam, que já me dá água na boca.
Ó.
Eu vou só descer no apartamento um segundo pra ver se o gato precisa de
alguma coisa. Não, Martinha, Martinha, peraí. Não, eu tô tentando ajudar você.
Parou, parou, parou. Eu sei.
Eu sei, obrigada.
Meu bem, você me dá água na boca.
Vestindo fantasias, tirando a roupa.
Que foi?
Esse beijo teve efeitos colaterais. Ah, é? Quer mais uma dose?
Quer, né?
Eu tô achando que a ausência de remédio tá deixando você mais sensível.
Ninguém me ouça.
Mas sabe o que eu tô achando bom?
Saber que pode melhorar?
Deixa eu ver.
O prazer sexual ativa áreas do cérebro semelhantes às afetadas pelo uso de
drogas como cocaína. Oh, ainda é saudável, né? E de graça.
Existe também, em alguns casos, a melancolia pós-coito. Uma pesquisa
mostra que um terço das mulheres já se sentiu triste... Não, não, não.
Nada de melancolia pós-coito.
Verdade.
Não existe medida exata para o excesso de sexo. Há pessoas que ficam
satisfeitas com uma vez por semana, enquanto outras precisam de quatro vezes
ao dia.
Eu tô achando que eu tô com um pouquinho de depressão pós-coito.
Eu acho que eu tô com fome pós-coito, na verdade.
Ah, não seja por isso. Então você vai ter uma overdose.
Sim, a paixão vicia.
Que nunca passou pelos sintomas de abstinência recaída.
Assim como as drogas, a gente sempre quer mais.
Como dizia Camões, é um nunca contentar-se de contente.
Camões estava falando de amor, não de paixão. A paixão é a única moeda cósmica
que existe.
Sou ou não sou o melhor namorado do mundo?
Ai, amor.
A gente não tá namorando, né? Eu acabei de ver o vídeo do seu amigo Cabral, ele
tem toda a razão. Meu Deus do céu, eu tô com medo de perguntar o porquê. Ele
falou de tudo que eu sinto com os remédios, só que falando de paixão
agora. Por que você tá vestida?
Porque ele falou das infinitas possibilidades de química, das
combinações da paixão entre os diferentes corpos, entendeu?
Eu preciso experimentar isso.
Você quer experimentar o outro corpo? Eu quero experimentar todos os corpos,
Paulo, todos!
Faz logo esse exame, menina.
Se der negativo, Cabral... Ué, a gente achou que o teu medo era o contrário,
né, Oliveira?
Pois é. No começo eu queria muito engravidar. Aí eu não achei o parceiro.
Aí eu parei de pensar nesse assunto.
Aí eu fui lá transar com um cara sem camisinha. Aí a minha menstruação, que
nunca atrasa, atrasou.
Aí agora que existe realmente a chance de eu estar grávida, eu estou apavorada
com a chance de não estar.
Só tem um jeito de saber.
Vai.
Eu entendo sua agitação, mas é porque... Obrigada, obrigada. Você foi tão
incrível comigo.
Obrigada. Te tirei de um vício, te coloquei em outro e acabei sozinho.
Parece que não deu certo, né? Claro que deu.
Claro que deu. Lembra que eu estava agitada, estressada, estava espirrando,
chorando à toa, rindo demais, muito louca? Estou igual!
Eu tô igual, eu tô toda arrepiada, eu tô a flor da pele. Eu tô com vontade de
sair pela rua gritando, tirando a roupa, abraçando as pessoas.
Só que dessa vez eu não vou parar numa farmácia. Ah, é bom passar pelo menos
pra comprar camisinha.
É verdade, uma passadinha na farmácia.
Isso é incrível, sabia?
É, mas eu não causo dependência.
Ah, melhor assim.
Ah, mais uma coisa.
Você pode dar comida pro cachorro?
É um gato. É um gato.
Você não é comida preta. Você já tá indo pra rua? Já tá com corpos agendados?
Sei lá, eu vou arriscar.
Vou me jogar.
Vai saber.
Eu vou tomar um porre de gente, Paulo.
Ninguém me segura!
Te amo. Perfeito.
Maravilhoso. Obrigada.
Beijo. Beijo pro gato.
Não vou fazer. Eu não lido bem com decepção.
Nem eu.
Então você quer começar a sua experiência comigo.
Seu canal me inspirou muito.
Então é você que assiste. Tá salvo nos meus favoritos. Uma honra pra mim.
Não. A honra é toda minha.
Foi Deus que inventou a paixão. Depois veio o ser humano e inventou o amor
estragando tudo.
Uma invenção grigosa, subversiva.
Uma mentira.
Uma ilusão horrorosa pra compensar a angústia diante da morte iminente.
Acho que eu tô me apaixonando.
Calma, calma, calma.
Não por isso.
Por gentileza, o resultado de exame é onde?
Põe à esquerda. Obrigado. De nada.
E aí?
Tô apavorada. Apavorada e grávida?
Sim. Falei pra você.
Parabéns, irmão.
Conseguiu.
Parabéns.
O que era? Tudo o que você queria, mas não agora.
Agora eu nem sonhava.
Era tudo o que eu queria.
Aconteceu quando eu nem sonhava.
E agora eu não sei mais se eu quero.
Há uma estratégia que repousa no fundo de toda consciência.
Contra a morte, a única reação possível é procriar.
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