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Original subtitles

É Gorgonzola!

Esse queijo tem esse nome

por causa do nome da cidade onde ele foi inventado,

na Itália, ali bem pertinho dos Estados Unidos.

Esse queijo é um dos queijos mais antigos da história,

tem mil e tantos anos que se inventou esse troço.

Foi uma iluminada, uma fêmea, que olhou pra aquele negócio assim,

com tudo verde, com uns filetes de ranho aparecendo, comeu e falou:

"Ê, queijo bom! Queijo bom, rapaz!"

Foi assim, eu vou explicar:

o vaqueiro estava voltando pra casa

depois de ficar o dia inteirinho em cima do cavalo, tangendo gado, essas merdas.

Claro, porque o sujeito tinha que levar pão e leite pra casa,

porque a patroa daquela época

já exigia que o cidadão trouxesse comida no final do expediente.

Então, veja só, estava ele lá...

...com uma sacola de couro cheia de leite, nas costas, pendurada,

e aí chega em casa.

Quando chega em casa, ele salta do cavalo,

pendura a sacola na varanda e vai guardar o cavalo.

Só que nessa, ele chega, entra em casa,

abre a porta, fecha a porta e não sei o quê.

E esquece a porra do saco pra fora.

Imagine só, vira a noite, o leite coalha lá, "penduradão".

No dia seguinte, a mulher vê aquele negócio ali,

fica "arretada" e pensa assim: "Essa porra vai ficar aí até ele tirar!

Onde já se viu? Homem caça e homem deixa. Ai, ai."

Aí, passa o dia, o cidadão volta no final do expediente

e vê que a mulher não tinha tirado porra nenhuma.

Fica "arretado" também, vê aquela porra e diz: "Que se foda!"

Passa mais um dia e o solzão em cima.

Imagine só que bosta que não ficou aquela disgrama.

Veja bem, porque a mulher, naquela época,

era um pouquinho menos teimosa do que hoje em dia.

Vendo que o cidadão não ia arredar um dedo pra tirar aquela porra de lá,

foi jogar no lixo que, mil anos atrás, era em qualquer lugar,

menos pendurado na varanda.

Aí, vai ela lá, enterrar aquele negócio,

só que mulher é curiosa pra caralho.

Ela olha aquele negócio ali e aí vê o quê?

Vê que o leite tinha virado queijo.

Ô, Alecrim!

Esse Gorgonzola pode ser o queijo do caralho que for, meu irmão.

Tu pode fazer o que quiser com ele,

mas esse negócio não vai ficar aqui dentro nem fodendo!

Primeiro, Raimundo Nonato foi um santo:

São Raimundo Nonato.

Quando ele estava pra nascer, em cima da hora mesmo, a mãe dele morreu.

A sorte é que os médicos daquela época eram bem melhores que os de hoje.

No apuro, um médico enfiou a faca na barriga da mulher morta

e tirou o menino de lá. Vivo!

Depois desse milagre, virou costume:

qualquer um que nasce de parto assim, mais dificultoso, pega o nome do santo.

Foi o que sucedeu comigo.

Raimundo Nonato.

Sou eu.

Vai o quê?

O senhor vê um copo d'água, por favor?

Só isso?

O senhor vê essas duas coxinhas, por favor?

Ei! Dá licença, estamos fechando.

Desculpe.

Desculpe, viu?

-Não está esquecendo nada, não? -Hã?

São três reais.

Não tenho dinheiro, não, senhor.

Já vi tudo!

Eu estava com fome.

Sei.

Como é que faz, então?

De graça não dá!

Não estou aqui para sustentar vagabundo.

O que eu posso fazer, hein, moço?

Tem uns pratos pra lavar aí na cozinha.

Você lava?

-Agora? -É.

Tá bom.

Vamos lá, então. Vou te mostrar a cozinha.

Vai, rapaz. Vamos.

-Eita, cozinha suja da porra! -Que foi?

Não, não.

É que vou levar a noite toda pra fazer isso

-e o senhor já está indo embora. -Eu durmo aqui em cima.

Eu posso ir embora e amanhã eu volto pra fazer o serviço.

Não seja por isso.

Depois que acabar tudo, você dorme naquele quartinho lá no fundo.

E pode?

Pode.

Mas é o seguinte, só lavar os pratos é pouco.

Dupla de salgadinho mais a hospedagem.

Você vai ter que lavar os pratos e o chão da cozinha também.

Tá bom, pode deixar.

Sim, senhor.

Mas, ó, estou de olho!

Qualquer barulhada, eu desço.

Como é teu nome?

Raimundo Nonato, às suas ordens.

Zulmiro.

Pode ficar tranquilo, viu, seu Zulmiro.

Raimundo Nonato era antes,

aqui na cana tem que ter outro nome.

Raimundo Nonato não vai funcionar aqui.

Vou ter que arrumar um nome mais de cadeia mesmo.

Nada de Alê, Pedrinho, Chico, Júnior, Alexander,

esses nomes de escoteiro.

Nome de bandido é...

...Gatilho, Catorze, Uê, Mão Santa.

Nonato, o Cozinheiro?

Não.

Depois da merda que eu fiz,

tem que ser um nome mais de homem do cangaço mesmo.

Nonato, o...

Canivete!

Nonato Canivete.

Nonato Canivete!

Sou eu!

Suíte especial pra Vossa Excelência, hein!

Vem, entra aí.

Ô, "Parmalat".

-O sapato. -Hã?

O sapato, porra! Tua mãe não te deu educação, não, caralho?

Aqui, não.

Ô, da faxina.

Pronto.

Dormiu bem, hein?

Até que ficou decente essa cozinha.

E cozinhar, você sabe?

Sei, sim.

Sabe fazer pastel?

-Sei não, senhor. -Quer aprender?

Põe um pouco de pinga aí na massa,

mas é pra massa, rapaz, não é pra beber.

Aperta isso aí, rapaz. Vamos!

Está com medo da massa?

Aperta isso, é igual bunda de mulher. Aperta!

É igual bunda de mulher. Aperta. Isso aí!

Põe um pouquinho de farinha agora. Isso.

Até que tá mais ou menos este pastel aqui.

Você pode ficar ajudando na cozinha, se quiser.

Pode?

Pode.

-E dorme no quartinho. -Tá bom.

Quanto é que eu ganho?

Não entendi. Ganhar?

Porra! O cara acabou de chegar da roça

e quer salário, benefício e o caralho a quatro?

Não, seu Zulmiro, é que eu...

Eu comi ontem e limpei ontem mesmo.

Agora, pra cozinhar hoje, tem que ver salário, essas coisas.

Você está pensando o quê?

Na cidade não é assim, não.

O cara chegou da roça agora, todo fodido, cagado, até cagou na calça.

Que fodido, o quê? Fedor estava no quarto.

-Fedido, ó. -Peguei o fedor do quarto.

Cala a boca!

Dá licença?

Quem está falando?

Eu! Eu, que tenho onde dormir.

E quem está ouvindo?

Você, mané, que não tem onde cair morto.

É o seguinte, te dou comida e casa. Rango e teto.

Quer, quer. Não quer, rua!

Seu Zulmiro?

Eu fico.

Está certo.

Como é teu nome mesmo?

Raimundo Nonato.

Ô, Nonato, vai fritando mais pastel, que eu vou atender os fregueses.

E limpa o quartinho.

-Nonato, e as coxinhas? Estão prontas? -As coxinhas não estão prontas ainda.

Agora, os pastéis já estão. Toma.

Apressa as coxinhas, porra, que o povo está me enchendo o saco.

Está saindo, seu Zulmiro.

Ô, Dino!

Dino!

Vamos, rapaz! Vamos, macho. Está dormindo, é?

Vai.

Aí, atende ela, está bombando!

-Fala, velho. -Fazia tempo que não aparecia, hein!

Estou com a agenda cheia.

Que verão de bosta!

Está frio de gelar os pentelhos da buceta.

Essa coxinha aí, está boa?

Está, eu fiz hoje.

-Joga uma na minha, aí. -Hã?

Me dá uma, homem.

Porra!

Coxinha boa pra caralho!

-Você mesmo que fez? -Sim, senhora.

Ih, o cara me chamando de senhora.

Prazer, eu me chamo Íria.

Raimundo Nonato.

Eu não lembro de você por aqui antes.

É que eu estou aqui há um mês, mais ou menos, trabalhando no bar.

Esse boteco mudou, viu? Antes, aqui só tinha mosca e bêbado.

Agora tem mosca, bêbado e coxinha.

Me vê outra.

Porra!

Pimenta. Tem pimenta?

Olha, Raimundo,

se eu soubesse cozinhar assim, filho,

eu estava em outra vida, com certeza.

A senhora não sabe cozinhar, não?

Eu faço pão com queijo, ovo, chá.

- Não dá nem pra se casar. - Foda-se.

Eu não sei cozinhar, mas eu adoro comida.

Adoro!

Outro dia, eu estava vendo o programa daquela mulher loira,

-que tem aquele papagaio. -Louro?

Essa mesma!

Caralho! Ela estava fazendo um macarrão!

Um macarrão que é a minha cara.

Vai alcaparra, tomate, aliche.

-Aliche, é? -Aliche, é coisa fina.

-Você não faz aqui, não? -Não, senhora.

Fala com o dono pra ele servir aqui.

-Nossa, fala com ele! -Não dá, não.

O que ia chover de amiga minha pra comer esse negócio, orra, se ia.

Chama-se macarrão à puttanesca.

Ave Maria! "Puta vesga", é?

Que "puta vesga", o quê?

É puttanesca.

É italiano, não tem nada a ver com puta. É italiano, é chique pra caralho!

Puttanesca!

Ô, Nonato, chega de conversa

e vai pra cozinha fritar mais coxinha, que está faltando. Vai.

Sim, senhor.

A senhora dá licença que eu vou terminar meu serviço.

Estou acabando de fritar umas coxinhas, boas pra caralho, fresquinhas.

Vou trazer duas pra senhora, viu?

Que barulheira é essa?

Quem está aí?

Nonato, é você?

Está doida, é?

-Nonato? -Seu Zulmiro!

-Nonato, é você? -Sou eu, seu Zulmiro!

O que você está aprontando, porra?

Não, é que eu derrubei as coisas, seu Zulmiro, sem querer.

Está doida, é, menina? Vai pra dentro, Íria.

Vai dormir, caralho!

-É peixe ou não é, pô? -Não é, peixe é de sexta.

-Ó a boia, a boia, a boia. -Olha a boia aí!

Ajuda aí, ajuda aí também!

Estou morrendo de fome, cara.

Põe mais, põe mais, vai, vai. Isso!

Põe bastante aí, cara, tem oito aqui, meu.

-Vai lavar a mão. -Tem pra colocar bastante coisa.

Só o Bujiú come isso aqui sozinho.

-Olha a carne, carne. -Carne polpeta.

Que merda, meu.

Vamos lá! Rapidinho aí. Estou com fome, porra.

Se não está satisfeito, então vai pro hotel, rapaz.

Estou dando uma de garçom aqui.

Pô, tu é meu parça, irmão.

Cozinha funciona igual em qualquer lugar mesmo.

Hoje, é carne moída.

Ontem, foi picadinho de carne e, anteontem, bife.

Quer dizer,

aproveitar bem aproveitadinho a carne três dias seguidos, eles sabem.

Isso é coisa de quem vive o dia a dia da cozinha mesmo.

Sexta devia de ser peixe,

porque é o dia que chegam os peixes frescos no mercado.

Devia, porque aqui não tem peixe.

Agora, bicho, tem sempre.

Bicho é todo dia.

Puta que pariu, essa comida está uma merda, hein?

Quer que eu chame o garçom pra você reclamar?

Garçom não dá, né, porra.

Agora, podia trazer de volta aquele outro que foi lá

pro de Piraquara. Estão lembrados?

Estão lembrados daquele ladrão de cabelo ruim,

-que cozinhava aqui pra nós? -Aquele já "Elvis". Já foi pro saco.

Era um filho da puta, cara.

-Era um filho da puta, mas cozinhava, né? -É.

Se botar um pouquinho de alecrim e pimenta-do-reino,

isso aqui vira outra coisa.

O que está resmungando aí, rapaz?

-Hã? -O que está resmungando aí, porra?

Se botar um pouquinho de alecrim

e pimenta-do-reino, melhora a comida.

-Aí? -Você sabe cozinhar, "Parmalat"?

Sei, sim. Eu trabalhava com isso.

Chega aí.

-Hã? -Chega aí, porra!

Se nós arrumarmos essa parada aí e pimenta, tu cozinha pra nós?

Cozinho, sim.

Agora, tem que ter fogão.

Ué? Tinha um brasinha que o outro usava, não tinha?

-Cadê o brasinha? -Está na mão, eu guardei.

Firmeza, Lino. Amanhã é dia do quê?

Dia de servirem o quê?

Olha, não carece de saber, não.

Se tiver um pouquinho de alho, pimenta, cebola, azeite pra refogar,

um pouquinho de queijo ralado e alecrim,

com o que tiver, a gente dá jeito.

É mesmo?

-Ô, Lino! -Fala aí.

Liga para os caras lá da cozinha, mano.

Manda eles trazerem esses bagulhos aí, esse tal de "alegrinho".

Não é alegrinho, é alecrim.

Então, alecrim.

Traz esse negócio aí pro...

Qual é o teu nome mesmo, paraíba?

Nonato Canivete.

Ô, Lino,

traz pro Nonato esse alecrim, que amanhã eu quero comer bem.

-E você, ô, Guentaí? -Hum?

Tu vai voltar pra faxina.

E você cozinha.

É bom eu explicar umas coisas de poder aqui neste xadrez.

Esses dois que estavam conversando são o Guentaí e o Boquenga.

O Boquenga é ladrão mixuruca.

Não manda porra nenhuma, mas vive dando palpite.

O Guentaí, desde que foi preso, só se fode, coitado.

Separado dos outros, tem esse aí. Quietão.

O nome diz tudo: Sequestro.

Não dá papo pra ninguém. Então, deixe ele quieto.

Esse com cara de menino criado por avó é o Magrão.

O Magrão era mula. Estou xingando, não.

É que ele era daqueles que levam tóxico na barriga,

engolem os bagulhos pra não acharem.

Fez tanto isso que pegou dor de estômago

e vive engolindo aquelas pastilhas brancas de azia,

que ele compra do Lino, que é esse aí.

O Lino é o correria do xadrez,

o cara que arranja as coisas pro resto da rapaziada

e cobra, claro!

Esse que está sempre mal-humorado é o Valtão.

Laranja, ele.

Deu merda, ele levanta o dedo e diz: "Fui eu".

Bom, esse negão é o dono do laranja e do xadrez todinho.

Manda nos outros porque faz umas coisas

que nem sendo bem cruel mesmo, a pessoa faz.

É Bujiú o nome dele.

Tem celular, tem visita de mulher,

e não é só a dele, não.

Ele sabe convencer as pessoas do que quer, bem dizer.

Por causa disso que o xadrez nosso tem poucas pessoas,

enquanto os outros têm para mais de 30.

Bujiú.

Beliche de cima.

Agora,

aqui no bar do seu Zulmiro, quem está mandando é a minha coxinha.

Tem uns médicos que dizem que não pode porque é fritura,

dizem que entope as veias e o caralho.

Esses caras são médicos ou encanadores?

Pergunta para o seu Giovanni se fritura é ruim.

Seu Giovanni entende tudo de cozinha, moço.

Parece até que primeiro inventaram a comida e, depois, perguntaram assim:

"E, agora, o que a gente faz com isso?"

E, então, criaram seu Giovanni pra orientar.

Ó ele aí. Seu Giovanni.

Esse, sim, merecia o beliche de cima.

E até uma lanterna para fazer palavra cruzada quando apagar a luz.

Ô, rapaz.

Faz favor.

-É você que cozinha aqui? -Sou eu, sim.

Gozado, eu tenho um restaurante aqui na área, o Boccaccio.

"Bocacho"?

Boccaccio!

Cozinha internacional, ambiente familiar.

E eu conheço todo mundo por aqui, todo mundo mesmo.

- E você eu nunca vi. - É que estou aqui faz pouco tempo.

E você aprendeu a cozinhar no Ceará, é?

Sou do Ceará, não. Eu já sabia cozinhar antes,

agora, as coxinhas, quem me ensinou foi o seu Zulmiro.

-O senhor quer falar com o seu Zulmiro? -Não quero nada com o Zulmiro.

Agora, se foi o Zulmiro que te ensinou a fazer a coxinha,

você deve ter uma mão boa.

Porque a dele fica uma merda. Uma merda.

Essa aqui tá boa, me abriu até o apetite.

O que mais tem pra comer aí

que não seja fritura, esses quitutes?

Tem ovo colorido.

Ovo colorido não. Deixa pra lá, eu como em casa.

Não! Tem uma carne na panela que eu fiz no almoço e sobrou um prato.

O senhor quer?

-Carne de panela? -É, eu fiz com umas batatinhas coradinhas.

Está boa mesmo.

-Traz aí, vai. -Espere aí.

Aqui.

Obrigado.

Gostou?

Me diga uma coisa, você colocou alecrim aqui?

Botei, sim, senhor. É porque na carne eu gosto. Ficou bom.

Seu Zulmiro nem percebeu.

-E essa carne é músculo, né? -É músculo, sim, senhor.

Rapaz, dá um trabalho arretado para bater.

Tive que bater muito pra botar na panela depois.

Você precisava trabalhar com alguém que te ensinasse.

Alguém que entenda de cozinha.

Você quer trabalhar pra mim?

Ih, rapaz, não sei, porque eu estou bem aqui.

-Seu Zulmiro me paga salário, benefício... -Benefício?

Benefício é mandar o Zulmiro tomar no cu.

Ô do alecrim, qual é a boia de hoje?

Aqui, ó, dá licença.

Cozido de galinha,

mas estou fazendo um negócio aqui pra melhorar.

Camarão, não tem.

Foda-se!

Está bom demais.

Ô do alecrim, essa boia aí é pra hoje ou não é, rapaz?

Pra agora, Valtão.

Xinxim de galinha com arroz de leite de coco.

Minha gente, a boia está pronta!

Xinxim de galinha!

Nonato, isso é uma cozinha.

Olá, Giovanni. Acabou o queijo mascarpone.

-Onde podemos conseguir mais? -Depois veremos isso, Francesco.

Estou ensinando o Nonato agora. Ele é nosso novo assistente.

Francesco é o primeiro-cozinheiro.

Na minha ausência, quem manda aqui é ele. Ok?

E é aqui onde nós guardamos os vinhos.

Ih, as garrafas todas deitadas, né, seu Giovanni.

É, todas deitadas, porque eu entendo de vinho, né, Nonato.

Você se deu bem, viu? Veio trabalhar com quem entende de vinho.

Lição número um: você percebeu onde fica o fogão? Longe da adega?

Porque o vinho tem que descansar em uma temperatura amena,

fresquinha, com clima de montanha. Tem montanha lá na Paraíba?

-Não, senhor. -Então você está fodido,

porque aqui no inverno faz um frio do caralho. Pode ir se preparando.

Estão todas deitadas. Por quê?

Poxa, pra caber mais garrafa na parede, não é, não?

Não, Nonato.

É pra rolha não ressecar.

Assim, quando você for sacar, ela sai inteirinha, entendeu?

Hum!

É quase tudo vinho italiano aqui.

Eu já vendi mais barato, mas agora dá pra vender por uns 40 paus

-sem assustar o cliente. -Quarenta conto, seu Giovanni?

Quarenta reais, você acha muito?

Tem muito cara que traz uma menininha aqui, querendo comer ela e tal.

Aí, ele compra um vinho, deixa ela tonta e "crau"!

Quarenta reais pra comer um...

E fora a conta, né?

Olha só.

Olha esse vinho aqui. Esse é um Sassicaia.

É um dos vinhos mais fodidos que tem no mundo!

-Sassicaia, é? -É um dos chamados "supertoscanos".

Só fabricam um pouquinho por ano.

Esse aqui é feito com uvas francesas. Cabernet Sauvignon e outras,

mas é muito melhor que muito vinho que os próprios franceses fabricam.

-Os franceses, né, seu Giovanni? -É, aquele povo que gosta de uma putaria.

Esse aí foi meu pai que me deu, que Deus o tenha.

-Pra sempre seja louvado. -Amém.

E eu só vou abrir quando eu fizer 60 primaveras.

-Sessenta anos, seu Giovanni? -É.

E quantos anos faltam?

Faltam seis, estou com 54.

Seu Giovanni, daqui até lá, o gás todo da garrafa vai acabar, não é?

-O gás do Sassicaia? -Uhum.

Vai pra puta que pariu, Nonato!

Ainda bem que você vai ficar aqui e não vai ter contato com o público.

-Ô, Lino. -Qual é?

Chega aí.

Fala aí.

-Ô, Alecrim. -Senhor.

O beliche de baixo é teu.

O beliche do Magrão agora é teu. Arruma tuas paradas aí.

Anda, caralho!

É tudo nosso, paraíba.

-Acho que a água já está fervendo, né? -Uhum.

Então vamos lá, Nonato.

Pegue o sal.

Sal grosso, isso. Coloque um belo punhado.

Pode colocar mais. Está bom.

E não me coloque azeite, que isso é coisa de macarrão vagabundo.

Me passe o espaguete.

Muito bem.

Pronto. Agora tem que misturar...

e vamos esperar

o ponto.

E como é que sabe a hora que está pronto, seu Giovanni?

Pra isso tem que ter vivência.

Tem que ter experiência na cozinha.

Cozinhar é uma arte! É que nem cantar, pintar.

Precisa ter conhecimento para saber misturar as coisas.

Saber que isso vai ficar gostoso com aquilo.

Saber quanto tempo precisa pra ficar assado,

sem perder o sabor dos ingredientes.

-Cozinhar é uma arte, Nonato. -Uhum.

E aqui é o nosso ateliê: a cozinha.

E os temperos, os ingredientes é que são as nossas tintas.

Tinta?

Puta que pariu, do que eu estava falando?

Do ponto do macarrão.

Então, se você não tem essa experiência, essa vivência,

-só provando. -Uhum.

Seu Giovanni, o alho, já pode botar pra fritar?

Ainda não. Se você refogar o alho antes, ele fica douradinho, mas amarga um pouco.

Eu já me fodi muito com essa história de alho.

Parece simples, mas não é.

Por isso, eu deixo pra refogar o alho um tico antes do macarrão ficar pronto.

Quando a coisa é simples, é aí que mora o perigo.

É porque aí tem mais chances de dar errado, não é, seu Giovanni?

A pessoa pensa que é mole, mas não é.

Cozinhar simples, Nonato, é como...

É como um quadro do Picasso.

Picasso?

Simples, mas intenso.

Você quer ver um exemplo de arte com ingredientes simples?

Uhum.

Francesco.

-Pois não? -Faça você.

-Faça você! -Idiota!

Nonato, pega a goiabada ali na geladeira.

Sim, senhor.

Não, na outra porta.

Aí, essa! E aquele queijo também.

-Aquele queijo ali. -Esse aqui?

Isso.

Ô, seu Giovanni, estragou. Está cheio de bolor.

Não está estragado, Nonato. Esse aqui é um Gorgonzola.

-"Gor..."? -"...Gonzola".

"...Gonzola".

É um dos queijos mais antigos do mundo.

Uma delícia! Ele é embolorado assim mesmo.

Prova, Nonato.

-Não precisa, seu Giovanni. -Experimenta que é bom, eu juro. Prova.

Parece manteiga estragada.

-O teu rabo parece manteiga estragada. -Que é isso, seu Giovanni?

Sabe o Romeu e Julieta?

Na minha terra tem demais.

Então, sai o Queijo Minas, entra o Gorgonzola.

Anita e Garibaldi. Eu que inventei.

-Anita e Garibaldi? -É.

É bom.

-E sabe o melhor? -Hum?

Eu não posso servir Romeu e Julieta no meu restaurante,

porque é uma sobremesa de boteco, mixa, não tem requinte.

Agora, saindo o Queijo Minas e entrando o Gorgonzola,

vira requintada, aí eu posso servir. E ainda cobro oito paus!

Oito conto, seu Giovanni?

Um naco de Gorgonzola e um pedacinho de goiabada,

-por oito paus? Isso é arte, cazzo! -Danou-se!

Quanto tem de tinta num quadro?

Cem reais?

E depois o quadro é vendido por quanto? Milhões de dólares?

Então, a mesma coisa na cozinha.

Isso é arte, Nonato.

É um Picasso!

Seu Giovanni, deixa eu perguntar um negocinho?

-Pode? -Fala.

A gente bota a tinta um tico antes de botar o prato na mesa, né?

Porra, meu irmão, se apresenta aqui, caralho! Porra!

Vai, sai daí, porra!

Marca, marca!

Bate pro gol, caralho! Porra!

-Ô, Alecrim? -Ô, Vagnão.

-Conseguiu? -Vê se é isso que você queria.

-É esse mesmo! Maravilha! -Quinze maços.

-Hein? -Quinze maços, porra!

Quinze maços, porra? Não fode, Vagnão.

Não fode você. Isso foi um cu pra conseguir, está entendendo?

Não sei nem se eu tenho isso, cara.

- É? Então devolve, vai. - Dez?

-Devolve, vai. -Dez?

Devolve. Não me irrita, porra!

Doze, então.

Doze. Isso aí. Fechado.

Isso aí.

Caro, hein?

Passa mais tarde lá no xadrez.

Doze. Sem "migué", tá entendendo?

-É nós, pô. Tranquilidade. -É bom.

Depois os ladrões somos nós, hein.

-Boa noite, seu Giovanni. -Boa noite, Nonato, vai dormir!

Vou dar só uma voltinha.

Vai descansar, que amanhã tem que trabalhar, Nonato! Vamos.

-Tchau. -Tchau.

Sai daqui, que o carrinho é meu.

Vai, fica aí na tua.

Cheguei primeiro.

Vamos pôr o dinheiro no cofrinho aqui, vamos pôr dinheiro no cofrinho.

E essa meia de onça aí, você comprou no Paraguai?

Olha, não fala assim comigo!

Mas se não é o da coxinha.

-Está boa? -Vou indo, vou levando.

-Levando no rabo! -Ê, vadia.

Fui lá no boteco esses dias. Não te encontrei.

Você não está mais lá, não?

Não, é que estou trabalhando na cozinha de um restaurante aqui pertinho.

Na cozinha de um restaurante, o "Bocacho".

"Bocacio". Conheço, é ali.

Comida familiar.

A coxinha lá no boteco voltou a ser o que era:

uma bosta. Sabia? É.

Sabia, não, mas é que a mão do seu Zulmiro não é boa.

Estou achando.

E o quartinho? Saiu de lá, então?

Eu estou morando numa "pensãozinha", pertinho do restaurante.

Sei.

E...

lá no teu quarto, tem o que comer?

De comer, não tenho, mas nós podemos pedir uma pizza.

Inocente, hein.

Vamos.

Vamos que lá no teu quarto eu te dou de comer.

-Está com fome, é? -Eu estou e tu?

Está cheirosa, Íria!

É talco.

-Eu gosto. -É?

Será que a gente não pode passar

ali no restaurante antes pra fazer uma boquinha?

-Porque eu estou com fome mesmo. -Lá no "Bocacho"?

Opa, "Bocacio"!

Vamos, eu estou com a chave da cozinha mesmo.

Mas está dono da coisa, é?

Deixa eu comer.

-Bom pra caralho. -Bom?

Ai, meu joelho.

-Não! O que é isso, Nonato? -Hã?

-Não beijo ninguém na boca, não. Nunca! -Não?

-Não? -Não, não!

-Não pode? -Não pode.

Não pode porque não é ético.

-Ético? -Ética.

Não beijo ninguém na boca nunca. Faço tudo, tudo, menos beijar na boca.

-Tudo, tudo? -Tudo!

Porra!

Cheio de formiga no meu nariz!

Porra!

Acostuma.

Se entrar na boca, você mastiga e engole.

Que "acostuma", o quê?

Isso aqui parece um formigueiro, pô.

Quando eu ia lá pra Colômbia...

você manja Colômbia, né?

-Claro, né, porra. -Então.

Sabe o que eles comem lá? Sabe o que eles fazem?

Formiga.

Que nem essas que tem por aí.

Quando eu ia lá pegar coca, experimentei.

Porra, que miséria.

Não, até que é bom.

Vende em barraca na feira, umas formigas grandes, tipo tanajura.

Eles comem bem torradinhas, fica bom.

Aí, Magrão?

Ô, Lino.

Tive uma ideia da zorra agora, hein, velho?

Ô!

Nós podíamos pegar essas formigas vagabundas,

fritar bem com alho, cebola, junto com uma salsinha, assim.

Ia ficar um negócio massa pra beliscar antes da comida.

Ih!

Ô, Lino, não tem que ter preconceito com comida, moço.

-Sei, não. -Comida de barão, rapaz. Tem proteína.

Acho que eles não vão gostar.

Nunca furei com vocês, não, meus parentes.

Me ajuda a pegar esses negócios aí, Magrão. Vai, Lino!

Olha, a gente junta isso e eu tenho certeza, rapaz,

Bujiú vai ficar doido com o banquete colombiano.

Ô, Ratazana do caralho!

Qual é? Vai agitar a parada ou não vai, porra?

Se liga aí, porra!

Tô falando, rapaz!

Catulé do Rocha Praça de guerra

Catulé do Rocha Onde o homem-bode berra

Catulé do Rocha Praça de guerra

Catulé do Rocha Onde o homem-bode...

Agita a parada com o caveirinha. Estou te avisando, porra!

Minha gente.

Qual foi, Valtão?

O Ratazana, meu. Porra! O cara está embaçando pra caralho.

Ô, Ratazana, qual é da parada, meu irmão. Cadê a fita?

Vê legal, hein? Para de gracinha!

Aí, meu irmão, vai ter baixa aí, hein.

Tira-gosto aí pra você.

Tomar no cu!

Bagulho bom, hein?

Que porra é essa aqui?

Adivinha?

"Adivinha" é o caralho! Coisa de veado, pô! Fala logo.

É formiga frita.

-Pô, está de sacanagem, né, meu? -Bom pra caralho.

Vai tomar no cu, ô, paraíba.

Vai tomar no cu, rapaz! Vai se foder!

Está pensando que eu sou o quê? Bicho?

Vai ficar me dando bicho pra comer?

Hein, seu paraíba arrombado do caralho?

Hein, paraíba? "Para" é o caralho, porra!

Vai se foder, meu irmão!

Faz a parada, está maluco, rapaz? Que ideia de cu do caralho!

Vai tomar no cu, rapaz!

Paraíba safado!

Sai da minha frente, porra!

Só o que me faltava. Formiga é o caralho, rapaz!

Vai dar formiga pra tua mãe, arrombado!

Foi o Magrão, que já comeu isso na Colômbia, rapaz,

e o Valtão disse que você ia gostar desse negócio...

Ô, espera aí, que fita é essa aí, Alecrim?

Qual é? Barraqueiro do caralho!

Eu seguro as broncas do Bujiú, não as tuas, "falou"?

Vou ser laranja teu agora também? Nem fodendo, porra!

Eu falei que tinha na Colômbia, não falei pra você fazer! Porra.

Faz uma comida de homem aí pra mim, caralho!

Está casado? Está casado ou não tá?

Rapaz! Eu sou malandro velho, compadre.

Vai! Vai!

Vai, vai!

Sai fora, Magrão!

Ô, Alecrim, chega aí. Vem tomar uma "Maria", porra!

Maria Louca, caralho!

Porra, paraíba, está maluco?

Porra, essa merda é forte pra caralho, velho!

Porra, não aguenta com a Maria, que dirá com o João!

Isso aí é Maria Louca, rapaz! Pinga de cadeia, feita aqui dentro.

É coisa pra macho, porra.

Aí, Bujiú, se botar uma gotinha aqui de Angostura,

rapaz, isso aqui melhora como o quê? Fica parecendo Negroni.

Está cheio de "negão" aqui já.

É, não, rapaz. É Negroni, bebida de bacana.

Mistura isso com essas três gotinhas de Angostura,

que é coisa de rico também.

-Rapaz, fica parecendo Rabo de Galo! -É mesmo? Caralho!

Pô, vamos comprar essa porra, pra ver se melhora essa merda, compadre.

Anota aí, Lino, como que é o nome?

-Angostura. -Como?

Angostura.

"An-gostura".

"Hã, hã, hã? Baralho".

-É pra comprar essa porra, meu irmão. -Vamos lá! Vamos jogar!

Tu comeu formiga, caralho!

Mercado Municipal, Nonato.

Mercado Municipal.

É aqui que tudo começa, é aqui que nasce a gastronomia

e é aqui que nós começamos a cozinhar.

É aqui que começa um jantar de despedida,

uma festa de casamento.

Sente, respira, Nonato. Sente.

Cheiro de carne, de peixe, de frutas, de grãos, tudo misturado.

Nonato, a culinária inicia com você sabendo escolher os ingredientes

e não adianta mandar qualquer um.

Tem que vir você, o cozinheiro.

Chef que é chef de cozinha, tem que vir aqui pessoalmente.

Tem que conhecer o dono da banca, o filho do dono, tem que conhecer tudo.

Tem que poder olhar pra cara do feirante e perceber se ele está falando a verdade.

Eu já não preciso mais disso, tem anos que eu frequento isso aqui.

-Oi, Giovanni. -Todo mundo sabe como é que eu sou,

me respeitam.

Sabem que, se eu não gostar, eu não compro nunca mais

e ainda falo mal dele.

Ô, Nonato.

Mas também tem o outro lado da mão.

Eu gostando, compro sempre no mesmo lugar, sempre, e ajudo.

-Tudo bom, seu Giovanni? -Tudo bem, Toninho?

Esse é o Toninho. Picareta!

Vamos lá no açougue, agora você vai ver sangue.

Ave Maria.

-Bom dia, Zé! -E aí, Giovanni, como vai?

O Nonato é meu novo assistente lá no restaurante.

-Está aprendendo, é? -Estou ensinando, vamos ver se aprende.

-Vou lá atrás mostrar umas coisas pra ele. -Opa! Fique à vontade aí.

-Bom dia! -Bom dia!

Isso aqui, Nonato, isso é a arte da arte.

Separar a carne do boi.

Você olha pra peça e pensa: "Mas é tudo carne, porra".

Verdade.

Mas veja, Nonato,

isso aqui é coxão duro, carne boa,

mas, logo aqui abaixo, na continuação, o que é que tem?

A picanha.

Coxão duro: oito paus o quilo.

Um palmo pra baixo a picanha, quinze paus o quilo.

Está vendo, Nonato? É arte!

É bater o olhar e perceber que aqui tem carne boa e aqui não.

É que nem olhar pra uma mulher na rua. Sabe essas falsas magras?

Mas perceber que embaixo do vestido tem uma gostosa.

É, Nonato.

Pra separar a carne do boi,

tem que ter esse olhar clínico.

Este pedaço, por exemplo, Nonato, venha ver.

Este pedaço aqui.

Este aqui é o filé mignon,

é o que há de melhor na carne.

Igual a bunda na mulher.

O filé mignon é o melhor do boi.

Então, filé mignon é na bunda, é?

E é caro, né, seu Giovanni?

Não, eu disse que o filé mignon

é o correspondente à bunda na mulher: o melhor.

-Você não gosta de bunda de mulher? -Ô!

E aí, Juliano. Tudo bem?

Viu? É aqui que eu trabalho nas quintas.

-Bonito aqui, né, Íria? -É. Está gostando?

-Hein, paga uma bebida pra mim? -Hã?

-Paga uma bebida? -Pago.

Então vem comigo.

Ô, Edson, está bom? Tudo bem?

Dá um licorzinho daquele que eu gosto.

Ei, Nonato, vai beber o quê?

Íria, eu não sou bom pra beber, não.

Que nada. Bebe um negócio aí. Larga a mão de ser pão-duro, homem.

-O quê? -Espera aí.

Ô, Edson, faz uma bebida chique pra esse cara aqui.

Um Licor de Ovos pra Íria.

E um...

Um Negroni para o cliente da Íria.

Cliente não, amigo mesmo.

Amigo.

Ei, minha linda!

É isso aí, seus gays. Cadê as palmas pra menina?

Grande show com a menina e vocês aí conversando com macho?

Nonato, fica aí, que eu vou me arrumar,

terminar de me arrumar, pra fazer o negócio ali.

Fica aí, "negão", larga a mão, para.

-Isso é o quê? -Angostura.

-Angostura? -É amargo, mas é bom.

Que porra forte! Parece acetona.

Não sei, não bebo.

Vou tomar de uma vez esse negócio.

Danou-se!

Vê outra aí.

Ela é o ponto alto da noite de hoje.

Pra quem acha que é melhor sobrando do que faltando, agora com vocês...

Trabalha aqui faz quanto tempo?

-...deliciosa e cheirosa: Íria. -Angostura...

Íria.

Vê outro.

Porra, moço, acelera aí.

Está bom, está bom.

Para com isso, Íria.

Mas que porra é essa, Nonato?

Vou acabar com essa merda!

Sai, sai! O que é isso?

-Filha da puta! -Larga ele!

Caralho, larga ele!

-Que foi? -Calma, Nonato.

-Onde é que eu estou? -Calma.

-Íria? -Aqui. Calma, na boa.

-Íria? -Aqui, ó.

-O que eu estou fazendo aqui, Íria? -Aguenta aí.

-É seu quarto aqui? -É aqui mesmo.

-O que foi que aconteceu? -Espere, tome um gole de água.

Você não lembra, né?

Você aprontou o maior barraco ontem lá no Dancing, Nonato.

Quebrou cerveja, queria matar todo mundo.

Aí os seguranças te botaram pra fora debaixo de uma camaçada de pau,

que olha, sinceramente, você mereceu, viu?

-Foi tu que fez os curativos? -Não.

A tua tia que veio lá do Ceará pra cuidar de você.

-Ei, tudo bem aí? -Estou todo doído.

Bom, eu vou sair.

Vou trabalhar.

- Eita pau, o seu Giovanni! - Já foi.

Eu cruzei com ele aí e disse que...

Que você estava aqui em casa e que ia ficar uns dias sem trabalhar.

E ele?

-Não ficou "arretado", não? -Ele riu.

Disse: "Eita, aquele cearense não tem nada na cabeça mesmo".

Aquelas coisas que ele fala sempre.

Você conhece ele tão bem quanto eu.

Íria,

obrigado, viu?

Imagina.

Fui.

Nesses dias, ninguém na cadeia está com mais moral que eu.

Não há do que se queixar muito agora.

Beliche do meio.

Estamos importantes, hein, Nonato?

A pessoa, quando dorme embaixo,

se sente bem, prestígio e o cacete a quatro,

mas, se sobe para o meio, meu irmão, descobre que aquilo ali não era nada.

Porque é ilusão que dormir no beliche de baixo

é muito melhor do que no chão.

No chão, está certo, é o mesmo nível dos pés e das meias,

fedor do caralho,

mas dormir no beliche de baixo não é tão muito melhor assim, não.

Não tem pé na sua cara, mas a vista é ainda pior.

Ave Maria!

Eu podia pegar o beliche de cima, mas não dá pé, não. É do Bujiú.

Mas não posso reclamar, estamos bem.

Todo mundo de bucho cheio, muitos elogios.

Comem de limpar o prato e dizem de tesão pra cima.

"Isso está bom pra caralho!"

-"Da hora!" -"Está o bicho!"

-"Puta que o pariu!" -"Está massa!"

-"Do tipo!" -"De foder!"

"Espetáculo!"

Até um "melhor que buceta" eu já ouvi.

Quase!

Vou até fazer um dicionário, viu?

O ser humano fraqueja, moço.

Acostuma com os confortos.

Amolece que nem músculo de boi no bife bourguignon.

Falando nisso, preciso arrumar umas ervas.

Vou arranjar com o Vagnão, o carcereiro, um pouco de tomilho,

alecrim tem ainda, salsinha fresca e "segura nós"!

Vamos arranjar salsinha e cebolinha.

E sálvia.

Tudo bem?

-Satisfação. Como vai? -Bem.

Minha namorada.

-Ô, Bahia, tudo bom? -E aí, tudo joia?

Beleza!

Vamos comprar um grande mesmo pra comer. Vamos na peixaria.

Esse queijo aqui tá podre, está estragado.

O cara quer te vender uma coisa embolorada.

Que podre, o quê, Íria?

Esse queijo é assim mesmo, minha filha.

Gorgonzola. Tem mil e trezentos anos esse queijo.

Por isso que ele é fedido desse jeito.

Gorgonzola é queijo de macho!

Pense num queijo de macho, é Gorgonzola.

Tem até uma variação dele feita pelos franceses,

aquele povo que gosta de uma putaria,

se chama Roquefort, mas ele é mais frouxo no gosto que o Gorgonzola

propriamente dito mesmo.

Se eu disser, você não acredita.

Tem mil e uma forma de comer Gorgonzola!

Tem salada de Gorgonzola, sanduíche de Gorgonzola,

macarrão de Gorgonzola...

-Ô, Alecrim! -...pizza de Gorgonzola.

Esse Gorgonzola pode ser o queijo do caralho que for, meu irmão.

Tu pode fazer o que quiser com ele,

tu pode fazer macarrão, pode fazer pizza, pode enfiar no teu cu.

Faz o que te der nessa cabeça reta que tu trouxe do Ceará,

mas esse negócio não vai ficar aqui dentro, nem fodendo!

Um negócio catinguento desse jeito vai ficar empesteando o ar que eu respiro.

Sai daí, sai daí. Vai ficar lá fora, junto com os tênis.

E eu falei, anda! Bota essa porra lá!

-Nonato, visita pra você. -É Íria.

Ó!

Ei, Íria!

-Eu vi que tu chegou pelo cheiro. -Então, está com o nariz bom, hein?

Quem manda tu ser cheirosa?

Comportem-se vocês dois, hein?

-Já comeu? -Não.

-Está com fome? -Ô, se estou!

Nasci com fome e não passou desde esse dia!

Ê, criatura faminta a danada.

Vou fazer um espaguete à meia-noite pra tu, quer?

-Quero. -Agora mesmo, criatura.

Doidinha.

-Ô, Íria. -Hum?

Queria falar uma coisa com tu.

Fala.

É um negócio aí que eu estou pensando faz é tempo.

Desembucha.

Ô, Íria, você não quer casar comigo, não?

Ô, menina!

Engasgou, é?

Bota pra fora.

Isso. Vai mais! Vai, Íria!

Eu vou pegar água!

Ô, meu Deus do céu!

Toma, toma!

Vai, vai! Bebe esse negócio, Íria.

Isso. Bebe mais, bebe mais. Vai, vai.

Melhorou?

- Caralho! - Está bom?

-Está bom, está bom. -Melhorou?

Estou boa.

Puta que o pariu!

O alho, porra!

Queimou, caralho!

Vá tomar no cu.

Porra!

O macarrão passou do ponto.

Então, Bujiú, parece que o ladrão chega mesmo.

-É mesmo? -Foi confirmado, cara.

Ô, Alecrim!

Chega aí!

Se liga.

Senta aí.

Presta atenção, que o papo é federal.

Está vindo pra cá, pra ficar no meio da moçada,

o Etcétera.

Você está ligado quem é o Etcétera?

Nunca ouvi falar.

Pô, o Etcétera, meu irmão, é o cara. É o cara que manda nos caras.

A gente está querendo receber o cara numa boa, com todo procedimento.

Está ligado, meu irmão? Está ligado, Alecrim?

Não estava ligado, não, mas agora estou ligado.

Então, presta atenção, meu irmão.

Eu quero ficar numa boa com o cara,

ficar nos conformes, ganhar conceito.

Então, pro domingo agora,

eu quero que tu pense em um negócio bem tesudo de comer.

Você está me entendendo?

Sabe aquelas coisas que tu come e quase goza, meu irmão?

-Domingo já? -É, domingo agora.

Eu quero comida e bebida de qualidade.

Certo, Bujiú.

Já é.

Ó, é domingo agora, hein.

Pra comemorar a transferência do Etcétera,

nós vamos conseguir pra você a cozinha principal.

Com tudo dentro, meu irmão, pra tu meter bronca, está ligado?

Porra, Bujiú, a cozinha principal vai ficar caro pra caralho, cara!

Não me interessa, meu irmão, é o Etcétera, compadre.

A gente tem que investir, porra!

Boa noite, seu Zulmiro.

Boa noite o quê? Ô, filho da puta.

Que isso, seu Zulmiro?

Filho da puta, sim.

Se mandou e me deixou na mão.

Porra, Nonato.

Te abri minha casa.

É que o seu Giovanni me ofereceu coisa melhor.

Salário, benefício,

essas coisas.

-Lei de mercado. -Sei, mercado.

E você veio fazer o que aqui?

Cavar proposta?

Não.

É que eu queria falar uma coisa

da máxima importância com o senhor.

Caceta.

Vou até me sentar.

Sente-se aí.

Fala.

Seu Zulmiro,

é que segunda-feira, o restaurante do seu Giovanni não abre.

Então, eu pedi pra ele me emprestar o restaurante

pra eu convidar umas pessoas.

O que você está aprontando com o italiano?

É putaria, com certeza!

Não é, não.

É o meu noivado com a Íria.

Íria?

A Íria, Íria?

Quer dizer que agora se noiva no meretrício, é?

-O que é meretrício, hein, seu Zulmiro? -Puteiro!

Não é nada disso.

É que eu gosto dela e quero casar com ela.

E ela não quer casar assim na pressa, não está prenha nem nada.

Então nós vamos noivar primeiro.

Casar com a Íria, Nonato?

Que serventia isso tem?

Bom, o pinto é teu, o bolso é teu.

Você que sabe.

Eu queria que o senhor fosse padrinho.

Assim, convidado de honra mesmo, sabe?

Queria saber se o senhor aceita.

Não é nessa segunda-feira, mas é na outra.

O senhor aceita, seu Zulmiro?

Aceito.

Obrigado, seu Zulmiro.

Seu Zulmiro.

Até hoje o senhor não acertou o ponto da coxinha, né?

-Ave Maria! -Filho da puta!

Com licença, chefe. Com licença, Sr. Etcétera.

Eu vou começar o banquete com esse vinho aqui,

que é uma beleza, é uma maravilha, uma coisa do outro mundo, é da Itália.

Está escrito aqui, ó:

Itália! Pode ver.

Itália. Está vendo?

É exatamente o país daquele filho da puta do Paolo Rossi,

que fodeu com a gente em 82.

Então, o nome desse vinho aqui é Chianti.

Chianti é o nome da uva, a uva é o nome do vinho,

porque não adianta ser aquelas uvas rubi que nós encontramos na feira,

porque ali não dá pé, não dá pra fazer o vinho.

Pra fazer o vinho, o sujeito "massaroca" a uva bem "massarocadinha" mesmo,

deixa fermentando, faz o gás, e aí pega a baba

e joga nuns tonéis de madeira de fazer pinga, assim.

Agora, só a baba, sem a pinga.

Por isso que o vinho tem essas coisas de sentir cheiro.

Porque é o seguinte: ele fica um ano e meio ali naquele barril,

com o cheiro tudo fechadinho lá dentro.

Então, quando a gente abre a garrafa

vem aquele cheiro de flor, vem aquele cheiro de uva,

vem aquele cheiro de mato, vem aquele cheiro de madeira,

vem até um cheiro de "bundum" de animal, de bicho mesmo.

Tem uns vinhos que têm cheiro de cachorro molhado.

Cachorro molhado?

Você me chamou pra tomar um troço que tem

-cheiro de cachorro molhado, é, Bujiú? -Não, não.

Essa é onda do Alecrim, meu irmão.

Alecrim, está maluco, rapaz?

Joga essa merda na privada. Traz uma cerveja pra gente tomar.

-Tem cerveja? -Cerveja?

Cerveja não tem, Bujiú.

Traz Maria Louca mesmo, porra!

Maria Louca, vou trazer. Maria Louca agora!

Cachorro, o cacete, porra!

Não, Etcétera, ele é meio bunda-mole, mas ele cozinha bem.

-Tu não vai se arrepender. -Maria Louca, Angostura.

Vai, dá esse crédito pro cara. Vai por mim, na boa.

Vamos de "Maria"!

-O Carpaccio! -Você sabe que a vida na cadeia

depende de um cozinheiro bom, porra.

Minha gente,

o nome desse prato é Carpaccio. Coisa fina mesmo.

Boa, mas está crua a porca.

É mesmo!

Ô, Alecrim, esse negócio aqui está cru, meu irmão.

Tem que dar uma passadinha, não é, não?

Ô, Valtão, passa esse bife aqui, que está malpassado.

Não, Bujiú, é que é assim mesmo, o prato é feito de carne crua mesmo.

Que carne crua, o cacete, rapaz. Isso aqui deve fazer mal.

-Ô, Valtão, passa aqui. -Ô, Valtão!

Você racha minha cara, hein, Alecrim?

Valtão, frita esse negócio aí, frita.

Primeiro, é cachorro; depois, é carrapato.

Qual é o bicho que vem agora?

Vai vir urubu se esse paraíba não parar de fazer merda.

Mas vai fazer, meu irmão, dá mais um crédito pra ele.

Estou te falando, o cara manda bem.

Vamos na "Maria"?

Quem mandou aumentar o fogo, porra?

Abaixa essa porra, abaixa!

A batata está dura, porra.

Caralho, o brócolis está desmanchando.

Ninguém sabe fazer nada direito nessa porra?

Porra, nós estamos aqui te ajudando. O que foi? Enlouqueceu?

Meu irmão, abaixa a voz, minha cabeça está na roda.

Se eu perder meu pescoço, te garanto que você perde o seu também.

Vai, faz essa porra direito, velho.

E você também, meu irmão, faz essa porra direito.

-Ô, estou tentando, cara. -Então continua, porra.

Caralho, misturaram peixe e carne na mesma fornada.

Puta que pariu! Tinha que ser separado!

Que se foda!

Foda-se!

Magrão, me ajuda aqui, porra! Vem, vem!

Sai, sai.

Boa noite.

Ei! Vai aonde?

-A Íria não está aí, não? -A Íria?

Não, saiu.

Não tem muito tempo, não.

Saiu toda perfumada, como sempre.

-Obrigado. -Só com ela?

-Boa noite. -Boa noite.

-Oi! -Oi.

-Vocês viram a Íria? -Ih!

-A Íria está aí, Soraya? -A Íria não chegou ainda.

-Não está aqui, não. -Oxe.

Mas você está.

E aí, Nonato, quer variar a comida hoje?

-Que é isso? -Opa!

- Já jantei. - Já jantou?

Você não tinha que estar lá no restaurante?

Cortando cebola, alho, "jambrando", suando a camisa?

Hoje é segunda-feira, o restaurante está fechado.

-É folga. -É?

Então, aproveita.

Aproveita que é folga.

Então, vai comer coxinha, é?

Tchau.

Ih! Amarelou!

Pô, o nome do cara? É meu camarada, Alecrim.

-Porra, é nome de ladrão? Alecrim? -É o codinome do cara.

Aí, não falei pra você que é bom pra caralho, hein?

É bom ou não é bom?

É, está melhorando, né? Está melhorando.

Porra, paraíba, eu sou teu fã, maluco.

Aí, Dom, essa tatuagem sua é invocada, né?

Também tenho, ó.

Bonita, colorida.

-Fez onde? -Aqui na cidade mesmo.

Essa estrela aqui, ó, é talento.

Essa outra aqui é minha mãe.

E esse pássaro louco aqui é coragem.

Todo mundo na cozinha tem tatuagem, do cozinheiro ao ajudante.

Sinal de respeito.

Eu também tenho essa daqui.

Fiz aqui na cadeia.

Com tinta de caneta Bic e ponta de compasso.

E aquelas três cruzes ali?

São os três PM's que eu matei.

Engole! Hum!

Dá, porra!

Come, Íria. Come.

É, come esse ravioli.

Vamos embora, vamos embora!

Vamos, meus parentes, que a treta está funcionando.

Valtão, vai! Parecendo uma tartaruga, porra!

Vai, Sequestro. Vai, doido!

Olha o porco aí, minha gente!

A faca, a faca, Sequestro!

Ô, meu pai!

Vai, vai. Qual vai?

Aqui, aqui.

Comi demais.

-Pô, velho, muito bom. -Gostoso pra caramba.

Vamos brindar!

Pô, de repente me surgem, do nada, um bando de samango com furadeira, cara.

Qual foi a da fita lá?

Sei lá. Alguém caguetou a porra.

Deu tudo errado lá.

Pior que tava tudo certo, tinha um cara lá pra dar a letra...

Você não para, não, cara?

Devagar aí, saco sem fundo. Porra, calma aí, cara.

Você vai ter um troço assim, rapaz.

Não está boa a comida?

Não é especial? Fala tu.

Está especial mesmo.

O cara aí é da sentença, hein, meu.

E aí, Alecrim, firmeza, hein, cara!

Ô, Alecrim.

Não tem um feijãozinho aí pra completar a mistura, não?

Claro, chefe. Fiz um só pra você.

-Sabia que você ia querer. -Ô, meu irmão! Vai lá.

Valeu. Falei que o cara era maneiro pra caralho, porra.

Tá aí, meu cria.

-Bem treinado, hein? -É.

Ele sabe que, se eu não comer feijão, é como se eu não tivesse comido nada.

-Nada, é? -É.

Ah, moleque!

É, Vossa Excelência.

Alecrim, pra que essa frescura toda aí, meu irmão?

Por que tu traz uma coisa de cada vez?

Por que você não traz tudo de uma vez e se senta pra comer, porra?

É que não é para misturar tudo no mesmo prato,

tem que sentir os gostos,

tem que ser uma coisa de cada vez, sentir os temperos, tudo.

Pra quê? Vai misturar tudo na barriga mesmo.

No bucho, fica tudo junto.

É.

Mas você não vai comer merda

porque a comida vai virar merda no bucho, né, Lino?

Minha gente, alguém come merda aqui? Não, né?

Eu nunca comi merda, mas...

já fiz um desinfeliz comer.

Gente, que nojo! Eu estou comendo!

Espere aí!

E ele falou se é bom, que gosto que tem?

Ele não disse se é bom, mas deixou ele com um bafo desgraçado.

Está com bafo de merda!

Médico é um troço que eu não entendo direito, não.

Você vai lá com febre, intestino totalmente desgovernado,

e ele fala: "Virose".

Vai com dor de garganta, é virose.

Aparece com tosse e olho vermelho: virose!

Os caras passam 200 anos estudando gente morta e gente viva

e tudo que acontece é virose, é?

Por mim, tudo bem.

Os médicos olharam o Bujiú gordo, azulado, examinaram assim,

e pronto, eu pensei: "Vão falar que é virose".

Não era, não. Indigestão.

Foi o que falaram.

Quer dizer que se morre disso, é?

Achei que era o veneno que eu pus no feijão que fiz pra ele.

Fazer o quê?

Uns morrem, outros pegam o beliche dele.

Agora quem aqui vai ter as manhas de me peitar?

Com o Etcétera dizendo: "Vem cá, Alecrim, faz um refogado de carne".

"O que tem hoje, Alecrim?"

Quero ver bulir comigo.

Como será o beliche do Etcétera, hein?

Dizem que ele tem uma cela só pra ele.

Só pra ele.

Possa ser.

Possa ser que eu faça um prato bem chique pra ele.

Um macarrão à puttanesca.

É, ele vai gostar do nome.

Pra arrematar, eu podia era mandar o Vagnão, o carcereiro,

arrumar uma garrafa daquela da Itália: Sassicaia.

Amanhã vou pôr o Vagnão pra procurar isso aí.

E uma mulher, também, né?

Que faz quase um ano que nada.

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