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Original subtitles

O que faz aqui? Ficou maluco? São 5h52, porra!

- Preciso falar com você. - Mas o quê? Agora?

São 5h52! Tá louco? A Fabienne está grávida, cara!

Desculpa, sei que é muito cedo, mas é importante, preciso falar com você.

Você está com câncer?

Não, não. Nada disso, não é saúde. Eu estou bem, mas...

na verdade é muito mais importante que um câncer.

Me deixa entrar, por favor. Preciso falar com você!

Ah, eu te contei que o Bourdon morreu?

- Seu gato? - É.

Ah, merda.

Você não tá nem aí.

Não, não, nada disso. Por que diz isso?

Esquece, você não tá nem aí, nem sei por que te conto,

vejo pela sua cara que não se importa.

Então, o que é mais importante que um câncer?

Não, juro! Eu me importo com seu gato. É só que...

- Fala, estou ouvindo. - Certo, o que vou te contar

vai colocar muitas coisas em perspectiva.

Então seu gato vai acabar ficando em segundo plano, mas...

- Tá, fala logo. - Muito bem, então, Bruno.

Estou aqui. O quê?

Vai parecer completamente absurdo à primeira vista, mas precisa confiar em mim.

Eu confio em você, não precisa me preparar. Só fala logo.

Isso não vem do nada,

venho ruminando isso há um tempo, então não leva na brincadeira.

Tenho a certeza absoluta de que o mundo em que a gente vive não é real.

E que, na verdade, a gente está numa simulação.

Tudo que você acha que é a realidade. Tudo que te cerca é ilusão.

Nada é real. A gente está numa porra de simulação, cara.

- Você tomou cogumelo? - Estou perfeitamente lúcido.

Você é o primeiro a quem eu conto. É coisa de louco.

Faz uma semana que não durmo. Acredita em mim, Bruno.

Eu hackeei o sistema.

Tudo é falso, nada disso é real.

Quê?

Não, espera. Me dá só um segundo pra processar a informação.

Essa sua história não é nada óbvia.

Então, segundo você, tudo é real.

Não, justamente o contrário.

Ok, desculpa, nem tudo é real.

Nada é real.

Nada.

Você não está entendendo, né?

Sim. Estou entendendo, não sou burro.

É tipo Matrix, né?

- Mais ou menos isso. - Eu não vi. Não sei.

É igualzinho, tem que assistir. É essa a ideia do filme.

Tanto faz! Isso é ficção, estou falando do mundo real, Bruno.

Tudo é falso.

- É assustador demais. - Tudo é falso?

Tudo!

Ok.

Esse copo aqui, por exemplo.

Aham. Esse copo que eu posso segurar na mão,

onde eu posso colocar água. Você está dizendo que ele não é real?

Tudo que te cerca. Tudo que você vê ou toca.

Nada é real. Nada.

Caramba, cara, você viajou demais.

Avisei que ia parecer absurdo.

Você sequer se esforça pra não achar absurdo.

Se coloca no meu lugar. Você me solta uma dessas.

Isso aqui é real ou não?

- Não. - Vale 8 mil euros, é claro que é real.

Dinheiro também não é real. Faz um esforço, cara.

- Escuta o que estou dizendo. - Estou escutando, calma.

Deixa eu pensar um pouco. Acabei de acordar.

Não tem o que pensar. O que eu disse já é uma conclusão.

No que você quer pensar ainda?

- E isso é real ou não? - Bruno,

a gente não vai listar todos os objetos, né?

Já disse que nada é real, não me dá 50 exemplos.

Me deixa perguntar mesmo assim. Posso fazer umas perguntas?

Aceito tudo sem reclamar.

Não, pode perguntar. Não adianta nada, mas pergunta.

Adianta pra mim, pra eu entender.

Estou segurando um motor de scooter, tá vendo?

- Sim. - É pesado, tá vendo?

Tem peso, cheira a gasolina, tem até graxa nele.

Olha, suja as mãos

- Tá vendo? - Estou vendo bem, sim.

Então, apesar disso

você está dizendo que esse motor não é real, mas como eu vou acreditar?

Me escuta. Nossa realidade é uma simulação. Tudo é falso, seu motor,

seu apartamento, a cidade, seu gato morto, o mundo inteiro, tudo, até nós dois aqui.

Por que cheira a gasolina se não é real?

Cheira a gasolina porque a simulação é bem-feita.

Tudo foi planejado pra parecer o mais real possível.

Tem os cheiros, a luz, as temperaturas, a gravidade, o tempo.

Tudo parece verdade e ninguém percebe

porque a gente está preso aqui dentro desde sempre.

Mas eu hackeei o sistema.

Eu tenho provas sólidas de que tudo é completamente falso.

Pode guardar seu motor. Chega.

Aliás, o que você faz com isso na cozinha, sério?

Posso guardar minhas coisas onde quiser?

Eu coloquei ali porque o armário tem o tamanho certinho.

Olha, entra certinho.

Agora você desmonta scooters?

Espera, não muda de assunto. Isso não importa.

Já desmontei uma scooter.

Não importa, mas tem uma coisa que eu não entendo na sua história.

Se você tem tanta certeza, por que está me contando isso?

- Por que não vai falar com a polícia? - A polícia?

É, a polícia. É nisso que você pensa, sério?

Eu te digo que o mundo não existe e você quer falar com a polícia.

Sim, devem ter um setor pra esse fenômeno, não?

Não é só um fenômeno, Bruno,

a polícia também está na simulação, você não entende?

Tá, tem razão.

Por que estou contando pra você? Você é racional demais, eu sabia.

Peraí, eu, racional?

Eu sou racional, mas olha a cara de pau do cara.

Esqueceu que eu sou músico e você é banqueiro?

Eu que sou racional.

Estou sozinho, na verdade.

Tudo bem?

Estou atrapalhando?

Dê um oi pro Jacky.

Oi, Jacky.

Oi.

Desculpa, é cedo. Eu te acordei, né?

Não dormia, então não ligo.

- Tudo bem? - Tudo, sim.

Falavam de quê? O clima de vocês está estranho.

Nada de especial. A gente estava só conversando.

É, nada de especial.

Estavam falando de dinheiro, né?

Não, que isso, fala sério.

Você acha que a gente só tem esse assunto?

É mesmo, por que está dizendo isso?

Vocês estão estranhos, só isso.

Como assim, estranhos?

- É, o que é estranho, afinal? - Não ligo se falam de dinheiro,

não me incomoda. É só me falar, não tem problema.

Para com isso, a gente não está falando de dinheiro. É de sexo, tá?

- Ah, é? - Com certeza.

Fala logo, é mais simples. Por que criar suspense?

Não tem suspense nenhum, você que tá alterada. O que foi?

Tá de mau humor?

Quer brigar na frente do Jacky, é isso?

Eu sempre fico de fora quando você fala de dinheiro.

Então tá começando a me irritar, só isso. Também gosto. Queria participar.

- A gente não tá falando de dinheiro, porra! - Ei, ei, calma!

Ai, merda! Meu Deus, a bolsa estourou.

- Sério? Agora? - É, aconteceu.

Ai, merda. É agora.

- Não, o quê? - Ah, é...

- Tem certeza? - Ué, não tá vendo?

Ah, é uma menina!

Peraí, já somos pais?

Ah, estou muito feliz, uma menininha! Nossa, era meu sonho!

Meu Deus!

Vou lavar ela na banheira. Ela está toda meladinha.

- Eu preciso ir com você? - Não, dou conta, relaxa.

- Caramba, agora sou pai. - Você viu ou não?

Nossa, que loucura.

Nem caiu a ficha.

É surreal. Eu não sinto nada. É até estranho.

- Você não viu? - O quê?

Nessa hora, não viu nada estranho?

Não é estranho. Ela deu à luz. É a natureza.

Não, cara, espera.

Não é possível. Você não notou que seu bebê acabou de nascer sem cordão umbilical?

Não tinha cordão, porra!

Não pode ser, nenhum bebê nasce sem cordão assim!

Como assim, sem cordão? Deve ter cortado sem a gente ver, sei lá.

Foi rápido. A gente não prestou atenção.

Bruno,

eu vi o parto do começo ao fim sem piscar. Não tinha cordão.

Tá?

E sabe por quê? Porque a gente está na porra de uma simulação!

- Mais uma prova! - Puta merda, você ainda está nessa?

- Quer estragar esse momento precioso? - Não, quero que você acredite em mim!

Querida, vou sair 5 minutos com o Jacky. Ele está insistindo em me mostrar algo.

Parece superimportante pra ele.

Então, eu me livro dele, volto já e cuidamos juntos do bebê, tá?

Não sei o que eu fiz! Estou em pânico. Não acho a anotação!

Como assim? Que anotação?

Escolhi um nome, anotei nesse celular de merda e não sei onde.

Isso me enlouquece. Procuro e não encontro!

Não tem problema, meu amor. Eu te ajudo a achar a anotação, relaxa!

Mas mesmo assim, esse pobre bebê não tem nome!

Como vamos chamá-la? 5 minutos e já sou uma péssima mãe.

Não, não, nada disso, ei!

Fica tranquila, que isso? Vem cá!

É o efeito rebote. É normal. Isso é baby blues.

Você vai ser a melhor mãe do mundo inteiro. Sabe por quê?

Porque seus pais cuidaram mal de você. Então você vai fazer de tudo pra não repetir isso.

Eu não sei se funciona assim.

Funciona, eu sei. Seus pais foram horríveis com você.

Você lembra? Seus pais são filhos da puta.

Não fala assim na frente dela, coitada.

Relaxa, ela não entende nada.

Não precisa ensinar palavrão pra ela já. Ainda é cedo demais.

E dizem que bebê entende, sim.

Desculpa, o papai fala palavrão feio, mas tudo bem. Ela vai superar.

Ei, escuta, estou te dizendo, você vai ser uma mãe excepcional.

Estou impressionado.

- Sério? - 100%.

Hoje a gente relaxa com uma

pizza ou outra coisa gostosa e escolhe um nome juntos, tá?

Não! Quero achar a anotação. O nome era ótimo, não quero mudar.

Eu procuro sua anotação, como você quiser, preciso ir, tá?

Ei, vocês estão falando de dinheiro ou não?

Não, eu juro que não, nada disso.

- Desculpa, estou chata. - Tudo bem, eu já vou.

- Tá, até já. - Eu te amo.

Ah, eu queria sua opinião sobre uma coisa rapidinho.

Você acha que tudo é real,

ou que nem tudo é necessariamente real?

Ou talvez não tenha opinião sobre o assunto?

Estou meio zonza com o parto. Não sei bem.

É, eu entendo, claro.

Esquece, não é importante. Até mais. Eu já vou.

Agora todo dia é uma prova nova.

Chove prova. Fiz uma lista de tanta que tem.

É de cair o queixo. Por que só eu vejo tudo isso?

- É ultra assustador. - Uma lista?

É, eu anotei tudo.

Já tenho 264 provas. Então, com o cordão umbilical, dá 265, cara.

265, com certeza absoluta.

A gente está numa simulação. Não tem mais dúvida.

- E você está com a lista aí? - Não, eu deixo escondida.

Eu queria dar uma olhada nela um dia,

pra entender melhor, porque, pra ser sincero...

Ei! Tá maluco?

O quê?

O senhor me bateu com tudo. Olha pra frente.

Desculpe, não prestei atenção.

- Desculpa. - Claro, sei.

Não estou nem aí, seu babaca.

Vai, some daqui. Vai encher a cara.

Ei, isso foi demais. Não pode falar assim com ele, coitado.

Ele me machucou. Tem que olhar por onde anda na rua.

Não esbarro em ninguém. Não presta atenção?

Ele é um velho. Vai ver é cego.

Isso não se faz. É violento demais.

Ele é doente.

Minha mulher acabou de ter um bebê.

Posso ficar nervoso por cinco minutos ou não?

Você me autoriza?

Não gosto dessa agressividade. Sem motivo, não.

- Não é legal. - Ei, tem que se decidir.

Você diz que estamos numa simulação

e agora se preocupa porque sou grosso com um velhote cego.

- Não faz sentido. - Não tem nada a ver.

Como assim?

Se a gente está numa simulação, tá, eu aceito, então dá pra não ligar, né?

Já que não é real, não tem nada de grave. Tá vendo? Isso aí também não importa.

Para, não seja tão idiota assim.

A gente pode xingar todo mundo, só porque é uma simulação.

Esse seu raciocínio é uma merda, Bruno.

A gente não sabe quem está no controle. Tem que ter alguém nos observando.

Tem que ter cuidado. É isso que é assustador.

Alguém deve ter criado isso.

Ok, então você está num delírio paranoico.

Vai ver é isso: Deus.

Um cara que cria simulações e observa como as coisas acontecem.

Então é Deus, então? Caramba, você enlouqueceu, cara.

Ou o diabo, não sei.

Não tenho certeza. Fico me perguntando. Pode ser uma experiência de extraterrestres.

Claro, até parece, aham. Não têm o que fazer.

Se a gente fabricasse um mundo, só ia ter idiota pra observarmos.

Você não entende a profundidade disso. Esquece, cala a boca.

Olha só, é aqui.

Tá vendo a cabine do banheiro ali, bem na nossa frente?

E daí?

Vê o arbusto ao lado dela?

Vejo tudo, sim.

O céu, as crianças, a terra, as árvores. Eu tenho olhos.

Vejo as coisas, sim.

Muito bem, escuta o que a gente vai fazer.

A gente vai chegar perto do arbusto e se esgueirar por trás

tomando cuidado pra ninguém nos notar, tá?

Nossa, que plano hilário esse seu.

A gente vai se esconder atrás de um arbusto, sério.

O que é isso, hein? Depois tem que tirar a roupa?

Não vai rir por muito tempo. Tá pronto ou não?

Vai.

Nem sei por que estou pronto, mas estou.

Muito bem, vamos. Me segue.

- Os moleques vão ver. - Eu cuido disso.

Oi! E aí, pessoal?

Vocês podem fazer um favor e ir brincar mais longe, ali?

Por quê?

A gente precisa de sossego, eu e meu amigo.

A gente quer sentar aqui pra falar de coisas importantes de adulto.

A gente estava aqui antes. Foi o senhor que mandou a gente ir longe.

Esse lugar é nosso. Sempre brincamos aqui.

Tá.

Dou 100 euros e vocês brincam mais longe. Topam?

A gente não divide 100 euros em três partes iguais, moço.

Vai dar número quebrado, vai criar confusão entre a gente.

Não é legal. Dá mais.

Mais?

- Não, mas... - Nossa, que atrevimento, esse ruivinho.

Não fala assim com meu amigo.

Vamos, sumam daqui e não discutam. Caiam fora!

Tá bom, a gente vai. Fica calmo.

Tá, tá.

Estou calmo, mas posso surtar em dois segundos.

Então caiam fora antes que eu chame o orfanato.

- 100 euros, ficou maluco? - Tanto faz. É uma simulação, vem.

Então eu tinha razão. Dá pra não ligar.

Para de ver só o lado do "não ligo". É muito mais vertiginoso, vem.

Ok, legal.

Porra, Jacky! O que você está aprontando? Não vou entrar em esgoto, já aviso.

É o primeiro a quem eu mostro. Vem, chega mais.

- O quê? - Vem ver. Não fica com medo.

Olha aí dentro, por favor.

Certo...

Eu não entendi.

Mas você está vendo.

Não, juro. Não entendi. Você mantém um passarinho preso aí dentro?

Não, é um bug, repare que ele fica parado no lugar.

Puta merda, é mesmo!

Que loucura isso!

Agora acredita em mim? Você estava duvidando.

Não é possível um passarinho que voa parado assim.

Olha, não faz nenhum sentido.

Ele não avança?

- É muito esquisito. - Pois é, ele não avança.

E veja, eu consigo tocar nele. Não é ilusão, ele está aí mesmo.

- Ele reage um pouco, tá vendo? - Sim.

Volta sempre pra mesma posição. E continua voando.

Tentou pegar com a mão?

Claro.

Foi o que fiz primeiro. Achei que estava preso.

Quis libertar ele.

Pois é.

Tentei 45 vezes. Sempre volta pro mesmo lugar.

É um puta bug, estou falando!

Até tentei levar ele pra casa numa sacola. Soltei a 500 metros daqui.

Voltou direto pra se enfiar aí dentro. Também vim ver de noite.

Ele ainda está aí. Voa sem parar.

- Incrível. - É.

Posso te perguntar só... Desculpa, mas como você descobriu isso?

O que você fazia atrás do banheiro de um parque? Suspeito, né?

Tanto faz. Um dia eu estava com vontade de mijar.

A cabine estava ocupada. Não podia esperar, me escondi.

Porra,

eu te mostro uma coisa impressionante e você só tem essa pergunta, sério?

- Não, sei lá. - Quando foi isso?

- Faz três semanas. - Faz três semanas que ele voa feito idiota?

Não, eu descobri ele há três semanas.

Vai ver ele está aí há mais tempo, não sei, talvez desde sempre.

Cara, vou ser honesto, tá?

Essa sua história me dá dor de cabeça.

A gente está numa simulação. Eu te digo, é a única explicação.

Virei o problema do avesso.

A gente está num mundo fabricado e tem uns bugs sobrando. É isso.

Foi o primeiro que descobri.

Isso me deixou com a pulga atrás da orelha e aí comecei a ver mais por aí.

- Acredita agora ou não? - Escuta, por enquanto, eu,

o que eu acredito é que tem um passarinho aí dentro, tá?

Isso é certo.

Mas eu não sei o que isso significa. Sinceramente, estou perplexo.

E o cordão umbilical?

Isso eu não vi. Não posso opinar.

Ok, você ainda quer ver minha lista?

Obrigado, senhor. Tchau.

Sou eu ou ele dirigia muito mal?

Ah, sim. Aquela freada, horrível.

Isso me irrita. Como é taxista e dirige tão mal?

Cara, você tem um trabalho. Faz direito, pelo menos.

Sério.

Aliás, é um trabalho de merda.

É, não está errado.

Sim, é normal recém-nascido chorar.

E você tentou dar de comer?

Ah, tá.

Então pode ser... Coloca uma roupa nele, quem sabe?

Não, digo, coloca uma roupa pra ele parar de tremer, sei lá.

Não, pra ela parar de tremer. É, tem que dizer ela. É menina, desculpa.

Você achou o nome, aliás?

Pra gente parar de falar "ela". É chato demais, né?

A gente parou aqui... Rapidinho na casa do Jacky.

Eu sei, já vou.

Volto rápido. Ele quer me mostrar a TV nova.

Ele arranjou uma tela plana com função 4D.

É novo, é incrível. É mais que 3D, é 4D.

Sim, eu juro. Então, ele quer me mostrar o...

Eu sei, eu sei. Enfim, ele está feliz assim.

Sim, relaxa. Já estou indo, amor.

A gente não demora. Volto o mais rápido possível.

Combinado.

Tá, até já.

Não posso deixar ela sozinha muito tempo. Ela está penando com a menina.

- Mostra logo pra acabarmos com isso. - Acabarmos logo?

Espera. Você sabe que sua percepção da vida vai mudar pra sempre, né?

Não pode dizer "acabarmos logo" como se fosse uma besteira.

Não, tá, desculpa.

Estou compartilhando com você uma descoberta importante.

Tem certeza?

Vai, estou superinteressado. Me mostra.

Quer aproveitar 5 segundos de ignorância

antes de saber o que vai te abalar, ou vamos direto?

Vamos direto.

Bora, estou animado. Vai, me mostra.

Muito bem. Vai, lê isso.

- Começo por cima, imagino? - Em ordem cronológica das descobertas.

Sim, por favor.

Tá. Número 1, o passarinho preso num bueiro.

Ok, acabei de ver com você.

Muito bem, você está acompanhando. Continua.

Número 2, as mãos da padeira da rua Mazan.

Vi uma padeira que tinha oito dedos em cada mão.

O quê? Que horror.

Puta merda, coitada!

Não, ela nem percebe. Não é uma malformação.

É um bug, como o passarinho.

Ah, desculpa, mas não.

Vai ver, dessa vez não é um bug.

Vai ver ela é deficiente, coitada, o que poderia fazer?

Não, esquece, nada a ver.

Oito dedos não existem. Nem na Índia.

Não, é impossível. É um bug! Estou te dizendo. Continua.

Ok! Então, número três. O elevador no prédio da vovó.

Completamente mindfuck.

É um elevador que está sempre lá, em todos os andares, ao mesmo tempo.

Funciona perfeitamente.

Dá pra entrar nele e ir aonde quiser, sem nenhum problema.

Ele está o tempo todo em todos os andares.

Abre qualquer porta, ele está lá.

É de enlouquecer!

- Nossa, que assustador. - Superassustador.

Dá dor de cabeça de tão impossível. Passei quatro horas lá testando a coisa.

E quem é a vovó?

Uma tia minha.

Ok.

Uma tia que você chama de vovó? Isso também é um bug, não?

Não importa, continua. Vai.

Você não quer rir, sem problema.

Se te incomoda, deixa pra lá. Parece que você está brincando.

Não, desculpa. Você sabe que gosto de brincar.

Sim, mas não é a hora. Caramba, eu te conto um segredo absurdo.

Tá, entendi. Eu não estou levando na brincadeira.

Vamos lá. Então, número quatro, o chapéu.

Sim.

Tem um chapéu que flutua no Sena sempre no mesmo lugar.

Às vezes está lá, às vezes não.

Vejo quatro vezes por semana quando passo pelas margens.

- E daí? - E daí que é impossível.

Um chapéu flutua. Depois, sei lá.

Normalmente ele afunda ou vai com a correnteza.

Não pode ficar sempre no mesmo lugar.

- Outro bug, então? - É a minha lista de bugs, né?

Tá.

Número 264, o cocô de cachorro da rua Régis Courant.

Isso.

Perto do escritório, dois dias atrás, vi um cocô de cachorro piscando no chão.

Tipo um flash contínuo.

E depois de cinco minutos ele sumiu completamente.

É isso.

Você sabe tudo.

Caramba.

E agora eu posso acrescentar

265, o cordão umbilical do bebê da Fabienne.

É isso.

Cara, estou chocado. De verdade.

É de cair o queixo. Sabe que estou todo arrepiado?

Não acredito, cara.

265 provas, cara.

Agora você acredita ou ainda está cético?

Então, me escuta bem.

Não só estou com você,

como também quero entender essa bagunça.

Você me deixou curioso. Então, sim, pode contar comigo 100%.

Vou te ajudar até o fim dessa investigação. Não sei como vamos fazer.

Nem o quê, nem como.

Mas a gente vai desvendar essa bagunça junto.

- Sério? - Olha bem nos meus olhos.

Nunca fui tão sério na vida.

Pode contar comigo, cara.

Ótimo. Valeu.

- Fico emocionado. - Relaxa.

Não conta pra ninguém, tá?

Fica entre a gente. É nosso segredo, pode confiar.

Eu não conto pra ninguém.

Então, qual é o próximo passo? O que a gente faz?

Isso eu não sei.

É.

Não faço a menor ideia.

Estou chegando, amor.

Estou chegando. É que...

Escuta, ele me prendeu aqui. Quis ver os 3 Star Wars.

De uma vez só, naquela TV nova ridícula dele...

Juro, essa merda de 4D acabou com meus olhos.

Você me conhece. Eu detesto esse tipo de filme.

Enfim, deixa pra lá. Chego já, meu coração.

Chego já. Relaxa.

Beijos.

Está vazio hoje, né?

É verdade.

Que idiota! Acha isso engraçado?

Tá vendo esse aqui?

Ah, é.

Você é um idiota.

Espera.

Tenho isso aqui pra você também. E opa!

Precisa se tratar, hein.

Relaxa, idiota.

A gente está numa simulação. Nada existe. Isso tudo é bobagem. Desiste.

Você também não existe.

Ele não sabe, esse aí.

Ele não sabe nada.

Boa noite, estou na rua há 4 anos. Estou tentando me reerguer.

O senhor teria uma moedinha pra me dar uma ajuda?

Então, quer saber? Normalmente nunca dou.

Mas hoje vejo o mundo de um jeito um pouco diferente.

Espera aí.

Olha, é seu dia de sorte.

Um cartão premier.

O que você quer que eu faça com isso?

Dá pra sacar até 12 mil euros por mês. A senha é 65-65.

É fácil de lembrar.

Vai, aproveita.

Babaca.

Ei! É o meu cartão.

Podia comprar roupa de grife com isso e tomar um banho em vez de feder assim.

- É, tá bom. - Então, azar.

Fico com ele.

Vai, some.

Toma.

Tanto faz, ninguém liga.

É demais, mesmo assim.

Adoro.

Ah, ela está dormindo.

Que fofa.

- Seu passeio demorou demais. - Nem fala, estou de saco cheio.

Ele não queria me soltar. Foi um inferno.

Ei, os três Star Wars.

Os velhos, ainda por cima. Nem os novos! Imagina o suplício.

Interminável.

Dá pra ver que estou com os olhos cansados, ou não?

Bruno, eu pesquisei na internet. Isso não existe.

TV em 4D é mentira. Você está debochando de mim.

- Quê? - Me diz a verdade.

Vocês faziam o quê?

Espera, claro que existe. É holandesa. Acabou de sair.

Não! Estou pesquisando há 2 horas. 3D existe, mas 4D não.

Holandês nunca fabricou TV. É besteira.

Não é nada disso.

Você não vai achar porque só tem na dark web por enquanto. Não está à venda.

É perigoso pros olhos. É proibido aqui.

O Jacky conseguiu arranjar porque tem um amigo hacker.

Se não acredita em mim, liga pra ele.

Não vou ligar pro Jacky, não suporto ele. Te conheço, está mentindo.

Não me trata como idiota, diz a verdade.

Estou dizendo a verdade. Por que não acredita em mim?

Falavam de dinheiro, né?

Mas que coisa! Está obcecada nisso, sério.

- Tenho razão, né? - Não.

- Tenho, né? - Não, já disse que não.

Tenho.

Tá bom! Tem razão, é isso, descobriu. Tá feliz?

Porra, eu sabia! Você me tira do sério.

Por que fico de fora quando fala de dinheiro com esse babaca?

- Psiu, você vai acordar ela. - Não, não ligo.

E ele não é babaca. É meu melhor amigo.

- É sim, babaca. - Não.

E você me irrita.

Parabéns! Tá feliz agora?

Acabou com a primeira noite de sono dela. Muito bem.

- 15 anos de terapia. - A culpa é sua. Não mente pra mim.

Nossa! Como você é chata, não tem jeito.

O que você está fazendo, posso saber? Vai deixar ela chorar?

Cuido dela desde que nasceu. Se vira sozinho.

- Se vira, cansei. - E o que eu faço?

Ei! Não é possível.

Vem cá, bebê.

Calma, não é nada.

Isso, não é nada. Tá tudo bem.

O papai está aqui.

O bebê está bem.

Ei. Você está numa simulação, então fica tranquila.

Não vai te acontecer nada. Relaxa.

Bom, né? A gente não liga pra nada.

Essa bagunça não é real. Olha.

Isso não é nada. Não é nada.

Ah, você acha graça nisso.

Então, vamos.

Legal, né?

Pode fazer à vontade.

Olha.

A gente não tá nem aí.

Ah, quem são esses?

Olha só esses dois idiotas numa simulação.

Claude? Você não gosta?

É mais nome de menino, né.

É unissex. É muito fofo, acho.

Não sei.

Não achei grande coisa pra um bebê. Parece nome de adulto.

Bom dia. O que vai ser, senhor?

Ler meu jornal sem ser incomodado.

Entendido. Vou deixar o senhor em paz.

Obrigado.

Escuta. Sobre a nossa história, pensei muito ontem à noite.

Entre uma mamadeira e outra, noite difícil, briguei com a Fabienne.

- Ah, merda. - É, super chato.

Enfim, não tem problema. Estou acostumado.

Então, com o cansaço e tudo,

a menina pra cuidar, pensei em deixar sua investigação pra lá.

Não íamos conseguir resolver algo tão enorme, só nós dois.

- Não somos qualificados... - Mas, deixar pra lá...

Não, espera, espera, relaxa.

Eu pensei isso por um tempo.

Mas depois eu deitei e, de repente, tive uma ideia.

- Porra, você me assustou. - Não, estou com você!

- Pode contar comigo. - Tá, ótimo.

- Vai, qual é a ideia? - Então eu pensei, na real,

bem pragmático, era só pegar uma câmera e filmar todos os bugs que você listou.

A gente pega 2 ou 3 dias juntos, vai pra todo lugar, filma,

documenta, com uma imagem bonita, faz uns planos bonitos, sabe.

A gente capricha, tá?

A gente faz uma montagem de tudo isso pra ficar legal de assistir.

E aí, a gente mostra pra polícia.

E vamos provar que está acontecendo algo insano.

Não, Bruno!

Esse é o seu plano, sério?

O quê?

Já expliquei, cara. A polícia é parte da simulação.

É burro ou o quê? Não adianta.

Não vão ajudar. Eles não são reais.

- Ainda não entendeu, né? - Entendi, sim.

É que a polícia, pelo menos, sabe investigar.

A gente não.

Você não entende o que está acontecendo.

Está a quilômetros de entender. Não entende o conceito de simulação.

Claro que entendo. Tá bom, tudo bem.

Tudo é real. Eu não sou burro. Entendi.

Não, nada é real, justamente.

Porra, vai me deixar maluco.

Sim, desculpa. Eu inverto toda vez, tanto faz.

Entendo perfeitamente.

E eu vi Matrix, tá, ao contrário de você.

Você acha que entende, mas não entende.

Chega de achar que eu não entendo. Isso é ofensivo.

Os senhores permitem?

- O que...? - Tudo bem, tranquilo?

O que vocês estão fazendo aí?

Caramba!

O cara sem pernas da rua Chirac é o 95 da minha lista.

Ele não tem pernas, mas fica perfeitamente em pé.

- É fascinante, não é? - Pois é.

Eu sei exatamente do que os senhores estão falando.

O senhor estava ouvindo nossa conversa?

Que bacana.

Sou Christophe Bourgeois. Trabalho há mais de 5 anos nesse assunto que preocupa vocês.

Tenho uma certa vantagem sobre os senhores.

Acredito poder trazer algumas respostas às perguntas que os senhores se fazem.

Se isso lhes interessa, é claro.

Sim, sim. Claro!

Sim, nos interessa muito. Essa história me deixa doente.

Compreendo. Venham comigo.

Meu escritório é perto. Vou esclarecer tudo.

Que coincidência incrível.

Merda!

Espera, espera, espera. Está rápido demais, acho.

Calma um segundo. Desculpe.

Posso falar um instante com meu sócio antes de segui-lo?

- Seu sócio? - Sim, meu sócio nesta investigação.

- Você está no meu pé desde ontem. - Espero do outro lado da rua.

Obrigado. Não vai demorar.

É burro ou o quê? Esse cara caiu do céu.

Ouviu isso? Ele tem respostas.

Só quero pensar antes de segui-lo, Jacky.

Porque ele também está na simulação na verdade.

Entende o que digo? Não acha meio suspeito?

Você fala disso e, do nada, no dia seguinte, a gente encontra um cara com respostas.

Ei! Fácil demais, não?

- Pode ser uma armadilha. - Uma armadilha de quem?

- Não, mas... - E se alguém controla essa simulação,

como você diz, Deus, um extraterrestre, sei lá...

É.

Então, talvez a gente tenha sido pego,

e eles viram que a gente investigava. Então mandam esse cara pra nos eliminar.

Mas... Você assiste filme demais, Bruno.

Esquece Matrix! Sabe?

Ok.

Mesmo que seja uma armadilha, vale a pena ir.

Pelo menos vamos entender algo. Vai adiantar a investigação.

Tudo bem.

E se for um tarado que só quer abusar da gente?

Quebramos a cara dele. Olha pra ele. É um nanico e nós somos dois.

- É, tem razão. - Pois é!

Bem-vindos, entrem, fiquem à vontade. Ignorem a bagunça.

É, precisava arejar de vez em quando, né?

Sentem-se.

Obrigado por nos receber. É muita gentileza sua.

Faz três semanas que quebro a cabeça nisso. Então estou muito curioso.

Desculpem. Para ir mais rápido,

vou tentar ser o mais conciso possível.

Tenho uma massagem em 15 minutos, que não posso adiar.

Ok.

Meio esquisito falar da sua massagem.

Desculpe, mas é um pouco íntimo, não?

- Deixa pra lá, Bruno. - Quê?

- Nem o conhecemos. - Tanto faz.

Ele tem o direito de falar da massagem dele. Fala, Christophe.

- Pode falar. - Muito bem.

Senhores, tenho uma pergunta muito simples para fazer.

Sim?

Os senhores já se perguntaram o que havia do outro lado de um espelho?

- Perdão? - Querem que eu repita?

Não, ouvimos.

Não, bom...

Eu, sim, às vezes tenho esse tipo de questionamento.

Enfim, acho bem misterioso o princípio do espelho.

É verdade, eu muitas vezes me perguntei como funcionava, sim.

Espera, é só um material que reflete a luz, não?

Por que misterioso?

Os senhores não responderam à minha pergunta.

Vou fazê-la de novo. Escutem bem.

Os senhores já se perguntaram o que havia do outro lado de um espelho?

Eu, pessoalmente, escovo os dentes,

penteio o cabelo e depois não penso mais no espelho.

Não, desculpe, não.

Não, nem eu. Pra dizer a verdade, não.

Não sei. Geralmente tem uma parede atrás do espelho, não?

Os senhores estão longe de entender.

Vamos fazer um pequeno teste juntos. Vão entender.

Olhem seu reflexo bem aqui e digam o que veem.

Bom... a gente?

Ué, somos nós, né.

Exatamente, são os senhores.

Não podem imaginar quão correta é essa resposta.

Os senhores têm toda a razão.

O que veem nesse espelho, senhores, são os senhores.

Claro, normal.

- E daí? - É, por que isso é um teste?

Quando digo que são os senhores, significa que são realmente os senhores.

Não entendo...

É, eu também não, confesso.

Os verdadeiros senhores são eles, não os senhores.

Não, enfim...

Como assim?

Os senhores são só o reflexo dessas duas pessoas no espelho.

O mundo em que estamos aqui é na verdade o reflexo de todos os espelhos.

Não vivemos do lado certo, senhores.

Sinto muito em lhes informar.

Nós somos apenas o reflexo.

- Não, uau... - Mas que uau o quê?

Espera, vai engolir isso direto?

Verdade, é loucura.

Entendi...

Por isso tem bugs por todo lado.

Alguns espelhos são defeituosos,

danificados ou simplesmente sujos, causando um monte de incoerências ao nosso redor.

Exatamente.

Chamamos isso de aberração reverberante ecoica.

Pode-se dizer bug também, sim, se preferirem.

Nossa.

Pois é, a gente nunca teria entendido isso sozinhos.

Podem tirar um minuto para digerir essa informação, se quiserem.

Tá ouvindo isso, cara?

Sim.

Mas...

Enfim...

Não.

Sabe de uma coisa? Eu não embarco.

Sua história não para em pé. Sem querer desrespeitar, mas...

Bruno, pensa. Isso explica tudo. Temos a resposta.

- Fim da investigação. - Não, desculpa. Eu não embarco.

Se analisarmos por dois segundos...

Vou analisar só pra ver, admitindo que seja possível.

Então o verdadeiro eu seria o cara no espelho.

Isso.

E o senhor é só o reflexo dele. A pessoa verdadeira é ele.

Certo.

Só que agora, neste momento,

ele, que supostamente é o verdadeiro eu, está dizendo exatamente o que eu digo.

Já que eu sou o reflexo dele. Estou vendo ele aqui.

Ele diz tudo que eu digo em tempo real.

Olhem, ele faz tudo igual a mim. Ou seja, significa que também

estão explicando que ele é só o meu reflexo.

Entendem o que digo? É um vórtice, essa sua teoria.

Giramos em círculos. É impossível.

É uma excelente observação.

O senhor tem toda a razão.

Eu chamo isso de microfonia evasiva imoderada.

As pessoas verdadeiras que estão do outro lado

estão tendo exatamente as mesmas conversas que nós.

Neste exato momento, absolutamente, sim. Esse é todo o paradoxo do infinito.

É muito perturbador à primeira vista, admito.

É, no entanto, a triste verdade. Nós somos apenas reflexos.

Os verdadeiros humanos estão do outro lado.

Essa informação explode minha cabeça.

O verdadeiro eu é aquele cara?

Não, não. Jacky, não se deixa enganar.

Me escuta.

O cara do reflexo está percebendo a mesma coisa.

Ele também está dizendo isso ao mesmo tempo que você.

O verdadeiro eu é aquele cara, então?

Então não faz sentido nenhum.

Se ele acha que você é o real, não faz sentido.

- É um ciclo sem fim! - Ele tem razão.

É um ciclo, exatamente.

Pois é, desculpe, Christophe. Vou levar o raciocínio mais longe.

Se a gente pusesse um segundo espelho na sala, o que aconteceria?

Haveria mais dois de nós refletidos, então o quê?

Como saber, no fim, quem são as pessoas verdadeiras?

E dá até pra pôr 50 espelhos se a gente quiser.

O senhor captou perfeitamente a complexidade do problema.

Sua análise é brilhante.

O senhor tocou numa noção fundamental que eu chamo de vertigem da existência.

Quando tomamos consciência de que estamos todos perdidos nesse infinito perturbador,

sentimos automaticamente essa vertigem abissal que o senhor descreveu tão bem.

Aliás, é o objeto de todas as minhas pesquisas.

Trabalho nisso dia e noite.

Gostaria de expor essa verdade ao grande público, mas ainda é um pouco cedo.

As pessoas ainda não estão prontas.

Em todo caso, parabéns.

É muito pertinente o que o senhor acaba de dizer.

O senhor é rápido, hein?

Repito, o senhor é brilhante.

- Ah, é? Brilhante? - Sim, brilhante.

Estou sentindo a vertigem. Minha cabeça até gira, é uma loucura.

Ei, tá ouvindo isso? Eu sou brilhante.

Raramente conheci alguém com tamanha capacidade de análise.

O senhor é cientista?

Ah, que gentil, obrigado, mas não. Eu sou músico.

Faço jingles, principalmente pra comerciais.

O senhor talvez tenha perdido a vocação.

- Também não sou ruim em melodia. - Então, esperem.

Tenho uma pergunta, ou melhor, tenho mil perguntas.

A gente pode se comunicar com os verdadeiros nós que estão do outro lado?

A gente pode ir pra lá também?

A gente morre ao mesmo tempo que eles?

A gente fica preso aqui pra sempre? Porra!

Bom, infelizmente não tenho mais tempo hoje.

Preciso correr pra minha consulta.

Desculpem, senhores.

Aqui, meu cartão.

Ok.

Não hesitem em me contatar se quiserem prosseguir esta conversa.

A gente quer. Tem que se ver de novo. É frustrante demais.

O senhor está livre amanhã?

Cuidem-se.

Até mais.

Obrigado, Christophe, hein. E boa massagem, hein!

- Ai, não! - Nossa!

- Ai, meu Deus, não, não! - Merda!

Que horror, está todo espalhado! Agora ele nunca vai explicar o resto!

Chamem socorro, rápido!

- O quê? - Socorro!

Sim, claro.

Chama uma ambulância pra mim, por favor,

no ponto exato do GPS onde eu estou, o mais rápido possível.

E uma equipe de limpeza profissional, se possível. É urgente.

Obrigado.

Eu não consegui frear. Ele surgiu de repente.

Por quê? Por quê?

Mas o senhor dirigia rápido demais.

Eu estava atrasado, o que posso fazer?

- Minha vida acabou por causa de um mendigo - Ele não era mendigo.

- Acabou de matar um gênio! - Sinto muito! O que foi que eu fiz?

Sinto muito...

Que merda.

É minha culpa!

Não olhei ao atravessar.

Sou burro demais...

Que fim de merda!

Todos esses anos de pesquisa jogados no lixo.

É terrível. Continuem a refletir.

Vocês estão num bom caminho.

Vocês são brilhantes.

Continuem o trabalho que eu comecei.

Eu imploro! É muito importante.

E façam sozinhos.

O raciocínio do seu amigo não é tão bom como o seu.

Ele vai te atrasar.

Confie menos nele. Ele não tem o seu nível.

Continue sem ele.

Você é brilhante, de verdade.

Continue. Faça por mim.

Porra.

15 ANOS MAIS TARDE

Bruno...

você entra em um minuto.

Vai se foder!

Obrigado, Sandrine! Fascinante, como sempre.

Bom, meu próximo convidado dispensa apresentações.

Todos o conhecem bem,

pois ele está na origem da maior reviravolta da história do nosso mundo.

Graças às suas pesquisas e ao seu imenso talento,

pudemos descobrir que não éramos exatamente o que pensávamos ser.

Graças a ele, vocês sabem e é lamentável,

tivemos que abrir os olhos e aceitar que éramos só o reflexo de nós mesmos.

Desde essa descoberta espantosa,

nossa relação com a existência foi abalada, questionada, revirada, transformada.

Hoje, se meu convidado decidiu nos honrar com sua presença,

é para nos apresentar em exclusividade mundial sua mais recente descoberta que,

creio eu, deve mudar mais uma vez nossa percepção do real.

Um trovão de aplausos para o grande Bruno Moulin.

Obrigado, muito obrigado.

É muita gentileza, obrigado.

Quem entre vocês nunca sonhou em passar para o outro lado e sentir a vida real?

Ver a realidade como ela é, sentir as emoções verdadeiras,

tocar a matéria verdadeira, se inebriar com os verdadeiros cheiros,

os verdadeiros sabores, ou ainda simplesmente ser você mesmo de verdade?

Quem entre vocês pode afirmar nunca ter sonhado com tudo isso?

Ninguém, evidentemente ninguém.

Desde a minha descoberta, somos todos e é bem normal,

obcecados, atormentados e até assombrados

pela nossa miserável condição de simples reflexo.

É por isso que...

tive a ideia de desenvolver aquilo que meus detratores chamam de...

"Gadget."

Mas que pessoalmente prefiro chamar de remédio mental revolucionário.

Permitam-me apresentar a vocês esta noite, em exclusividade,

O Reflecto.

Perdão, desculpem. É a emoção. Pronunciei mal. Vou recomeçar.

Permitam-me apresentar...

O Reflectus.

Olhem isso: uma maravilha da tecnologia.

Essa pequena máquina, que cabe na mão e pode ser usada por uma criança de cinco anos,

de tão simples e ergonômica que é seu design,

foi concebida para ajudá-los a superar seus medos e angústias.

Este pequeno espelho que veem na frente permite ao Reflectus escanear

todas as emoções da sua pessoa verdadeira, que está, como sabem,

do outro lado do espelho.

Os metadados escaneados são transmitidos ao seu cérebro em tempo real pelo sensor.

Proporcionando-lhes assim a ilusão de estar do outro lado do espelho

sendo vocês mesmos, em tempo real, é claro.

Chega de falar. Demonstração.

Primeiro, instalo o sensor assim.

Depois ligo o Reflectus apertando este pequeno botão aqui.

Fui eu que compus esta melodia.

O Reflectus está pronto. Vamos lá, a experiência pode começar.

Basta eu me olhar alguns segundos no espelho para que...

Aí está.

Muito rapidamente, as primeiras sensações começam a chegar e...

Aí está.

Começo a sentir, sim. Chegou.

Isso. É... Uau.

Me sinto muito melhor.

Tenho a impressão de ser plenamente eu mesmo.

Me sinto bem.

Realmente, estou do outro lado.

É fascinante. É delicioso, até.

Delicioso.

Incrível.

E é isso.

24h de bateria. À prova d'água.

Disponível no fim de junho em 4 cores.

Preço de lançamento: apenas 999 dólares.

Obrigado.

Parabéns, meu amor.

- Parabéns. - Me atrapalhei.

Percebeu? Ao dizer Reflectus, quase falei Reflector.

Tanto faz. Ninguém reparou.

Foi incrível.

As pré-vendas estão bombando. A gente vai arrasar.

Que boa notícia!

Parabéns, papai.

Você foi demais, como sempre. Mas hoje você estava ainda melhor.

Acho que você me impressionou mais que de costume.

Sério, parabéns. Estou muito orgulhosa.

Sei que você não liga. Isso tudo te dá preguiça.

- Precisa de mais 500 euros? - É, aceito.

Assim posso ir ao boliche digital com meu grupo depois.

É, vai, toma.

Não precisa ficar. Sei que coquetéis são chatos.

- Pode ir. - Não, vou relaxar um pouco aqui.

Tem comida.

Vou me empanturrar.

Me empresta seu Reflector cinco minutos só pra testar?

O Reflectus?

É.

Você me empresta?

Toma, vai.

Cuidado. Não faz besteira.

Sem problema, vou tomar cuidado.

Obrigada, pai.

Vou cumprimentar o presidente. Ele chegou.

- Vai, meu amor, vai. - Até já.

Hum, excelente, isso.

Bruno, só um segundinho.

Aglaya é uma cantora badalada. Ela sonha em conhecer você.

Oi. Pode fazer uma dedicatória no seu livro?

Claro que sim.

Adorei esse. Li umas 200 vezes, acho.

É minha Bíblia. Eu sei de cor.

Que bom.

Aqui.

Vou usar o Reflectus pra escrever músicas

mais conectada às emoções da minha pessoa verdadeira.

Me interessa explorar isso.

Poderia ganhar um antes de todo mundo

e em troca eu divulgo pra minha comunidade?

Sim, a gente deve conseguir arranjar isso.

Excelente.

Obrigada.

Até mais.

Ei, porra!

- Uau! - Surpresa!

Jacky?

Olha, você ainda lembra do meu nome. Que bom, seu vaso sanitário ambulante.

Nossa, você envelheceu muito.

O que você está fazendo aqui?

Vim ver o gênio de perto. Estou curioso.

Ei, para com isso.

Jacky, não estou brincando.

Posso mandar a segurança te expulsar em dois segundos. Então cuidado.

Custava responder às minhas mensagens todos esses anos?

Eu não recebi mensagem nenhuma, tá?

Para com essa chantagem emocional, Jacky. A gente se perdeu de vista, só isso.

Você é tão culpado quanto eu.

Deve ter mandado as mensagens pro número errado.

- Não fiz nada. - Claro, é, claro.

Péssimo momento pra me atazanar. Não vê que é minha noite?

Não ligo pra nada disso. Esquece.

Não vou estragar seu momento de glória. Relaxa.

Só vim te anunciar uma coisa. Levo cinco minutos.

Nem isso. Muito bem, ótimo.

Vamos marcar. Acho que tenho tempo mês que vem.

Dá pra organizar, é. Agora não é o momento.

Não, agora mesmo.

- Jacky... - Agora!

Se você recusar, eu faço um massacre aqui nessa sua gala de merda.

Como você me achou até aqui, porra? O que faz em Nova York?

A Karen me pagou a passagem com as economias dela.

Faz tempo que quero falar com você.

Aliás, eu não te apresentei. Não foi educado da minha parte.

Cumprimenta meu ex-melhor amigo, Karen, por favor.

Oi.

Você poderia ter achado um cara da sua idade, não?

Ela é linda, né? Ela não te lembra ninguém?

Não.

- Faz um esforço, olha. - Não me lembra ninguém. Já disse.

O que você quer, Jacky? Com essa namorada jovem?

Estou sem tempo. Estão me esperando, desembucha.

Diz pra ele seu sobrenome. Vai ajudar.

Me chamo Karen Bourgeois.

- Não te diz nada. - Não.

Repete de novo.

Karen Bourgeois.

- A filha do Christophe. - Christophe?

Você quer mesmo me fazer acreditar que esqueceu o Christophe, agora?

Christophe?

Pois é.

Eu sei de tudo, Bruno. Achou que ia se safar? Azar.

O Jacky sabe de tudo.

De tudo?

Vai, Karen.

Sua vez. Joga a real nele.

No dia seguinte à morte do meu pai, fui lá com minha babá buscar minhas coisas.

Eu tinha um quartinho num canto.

Ia lá principalmente às quartas.

Ouvi um barulho que vinha do escritório. E aí eu vi vocês.

Mexendo no computador do meu pai.

Minha babá achou que eram da polícia.

E como ela era clandestina, não quis se meter em encrenca.

Então a gente ficou escondida no meu quarto, esperando vocês irem embora.

Vocês ficaram plantados lá por 4 horas.

Quatro horas vasculhando todas as pastas, anotando num caderno.

Eu sei o que aconteceu naquele dia.

Vocês roubaram todo o trabalho do meu pai.

Tinha 5 anos, mas entendi tudo.

Ele me pediu pra continuar a pesquisa antes de morrer.

Eu só cumpri as últimas vontades dele.

Tá? Fiz tudo isso por ele.

- Eu não roubei nada. - Ei, não nos tome por idiotas.

O pai dela virou patê depois do acidente. Explodiu em mil pedaços.

Desculpa, Karen. Sou obrigado.

Mas ele falou comigo. Juro que é verdade.

Para. Você já viu um hambúrguer falar?

Não importa, Bruno. A gente te pegou, você não presta.

Trair a memória de um morto depois de roubar o trabalho dele é nojento.

Mas abandonar covardemente o melhor amigo é imperdoável.

- Eu não te abandonei, Jacky. - Fui eu que te botei na pista dos bugs.

Você me deve tudo. Como pôde me esquecer tão fácil?

Eu não te abandonei, Jacky. Você que enlouqueceu, lembra?

Depois do acidente você ficou na cama por dois meses.

Parecia um zumbi, cara. Eu não te reconhecia.

Eu ia te ver todo dia pra tentar levantar seu astral.

Te distrair, te fazer rir.

Mas você ficou assim. Olhar perdido, sem tomar banho, sem falar.

Isso é estado de choque!

Pois é, mas não queria te ver assim. Era difícil demais, só isso!

Nossa.

Que droga.

Quê?

Esse seu Reflectus aí é uma fraude. Não faz nada.

Zero sensação, é só um espelho de merda.

Ora, ora.

Bom, minha querida, não é a hora.

Você não sabe usar, então para de falar besteira e volta lá pra dentro.

Estou ocupado.

Eu sei usar, sim. Faz 20 minutos que estou nisso e não faz nada.

Só vejo minha cara no espelho, é uma bosta. Você é doido de vender isso tão caro.

Claro que não funciona. Seu pai é um golpista, querida. Não sabia?

Estou falando com meu pai, não com o senhor. Quem é esse aí?

Vi você nascer, sabia? Estava lá na cozinha dos seus pais.

Você nem tinha cordão umbilical.

Seu pai estava louco de felicidade!

Talvez a última boa lembrança que tenho dele.

Pois é, cara.

Porra!

Ei, por que você tem uma arma?

Não é nada, querida, calma.

Tenho a situação sob controle. Tá tudo bem.

- Agora faz o esperto, vai. - Se soubesse o quanto eu não ligo.

Vai, atira em mim. Já disse o que queria. Já terminei, pode me matar.

O quê?

Atira, não tenho mais nada a perder.

Viu meu estado?

Minha vida já era. Então vai, se diverte, cara.

Vai, acaba logo.

Não, você não vai se safar assim.

Não, seria fácil demais.

Claude! Escuta, minha querida.

Você vai me ajudar, ok? Eu preciso de você aqui.

Você vai buscar a segurança lá embaixo

e vai contar que um marginal tentou me agredir com uma arma

mas que eu consegui desarmá-lo, ok?

Anda logo! Desce, vai!

Vai prender esse perdedor.

Pai, não tem nem eletrônica nessa coisa aqui.

É só uma caixa vazia com um espelho colado. É sério?

Ah, esquece isso!

Explico depois. Você vai entender quando tiver idade.

Por enquanto, vai buscar a segurança. Anda logo.

Tenho idade pra entender que você engana as pessoas.

- Você é doente de fazer isso. Que vergonha. - Ah, porra! Claude!

Não é a hora aqui.

Faz dez anos que ele engana as pessoas com livros que ele nem escreveu.

Ei! Acorda, meu bem.

- Já era hora de perceber. - Cala a boca.

Cala a boca!

E ainda manda fabricar na China.

Você me dá nojo!

Eu te odeio! Eu não quero ser sua filha!

Sinto muito, porra.

Sinto muito.

Como deve ser chato ser um reflexo.

Viu como eles parecem se atormentar?

Nem me fala, é patético.

Parece tudo sempre tão complicado, dramático.

Olha, o meu está chorando.

Qual é a desse idiota? Que loucura.

O que há de errado com eles, afinal?

Eu olho cada vez menos.

É só confusão.

Sim, é deprimente.

Deprimente, é a palavra.

A gente devia se livrar desses espelhos pra não ver mais esses idiotas.

Pessoal, não vamos passar a noite refazendo o mundo.

- Terminou seu cigarro? - Agora mesmo.

Vamos. Vamos comer algo?

- Estou com fome. - Ah, isso é um sim.

Aliás, conheço um italianozinho aqui perto. Que tal?

Perfeito. Vamos.

Claude!

- Vem jantar com a gente? - Já vou, meu papaizinho.

Vamos. Let's go.

Cinco de sete, oitava.

Ok.

Você ainda quer ver minha...

Você ainda quer minha...

Quer ver minha...

Ai, caramba.

Você ainda quer ver minha lista?

Ainda quer...

Por que não sai?

É muito difícil.

Me diz.

Você ainda quer...

É, não.

Nada, nada.

Você ainda quer ver minha lista?

Ainda quer ver minha lista?

Ruim.

O sotaque do ruim.

Ruim.

É o efeito rebote. É normal.

Você está com baby blues. Isso não é nada.

Você está com baby blues.

É.

Isso é normal. Você está com baby blues.

Vira médico de repente.

É normal. Seus pais são uns filhos da puta.

O diagnóstico é ótimo.

A gente vai fazer isso pra você.

Ok.

Vai.

Esqueceu. Ele explodiu em mil pedaços.

Desculpa, Karen, sou obrigado.

Karen?

Ele chamou de Karen.

É melhor como nome ou não?

Karen, é Yves.

Ele pegou Karen como nome.

Karen Bourgeois.

É uma mistura um pouquinho mais forte.

É, na verdade sem fôlego, entendi.

Inacreditável.

Atuação sem fôlego.

É, tá, tá, atuação sem fôlego.

Muito bem.

Ótima indicação.

Então não?

Não tem nada, sem fôlego, zero fôlego.

Essa foi pra mim, foi pra mim.

Não tem mais nada no saco de fôlego.

Vamos lá, do começo.

A VERTIGEM

Legendas: kephasmnc

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