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Capítulo anterior Eu e Adriana vamos nos casar.
É melhor você cuidar da tua irmã aí, desse bando de gente que tem teu sangue.
Mas deixa em paz a minha família.
Isso, eu tô com o senhor.
Eu tô com o senhor, porque o sangue tem que falar mais alto, meu irmão. Eu tô
cansado de ser explorado por todos vocês.
Ninguém vai receber nada do que é meu.
Vai tudo pra minha esposa.
Ulisses, fica.
Eu quero falar com Pilar, você e Silvana.
Em dez segundos.
Fique com o capítulo de hoje.
Pilar, Ulisses, Silvana, no escritório, agora.
Ótimo. Vou ter que falar só a gente dentro da família.
Eu acho uma excelente ideia, Arthur.
A gente conversar isso entre nós, só a família, né?
Sem mais ninguém.
O que é que você quer com a gente, hein, Arthur?
O escritório, eu digo.
Vamos.
Gente, que família horrível.
Bem, vamos falar com o vô.
Pai, por que você ajuda daquele jeito de novo?
Acredito numa pessoa que só quer o nosso bem e o bem da nossa família.
Com aquelas palavras tão duras, pai.
E ainda levou, né, avô?
Que vergonha, meu Deus.
Eu quero falar com meu avô a sós.
É isso, filha.
Esse homem entrou nas nossas vidas e virou tudo a vez.
Mas será que você não percebe, Vô, que se ele não tivesse ido atrás de mim lá
no abrigo, provavelmente a gente estaria morando lá ainda. Ou então numa casa com
muito menos conforto do que ela emprestou pra gente. A casa emprestada.
Pronto, tá aí.
A casa emprestada. Ali começou a desandar tudo. Porque ele foi entrando
na nossa vida. Foi se aproximando. Foi confundindo aí a tua cabeça.
De repente, deixou de ser doutor Arthur e virou Arthur.
Você lembra disso?
É? É isso, filha.
E olha só pra gente que aqui tá. Esse povo todo.
Esse povo, essa família dele com olhos parecidos a tudo. Ave de rapina. Todo
mundo olhando pra você. Como se você fosse uma... Presa, minha neta. Pelo
amor de Deus, acorda.
Pô, eles não podem fazer nada contra mim. Ah, minha filha. Como é que não
pode, filha? Casa pra você ver. Casa.
Casa. Vai viver, aí ele vai morrer. Depois que ele morrer, esse povo todo
vai vir em cima de você e de nós. É isso que eu sinto.
É disso que eu tenho medo, filha.
Pô,
você tem certeza que não é orgulho, como o Arthur falou?
Orgulho, filha?
Oh, minha princesa.
Isso é preocupação que teu avô tem, filha.
É uma preocupação séria, filha.
Ele se criou você com tanto carinho, com tanto cuidado, com tanta preocupação, te
dando tudo que era possível dar na vida, mas...
Isso é uma preocupação. E também um nojo que eu tenho desse homem, que não é
porque ele tem esse dinheiro todo, que ele pode comprar tudo.
Mas ele... Ele não vai comprar minha neta.
Isso eu não vou deixar.
Ele não vai se aproveitar de você.
Ah, meu vôzinho.
É só uma amizade verdadeira. Eu já te expliquei, vô. Nós somos amigos.
Continua a falar nada disso.
Porque... Você pode achar isso.
Mas... Esse teu avô aqui, não.
Eu não acho isso.
Agora que estamos só nós aqui, esquece essa história de casamento.
Essa família está se aproveitando da sua carência.
Nós que somos seu sangue, estamos preocupados.
Arthur, nós vamos deixar pra lá tudo que você falou da gente. Passamos uma
borracha em tudo e seguimos em frente.
O que é isso?
Um talão de cheques? Isso não existe?
É, pra algumas transações ele ainda é muito usado. Eu tenho sempre um pra
qualquer eventualidade.
O que é que você vai fazer com isso, Arthur?
Esses cheques pagam tudo que existe dentro da casa que foi dos nossos pais.
Eu fiz um inventário de tudo. Esse valor cobre os móveis, as tapeçarias, os
objetos de decoração?
Por isso eu não esperava.
Vocês encheram a boca dizendo que não venderam a parte de vocês de porteira
fechada?
Aí está o pagamento.
Ah, tudo bem.
Ótimo. Mas como a gente vai saber que não ficou de fora nada de valor mais
alto? Nossos pais nunca tiveram posses. Você esqueceu que nós éramos pobres.
Também não é assim, né, Arthur? Como não, Ulisses?
Quem fez fortuna fui eu, depois de adulto.
Nossos pais nunca tiveram uma obra de arte, uma joia, nada.
Sendo assim, até que você está sendo generoso, Arthur.
Como eu sempre fui.
Olha.
Parabéns. Mesmo?
Parabéns, meu irmão.
Mais uma vez, né? Você está conseguindo humilhar a sua família. Você não ia
perder essa oportunidade, né, Arthur?
Pega leve.
Não, eu só quero dizer que a audiência do processo de interdição está chegando,
né? É bom você se sair muito bem com o juiz.
Isso é uma ameaça.
Depois do que aconteceu aqui hoje, Arthur, eu não vou sossegar
enquanto eu não provar que você tá fora de si. Você tá... Você tá
completamente sem ninho. Você tá velho. Você tá mal dessas pernas. Você tá
louco. Você tá louco.
What's up?
I love...
Inacreditável. O Arthur se casando com aquela garota. Não é possível, não é
possível. O tio Arthur só pode estar maluco se casar com uma fisioterapeuta.
Na idade dele. A idade é o de menos, né? A questão é que isso aí, dando certo,
essa vagabunda vai ficar com toda a herança.
E pode procurar um emprego ainda na Pilar.
Ou então um marido rico, o que aparecer primeiro. Porque do bolso do meu tio
Arthur... Não sai mais nem um centavo pra você. Você fica falando isso como se
você nunca tivesse dependido da mesada que seu tio me dá.
Qual foi a última vez que você ganhou algum cachê, um trocado, uma moeda que
seja, meu amor? Você tá falando como se eu fosse uma encostada em você?
Aham. Não, eu sou uma encostada, sim, mas na Ingrid. Isso não diz respeito a
você. Você entendeu o que eu tô falando? Você critica a mesada que eu ganhava,
mas você nunca produziu um centavo. Por que você nunca produziu um centavo, meu
amor? Porque você tá sempre atrás de geometra, geometra, geometra, geometra.
Quem foi?
Quem foi o último infeliz que você infernizou?
Pituxo. Pituxo. Era assim que ela chamava ele. Pituxo.
Pituxo. Olha que coisa. Nem lembrava mais dele.
Pituxo. Mas eu acho que ele vai lembrar de mim.
Quando ele achar o apartamento dele completamente destruído. Ou seja,
eternamente. Você é tão doente, minha filha. Parou.
Na boa, vocês duas.
Chega. A gente precisa pensar de maneira prática.
Se o tio Arthur... Casar com a Adriana, o que vai acontecer?
Sim, bicho.
Você perde a chance de voltar pra joalheria e eu perco o emprego, né,
Ingrid? Ou você acha que a pistoleira vai deixar algum de nós aqui assumir o
negócio? Ah, não que não. Mas isso que não mesmo, meu filho. Isso não.
Tá?
Você dedicou anos da sua vida àquele lugar. Isso é muito injusto. É, só que
se a Adriana quiser, o tio Arthur não vai pensar duas vezes. Ele vai botar o
Tiago pra correr de lá e instalar a mãe e o irmão dela lá dentro.
Inclusive... Aquele avô que se diz contra o casamento, na hora de colocar a
grana na frente dele, ele muda de ideia rapidinho. Exatamente.
E aí, toda a fortuna que o Arthur demorou tanto pra construir vai sair das
mãos da família pra ir pras mãos de quem? Daquela família de sem teto.
Gente, gente, isso é muito grave.
Mesmo, a gente precisa... A gente precisa impedir esse casamento. A gente
precisa...
A gente tem que fazer alguma coisa pra impedir isso.
Impedir como, tia?
Me diz.
Colocar uma arma na cabeça do tio Arthur? A gente não pode fazer isso,
porque a gente não tem condições de proibir ele. A gente não pode fazer
nada. O processo de interdição ainda tá em andamento.
Ele já tem uma audiência marcada pra daqui a pouco.
A gente...
A gente precisa provar que o tio Arthur, o meu
irmão, ele tá com demência.
Porque ele tá com demência.
É. Mas como que a gente vai fazer?
Você já tentou dopar ele e não deu certo. Ela tá pirando. Não pira. Na hora
dessa, ele deve ter até um álbum atestando que ele tá lúcido. E pra ele
se dar bem nessa audiência, é só ele estar presente.
Bom.
Como nós não temos um plano, nem nada pra fazer de concreto,
eu vou embora.
Não, pera, tia. A gente precisa pensar junto.
Só uma coisinha.
Eu não tô entendendo por que você tá aqui, irmão.
Porque você como viúva do meu irmão, você não tem direito a nada. Só o Tiago
é que tem direito a alguma coisinha, porque ele é sobrinho. Então a sua
presença aqui é totalmente...
Inútil. Eu acho inútil.
Quando você me chama pra ajudar nos seus planos fracassados, eu sirvo.
Né?
Já foi desagradável o suficiente.
Eu não vou ficar aqui vendo minha mãe ser ofendida, não. Tchau, Thiago.
Vambora, meu filho.
Parabéns, mãe.
Você acabou de conseguir ofender e destratar duas pessoas que são muito
legais. Além de mim, claro.
Essa Silvana é uma nota de rodapé na nossa família, né?
Ah, insuportável. Ninguém lê. Não serve pra nada.
Eu nunca fui com a cara dela. Sempre achei ela chata.
Essa arrogante nunca me desceu!
Ela pensa que ela é o que? Melhor que todo mundo. Mãe. Eu tô cansada. Você não
vai cair mais nas provocações da tia Pilar. Você sabe que ela sempre foi
assim. Não tem onde cair morta.
Tá? Ela não tem onde cair morta. O dinheiro é todo do Arthur.
E essa infeliz. Essa desespera.
E agora dessa Adriana, né? Que pelo visto amarrou meu tio direitinho. E você
acha que ele seria mesmo capaz?
De te colocar na rua, meu filho? O sobrinho dele?
Claro. Com certeza.
Você acha que não?
Ele nunca apostou em mim, mano. Nunca apostou em mim.
Se não fosse o meu pai, eu nunca teria sido promovido naquela empresa.
Eu seria só um vendedorzinho.
Ai, meu Miro.
Ai,
meu Miro, que pauta que você me faz.
Ele protegia a gente desse bando de abutres. Era o Belmiro que defendia a
nossa família.
Pois é, mãe, mas agora ele não tá mais aqui, tá?
A única forma de eu subir na empresa é se o Tio Arthur morrer.
Sem essa Adriana por perto.
A Pilar tava doida, né? Foi quando que ela não está doida, me diz.
E chegou.
Oi, família. Vida! Ei, como é que terminou a discussão?
Pela cara do papai, nada bem. Ainda bem que vocês saíram antes.
A situação foi ficando cada vez pior.
A família daquela fisioterapeuta de quinta, uma bacharia.
A Pilar também não fica muito atrás, né, vida?
Não, mas e o tio Arthur vai insistir no casamento?
Mesmo com a avó da garota, você não conta? Filho, difícil ele mudar de
ideia. Arthur tá muito decidido. Você comeu, vida?
Eu não comi.
Bom, no meio disso tudo, eu tenho uma boa notícia pra vocês.
Como assim, boa notícia?
Você, Felipe, pode voltar pra concessionária pra pegar seu carro.
E você, Carol, vê tudo que é preciso pro seu cursinho. É sério? Viu a piada do
meu carro agora, né? Mas como assim? Como assim, Uli? O que você tá querendo
dizer? O Arthur deu um desses pra mim, pra Silvana e pra Pilar.
Peraí, baseado em quê ele deu um cheque desses pra vocês?
É um pagamento por tudo que existe na casa que tava fechada. É sério mesmo? Eu
posso programar minha viagem? Não, não, peraí, vocês estavam sérios? É um cheque
de quanto? Dá pra pegar meu carro de volta?
Aqui, nesse cheque, tem muito mais do que o seu carro e a sua viagem.
E o que sobrar... O que sobrar é feito pra você, tá?
Você investe, faz umas compras. Eu não quero ficar com nada.
Por que não, pai?
Digamos que esse dinheiro do Arthur não tenha me dado muita sorte.
Eu posso pagar.
Passa a sorte pra cá.
Eu tenho sorte, eu tenho sorte. Mas deixa eu ver.
Quanto que é?
Que noite, gente, que noite.
Nossa, muito ruim ver meu avô desse jeito. Eu queria que as coisas tivessem
sido diferentes.
Eu acho melhor vocês passarem a noite aqui. Vocês já tiveram muito
aborrecimento e emoção por hoje.
Olha, não, não, a gente não quer incomodar. É melhor não.
Não, não, não incomoda nada. E esse apartamento tem tantos quartos. Eu já
separei o de vocês.
Bom, nesse caso eu aceito, porque eu tô muito cansada, muito.
Fora que ia ser difícil a gente encontrar o vovô depois de tudo isso,
né? É, vamos baixar a bola, botar a cabeça no travesseiro.
Obrigada por mais essa, Arthur, e desculpa, tá? Um prazer ter vocês por
aqui. Obrigada, doutora Arthur, obrigada.
Ai, mãe do céu.
Eu tô morrendo de fome, preciso comer alguma coisa. Eu não vi nada.
Com essa briga toda, um monte de comida boa lá e ficou, ninguém comeu.
Estranho esse outro lado da sua família, né? Por quê?
Sei lá.
Pai morre, os primos não se fala.
Família briga, né, Clebinho?
Família briga, né, filho?
Sua família não briga? Eu não tava brigado com meu pai até pouco tempo
atrás. Ele tava tudo se demorando. Mas graças ao acidente vocês se
reconciliaram, né? Pelo menos pra alguma coisa serviu a sua confusão.
Nada acontece por acaso nessa vida, cachorro.
Olha só, você, Clebinho, você acha que eu nasci ontem, seu cachorro viejo?
Cachorro viejo. De las peor herpes.
Meu amigo, pode tirar o seu cabalinho da chuva, eu não vou voltar a trabalhar com
meu pai. Eu não tô falando nada. É, mas eu sei o seu proceder, eu sei.
Eu tenho muitos motivos pra isso.
Acho que alguns deles é bom nem saber.
E é bom que você nem saiba mesmo tudo, que isso é até melhor pra você mesmo.
Exatamente. Tô falando dele.
Seu pai? É.
Ei, pai.
Fala, filho.
Como foram as coisas aí?
Ah, maravilha.
Maravilha, ótimo.
Vocês já estão na estrada?
Ai, que bom. Que bom que as coisas deram certo.
Tá bom. Passa aqui, pô.
Por que você não passa aqui? Ah, é ótimo.
Cleber e Pedro vêm almoçar aqui, tá bem? Pode deixar, vou dar uma caprichada.
Falou que vai dar uma caprichada. Como sempre, ele respondeu.
Escuta, ontem foi um pandemônio aqui.
É, não, seu padrinho falou que vai casar.
Sim, sim. Não, mas o que era pra ser uma celebração virou quase a terceira guerra
mundial. Ui, mais duas pessoas pra almoçar, então faz mais um peixinho, mas
eu não vou estar, tá?
Capricho.
Melhor pessoalmente, você não vai acreditar.
Beijo. Valeu, beijo, boa viagem, beijo.
Ai.
Ui. Ó, pode deixar que eu já deixei tudo organizado.
Por quê?
Ué, porque eu não vou estar.
Tenho dermato.
De novo?
De novo.
Vou tomar banho.
O que foi, Pedro? O gato mordeu sua língua, irmão?
Tô chocado, filho.
Chocado com o quê? Meu padrinho vai casar.
É nada. É sim.
Acabou de falar isso. Vai casar.
Tá todo mundo doido. Ninguém sabe quem é a mulher. Assim, do nada, do nada.
Do nadão.
Imagina a confusão. Confusão mesmo.
Agora, por que ele não falou nada? A gente conversa pra caramba. Não falou
nada pra mim. Não sei.
Eu não sei nem quem é essa mulher.
Você sabe o que é isso, né, Pedro?
Trabalha demais, irmão.
A gente trabalha tanto que não dá nem tempo de viver, né?
É,
você tem razão.
Você tem que aparecer lá. É, eu tenho que aparecer lá mesmo. Entendeu?
Fazer uma visitinha para o velho entender o que está acontecendo.
Chegamos.
Você tira aquela roupa da mão. Tá bom.
Novidade, né? Não dá.
Fica tudo com cheiro. Tchau, obrigada. Muito obrigada. Tchau, tchau.
Você tem que prestar mais atenção. Olha a porta, menino.
Meu Deus.
Desculpa, tá?
O que houve? Você está tão disperso, avoado, gente. Será que é uma coisa da
idade? Não sei dizer, não.
Eu vou passar um café bem forte pra dar uma levantada. Bom, vocês estão
entregues, né, gente? Tudo certo aqui?
Essa hora eu não consigo mais ir pra escola. Se eu chegar, vai estar na
última aula já.
Ah, então você faz o seguinte. Vamos comigo lá na Elenice. Você me acompanha?
Ah, não.
Vamos juntos. Não, não vou não.
O Tom vai estar lá. Ele vai ficar implicando comigo como sempre. Não
quero.
Você estava aí, vó?
Que mala é essa?
Vou encontrar um canto pra ficar.
Eu tô saindo daqui.
Quando você pensa que tá tudo errado e negativo e que ainda vai
piorar.
Piorar.
Para todo mundo a vida é difícil, mas todos fazem seu sacrifício para
melhorar, para melhorar.
Lá vem o sol para derreter as
nuvens negras, para iluminar o fim do túnel e a luz do céu.
Para inspirar os seus desejos, para fazer você encher o peito e
cantar.
O que
você disse?
O que você ouviu, Adriana?
Não consigo, não.
Não tem um clima para ficar aqui, nesta casa de baixo.
deste teto que pertence àquele homem com quem eu briguei, que eu tenho raiva e
que está separando a minha família. O Arthur não está separando a nossa
família, vô. Por favor.
Será que você é tão orgulhoso que você não consegue entender a amizade sincera
que ele tem por mim, por nós?
Para com isso, vô. A gente vai poder viver melhor, você vai poder parar de
trabalhar. Para de ser tão radical.
E você para de bater tanto essas asas.
Baixa essas asas, fala feito homem.
Eu não vou ser sustentado por velho rico nenhum.
Você tá me ouvindo?
O senhor tá errado, pai.
É? E lá na frente o senhor vai ver.
Se o senhor quiser ir.
Vai me doer muito, mas a gente vai tá aqui, unido, esperando o senhor voltar.
Não.
Eu é que te digo, minha filha.
Eu vou voltar, vou, vou sim.
Eu vou voltar, mas vai ser pra vir buscar vocês, acolher vocês aqui, ó, nos
meus braços.
Porque a burrada que essa menina tá fazendo vai dar errado.
Eu queria tanto que você me entendesse, vó.
Porque eu te amo.
E por amar demais vocês.
É que eu tô indo embora dessa casa.
Você vai pra onde, pai?
Eu dou notícia.
Eu dou notícia.
Pai do Filho e do Espírito Santo.
Amém.
Carlos, meu amor.
Espero que você entenda a decisão que eu tomei.
Faz tão pouco tempo que você partiu.
Eu estou casando com esse amigo que a vida me deu.
Que já fez tanto por mim e pela nossa família.
E que ainda pode ajudar tanto nós todos.
Meu avô tá tão triste com a minha escolha.
Isso me deixa arrasada.
Ele não aceita.
Ai, meu Deus do céu, que eu tenha feito a coisa certa.
Agora, aqueles nossos primos lá, cara, que gente esquisita, né, Clebinho? Os
caras nem olharam pra cara um do outro, não assinaram o documento enquanto os
advogados não leram tudo.
Eu achei eles muito estranhos. É estranho ver dois irmãos que não se dão
esse ponto, né? Eles se olham, né? Eles nunca se deram.
Nunca, nunca, nunca.
O pai era o último entre os dois, agora...
Tanto faz, cada um pro seu canto. Agora, mas e essa história aí do meu padrinho
arrumar uma mulher? Que mulher é essa? Vai casar mesmo?
Fisioterapeuta. Fisioterapeuta dele?
Aí, carinho.
Não, mas... Ó,
meu padrão, essa história deu guerra. Uma guerra entre parte da família dela,
os irmãos do Arthur.
E quando eu tô falando guerra, eu não tô brincando.
Briga, briga feia.
Achei que uma hora ia baixar a polícia ali. Ah, foi feio assim, polícia?
Não, não chegou a tanto. Não chegou a polícia. Mas os caras, enfim, as pessoas
estavam muito possuídas ali.
Bom, tanto faz, você conhece a Pilar, não conhece? Infelizmente, sim, pai.
Desde muito cedo. Olha o que ela descobriu. Se o Arthur casar, ela perde
a herança, aí virou o bicho, entendeu?
É isso.
Aliás, falando em Pilar...
Daqui, vou direto para a audiência do Arthur.
Hoje ele prova que está ação e a gente ganha esse processo de interdição que é
pilar em petróleo.
Eu sabia que meu avô era contra o casamento, né? Eu sempre soube.
Mas essa reação dele, aí já é demais da ponta, né, Arthur? É isso.
Acho que o Claudial precisa de um tempo.
Ele quer as coisas do jeito dele, ele desconfia de mim.
Mas ele faz isso por amor a vocês.
Eu sei.
Só que, o senhor sabe o que aconteceu depois do jantar?
Quando a gente chegou lá em casa, meu avô estava com a mala pronta.
Ele foi embora, Arthur.
Ele saiu de casa.
Mas pra onde?
Não sei.
Ele só falou pra gente que dava notícia.
Minha mãe está arrasada.
Imagino.
Bom, espero que seja só uma fase do Otoniel, que ele finalmente entenda que
a nossa amizade é verdadeira, cheia de carinho, respeito.
E que eu só quero o melhor pra você e pra sua família.
Tudo bem?
Tá perfeito!
E é hoje que a gente ganha essa ação absurda que nunca deveria nem ter
existido. Vamos.
Boa sorte.
É por essas e outras que empregada nasce empregada e tem que morrer empregada,
né? Dinah, se você queria tomar o remédio e apagar, isso aí seria um
problema todo cedo, né?
Agora, fizesse isso depois de me contar o que estava acontecendo, Dinah.
Sabe, eu cheguei naquele jantar totalmente vendida.
Eu tava achando que era uma reconciliação com o meu irmão aí.
Cheguei lá e o que que era?
O golpe dos golpes.
Você tá entendendo?
Você tá entendendo o que eu tô falando mesmo? Mas não parece que você tá
entendendo. Você tá com uma cara de princesa acorrentada.
Desculpe, dona Pilar. Mas é que eu fiquei completamente chocada. Só de
imaginar o doutor Arthur casando novamente.
É, Dinah.
Mas é exatamente isso que vai acontecer se a gente não impedir.
Dinah.
Eu conto com você.
Viu? Eu conto.
Muito com você. De muito mesmo. Conte comigo para fazer tudo o que tem que ser
feito. Eu sou capaz de qualquer coisa para impedir que ele se case com outra
mulher. Quer dizer, com aquela mulher, né?
Eu acho que vai dar certo.
Opa!
Desculpe, dona Pilar.
Pois não.
Obrigada. Melhor você leva para casa.
Não, leva para casa. Acho que está na hora de você ir. De nada.
Deve ter um monte de coisa para você fazer.
Eu acho que o Noé colocou anta demais naquela arca ali.
Muito, muito obrigado por remarcar a audiência, meritíssimo. De fato, o meu
cliente estava sob efeito de medicação na sessão anterior.
E tomada involuntariamente.
Minha irmã, a mesma que estava tentando controlar as minhas finanças fazendo
falsas alegações, colocou um medicamento no suco do café da manhã que
eu tomei antes de vir para cá.
Os senhores têm como provar isso?
Bom, daqui do fórum fomos direto para o hospital, o exame de sangue não mente,
foi anexado no processo no dia seguinte.
O que ninguém tem como provar é que a minha cliente, Pilar Brandão, foi a
responsável por esse suposto medicamento que o doutor Arthur tomou.
Depois veremos isso.
Vamos dar início à audiência. Por favor, o seu nome completo.
Arthur Brandão.
O senhor tem consciência da cidade que o senhor está agora?
São Paulo.
O senhor conhece o motivo dessa audiência?
Sim.
Minha irmã.
E lá, Brandão, como eu disse, vem levantando falsas alegações contra mim.
Ela põe em dúvida a minha sanidade, porque ela quer controlar o meu
patrimônio. Patrimônio que eu construí sozinho, com muito trabalho.
E para isso ela inventou, que eu não sou capaz de gerir os meus negócios.
Acabou. Eu provei que eu sou dono.
E senhor das minhas faculdades mentais, totalmente capaz de tomar das minhas
decisões.
Merecidíssimo, meu amigo. Parabéns. Parabéns, doutor Arthur.
Parabéns. Mas você está sem taça, Edvaldo. Vai pegar você também. Vamos
brindar. Obrigado, doutor.
Vamos, obrigado.
Arthur arrasou.
Arrasou na audiência. Mas falou com desenvoltura sobre o caso, sobre a
Pilar. A ponta da conversa virou um bate-papo. Não acredito. Ah, com direito
a dicas das melhores... melhores áreas de ópera italiana.
Mas aí, né, assunto favorito dele?
É, turandô, né? Decorei. É, pra minha sorte, assunto favorito do juiz também.
Vamos brindar, então, ao fim das intenções mesquinhas da Pilar.
E que ela aprenda com isso.
Saúde! Saúde!
Viva! Saúde!
Tá me dando um aperto aqui no coração.
Eu queria ir embora dessa casa.
O que é isso agora, mãe?
A gente tá indo morar num baita apertamentão, super chique.
Pra pegar da vida de pobre, é isso.
A Adriana vai ser madame agora. É, você falou bem.
A Adriana vai ser madame, eu não.
A gente devia ficar aqui, sabe?
Hum. Ai, tenho esperança do seu avô voltar.
Ô, mãezinha.
Ó, se o avô quiser falar com a gente ou até mesmo voltar a morar com a gente,
ele vai te ligar, tá bom?
Pode ser.
Além do mais, a Adriana precisa do nosso apoio agora.
É. Você está certo.
A Adriana não pode entrar nesse mundo que ela está entrando.
Se a família é do lado.
A gente tem que estar com ela, sim, filho.
Então vamos. Vamos.
O
que
é isso, Antônio?
Que mala é essa aí, meu amigo?
Eu saí de casa.
Como é que é?
É isso aí.
Saí de casa, uma briga danada lá na família.
Imagina você, eu numa situação dessas, que sempre fui chefe de família,
preocupado sempre em estar ali, cuidando da família, e de repente, isso.
Mas como assim vocês brigaram? A história é longa.
Qualquer hora eu te conto. Agora o que é bom pra mim é trabalhar.
Trabalhar e tem outra coisa pra pensar também.
Não sei como é que eu vou fazer. Preciso arrumar um lugar pra ficar.
Até te agradeço se você me der uma luz pra isso.
Olha, meu amigo, acho que eu consigo te ajudar sim.
É? Eu vou dar um telefonema.
Entra aí.
Obrigado, Anis. Obrigado.
Toniel? O que é isso?
Ô moça, aparece assim, do nada.
Desculpa, eu não queria te aborrecer. Eu não volto mais, então. Não, não.
Por favor, fica. Desculpa, eu que... Eu peço desculpas agora aqui.
Eu tô muito nervoso.
Eu sei.
Percebi. Não.
Não consigo ver que você tá triste.
O que foi? O que está acontecendo?
Por que você ficou desse jeito agora?
É que eu não consigo ver que eu gosto triste.
Eu sinto a mesma coisa.
Não fica assim, não. Eu vou melhorar.
Você não sabe o bem que você me faz.
Verdade? A tua presença para mim é muito boa.
Tem dias que quando você não vem fazer a tua compra, eu fico pensando, será que
hoje ela não vem?
Eu vi que você chegou com uma mala.
É, sair de casa é uma história.
E agora tô aí, tô sem rumo.
Olha, se onde eu moro não fosse tão pequeno, tão apertado, eu te levava
comigo. E quê?
Conseguiu, Tonel?
Conseguiu o quê?
Rapaz, tem uma pensãozinha do lado, lá de casa, e eu consegui um quarto pra
você. Mas pode ficar tranquilo que é um quarto pequeno e baratinho. É, né? Está
sempre me salvando, homem.
Muito obrigado. Está vendo, dona?
Vamos com quem, Antônio?
Nada.
Ninguém.
Vamos trabalhar?
Vamos.
Hora de trabalhar, né? É, trabalhar.
Mas que coisa.
Aí sim, hein?
Gostei! Aluno dedicado, é isso mesmo.
Esses mais simples de alongamento, o senhor já pode ir começando sem eu
chegar. Já tô pensando na minha independência.
Gostei. E a dona Elisa e o Maurício também?
Dá o pé aqui. Sim, então. Então, assim, o outro agora.
Que carinha triste é essa?
A minha mãe tá triste.
Começa a perna direita a 10.
Ela nunca tinha se separado assim, né? Do meu avô, do pai dela.
Ela tá muito mal, tá sofrendo muito.
E eu imagino que meu avô também.
Tá muito bom, hein?
Vamos continuar, que eu quero ver você cada vez melhor.
Troca o lado.
Gente,
mas que amigato.
Esse sorriso, o que é isso?
E esse braço aqui?
Nossa.
Se meu vô me ver falando uma coisa dessa, ele me mata.
Mas também qual que é o problema de achar um homem bonito, gente?
Olha isso.
Olha isso, garoto. Tá fazendo o que aqui?
Vambora, vambora.
Ninguém pode entrar aqui, não.
Olha, se o doutor Arthur pega nós dois aqui, vai ser bronca dupla. Ninguém pode
entrar aqui, não. Só eu.
Por que você pode?
Ué, porque eu entro pra limpar. Já limpei mais cedo. Só que eu perdi minha
unha postiça. Olha que bonitinha, amarelinha assim. E aí eu vim procurar.
Eu acho que foi na hora que eu fiz a cama.
Achei! Tá aqui!
Achei, graças a Deus.
Agora vambora, vambora. Não, peraí, peraí, peraí.
Quem que é o carinha?
Esse aqui?
Aham.
Bonito, né?
Nossa, é um gato. Quer dizer, é um homem bonito.
Menina, esse aqui é o filho do doutor Arthur.
Ele desapareceu, coitado, numa dessas aventuras aí que ele fazia.
Herdeiro, né? Fica inventando coisas pra fazer. Ah, vou escalar uma montanha pra
quê? Pra descer. Ele morreu?
Ah, com certeza, né?
Desapareceu numa montanha gelada. Tadinho, bonito desse.
Tadinho.
Já vi que você é curioso que nem eu, né?
Mas é bom ter alguém pra conversar aqui, além da Rosa.
Não, porque o Edivaldo tá sempre estressado. A Diná acho que tem o rei na
barriga. Aí não dá.
Vai ser ótimo ter alguém pra conversar.
Inclusive, você vai me ajudar a me comportar, tá? Porque eu tenho muito
medo de dar fora aqui nessa casa. Ih, mas isso eu não vou poder te ajudar,
não. Eu sou a rainha dos fora, tem que ver. Então a gente tá junto nessa. Tamo
junto.
Agora,
vambora, menino.
Tá um problema, tem que deixar tudo igual. Chica aí, chica aí. O negócio
tava aqui, né? Isso.
Obrigado, viu?
Já dei as cinco estrelinhas aí pra você.
Tamo junto.
Ô, Dona Elisa!
Ô,
Dona Elisa! Oi!
O que você tá fazendo aí?
A senhora... Eu sou ladrão, não.
Não sou ladrão, não, dona. Estava... Estava precisando falar com eles aí.
O senhor é amigo da família? Sou amigo da família. Sou advogado deles aí. Estou
ajudando eles aí.
A senhora viu pulando, assustou, né? É.
Eu... A senhora sabe onde é que eles estão?
Não sei. Tudo apagado aí, né?
Saíram e não voltam. Eles fecharam a casa e se mudaram.
Se mudaram para sempre ou não? Sempre. Não, acho que não. Acho que a senhora
está... Tem certeza mesmo?
Olha, não sei dizer.
Dá licença que eu vou... Eu posso ficar com o número da senhora? Não, não e não.
Vou fazer as minhas compras. Dá licença.
Boa noite, senhora.
Aê, aê, aê, aê. Esse é o meu aluno, muito bom.
Tô gostando de ver demais, hein, Arthur? Que isso, natividade, sem reclamar, sem
cara feia. E feliz.
Eu quero aproveitar a vida com saúde e independência.
É isso aí, meu amigo.
Essas são as palavras.
Primeiro amarei o mundo e depois amarei a Deus.
Quem pudesse viver entre os dois?
Primeiro amarei o mundo e depois amarei a Deus.
O que é
isso?
Tiago, me separa esses anéis aqui e vê se lá dentro tem outros à altura desses.
Ou mais robustos.
Pode deixar, tio. Eu levo no escritório pro senhor.
Sim, eu vou escolher um deles. O mais bonito.
Pra dar de presente pra Adriana hoje, antes do casamento.
Meu tio, tem uma pessoa esperando pelo senhor lá dentro.
Carmita!
O que você está fazendo aqui?
Oi, Arthur.
Eu imaginei que você fosse passar aqui hoje para pegar um presentinho para sua
futura esposa.
Sim, é o que eu vim fazer.
Você me deu um anel com um brilhante, lembra?
No dia que você me pediu em namoro.
Era um anelzinho singelo, uma pedra pequena, lapidação delicada.
É, pedra bem pequena, pequenininha.
Quase não dava para ver.
Era o que eu podia pagar na época.
Eu me arrependo de ter devolvido aquele anel para você, Arthur, quando nós
terminamos. Depois que você terminou comigo para ficar com o Walter?
O que você fez com o anel?
O mesmo que eu fiz com o amor que eu sentia por você.
Derreti.
Eu transformei em outra coisa e segui a vida.
Carmita, eu estou com muito pouco tempo hoje. O que você quer?
Eu quero fazer você desistir desse casamento.
Se você se deu ao trabalho de vir até aqui só pra tentar me convencer a não
casar, pode ir embora. Porque, olha, eu tô ocupado escolhendo o anel que eu
vou dar pra minha futura esposa.
Se eu soubesse que você estava procurando por uma esposa, eu teria me
candidatado. Essa chance você perdeu quando nós éramos jovens.
É curioso, Carmita, esses anos todos nós nos encontramos por aí em recepções, em
eventos, com amigos, na casa dos meus irmãos. Você nunca falou de romance do
passado. Por que justamente agora, no dia do meu casamento?
Porque só hoje eu entendi que eu tava completamente errada esses anos todos em
não ficar com você.
Ai, esse olhar, Arthur.
Foi atrás desse olhar que eu vim.
Mas veio tarde.
E não veio por amor, veio porque tá falida.
Com licença, meu tio.
Eu trouxe os anéis que o senhor me pediu.
Inclusive, tomei a liberdade de trazer uns brincos que combinam com os anéis.
Sim.
Obrigado, Tiago. Pode ir.
Sua noiva tem muita sorte.
Eu acho que é esse anel que eu vou dar pra Adriana. É o mais bonito.
Será que ela merece?
A minha noiva merece as melhores coisas por diversos motivos, mas principalmente
porque ela não dá importância a diamantes.
Duvido que mulher não morre por uma jóia, ainda mais um diamante.
Por favor, não julgue a Adriana tendo você mesma como parâmetro.
Pena que quando a gente estava junto você não podia me dar um presente
desses.
Aí você largou o pobletão.
Pra ficar com o Playboy.
Você achou que ia se dar bem.
Acabou que ele torrou tudo e ainda te traía.
O Walter pode ter sido um canalha, sim. Mas pelo menos me deu a Bruna.
Você podia ter escolhido um melhor pai pra ela.
A gente não pode mudar o que passou, Arthur.
Mas a gente pode escrever o futuro.
Quem sabe se a gente não tentasse... Não, não, não. Camita, Camita. Pode
parar. Por favor.
Eu acho que é esse mesmo anel que eu vou dar pra Adriana.
Por que você não pede pro funcionário fazer um embrulho?
Eu fiz muito disso quando eu me virava sozinho.
Eu era o joalheiro, o vendedor, o caixa e o dono. Eu acho que você tem que
pensar bem no que você tá fazendo, Arthur.
Me disseram que essa moça é uma golpista.
Eu não vou brigar com você.
Porque eu tenho pena da sua situação.
Você veio aqui pra mendigar migalhas do passado. Isso não é verdade.
Olha, você tem sorte porque eu tô num dia feliz.
Então eu vou fazer o seguinte com você. Pode escolher um brinco. Sem diamante.
É um presente de consolação. Arthur, você tá me ofendendo. Você tá me
humilhando. Ok, ok, ok.
Não escolhe. Eu economizo.
Não, eu...
Eu vou escolher um.
Tá bom, então eu fico com esse.
Que horror.
Vou morrer, vou morrer.
Bora. Meu corpo não tá adaptado.
Aumenta isso.
Não tem como, não tem como.
Eu tô só com metade da perna. Postura.
Vambora, vambora. Nossa, hoje eu não saio dessa casa nem na rata. Vou sair
daqui.
Ótimo, pensei que você fosse obrigar todo mundo aí naquele casamento. Nunca.
Eu não vou participar daquele circo de horror.
Eu tô bem irritada com meu tio.
Ele foi muito injusto me demitindo.
Ah, eu vou.
Tinham várias comidas que eu peguei na cozinha, no jantar de noivado. Dá pra
fazer as compras no mês. Imagina agora no casamento.
O Arthur vai se arrepender amargamente do que ele tá fazendo comigo.
Ele tá só devolvendo o que você fez comigo.
Engraçado, né?
Porque todo mundo tava me criticando quando eu quis fazer lá a interdição
dele. Agora tá todo mundo vendo que ele tá ali, ó. Provando que ele tá senil,
que ele tá velho, caquético, louco. Tá casando com uma empregadinha, metida a
fisioterapeuta, uma vagabunda, um presta que ele nem conhece.
Eu vou com o Rafa, então. A gente vai representando a família.
Ai, tu me engolpe.
Bebe uma água. Me acelera.
Minha bunda fica melhor que a tua.
Vou botar o cronômetro, hein? Dois minutos no seu máximo. Vambora.
Foi? Foi?
Vai. Não, foi já.
Vamos, vida, vamos.
A sua presença no casamento pode suavizar as coisas entre você e seu
irmão. Mas não insiste, Fábio. Eu não vou.
A Silvana disse que vai ir com o Tiago.
Problema da Silvana.
Vida, olha só. O quê? Pensa comigo.
Apelar, a gente já sabe que não vale.
Aí, se você não for, fica parecendo pro Arthur que você tá do lado dela. Mas o
Arthur, porque pensa o que quiser.
Eu nem o considero mais o meu irmão. Ai, não fala assim. Mas eu vou com você, tá?
Eu quero agradecer o carro que eu ganhei. Eu vou também. Só tô viajando
graças à grana que o titio deu pra gente. Mas ele não deu porque quis, não,
filha. Ele deu porque nós cobramos. Eu, Silvana, Pilar, tá bom? Olha, vocês três
podem ir no casamento, porque o que eu quero mais é ficar sozinho mesmo.
Eu e Pilar fomos muito humilhados, tá?
Agora eu quero só ver o meu irmão num caixão. Que isso, Ulisses? Vida, coisa
horrível de sentir.
Teu pai é dramático, hein, Carolina?
Que ódio.
Que ódio.
Que ódio.
Que ódio.
Que... Mãe?
Mamãe, o que aconteceu?
O que aconteceu?
O que aconteceu?
O que aconteceu? Que eu fui humilhada pelo Arthur.
Eu nunca deveria ter ido por aula, mas ele me paga. Ele me paga, ele me paga.
Ele é um grosso, ele é um bruto. Olha aqui, olha aqui.
Olha aqui o que ele me deu, olha aqui o que ele me deu.
Ele me paga, mas ele me paga.
Espera aí, ele te deu esses brincos?
Que ódio, que ódio. Acho que você foi humilhada. Fui humilhada sim, porque
você precisava ver o anel que ele escolheu de diamante para aquele projeto
de golpista que vai se casar com ele. E depois ele disse para eu escolher um
brinco sem diamantes. E ainda me disse que era um prêmio de consolação.
Ai meu Deus, mãe, não acredito.
Eu só espero que essa sua ida lá não tenha acabado com a minha chance de
trabalhar na joalheria.
Por quê?
Você trabalha... Mas nunca, nunca. Nunca, nem por cima do meu cadáver. Eu
já falei com o Tiago. Nunca, nunca. Eu só estou esperando uma resposta, tá? Se
é que vai vir a resposta.
Depois da sua visita.
Mãe, como é que pode? Você está sempre estragando tudo, né?
Mãe, e você não vem querer me impedir de ir no casamento? Porque eu já vou até me
arrumar.
Impedir?
Não.
Não vou impedir, não.
Muito pelo contrário.
Eu vou nesse casamento.
E vou com meus brincos novos.
Tá linda.
Um arraso.
Oi, tudo bem, filha?
Não. Não, não, não, não. Isso aqui não tá certo. Não faz sentido nenhum. Por
quê? Edivaldo, abre o vestido, por favor. Calma. Por gentileza, abre o
vestido, por favor. Mãe.
Eu só me vesti de noiva uma vez na minha vida. Foi pra me casar.
Não foi? Com o Carlos? Claro.
Que é meu marido, que eu amava.
Que eu fui tão feliz.
Né? Sim, filha. É verdade.
Gente, isso aqui não tá certo, tá?
E não faz sentido eu usar uma roupa dessas pra uma cerimônia que, na
verdade, é um contrato entre dois amigos.
Não é uma cerimônia de amor de duas pessoas.
Tá certo, filha.
Concordo.
Então nós vamos encontrar uma roupa que seja prática e sem romantismo.
Tomara que essa festa seja igual o jantar de noivado.
Essa noite promete. Você não está à altura dele.
Você nem sequer o ama.
Você é uma falcatrua. Você é mentirosa.
Eu até poderia tentar te explicar, mas você não alcança. Então explica pra mim,
porque eu preciso saber. Eu preciso entender. É tão maior. Se você puder me
contar.
Eu sou um homem apaixonado por você.
Graças a Deus, foi todo mundo embora. Chega.
Nem todos foram embora.
Ainda não.
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