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Original subtitles

O senhor tá querendo dizer que o que minha mãe tem é grave?

Não, grave eu não sei, mas o médico pediu uns exames complementares porque

os resultados foram inconclusivos ou pelo menos não deu pra diagnosticar

certo. Certo.

Não, é que aí eu estou pensando já que eu vou ter que retirá-la daqui, porque

não vai dar, a gente não tem condição de pagar nem o exame, muito menos o

tratamento desse lugar, né?

Moça, a senhora pode, por favor, me ajudar? Não, não, por favor.

Doutor. Eu disse que eu me responsabilizo pelos custos.

Porque o senhor não tem a menor obrigação, doutor Arthur.

Por favor, não seja orgulhosa. Se eu trouxe a sua mãe até aqui, é porque eu

me responsabilizo pelos custos. Você não tem que se preocupar com isso.

O senhor tem certeza que depois não vai querer alguma coisa em troca? Não, não.

Eu não quero nada. Nada.

Nada. Você ouviu bem.

A única coisa que eu quero é cuidar da saúde da sua mãe.

Que eu estimo muito.

Se a gente souber o que ela tem, se a gente conseguir diagnosticar, ela vai

conseguir se curar.

Tá bom.

Obrigada.

Hoje é meu dia de sorte.

Tudo no vermelho.

Vou ter que tentar de novo.

Essa rodada me derrubou.

Filha. Opa.

Bruna?

Oi, meu amor.

Filha?

Ué?

Gente, onde é que essa menina se enfiou?

Oi, Kleber.

É a Bruna.

Então, eu tô aqui perto da casa do Pedro e eu queria pedir pra você abrir aí pra

mim.

Não, por favor, não comenta com ele.

Se ele souber que eu tô indo aí, ele não vai me deixar subir.

Preciso muito falar com ele, por favor.

Cadê aquela pastinha vermelha? O que foi?

Tá esperando algum cliente?

Entrega. A pastinha vermelha ali.

Entrega, né?

Oi.

Sempre com fome.

Tá aqui.

Aí, você viu o que rolou com aquele cara que formou comigo?

O Jorginho. O Jorginho, você viu? Ele apareceu no jornal e tudo. Nossa, eu vi.

O cara rodou, meu.

A casa do cara caiu, você vê como é que é? É, não dá pra saber quem tá do nosso

lado. Não dá pra saber. Vai confiar. Aquela cara de santo que ele tinha caiu

na delação premiada da mulher, tá no jornal. Tomou, né?

Rodou, já era.

Que loucura. Meu Deus do céu, né?

Loucura, né?

Entrega, Clebinho.

É sério, Clebinho. Já tá feito.

Eu vou deixar vocês conversarem, tá bom?

Desculpa. Tchau, Bruno.

Que gata.

Bebeu água?

Se quiser, pode ir, porque eu tenho coisa pra caramba pra fazer. Pedro, você

sabe que eu não vim aqui pra beber água, Pedro. É, eu sei.

Eu não tava passando aqui perto coisa nenhuma.

Eu sei.

Eu queria conversar.

É claro que eu sei, né, Bruna?

Você acha que eu acreditei que você tava passando na rua, ficou com sede e subiu

aqui pra tomar um copo d'água? Pelo amor de Deus.

Pedro, meu amor, eu te amo. Não, não ama mesmo. Olha só, você não ama.

Deixa eu te dizer uma coisa pra você. Você não me ama.

Você não ama.

Desculpa dizer pra você, isso não é amor.

Quando a gente ama uma pessoa, a gente não faz a pessoa de idiota.

Quando a gente ama uma pessoa, a gente não faz a pessoa de palhaço.

O que você acha que você fez comigo? Eu errei.

Eu errei. Eu fui egoísta.

Eu não medi as consequências do que eu tava fazendo, Pedro.

Eu só embarquei nessa história que a minha mãe inventou.

Eu fui muito burra, eu fui ingênua. Não, não, não.

Tudo que você falou antes você foi. Ingênua, desculpa, Bruna. Você não foi.

Você sabia exatamente o que... Acorda, Bruna! Não. Você é adulta, cara.

Você sabia exatamente o que você estava fazendo quando você me colocou nessa

situação. Pedro, eu não queria... Você tem noção pelo que você me fez passar?

Eu não queria.

Como você não queria, Bruninha?

Deixou passar a mão na sua barriga, cara? Deixou ficar... Deixou planejar

comprar um apartamento porque não cabia nós três aqui.

Deixou dar beijo na sua barriga e falar que amava o neném. Porque no fundo...

Você tava brincando comigo o tempo todo. Não, no fundo, eu queria que fosse

verdade.

Eu queria acreditar nisso.

É. Eu me perdi no que era real.

Me perdoa, perdoa. Não perdoa, não.

Faz isso comigo.

Paizinho, você chegou sozinho em casa? Eu achei que a Fábio e o Fê tinham ido

te buscar no trabalho.

Eu não tava no escritório. Passei a tarde reunido com possíveis parceiros

comerciais. Nossa, mas você tá com uma carinha de cansado.

É, tô mesmo.

Vou fazer uma massagem em você, porque você tá trabalhando muito, gente.

Obrigado. Mas que bom saber, então, que vai entrar mais dinheiro no caixa.

Eu fico até mais confortável pra te pedir uma coisa.

O quê, filha?

Então. Você lembra que eu comentei com você sobre uns amigos que vão fazer

intercâmbio pra Itália? Sim.

Eu tava pensando que seria muito bom se eu fosse com eles.

Viagem agora?

Não é só uma viagem, pai. É um curso de três meses que vai agregar muito nas

minhas notas na faculdade.

Eu sei que o curso é em euro, mas é que eu queria muito.

Mas é que não é só viagem, né? Tem estadia, tem a passagem, tudo em

euro.

Acho que agora não vai dar. Eu não tenho esse dinheiro.

Pra mim, com certeza não. Já pro Felipe tem grana de sobra, né?

O que você está falando, Carol? Daquele carro idiota dele. É disso que eu estou

falando. Eu adorei aquele lugar, mãe.

Parece que ela tinha visto um pouco. Esse povo não tem acesso, mãe. Ela

trabalha num café.

Onde você estava?

Te procurei o dia todo. A gente passou lá na empresa.

Olha o cara aí.

O cara que faz acontecer as coisas.

Eu não sei nem como se agradecer.

Pra mim, você é pai.

Não é padrasto, não.

Que cena linda.

Padrasto e enteado.

Aliás, erro meu.

Porque pra você, Felipe, ele é mais pai do que pra mim. Que isso, Carol?

Eu sou um cara, filha. Filha, não fala assim. Eu tenho meu carro novo aqui,

Carol.

Pior.

Bom, eu tô muito feliz.

Vocês não têm noção.

Eu vou pro meu quarto agora ligar pros meus amigos que eles precisam conhecer a

nave nova do pai.

Quer dizer, pai não, né? Porque o pai só tem um, né? O pai só, meu pai só.

Não, falando sério agora.

Obrigado. Obrigado de verdade. Eu amo você. Isso significa muito pra mim. Te

amo, filho.

Mas as compras eu posso deixar aqui ou você quer colar? Não, bota lá no quarto

da mãe.

Pro você eu faço tudo.

Ulisses.

Tamo junto.

Ele tá muito feliz.

O que tá acontecendo aqui, Fabi?

Que cara é essa? Por que você tá me olhando assim? Você acabou de dar um

carro de presente pro seu enteado.

Mas a gente combinou que não seria agora, Fábio. Ai, vida, nem vem. A gente

conversou, Fábio. Nem vem. Eu te avisei. Entendi errado.

Fechei negócio.

Agora já era. Vamos conversar. Fábio, você tem que me avisar antes de fazer as

coisas. Eu falei que agora não era o melhor momento pra comprar esse carro.

Qual é a diferença?

Mais dias, menos dia. Não vai nos deixar mais ricos. Muito menos mais forte. As

coisas não vão bem com as nossas finanças, Fábio. Não vão bem, Ulisses.

Hoje mesmo, você ganhou um dinheiro inesperado. Disse que ia fazer um

investimento. Era um investimento de alto risco. Não deu certo.

Bolsa? É, bolsa. Eu perdi o que investir.

A gente vai ter que voltar na concessionária para devolver o carro.

Ah, não!

Não se atreva.

A gente não vai devolver o presente que eu comprei para o meu Lipe.

Ulisses, carro é essencial pra ele andar com a cidade. Carro essencial é dormir,

comer, morar, entendeu?

O Felipe que vai de condução e carona como a maioria dos jovens.

A maioria dos jovens que não faz parte do círculo social dele.

Mas o que tá acontecendo com você? Você não era assim, hein? Tão duro?

Não, enquanto o Arthur era generoso com a gente.

Isso acabou, Fábio.

Agora a gente tá só por conta da nossa empresa que não anda muito bem. E você

precisa maneirar.

Olha, a Carolina queria fazer um curso em Roma. E eu disse não.

Você disse não. Claro não.

Pra minha filha. Olha só.

A Ká é a sua filha. Eu não posso me meter.

Mas o meu Lipe, a gente não vai decepcionar.

Assim a gente vai ficar sem nada, Fábio. Ah, eu vou fingir que eu não vou vir.

Olha só, Ulisses. Se você fez um mau investimento, trate de fazer outro pra

recuperar o prejuízo.

Porque se tem uma coisa que eu não vou suportar, é o marido pobre.

Para todo mundo a vida é difícil, mas todos fazem seu sacrifício para

melhorar, para melhorar.

Lá vem o sol para derreter as

nuvens negras, para iluminar o fim do túnel e a luz do céu.

Para inspirar os seus desejos Para fazer você encher o peito e cantar

Acho que a gente já falou tudo o que tinha pra falar, Bruno.

Eu preciso trabalhar pra caramba, já pedi um carro pra você. Eu não vou

embora enquanto a gente não fizer as partes. Isso não vai acontecer.

Não perde tempo com isso.

Eu pedi um carro pra você.

O que é isso?

Você comprou isso pro nosso filho?

Esse filho que você tanto espera, que você tanto sonhava, ele pode vir.

Só você me dar mais uma chance, mamãe.

Seu carro tá chegando em dois minutos.

Pode descer. Você perdeu o seu tempo. Eu não vou embora.

Você chamou esse carro à toa. Eu vou ficar aqui até a gente resolver isso. Eu

vou embora, Tom.

Então eu vou embora. Você fica.

Vamos conversar.

Pedro.

Adriana, como sempre, te deu um trabalho, né?

Ela só queria que eu não ficasse sozinha em casa.

Eita. Imagina. Ah, mas aí não sabe. Desse tamanho, sabe ficar sozinha? Aí

cresce e fica meio... Para de implicar. Seu marido vai ficar aqui em casa com a

gente hoje?

Não, ele não vai, não. Não, não vou ficar. Só vim saber se você está bem.

Está ótimo. Estou.

Saber se está falando a verdade.

Verdade sobre o quê?

Sobre a história do Toniel.

Ia ter que trabalhar.

Acho que a Adriana ia lá pro hospital. Foi feliz e tal.

O que é isso?

Tá desconfiado de mim agora, Tom?

Não tô te entendendo. Eu dei motivo pra você desconfiar de mim e eu sou brava.

Na verdade é zelo. Cuidado.

Posso ter cuidado, não?

Ótimo. Você ia falar com ela como se ela fosse um objeto.

Como se eu fosse dono dela, né?

Eu sou teu dono agora.

É o jeito dele, Mau Mau.

É o meu jeito.

Daphne, cadê a bagunça?

Você não falou que estava toda animada para vir brincar com o Mau Mau? Fazer

uma farra? Cadê a farra, gente? Ela mesma adora o Mau Mau. Eu te adoro.

Então tá, vai brincando aí, se distraindo, tá? Você já fez o jantar,

Mau Mau? Eu comecei na hora que vocês estavam chegando, então só tem arroz

pronto. Eu também.

Vou deixar, tá?

Fiquem juntos aí.

Eu... Bom, você tá bem, né?

Tô. Tô indo, então. Tá? Tô com o Valiant Night hoje, então... Não,

brincadeira. Por favor, hein? Juízo. Tá bom. Te amo.

Te amo.

Te cuido. Ó, juízo. Não, eu... Paixão da minha vida, dá um beijinho no papai.

Tchau. Te amo.

Valeu, boy. Tchau.

Vem, flexiona. Filha, posso falar? Tô já cansada. Não, mas é que tem que

mobilizar. Mas não pode fazer em casa. Ai, pelo amor de Deus, Elisa. Aí,

Silvio, o que eu passo?

Você viu? Casa de ferreiro e peito é de pau mesmo, viu?

Ó, minha filha doutorada, tu tá sendo um anjo comigo, sabe?

Nossa, demais.

Obrigada. Ó, tem que hidratar bastante.

Porque ele parece ser assim, meio nervosão, né?

Estressado, mas na real ele é um cara bom.

Você se sente mal dele estar bancando esse hospital aqui pra mim?

Muito mal.

Mas já passou porque eu conversei com ele agora.

Eu vou te falar uma coisa, mãe.

Eu olhei bem lá dentro do olho dele e eu entendi que, de verdade, ele é um cara

generoso.

Ele gosta muito de você e quer seu bem.

Você tem medo, assim, dele querer...

Sei lá, cobrar de você depois. Não tô falando de dinheiro. Não, eu sei que

não. Entendeu, né?

Eu vou desenrolar isso do meu jeito. Vai dar tudo certo.

Por favor, só não fica pensando com a cabeça do meu avô. Não, claro que não.

Olha, antes de passar mal, eu tive bastante tempo pra conversar com o

doutorado. Então, você não me contou dessa conversa.

Como é que foi? O que você falou?

Ah, eu fui lá pra tentar entender os motivos dele pra querer casar com você e

não deixar nada pra família.

Não consigo imaginar uma pessoa querer deixar a família de lado.

A gente, Adriana, a gente é tão unido, né?

Sempre foi tanto um pelo outro.

Totalmente. Mas ele respondeu o quê? Um monte de coisa.

Sabe o que mais me impressionou?

Fala, mãe, que eu tô curiosa. O que houve? O que ele falou?

Que preferia ser um de nós.

Ele disse que depois da mulher e do filho dele...

Você foi a pessoa mais bacana que ele conheceu, filho.

Ele falou?

Falou. Com todas as palavras.

Ai, minha nossa senhora.

Sabe o que eu fico pensando? Como é que pode um homem que tem tudo ser tão

sozinho?

A verdade é que ninguém nessa família tem um real carinho por mim. Eles só

querem me sugar. Eles só querem...

Tirar de mim cada centavo, cada centavo que eu conquistei com meu esforço, com

meu sacrifício. E eu disse, eu não quero que ninguém

dessa família põe a mão em nada do que é meu quando eu não estiver

mais aqui. Você entendeu? Nada.

Ele disse que depois da mulher e do filho dele, você foi a pessoa mais

bacana que ele conheceu, filho.

Com licença, doutor Arthur, eu peço desculpas por atrapalhar a sua leitura.

O senhor sabe que eu detesto fazer isso. Já está atrapalhando, Edivaldo. O que

você quer?

Eu? Eu não quero nada.

Eu só vim avisar que seu afilhado chegou.

Manda ele entrar.

Vai, manda ele entrar.

Claro, claro.

Prepara também aquele lanchinho especial que a gente gosta. Claro, pode deixar.

Pedro. Ed, tudo certo?

Boa noite, bom te ver também.

Dá licença, boa noite. Será que meu padrinho tem uma arinha pra mim ainda?

Pra você eu tenho todo o tempo do mundo.

Sempre um prazer te ver, meu afilhado.

Prazer, meu. Bom te ver.

É com a cara boa.

Eu vim porque... Tô precisando de um conselho seu.

Não! Então, filha, três horinhas é o suficiente. Eu chego lá. Beijo, tchau.

Olha, gente, a Pia do Rico, que maravilha que faz.

Gostaram? Se liga aqui, que depois eu mostro mais coisas. A doutora Atum pediu

aquele lanche especial.

Lanche especial?

Ah, eu posso fazer um sanduíche de queijo. Boa. Com três fatias, uma de

presunto e rã. Pode faltar, né? Isso. Aquela Coca-Cola geladíssima.

Lejinho do doutor Arthur.

Eu só espero que isso melhore o humor dele, né? E eu espero levar essa

garrafa retornável lá pro churrasco da minha prima.

Ih, gente, isso dá um bom conteúdo.

Também é.

Peraí. Oi, morecos. Tilde aqui com mais uma dica pra vocês.

Estão vendo essa garrafa aqui? Que bonitinha.

Então, quando ela acabar, eu vou levar lá no mercadinho, vou trocar por uma

novinha e cheinha e só vou pagar pelo líquido, tá?

Tá pensando o quê? Riff também gosta de economizar, né, Edvaldo? Dá um oi. Não

atrapalha, Tilde, bora. Vamos lá, que eu tenho que terminar de servir.

Porque hoje eu estou no modo contenção de patadas.

Nossa, atrapalhou minha lágrima. Mas tudo bem que toda influência de respeito

tem um hater pra chamar de seu. Tilde, silêncio, que agora eu vou abrir a

garrafa. Atenção.

Olha o barulhinho.

Ai, que feijo, me deu vontade.

Separa o copinho pra mim.

Não, separa o copinho pra mim. O que se sobrar?

Como

é

que você tá depois de saber daquela falsa gravidez?

Tô... Tô... Sentindo idiota. Feito de idiota. Passado pra trás.

Porque a pessoa tem que achar que você é muito idiota, né? Pra inventar uma

mentira dessa no meio da sua cara.

E ainda dizer que te ama depois, padrinho.

É, e a mentira quando vem de alguém próximo de nós... Dói ainda mais, né?

Pois é.

Fico imaginando o que o senhor passa com seus irmãos, viu?

Irmãos e sobrinhos. É tudo igual, né?

Os únicos que ainda estão do meu lado são você e o seu pai.

Porque não são do mesmo sangue.

Talvez isso seja uma sorte, né? Porque a minha família, o meu sangue, só vai me

dar paz depois que sugar todas as minhas veias.

É.

Pois é, padrinho.

Foi por isso mesmo que eu vim conversar com o senhor, sabe? Acho que o senhor

entende desse negócio aí de uma traição que está do seu lado.

Uma traição de quem está perto de você.

Diga, diga, diga lá.

Então, o negócio é o seguinte, padrinho.

Eu tô com raiva da Bruna.

Tô com muita raiva dela.

Mas ao mesmo tempo eu fico olhando pra aquela menina, eu conheço ela a vida

inteira, padrinho.

Eu sei que ela é uma pessoa frágil, entendeu?

Sei que ela é uma pessoa carente, não sei.

Às vezes eu fico com medo de estar sendo duro demais com ela.

Você quer mesmo o meu conselho? Eu quero.

Afaste-se dessa menina como o diabo foge da cruz.

Se ela fez você sofrer como eu vi que você sofreu, eu estava lá no hospital,

eu vi, quando você soube da mentira. Se ela fez você sofrer desse jeito e ainda

diz que te ama, é porque é um amor doente.

Se livra dessa menina.

Não se sente culpado, não. Vai ser um livramento.

Ouve o conselho do seu dindo, hein?

É.

Faz tempo que a gente não usa essa expressão, né? Dindo, né?

Mas quando você era criancinha, vivia correndo atrás de mim, dindo pra cá,

dindo pra lá.

Eu lembro.

Cara, eu queria...

Com licença, eu trouxe... Olha aí, que lanchinho.

Nossa, que delícia, hein?

Olha isso.

Lembra? Vou botar um sanduichinho para o senhor aqui.

Só um minuto.

Obrigado, Ed.

Então, um brinde ao meu Dindo.

Com Coca-Cola, como sempre foi, né?

Saúde, Dindo.

Frio na nuca?

Desculpa, é que... Tinha uma pétala, eu tentei tirar.

Obrigado pela gentileza. Obrigado é que... É que... Eu confesso que dessa

vez eu quase morri de susto.

Bom, se você morresse, ia para o lugar certo.

Ao lado dos monges.

Desconjuro, moça. O que é isso?

Silvia. Não morreu, não.

Sua mão está quente.

Minha sua está fria. Está bem fria.

Veio ver mais flores.

A pessoa que... Desculpa, mas agora eu tenho que ver dinheiro na frente.

Porque a senhora já me deu...

Dois prejuízos, né?

Eu vou querer uma flor só.

Uma flor?

Bem bonita.

O senhor escolhe.

Pode ser?

Eu escolho? O senhor?

Mas tem que ser por conta da casa.

Porque hoje é um dia muito especial para mim.

Então eu mereço um presente.

Há muito tempo que eu não ganho uma flor.

Obrigada.

Cheguinho, Toniel.

Bora repor essas flores aqui?

Até chorando, ela é bonita. Quem, homem?

A moça de preto que vem sempre comprar flor aqui.

Ô, Toniel. Eu tô achando que você é médium.

O quê?

Médium, eu?

Ou é médium, ou é maluco.

E uma carinha de um leãozinho em cada pezinho.

É lindo, né?

Pronto demais.

Pronta pra alta?

Oi, doutor, claro que sim, filha. É alta?

Realmente, hoje é dia.

Não, não, calma, eu acabo de chamar a enfermeira. Tá bom.

Que bênção, mãe, parabéns. Não vai ficar se agitando toda hora.

Descanso, dona Elisa, é isso mesmo.

Você tá ouvindo, né?

Descanso. Se os sintomas voltarem, febre, dor de cabeça, vocês podem me

ligar. Semana que vem, espero as duas no meu consultório.

O Arthur faz questão absoluta que eu continue acompanhando a senhora. Ai, que

vergonha não, doutor. O doutor está sendo um anjo comigo e o senhor também.

Vou botar seu nome na minha Santa Terezinha. Isso é bom, obrigada. Um

abraço, doutor.

Obrigada, tá? Vou assinar a alta e pedir para o enfermeiro tirar os acessos.

Muito obrigada.

Valeu, valeu, obrigadão.

Quem vai para casa?

Você pode ir pegando minhas coisas.

Calma, respira. Não vou tirar nada.

Dorme um pouquinho, que a gente sai.

Aí, Clabinho.

Cafézinho. Deixa eu falar um negócio, meu. Não faz mais isso que você fez

ontem comigo, não, tá? O que eu fiz ontem? Você deixou a Bruna subir sem me

falar e deixou nós dois sozinhos aqui. Eu não queria conversar com ela.

Desculpa. Não. Pô.

Cara, isso aqui é minha casa, Clabinho. Não é só o escritório, entendeu?

Ok. Não faz mais isso, não, cara.

Tá bom? Agora ela vai voltar aí e vai achar que você vai... Pedro, olha só. Eu

já disse que não vai me repetir. Tá tudo certo.

Pode subir.

Tá.

Quem tá se vendo? Adivinha.

Ademir.

Voltou a dar as caras por aí.

Vocês voltaram a ficar próximos, né?

É.

Daquele jeito, né? Meu e do meu pai.

Como advogado, eu continuo achando a mesma coisa dele, cara. Mas é meu pai,

né? É o único que eu tenho. Eu amo muito meu pai.

O que importa é que vocês estão bem.

Pelo menos pra isso, aquele acidente serviu.

Não foi ótimo o acidente, realmente.

Pra quem não tava dentro do carro, foi uma delícia. Você entendeu o que eu quis

dizer? Desculpa. É. Tá bom?

Ó, vou ficar calado, tá bom? Tá.

Porque hoje eu só tô dando mancada, né? Não, calado você é um poeta, Clebinho.

Sempre assim.

Ei! Ei, o verdadeiro galã dessa família chegou.

Hã? Não acha? Achei.

Acha? Sim ou não? Vem se concordar com o senhor, seu Ademir. E aí, doutor. Olá,

filho. Bem-vindo.

Tudo bem? Tudo bem. Que surpresa. Quer um cafezinho?

Acabei de passar um café. Quero, quero, quero. Obrigado.

Fiquei curioso, você aparecer aí de repente, sem avisar, do nada, sem o

Adenir na minha casa. Não sei se eu fico preocupado, não sei se eu fico curioso.

Dessa vez é uma demanda profissional.

Concordaria em defender o cliente do seu pai?

Então é isso. O caso é uma disputa de terras no interior do estado.

Isso a gente entendeu, senhor Ademir. Mas uma disputa de terras no interior do

estado tem dinheiro pra caramba envolvido, filho. E tem grana, tem

esquema, senhor Ademir.

Não nesse caso. Foi justamente disso que eu quis sair fora.

Eu sei, mas não nesse caso. Esse caso não tem dinheiro. É um caso simples.

Por isso que eu trouxe ele pra vocês.

Não tem esquema. Olha só, se o caso tem um perfil de escritório, acho bom a

gente analisar.

Qual que é a situação, senhor Ademir? Meu tio, eu...

Meu tio que faleceu não deixou demarcada a divisão das terras dele. Eu conheço

esse tio? Não.

Não,

não conheço. Bom, talvez tenha conhecido quando era criança, mas isso não

importa. É um pedaço longe da nossa família, distante. Os herdeiros, isso

sim que interessa, os herdeiros são dois, dois primos que não se dão bem.

Por isso, a pedido deles, eu fiz a divisão das terras.

Bonitinho, dentro da legalidade, tudo, metade e metade, justo.

Então, pra que precisa da gente pegar o caso? Não entendi.

Não, calma, gente. É um caso simples. Eu não quero desmerecer ninguém.

Mas pra um advogado do meu porte, o retorno é irrisório. Claro, pai. Mas pra

vocês, pode ajudar.

Eu sei.

Sim?

Não vou mentir, tem um problema. Ah!

Entendeu por que tem que... Fala.

Eu tenho desafetos na cidade.

Então, quando você for se apresentar lá, quero que você use o sobrenome da sua

mãe. Quando um advogado é bom, você vê como é. Quando você for... Se eu for...

A gente vai.

A gente vai.

Pedro, a gente não tá em condições de negar cliente, né?

Que pro seu pai pode ser pouco, pode fechar nosso mesmo azul, né, senhor?

Exato.

Se a gente pegar o caso, o que a gente precisa fazer, senhor Ademir?

Vou falar pro Kleber, hein? É, fala.

Gente, é simples. É uma viagenzinha pro interior pra apresentar pra toda

papelada. Só isso?

Sim, só.

Ok, ufa.

Trouxe papelada pra vocês.

É que eu lembrei que uma vez você me disse que precisava de uma assistente.

E eu estou procurando uma ocupação.

Falam que é bom trabalhar, então eu queria testar.

É, mas eu acho que você não precisa, se a sua família tem condições.

É, a minha mãe é contra uma mulher da nossa classe social trabalhar, mas eu

penso diferente.

Senta aqui.

Obrigada. Não.

Eu não quero viver de herança, sabe, Tiago?

Aí eu pensei que um emprego aqui na joalheria seria o ideal pra mim.

Eu tô um tempo precisando de assistente, né?

Como diretor aqui da joalheria, eu acabo lidando com essas operações mais

complexas, né? Compra de diamantes. Eu adoro diamantes.

É?

Vou te mostrar uma coisa.

Eu sabia que uma mulher como você, sofisticada,

iria amar diamantes.

Tiago.

Eu fiquei até sem fôlego. Se você se casasse comigo, Bruna...

Aonde é que eu assino?

Civil ou religioso?

Não faz isso comigo, que eu acredito.

Eu vou adorar trabalhar aqui.

Só não sei quando eu começo.

Eu vou falar com meu tio, eu te aviso.

Agora.

Vou gostar muito.

Muito de ter você por dentro.

Obrigada, obrigada, obrigada.

A Bruna demanda muito, né?

Demanda. E eu tô sem carisma nenhum hoje.

Deixa eu ver.

Tá ótimo. Aliás, ela já deve ter chegado. Tá aí, ó. Ai, sem paciência

alguma.

Oi, Bruninha. Oi.

Oi,

doutor. Preciso ver vocês.

Eu ia falar que essa carinha aí, ó, pode sentar aqui.

Não tá das melhores, né?

Eu não tô no meu melhor mood.

Eu já sabia que não era um dia fácil pra você, então eu fiz o que qualquer adulto

faria. Eu pedi um brownie com calda de chocolate.

Ai, perfeito, Bri. Também tô precisando, porque, olha... Eu não sei o que vai ser

de mim, gente.

Sem minhas criações, minhas joias.

E sem dinheiro.

Ela saiu da joalheria. No caso, eu fui saída.

A briga na família só aumenta e sobrou pra quem?

Pra mim.

Ai, eu tive uma joalheria agora.

Tô tentando emprego com o Tiago, tô aqui... Na expectativa, porque alguma

coisa tem que andar na minha vida, né?

Desculpa.

Ai, foi mal.

Não, não, tá... Tá tudo bem.

Mas me conta, eu fiquei preocupada com a sua mensagem. Como foi esse acidente?

Foi horrível.

O carro capotou, a gente foi parar no hospital, foi...

Uma coisa terrível.

Nossa, que perigo.

Acho que por isso você está um pouco inchada.

Estou.

Não, acho que é normal, normal do acidente. A gente vai fazer a medicação.

Mas está tudo bem? O Pedro está bem?

Então, aí é que está.

Lá no hospital o Pedro descobriu que eu não estou grávida.

Ah, eu sei, é horrível, horrível. Estou morrendo de vergonha.

Mas você conhece a minha mãe, gente.

Foi ideia dela, ela inventou essa coisa de gravidez e... Quando eu fui ver, eu

tava envolvida na história, mas... O que eu achei, que depois que a gente

casasse, eu ia acabar em gravidão, sabe?

Péssimo.

Péssimo.

Perdi um namorado. Ainda por cima.

Mas você perdeu um namorado, né?

Eu sei como é isso. Eu já perdi também.

Acho que a gente precisa, então, de um brownie duplo.

Eu vou lá pedir.

Pode deixar.

Pede três.

Isso é bom.

A gente tem... Por favor.

Ô,

Nicolau, o que é isso?

Tá com a mão mole, rapaz. Eu vou descontar essa bebida do seu salário.

Não, você não vai, não.

A culpa é minha.

Eu que esbarrei nele e deixei tudo cair.

Você não vai descontar nada.

Desculpa, tá? Imagina, não. Imagina, acontece.

Não, não, de jeito nenhum. Imagina.

Cuidado, vai se cortar.

Não precisa, de jeito nenhum.

Imagina. Não, não, por favor.

Muito obrigado.

Dona?

Brigitte.

Nicolau.

Prazer. A senhora tá precisando de alguma coisa?

Então, eu tô.

Porque somos três mulheres na mesa e a gente precisa muito, muito, muito de

chocolate. Eu vou ver lá na cozinha. Eles iam esquentar um pouco.

Eu vou dar uma apressada lá.

E sem querer ser fofoqueira, porque eu odeio, mas a Ingrid perdeu o emprego na

joalheria e o Pitux terminou comigo.

E aí a Bruna agora me contou uma história pavorosa que eu nunca vi nada

parecido em toda a minha vida.

Então a gente precisa realmente... Caldaístra, sabe? Tripla.

Eu vou providenciar. Tá.

Muito obrigado.

Não, obrigado a você.

Muito obrigado.

Obrigada a você.

Muito obrigado mesmo, você me salvou.

Não, não.

Confia em mim. Vai te fazer bem.

Você não precisa se envolver com ninguém.

É só escolher um boy pra passar uma noite.

Tá ótimo. Eu acho muito estranho sair com alguém que eu não conheço. Você tá

achando estranho agora.

Depois, você não vai querer saber de outra coisa. Escuta o que eu tô te

falando. Será? Eu nem costumo repetir boy que é pra não ter dor de cabeça.

Olha... Não, mas... Me dá seu celular.

Desbloqueia para mim.

Esse aqui é o aplicativo, mas enquanto está baixando, deixa eu te mostrar isso

aqui.

É um cardápio sem fim.

Sem fim.

Que isso, você está em casa aí, né? Estou totalmente em casa.

Esse aqui está mentindo a idade, com certeza.

Esse aqui eu já humilhei.

Esse aqui.

Ai, estava precisando desse açúcar.

Obrigada.

Ai, obrigada, amigos.

Mais vezes, né? Vocês me salvaram. Estou me sentindo muito melhor.

Agora é só torcer para a vida andar para frente e eu conseguir esse emprego na

joalheria. Olha, boa sorte. Chegou a senhora da família, então talvez você

consiga. Acho bem difícil que ela consiga.

Mentiu descaradamente para o afiliado do nosso tio.

Difícil. Nossa, obrigada pela sensibilidade, hein, Brigitte?

Estou sendo sincera.

Prefere que eu menta para você?

Chegou. Com essa eu me despeço.

Beijo, Bru.

Beijo, Ingrid. Você é uma grande amiga.

Tá bem.

Pode contar com a gente, viu?

Beijo. Não é, Bri? Não.

Bora.

Nossa, ela tá sofrendo. Ela gosta de verdade do Pedro.

Sabe de quem eu gosto de verdade?

Daquele cara ali, ó.

Tem cara de que trabalha no mercado financeiro.

Vai dar pra ir pra um cozo.

Vai usar só roupa de linho.

Faz hot yoga. Segue ele comigo.

Você quer seguir o cara no meio da rua?

É isso?

Que nem os incas e os maias faziam.

Não existiam redes sociais, não.

Não vou. Vambora. Segue ele comigo. Vem.

Brigitte.

Brigitte, é sério? Bora, é sério. Você tá falando sério? Vai, vai, vai.

Olha o carro aí. Vem.

Nossa, é sério. Vamos logo, né? Pra não perder tempo na estrada, senão fica

tarde também.

Bora, Clebinho. Bora.

Quem vai dirigir é você, tá, filho? Tô sabendo.

Tô muito, muito abalado ainda do acidente, sabe?

Não sei se eu consigo dirigir, não.

Ah,

eu tava esquecendo. O quê?

O celular.

É. Vou deixar pra trás.

Tudo bem, irmão? Tá tudo ótimo, tudo sim. É? Por quê?

Que cara é essa, Clebinho?

Que cara é essa?

Eu tive na casa da família da Adriana.

Esse olhinho brilhando aí já é um clássico.

Já tá brilhando. Quando você pensa nela, irmão... A Adriana tava sozinha em casa,

cara. É nada. Não é tudo, filho.

E aí, normal, e aí eu fui lá levar os documentos da segunda via da casa que

eles perderam, né?

E ela falou, ah, fica aí pra tomar um café.

Aí, Clebinho, eu juro pra você, agora que você não tá com a Bruna mais, será

que não rola uma coisa? Não, eu vou mentir pra você, meu.

Quando eu tô perto dessa mulher, eu sinto um negócio louco assim em mim, não

sei dizer o que que é.

É muita coisa ao mesmo tempo.

E aí a gente ficou na cozinha, ela começou a preparar o café, ela passava

perto de mim, assim, o cabelo dela, eu ficava sentindo o cheiro dela.

Aí eu falei, cara, não vou aguentar.

Aí dei um, assim, um indireto, né?

Falei, pô, e o futuro, o que você pensa? Tem muito tempo ainda pela frente, né?

Precisa achar uma mulher.

Aí ela já me contou de cara. Na hora? Na hora. Na hora. Tem chance, deu chance.

Falou, não, que eu tô pensando muito em trabalho, ainda tô muito ligado ao meu

marido, porque eu pensei que ia acontecer alguma coisa assim no batente

da porta, mano.

Pra te falar besteira, né, viajar? Pra te falar besteira, mas, irmão, um bolão

na cabeça dela. É, muita coisa.

É, que pena, mas assim... Vambora, né? Vamos pegar a estrada, porque senão vai

ficar tarde, quem vai dirigir é você, não sou eu. Zap, eu vou dormindo, filho.

Eu vou dormindo.

Aí.

Ah, minha chave.

Você esqueceu. O que foi? A chave. A chave? A minha tá aqui, ó.

Não, eu guardo... Não, não, não. Tá dentro da minha mala. Vambora.

Vambora. Não é, Pedro. Eu tô procurando o Pedro.

Pedro, eu preciso falar com você.

Carmita, eu tô de saída. Tô saindo pra... Não, mesmo se eu não tivesse, eu

não tenho a menor vontade de conversar com você agora. Não, não, não. Pedro,

vou te esperar lá embaixo. Não, não, não. Pelo amor de Deus. Pelo amor de

Deus. São só dois minutos. Eu só preciso de dois minutos da sua atenção.

Tá bom, cara.

Entra.

A Bruno não teve culpa de nada. Teve culpa de tudo, Carmita.

Carmita, não mete esse papo pra mim.

Desculpa, não cola.

Claro que teve culpa de tudo. Você pode ter tido a ideia, mas ela embarcou. Me

fez passar de idiota. Igual a você. Pra mim, dá na mesma.

Se não fosse o acidente, eu tava acreditando nessa gravidez até agora. A

Bruno te ama tanto, Pedro.

Muito, não. Nesse tipo de amor, eu quero distância, se você quer saber.

Se isso pra você é amor, eu quero distância disso.

Pelo amor de Deus, Pedro.

Pelo amor de Deus, não faz a minha filha sofrer por uma coisa que só eu... Só eu

fui culpada, só eu, só eu, só eu. Me diz o que eu tenho que fazer, o que eu tenho

que fazer pra você voltar pra Bruna.

Nada, Carmita.

Quantos anos a gente se conhece, não tem nada pra fazer.

Acabou.

Não, aliás, tem uma coisa sim que você pode fazer pela sua filha, que eu

conheço desde que era adolescente.

Deixa a menina em paz, cara.

Deixa a Bruna em paz.

Deixa a Bruna viver a vida dela, vai viver a tua vida.

Me deixa em paz também.

Entendeu por que eu vim aqui conversar com você, Cunha?

Desde que você colocou o Arthur na justiça, minha vida só piora.

Ele tá abatido, reclamando de falta de dinheiro.

Não, você não sabe, chegou ao ponto dele me pedir pra gente devolver o carro do

meu filho.

Sorry,

darling.

Mas é que eu não tenho absolutamente nada a ver com isso, Fábio. Mesmo. Você

nunca quis saber dos negócios do Ulisses.

Tira o pé, por favor, do meu sofá.

O que é isso? Você só queria saber de dinheiro na conta. Não, não, não. Não é

bem assim, não. Claro que é assim.

E eu vou te falar uma coisa. As empresas de vocês, esses negócios que vocês têm,

esse negócio aí não vai pra frente. Sempre andou mal das pernas. Claro, eu

não vou cair nessa sua intriguinha familiar.

Não é intriga. Não é intriga. Presta atenção.

Essa vida boa aí que você leva é só por causa da mesada do Arthur.

Entendeu?

Abre o olho.

Cunha, não tem como voltar atrás, não?

Me ajuda, assim, se eu... Se de repente eu falar com ele, com meu jeitinho.

Você nunca quis se meter nessa história. Você até falou lá pro Ulisses não tomar

partido, Fábio. Não vem com essa agora, vai. Pela uma coisa, eu falar com ele.

Outra coisa, você colocar o Arthur na justiça alegando que ele tá gaga.

Fica à vontade, então, aí, pra você tentar, né?

Cadê seu café?

Quer café ou não quer café? Quero café.

Agora eu vou te pedir uma coisa.

Se você conseguir, você pede por mim também,

Fábio? Ó, como?

É porque, assim, quando eu for a curadora do Arthur e administrar

toda a fortuna dele, eu...

Eu vou ser generosa como eu sempre fui.

Eu vou... Eu vou pensar muito em vocês.

Eu vou... Ai!

Ai,

meu chão! Meu braço! Pilar! Olha o meu sofá!

O que que... Vou pegar um pano. Desculpa, desculpa. Eu tô tão nervosa.

Nossa, que tela nítida. Você trocou a TV. Antigamente, trabava a beça.

Gostou, filha? Adorei. Trazente pra gente, olha.

Coloquei uma antena pra TV aberta.

Máximo, né? E sabe qual é o melhor?

Acabou aquela agonia de ouvir primeiro o gol no vizinho pra depois passar aqui na

nossa TV.

Vamos ver o lance na hora que ele acontece.

Que bom que você fez isso antes dos Jogos da Copa. Botou antena. Pra gente

ver juntos a Copa.

Eu e você.

Ué, meu Felipe.

Doido. É.

Fala aí, Felipe.

Você sabe se ele já saiu com o carro, filha?

Hoje acho que não. Ele chegou tarde. Deve estar dormindo no quarto.

E você tem ideia de onde ele guarda as chaves do carro?

Ai, você não está pensando aí.

Certamente.

Ai, eu não aguento mais esse mal-estar horrível.

Ai,

tudo que a gente está passando.

Falta ficar aí doente agora, meu Deus.

Oi, mãe. Está tudo bem?

Filho, chegou. Você tá aí falando sozinha? Não, tava rezando, tava rezando

pra agradecer a Deus pelo doutor Arthur na nossa vida.

Esse homem é um santo pra gente.

Pena que sua avó não confia nele, né? Sempre que tem algum interesse por trás.

É.

Mas, ó, interessado mesmo, eu tô nesse cheirinho do almoço. O que você fez pra

gente comer? Vamos almoçar? Vamos trocar de roupa que eu te dou almoço, vai. Tá

bom, já vem então.

O que é isso, Tilde?

O que?

Isso aqui não tá polido. Não, é que esse... Eu não sei nem como... Tem que

virar um espelho. Você tá se vendo aqui?

Ainda não, mas é que eu ainda tô aqui. Que esse troço vem quando acaba o outro

e começar de novo.

Adriana! Oi!

Tudo bom? Desculpa interromper.

Imagina. Vamos de volta.

Ué, o doutor Arthur não falou que você viria hoje?

É, na verdade eu não marquei com ele, não. Eu queria até saber se ele pode me

receber. Claro, você é de casa, Adriana. Obrigada. Eu vou chamar ele, tá? Fica à

vontade. Tá bom, tá bom, obrigado. Fica ali na sala, à vontade. Tá.

Deixa que eu te apoio. Deixa que eu te falto.

Doutor Arthur.

Mas você parece um carrapato. Eu não quero que o senhor caia, doutor Arthur.

Vem, vem, vem. Eu quero falar sozinho com a Adriana. Posso?

Pode. Sai, sai.

O equilíbrio da sua marcha regrediu um

pouco.

Eu estou sem fisioterapeuta, lembra?

Sua vaga ainda não foi preenchida.

Arthur, eu tomei uma decisão.

Eu aceito.

Você vai voltar a trabalhar para mim?

Eu aceito me casar com você, Arthur.

Você me deu um carro?

Só minha mãe mesmo pra acreditar numa coisa dessa?

É o quê? Só a minha dessa, mãe? O quê, gente? A polícia derrubou meu carro.

Diz que é mentira.

Você não desfez a conta. Eu chamei vocês aqui pra fazer um comunicado.

Eu vou me casar com a Adriana.

Você sabe que você vai travar uma batalha forte com esse povo, né? Sei. E

vai valer a pena.

Porque o doutor Arthur é um homem bom.

Eu chamei vocês para virem aqui nessa noite especial.

Porque eu tenho um anúncio para fazer.

Eu e a Adriana vamos nos casar.

Eu vim aqui para falar umas verdades para aquele homem ali. E levar vocês,

minha família, para casa.

Lá vem o sol.

Para derreter as nuvens negras, para iluminar o fim do túnel, virar luz

do céu.

Para inspirar os seus desejos, para fazer você encher o verde

cantar.

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