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O que eu fiz?
Nada. Você não fez nada.
Então eu não posso ser demitida se eu não fiz nada. Tem que ter algum motivo.
Pergunte para sua mãe.
Tio, seja lá o que for que minha mãe tenha feito, eu não tenho nada a ver com
isso. Não mesmo, Ingrid.
Você tem certeza que você não concorda com esse pedido de interdição?
Não, é claro que não.
Se alguém tem que ser interditada é a minha mãe. Ela está descontrolada.
Você sabia que a Pilar me dopou para eu parecer um desequilibrado diante do
juiz? Ela fez isso?
Fez. E aprontou muito mais. Eu não vou ficar aqui enumerando as maldades da
Pilar. Tio, essa joalheria é a minha vida. Eu amo esse lugar.
Criar joias é a minha vocação. Eu não posso pagar pelas atitudes da dona Pilar
Brandão. A Pilar tem que pagar pelo que ela está fazendo comigo.
E você é o ponto fraco dela, a filha preferida.
Eu sinto muito, mas aqui você não trabalha mais.
Obrigado, Heitor.
Se cuida, um abraço em todos, tá?
Ah, não.
E aí, doutor? Que surpresa, você aqui.
Deu para buscar um documento, alguma coisa? Sim, pai.
Não, eu vim conversar com você.
Sério? Estou te atrapalhando? Não. Entra. Mesmo? É?
Entra, entra.
Dá licença.
Café? Não precisa não, pai. Água? Não quero nada. Nada? Não quero nada. Nada,
nada. Não vou poder ficar muito, não. Vai ser rapidinho a minha visita hoje.
Rapidinho não. Senta.
Senta. Sim, senhor.
Quero saber como estão as coisas. Me conta. Precisa de algo?
Não, não preciso de nada não, pai.
Está sabendo que o André Valdeiro...
Tô sabendo, safado. Conversei com ele um tempão no telefone. Falou que tá todo
animadinho, né, sem vergonha.
Mas eu vim porque eu queria te contar uma coisa, pai.
A Bruna tá grávida.
Tu vai ser vovô.
Parabéns.
Parabéns, filho.
Você sabia já, né?
Já.
A Dora me contou.
Você não sabe o quanto eu fiquei emocionado com a notícia.
Desculpa não ter contado pra você antes.
Eu tinha que ter vindo aqui contar antes pra você. Era o certo, né?
Café? Não, não quero café não, companheiro. E por aí, tudo em cima?
Tudo certo? Como é que estão as coisas?
Aqui? É, tá conseguindo sobreviver sem mim?
Tô. Difícil, né?
Tô, eu preferia sobreviver com você, mas se você não tá, enfim, tudo bem, tudo
continua igual, tudo na mesma.
Tudo na mesma significa tudo, os seus esqueminhas, malinha com...
Recheado de coisa. Parou. Para. Não, eu tô falando. Para, não. Não quero brigar.
Não vamos brigar, por favor. Eu não quero brigar, pai. Eu não quero brigar
com você.
Então? É que agora você é avô, meu. Você tem que colocar a mão na consciência.
Às vezes a gente entra em buracos que não nos deixam sair.
Ou às vezes a gente se mantém nos buracos mesmo podendo sair, né? Seu
Ademir. Senta, vai. Mas enfim.
Senta, vamos mudar de assunto.
Ei!
Ei!
O momento é de alegria.
É, você tem razão. Então, filho, vem por aí.
Ou filha. Ou filha. E você vai ser vovô.
Já pensou?
Olha, até estava aqui pensando.
Você não dizia que queria estudar fora do país, fazer uma aposta?
Dizia, sim.
Porque é um ótimo momento para isso.
Por que você não pega a Bruna e vai para Londres?
Porque não, pai. Mas o teu filho, a tua filha vai nascer lá. Justamente por isso
que não, né?
Não faz sentido nenhum meu filho nascer em Londres, sabe? Que loucura. Quem é?
Por que eu ia fazer isso?
O que que é?
Porque você não queria estudar lá?
Eu queria estudar lá, justamente.
Eu queria estudar lá e voltar pra cá, montar meu escritório, fazer as coisas.
E aí, doutor? Bom dia, doutor.
Beleza? Eu ia ficar muito feliz que você e a Bruna saíssem do país agora. Por que
você ia ficar muito feliz que a gente saísse do país agora? Por que tem que
ser agora?
Pode ser depois. Eu tenho a vida inteira pra fazer isso.
Eu não sei.
Toma.
São tantas oportunidades fora do país e você é jovem, tem que aproveitar isso
enquanto é jovem. Eu sei, pai, mas agora não tem a menor chance de eu ir pra
Londres com a Bruna e criar meu filho em Londres.
Tá?
Tá.
Eu vou nessa.
Vou pegar minhas coisas, vou seguir meu rumo.
Muita coisa pra fazer hoje, tenho que buscar a Bruninha também.
Tá bom, tá bom. Não quero te atrapalhar.
Pensa bem.
Tá bom, pai.
Eu peço.
Tchau.
Beijo.
Parabéns.
Obrigado, vovó.
Eu abro pra você voltar.
Eu vou voltar, cara. Calma também, é você.
Tchau, pai.
Tchau, Suzy. Tchau, Pedro.
Beijo.
No inferno, deve ser um monte de pobre arrastando pote de geleia.
Ah, pai.
Parabéns. Parabéns, dona Pilar. É impressionante o tamanho da sua
inconsequência. Olha o tom que você fala com a sua mãe, Ingrid.
Tá bom, eu posso abaixar meu tom de voz, mas eu não vou mudar a minha opinião.
Você pensou o quê? Que isso que você fez com o meu tio não ia sobrar pra mim?
Minha filha, fica calma. Fica calma que eu tô numa situação complicada aqui.
Fica calma e me fala.
Seu tio Arthur, ele brigou com você por minha causa? Você dopou o meu tio?
Eu?
Mas não adiantou nada, minha filha, porque eu já soube que a audiência foi
cancelada. Como é que ele sabe que isso conta pra mim? Eu não faço a menor
ideia. O importante é que ele sabe que foi você e agora ele me demitiu.
Meu amor, o teu tio te demitiu da joalheria. Demitiu e a culpa é sua.
Gente, vocês podem falar mais alto, por favor?
Que o pessoal do Jabacóia não tá conseguindo acompanhar.
Eu... Eu vou falar com o Arthur. Eu vou falar... Sai do meu celular!
Sai! Eu vou falar com ele agora.
Ingrid, escuta.
Você vai voltar a trabalhar naquela joalheria.
Saiu o crédito, jantala mexicana, aplausos.
Linda.
É verdade isso que a mamãe falou?
O tio Arthur demitiu você?
Demitiu.
Por causa das coisas que a nossa mãe vem fazendo com ele.
Você não pode perder esse emprego, Ingrid.
Você sabe que a minha situação também não é das melhores, né?
Não tá pintando nada pra mim.
Eu conto com o seu salário. Ah, não.
Ah, não, Brigitte, na boa.
Na boa.
Não me estressa não, hein? Sério, me dá um segundo de paz?
Meu Deus!
Nossa!
Não me estressa não.
Se me estressar, eu me endivido. Vou fazer uma compra proporcional ao
cortisol no meu sangue.
Dopado pela própria família? O que é isso?
Não, aí não dá, não. O doutor Arthur não merece um negócio desse.
Uma família que vive em guerra desse jeito. É, as coisas nessa casa pioraram
muito depois que você chegou aqui.
Pioraram muito mesmo. E a culpa é sua.
Minha? Ah, tá.
Eu não entendi, não, o que eu tenho a ver com isso de nada. Não se faça de
boba. Essa sua amizade com o doutor Arthur está afastando a família dele
cada vez mais.
Eu não estou nem entendendo o que você está falando. Eu tenho realmente um
apreço pelo doutor Arthur, gosto dele. Nós temos uma amizade verdadeira que
cresce a cada dia. E daí, qual o problema? Você está confundindo as
coisas, viu? Não existe amizade... Não existe
amizade entre patrão e empregado.
Coisa mais antiga. Você tem que se colocar...
Você tem que se colocar no seu lugar, como eu, a Rosa e o Edivaldo.
Nós gostamos muito do Dr.
Arthur, queremos muito bem a ele e é uma obrigação nossa.
Mas é que o meu sentimento verdadeiro de amizade por ele é real, sabe? Não é
obrigação, não.
Olha, mas preste atenção. Por mais que a gente circule aqui por esse apartamento,
o nosso lugar é aqui, ó. Na ala de serviço. Ó, pera. Gente, gente.
Ó, o bicho vai pegar, hein?
Dona Pilar chegou cuspindo fogo. Eita.
Você é um covarde, né, Arthur?
Sabe, se você tem uma diferença comigo, você vem e me enfrenta. Agora, descontar
na minha filha. Na minha Ingrid. Tá.
Eu sabia que seria a melhor forma de me vingar de você pelo que tá fazendo
comigo. É a sua filha preferida, não é? Uma menina de ouro, uma designer de
joias talentosíssima que você fica aprisionando naquela joalheria porque
você não deixa ela crescer profissionalmente.
Uma artista mediana que eu empregava pra ver se ela conseguia aprender alguma
coisa. Mentira!
As coleções que ela assina vendem como água, Arthur.
Porque são baratas.
Eu não sou nem louco de dar as melhores gemas da empresa nas mãos da sua filha.
O trabalho dela vende muito, mas vale muito pouco.
Eu não entendo o que que possa ser motivo de riso numa situação como essa.
É você.
Você tá aí sentado nesse trono que você construiu pra você mesmo.
Você tá humilhando a família e tal.
Você é egoísta, né, Arthur?
Você não consegue dividir as coisas que você conquistou com a sua família.
Você falou muito bem.
Conquista as minhas.
Mas eu dividi, sim, por anos.
Porque eu nunca percebi que aquilo que eu dava com amor voltava como cobrança.
Porque vocês sempre querem mais e mais e mais.
Você virou as costas pros dois irmãos que você ainda tem. Você tá virando as
costas pra sua sobrinha querida.
E não demora... O Tiago, né? Vai sobrar pra ele também.
Você tem razão. Porque o Tiago é um puxa-saco que quer o meu lugar.
E agora piorou, hein? Porque se uniu a você e ao Ulisses.
Talvez os dias dele na joalheria também estejam sendo contados a partir de
agora. É, e sem falar também, né, Arthur, naqueles sobrinhos que você se
recusa a ver, você não faz a menor questão.
Que só aparecem quando querem dinheiro pra fazer uma viagem ou sei lá o quê.
Você sabe o que vocês todos são? Um bando de interesseiros.
Olha isso.
Pode ficar agressivo, porque olha o que eu vou fazer. Olha eu pra você.
Eu vou fingir que eu não escuto nada, Arthur.
O que é?
Você sabe?
Você sabe, vai.
Hein? Que mais cedo ou mais tarde a gente vai conseguir tudo que a gente
quer.
Como é que é?
Vai chegar o dia que você vai morrer e vai ficar tudo pra gente.
Quando você descansar dessa vida amarga que você leva, Arthur,
esse apartamento, a joalheria, as obras de arte, todas que estão aqui,
os investimentos, as propriedades que eu sei que você tem e as que eu não sei que
você tem também, tudo isso vai ser nosso.
Quer dizer que, além de você me dopar para eu aparecer mal perante o
juiz, agora você me ameaça de morte?
Não.
Não vou precisar fazer nada, Arthur. A vida cuida disso.
Sou muito mais jovem do que você.
A natureza das coisas, né?
Pois tenha certeza.
Que depois que eu for pro outro mundo, nenhum de vocês vai botar um dedo em um
centavo da minha fortuna.
Especialmente você.
Você é sozinho, Arthur.
Sua mulher já se foi, seu filho é dado como morto.
Se você fizer um testamento, depois do vexame lá que você deu ontem na
audiência, eu contesto.
E eu vou vencer.
Você pode tentar.
Mas fique sabendo que eu vou deixar tudo arranjado pra você não conseguir.
Eu sou família, Arthur.
A lei tá do meu lado.
E pode rosnar à vontade na frente do cofre, Arthur.
Porque quando você não estiver mais aqui, ele vai se abrir todinho pra mim.
Tudo que eu peço é um pouco de paciência. As coisas tomaram outro rumo.
Não consegui evitar.
Quem decide o rumo das coisas somos nós.
Você devia ter se esforçado. Mas eu tentei.
Eu aumentei a proposta. É que esse novo juiz, ele não...
Não aceita esquema. Com ele não tem conversa, não tem acordo.
Não foi isso que você disse quando veio negociar comigo.
Você garantiu que a compra da sentença era certa.
Eu só preciso de um tempo. Um tempo... A gente sempre pode se valer de uma brecha
na lei pra tentar contornar as coisas, entendeu?
Você deu o seu preço, a gente pagou. Agora você quer dizer que não vai
cumprir com o nosso acordo? Não.
Eu só peço um pouco mais de compreensão.
Ou então eu devolvo o dinheiro.
Nós aceitamos evolução. A gente quer o que comprou.
Você não tem palavra, mas a gente tem. Agora vai sofrer as consequências.
Amor, você não me contou como foi a conversa lá com seu pai.
Vocês se entenderam dessa vez?
Ah, Bruna, a conversa com meu pai foi como sempre são as conversas com meu
pai. A gente começa conversando e termina se desentendendo, se
desencontrando.
Poxa, vocês têm que fazer as pazes, né? Ah, eu sei.
Se entender de uma vez.
Concordo com você.
Quem sabe agora com o netinho dele, ou netinha, né?
Quem sabe ele não amolece o coração dele duro. Mas, sinceramente, eu acho que
isso é difícil acontecer.
Acho que eu e meu pai vai ser sempre assim.
E...
O obstetra, ele já remarcou a consulta?
Não. Por quê?
Não, nada. Você tá bem?
Tô só... Meio ansiosa, só.
Ah, com bebê, né?
Ah, claro, eu também tô.
Eu tô, velho.
Eu tô mesmo.
Pensando no momento do coraçãozinho, que todo mundo fala que é o melhor momento.
Que o neném ainda é pequenininho, mas o coração bate forte pra caramba.
É, o bebê.
Olha esse maluco aí que rolou no meu traseiro do carro. Cheio de
pressa, o que é isso?
Deixa passar. Deixa passar. Tá com pressa? Passa, filho.
Os caras são folgados mesmo.
Estranho. Deixa passar.
Deixa passar.
Esquisito, Pedro.
Passa! Pedro, para.
Adriana, Adriana. Doutor Arthur mandou te chamar lá no escritório. Obrigada,
tia. Eu tenho que ir, mãe. Trabalho.
Te amo também. Se cuida. Beijo. Tchau.
Doutor Arthur?
Mandamos chamar?
Mandei sim, Adriana. Fecha a porta, por favor.
Eu preciso ter uma conversa muito séria com você.
Eita, conversa séria? Agora eu fiquei até assustada. Foi alguma coisa que eu
fiz? Não, não é nada disso.
Eu tenho uma proposta pra te fazer.
Proposta? Por favor.
Pode falar.
Eu sei que pode parecer estranho o que eu vou dizer.
Inesperado até.
Mas...
Você aceita casar comigo?
Para melhorar Lá vem o sol
Para derreter as nuvens negras Para iluminar o fim do
túnel E a luz do céu Para
inspirar os seus desejos Para fazer você encher o peito e cantar
É óbvio que você não esperava esse pedido, mas eu posso explicar.
Doutor Arthur, eu acho que o senhor confundiu as coisas.
Eu peço até desculpa se eu tiver dado a entender alguma coisa diferente da nossa
amizade. Não, não é nada disso. Eu sou uma pessoa amorosa, entende? Eu fui
criada dessa maneira. É uma questão mesmo da minha família. O senhor
conheceu a minha família, né? Então o senhor sabe como eles são.
Mas eu não queria que o senhor entendesse nada.
Não. Diferente disso.
E eu nunca me insinuei. Eu também não te dei nenhuma liberdade, né? Por favor,
por favor. Eu sinto muito se você está se sentindo ofendida. Por favor.
Por favor.
Você sempre teve um comportamento exemplar. Não é nada disso, por favor.
Me ouve, Adriana.
Você acompanhou de perto o que a Pilar fez comigo?
Sim.
Eu tive uma conversa muito dura com a Pilar e...
Eu ouvi as piores
coisas da boca da minha irmã.
Ela disse que eu mereço ser sozinho e que já já eu vou morrer e ela vai
ficar com tudo que é meu.
Meu Deus, que horror. Como é que uma pessoa pode dizer isso?
Ela me tratou como se eu fosse nada.
Nem parecia que nós somos irmãos.
As coisas que ela me disse.
Ela me tratou como se eu não fosse humano.
A verdade é que ninguém nessa família tem um real carinho por mim. Eles só
querem me sugar. Eles só querem...
Tirar de mim cada centavo, cada centavo que eu conquistei com meu esforço, com
meu sacrifício. E eu decidi... Eu não quero que ninguém
dessa família... Põe a mão em nada do que é meu quando eu não estiver mais
aqui, você entendeu?
Nada!
Se alguma coisa acontecer comigo...
Eu quero que só uma pessoa herde toda a minha fortuna.
Você, Adrela.
Isso, isso, foi aqui dentro do túnel.
Sim, um acidente muito grave.
Tem duas pessoas dentro do carro. A gente precisa de uma ambulância aqui,
urgente.
Oi, amor.
Chegando essa hora?
Mostrou alguma coisa?
Tinha um problema com o cliente, desmarquei tudo.
Mas não quero falar sobre isso.
Relaxa um pouquinho.
Tô tomando um vinhozinho.
Ih, a Demi já chegou?
Vou lá, que deve estar.
Chegou naqueles dias, sabe? Eu vou lá. Vou lá depois eu te ligo, tá?
Beijinho, beijinho.
Preocupado com o Pedro?
Por quê?
Aconteceu alguma coisa?
Ele veio me falar do bebê. Ah, mas isso é ótimo.
Saúde.
E qual a sua preocupação?
Nada, coisa de pai.
A gente pode marcar um almoço em família, com o Pedro e com a Bruna. Que
tal?
Nada melhor do que esse netinho que vem aí pra uma aproximação. Isso vai
estreitar a Uela entre vocês.
Pai, você faz o convite.
E eu cuido de tudo.
Pode deixar.
Tá bom.
Vou ligar.
Diga.
Eu entendo a mágoa que o senhor tem da sua família.
Porque eu tô vendo.
Principalmente a maneira como a sua irmã te trata, doutor Arthur. E é revoltante,
é horroroso.
Mas não é possível que você tenha que se casar com alguém pra poder fazer
justiça.
O senhor pode, por exemplo, fazer um testamento.
Não é? Doando todos os seus bens, tudo que o senhor tem para outras pessoas.
Uma instituição de caridade, por exemplo.
Tirando a sua família da herança. Se é esse mesmo o desejo do senhor.
Não, não, não. Um testamento pode ser contestado.
Um casamento, não.
A Pilar me drogou fazendo com que eu tivesse um comportamento péssimo na
audiência. Eu não sei se eu consigo reverter isso.
Isso pode pesar na hora de contestar um testamento.
Eu quero.
Eu preciso que nenhum deles coloque um dedo sequer na minha herança.
Você entendeu isso?
Nenhuma moeda sequer.
Uma esposa receberia a totalidade da minha herança.
Ai, meu Deus do céu.
Eu nem tô conseguindo saber que palavras que eu uso pra poder agradecer.
A honra que é a sua confiança.
O seu carinho comigo, doutor Arthur.
Eu não posso aceitar.
Eu não posso aceitar. Não, não, não. Por favor, não.
Não me dá uma resposta agora. Eu quero que você pense bem antes de você me dar
uma resposta definitiva.
Mas eu quero que você saiba, eu quero deixar bem claro pra você que eu tô
absolutamente consciente desse pedido.
Seria a união entre dois amigos.
Nenhum envolvimento romântico.
Até porque, se tivesse um sentimento da sua parte, eu não poderia
corresponder.
Eu sinto pelo senhor uma amizade muito forte.
Uma amizade muito linda, mas que não é o mesmo amor que faz duas pessoas se
casarem.
Eu...
Eu agradeço a sua sinceridade, mas eu já sabia disso.
Eu nunca imaginei você apaixonada por mim.
Eu não quero isso.
É que o sentimento que eu... O amor que eu tenho pelo meu marido, apesar da
morte dele, ele continua vivo aqui dentro de mim. Entende?
Eu sou um homem vivido.
Já tive muitas paixões.
Já tive um grande amor também.
Eu sei a diferença.
Mas você... É a melhor amiga que eu já tive nessa vida.
O que eu sinto por você... É confiança.
Por favor, pense com carinho na minha proposta.
Pedro não atende.
Ele deve estar ocupado.
Cleber ligando.
Fala. E aí, Cleber?
Calma, calma. Vamos falar devagar.
Mas o acidente foi... Onde foi isso?
Tá bem, eu... Eu tô indo pra aí. O que aconteceu?
O Kleber falou que Pedro e a Bruna tiveram um acidente.
Mas o quê? Como é que eles estão?
Não sei, eu não sei. Eu tô indo pra lá. Peraí, tu vai pra onde? Peraí, vou pegar
minha bolsa. Espera, me espera que eu tô indo. Peraí.
Tilde!
Oi, princesa. Fala. O que é isso aqui?
Você tá se vendo aqui? Tá opaco.
Não dá até pra passar meu gosto, Bia. Tá muito desaforada, Tilde. O doutor Arthur
tá te chamando. Não avisou só agora? Não demora, não demora.
Pois não, doutor Arthur.
Edivaldo, senta aqui, por favor.
Aconteceu alguma coisa, doutor Arthur?
Você me acha insuportável.
Eu? Eu não, de jeito nenhum.
Algum fofoqueiro inventou que eu falei isso, doutor Arthur. Ninguém falou nada
de você, Edivaldo.
Falaram de mim.
A Pilar.
Ela disse que eu sou sozinho.
Sou sozinho.
Mas aí eu fiquei me perguntando, será que é porque eu sou...
Difícil. Você me acha insuportável.
Eu acho o senhor uma pessoa maravilhosa e uma ótima companhia. Também não
precisa puxar o meu saco. Eu não estou puxando o saco, doutor Arthur.
Eu estou sendo sincero.
Eu tenho um carinho e uma admiração muito grande pelo senhor.
Mas também, quando fica de mau humor, é difícil.
Desculpe, agora eu já falei. Ah, bobagem. Eu sei que eu não sou nenhum
anjo.
Mas eu ainda não entendi o motivo da pergunta.
Desculpe a minha curiosidade, mas é que faz parte do meu sangue. Para de pedir
desculpa, Edivaldo.
Eu te perguntei porque...
Porque eu fiz uma proposta pra uma pessoa muito especial.
Eu fiquei aqui pensando se eu não tô exigindo demais dela.
Hoje vai ter salmão com molho de alcaparras.
O doutor Arthur ama.
Você já experimentou, Adriana?
Adriana?
Aconteceu uma coisa muito louca. Eu não sei nem o que pensar.
O que foi?
O doutor Arthur me pediu um casamento.
Foi? É.
Emergência. Onde?
Seu Ademir.
Calma. Como eles estão? Eles estão sendo atendidos. Eles chegaram aqui
desacordados. Mas o que aconteceu exatamente? Eu conversei com o
paramédico. Parece que tinha um rapaz lá que viu tudo. Tinha um carro que estava
na cola deles e ia até provocar esse acidente, sabe?
Mas calma, calma, calma. Vou pegar uma água pra você. Calma, calma.
É tudo minha culpa.
É pra cá? Segundo andar. O Pedro é jovem, é forte.
Tudo bem.
Falei tudo o que eu queria pra ele, tudo.
Estava entalado aqui, sabe? Faz tempo.
Falei assim, ele não ama a família dele, porque não ama mesmo.
Ele não... Ele não divide as coisas que ele tem nem com os irmãos, nem com os
sobrinhos, nada.
E disse mais, fui além, sabe?
Disse muito bem dito, que já já ele morre e pronto.
Vai ficar tudo pra gente. Não, você não disse isso pra ele. Com todas as letras
e disse assim, sabe?
Eu disse plena, que eu tô me sentindo assim agora.
Mas, Pilar, você não percebe que assim o Arthur vai ficar com mais raiva ainda da
gente? Daqui a pouco essa briga não tem mais ponto de retorno.
Eu preciso te dizer, meu querido irmãozinho, que esse ponto de retorno aí
já passou, já era.
Sabe o que eu fiz?
Eu dopei o Arthur pra ele fracassar lá na audiência pro juiz.
Bom, aí você passou do ponto, né? É.
Só que aí ele descobriu que tinha sido eu e resolveu se vingar, né?
Demitiu a Ingrid, imagina.
Da joalheria, minha filha, uma designer de joia maravilhosa. Ela não merece
isso. Você queria o quê? Um abraço fraternal?
Não, eu queria saber como é que ele descobriu que foi dopado.
Você dopou ele onde? No apartamento? Aí é fácil de descobrir se você esteve lá,
né? Porque ele sabe que nenhum dos funcionários vai fazer isso. São todos
uns capachos do Arthur.
Ah, será?
Sei não.
A Dina, por exemplo.
O que é meu celular?
Onde que é?
A Dina, ela vive falando as coisas pra gente. Você sabe disso. Pra mim ela
apaga a paixão pro Arthur.
Gente. O quê?
Você não sabe.
O quê? A gente fala no diabo. Olha isso. Ele mostra o chifrinho.
Olha isso que coincidência.
Lê que eu tô sem... Precisa nos encontrar urgente. Precisamos. Vai lá.
Oi.
Eu tô procurando uma senhora mais velha, assim, pra ordenar.
Obrigada.
Você vai ficar aí no sofá? Você quer que eu... Desculpa. Imagina, imagina.
Senta ali.
Já vou avisando.
Não tenho dinheiro pra pagar. Não se preocupe, a senhora é minha convidada.
Oi,
oi.
Uma champanhe pra mim, por favor.
Da Rafa, tá?
Está preparada para a bomba que eu tenho para te contar? Fala, Dina, fala.
Doutor Arthur pediu a Adriana em casamento.
Casamento. Nossa, eu não podia imaginar isso nem nos meus piores sonhos.
Eu estou chocada até agora.
Aquela empregadinha sem teto está conseguindo o que ela queria.
Ela pintou e bordou com aquele tonto babão. Ela deu
um bote nele.
Isso eu não sei, porque, na verdade, ela recusou a proposta. Isso aí é charme.
Você é burra, né, Gina?
Bem burra.
Isso aí é estratégia de golpista, sabe? Pra valorizar o passe.
Você sabe o que ela quer, na verdade?
Ela quer comunhão total de bens. Eu tenho quase certeza disso.
Será? Sim. Ela se aproximou muito do doutor Arthur ultimamente.
Sou oportunista. Quer ficar com tudo que é meu.
Isso tem acontecido tanto ultimamente, né? Parece moda. Isso não pode acontecer
comigo. Não pode acontecer comigo.
O que a senhora pretende fazer?
Não sei.
Ainda não sei.
Mas... Essa Adriana, ela...
Ela deve ter algum ponto fraco, né?
Pedro.
Que bom que você acordou, filho.
O que aconteceu?
O que aconteceu?
Ela ainda está fazendo alguns exames.
Parece que ela teve mais lesões do que você.
Mais lesões? Calma.
Você acabou de acordar. Está em recuperação. Precisa descansar. Ela está
certa, pai. Eu não vou conseguir ficar aqui sem saber.
Ei, ei, ei. Pedro, Pedro, Pedro. O que é isso?
Mas assim, a gente vai procurar informações, Kleber. Você pode me
ajudar? Parece.
Agora eu vou conversar com os médicos lá, ver se tem notícia da broga. Pelo
amor de Deus.
É, pelo amor de Deus.
Se cuida. Já volto.
Nossa senhora.
Nossa, tá doendo.
Não, mas por sorte foram só ferimentos leves.
O acidente foi feio?
Escapotou o carro.
Escapotou o carro.
Escapotou o carro.
Você não lembra nada do acidente?
Eu tava com a Bruna, né, dentro do carro.
Aí a gente entrou no túmulo.
Aí apareceu um carro.
Começou a correr, deu umas fechadas assim na gente.
Tava querendo ultrapassar, eu acho.
Aí eu dei passagem pra ele.
Dei passagem pra ele.
E ele me deu uma fechadão assim.
Aí me fechou, aí eu... Aí eu... Aí eu desviei dele.
Acho que foi nessa hora aqui.
Deve ter sido nessa hora aqui.
Me capotou, né?
Eu quebrei alguma coisa, pessoal? Não, não, não.
Você tá com o ferimento na cabeça.
Olha, né?
Era essa fita de repouso.
Ah, é.
O quê?
Não sei.
Sim, sim, sim. Ô, pai.
Ô, pai.
Tô legal, pai.
Você tá chorando, cara?
Para de chorar, cara.
Eu sei. Podia ter acontecido, né?
Não aconteceu.
Mas podia ter acontecido. Aconteceu. Estou inteiro. Estou vivo. Estou aqui
pensando em você.
Para com isso, meu.
Não.
O Kleber acho que já está voltando. As notícias... Aconteceu nada.
Escolhe da Bruna para mim.
Preciso saber do meu filho.
Enfermaria aqui.
Alguém só me diz...
Calma, calma. Calma, calma. Calma, calma. Calma, calma.
Calma, calma.
Calma,
calma.
Vamos ver. Por quê? Por que a Bruna vai passar por um exame?
Pelo amor de Deus, aconteceu alguma coisa mais grave com ela?
Kleber, ela é minha única filha. Eu sei, eu sei. Pelo amor de Deus. O doutor
falou que chega em dois minutos. É esse?
Eu sou a mãe dela. Como é que ela está, doutor? Ela acabou de chegar na
enfermagem.
E vamos fazer mais alguns exames. Por que está tudo bem, doutor? Por que mais
exames? Pelo amor de Deus. Nesse acidente que a sua filha sofreu, É
normal que a pessoa, que o paciente fique em observação.
Ainda mais porque temos que ter certeza se ela não sofreu nenhuma... Ah, meu
Deus. Não, doutor, não dá. Não pode.
Já vou aí, já vou aí.
Olha, pra saber, pra ter certeza, você não vai ter nenhuma hemorragia interna,
nenhum sangramento intra.
Hemorragia interna.
Com licença, eu preciso ir. Não, não.
Peraí, doutor. Doutor, peraí. Espera e fala.
Camila.
Filha, meu amor.
Meu amor, fala comigo, filha.
Filha, minha filha. Meu amor, fala comigo, meu amor.
Agora que a senhora já está com sua filha, vou dizer para o Pedro que está
tudo bem aqui.
Claro. Claro, claro.
Eu não perguntei como é que tá o Pedro.
Ele sofreu menos ferimentos que ela.
Mas ele já acordou, tá conversando com o pai.
Tudo bem, eu vou lá avisar pra ele que a Bruna tá bem também.
Tá bom.
Deixa suas bolsas aqui.
Mãe? Oh, meu Deus!
Você tá aí? Eu achei que você só viesse no final de semana.
É, era pra eu passar a semana toda direto lá, mas hoje eu tive uma colher
de chá.
O que você tá fazendo?
Tô fazendo um purêzinho. Então aproveita, né?
Eu ouvi falar que o seu patrão é super exigente com os funcionários.
E aí você que é fisioterapeuta, já viu, deve ficar com ele pra cima e pra baixo,
né? Ajudando.
Um leite pra mim, por favor?
Mãe, na verdade, quem faz mais esse rolê, assim, direto com ele é o
Edivaldo. A gente faz sessão duas vezes por dia de fisioterapia.
Só que tem avancei tanta coisa naquela casa que hoje, por exemplo, a gente não
fez nada.
E você?
O que é que tá com essa carinha? Tá triste ou o quê?
Pra você eu posso falar, né, mãe?
Fico sufocando lá no fundo essa dor que eu sinto da perda dele, mas é tão
difícil.
É meu filho que você pode ir desabafando.
A vida fica tentando me empurrar pra frente. Eu sei que eu tenho que seguir,
mas sem ele... É tão pesado.
Sim, filha. Sei como é que é essa dor.
Tem uma outra coisa também que aconteceu.
Eu queria falar com você, mãe. Te contar, mas você não pode contar pra
ninguém. Vou te confiar em mim, filha.
O que houve?
Mãe, a senhora não tá passando bem.
Eu tô me sentindo meio estranha. Deu uma fraqueza na perna. Então vamos no posto
de saúde, que é aqui perto de casa. A gente vai lá ver o que tá passando. Não,
não, não. Não é pra tanto também, tá? Foi só um mau estágio, tá?
Tudo bem, eu vou... Não, não vai nada.
Tem que cuidar da saúde.
Descansa um pouco.
Respira. Você precisa se cuidar, mãe.
Precisa de um café forte. Vou fazer pra gente. Não, não, não. Vai não. Senta
então, por favor. Eu vou passar, tá?
Respira um pouco.
Filha, você ia me contar uma coisa. O que era?
Ah, não. Nem vale a pena ficar perdendo tempo com isso. A picuinha é de
trabalho, mãe. Esquece.
Picuinha, você cuidado com o negócio de fofoca, hein? Te envolverem nisso.
Você não pode perder esse emprego. Não, Deus me livre, mãe.
Imagina. Ó, passando um cafezinho aqui bem forte, como a senhora gosta, tá?
Tô. Vem.
Ei!
Ei,
ei, ei.
Obrigado. Obrigado por ter vindo, meu amigo.
O Pedro é meu afilhado.
Eu vim assim que você ligou. O doutor Arthur gosta mais desse afilhado do que
do resto da família dele.
Alguém te perguntou alguma coisa? Por um acaso eu abri debate sobre o meu
afilhado? Desculpe, foi só um comentário. Eu achei que estava dizendo
uma coisa boa. Se você quer fazer uma coisa boa, fica calado. Eu quero saber o
estado de saúde do Pedro.
Pedro, o médico ainda não te deu alta. Eu sei. Você tem que ficar de repouso.
Eu não vou conseguir ficar de repouso sem saber a notícia. Mas o Kleber vai
trazer a notícia. Ele já tá voltando. Eu tô demorando pra caramba. Me ajuda aqui.
Sossega. Me ajuda aqui.
Ai.
Vem. Me ajuda a colocar a camisa. Tá sujo. Eu vou na sua casa. Ô, Dorinha,
pelo amor de Deus, meu.
Preciso saber da Bruna. Preciso saber do meu filho. Eu não vou conseguir
descansar. Ai, ai, ai.
Ai. Ai.
Ajuda.
Nossa Senhora.
Não conta pra ninguém que eu... Por favor. Tá muito bom, Pedro, mas... Outro
imusia.
Fui fechado por outro carro, que absurdo. O outro motorista tava
dirigindo, eu fiquei tão alucinado. Colou na traseira dele, depois botou e
enfiou o carro na frente.
Açúcar. Olha, o trânsito nessa cidade tá cada vez mais selvagem, hein, Ademir?
Ainda foi embora sem prestar socorro, canalha.
Mentira de horrível.
Moça.
Onde é que fica a enfermaria feminina nesse hospital?
Pra lá?
Dá licença. Obrigado, viu?
Ah, o Pedro?
Ei, ei, ei!
Você não deveria ficar andando pro hospital. Você me recusou. Eu tô bem
melhor já. Tô me sentindo muito bem já.
Precisei sair.
Pra saber da minha namorada da Bruna.
Isso é ótimo, mas você ainda tem uma observação, né? Não pode ficar saindo
por aí.
Eu sei. Não, é porque eu perguntei pra um monte de gente, cara. Eu pedi pro meu
amigo, pedi pro meu pai, ninguém me dá notícia dela.
Preciso de notícia, doutor. O senhor pode me dar notícia, me dizer como é que
tá minha namorada, por favor? Ela acabou de acordar, tá consciente. Agora vamos
fazer novos exames de imagem pra poder avaliar.
Ela tá bem.
Ela tá bem, não é?
Tá bem, tá bem.
E o bebê?
Que bebê? O bebê? O bebê? Como é que tá o bebê, meu filho?
Que ela tá esperando, que ela tá grávida.
Aconteceu alguma coisa com o bebê? Não existe bebê nenhum.
Sua namorada não tá grávida.
Posso afirmar com certeza.
Grávida ela não está.
Olha pra mim. O senhor tá lembrando de mim?
O senhor tá lembrando que eu cheguei com a Bruna, a minha namorada, que tá
grávida?
Ela tá grávida.
Aí se o senhor quiser dizer, perdeu o bebê, o senhor fala, perdeu o bebê. Não
fala, não tem bebê.
Tem bebê.
Enquanto a Bruna pode ficar tranquila, ela tá fora de perigo.
Já acordou, como eu disse. O senhor já falou isso pra mim.
Eu ouvi isso.
Eu tô perguntando do meu filho.
Eu tô perguntando pro senhor do meu filho. Quero saber como é que tá o bebê.
Pedro, não existe filho nenhum.
Não tem filho nenhum, sua namorada não está grávida, nem esteve recentemente.
Tá tudo bem, Pedro?
Tá bem, tudo bem, tudo bem, Pedro.
Fica tranquilo, doutor. Vamos deixar aqui ver.
O que foi?
Tudo bem, pai? Não, tudo bem. O que foi? Depois a gente conversa em casa, com
calma. Eu, padrinho.
Padrinho.
Depois o que aconteceu, doutor?
Eu acho que eu dei uma notícia que ele não esperava.
Tem alguma coisa com o meu neto?
Tem neto, pai. Não tem neto?
Filho, ele tava mentindo pra gente, cara.
A minha filha precisa descansar. Ela precisa descansar, Camila.
Por que você fez isso comigo, cara?
Por que você ajudou ela a mentir que ela estava grávida pra mim e você sabia que
o senhor ia me separar? Quanto tempo eu falei disso com você, cara?
Uma coisa dessas não tem explicação, Camila.
O que é que aconteceu?
Eu não sei, pai. Ela sabia que eu sonhava em ser pai. Ela sempre soube. A
gente sempre falou isso. Eu não sei porque ela inventou isso pra mim, pra me
prender. Como prender você ia ser? Deixar a Bruna? Eu não sei, pai.
Eu não sei porque uma pessoa inventa uma coisa dessa pra gente.
Como é que uma pessoa que a gente gosta inventa uma coisa dessa pra gente?
Esse golpe é tão velho quanto andar pra frente.
Eu vou falar com ela. Não, não, não. Ô, Carminha, dá licença, Carminha. Não, eu
preciso... Você não tem condições, Pedro.
Vamos tomar uma medicação, depois você fala com ela. Vai ter tempo de falar com
ela, tá?
Pai! Pai!
Pai!
Vergonhosa, Carminha.
Pai!
Ah, tá acabando essa, vou querer outra dessa.
Tá legal?
Ah, não vem com essa de copo em cima de mim, não.
Ah, essa conta vai ficar mais alta que meu padrão.
Mas você nunca ouviu aquela expressão, Dinah, que quem convida dá banquete.
Você tem que pensar, Dinah, que essa nossa conversa pode te dar muito
prestígio.
Você esqueceu, você esqueceu.
Que eu que vou administrar toda a fortuna de onde sai o quê?
O salário.
Não, mas eu não tô contando essas coisas da Adriana em benefício meu, assim, de
uma coisa de dinheiro, não. É porque eu tô muito preocupada com o doutor Arthur.
E essa menina, essa tal de Adriana, que nem sabe de onde veio, não sabe pra onde
vai. Ela só quer explorá-lo.
Essa Adriana aí tem algum ponto fraco.
Como é que é?
A família dela.
O que eu sei é o que a Rosa conta, né? Na verdade, ela tem uma mãe que não é
muito saudável, tem um irmão que é estudante, um jovem, né?
Adolescente. E aí, daí? Tem a ver o quê?
Eu pensei que ele poderia se aliar à senhora, né? Em troca de um troquinho,
entendeu? Pra comprar um computador, um celular.
Adolescente que tá sempre querendo estar conectado.
Tá vendo?
De nada, tá vendo como você é burra?
Não, você é burra.
Dinás, é muito burra. É muito mais vantajoso pra esse moleque que a irmã
dele fique rica da noite pro dia.
Pensa!
Também tem, tem, tem, sabe quem? O avô da Adriana.
O que é que tem esse avô?
Rosa me conta, é o seu Otoniel, diz que ele é assim, meio careta, conservador,
tá sempre repreendendo os modos alegres do neto dele, sabe? Mantenha a família
assim, tudo certinho, sabe? Aí, tá vendo como começa? De repente, o funcional
é... Isso aí pode ser bom, porque se o avô for assim como você tá
falando mesmo, ele não vai achar nada bom, velho, demente, como...
Como meu irmão tá casando com a neta dele.
E tem muita grana nessa jogada.
Muita grana.
Todo mundo tem seu preço. Não é à toa que ele tá lá.
Ele tá lá, encostado na casa que o Arthur emprestou. Que foi a casa da
minha mãe.
Onde a gente vivia tão bonito.
Eu acho que o senhor Toniel não está gostando muito daquela situação, sabe?
Porque, olha só, ele já é aposentado, mas voltou a trabalhar. Por quê? Quer
ganhar um dinheirinho para comprar uma casa.
A senhora sabe, né? Aquela coisa de pobre e orgulhoso.
Que horror!
Duas coisas horríveis, né? Que dá errado mesmo. Que é pobreza com orgulho. Não
dá bom. Eu vou contar tudo. Vamos dar um brinde aqui.
Conta mais. Conta mais do avô. Eu vou contar pra senhora tudo que eu sei do
avô. Conta, conta, conta.
Filha, ela tá acordando, ela tá acordando.
Oi, meu amor.
Oi.
Onde que eu tô?
Calma, calma, calma. Você tá no hospital, mas tá tudo bem, meu amor. Tá
tudo bem, não aconteceu nada de mais grave que você, viu?
Eu lembro do carro rodando no túnel.
Não lembro mais de nada.
Tá tudo bem, meu amor. Tá tudo bem.
Carmita, dá licença pra gente conversar um pouquinho.
Pedro, por favor, aqui não é nem a hora, nem o lugar.
Hora de quê?
O que estão falando?
Está tudo bem, amor?
Tá tudo bem?
Tô com uma dor aqui.
Aconteceu alguma coisa com o nosso filho?
É isso? Que filho?
Não tenho filho.
Rostinho bonito, peitinho de frango, abdômen duro.
A bunda realmente... Para. Ainda não achei. Para.
Foi você.
Você pegou o meu celular e... Mas você mandou mensagem pra ele? É sério isso?
Como é que você tem a minha vida sem o Pedro?
Eu não sei viver sem ele. O amor não fala assim, filha. Você é tão linda. Mas
sua... Claro que não. Mas sua...
Eu tenho uma coisa séria pra falar sobre a sua neta e o meu irmão. Fala direto,
logo! Tá sabendo que meu irmão pediu a sua neta em casamento?
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