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Quer dizer, então, que a Adriana e a família dela foram embora?
Foram.
Caramba! Você sabe pra onde que eles foram? Falaram com você? Eu realmente
não sei. Não? Eles saíram tem pouco tempo. É. Não, tá bom. Ó, eu trouxe
esses documentos aqui, dos processos já encaminhados. Junta o pessoal, a turma
aí, que eu quero conversar com eles, tá? Beleza. Trabalhar, né, Fiote? Oi, Pedro.
Oi, Adriana. E aí, Fé? Tudo bom? Tudo bem, e você?
Falei de você agora, hein?
Acabei de falar de você. Que bom te ver.
Muito bom te ver.
Que bacana, então, Adriana, que vocês estão com um lugar legal pra ficar,
então, né? É, nós temos agora um amigo, ele nos estendeu na mão.
Acho que eu posso chamar ele de amigo, né?
É porque, na verdade, eu tô trabalhando com ele e aí ele... Descobriu, né, a
situação toda do que a gente tá vivendo e ofereceu ajuda.
É mesmo? Você vê como é que tem gente boa no mundo ainda. Mas é claro que tem.
Eu falo isso porque todo mundo fica falando que eu sou romântico. Que isso,
é claro que tem. Aliás, você é uma dessas pessoas. Não, eu não. Você é uma
dessas pessoas. Não, você é uma dessas pessoas. É uma coisa que eu tenho que
dizer pra você de verdade, Adriana.
Teve uma coisa que ficou na minha cabeça desde o dia que a gente se conheceu, que
foi você cuidando das pessoas no dia mais difícil da sua vida. Isso não é pra
qualquer um, não. Ah, isso é o mínimo que se faz, que as pessoas deveriam
fazer. Isso aí vai ficar pra sempre marcado na minha cabeça. Assim que eu
tiver uma folga, eu vou vir aqui. Tem muita gente aí pra se reerguer. É, isso
aí. Pra botar a vida de volta nos trilhos, né? É, vamos nessa.
Eu vim buscar aquele tênis que eu esqueci aqui. Meu irmão escolheu lá nas
doações. E eu estava esquecendo a coisa mais importante da nossa conversa, que
eu encontrei isso aqui.
Eu acho que é seu, não é? A minha pulseira.
Onde você achou?
No dia, eu achei no cemitério lá, depois do sepultamento, estava pertinho do meu
carro, a caidinha assim, o negocinho brilhando.
E a Adriana lá escrito?
Foi ele que me deu.
O Carlos que me deu. Você me ajuda a colocar?
Ajudo, claro que sim.
É... É um
presente
especial.
Foi o último.
Eu sinto muito por você, Adriana.
Sinto muito mesmo por tudo que aconteceu com você.
Ai, meu Deus.
A vida é assim, né? Não para não. Não dá nem tempo da gente assimilar as coisas
direito. Eu tenho uma família aí pra ajudar.
Eu sei como é que é. Eu vou saber como é que é.
A minha tá só começando também.
Você vai formar uma família?
Eu vou ser pai.
Eu sempre quis ser pai.
Minha namorada falou que tá grávida esses dias e...
Agora que vamos ver, né?
Como é que vai ser.
Parabéns. Obrigado. Parabéns. Posso?
Pode, claro que pode.
Tudo de bom pra você, viu? Obrigado.
Boa sorte. Você aí pra... Boa sorte. Vai dar tudo certo. Vai dar tudo certo.
Ah, deixa eu deixar o...
O meu cartãozinho com você. Tem meu telefone, meu e-mail. Se vocês
precisarem de qualquer coisa, manda um beijo pro teu avô também.
Claro. Um beijo pra todo mundo lá, seu irmão. Vamos falar assim.
Que legal que você ainda tem cartão de papel, né? Ninguém tem mais isso aí, né?
Eu mandei.
Eu gosto.
Despeira.
O quê?
Obrigada.
Por você ter estado do meu lado em tantos momentos difíceis. Não, não
precisa agradecer, não.
Obrigada mesmo.
Não, de nada.
Então...
Tá ótimo, Thiago.
Obrigado. Boa noite. Imagina, boa noite, Edvaldo.
Ué, o que o Edvaldo veio fazer aqui sem o meu tio Arthur?
Ele veio buscar um molho de chaves que o tio Arthur pediu.
Chaves? Sim. Da onde?
Da casa antiga.
Da família, onde eles moravam, onde foram criados. Sim, sim. Minha mãe
sempre fala dessa casa, de quando eles eram jovens.
Mas essa casa tá fechada há tanto tempo.
O que meu tio quer com ela?
Você não comporta, cueca vermelha.
Desde que eu terminei com você, você retraiu.
Olha só quanto você perdeu.
Ai, que susto!
Justo, menina. Tá fazendo o que aí no escuro, Brigitte? Tá deprimida.
Cuidado pra não deprimir muito, viu? Porque no fundo do seu poço, minha
filha, não deve ter nenhuma... Que que é isso?
É filme pornô. O que é filme pornô, mãe? Deixa eu ver, deixa eu ver. Isso aqui é
o pituxo, o pituxo do pituxo. Tá reconhecendo, não? Nossa, filha, tem
mãe? Eu coloquei uma câmera escondida no quarto dele.
Olha ele!
E eu fico tentando... Para, mãe!
Deixa eu ver! É uma criança, para com isso!
Eu fico tentando ver... Para!
Gente! Que horror!
Eu tô vendo ele tentando tirar a purpurina que eu coloquei lá.
Todo dia tenta mais um pouquinho. Não tem nada aí ainda, minha filha. Você
quer macarrão? Não tem nada, quero.
Que coisa.
Sua irmã me falou que você fez isso com o menino. Eu não sabia que era o pituxo.
Não sabia que era esse pituxo.
Ah, isso aí é tão deplorável.
Tão deprimente.
Faz alguma coisa, pega prato, por favor.
Filha, a mamãe quer te falar uma coisa faz um tempo já.
Olha pra mim, minha filha.
É conselho de mãe pra filha.
Não se arranja marido assim, meu amor.
Sabe? Ainda mais um gato como esse aqui.
Abre pra eu ver, filha. Só mais um pouquinho.
Bonito ele.
Nossa!
Bonito ele, né? Mas não... Meu Deus do céu.
Não tem vergonha, não, mãe? Do quê?
Até parece que não me conhece, mãe. Não quero esse traje, não.
Homem é feito pra sofrer.
Mas é engraçado você não ter gostado do que eu fiz, porque eu aprendi isso com
você.
A ter esse prazer em ficar infernizão da vida dos outros.
Tá falando isso por quê, minha filha? Por causa do... da ação que eu tô
movendo aí contra o seu tio? É isso?
Não, mãe.
Eu tô falando do jeitinho que você criou os seus filhos mesmo.
Vem. Termina aqui de cozinhar.
Jogou o tempero dentro, mãe. Sabe nem fazer macarrão.
Brigitte!
Imprestável! Tempero tá aqui dentro, menina!
Vou mandar uma mensagem pra ele.
Não, vou criar um perfil fake.
Aí ele não vai saber que sou eu.
Ué.
Ouvi aqui na base.
Quem será que é?
Oi, gostoso.
Tá entregando tudo nessa limpeza, hein?
Isso?
Como é que sabe que eu tô?
Estou fazendo pagina aqui.
E vocês?
Essas pernocas de fora deixam qualquer um maluco.
Que isso, cara?
Que isso, cara?
Toma isso.
Toma isso.
Não é possível.
Não é possível.
Mãe!
Mãe! Ai, como eu amo a internet.
Que coisa hilária.
Aconteceu uma coisa e eu acho que você precisa saber.
Na joalheria com o meu irmão? Fala que me deixa... Não, o Edivaldo. O Edivaldo
foi até lá e pegou a chave da casa antiga de vocês.
Casa? Ah!
Casa da família? Isso, aquela que vocês foram criados, que tá fechada há muitos
anos. Não, infelizmente essa casa não é mais minha nem do Ulisses, porque o
Arthur comprou tudo, mas... Será que ele agora tá se interessando pela casa que
foi da gente?
Eu não faço a menor ideia.
São as alturas da vida.
Cadê o queijo ralado, Brigitte? Sei lá, acabei de chegar.
Mas assim...
Tiago não explicou nada, disse que o Edivaldo não explicou nada, não entendeu
nada. Licença.
Só foi lá, pegou as chaves e foi embora.
Será que o meu irmão tá tendo uma crise de nostalgia?
Tá lembrando de quando a gente era uma... Uma família unida.
Os irmãos todos juntos.
Oi, vida.
Onde você estava?
Eu te procurei a tarde inteira, passei lá pela manhã e a sua irmã Pilar acabou
de ligar nesse instante. Eu estava em reunião, foi hoje um difícil dia.
Uli, você ainda não me respondeu onde você estava e que cara é essa?
Eu te falei, eu estava em reunião, não deu para te ligar.
Eu vou tomar um banho e depois a gente conversa, tá bom, vida?
Quando às vezes você disse que não ia mais fazer isso, eu disse isso.
Você não pode mais voltar naquele lugar.
Aceita mais um chazinho, um biscoitinho, doutor Arthur?
Tá.
Tá lendo? Vai, vai, vai.
Tudo certo, doutor Arthur. Eu já peguei as chaves na joalheria e instalei a
família da Adriana na sua casa antiga.
Ótimo. Você comprou o material de limpeza que eu pedi, né? Porque aquela
casa deve estar cheia de poeira, até de aranha.
Claro, doutor Arthur. Eu fiz as compras pelo aplicativo Como Eu Faço Pra Cá. E
já avisei a Adriana que vão entregar tudo lá na casa dela.
Tá ok?
É, porque eles não estão podendo gastar com isso, não. Eu não posso oferecer um
lugar e não dar mínimas condições pra eles se ajeitarem por lá, né? Claro,
claro.
Mais alguma coisa, doutor Arthur?
Chama os empregados.
Eu quero fazer um comunicado.
Com a corna? A corna? Ela é corna? Ih, soube não. Menina, a fofoca só melhora
que ela esteja em casa.
Silêncio, silêncio, silêncio.
Doutor Arthur quer todo mundo na sala.
Quer falar com vocês.
Ah,
pronto, tomou gosto com o negócio de demissão? Vai querer botar todo mundo na
rua, aí minha CLT é tão bonitinha, preenchidinha. Não inventa moda não,
Matilde, pelo amor de Deus, que eu sou a rima de família, não posso perder isso
não, gente.
Calma, calma, eu já sei. Ele vai reclamar do barulho que vocês fazem
quando estão trabalhando na casa, suas gralhas dinamarquesas.
Silêncio, silêncio, silêncio.
Vocês vão ficar tentando adivinhar ou vão lá na sala saber o que ele quer?
Hein?
Eu chamei vocês aqui pra fazer um comunicado.
A partir de amanhã de manhã, a Adriana volta a
trabalhar nessa casa. Ai, Deus, seja louvado.
Ufa! Era isso? Só nó, que bom. Bom pra ela e pra gente, não é que não é uma
demissão? Silêncio, silêncio.
Doutor Arthur tá falando.
Eu quero que vocês tratem bem essa menina.
Ela é uma ótima pessoa e está passando por um momento difícil.
Mas é uma guerreira.
E tem a minha admiração.
Não deixou nem de pagar a conta de luz.
Puxa para lá, Maurício.
Puxa. Deixa eu ver isso. Não está pedindo. Não está pedindo.
Vou buscar isso aqui.
Aqui.
Epa! Pronto.
Aqui a baju está funcionando.
Impressionante. Está muito empoeirado isso aqui, Zé. Não é? Nós temos que
botar a mão na massa para tornar isso aqui habitável.
Impressionante. Eu tenho certeza que tem muito tempo que ninguém vem aqui.
Olha aí.
Nossa, aqui tá pior ainda, ó. O quê?
Tá com muita poeira.
Não, mas não bate assim não, minha filha.
Aí me enrola.
Pega assim devagar.
Gente, eu tô achando que o gás também já tá funcionando, hein? É? Vamos testar.
Alguém tem um fósforo? Eu acho que eu tenho, peraí.
Peraí, você tem fósforo? Você tem fósforo? Desde quando você anda com
caixa de fósforo? É só pra ter, gente. Não, aí não.
Tá fumando? Eu achei.
Vou testar.
Isso, testa aí.
Temos gás, tem fósforo.
Que maravilha, filha! Eu não aguentava mais o banho gelado daquele lugar lá.
Nossa senhora, que poeira!
O senhor Edvaldo falou que as compras vão entregar aqui, né? A gente tem algum
dinheiro no banco.
Podia ter tirado, comprado material de limpeza e já estava fazendo isso. Pelo
amor de Deus, o dinheiro que a gente tem é para comprar comida agora.
Não dá, tem que escolher. A preferência é da comida, porque já ofereceram para a
gente a casa, a gente aceitou. Se eles estão oferecendo produto, a gente aceita
também. E a gente vai aceitando, vai aceitando, aceita.
Minha preocupação é depois.
O que é que ele vai querer em troca?
Abaixa essas asas.
Pra que isso?
Nossa, isso tá com cheiro de guarda.
Boa noite.
Boa noite.
Que isso?
Quem são vocês?
Estão fazendo o que aqui?
Quando você pensa que tá tudo errado e negativo e que ainda vai piorar,
piorar Pra todo mundo a vida é difícil, mas todos
fazem seu sacrifício pra melhorar, pra melhorar
Lá vem o sol
Para derreter as nuvens negras Para iluminar o fim do túnel E a luz
do céu Para inspirar os seus desejos Pra fazer
você encher o peito e cantar
Estou falando com você, mocinha.
Responde. Quem é você?
Quem são vocês?
Estão fazendo o quê?
Na casa da minha família?
A senhora não me conhece? Eu vou me apresentar. Espera aí!
Espera aí!
Calma. Não tem que falar nada, não.
Por mal que lhe pergunte, minha senhora, você é... Quem? Quem é você? E tá
fazendo o que aqui? Com essa cara de nojo, perguntando aqui pra gente quem
somos nós?
Ela é irmã do doutor Arthur.
E daí?
Mas ele emprestou a casa pra gente, né, dona Pilar, não é isso?
É, acho que se a senhora quiser, é melhor ligar pra ele, de repente, pra
tirar essa dúvida qualquer.
Que engraçado isso, né?
Você deve ter estudado mesmo a minha...
A minha família pra... Pra saber tanto assim sobre mim, não é?
É, eu sei, porque eu estive na casa do doutor Arthur, então... E mesmo sabendo
que a gente é... É gente de bem, você resolveu invadir
a nossa propriedade com esse... Com esse bando. Bando?
Falando pra nossa cara e dizendo que é bando?
Tá vendo algum bandido aqui?
Bando, não. Pera aí. Bando.
Isso aqui é uma família.
A minha família.
Papai, não vai brigar. É, inclusive, porque se alguém me agredir, eu meto um
processo. Eu vou só estar nervoso, tá? Ele não é violento, não. Já tá dando pra
ver que a senhora é bem diferente do seu irmão, né? Eu sou? Nossa, completamente.
Ele estendeu a mão pra gente num momento de muita necessidade. Olha, a gente
perdeu a nossa casa.
Na verdade, a gente perdeu tudo.
Ai... Vocês são sem teto, então, né?
Ah... Meu irmão, ele deve estar muito louco mesmo, né? Pra... Pra
deixar esses desabrigados aí invadirem a minha casa. Vocês são...
Vocês são gente de rodapé, sabia?
Sabe o que gente de rodapé é?
Quem gosta de rodapé é barata.
Barata. É isso que vocês são. Que invadem a casa das pessoas sem
autorização de ninguém.
Mas aqui, aqui não.
Entendeu? Aqui não, porque eu vou tirar vocês daqui. Nem que eu tenha que usar
todo o inseticida da cidade de São Paulo pra vocês não estarem com esgoto. Chega,
chega. A senhora me desculpe. Eu tô sendo educada, mas há limites. A senhora
não pode continuar ofendendo minha família desse jeito. Por favor, a
senhora vai embora.
Que isso?
É muita petulância sua, né?
Você me mandar embora da casa onde eu fui criada, casa da minha família. Isso
aqui foi erguido com muito esforço e muito sofrimento pelos meus pais.
Não é pra gente como vocês.
Um bando de encostados, indigentes, rapazanas.
Instalar a família da fisioterapeuta na casa que foi da sua família? Não, pelo
amor de Deus, eu não concordo. É uma coisa imprudente. O senhor mal conhece
essa família da Adriana. Ah não, Dinah, peraí.
Espera aí que a Adriana é uma menina de confiança. Pelo amor de Deus, eu conheço
essa garota desde que nasceu.
E a Elisa e o Otoniel? São meus amigos há anos, Diná. Menos. Ah, mas o senhor
tá dando muito cartaz pra ela, sabe? Dá uma ajuda desse porte, entendeu? O
senhor acabou de conhecer a Adriana.
Pouco que eu conheço. Eu já percebi que são ótimas pessoas e que merecem uma
segunda chance.
Eles perderam tudo na enchente, Diná.
Mas o senhor não precisa adotar as pessoas.
O doutor Arthur é uma alma bondosa. Se é pra falar bobagem, é melhor ficar de
bico calado. Edivaldo, você sabe que eu odeio bajulação.
Nossa, eu só falei que o senhor fez bem em ajudar a Adriana e a família dela.
Eles estavam passando por um sufoco, gente.
Eu fui rude com a Adriana.
Eu descontei nela a raiva que a minha própria família causou em mim. Não, não,
não. Ela que foi ousada. Ela chegou aqui pedindo adiantamento e se negou a dormir
no serviço.
Ela tinha razões para fazer isso, Dinah.
Ela não achou correto ficar bem instalada aqui enquanto a família estava
num abrigo em situação precária.
O senhor está sendo muito generoso. Eu acho melhor... Você não acha nada,
Dinah.
Eu não chamei vocês aqui pra me justificar.
Eu tô informando que a Adriana volta a ser a minha fisioterapeuta.
O senhor é que sabe.
Ela vai passar a semana aqui em casa com vocês.
Deixa o quarto pronto pra recebê-la. Ah, pode deixar. Vai ficar um brinco, ó.
Lindo, lindo.
Vamos, vamos, vamos.
Pra cozinha. Vem.
Vamos. Acelera, acelera, acelera.
Uma última coisa.
Tratem bem a Adriana.
Ponto final.
Eu sabia que o doutor Arthur ia mudar de ideia. Graças a Deus. Ele ficou tocado
com a situação da Adriana, não ficou não, Edivaldo? Eu tô passada, porque eu
achei que do jeito que a Adriana saiu daqui, ela não voltasse mais. Não faz
isso. E perder essa bocada?
Ai, deixa de ser implicante, Dinah.
Eu quero ver até quando que vai durar esse mar de rosas.
Ai, credo, Dinah. Fica secando a garota. Isso aí é o que? É ciúme, é? Hum, tá com
ciúme.
Nada de ciúme, não. Estou sendo apenas realista.
A Dinah falou assim porque não viu a tristeza daquele abrigo.
Muita gente perdeu tudo com a chuva. Um horror.
Estava pensando aqui. É verdade, hein, Divaldo? Que situação, gente.
Você já pensou ficar sem nada, assim, no meio da rua, da noite para o dia?
É melhor a senhora ir embora daqui antes que eu perca a cabeça. Você nem tenta
chegar perto de mim.
Isso aqui, vou, por favor.
Foi um mal entendido.
A dona Pilar não sabe que quem emprestou a casa pra nós foi o próprio doutor
Arthur. Ela não tá ciente disso.
Não é? Porque afinal de contas, senão como é que nós teríamos conseguido as
chaves da casa?
Eu... Eu posso imaginar muito bem como é que você conseguiu isso.
Ainda mais...
De um homem fragilizado, como meu irmão. Olha aqui!
Já falei!
Para fazer o quê?
Pai, pelo amor de Deus, não faz isso.
Sai daqui!
Para o quê?
Baixa essa mão! Nós somos gente de bem, tá?
A gente tá aqui porque o dono da casa emprestou a casa pra gente.
É isso, é o que vocês estão falando. A senhora não é bem-vinda aqui. Pode ir
embora, por favor.
É isso, a senhora vai embora daqui agora.
E se a senhora quiser maiores informações, trate de pegá-las com o seu
irmão. Dá licença.
Não, não, não. Tá certo. Por favor.
Tá certo.
Mesmo. Vou.
Eu vou embora. Eu vou.
Porque eu já vi o que eu tinha que ver.
Precisa me acompanhar, não, porque eu saio sozinha.
Vai. Vai embora, coisa ruim.
Gente. Nunca vi isso.
Isso.
Não tem jeito de tratar ninguém.
O que aconteceu aqui?
Tem coisas na vida que a gente, ó... Tem um limite.
Vamos beber uma água. Eu vou tomar.
Senta aqui.
Pelo amor de Deus. O que é isso?
Senta aqui, pai. Senta aqui.
Calma, calma. Tá louco?
Você gosta, né, meu filho? Dá gosto de ver eu pedir pra fazer só pra você. Acho
que tá especial, mãe.
Obrigado. Carolzinho também tá gostando do risoto. Tem segundo prato. Que isso,
Carol? Faz razão, hein? Por que ao invés de você fiscalizar quanto como eu deixo
de comer, você não dá uma olhadinha no pratinho do seu filhinho querido?
Gente, foi só um comentário. Não precisa falar assim não. Você quer me controlar
igual você faz com meu pai.
Batira, traz vinho.
Limãozinho, por favor, também.
Olha só.
Falando no... isso também, que você trouxe na mesa.
Você falou com ele sobre o meu carro?
Aquele modelo que eu escolhi?
Paciência, respira fundo. Tem ovo.
Tô convencendo o seu padrasto, mas vai sair.
Ele tá doido, Fábio. Ele tá ansioso porque ele quer mostrar pros amigos dele
o carrinho perfeitinho dele, né?
Você é esse filho, né, Felipe?
Tomara que ele não te dê nada, tá bom? Coisa fofa.
Ai, Fábio, cadê o papai que não vem jantar nunca?
Seu pai chegou estranho.
Se enfiou no chuveiro e não saiu de lá até agora.
Ué, mas aconteceu alguma coisa?
Eu que vou saber.
Batira, tem alguém na porta.
Seu pai é mais fechado do que uma ostra, não conhece? É, deve estar acessado. Boa
noite, boa noite.
E lá?
Você é aqui a essa hora, Cunha?
Tudo bom.
Quer jantar? Está servida risotinho de camarão. A última coisa que eu quero
agora é o Ulisses. Está em casa?
Ulisses, Ulisses é Pilar. Abre a porta, irmão. Abre.
Abre que é urgente, Ulisses. Você não sabe o que o Arthur apontou agora.
Abre aqui.
Ele colocou um bando de mendigos dentro da nossa casa de família.
Você acredita, mendigo? Tudo lá.
Na casa onde a gente foi criado. Abre, Ulisses.
Eu vou falar com você.
Está me ouvindo?
Ulisses, abre a porta.
Abre a porta.
A casa é do Arthur.
Você tomou banho de roupa? É, me deu vontade.
Que maluco.
Que que é isso?
A gente vendeu a nossa parte na casa pra ele, já esqueceu? Claro que não, a gente
vendeu. Então ele pode botar quem ele quiser ali, Pilar.
Escuta só, ele não...
Pode, meu irmão, ele não pode, porque lá o que tem? Tem os móveis, tem as
antiguidades, os aparelhos de jantar da mamãe, tem os faqueiros, lembra?
Imagina! Você acha o que um bando de miseráveis, Ulisses, vai fazer
o que com as nossas coisas, que são nossas por direito?
Pensa!
Você acha que esses objetos podem render alguma coisa pra gente?
Não, não, não. Nada disso.
Não, não. Que afobação é essa, menino? Já vai ficar pronto. Um segundo. Eu tô
morrendo de fome.
Pega aqui. Fala direito.
O que é isso?
Primeiro lugar, fica repetindo essas coisas que eu já te falei. Segundo, não
diga mais uma loucura como você falou agora.
Morrendo de fome.
Alguma vez...
Você passou fome na mesa nossa?
Na nossa casa? Tá certo, tá certo, filho. É isso mesmo.
Com tudo que a gente tá passando, a gente tá firme e forte. Ainda tem até
uma casa pra morar. Não com essa mulher vindo aí encher nossa paciência. Ai, que
mulher horrorosa aquela também, né?
É. Ô, filho.
Sabe o que eu não entendi?
Como você sabia quem era ela?
Porque eu já tinha visto foto lá de todos os irmãos do Arthur, eles todos
juntos na casa dele. Então, na hora que eu vi, eu reconheci a megera.
Ela que não teve tempo de te encontrar lá, né?
Não, ela nem deixou eu falar e explicar que eu sou fisioterapeuta do doutor
Arthur, que eu tô começando agora. Mas ela entrou aqui já acusando a gente de
ter invadido a casa. Eu vou falar uma coisa pra você, minha filha. Eu tenho
preocupação, viu?
Minha neta querida, esse teu patrão, sei lá, se é que ele tem outros problemas
aí, que isso vai cair na nossa cabeça.
Pelo amor de Deus, tomara que não. Não, não fica falando isso não, tá lindo o
macarrão, mãe.
Obrigada, filha.
Peraí, vou pegar o molho.
Ah, gente, com a loucura toda da mudança, eu esqueci de falar pra vocês.
Eu encontrei o Pedro quando eu voltei lá no abrigo. Ah, o Pedro, é?
Ele falou alguma coisa da escritura lá da nossa casa?
Não, mãe, não falou nada.
Tanto certo é porque não tem novidade, né? Senão ele teria dito. Sim.
Mas ele deixou o cartão dele aqui, ó.
Pra gente. Fica com você, mãe. Qualquer coisa, se você precisar. Isso é atitude
de homem.
Olha que beleza, tá vendo?
Sujeito fino, sem frescura. Todo ser vivo. E o que é bonito nesse moço é que
ele não tem preconceito com gente pobre que nem a gente. Ah, isso não tem mesmo.
Não. Ele é solidário, ele é prestativo.
Finalmente alguém que você gosta, né, vó?
Sabe por que eu gosto mesmo?
Porque esse doutor Pedro, vou te dizer, ele tem todo jeito.
Não me engana, não. Ele parece ser um rapaz de ouro.
É, eu sou tão grata a ele.
Ele é uma pessoa que se tornou especial pra mim.
Você não ia me contar que você tá voltando pro Brasil, canalha?
O que você tá pensando?
Era pra ser uma surpresa, né? Mas alguns tragam prazeres de um jeito de contar.
Quem é que foi? É claro que deu um jeito de contar, você não conta pro seu primo
que você tá voltando pro Brasil, seu primo favorito.
Alguém vai ter que contar, quem contou foi a Dorinha.
A Dora, sabe que... Dora, casada com meu pai, a Dorinha. Olha, essa sua madrasta
não tinha nada que ter se metido na história, ela nem me conhece.
Quer dizer, ela mal me conhece e já quer falar da minha vida? Ela não fez por
mal, né, Dedé? Ela me contou porque sabia que eu ia ficar feliz.
Isso eu não sei.
Nesses anos todos a gente mal trocou uma palavra?
Claro que não trocou. Você foi moleque, mora fora. Como é que você ia conhecer
ela? Meu pai conheceu ela depois que você já tava... Peraí que tocou o
interfone aqui.
Só atender aqui, Dedé. Só um pouquinho.
Oi?
Pode subir.
Não, pode subir.
Valeu.
Mas você vai gostar dela, eu tenho certeza. Vocês vão se dar bem.
Tá bom.
Eu vou seguir então o conselho desse primo que eu amo e vou de coração
aberto.
Por falar nisso, eu soube que você deixou de trabalhar no escritório do
tio, né?
Não, mas isso aí, de verdade, isso aí eu prefiro contar pra você pessoalmente. Eu
não quero falar pro telefone, porque é uma longa história, entendeu? Tem muita
coisa pra te contar.
Pelo tom, já vi que a coisa é séria. Coisa muito séria. Muito séria mesmo.
Mas eu te conto depois. Agora, tem outra coisa muito séria mesmo, que aí eu não
vou conseguir esperar chegar pessoalmente pra te contar.
Peraí que bateram na porta aqui.
Vou ter que te contar agora, porque senão eu não aguento.
Fala, Dudu.
Eu passei o código pra você já, tá?
Eu vou ser papai, Dedé.
Você vai ser pai, Pedro.
Que notícia incrível, cara.
Parabéns. Nossa, tá vendo? Agora eu tenho mais um motivo pra voltar pra
casa. Eu quero ser o padrinho e estragar completamente a educação desse garoto.
Tá bom. Eu sei que você vai estragar o neném.
Tá bom. Tô te esperando aqui. Tô com saudade de você.
Tá?
Beijo.
Achei que você comeu tão pouquinho no jantar, filha.
O que que houve? Tá passando bem, não?
Ai, tô meio enjoada.
Tudo que eu coloco no estômago me deixa embrulhada, sabe? Que isso, Bruna?
Tá, seu matizão? Tá achando que tá gravidinha de verdade?
Eu dispenso a piadinha sem graça, tá?
Tô sem fome de nervoso.
Tô tensa, mamãe.
Não sei o que eu vou fazer. O Pedro quer ir comigo na consulta com o obstetra
amanhã. Meu amor, fica calma. Não vai perder uma boa noite de sono por uma
bobagem dessas.
Mas como, mamãe? Eu não tenho ideia de como eu vou fugir dessa situação.
Ué, simples.
Amanhã na hora da consulta você passa mal e não vai. Pronto. Ai, ótima ideia.
Tá louca, mamãe? Se eu passar mal aí, quem é que vai querer me levar na
consulta mesmo?
Ah, bom. Isso é verdade.
Você não tem nada que tem que inventar com essa história de gravidez. Isso não
vai acabar bem. Meu amor, você quer parar de ser pessimista? Isso só atrai
coisa ruim.
Você vai me
agradecer depois.
Agora, onde será que eles vão com essa pressa toda, né?
Essa é a pergunta de milhões, meu filho. Eu aposto que tem a ver com o tio
Arthur. Sim, com certeza.
Só sei que eu tô preocupada. O olho chega estranho e agora isso.
Ainda bem que essa casa é toda equipada, né? Tem prato, tem talher, tem tudo
aqui, a gente não precisa de nada.
E é tudo antiguinho, assim, né? Bem cuidado. Parece até que essa casa ficou
parada no tempo.
Eu não diria antiguinho, eu diria vintage, tá?
Essa casa é nossa salvação, Maurício. Ainda nem consegui agradecer o doutor
Arthur.
Mas também, né? Depois que aquela irmã dele entrou aqui, ela acabou qualquer
clima de gratidão. Aquela mulher trouxe uma energia pesada. Vai, limpa.
Limpa, limpa, limpa todo o ódio coletivo. Vai quebrando. O que você tá
fazendo? Eu tô liberando, né? Tirando a energia pesada que aquela musa do umbral
colocou aqui. Vai quebrando, senhor. Toda a malta... O que
que tá acontecendo?
E olha pra mim desse jeito, com uma cara assustada, por quê?
Não é nada, é só o jeito que eu fico quando eu encontro gente com energia
pesada, igual aquela dona pilastra lá.
Guarda pra mim na geladeira essas coisas.
Oi, doutor Arthur, boa noite.
E aí?
Adriana, como vão as coisas?
Já se instalaram na casa?
Já. Estamos muito bem. Obrigada. O senhor viu a gente lá no abrigo, né? A
situação que a gente estava. Então, chegar aqui, poder estar tranquilo nessa
casa é bom demais. Eu te agradeço muito, viu?
Sim.
Imagino, sim.
Eu não fui rico a vida toda. Eu sei a importância de um teto pra morar.
Eu só espero que você não estranhe a aparência antiga da casa.
Antiga? Antiga não, é vintage, meu irmão falou.
Já vi que ele tem bom humor.
Bom, até onde eu sei, está tudo funcionando, mas qualquer contratempo é
só me avisar. Nada, jeito nenhum, está tudo ótimo aqui, nem se preocupa. Quer
dizer, quase.
Na verdade, teve um pequeno imprevisto.
O que aconteceu?
A gente já tirou de letra. Tá sussa.
Obrigada, doutor.
Então amanhã eu tô aí bem cedinho e passo a semana toda aí na sua casa,
conforme os outros funcionários também fazem.
Aí a gente vai ter bastante tempo pra poder fazer os exercícios, pra poder
ouvir música também.
Viu?
Tá bom. Boa noite pro senhor também.
Tchau, tchau.
Contou o horror que foi receber a irmã dele aqui?
Não falei não, mãe.
Achei melhor não, achei melhor ele dormir um dia sem preocupação e amanhã
eu converso com ele pessoalmente.
O que vocês vieram fazer aqui sem avisar? Aconteceu alguma coisa?
Desculpe, é que o assunto é urgente. O Arthur, ele enlouqueceu de vez.
E a gente precisa de você e do Thiago pra tomar uma atitude.
Banda de indigentes, sabe?
O Arthur agora, sei lá, deu pra cuidar de mendigo.
Pois é, a Pilar tá coberta de razão. Onde já se viu colocar um pessoal sem
teto na casa que foi dos nossos pais?
Sim, tio, mas assim, a casa é do tio Arthur, ele faz o que quiser com ela. Eu
sou contra a gente tomar qualquer atitude.
Tiago, mas a gente não tá falando só da casa, meu sobrinho. Tudo que tá lá
dentro pertence à nossa família, Tiago. A gente não vendeu essa casa pro seu tio
de porteira fechada. Pois é, pois é. E ele prometeu que não ia mexer na casa.
Disse que ia preservar e guardar as recordações que tem lá dentro. É
verdade. Eu me lembro bem das palavras do Arthur antes de comprar nossa parte
na casa.
Não, e vocês acham certo isso? Colocar um bando de gente estranha com as nossas
coisas?
Parece uma manifestação de baratas, sabe? Na casa onde a gente viveu, onde a
gente foi criado. Eu, o Ulisses, seu tio e seu pai, né? Ô,
Tiago. Eu sei, tia, mas sabe o que eu acho engraçado? Que vocês só começaram a
lembrar dessas raízes familiares agora.
Ou esse saudosismo todo é só porque tem gente entrando na casa. Eu não sei, eu
quero entender. Tiago, seus tios têm razão.
Razão, mãe? Sim.
Deve ter coisa do Belmiro lá. Sim.
Sem contar que a gente não conhece essa gente, não sabemos o que eles querem,
não sabemos nada sobre esse povo. Gente, a menina...
A menina lá estava cheia de intimidade com o Arthur. Ela é daquele, sabe,
jovenzita, aquele tipinho bonitinha padrão, uma coisinha... Eu acho que ela
está se aproveitando do Arthur, eu acho mesmo. Sim, é claro, é golpe, golpe.
Ela não está decidindo. A gente vai falar com o Arthur. E seria muito bom
que vocês viessem também.
Bom, me deixem de fora dessa, tá? Eu não quero ir contra o meu tio porque eu
posso perder meu emprego na joalheria.
Tia, tia.
Com licença, eu vou dormir, tá? Boa noite. Com licença, mãe. Eu vou me
deitar, eu tô cansado. O que é isso?
Ô, menino.
Eu vou.
Tenho que defender qualquer coisa que possa ser herança do meu filho.
E o Belmiro também ficaria muito decepcionado se eu ficasse em silêncio
diante de um absurdo desses.
Sim, dessa.
Sim.
Mesmo.
Saúde.
Saúde. Os nossos direitos.
Vamos melhorar aqui, relaxa o ombro. Isso, vamos tentar esticar o joelho. Não
dá, não dá. Um pouquinho mais.
Joga lá atrás o quadril. Está indo muito bem.
Volta, levanta o tronco, olha para mim.
Respira, termina de desenrolar a coluna aqui em cima.
A coluna termina na cabeça. Muito bom!
Vamos para o último, hein?
Esse aqui é desafio, tá? Quero ver.
Me dá aqui seus braços, eu vou te segurar.
Você traz o pé aqui em cima da bola, um pé só.
Isso, isso, isso.
Excelente. Olha pra mim, olha pra mim.
Olhos nos olhos. Isso, respira. Baixa o ombro. Muito melhor.
Agora solta esse braço daqui, ó. Vai soltando, vai soltando. Vem, vem.
Muito bom!
Agora quero ver o esquerdo. Vem, vem. Vem tirando, vem tirando.
Excelente, Arthur!
Aí sim!
Esse já veio um aluno. Olha pra mim, olhos nos olhos, equilíbrio.
Por hoje é só. Eu tô tão satisfeita. E você tá de parabéns, tá?
Você arrasou, Arthur.
Nossa, eu tô tão... Eu tô, assim, realizada, empolgada. Você fez tudo.
Você tá tirando onda. E vou te falar, você quase não reclamou, hein? Vamos
tomar aqui um suquinho pra hidratar.
Cuidar de você e da sua família tá me fazendo é um bem enorme.
Eu tô me sentindo ótimo.
Eu sei como é que é, sabia?
Porque eu também, assim, quando eu ajudo alguém, ou quando... Ah, sei lá, a gente
faz alguma coisa pelo outro, né? Me dá, assim, um gás, uma energia.
E como foi na casa nova?
As pessoas gostaram?
Ah, as pessoas gostaram, Arthur.
Nossa, eu não tenho ideia da minha família dormindo naquele conforto,
naquela casa linda.
Foi maravilhoso, eles estão muito felizes, muito mesmo.
Eita, que reflexo bom. Eu gostei, hein?
Muito bom.
Você falou que ontem teve um contratempo. Você ficou de contar. O que
foi? Sim, eu queria até falar com o senhor com calma. Desculpe interromper.
Oi, Eduardo. Tudo bom, Adriana? E você?
Mas é que tem umas pessoas querendo falar com o senhor. Acho que o senhor
não vai gostar.
Não pode fazer nada com a gente.
Bom dia. Bom dia. Bom dia. Olha, quem tá aqui?
Há sem teto que o Arthur enfiou dentro de casa achando que é Noé?
Mas é o que? É de ouro isso? Não, ele recebeu massagem. Quem? O boi? O
molinho. O boi? O que a gente faz? O boi é o que?
O que foi, Dina? Que cara é essa? Que foi que o doutor Arthur deve ter brigado
com a Adriana. Eu aposto. E essa briga vai ser forte, porque a dona Pilar
acabou de chegar com o Silvana e o doutor Ulisses.
E tira a tropa toda. A tropa toda. E você sabe, quando a tropa toda chega...
Nossa, quando eles se juntam, é barato.
Olha a fofoca, olha a fofoca.
Ela não aguenta, ela não se espanta.
Eu queria ser um mosquitinho pra escutar esse barraco. Não, mas vamos corrigir
aqui que rico não faz barraco, tá? Rico discute. Ah, você jura?
Antes de mais nada, eu não permito que você se refira aos meus funcionários
dessa maneira.
E além disso, eu não me lembro de ter convocado nenhuma reunião familiar pra
vocês aparecerem aqui em comitiva.
Se a gente veio assim sem avisar é porque o assunto é urgente.
É funcionária, menininha?
É? Qual é teu cargo, hein, meu bem?
Cuidadora? Ou...
Exploradora de idosos. Seria mais conveniente. Sou fisioterapeuta.
Não que eu te deva satisfações, Pilar, mas sim, a Adriana é a minha nova
fisioterapeuta.
Afinal de contas, o que vocês querem de mim?
Por que essa implicância com a moça? Eu não estou entendendo. Alguém pode me
explicar? Silvana!
A Pilar me procurou. A mim e a Ulisses.
E fez uma denúncia muito grave.
Essa moça e a família dela estão ocupando a antiga casa da família
Brandão. A casa em que a gente cresceu, meu irmão. Onde fomos criados.
Mãe da mamãe. Isso eu tô sabendo. Fui eu que emprestei. Eles são meus hóspedes.
Ah, que bonito isso, né?
Vira e mexe, você acusa a sua família de ser sanguessuga. Nós.
Nós, meu irmão. Nós que somos... Somos sangue do seu sangue. Se bem...
Se bem que a Silvana, apesar de ser cunhada, ela está aqui representando o
filho dela, que é seu sobrinho. Dá licença.
E aí, na hora de você...
fazer várias mordomias pra uma família totalmente estranha, isso aí não te
incomoda em nada, você tá bem? Eles são estranhos pra você, não pra mim.
Que coisa curiosa.
Nenhum deles me botou na justiça dizendo que eu não tenho condições de gerir a
minha vida. Foi você quem fez isso? Arthur, olha, nós já discutimos isso.
Eu já disse que acho errado o que a Pilar tá fazendo.
Sai de cima do mundo! Deixa eu terminar.
Mas olha, Arthur, colocar gente estranha dentro da nossa casa, você começa a dar
razão. pras ações da Pilar.
Arthur, dentro da casa existem móveis, objetos, provavelmente até obras de
arte, que pertencem aos herdeiros, inclusive o meu filho, Tiago.
Nós estamos temerosos por esse acervo. A senhora me desculpa, só pra entender,
você tá sugerindo que eu e minha família a gente pode vender as coisas da casa, é
isso? A gente não falou isso, não, não.
A gente não falou.
Quem tá falando é você, hein? O pilantra. É muito covarde, né? É, você
é. Acusando uma pessoa honesta como eu, como a minha família. Você não me
conhece. Não te conheço, esse é o problema.
Tu afincha, tá melhor.
Me ajuda.
Me ajuda.
Garota, você é uma aproveitadora. Tá colando no velhote aí. Eu vou te mostrar
quem é o velhote.
Essa menina mexeu com a tua cabeça?
Você não devia ter feito isso. Pode machucar seu ombro, dar uma distensão.
Você podia ter matado ele. Nosso irmão, nosso irmão. Meu amor, você podia ter
matado ele. Se pegar minha cabeça, me matava. Para de ser dramático. Agora,
todo mundo, fora daqui. Fora, fora da minha casa. Por favor.
Chama o segurança. Não, não, não. Ninguém vai chamar nada aqui. Eu quero
ir embora desse circo de horrores.
Escuta.
Escuta por nós.
Escuta.
Essa história não acabou aqui, meu irmão.
Eu... Eu vou te vencer no tribunal, meu irmão.
Você tá tão demente, tão... E aí eu vou expulsar essa gentinha que tá na casa
que foi da nossa família. Aponta a peça. Eu vou... Dá licença.
Por favor.
Eu não aguento mais.
Se eu desconfiar...
Que o meu filho tá sendo prejudicado.
Eu vou ter que tomar partido da Pilar.
O que que foi isso?
Arthur. Hã?
Meu Deus.
E quando perde a linha, desce a ladeira, né?
Meu senhor, faz um favor pra mim. Sou muito sedutor.
Pode me arrumar um copinho d'água da casa mesmo, aí da torneira, só pra eu.
Por favor.
Otoniel?
Rapaz, eleias?
Que que é isso? Meu camarada, quanto tempo, meu amigo. Mas põe tempo nisso.
Como é que você tá? E aí, como é que tá a vida?
Tocando, né?
Tocando. As coisas não tão fáceis, não.
Nós perdemos a nossa casa nessa última enchente aí.
Meu Deus do céu, não me diga uma coisa dessa.
Digo sim, rapaz.
Foguete, rapaz, foguete.
Tô aí, né? Tô agora andando, parei, tentando encontrar um lugar pra
trabalhar, porque eu só arrumo alguma coisa pra complementar a minha
aposentadoria, porque temos que reconstruir a vida. Dá pra você
entender, né?
Mas não tá fácil, não.
Fácil é que não tá na minha idade, então, e isso aí complica.
Nesse país, ninguém valoriza a experiência de um camarada sem ter
interesse. Chegou nessa idade, pum, acabou.
Meu amigo, depois você dá o seu dia de sorte.
Todo dia de sorte?
É o seguinte, eu trabalho numa banca de flores, ali em frente ao cemitério. Sei.
E tô precisando de alguém pro turno da noite.
Não tá de brincadeira comigo, não. Pera aí.
Tá falando sério?
Escuta.
Você vê?
Ó, Deus escreve sempre do jeitinho que tem que ser.
Porque tinha que a gente se encontrar hoje, tá vendo?
Vem cá, dá uma olhada.
Só a notícia.
Tá falando sério, né? Eu tô falando sério.
Passa lá.
Se tiver disposição, emprega seu.
Disposição?
Disposição é o meu nome.
Ó, rapaz, muito obrigado. Vem cá.
Meu amigo.
Rapaz.
Depois disso tudo, nada melhor do que um chazinho de camomila pra acalmar. E eu
trouxe também um bolinho, porque um pouco de açúcar sempre é bom.
Eu aceito, hein?
Quer o chazinho também?
Eu quero só o bolinho, por favor. Só o bolinho. Calma, chazinho aqui.
Adriana. Muito obrigada, de volta.
De nada.
Eu nunca vi uma família tão desunida quanto essa.
Porque você nunca viu uma família tão obcecada por dinheiro.
O meu dinheiro.
Agora, se eu me dar licença, né, Sr. Arthur, mas o seu irmão falou que ia
ganhar do senhor no tribunal.
O que ela quis dizer com isso?
Eu levantei toda a ficha da empregadinha metida fisioterapeuta. Ótimo, fala pra
gente. Desabrigada.
Perdeu tudo naquela enchente.
Agora o Arthur, ele deve estar achando que ele é o Noé, né? Porque enfiou todo
mundo dentro da nossa casa. Tem o pai, a mãe, o irmão, acho também, cachorro,
gato, pulga, deve estar tudo lá. Coelho.
Ah, o marido. O marido dela morreu, morreu na enchente, afogado. Ele foi
arrastado pela... Quanta desgraça, né?
Isso é polícia. Vai sentir pena? Pena enfraquece a gente? Já falei pra você
não ficar sentindo pena das pessoas. Quem te garante que não foi ela que
empurrou o marido correnteza abaixo, hein?
Você tem certeza de tudo isso que você tá falando, Pilar?
Eu tenho certeza. Nasci assim, pronta e com certeza. Você tá duvidando, hein?
Conta.
Conta a fonte, Dinah. Essa tal de Adriana é muito amiga da filha da Rosa,
nossa cozinheira, né? Eu tô sabendo dessa história, viu? É tudo verdade.
Ah, ok, ok, ok. Mas o que a gente faz agora?
Eu acho que agora a gente tem que tomar uma atitude... Pelo visto, essa
moça tá vendo o irmão de vocês como um tábua de salvação.
É, claro, mas é ela que vai se encostar na tábua de Moisés, né? Porque do
Arthur eu tenho certeza que ela só quer dinheiro.
Pega o café, por favor. Agora, eu...
Eu já sei o que eu vou fazer.
Nós recebemos uma denúncia de invasão a domicílio. Essa casa aqui pertence à
família Brandão, não é? Sim, foi o próprio Arthur Brandão que autorizou a
gente a ficar aqui. Você viu a polícia levando a minha mãe e o meu avô presos?
E aí, Mita, vamos nessa? Você vai com a gente?
Claro que eu vou.
Não perco essa consulta por nada desse... Ah, meu Deus. O que foi?
O que foi, mãe? Não sei, acho que eu levantei. Pega uma água.
Meu Deus do céu.
Ah, não, cara.
Hã?
Ah, não.
Nossa, eu vim aqui visitar meu irmão e encontrei hoje uma pessoa na minha vida
que eu queria encontrar.
Que é você.
A polícia bateu lá na antiga casa dos seus pais e colocou todo mundo pra fora
à força.
Como é que é?
Tá todo mundo na delegacia.
O cuidado não é dar aquilo que eu imagino que o outro precisa, mas é
aquilo que o outro realmente deseja.
É um afeto que tá relacionado ao amor. Tem gente que ama que não cuida.
Tem gente que não ama e cuida. Então é muito importante uma certa boa medida.
Não dá mais do que se pode e nem dá menos também.
Uma coisa que pode ser interessante no futuro, quando a gente tiver mais
equidade, um homem e uma mulher, nessa relação, se esse casal tem um filho, que
as horas de cuidado do pai e da mãe sejam equânimes. Que a mãe não tenha
sobrecarga emocional.
Quem ama, aprende. Quem ama,
Lá vem o sol Para derreter as
nuvens negras Para iluminar o fim do túnel E a luz do céu
Para inspirar os seus desejos Para fazer você encher o
peito e cantar
O bafo
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