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Original subtitles

Estou aparecendo?

Como assim?

O quadro não está ocupando tudo?

Ainda dá pra te ver.

- Não se preocupe. - Tá bom.

Está ótimo.

- Mesmo? - Sim.

Pode começar a coreografia.

- Muito bom, né? - Ótimo.

Quer ver?

Solta o playback, por favor.

O vestido é belíssimo.

As cores dessa coleção são incríveis!

E a maquiagem está ótima.

Pena que o amarelo do vestido choca com a pintura.

Posso mudar a cor do vestido.

Não pode mudar a cor do vestido.

É uma colaboração.

É só mudar a cor do quadro.

Ótima ideia!

Está bem.

- Ótimo. - Perfeito.

AS CORES DO TEMPO

Obrigado a todos por terem vindo.

Esse encontro vem sendo planejado há muito tempo

com a genealogista Maryline Ménard

e minha colega Jocelyne Jean-Baptiste.

Como sabem, todos vocês são descendentes

de uma mulher nascida em 1873, Adèle Meunier,

nascida Vermillard.

Maryline conduziu uma investigação de dois anos

e desvendou os laços familiares de vocês.

Vou te passar a palavra.

Obrigada.

Adèle Meunier teve três filhos,

dos quais vocês descendem,

divididos em três ramos distintos.

Por favor.

Aqui podem ver toda a árvore genealógica de vocês.

E agora vamos mostrar...

Os que já morreram estão indicados em cinza.

E os que estão coloridos,

são todos os familiares vivos de vocês,

que talvez estejam aqui.

Fizemos essa pesquisa

porque a prefeitura quer comprar a casa e o terreno de Adèle Meunier.

Então passo a palavra ao Sr. Duquesne,

responsável pelo Departamento de Atividade Econômica.

Mais especificamente…

Queremos ampliar o shopping existente

e transformá-lo em um polo europeu atraente.

Teremos um estacionamento com três mil vagas.

E até…

um estacionamento ecológico,

no terreno onde hoje está

a casa da família de vocês.

Ao que tudo indica,

a casa está fechada desde 1944.

Ela só pode ser aberta na presença dos herdeiros.

Vocês devem escolher quatro representantes

para abrir a casa hoje, com as autoridades competentes.

- Você deveria ir. - Não.

- Sim, você tem que ir. - Não.

Obrigado.

Obrigada.

Obrigada.

Obrigado.

- Obrigada. - De nada.

Vocês nos autorizam a abrir a porta?

Sim, vá em frente.

Incrível!

Todas essas fotos...

Não é?

Sim.

É toda a história da família de vocês.

Que quadro é esse?

Não sei.

É muito bonito.

E eu não faço ideia do que seja.

É muito emocionante.

Pensar que somos descendentes de todas essas pessoas.

É.

Eu estava olhando...

Essa mulher...

Acho que ela pode ser minha avó.

E, se entendi bem,

essa é a Adèle Meunier que você mencionou, certo?

Sim, pode ser a Adèle Meunier.

Porque ela teve três filhos.

- Ophélie… - Minha bisavó!

François, e o bebê seria Louis.

Sua bisavó? Então somos parentes bem distantes.

Ophélie era irmã do meu bisavô Louis.

Sua avó é a que foi para a Argélia?

- Não, foi minha mãe. - Sua mãe!

Minha mãe disse que a tia-avó dela se apaixonou por um argelino.

Isso mesmo! Ela teve dois filhos com o primeiro marido,

depois foi para a Argélia e conheceu meu pai, Mohamed.

Eu sou fruto desta união.

Certo.

Isso explica tudo.

Você está bem?

Sim, desculpe...

Ontem participei de uma filmagem de quinze horas, então…

Preciso descansar um pouco.

Olha só, um calendário de 1944.

Os dias estão riscados até 4 de setembro.

Eles podem ter sido vítimas dos bombardeios de Le Havre.

A cidade inteira foi destruída em dois dias.

E bem nessa época…

Gaspard!

Gaspard!

Adèle!

Está indo embora?

Sim.

Por que não disse que era hoje?

Eu sabia que seria difícil para você, mas…

é difícil para mim também.

Te contar cedo demais teria sido pior.

- Tive medo de você me pedir pra ficar. - Fica!

Não pode simplesmente ir embora.

Sim, eu posso.

Quero ir para Paris, Gaspard.

Preciso saber quem é a minha mãe.

É perigoso ir a Paris. Sozinha...

Eu vou te escrever.

Você não sabe escrever, Adèle.

Eu vou… dar um jeito. Vou encontrar alguém.

Assim você lembra de mim.

Isso nem vai sobreviver à viagem.

Aqui.

Não fique chateado comigo.

Não tenho mais família aqui, e sinto como se…

Nunca vou crescer, se não souber quem é a minha mãe.

Você confia em mim?

É claro que sim.

Seb...

Tudo bem?

Sim.

Temos que ir. Vou esperar ali.

Já vou.

Que tal a gente se apresentar?

"Se apresentar"?

Sei lá, falar do que a gente faz,

de onde vem, o que quer.

Somos família, mas nem nos conhecemos.

Verdade.

Você, por exemplo. O que você faz, Seb?

Sou criador de conteúdos digital.

"Tais".

"Tais"?

"Digitais."

Certo, "tais". Conteúdos digitais.

Sabemos que você não criou apenas um.

E você?

Sou engenheira na área de transportes.

Tenho um mestrado em Prospectiva, Inovação e Disrupção.

Hoje trabalho em projetos disruptivos voltados à inovação ferroviária.

Disruptivos? Como assim?

Há duas maneiras de olhar para o futuro.

Como uma continuação lógica do presente,

ou integrando a noção de ruptura.

Certo.

E de que lado você está?

Sou totalmente a favor das rupturas!

Rupturas tecnológicas, digo.

"Tecnológicas" porque você acabou de romper com alguém?

Sim...

Bem...

Não. Quer dizer, é complicado.

Nem vou te perguntar.

Está na cara que você é professor de francês.

Com certeza. No ensino fundamental.

Hoje em dia, um professor,

também tem que atuar como gestor de comunidade.

Passo a vida no WhatsApp.

Com pais, alunos, outros professores. É um pesadelo.

O governo suga você até a última gota.

A Educação Nacional vive trocando de ministros!

Está cada vez pior.

Ao mesmo tempo, não posso reclamar.

Amo o meu trabalho.

E eu trabalho com alunos, não com ministros.

Então, pra mim, não muda muita coisa.

Já que ninguém perguntou...

Sou apicultor.

Apicultor?

Isso é bom. Digo, são úteis!

"Apicultor" simplifica demais.

Claro, eu faço mel, cuido das abelhas.

Mas, acima de tudo, sou ativista na SFA.

- SFA? - Sindicato Francês dos Apicultores.

Atuamos na luta contra o grande capital,

transgênicos, pesticidas, tudo isso.

Se isso continuar, as abelhas vão desaparecer da Terra.

Desculpa, minha namorada acabou de voltar de Dubai.

- Alô? - O que é incrível nas abelhas...

Seb! Onde você está?

No trem.

Todo mundo vai pra balada hoje!

Pra celebrar o início da semana de moda. Topa?

- Com certeza! - Legal!

Vai ser demais! Tô superanimada! Te amo…

As abelhas se comunicam indicando direção e distância em relação ao sol.

É bem específico, mas é bonito de ver.

Elas vibram as asas assim.

E só pelo movimento das asas…

Hoje tudo acontece rápido demais, não é?

Vocês jovens vivem sempre com pressa demais.

É verdade.

"Vamos fazer isso, vamos fazer aquilo."

Pra vocês, jovens,

não é como antes.

Quando gostávamos de dizer as coisas.

Só pelo prazer de trocar gentilezas.

Eu não sei...

"Olá, senhora, como vão suas ovelhas?"

"Estão bem, senhor. E o senhor?"

Senhoras e senhores, lembramos que é proibido fumar nas dependências da estação.

Talvez seja melhor dividir as tarefas pra deixar os primos a par.

Eu poderia ligar para o construtor.

Acho ele suspeito. Não diz o valor e é muito insistente.

Concordo. E vou investigar o quadro.

A gente tem certeza de que precisa vender a casa?

Não precisamos, mas…

Dividir em trinta partes vai ser complicado.

- Preciso ir. - Até logo.

Tchau.

Porto de escala.

Estamos chegando ao porto de escala.

Olá.

Olá.

- Indo para Paris? - Sim.

- Já esteve lá? - Não.

Nós também não.

Somos de Le Havre. E você?

Sou de Saint-Jouin-Bruneval.

Não é longe da gente!

Sou Lucien.

Ele é Anatole.

Vamos trabalhar em Paris.

O que você vai fazer?

Vou encontrar minha mãe.

Fui criada pela minha avó.

E ela acabou de falecer.

Então decidi procurar minha mãe em Paris.

Pelo menos para avisá-la.

Faz quanto tempo que você não vê sua mãe?

Vinte anos.

Você não disse que tinha vinte e um anos?

Sim, tenho vinte e um.

- Anatole é pintor. - Pintura.

E eu sou fotógrafo.

Só porque o Lucien não sabe desenhar.

De jeito nenhum! Eu desenho muito bem.

Ah, tá bom.

Ele diz isso porque é pintor.

Ele não percebe que a pintura é uma arte em extinção.

- A pintura está em extinção? - Claro!

Vai ser inútil.

Inútil!

Você acha mesmo que a pintura vai desaparecer?

Todo mundo sabe disso.

Pintura é pra quem trabalha duro.

A fotografia é pra preguiçosos!

Não pode dizer isso.

Por que vocês querem deixar Le Havre?

Agora tudo acontece em Paris.

O tio do Lucien conhece todo mundo lá.

Meu tio é alguém importante.

- Ele garante trabalho pra gente. - Quase certeza.

Quase certeza?

Já falamos sobre isso.

Você não o vê há anos.

Ele é meu tio!

- Mas faz anos. - Mas ele é meu tio.

- Mas você não o vê há anos. - E daí?

Ele vai lembrar de mim.

Eu nem conheço ele. Ele não vai me dar trabalho.

Vamos apostar? Ele vai arrumar trabalho pra nós dois.

- Tá bom. - As bebidas são por sua conta!

Um fotógrafo de verdade! Um bêbado preguiçoso.

Conversa fiada!

Valentina, como sempre, está perfeito.

Maïmouna, grande progresso!

Obrigada.

Malone, não sei o que dizer ou fazer.

O quê?

- "Num sei quem é Jean Valjean"? - Num sei mesmo.

"Não sei."

Foi isso que eu disse. Eu também não!

Me dá uma ideia do valor.

Não faço ideia de quem você é.

Eu represento os trinta detentores dos direitos.

E me parece perfeitamente razoável ter uma ideia geral do valor da transação.

Entende o que quero dizer?

É razoável? Mas eu não te conheço!

Certo. Bem, escute...

podemos decidir não vender a casa nem o terreno.

Babaca!

- Está tudo bem? - Sim.

- Conseguiu me ouvir? - Um pouco.

Céline, está tudo bem?

Que babaca!

Como se por ser mulher, não pudéssemos falar de dinheiro.

Que loucura.

Ela parece meio esnobe.

Não, ela é gente boa. É a Céline.

Ela é a Sra. Negócios. O cérebro dela é uma planilha do Excel.

Um pouco metida. Legal, mas metida.

Ou metida, mas legal.

Olha todas essas fotos!

Role para baixo e você vai ver a casa.

- Linda, não? - É incrível!

- Sabe o que eles querem fazer? - Não.

- Querem construir um supermercado! - Não!

Com estacionamento. É um absurdo!

Outra obra-prima europeia de merda!

Além disso, o prefeito acha que somos trouxas.

Com essa palhaçada de "painel solar super ecológico".

Eles realmente acham que somos idiotas!

Sabe, Guy,

a mãe está muito orgulhosa do que você faz pela família.

O prazer é meu.

Estou aprendendo tanto sobre todos nós.

- Olha, estão todas trabalhando. - É.

Senti saudades de vocês.

Minhas belezinhas!

Sentiram falta de mim?

Concordo totalmente! Não vá mais a Roubion.

Eles pulverizam Roundup lá!

Adèle...

Adèle!

Acorda.

- Vem comigo. - Por quê?

Vem!

A gente vai ficar num bistrô em Montmartre. Le Rat Mort.

Dizem que todo mundo conhece.

Se você precisar, é só falar…

Ele tem razão. Ou até…

Não, é gentil, mas é pouco provável que…

Circulando. Bem-vindos a Paris!

Louis, a bagagem!

Bem...

adeus.

Adeus.

Então… sabe chegar lá?

Abdel!

Como você está?

Você não mudou nada.

Sabia que você ia falar isso.

É claro que eu mudei.

Não posso me restaurar como restauram pinturas aqui.

Vamos lá! Sabia que te encontraria no Courbet!

Você conhece meu amor por Charles Baudelaire.

Vamos sentar-nos ali?

E aí, como você tá?

Prestes a me aposentar.

Já?

Calculei que, em quarenta anos, tive cerca de cinco mil alunos.

E nunca vou saber se passei algo adiante.

Sem dúvida. Posso garantir que você me ensinou muito.

Meu amor pela história da arte vem todo de você.

- Sim. - Claro.

Não sei.

De todo jeito, foi o que eu fiz.

- Como estão suas filhas? - Bem.

Dá pra acreditar que elas já estão nos trinta?

Mas quase não as vejo mais.

E o seu filho?

Ele está bem. Agora mora em Lyon.

Então estou sozinha.

Enfim, isso me dá tempo pra escrever meu livro.

Está escrevendo um livro?

Sobre como entender as grandes obras-primas.

Levar o tempo necessário, ser seletivo,

o olhar solitário diante da tela.

Por que sou atraído por isto e não por aquilo?

Ah, o tempo voa.

Me mostra aquele quadro que você mencionou.

Aqui está.

Certamente parece impressionista.

Havia poucas cópias antes da guerra.

Nossa melhor opção seria mostrar o original à Dounia,

uma amiga próxima, que é curadora no museu de Le Havre.

- Le Havre? - Sim.

Podemos ir juntos. Eu adoraria.

Acrescentei um emoji de beijo.

Você sabe muito bem que enviar um...

O que foi, vô?

Estou interrompendo?

Sim, o que foi?

- Vai almoçar aqui? - Já tô indo.

Certo, certo.

Feche a porta, por favor.

Enviar corações não faz sentido quando estamos separados.

Faz sim. Pra mim, emojis de coração fazem todo sentido.

Eu nunca te vejo.

Aí você me dá um bolo e me manda corações?

Sim, para mim é importante.

Pra mim, isso já está virando um saco.

As coisas não estão bem com a Leslie?

Você viu aquela cantora que apareceu aqui esses dias?

- Por que pergunta isso? - Por nada.

Você parecia gostar dela, só isso.

Que bobagem!

Nada disso.

É bobagem sim.

Quem gosta dela é você.

Gosto mesmo.

Além disso, ela canta bem.

O que foi?

Nada, só estava pensando…

Você mora com seu avô?

Sim, moro na casa dele.

Isso te choca?

De jeito nenhum. Só achei engraçado ver vocês juntos.

Eu entendo. Ele praticamente me criou, então…

Tenho dificuldade de deixá-lo sozinho.

Sabe?

Entendo. Além disso, ele parece legal.

- Ele é legal. - Não é?

Sim, ele é legal.

Vamos até lá.

- Lá? - Sim.

Vá em frente.

Vai.

De novo.

De novo.

Agora, levante os braços bem devagar.

Bem devagar. Perfeito.

Ótimo. Um pouco mais.

Bem devagar.

De novo. Isso, perfeito.

Na seta, comece a girar.

Pare.

Um pouco mais.

De novo.

De novo.

Continue.

De novo.

Perfeito. E...

Continue avançando.

Tem certeza disso?

Sim, vai ficar ótimo.

Levante os braços.

Isso, perfeito.

Não estou aparecendo demais?

Só você já funciona.

Mas queria um pouco de Paris com você.

É você e Paris, digamos assim.

Não fica muito clichê? Muito "Paris antiga"?

Paris é Paris. É velha, é clichê, mas...

E com você aí, fica menos clichê.

Você "desclicheza" tudo

Eu "desclichezo"... Então vamos lá?

Quando quiser.

Se a noite está à escuta

Se o passado

Murmura outras vidas

Algo me impele

A te procurar

Nas ruas da cidade

Seu rosto surgiu na noite

Eu sei seu nome, sei sua idade

Esperei

Eras por você

Como se eu tivesse

Que me perder

Para dar sentido

A este amor

- Sim? - É o escritório do senhor Gosset?

Sim, entre por favor.

Obrigada.

Odette Vermillard me contratou há vinte anos pra mandar cem francos todo mês.

Seu endereço é tudo o que tenho para encontrar minha mãe.

Ela mesma vem me trazer o dinheiro todo início de mês.

Mas você...

Você nunca a viu?

Não, nunca.

Bem...

Você não tem sequer o endereço dela?

Não, não tenho. Eu esperava que você tivesse.

Não tenho.

Eu só sei onde ela trabalha.

Ah, é?

Sim?

É aqui...

é aqui que Odette Vermillard trabalha?

Sim, sim.

Deixe suas coisas aqui.

Por aqui.

- Espere aqui. - Obrigada.

- Não. - Sim, sim, sim!

...ele já me disse isso três vezes...

Bem, talvez, mas é normal porque são cinco gatinhos!

Ela gostaria de falar com Odette.

Você quer ver a Odette?

Para...

Eu só queria conversar com ela.

Venha.

Venha!

Pode esperar aqui?

Sim.

Olá.

Olá.

Olá.

A Madame Yvonne disse que você queria me ver.

Sim.

Onde está a Odette?

- O coronel? - Sim.

Vamos. Tenho um cliente. Não posso deixá-lo esperando.

Pode falar. Por que quis me ver?

O Sr. Gosset...

disse que eu te encontraria aqui.

Adèle?

Sim, madame.

Pode nos deixar a sós?

Não me chame de senhora, está bem?

Sou sua mãe. Pode me chamar de "mamãe".

Se você quiser…

Fui ver o Sr. Gosset.

Ele foi quem disse que eu podia vir…

ao seu local de...

Então eu vim.

Por que a senhora não foi?

Me chame de mamãe.

Por que nunca foi me ver?

Onde está a minha putinha?

Era justamente isso que não queria que você visse.

Não queria que você soubesse.

Odette, o que está havendo? Vamos!

Eu já vou.

Espere por mim.

Eu já volto.

Vou dar um jeito.

Aí está você.

Finalmente.

Sinto muito, coronel. Hoje não posso.

- Sério? - Sinto muito.

Como assim?

Não deixe o coronel esperando.

- Tenho hora marcada. - Sim, sabemos, coronel.

Adèle!

Se a noite está à escuta

Se o passado

Murmura outras vidas

Algo me impele

A te procurar

Nas ruas da cidade

Seu rosto surgiu na noite

A reunião de família começou!

- Já vou! - Você vem?

Sim!

Anda logo!

Você vai perder tudo!

...para fazer esta pintura.

Vamos apresentar a pintura ao museu em Le Havre.

Meu amigo do Musée d'Orsay concorda que é impressionista.

Falei com o responsável regional da empresa

para ter uma ideia do valor da casa.

Mas, curiosamente, ele não diz.

De coração, acho que

vender a casa da família para virar um supermercado me dói demais.

Esse é o Guy.

É esse o nosso futuro? Um mar de concreto?

É isso que queremos deixar para nossos filhos?

Estacionamentos?

Estou sempre dirigindo. Estacionamentos são práticos.

Senhor, o filtro está com problema.

Eu sei. Já tentei arrumar, mas não dá.

Acho que foi minha neta.

Vá em "Configurações".

Já fui. Aparece "cat room". É por isso?

Não, é "chat room". Nada a ver.

Vá em "Filtros e Preferências".

Não é o estacionamento que choca, são os métodos deles.

Eu concordo.

Temos que voltar para a Normandia.

Para investigar o quadro e tudo o mais.

Meu neto me disse que há muitos pertences da família lá.

Precisamos fazer o inventário de tudo isso.

Se a pintura for valiosa, pode haver outras coisas.

Se der pra ganhar uma grana, manda ver!

Também havia fotos antigas?

- Saiu? - Finalmente!

Fotos antigas são um saco. E geralmente não valem nada.

Acho que dois ou três dias lá seriam o ideal.

O que vocês acham, primos?

Vô, viajar por três dias… Não posso.

Estou atolado de trabalho.

Tenho uma filmagem, edições pra terminar…

Como assim? Filmagens, "Amstagram" não são prioridades.

Preciso atender essa.

O quê?

É a cantora?

Cai fora!

É um bom sinal.

- Estou te atrapalhando? - De forma alguma!

Você deu uma olhada?

Sim, vi sua edição

e está linda. Fiquei impressionada.

Legal!

Não é nada demais. É só um corte bruto…

para te dar uma ideia.

É muito diferente das coisas que você me mostrou.

- Eu não estava convencida. - Certo.

Faço muitos trabalhos só pelo dinheiro.

E agora eu sinto que preciso ir pra outro lugar.

E trabalhar com você ajuda muito, porque…

Eu amo tanto a sua música, ela me inspira.

Se eu te inspiro, isso é ótimo.

Então o Sena não é clichê demais?

Não, de forma alguma.

É simples e lindo. É Paris!

Sim, cool. Ok, legal.

Três dias na Normandia. Não é nada demais!

Afinal, é a história da nossa família toda.

Pode até ser interessante.

- Com licença… - Um minuto!

- Georgette! Comprei um cavalo. - Não?

Nanar! Você sabia disso? O Etienne comprou um cavalo.

O quê?

Você sabia do cavalo do Étienne?

Ele não tem nenhum cavalo.

Não tinha, mas agora tem.

Sim?

Olá, senhora. Estou procurando dois garotos,

Anatole e Lucien.

Disseram que estavam hospedados num quarto no andar de cima. Sabe…

Dois garotos da Normandia?

Vi eles saírem, mas não voltaram.

Sente-se. Eles vão voltar.

Obrigada, senhora.

Querido, quando você bebe fica meio bruto

Quando você bebe demais se mete em encrenca

Se você for parar na cadeia por causa de uma briga

Ninguém vai vir me ver

Em Saint-Lazare

Vou encerrar a carta com um beijo

Adieu, mon amour.

Você não é muito carinhoso

Mas eu te adoro

Como eu adorava o bom Deus, como meu pai

Quando eu era pequena...

Ela é tão bonita E tão gentil

- Nós gostamos dela. - Quem?

- Nini peau d'chien - Onde?

Na Bastilha!

O RATO MORTO

- Bom dia. - Bom dia.

Bom dia.

Adèle!

- Ela veio ontem à noite? - Sim, procurando vocês.

Por que você não a mandou subir?

Não quis acordar a pobrezinha.

Você está bem?

Então o que aconteceu?

- O que aconteceu? - Encontrou a sua mãe?

Sim.

Não ficou com ela?

Não… ela não pôde me acolher.

Nós podemos.

Claro que podemos.

Sério? Não se importariam?

Por que não perguntar aos mendigos se estão com fome?

Nada a ver.

Não é o que você está pensando.

Deixe-os em paz, ainda é cedo!

Em vez de ficar à toa, igual ao Nanar, me ajudem com o almoço.

Não vou cobrar nada dela, mas podem me ajudar.

Preciso de batatas,

leite e manteiga.

Farinha também.

Onde a gente vai?

No Titi’s, em Barbès. É aqui perto.

Aqui está.

É por ali, pelo campo.

- Por essa porta? - Sim.

Deve ser aqui, não?

Deixem os baldes aí.

Vou pegar as batatas.

E vocês podem pegar o leite.

Naquele celeiro.

Não tem leite aqui.

O que a gente faz? Espera?

- Ele falou pra gente se virar. - Mas onde?

Ali atrás.

Aonde?

Ah, certo.

É por aqui?

Não sei.

Com licença, como chego à rua Caulaincourt?

É por ali. Depois da horta, à esquerda.

Sabe, na França

não existe nenhuma floresta primitiva.

Como assim?

Quer dizer que tudo foi plantado pelo homem.

Tudo o que veem aqui foi plantado pelo homem.

Exatamente.

É difícil dizer o que é natureza.

Isso é verdade.

Senhoras e senhores, autorizam a abertura oficial da porta?

O que faremos exatamente?

Vamos fazer isso com método.

Cada um escolhe um cômodo e faz uma lista do que tem nele.

Registrem tudo em seus smartphones.

Tenho um celular, mas ele não é muito "smart".

Isso é incrível!

É riqueza demais!

Tem tanta coisa aqui!

Vou fazer a lista, mas vai demorar!

Pode deixar aí.

Aí está.

Agora temos mais uma.

Podemos pendurar um lençol,

para você ficar mais à vontade.

Nada mal.

Anatole, vem cá.

- Por quê? - Vem cá.

- Quem é? - Não sei.

Você acredita mesmo no que disse sobre pintura?

O que eu disse?

Que ela não vai mais existir por causa da fotografia.

Sim, é o que penso.

Por que as pessoas iriam querer continuar pintando?

Olha o Anatole. Ele sabe que a fotografia existe,

e mesmo assim ele não quer parar de pintar.

Isso é verdade.

Mas eu não entendo.

Esses são alguns dos meus esboços.

E os desenhos dele são lindos.

É claro que são.

Espera.

Olha isso.

É uma foto que eu tirei.

Veja os detalhes. As telhas do telhado,

os reflexos na água, as árvores…

É lindo.

Nenhum pintor conseguiria fazer isso.

É muito preciso.

- É doido isso, né? - Doido demais!

Quero dizer...

o fato de alguém ter inventado isso.

O conceito por trás da fotografia é bastante simples.

Tipo quando você descasca uma maçã.

Se você deixa metade da maçã no sol,

ela escurece.

Mas se a outra metade fica no escuro, ela não escurece.

Com a foto é a mesma coisa.

Você tem uma boa técnica. É exatamente o que eu preciso.

Vamos nos encontrar amanhã cedo

e te darei uma chance.

Então, até amanhã. Obrigado.

Obrigado.

Anatole...

Posso fazer uma pergunta?

Sim...

Será que eu...

- Tenho até medo de perguntar. - Pode falar.

Você sabe escrever, certo?

Claro.

Sinto muito a sua falta.

QUERIDO GASPARD, PENSO MUITO EM VOCÊ...

Você disse uma vez,

há muito tempo, que...

eu nasci para aprender a escrever.

Não sei se isso é verdade, mas...

agora percebo o quanto

eu adoraria poder fazer isso.

Eu vi a minha mãe...

Não sei bem o que devo fazer agora.

Pensei em voltar para a Normandia.

Mas sinto que há coisas

que preciso explorar aqui, em Paris.

Isso é tudo?

Adèle.

Consegui!

Vou pintar a fachada da padaria.

- Não! - Sim!

Incrível!

Meus parabéns!

Ele encomendou um afresco moderno. Uma alegoria da colheita.

Com pessoas trabalhando nos campos. Bem realista.

Numa técnica que eu nunca tinha ouvido falar.

Você vai aprender.

Aí você paga as suas refeições.

Gosto de artistas assim!

Parabéns!

Estou feliz por você.

Adèle...

Sim?

Preciso pegar meu caderno. Me avise quando puder abrir a cortina.

Sim.

Não vou demorar.

O que foi?

Nada.

Por que está me olhando assim?

Por nada.

Na verdade, é pro meu trabalho.

Sério?

Tenho que desenhar uma garota, mas no estúdio quase nunca fiz nus.

O que é isso?

Numa aula de desenho,

as pessoas posam nuas para você estudar o corpo humano.

- Você fez isso? - Sim.

Você já participou disso?

É preciso, para aprender a desenhar.

Mas não fiz muitos.

E as garotas concordam com isso?

Sim, muitas garotas fazem isso.

Certo, certo...

O que foi?

Você é esperto.

Por quê?

Já entendi onde você quer chegar.

Como assim?

Você quer que eu faça isso, né?

Fiquei pensando se você aceitaria…

posar para mim.

Ficar nua na sua frente?

A gente divide o mesmo quarto, então seria prático.

Está bem.

Você faria isso?

Se eu fizer isso...

você pode me ensinar a ler e escrever?

Sim.

Está tudo bem?

O que estão fazendo?

O que estão fazendo?

Acordando.

Um fotógrafo?

- Aqui está. - Obrigado.

E os outros dois?

Não faço a menor ideia. Disseram que já estão descendo.

E isso aqui

é uma Lancaster Instantograph.

É muito prática. Você pode levar para qualquer lugar.

Você sabe usar isso?

Claro, faço isso há anos.

Isso é incrível.

Posso fazer o retrato de vocês, se quiserem.

- Sim! - Sim, é claro.

Escolham o vestido mais bonito e…

um lugar legal.

A Rose tem muitos vestidos bonitos.

Por que disse isso?

- O quê? - Não tenho ideia.

Quando a Rose pega…

Não, Violette!

Não é nada.

Do que estão falando?

Quando ela pega um vestido bonito para lavar,

ela experimenta...

Ela vai aos lugares da moda!

Nunca fiz isso.

- Você rouba? - Não, nunca!

Talvez uma ou duas vezes.

Não pense que sou uma ladra!

Sou uma boa lavadeira. É verdade!

Você é sim.

Às vezes pego um vestido emprestado. Mas tenho muito cuidado.

E você devolve?

Claro que sim! Eu até lavo.

Me digam quando quiserem fazer isso.

Dobre um pouco o joelho.

Flexione um pouco mais o pé.

Ótimo. Vire-se para a janela.

Levanta um pouco mais a mão direita.

Levante o queixo.

Muito bem. Não se mexa.

Não me olhe assim.

Tenho que olhar para você. Estou te desenhando.

- Sim? - Não!

O quê?

- Fala? - O que houve?

Acho que achei algo valioso.

Sério?

Algo valioso?

- Vejam. - Aí dentro?

Vejam.

Isso é valioso?

Está cheio de fotos e cartas.

"Segunda-feira, treze de maio de 1895."

Querida, Adèle...

Aqui estamos...

mais de um mês

desde que você partiu.

"Eu quero te ver.

Tenho muito a dizer, mas vou esperar você voltar…"

"…para te contar tudo o que eu realmente gostaria de dizer."

Mas eu vou te dizer

quando estivermos a sós, quando você voltar.

Isso não faz sentido.

O que está tentando dizer?

Que eu gostaria de...

Que gostaria de dizer que...

que Marguerite deu à luz.

Aí está.

Agora ela ficará feliz.

"Também gostaria de dizer que Marguerite deu à luz,

e o bezerro passa bem."

"Nós o chamamos de Kitty,

porque lembro o quanto você gosta de gatos.

Espero que você esteja bem em Paris..."

e que...

que esteja tão bem quanto Kitty.

...que esteja tão bem quanto Kitty.

O tempo passa devagar sem você.

Isso é bonito.

Sim.

"Estamos todos ansiosos pela sua volta."

Até logo, Gaspard.

Gaspard.

- Até logo, Gaspard. - Gaspard.

"Gaspard."

"Gaspard."

Obrigada.

Então são boas notícias.

Sim.

É estranho como escreviam naquela época.

Tão distante, tão modesto.

Quase constrangedor.

Simples.

Talvez o vocabulário deles fosse limitado.

Então, ela estava em Paris?

Certo?

"Mais de um mês desde que você partiu para Paris."

Se ele já escreveu para ela depois de um mês…

Procure outras cartas.

Estou tão feliz que você voltou.

Tive medo de nunca mais te ver.

Não ia ser muito diferente de antes.

Sim, seria muito diferente.

Na verdade, não.

Para mim, seria.

Muito diferente.

Você está brava comigo.

Sim.

Claro que estou.

Se um dia eu tiver filhos, jamais faria isso.

Abandoná-los e nunca…

Eu não te abandonei.

Eu sei...

Por que você mandou dinheiro?

Sim.

Foi o meu jeito de não te abandonar. De pensar em você.

Não dá pra pensar assim.

Não é um jeito real de pensar em mim.

O quê?

Melhor assim, não acha?

Está com um ar mais parisiense.

Nunca me dei bem com a minha mãe.

Mas parece que ela foi boa com você.

Então tudo bem.

Ela não suportava quem eu era.

Depois que você nasceu, ela não queria que eu…

continuasse posando.

Ela queria ficar com você

e que eu mudasse de profissão pra poder te ver.

Ela achava que todas as modelos eram vagabundas.

Mas não necessariamente.

Nem todas as modelos se tornam o que eu me tornei.

E eu gostava muito disso...

ser modelo,

conhecer artistas.

Isso não é motivo suficiente.

Você podia ter tentado me ver, apesar de tudo isso.

Sei que você sentiu falta.

Me perdoe.

É difícil explicar. Mas acredite, não foi fácil.

Nunca conseguiria explicar isso à minha mãe.

Ela cuidou bem de você?

Sim.

Como ela está?

Ela...

Ela acabou de falecer.

Isso te afeta?

Claro que sim.

Isso está parecendo uma investigação policial.

Concordo.

É estranho bisbilhotar a vida dessas pessoas.

Você diz, "dessas pessoas."

Mas essas pessoas são a nossa família.

Sinto que, ao descobrir coisas sobre eles,

estamos nos descobrindo.

É exatamente o que meu pai fala.

Agora ele me liga sem parar.

Querendo saber o que descobrimos sobre a família.

Olá! Você ligou para a caixa postal de Thomas. Por favor, deixe uma mensagem…

Droga!

Algum problema?

Não, minha vida está meio…

Há algo que possamos fazer?

Acho que não.

Eu vou.

Eu acho que...

hoje, o amor precisa ser reinventado.

Eu li em algum lugar...

Acho que foi no trem.

Sim?

"O amor...

é uma reinvenção da vida.

Reinventar o amor…

significa reinventar essa reinvenção."

Eu amo essa frase.

De qualquer forma, para mim, as relações entre homens e mulheres

já não podem ser pensadas da mesma maneira.

Não pode estar aqui, senhor.

- Vá à merda, moça. - Guy!

Isso é inacreditável.

Se estou aqui, algo deve estar acontecendo, certo?

Tenha um bom dia.

Que falta de tato!

- Não, sinto muito. - Não!

- Deixa que eu cuido disso. - Não precisa.

Moça!

Espera.

- Vou desligar. - Não, Guy!

Confiscado!

Desliguei o telefone. Acabou.

Você vai se sentir melhor.

- Você tem razão. - Sim.

Desculpa o baixo-astral.

Somos todos família aqui.

Fique tranquila, todos temos nossos problemas.

É o meu namorado.

Bom, eu pensei que ele ia ser meu namorado, mas…

Como sempre, ele disse que me queria.

Só que não o bastante… pra ficar.

Fim da história.

Se me permite, "quando uma porta se fecha…"

"Outra se abre!" É isso!

Ainda mais pra alguém como você.

Não deve ser difícil pra você.

É sim.

Se quiser um amor "descolado", vá pra Itália.

O "E" é um pouco mais justo.

O "L" tem essa curva.

Sucesso! Conseguimos um!

Deve ser o seu tamanho.

Mas tenha muito cuidado.

Se meu chefe descobrir, estou ferrada.

Sim, eu prometo. Sou sempre muito cuidadosa.

É realmente lindo!

Pronta?

Permita-me apresentar Anatole e Adèle.

- Meu tio... - Encantado.

Théophraste.

Gostaram desse lugar?

É incrível.

Lindo. As paisagens nas paredes.

Sentem-se.

É o ápice da modernidade em Paris!

Todos estão aqui.

Quando poderemos ver o seu trabalho?

Na verdade, em breve ele terá pinturas em Montmartre...

É a Sarah Bernhardt.

Quem é aquele?

Sarah!

Dê algo a eles.

Apenas uma frase...

para Paris.

"Sol!

Venho ver-te pela última vez."

- Bravo! - Bravo!

Bravo!

Bravo!

Théophraste!

Sempre frequentando a alta sociedade!

Assim como você!

Este é meu sobrinho, Lucien.

Acabei de falar de você. Ele é fotógrafo iniciante.

Boa noite.

Prazer. Boa escolha! Venha me ver.

Os sobrinhos dos meus amigos

são praticamente meus sobrinhos.

Você está em toda parte.

Poderia dizer o mesmo de você.

Félix!

Sim, já vou.

Este é o Félix, um amigo.

Um grande fotógrafo.

Não sei se vou conseguir ficar.

O problema é que viver em Paris sai caro.

Parece que você não tem problemas com isso.

Esse vestido não é meu.

É emprestado.

Charmosa como você é,

seria fácil encontrar diversas maneiras de ganhar dinheiro.

Do que está falando?

Muitas pessoas...

adorariam presenteá-la com vestidos tão lindos.

Eu tinha só vinte anos quando você nasceu.

Eu ainda era modelo. Um homem rico prometeu cuidar de nós.

O que ele fez, mas só por alguns meses.

Depois, pediu que eu te deixasse com a mamãe.

Me sustentou por alguns anos, depois perdeu o interesse.

Logo depois, ele me expulsou.

Foi quando tentei te ver outra vez.

Mas minha mãe não deixou.

Então tive que fazer uma escolha e...

Sim.

Decidi não voltar para a Normandia.

Eu queria viver. Ser livre.

E, principalmente, não ouvir minha mãe.

E meu pai? Quem é meu pai?

Naquela época, eu tinha dois amantes.

Um pintor e um fotógrafo.

O fotógrafo já era famoso.

O pintor não era famoso, mas tinha algo…

especial.

Não sei, eu gostava dele.

Sentia que ele tinha talento.

Quem era o fotógrafo?

Félix Nadar.

Félix Nadar?

Você o conhece?

É claro que sim!

É o mesmo que vimos com meu tio.

Vou vê-lo agora.

Ele?

Não sei se teria coragem de vê-lo de novo.

Se ele é seu pai, você precisa saber.

LOCAL EAGRAM BASTILLE

Dê um leve sorriso.

Isso, isso, isso.

Isso! Assim!

Atenção, não se mova.

Não se mova.

Não se mova.

Não se mova.

Pronto.

Pode se mover agora.

- Ajude-a, Timothée. - Madame.

- Obrigada. - Por nada.

- Obrigada, Sr. Nadar. - Por nada.

Os resultados saem em duas semanas.

Mal posso esperar.

Hoje em dia, as fotos de família são bem diferentes.

As pessoas não posam da mesma forma.

Pois é, hoje tudo é bagunça.

Vivemos tirando fotos, selfies…

Para uma única foto, tiramos cinco.

Sabe o que eu li?

A cada dois minutos, tiramos mais fotos do que em todo o século XIX.

A cada dois minutos?

Agora, todo mundo é fotógrafo.

Qualquer um consegue tirar fotos legais.

Ter uma câmera não significa que você seja um bom fotógrafo.

Poderia me mostrar algumas fotos suas?

Posso te mostrar o meu Instagram,

mas não reflete o trabalho que gosto de fazer.

Essas não...

Gosto dessa aqui.

Sim, eu entendo.

Sim, essa é boa.

Não consigo te dizer o que gosto nessa imagem, mas…

tem algo aqui.

Em Le Havre, trabalhei para Firmin Kaiser

e Gustave Le Gray.

Conheço bem o trabalho de Gustave.

Você já trabalhou com placas de colódio seco?

Não, trabalhei mais com placas de colódio úmido…

Com licença...

Tenho a sensação de que te conheço.

Alguma vez já te fotografei?

Deve ter sido a minha mãe.

Ela disse que te conhecia bem.

Qual é o nome dela?

Odette.

Odette Vermillard.

Odette... Sim.

Odette, claro.

Eu a conhecia bem.

Isso foi lá nos anos 70… Todos nós éramos um pouco loucos.

Deixe-me ver se consigo achar algo.

É ele?

O seu...

O seu pai?

Aqui.

Odette...

Eu conheço essa.

E você?

Posso te fotografar?

Muito bem.

Vou focar...

Não se mova.

Isso.

As fotos foram feitas por Nadar.

Incrível!

Elas eram lindas.

Estávamos comentando que podem ser mãe e filha.

Talvez.

Ela realmente parece mais jovem.

Essas fotos são tão misteriosas.

Fico imaginando como era a vida delas.

Elas realmente...

Minha imaginação vai longe…

tão longe.

Consegue acreditar?

Posso trabalhar para Félix Nadar!

Então...

Acha que ele é o seu pai?

Não...

Não sei. De qualquer forma, não senti nada demais.

Não, não consigo acreditar que seja ele.

Conheci o Sr. Nadar.

Sério? E então?

Ele com certeza se lembrou de você.

Mas eu não sei...

Não senti nada. Acho que ele também não.

E o pintor?

Quem é o pintor?

MUSEU DE ARTE MODERNA ANDRÉ MALRAUX

Essa é a Calixte.

Olá!

- Olá! - Olá!

- Olá! - Olá!

Olá!

Olá! Meu nome é Calixte. Prazer em conhecê-los.

Essa é a Dounia.

Estudamos juntas no Louvre.

Ela se tornou grande especialista em Impressionismo.

Abdelkrim, meu ex-professor do colégio.

Mas não apenas isso...

Meus primos...

- Céline. - Muito prazer.

Guy...

E Seb.

- Me acompanham? - Sim.

E aqui,

temos uma bela coleção de Eugène Boudin.

- Um pioneiro. - São magníficos.

Antes dele, a pintura era feita apenas no estúdio.

Com as novas invenções...

Ei! Abdel...

O quê?

Pode explicar o "não apenas isso"?

Não há nada a explicar.

Ah, qual é!

Ela era uma ótima aluna…

Tive dúvidas pela foto. Mas agora, sim!

É claramente uma pintura impressionista.

É impressionante.

Não é obra de um amador.

E claramente do período Impressionista.

Isto também estava na casa.

Alguma ideia do que poderia ser?

O quadro parece ser da mesma época.

Pode ser um pouco anterior.

Ou é apenas um esboço. É difícil dizer.

Nos dois casos, sugiro uma análise mais profunda.

Com raios X e micro fluorescência,

teremos dados bem mais concretos.

Já que estamos aqui,

não posso deixar de mostrar um lugar

que é um marco da história da arte.

Aqui estamos.

Foi aqui,

no Cais de Southampton, ou Grande Cais,

onde ficava o Hôtel de l’Amirauté.

Bem ali. E foi desse hotel

que Monet pintou

o que é considerado o primeiro quadro impressionista,

"Impressão, Nascer do Sol".

Vejam.

Ao ver essa obra e não entendê-la,

o crítico de arte Louis Leroy

batizou o movimento de Impressionismo.

As coisas mudaram muito.

Tem uma coisa

que eu estou querendo falar há um tempo.

Trouxe comigo um pouco de Ayahuasca.

Não?

Como assim?

Sabem o que é Ayahuasca?

- Claro. - Sim.

- Não? - Não.

Vocês podem não acreditar nisso, mas eu acredito.

É uma planta xamânica

que permite que você

se comunique com os ancestrais.

Se funcionasse, isso seria incrível.

Obrigado. É gentil da sua parte, mas…

não acredito nesse lance de xamã.

Acho que a Ayahuasca funciona até em quem não acredita.

Com certeza.

Quero experimentar!

Isso não é perigoso?

Toda experiência mística é perigosa.

Não sabemos para onde vamos nem quando vamos voltar.

Mas é uma experiência.

Já chega! Obrigada.

Por enquanto, não sinto nada…

Também quero.

É tão estranho.

Parece trabalho de criança!

Ou está inacabado.

É revoltante!

É como se o seu olhar não conseguisse captar…

Calixte, não...

Talvez seja uma nova maneira de ver as coisas, sabe?

Você está pronto?

- É o Félix Nadar. - É mesmo.

Não se mexam.

Berthe Morisot!

Pissarro!

Degas, Sisley,

Cézanne,

Renoir...

Claude Monet!

Calixte, estão tirando uma foto...

Podem se mover agora.

Muito bom.

Você é a Adèle?

Não, sou a Odette.

Adèle é a minha filha.

Odette?

O que está fazendo aqui?

Eu estava curiosa para ver suas pinturas.

E também queria te apresentar.

Vem comigo.

O que esse quadro quer transmitir?

Essa é a questão.

É Impressão, Nascer do Sol.

"Impressão"?

A primeira pintura impressionista.

"Impressionista"?

Frase de impacto!

Você sente algo?

É claro que sinto.

Sou as flores na parede Que só desabrocham em abril

Basta você partir Para que nada reste

Exatamente.

Magnífico!

Magnífico!

Sou uma grande fã.

Você é o quê?

Sou uma grande admiradora.

Posso perguntar seu endereço?

Quero lhe enviar… uma antologia.

Uma antologia?

Sim.

Lembra disso?

Sim.

Você guardou?

É claro.

Aquele momento, tão importante pra você, agora é pra mim.

Qual é o nome dela?

Adèle.

O Victor Hugo deu em cima de mim!

- Não acredito! - Juro, Victor Hugo! Olha!

É!

Viu?

Vem comigo.

Não me toque.

Acabe suas pinturas antes de expô-las!

Quem você pensa que é?

O que você sabe sobre arte?

Seu babaca!

Calixte, acalme-se!

Você sabe quem eu sou?

- Seu ignorante! - O quê?

É o Sr. Leroy!

Você está bem?

Seb...

Seb...

Tudo bem?

Seb, somos nós.

Tudo bem?

Sim.

Você está bem?

Isso foi uma loucura.

- Sério? - Funcionou com você?

Eu não senti nada.

Claro que sim! O Victor Hugo deu em cima de você.

Victor Hugo?

Foi sim!

Bem diferente da minha vida amorosa de merda!

Em todo caso,

pelo menos funcionou para um de nós.

Eu fiquei muito chapado.

Onde está a Calixte?

Não fui o único.

Como está a Calixte?

- Continua chorando, mas ela está bem. - Ah não.

- Ela está arrasada por ter dormido vinte seis horas. - Ah, sim, com certeza!

E chateada por ter batido no Leroy.

Leroy?

Eu não entendi muito bem.

Mas acho que ela vai ficar bem.

Essa parada era bem potente.

Tudo bem, Seb?

Sim.

Essa é a Odette,

eu acho.

Ela é a mãe da Adèle.

Sério?

O contrário do que pensávamos.

Você está bem?

Sim.

Estou bem.

Meus pais morreram quando eu tinha cinco anos.

Eles morreram juntos, em um acidente de carro.

Então fui criado pelos meus avós.

Agora só tenho o meu avô.

Ele insistiu muito para que eu viesse.

Para falar a verdade, eu não me importava com isso.

Mas descobrir essas pessoas e vocês...

Senti que descobri a minha família.

Uma família real.

Costumo agir com cautela.

Gosto de ter certeza absoluta.

Então, me perdoem o pouco entusiasmo. Enfim…

Eu recebi as primeiras análises.

Creio que posso afirmar

que o quadro...

foi pintado por Claude Monet.

Claude Monet?

Sim.

Claro, antes de comemorar, isso precisa ser confirmado

por outros especialistas.

Mas, se isso for confirmado,

trata-se de uma obra inestimável.

Quando você diz...

"inestimável"...

Quanto você acha que valeria? Algo em torno de...

Quando falo "inestimável", é porque é difícil calcular.

Só para saber, mais ou menos...

Só para saber...

Claro.

Além disso, as fotos do Nadar que trouxeram

levantam muitas questões.

Sobre a vida dos seus antepassados.

É bastante intrigante.

Segundo nossas análises, o quadro tem data da década de 1890.

Porém, este pedaço de tela é dos anos 1870.

HOTEL ADMIRAL

O que está pintando?

O nascer do sol.

O sol não está vermelho.

Não está, mas já foi.

Não estou pintando o porto, apenas um instante…

Um instante fugaz.

Agora há pouco.

É curioso como os reflexos mudam o tempo todo.

Parece que estão dançando.

É como se estivessem cantando.

Cantando como?

Isso funciona muito bem.

É, isso mesmo.

É b-o-i.

Assim?

Quem é essa?

Então, como você está?

Essa é a minha mãe.

- Olá, senhora. - Olá, rapazes.

Lucien e Anatole.

Posso...

- Podemos sentar-nos ali. - Tá bem.

Gostaria de te dar algo antes de partir.

O que é?

O pintor que te contei me deu isso.

Quero que fique com você.

Pra mim, tem a ver com seu nascimento.

Você gosta do rapaz de bigode?

- Não? - Sim...

Mas eu...

Sinto que ele só é gentil comigo porque me acha bonita.

E daí?

Não dá pra culpá-lo. Ser bonita não é doença.

Não, mas... Eu não sei.

Não quero ser só bonita.

Mas você gosta dele?

Sim, eu gosto dele, mas…

Mas o quê?

Não sei se é certo…

O que acha que eu devo…

Não sei se sou a pessoa certa pra te aconselhar.

É sim. Continue.

O que você acha?

Aceite o que a vida oferece!

Cometa erros.

Talvez se arrependa depois, mas…

É melhor se arrepender do que fez do que do que não fez.

Você se arrepende de ter me tido?

Não.

De jeito nenhum.

Eu nunca me arrependeria disso.

Olhem para a lente.

E... não se movam.

PADARIA

Lá vamos nós.

Não se movam...

Não se movam...

Pronto, podem sair.

- É a primeira vez que tiram uma foto minha! - Eu sorri.

É estranho.

Ficou incrível.

- Quase uma foto. - Mas colorida!

Depressa, vamos perder!

Não, vamos conseguir!

Depressa!

- Mais rápido! - Esperem por nós!

Esperem por nós!

- Então? - Dá para ver!

Tudo aceso?

Dá pra ver a Avenida da Ópera?

Que loucura!

É lindo!

É muito lindo!

Deslumbrante!

Incrível!

Quem sabe um dia

todas as ruas de Paris se iluminem assim.

Com eletricidade.

Você está sonhando!

Nós precisamos sonhar!

Olha aquela avenida.

O que tem?

É a avenida do futuro!

É verdade!

Amanhã estarei lá.

Na Avenida da Ópera.

Sério? Por quê?

O Sr. Nadar nos convidou para uma demonstração de "cinematografia".

O que é isso?

Eu não entendi direito, mas...

acho que é como fotos em movimento.

- Sério? - Sim.

Pra quê?

Vamos beber algo?

- Claro! - Isso!

Então?

Está endereçado a Adèle Vermillard.

E está assinado por alguém chamado Anatole.

Um de seus amantes.

Doze de abril de 1916.

- "Querida Adèle," - Querida Adèle,

Eu também penso muito em você.

Fico contente que você possa ler e escrever

e que minhas lições não foram em vão.

Mesmo assim, sinto que fui um péssimo professor.

Saber que você se tornou professora me enche de alegria.

Acabo de ser convocado para Verdun. Não sei o que farei lá.

Mas espero ter algum tempo para desenhar.

Cuide-se.

Espero vê-la de novo em breve,

Anatole.

Com licença.

Posso ver?

Esperem a família descobrir que herdamos um Claude Monet!

Ah, sim, isso é...

É uma ótima notícia.

Estou avisando: vou tentar convencê-los a doar.

Um Monet pertence a todos, não só à nossa família.

Boa sorte com isso.

Por que diz isso?

Acha que eles só ligam para dinheiro?

Eu acho que não.

Seria bom a gente se encontrar de novo em breve.

Espero que seja possível.

Se estiverem livres na sexta,

apareçam na minha festa de aposentadoria.

Está se aposentando?

Onde vai ser?

Lá na minha escola.

Ótimo! Eu posso ir.

Eu posso filmar.

- Filmar? - Sim!

Talvez não tenha muita coisa pra filmar.

Como um presente.

Será um prazer! Até sexta!

Até lá!

Você está com pressa?

Tenho um dia bem ocupado, mas…

O que você vai fazer?

Eu? Nada.

- Nada mesmo? - Não.

- Podemos tomar um café. - Claro!

Certo!

- Quer ajuda? - Não.

Conheço um café aqui perto.

Para você, professor.

Não tem muita coisa para filmar?

Bem...

Eu não esperava por isso.

Então, essa é a nossa família.

Juntamos algumas peças

do quebra-cabeça do que compartilhamos.

Então agora a questão é:

o que faremos com o quadro?

Conversamos sobre isso e recomendamos que seja doado ao governo.

Você só pode estar brincando. Doar?

Temos um Claude Monet e vamos doá-lo ao governo? Você sabe quanto vale um Monet?

- Sabe quanto ganho de aposentadoria? - Não, eu não sei. E você, sabe quanto vale?...

- ...Presentes, como os damos no Natal?... - ...Não, você não sabe!

Porque um Monet é inestimável! É inestimável!

...Não, mas não quero dar nada ao governo, eles estão sempre nos explorando! Levam tudo!

A família... Que prazer...

Veja isso.

Bom, vô, eu só queria dizer…

Obrigado.

Por quê?

Obrigado porque...

Me fez muito bem participar de tudo isso.

Agora sei melhor o que eu quero.

- Ótimo. - É.

Pode me explicar?

Sempre olhei para frente. E me fez bem olhar para trás.

Com licença...

Com licença.

Estou procurando o Sr. Monet.

Vou avisá-lo. Pode entrar.

Vá em frente.

Olá.

Você quer falar comigo?

Foi a Odette que te deu isso?

Sim.

Eu sempre soube que um dia nos veríamos de novo.

A vida passa num instante.

Pintei muitos quadros.

Então eu...

Fiz esse jardim

para pintar meus quadros.

Eu viajei muito.

Pintei pessoas, cidades, paisagens.

Mas agora, só quero ficar aqui, em casa,

no meu jardim.

Minhas viagens agora são aqui.

Você já viajou?

Não.

Só fui até Paris.

E o que isso te trouxe?

Eu conheci a minha mãe.

E aprendi a escrever. Bem, comecei a aprender.

E conheci algumas pessoas.

É muita coisa.

Gostaria de fazer algo com tudo isso.

Ainda não sei o quê.

O que foi?

Você ficaria aqui comigo por um tempo?

Alguns dias?

Sim.

Eu adoraria pintar o seu retrato.

Posso fazer uma pergunta?

Você amava a minha mãe?

Sim.

Mas não quis ficar com ela?

Você já se apaixonou?

Sim.

E você nunca sentiu desejo por outra pessoa?

Já senti.

Mantenha a pose.

Por que me pediu para vir aqui?

Você voltou?

Sim.

Tradução: Nathalia Ferrante

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