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O TORMENTO
E agora, direto de Varsóvia, mais um de nossos formandos.
Repórter e apresentadora do programa Rumo à Verdade,
a nossa Kama Kosowska!
Uma pra mim, por favor!
Ele sempre foi meu tipo.
- Quem? - O Arek.
Eu tinha uma queda por ele. Imagine.
Todo mundo tinha.
Esqueci que tínhamos o mesmo gosto pra homens.
Desde sempre.
- Oi, Booba. - Não é mais Booba. Só Aska.
Dois maricas dançando pelo salão. Um alto e um baixinho.
Desde quando toma cuidado com o que diz? Relaxa. Não está no ar agora.
Sabe como é.
Se alguém me grava, sou cancelada na hora.
Você sempre se divertiu com as palavras.
- Lembra de como você me chamava? - Booba.
Booba Gorda.
- Eu não te chamava assim. - Não na minha cara.
- Mas pelas costas. - Quê?
Você disse uma vez e o nome pegou. É o seu talento.
Até mudei de turma no segundo ano,
mas o apelido foi junto.
Para, você está falando bobagem.
Eu deveria te agradecer.
Fugi tanto daquele apelido idiota que acabei me formando em psiquiatria.
Tenho uma casa linda.
E, ao contrário das minhas colegas, não sou divorciada.
Isso é ótimo.
Você merece, Booba.
Ninguém mais me chama de Booba Gorda. Agora sou a Dra. Joanna Nitecka.
Vamos pra pista?
Vem, você tem que ir. É a rainha do baile.
- E aí, Kama? Está bonita. - Obrigada.
Meu sogro quer muito seu autógrafo.
Kama, como você está? Conta pra gente!
Vamos dançar!
O que houve?
Kama!
- Kama! - O que está fazendo?
Cai fora.
Kama!
- Calma! - Sai...
Cadê você?
Sei que está aqui!
Calma!
Você está bêbado.
Esfrie a cabeça e saia.
Michal?
Aí está você.
E aí, como está? Tudo certo?
- Estou perguntando... - Você é surdo? Cai fora!
Porra! Não toca em mim! Não!
Você e o seu pai acabaram com a minha vida, sabia?
Me solta!
Me solta!
Tal pai, tal filha!
Você não vai escapar impune! Eu nunca vou te perdoar!
Não vou ficar calado! Não vou!
Sete,
seis, cinco, quatro, três, dois,
um. Lá vou eu!
Abram espaço!
- O que aconteceu? - Você bebeu demais.
Booba!
Vou te levar pra casa.
- Não precisa. - Eu vou.
Pega a sua bolsa. Já volto.
Eu fiz papel de boba.
Não se preocupe.
Você bebeu muito rápido, só isso.
Onde você vai ficar? No seu pai?
Na minha avó. Você lembra o endereço?
Vamos ver.
Vovó Manka.
Ela deve ter uns 90 anos.
Teria.
Covid.
Sinto muito.
Os últimos inquilinos se mudaram.
Estou aqui pra arrumar a casa.
E atualizar o anúncio.
Posso recomendar uma equipe.
Qual era a daquele bêbado?
O cara fracassou na vida, e parece que a culpa é minha.
É aqui?
É, deve ser aqui.
- Obrigada. - Não vai me convidar para entrar?
Sério?
Senti saudade.
A Booba disse que vocês estavam bem.
A Aska não consegue admitir o fracasso.
Você consegue?
Admito que quero, mais do que tudo, ver você pelada de novo.
Sua mulher está te esperando.
Tal pai,
tal filha! Não vai escapar impune!
LIGANDO - PAI
Kama, querida, e a bagagem?
Michal! Piotrek!
Chegaram faz tempo?
Por que estão chocados?
Bom dia. Pode me dar esses cigarros?
É com cartão.
ECO DE TORUN
REABERTO CASO ARQUIVADO DO ADOLESCENTE DESAPARECIDO PIOTREK KNAP
Parem com isso!
Acabaram de fazer as pazes.
Esconde-esconde?
Isso é coisa de criança. E tem uma tempestadoe chegando.
Está com medo de molhar os sapatinhos chiques?
Michal!
Podemos ampliar a área de busca.
Do parque de campismo ao rio,
e da estrada até a casa sem telhado.
Tudo bem, mas a tempestade não vai parar o jogo.
Eu vou procurar primeiro.
Cinquenta, 49, 48...
Não espie!
Não espiei! 47, 46, 45, 44...
BLOCO CIRÚRGICO
Com licença, doutor.
Detetive Tomasz Korcz, da polícia.
Operou o ferido no acidente do cemitério?
- Acabei de operar. - Como ele está?
Lesão grave de múltiplos órgãos, hemorragia interna.
Resumindo, é grave.
Mas ele está estável.
- Vai sobreviver? - Talvez.
Ele faz parte de uma investigação da Unidade de Casos Arquivados
- sobre um menino que sumiu nos anos 90. - Acho que ouvi falar.
A vítima do acidente é pai do garoto.
Ele pode ter informações cruciais para nós.
Mas o paciente agora está em coma induzido.
Se a condição dele melhorar o suficiente para acordar,
- eu aviso. Pode ser? - Obrigado.
E as coisas do Knap?
Com licença, doutor. Os pertences da vítima vieram na ambulância.
Podemos dar uma olhada?
- Acho que isso não é comigo. - Para quem posso...?
Obrigado.
Cadê o dinheiro?
Droga. Só abre com a digital.
Kama?
O que está fazendo aqui?
- Reunião do ensino médio. - Achei que estivesse ocupada.
Logo estará em todos os jornais, então vou contar para você primeiro.
Tiraram meu programa do ar.
Mas vão te dar outra coisa, não é?
Acho que preciso de uma mudança.
Tem algo errado?
Não, está tudo bem.
Só não quero que se preocupe.
Ele freou um pouco tarde, não foi?
Devia estar no telefone.
- O que é isso? - Endereços do Kosowski.
- No plural? - Sim.
Um apartamento e uma cabana na horta comunitária.
E isso?
Acha que nossos gênios do trânsito viram?
- Mas o acidente não é do nosso caso. - Não sei. Depende de quem bateu.
Consiga a filmagem, por favor.
E veja se o cemitério tem câmeras para evitar roubos de túmulos.
Claro. O endereço.
Quando volta para Varsóvia?
- Já quer se livrar de mim? - Claro que não.
Pelo menos me conta como foi o encontro.
A reunião da escola.
As meninas engordaram,
os caras se afogaram em bebida e financiamentos?
Tormentos do passado me alcançaram.
REABERTO CASO DE ADOLESCENTE DESAPARECIDO
Por que desenterraram isso?
O nome do cara é Korcz. O novo chefe dos Casos Arquivados.
- Você o conhece? - De ouvir falar.
Resolveu casos importantes, mas ninguém gosta dele.
Pelo jeito, almejou essa unidade por cinco anos
e, por fim, conseguiu.
Reabriu o caso do Piotrek na mesma hora.
Esse Korcz
- tem algo sólido? - Acho que não tem nada.
Deve estar jogando isca para a imprensa.
Já deve ter começado a perceber que assumiu um caso impossível.
Ele te procurou?
E o Michal Bak?
Você me disse que o Michal mora em Bydgoszcz,
formou família, está indo bem.
- Foi o que eu soube. - É...
Mas ele não parece estar bem.
Quê?
Você o viu?
- O que ele queria com você? - Me atacar.
E a você também.
E daí? Você liga para um...
fracassado?
Sabe que não deveria ter lidado com esse caso.
- Era próximo demais. - Bobagem, Kama.
O protocolo foi ignorado.
Não me venha com sermão sobre o protocolo!
A vida do Piotrek estava em jogo. Não tínhamos tempo para pensar.
Mais chances de ter perdido uma pista.
Você...
pode ter cometido algum erro.
Cinco, quatro, três,
dois, um, lá vou eu!
Está chateado comigo?
Não.
Pergunto porque me preocupo.
Espero que saiba disso.
Fizemos de tudo para encontrá-lo.
Tudo.
Não consigo aceitar que o Piotrek não foi encontrado.
Perdeu alguma coisa?
Capitão Kosowski.
Falando do diabo...
Espero que não me ache tão mau. Tomasz Korcz, Casos Arquivados.
Dizem que você tem novas pistas. Kama Kosowska.
Gostaria de falar com você também. Não necessariamente hoje.
- Vá, querida. Conversamos mais tarde. - Tudo bem. Até mais.
Tchau.
Tchau!
- Eu te ligo. - Até logo.
Em que posso ajudar?
Pode ir à delegacia?
Robert? O que faz aqui?
Gente, vamos embora!
Ouviram? Vamos ficar ensopados!
Acabou o jogo!
Acabou o jogo!
Por que terminamos mesmo?
Não importa.
O que importa é que foi um erro.
Eu lembro que queria ir pra Universidade de Varsóvia
e você...
pra Gdansk Tech,
porque você tinha uma tia lá e queria morar com ela.
Você está mudando de assunto.
Eu estou te dizendo que temos que ficar junto.
E estou te dizendo que a poligamia é ilegal neste país.
Já ouviu falar de uma coisa chamada divórcio, espertinha?
Não fuja.
Você sempre faz isso.
Sempre que a conversa ficava séria, você fugia.
Porque, pra conversas sérias, gosto de pelo menos estar de calcinha.
Viu, Kama?
Estou falando sério, e você...
- tentando escapar com piadas. - Me desculpe por ter senso de humor.
Isso não é senso de humor, é mecanismo de defesa.
Alguém anda lendo os livros da estante de esposa.
Então você acha
que, falando na Aska, vai me desanimar?
Talvez devesse desanimar.
Ou talvez a fama tenha ferrado a sua cabeça?
Você expulsa os homens da sua cama em Varsóvia também?
Obrigada.
Por me lembrar de por que terminei com você logo depois das provas.
Quer dizer "durante".
Entre a de literatura e a de matemática.
Porque você ficava fazendo promessas, falando do futuro.
- Sempre fui um romântico. - Sabe quem sempre foi romântica?
A Booba. Sua esposa.
- Tchau. - Tchau.
O que está fazendo nessa chuva? Estou te esperando faz uma hora.
Eles me enganaram. Odeio aqueles idiotas!
Quem? O Michal e o Piotrek?
Eles queriam brincar de esconde-esconde.
Eu ia procurar, e eles foram embora.
Certo, vá se trocar.
Agora.
Pai, espera!
Volte pra dentro. Vai se resfriar.
- Mandei entrar. - Senão o quê? Fico mais ensopada?
Bela chuva, hein?
O Piotrek está aqui?
Ele saiu.
Fui para o rio, com a Kama e o Michal.
Eu sei. Brincaram de esconde-esconde.
Sabe como o rio enche quando chove assim.
Eu os vi na prainha,
e depois eles sumiram.
Podem estar escondidos e esperando a chuva passar.
Procurei por toda parte!
Não sei se aconteceu algo, mas acho melhor irmos ver.
Já viu na casa do Michal?
Eu não o vi voltar.
Está bem.
Então avisou o Ryszard Knap e depois foi embora, certo?
De quem foi a ideia? Sua ou do Knap?
- Também tenho perguntas. - Primeiro quero ouvir sua história.
Por exemplo,
por que estava interessado nos carros dos meus vizinhos na horta comunitária?
Vou responder às suas perguntas...
Tudo que fiz em 94 seguiu o procedimento padrão daquela época.
E não tenho culpa.
Não estou te culpando.
Não preciso ficar aqui.
Não preciso te ajudar.
Estou aqui porque quero e porque te respeito.
Mas, se o respeito não for mútuo, prefiro ir embora.
Está bem,
eu estava olhando os carros perto do seu terreno
pra ver se algum deles era seu.
Se tivesse me perguntado,
eu teria dito que, no momento, não tenho carro.
Tem um KIA de quatro anos registrado no seu nome.
Coloquei à venda.
Minha pressão ocular está alta. É glaucoma.
Estou em tratamento, mas quase sem resultado.
Minha filha me convenceu a parar de dirigir.
Preciso dos dados do estacionamento pra confirmar isso.
O que você quer?
Você tem contato com Ryszard Knap?
Ligamos uma para o outro às vezes.
Em datas comemorativas,
no aniversário do desaparecimento do Piotrek e na morta da minha esposa.
Se encontram pessoalmente?
Nos vimos hoje cedo no cemitério.
Para quê?
Pode me dizer do que se trata?
Por que se encontraram?
Por sua causa.
Está reabrindo velhas feridas e dando falsas esperanças a ele.
Conversaram por muito tempo?
Alguns minutos.
Eu estava com pressa. Esqueci que tinha consulta médica.
Então saiu primeiro?
Sim.
Este é Ryszard Knap.
O que aconteceu?
No escritório até tão tarde?
Estou resolvendo um problema.
Uma das minhas meninas não ligou o acidente
ao caso sobre que escrevi na primeira página.
Não tenho muito tempo.
Vim falar dessa manchete.
Do caso do Piotrek Knap?
Acho que vi seu nome nos arquivos.
Eu fui testemunha.
O Piotrek era meu amigo.
Já que a polícia reabriu, eu pensei
em cobrir o caso no meu programa.
Fala sério.
Parece que o programa já era, né?
O que está comentando?
Que você foi demitida.
É claro.
Uma mulher que tem opinião e coragem para falar é irritante.
O que pretende fazer sobre o garoto desaparecido?
Vai voltar a fazer reportagem?
Pensei, talvez...
num livro?
Aquele atropelamento que mencionei...
A vítima é o pai do garoto desaparecido, Knap.
Tem algum suspeito?
Tem alguma fonte na delegacia?
Aldona, acha que quero roubar sua matéria?
Não sei.
Não esqueça que deve esse trabalho a mim.
- O que quer saber? - O Korcz descobriu alguma coisa?
Ele só disse que algumas coisas não batem.
E interrogou o outro garoto. Bom, já é adulto agora.
Michal.
Sabe onde posso encontrá-lo?
Michal!
- O Piotrek está aqui? - Por que estaria?
Então onde ele está?
Piotrek!
Como vou saber?
Piotrek!
Kama!
Piotrek!
Piotrek!
Piotrek!
ASSASSINO
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