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UMA SÉRIE ORIGINAL NETFLIX
NA MUI NOBRE CIDADE DO MÉXICO. O ARCEBISPO AGUIAR Y SEIJAS
PROCURA REFORMAR A MORAL E A VIRTUDE, DENUNCIANDO O VÍCIO.
OS SEUS ESFORÇOS CONCENTRAM-SE NOS CONVENTOS. O ARCEBISPO ESTÁ
PREOCUPADO COM AS ATIVIDADES DE JUANA INÉS, UMA NOIVA DE CRISTO.
Padre.
Sôr María, o véu, por favor.
O arcebispo acredita
que a moralidade descontraída nos conventos fomenta o pecado.
Padre, posso assegurar-lhe
que o caso da irmã Mariana foi um caso isolado.
E a vaidade é um pecado.
Ou acha que é apropriado que as freiras usem joias?
Como se estivessem na corte de Madrid?
Nem é apropriado, nem deixa de ser.
As Carmelitas não usam joias.
Nós usamos.
- Cada ordem tem as suas regras. - Não.
Sua Excelência, o Arcebispo, pensa
que o apego a objetos materiais significa a prioridade do corpo sobre a alma.
E uma freira
já renunciou ao corpo.
Pode ler tudo no edital. Está aqui.
Tenho de levantar o véu para o ler, padre.
Muito bem.
"Todas as preladas e freiras
ficam notificadas
de que, de hoje em diante..."
Que letra!
"... não poderão usar
ornamentos sobre o hábito
nem ter bens pretensiosos
ou banais.
Estes devem ser doados
como esmolas
aos mais necessitados."
Continue, prioresa.
"Não haverá mais música,
nem cantos, nem tertúlias,
nem criadas."
Sem criadas?
Desculpe.
Nem escravas.
O meu tapete!
Os meus pratos, não!
Não os levem!
Deixem-nos!
Não,
Sôr María, por favor.
Rogo-lhe. São os meus únicos bens.
Tudo.
São as joias da minha família.
É a única coisa que me resta da minha mãe.
Sem exceções, sôr Beatriz.
Por favor.
Como nos podem tirar o que é nosso por direito?
Não há justiça.
Disseram-me que as Concepcionistas
já adotaram as novas regras das criadas e das escravas.
É inaceitável.
Este ascetismo nunca
fez parte da ordem Jerónima.
Nunca.
Se quisesse viver como carmelita, tinha ficado nessa ordem.
E a vice-rainha?
Porque não fazemos algo para ela?
Ela que venha cá.
Convide-a por uma razão qualquer, sôr Juana.
Qual?
Escreva qualquer coisa.
- A corte gosta dos seus versos. - Não.
Sim.
Sim, sôr Juana.
Veja,
estamos a suplicar-lhe.
Mas, prioresa,
não tenho tempo para isso.
Eu preparo as minhas lições,
trabalho na contabilidade do convento,
- trabalho na horta... - Dê prioridade à vice-rainha!
Sua Excelência.
Francamente, não compreendo a sua decisão.
O padre Alonso trataria da sua saúde espiritual como ninguém.
Reverendíssimo, não duvido disso,
mas quem melhor do que um crioulo
para nos guiar nestas terras complicadas?
Sua Excelência,
estamos a falar da sua alma.
E da da vice-rainha, também.
A decisão está tomada.
Confio que será um confessor
e um guia espiritual exemplar.
O padre Antonio Nuñez de Miranda.
Sua Excelência.
Sua Excelência,
seria prudente
reduzir as suas visitas às Jerónimas.
É um pedido do arcebispo.
Não percebo porquê.
Vou visitar a sôr Juana. Ler poesia e aprender.
Lamento, Sua Excelência,
mas não o posso aceitar.
O arcebispo também proibiu as oferendas e dádivas.
Não é nada disso, padre. Preciso de duas bulas papais.
A julgar pelo valor,
não serão para produtos lácteos,
para poder comer queijo na Quaresma.
Não.
Preciso das bulas mais caras da Santa Cruzada.
Talvez algo que Sua Excelência não me confessou?
Não, padre.
Problemas de saúde?
Gozo de excelente saúde.
Para que necessitaria uma cristã tão exemplar,
como Sua Excelência,
de tal indulgência?
Ou melhor, de duas?
Todos somos pecadores, padre.
E prefiro pagar os meus pecados em ouro, agora,
do que mais tarde no purgatório.
Não aguentaria o tormento. Não estou habituada a sofrer.
E porquê, irmã?
Um ovo
une-se e frita-se na manteiga ou no azeite,
mas, pelo contrário, dissolve-se na calda.
Se Aristóteles cozinhasse, tinha escrito muito mais.
E melhor.
Vá trabalhar.
Estou aliviada,
por ter esquecido a minha imprudência.
Vim dar-lhe um presente.
Uma bula da Santa Cruzada?
Vi-a tão preocupada, que é o mínimo que posso fazer.
Não tem de pagar pelas minhas culpas.
Temo que a culpa seja partilhada.
Também pago pela minha.
Não tem culpa, nem penitência a pagar.
Pequei em pensamento.
Se o pecado não fosse tão grande,
seria um alívio conhecê-lo.
Desculpe, irmã. Como disse que era, irmã?
Com azeite ou com manteiga?
Com manteiga.
Vá.
O véu!
Irmã, por amor de Deus! Que barulho é este?
Não ouço ruído nenhum, padre.
A música.
É proibida a música nos conventos.
É a vice-rainha.
Como quer que entretenhamos Sua Excelência
se não for com música?
Abra a porta.
Lamento, é proibida a entrada a varões.
Bom dia, padre Alonso.
Ave María, cheia de graça,
o Senhor é convosco.
Bendita sois Vós,
e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus.
Perdoe-me por ter pecado, padre.
Diga.
Estou a ouvir.
Os apetites da carne mancham a minha alma.
Dão-me desejos desonestos.
E semeiam continuamente maus pensamentos na minha mente.
Os demónios da luxúria visitam-me.
Eles possuem-me.
Sinto que estou fora de mim.
Tenho medo da minha mente, parece que tem vida própria.
Mas, acima de tudo, tenho medo do meu corpo profano.
Penso na Virgem,
que derrotou a carne e o mundo.
Mas eu,
apesar de ver as portas do inferno abertas,
não sei se me conseguirei conter.
Agora vejo como sou fraca.
E como a tentação é forte.
Como faço para resistir?
Não me ouves, Castaño?
Estou a perder a vida e o juízo.
Só a vida é novidade,
a parte do juízo não é nova.
Don Pedro,
não pretendo responder às vossas palavras,
sobre se posso ou não ser como dizeis,
mas em todos os vossos
festejos perversos,
sabendo que Leonor não está,
e eu a procuro.
E sabendo que em vossa casa a encontrei.
A minha honra nunca está satisfeita.
- Se nos casásseis... - Até aí.
O que acha, Sua Excelência?
Gosto.
Mas talvez a sôr Beatriz devesse estar mais angustiada.
Tenha-o em conta.
Vamos ensaiar o início do terceiro ato.
Sôr Juana,
tem a certeza de que não é um sacrilégio?
Já o fez antes.
Porque está tão preocupada?
O arcebispo diz que...
O teatro não é perverso, se for dedicado a Deus.
E é isso que fazemos.
- Certo, irmãs? - Sim.
Vamos.
É uma pena que tenham de usar o hábito.
É difícil imaginar homens assim.
Meu senhor.
Dou-lhe a minha mão
e, com ela, a minha alma.
E eu, senhora,
aceito-a.
Porque vivo com a certeza
que retribuo da mesma forma.
Saiu tudo?
Deixe-me ver.
Foi um bonito ensaio.
Se Deus me punir por a amar,
então é porque o mereço, querida Lysi.
Lysi?
O nome que Quevedo usava para a sua amada.
E agora é seu.
Tira-o.
Tantas camadas.
Que bela mulher há debaixo deste hábito.
E é toda tua.
Senti tanto a tua falta.
A sério, meu doce amor?
Tu é que és o meu doce amor.
Deixa-me olhar para ti.
Não me interessa se fico cega.
Os prazeres da alma são tais
que até cegas conseguimos ver.
Confesso a Deus
e a vós, irmãos,
que pequei muitas vezes por pensamentos, palavras, atos e omissões.
Por minha culpa, minha tão grande culpa.
Peço à Virgem María,
aos Anjos e Santos, irmãos,
que rogueis por mim a Deus.
Confesso a Deus
e a vós, irmãos,
que pequei muitas vezes por pensamentos,
palavras, atos e omissões.
Por minha culpa. Minha tão grande culpa.
Por minha culpa.
Minha tão grande culpa.
Trouxe a desgraça a este convento.
Do que está a falar?
Dos meus pecados.
Desencadearam a ira de Deus.
Afaste-se de mim, minha filha.
Salve-se.
Salve-se.
Por minha culpa.
Por minha culpa.
Entre, prioresa.
É apenas uma inspeção de rotina.
- Claro. - Peço que fique fora da sua cela.
Não pode entrar até que eu termine.
- Mas... - Saia!
Sôr Juana!
Abra-o.
São coisas pessoais.
Não quero que me dirija a palavra.
Abra-o.
Amar a tua beleza é um crime sem desculpa...
Penso em ti em cada momento do dia. Levo-te comigo, dentro de mim.
Nem sendo mulher, nem estando ausente
amar-te é um impedimento
porque, como sabes, tanto a distância como o sexo são ignorados pela alma.
São apenas poemas que seguem a tradição do amor cortês, padre.
Errou duas vezes.
Primeiro, porque são escandalosos.
E segundo, porque, como seu confessor,
tenho de ler tudo o que escreve. Tudo!
Conheceram-se uma à outra carnalmente?
Usou um instrumento?
Sôr Juana.
- Do que está a falar, senhor padre? - Se usaram
algum instrumento para consumar o ato.
Como no pecado da sodomia.
Peço-lhe que pare, padre.
São poemas escritos na tradição cortês, nada mais.
Quem é a divina Lysi a quem dedica os seus versos?
Sôr Juana.
É
a amante secreta de Quevedo.
E a sua também.
Não é a vice-rainha?
As suas irmãs dizem coisas.
As pessoas falam muito, padre, mas não sabem nada.
Este ato é contranatura,
punido com o fogo eterno do inferno.
Não a envolva nisto.
A culpa é toda minha.
Esquece-se que também sou o confessor dela.
Graças a mim.
Claro que não o esqueci, padre.
E é o senhor que não deve esquecer.
Não posso deixar passar este ato.
Entre uma freira e uma vice-rainha? Que espécie de confessor seria?
Eu cuidei do senhor.
Por uma vez na vida, cuide de mim
e não da alma.
De mim.
Sôr Juana.
Estou disposto a ajudá-la,
se aceitar acabar com esta relação amorosa.
O que quer dizer, Vossa Reverência?
Que a vice-rainha não voltará a entrar neste convento.
Nunca mais.
Padre, por favor.
Não imponha essa condição.
Louvado seja o Senhor.
Entre, padre.
Por favor,
esclareça-me, padre.
Diga-me o que devo fazer.
Tenha calma, Sôr María.
Mas o que eu li não é correto.
São versos profanos de uma mulher
que acredita ter vocação literária
e que se quer comparar com Quevedo.
Já a repreendi.
Na verdade,
vim pedir-lhe que lhe atribua
tarefas de maior importância dentro do convento,
para manter aquela mente inquieta ocupada.
Sim, padre.
E não permita mais visitas da corte
a este convento.
Só servem para distrair.
Bem...
Isso agrada-me, padre, porque a última coisa que queria
era a ira do padre Aguilar contra este convento.
A questão da sôr Mariana
afetou-nos a todos.
Ao ponto de vermos pecado onde ele não existe.
Como está?
Não podia estar pior.
Tem saudades dele?
De Deus?
- Muito. - Não.
Do pai da sua criança.
Se dissesse que sim,
significava que não me tinha arrependido.
E se dissesse que não,
estaria a mentir.
O que devo responder?
Peça a Deus que seja misericordioso.
É difícil crer na misericórdia de Deus,
quando tenho de ficar confinada a esta cela o resto dos meus dias.
O que vai ser do seu filho?
Os filhos carregam a culpa dos pais.
A minha família não quer saber de um filho do pecado.
Acabará num convento como outros bastardos.
A verdade habita no interior do homem.
A verdade habita
em si.
Esta correspondência é privada. Não tem direito.
Na verdade, tenho.
Como seu confessor.
O que é isto?
Quer dinheiro?
Cuidado com a forma como me fala, Sua Senhoria.
Não é a única carta que tenho em meu poder.
Então, o que pretende?
A salvação da sua alma.
Não a acusarei perante o Santo Ofício.
Mas como seu confessor e guia espiritual,
tenho de a proibir de voltar a ver a sôr Juana.
A lista de proibições é muito longa.
Proibiu o teatro, as lutas de galos, as touradas.
Está a encerrar as que chama de mulheres más
no convento de Santa María Madalena.
Sei o que se passa.
O arcebispo está a tentar pôr a colónia em ordem.
- Não me parece mal. - Sua Excelência.
Para o povo, pão e circo.
O arcebispo está a tirar-lhes o circo
e o senhor não lhes dá pão.
O divertimento tem uma função.
Distrair as pessoas dos seus problemas.
Neste caso, a falta de água, a fome e a pobreza.
Sente-se a tensão nas ruas.
Precisamos de entreter o povo ou não o conseguiremos controlar.
Sua Excelência.
As visitas dos vice-reis às Jerónimas está resolvido.
Padre Antonio.
Eu sabia.
Sabia que podia contar consigo.
A virtude triunfou.
Mas temos de ficar atentos.
Uma mulher educada é perigosa,
enclausurada ou não.
Mas obrigado, padre Antonio.
Padre Nuñez.
Estas joias dariam de comer a muitos dos nossos fieis.
Todas, exceto esta.
Vamos.
Vamos.
Um.
Dois.
Três.
Que generoso, padre Nuñez.
Mais alguma coisa?
- Não, Sua Excelência. - Muito bem.
Meu Deus.
- Meu Deus, ajuda-nos. - O que se passa?
A sôr Francisca teve uma visão aterrorizadora.
Com os olhos da minha alma,
vi uma luz de fogo
a cruzar o céu, no quarto minguante.
- É a chegada do Senhor? - Estou a vê-lo. É um cometa.
Um cometa!
Vi um cavalo pálido
e o que estava sentado em cima dele
chamava-se Morte.
E o inferno seguia-o.
E foi-lhe dado
o poder sobre a terra
para matar com espada e com fome
e com morte
e com as bestas da terra.
Quem é, irmã?
Como se chama?
O arcebispo diz que isso é romper os votos de clausura.
Só se metade dos nossos corpos estiverem na direção da rua,
e nós temos todos os nossos corpos na direção dos céus,
onde vive o Criador.
É lindo.
O que significará?
O padre Kino diz que é o presságio de uma catástrofe.
Enquanto Sigüenza e Góngora dizem
que é apenas um fenómeno natural.
E o que acha?
Virá sorte ou catástrofe?
A catástrofe já chegou.
"Por mim, as auroras podem tomar outro ofício,
que eu conheço uma luz que sabe acordar as sombras."
A Nicolasa insiste em vê-la, Sua Excelência.
Tentei impedi-la, mas ela insiste.
Sua Excelência.
A Sôr Juana enviou-lhe uma mensagem.
Passa-se alguma coisa?
Sua Excelência, a minha ama convida-a para o convento
e pede-lhe que o vice-rei a acompanhe.
Não gosto nada disto, sôr Juana.
Do que não gosta?
Da presença da vice-rainha.
Pediu-me pessoalmente que obtivesse a proteção dela.
Isso foi antes.
Antes de quê?
Antes do incidente das cartas.
Peço perdão pela minha soberba, por querer imitar o grande Quevedo.
Sei muito bem
o que ouvi na sua cela.
Olhe, Madre,
é a peça de teatro ou ficamos sem criadas.
Não a quero contrariar, seguirei as suas ordens.
Cancelarei a visita, se assim o deseja.
- Não ganho nada com... - Basta!
Já não me engana, sôr Juana.
Já não.
Vou autorizar a representação
para benefício das irmãs,
mas com muita relutância.
Por favor, que se entenda o que dizem.
- Sim, sôr Juana. - Vamos.
Então...
Não me ouviste, Castaño?
Estou a perder a vida e o juízo.
Só a vida é novidade, a parte do juízo não é nova.
Está nervosa?
Um pouco.
Se não gostarem, o pior que pode acontecer é que me queimem viva.
Divina Lysi.
Permite os respeitos cobardes, que te ignoram por vergonha,
que te encontram por humildade.
Não é um sacrifício orgulhoso o que chega aos teus altares,
porque é indigno,
o afeto
de se poder sacrificar.
E também na sua presença vejo que ouvi a verdade,
porque nunca direi o suficiente a alguém que olha como vós.
Sôr Juana Inés de la Cruz.
Todo o mundo fala de si.
E o que direi da vice-rainha.
Sua Excelência honra-me com as suas palavras.
Parabéns, Sôr Juana.
Não há dúvida de que tem o talento de que falam.
A sua comédia é esplêndida.
Diverti-me muito.
Tem um sentido de humor
estupendo.
Deixamo-las com o orgulho de um trabalho magnífico.
Sua Excelência,
tenho o livro que me pediu.
Quer que lho traga, ou acompanha-me para o ir buscar?
A nossa prioresa, sôr María, far-lhe-á companhia com prazer, Excelência.
Vão, claro.
Minha senhora.
Pensei que morria na tua ausência.
O padre Nuñez sabe tudo.
- A prioresa também. - O que podemos fazer?
Negar tudo, minha querida Lysi.
E aproveitar cada segundo que consigamos roubar.
- Está tudo bem? - Sim.
Madre, entre.
Sua Excelência.
Sôr María.
Tenho de lhe agradecer por tudo.
Foi uma noite estupenda.
Estou encantada.
Aceita um copo de licor?
Vamos.
Muito obrigada, prioresa, mas tenho de ir.
Eu acompanho-a.
Conheço o caminho.
Minha senhora.
Tinta e papel, minha filha.
Querida Lysi...
Estas mulheres más arrependeram-se.
Aqui guardadas, não poderão instigar o pecado.
E estarão mais próximas de Cristo que vela pelos seus servos.
Também não lhes faltará teto e comida.
Queria que visse isto, padre Nuñez, para lhe fazer uma pergunta.
Como conseguimos limpar o vício das ruas,
mas não dentro dos nossos conventos?
O padre Alonso disse-me que a sua freira
desobedeceu a minha ordem do teatro.
Não sabia.
E, não só isso,
outros dois dos seus fiéis
assistiram à peça.
O vice-rei e a vice-rainha.
- Deve haver um mal-entendido. - Não há mal-entendido nenhum!
Tem uma maçã podre que infeta as outras.
Se não a acalma,
está a demonstrar a sua incompetência.
E terei de o retirar do seu posto de confessor do vice-rei.
Não me pode retirar de um posto atribuído pelo vice-rei.
Não poderá ser confessor se for excomungado.
Agora mesmo, padre Nuñez.
- Não se atreveria. - Não me desafie.
Não me desafie, padre Nuñez.
Proíbo as comédias e o que fazem os senhores?
Vão ao convento ver uma obra de teatro.
E escrita por uma freira.
E que mal fizemos, Sua Excelência Reverendíssima?
Sua Excelência.
Estranho que o senhor, mais do que ninguém,
não conheça a importância de dar um exemplo moral.
Sabe, Reverendíssimo,
que as suas proibições estão a alterar o ânimo do povo.
Não só entre o povo,
mas também na corte.
Nem pensar.
Agradecer-me-ão no final da vida.
Vidas que serão muito curtas, se continuamos assim.
Os meus conselheiros têm razão
ao pensar que haverá uma revolta se as proibições não forem suavizadas.
- Quer ser culpado disso? - E o senhor quer?
Porque assim será, se o senhor e a vice-rainha
não deixarem de ir aos conventos.
Que está a insinuar, Excelência?
Somos todos súbditos da corte de Espanha
e eu o seu representante.
- Não está acima de ninguém. - Eu é que mando nos conventos!
No entanto, permitirei a Vossas Excelências
que façam duas visitas anuais.
Não mais do que isso.
É ele.
É o cavaleiro cujo nome é Morte.
Que o Senhor Todo-Poderoso
entre neste convento
que, durante tanto tempo,
iludiu o rigor da Sua palavra.
Em nome do Pai, do Filho
e do Espírito Santo.
Ámen.
Que o Senhor esteja convosco.
E com a sua alma.
Vai ficar em boas mãos, menino.
Vão tratar-te vem.
Não! Não o levem!
Aqui, trataremos da tua mãe.
Que Deus te abençoe e te guarde, pequeno Maríano.
Estão à espera.
Porque me queria ver?
Para pedir a Vossa Reverência
que me devolva as cartas.
E porque o faria?
Porque temos um pacto.
A única que tem pacto
é a senhora com o Diabo.
Mais uma vez, não me mostrou o que escreveu.
E, mais uma vez,
houve um escândalo.
Como pode estrear uma comédia?
Não percebeu que era proibido?
Parece que agora tudo é proibido.
Pensar,
viver.
Amar.
Está a perder a orientação moral,
sôr Juana.
- Enxergue-se. - Olhe o senhor para mim.
Estou desfeita.
Tirou-me a única coisa que me interessava na vida.
Tentou afastar-me da escrita,
do mundo.
- Agora, da María Luisa, e consegui-o. - María Luisa?
Quanto à-vontade.
Pedi que cuidasse de mim
e a única coisa que fez foi estar contra mim.
Posso protegê-la de todos, menos de si própria.
Rogo-lhe, Vossa Reverência,
que, se não me quer favorecer, não se lembre mais de mim.
Veja bem o que diz,
sôr Juana.
Lembre-se que ainda tenho cartas suas, comprometedoras.
Publique-as!
Será ainda mais famoso à minha custa.
É o que quer? Ou quer mandar-me para a fogueira?
Diz cada coisa, sôr Juana.
Faça o que quiser de mim.
- As suas ameaças já não me intimidam. - A única coisa que quis,
uma e outra vez,
foi salvar a sua alma vaidosa e arrogante.
Como é que a minha salvação
será através do senhor?
Até logo, padre Antonio.
Já não preciso de si como confessor.
BASEADO EM EVENTOS REAIS
Legendas: Dina Almeida
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