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Quando chegamos na igreja, ela ficou amarela.
Totalmente amarela.
Depois ela ficou azul.
A autópsia não soube dizer se ela foi estuprada,
porque a pelve foi queimada.
Mas, revendo o caso, notei algo que deixamos passar.
Síndrome de Mondor. Aparece com a anemia.
Por isso a pele pálida.
Aí vem a icterícia,
e o corpo fica amarelo.
Quando o quadro fica mais grave e irreversível,
acontece cianose.
Ou seja,
a pele fica azul.
Não, não entendi.
Não entendi o que isso tem a ver com a possível gravidez da Ana.
É uma infecção.
Acontece quando fazem o procedimento
em lugar sem assepsia ou com material mal esterilizado.
Se a Marcela disse a verdade,
e a Ana morreu antes de ser esquartejada,
é bem possível que a Ana tenha morrido como consequência...
de um aborto ilegal.
CATEDRAIS
Foi aqui.
Você disse que a Ana estava com febre naquela noite.
Que precisava ir ao pronto-socorro.
Por que acha que ela estava com febre?
Foi muito nobre da sua parte guardar o segredo da Ana por tantos anos.
Mas agora precisamos da verdade.
Por ela.
Pela Ana.
Onde você estava?
Tudo bem?
Preciso que venha comigo.
Aonde tem que ir?
Aqui.
Tão longe assim?
Vou abortar.
Mas não pode fazer isso.
Vão te punir, Ana.
E é muito perigoso.
- Ana, deveríamos falar com alguém. - Com quem?
A quem vou contar que estou grávida e não posso ter o bebê?
- Ele está te obrigando? - Não.
Foi escolha minha.
Ele me deu dinheiro.
Marcela, vem comigo, por favor, senão tenho que ir sozinha.
Quando me contou que estava grávida,
ela estava muito assustada.
Eu fui com ela.
Foi horrível.
O Santo Padre chegará a nosso país em abril de 1987,
uma viagem apostólica que promete ser um momento histórico...
Senhora, sabe quanto falta para o próximo ponto?
O Papa irá a várias cidades, incluindo Santiago...
Não sei.
MARCHA POR DEMOCRACIA, LIBERDADE E TRABALHO
Ana, tem certeza?
Ainda dá pra ir embora.
Sou a Ana Sardá.
Ela não pode entrar.
Ela veio comigo. Por favor.
Ela está muito nervosa. Vou entrar.
Espera aqui no corredor. Aviso quando acabar.
- Cuida disso pra mim. - Claro.
Promete que não vai contar.
Eu prometo.
Nunca.
Nunca.
Isso. Respira.
Está doendo.
Você vai sangrar mais uns dias até sair o que ainda ficou.
O melhor é você descansar.
Você está bem?
- Sim? - Sim.
Fiquei com medo.
Não fica.
Estou bem.
- Você está bem? - Sim.
Não paro de pensar no que aconteceu com a Ana.
Foi castigo divino?
Não.
Não foi castigo.
Ela morreu porque foi obrigada
a fazer um aborto ilegal em péssimas condições.
O Deus em que eu acredito
não castiga nem é cruel com uma adolescente desesperada.
Vovô.
- O quê? - Seu nariz.
O que foi?
Está sangrando.
Merda.
Me dá algo pra eu me limpar.
- Vamos pra clínica, te levo. - Não, já vai passar.
Pronto.
Por que não quer se tratar, vovô?
Meu garoto.
Olha, este apartamento ficou vazio por muitos anos.
Eu e minha esposa viemos de Concepción pra cá há dois anos.
Sinceramente, não sei quem morou aqui antes.
Então, se a Ana morreu de infecção por causa de um aborto ilegal,
não tem culpado?
Bom, sabemos que teve acobertamento.
Se quem engravidou a Ana
e quem acobertou estavam juntos,
faz sentido eles terem tentado sumir com as provas.
Queimaram a pelve e o tronco.
Precisavam esconder.
Quem?
Quem é?
A mulher que fez o aborto?
Quem a engravidou?
O Joaquín é suspeito. O pai dele era militar.
Podiam apagar os rastros facilmente.
E o Martín?
O professor de vôlei. Sabemos algo?
SIGMUND FREUD A INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS
SIGMUND FREUD TOTEM E TABU
SIGMUND FREUD MOISÉS E O MONOTEÍSMO
A luz é muito importante. Aqui parece escuro demais.
Olha.
Aqui.
Não entendo por que quer minha opinião, pai.
Estou no segundo ano.
Porque você é quem mais confio no mundo, tá bom?
Você sabe disso.
Então você confia demais. Estou no segundo ano.
Devia falar com um arquiteto.
Tá, filho, mas você estuda arquitetura, né?
Foi o que escolheu.
E você vai virar arquiteto, mais cedo ou mais tarde.
Não vai?
Como assim?
Sabemos que você está em dúvida.
Está curtindo coisas novas e lendo coisas novas.
Aí suas escolhas mudam, e seu estilo também.
Gostei do seu cabelo.
- O que tem? - Está comprido.
Agora liga pro meu cabelo?
Ligo pra tudo que tem a ver com você.
Sempre liguei, não?
Claro, até pros meus livros.
Só estamos conversando porque a mamãe achou os livros.
Olha, você é a coisa mais importante do mundo pra sua mãe.
Você sabe. Tenta entendê-la.
E tudo que ela faz, ela faz por...
- Amor, eu sei. - ...amor.
Mas ela não deve fuçar meu quarto. Sei me cuidar.
Sabemos que precisa do seu espaço.
Você não vai à igreja nem vê seus amigos.
Aí pensei: "Talvez ele queira conhecer alguém."
No nosso grupo do Cristo Pobre,
entrou um casal novo com uma filha incrível da sua idade.
Vi a foto. Posso te apresentar.
Diz que preciso do meu espaço,
mas quer me apresentar à minha esposa?
Não, quer dizer...
Desculpa, você ia casar com Deus e acabou casando com a mamãe.
Por que não posso repensar minha vida?
Nos vemos hoje?
Eu rezei toda noite, padre, mas não apago este fogo em mim.
Obrigada.
A tentação é humana,
mas podemos confiar em Deus.
Ele não nos deixa ser tentados além do que aguentamos.
Na tentação, Deus sempre mostra uma saída.
O espírito é mais forte que a carne.
Não é a carne, padre. É amor.
Como Deus.
É amor. Quero...
cuidar dela.
Quero admirá-la.
Estar do lado dela.
Nada do que você sente é algo que eu já não tenha ouvido,
e é compreensível,
ainda mais passando tanto tempo com a Carmen.
"Se teu olho direito
te induz a pecar...
arranca-o."
Mensageiro da vida
Peregrino da paz
Vamos dar as mãos
O que aconteceu com a Marcela na igreja?
Ela disse que, quando foi pedir ajuda, uma imagem caiu em cima dela.
Pra mim, a teoria mais provável
é que quem levou o corpo da Ana foi a mesma pessoa
que derrubou o santo na Marcela.
E por que ninguém ligou as duas coisas?
Conduziram tudo muito mal.
Como seu pai está lidando com as novidades?
Ele está destruído.
Você olha nos olhos dele e vê que a investigação, a doença...
é demais pra ele.
Devo a verdade a vocês.
Devo a mim também.
Já foi a Machu Picchu?
Tecnicamente, sim.
Mas era época de chuva, não deu pra subir.
Então não. Foi azar. Tenho que voltar lá.
Já viajou pela América Latina?
Um pouco, sim.
Fui ao Brasil uma vez com meus pais.
E também fomos ao Uruguai, num resort all-inclusive.
- Também fui com meus pais. - Não! Sério?
Sim.
O que fez da sua juventude, Mateo?
Brincadeira, só estou te zoando.
Tudo bem.
É a vida que você tem.
O que está comendo?
Foi mal. Sempre faço isso.
Nem percebo.
Jesus Cristo.
É sua primeira vez?
Se eu falar a verdade, vai rir de mim.
- Não vou. - Já riu.
Não foi por mal, desculpa.
Parei. Agora falando sério.
Você é virgem?
- Sou. - Tudo bem.
Sou muito grata por você ter me escolhido.
Não dá pra escolher quando é amor.
É como um raio que te atinge.
Que mulher maluca sairia pra beber com um cara
que trabalha com cadáveres?
Foi o que minha ex-esposa falou quando a conheci.
Ela dizia que eu passava mais tempo com mortos que com vivos.
Por que o povo insiste em casar?
Como se prender um sentimento passageiro a um compromisso
fosse dar alguma segurança. Sei lá.
Prefere relação aberta?
Sou mais tradicional.
Um homem e uma mulher se conhecem, se gostam, transam.
Aí, se der certo, formam uma família.
Básico.
Já que tocou no assunto, como foi sua vida amorosa nesses anos?
Está tarde.
Vou embora.
UNIVERSIDADE NACIONAL - 1986 FILOSOFIA E LETRAS
Senhor?
Tudo bem?
Venha comigo. Vamos sair da rua.
Pode me mandar por e-mail? Aí encerramos.
Beleza, nos falamos depois. Tá, tchau.
E aí? Achou algo sobre o professor de vôlei?
Sim. Ele morreu. Toma.
Ele morreu em março de 1998, em Viña del Mar,
na quinta região, de causas naturais.
Tá. E o que fazemos agora?
Isso complica um pouco, mas ele ainda é suspeito.
Em 1986, ele mudou da escola San Gabriel pra San Gervasio, em Viña del Mar.
- Logo depois da morte da Ana? - Sim.
Ele tem ficha limpa, mas vou investigar.
Mudar de escola naquele momento parece meio suspeito.
- Vamos juntos? - Não, vou pro outro lado.
Vou ver alguém.
Um encontro?
Não como está pensando.
É alguém que não vejo há muito tempo.
Parte da investigação.
Sei.
Vale tudo pela investigação.
Toma.
Obrigada. Tchau.
Tchau.
Oi.
Oi, papai.
O que houve?
- Ele estava perdido, senhora. - Não estava, senhor.
Tá bom. Obrigada. Eu cuido disso.
Vamos ao pronto-socorro, papai?
Está maluca?
A pressão só baixou um pouco.
Papai, você está assim porque não quer fazer quimio.
E também porque você está reabrindo feridas do passado
que não vão dar em nada.
Carmen...
sua irmã tinha um amor secreto
e morreu porque fez um aborto ilegal.
O quê?
O quê?
A Marcela confirmou.
A Marcela?
Mas ela é louca.
Ele chegou com a família.
A filha, que veio da Espanha, e o neto.
Eu estranhei.
Fazia tempo que não via os dois na igreja, nem juntos nem separados.
Não tem nada de errado.
Além disso, é bom a Marcela ajudar o Adolfo no que puder.
- Acha que isso é bom pra ela? - Padre Manuel.
Reconheci sua voz.
Eu disse à sua mãe que fiquei feliz em te ver na igreja.
Estive na igreja?
Com a família Sardá.
Você não voltava desde o acidente.
Não, nunca voltou.
Bom, seja qual for o motivo de você ter aparecido,
quero te convidar pra entrar no coral.
É um grupo bonito.
O senhor me expulsou dele.
- Expulsei? - Sim.
Está confusa, minha filha.
Talvez não lembre,
mas eu e a Ana participávamos da Jornada da Juventude.
A gente ficava horas sem se mexer,
e o senhor não deixava a gente ir ao banheiro, comer, nada.
Aí a gente matava a fome comendo hóstia.
Aí, um dia, o senhor me disse
que eu era ladra, que eu cantava mal
e que não era pra eu voltar.
Tá, tudo bem. Me perdoa. Eu tinha me esquecido disso.
Já faz muito tempo.
Sim.
Bom, esquecer é uma coisa. Outra é...
não querer lembrar.
...bendito o fruto do vosso ventre, Jesus.
...rogai por nós, pecadores,
agora e na hora da nossa morte. Amém.
Carmen.
Sim, padre?
Você sabe que é muito importante pra nós.
Mas, este ano, não vai ao retiro como coordenadora.
Preciso de você na paróquia,
ajudando no refeitório e na coleta de doações.
Essa é sua principal função.
Sim, padre.
- Claro. - Muito bem, minha filha.
- Vocês estudam aqui? - Sim, Filosofia.
Como vai?
Cara, esse é muito legal.
Então? De qual gostou?
Não sei. Estou só olhando.
Posso recomendar um? Que tipo de música você ouve?
- Ana, vamos? - Agora?
- Mas, Lía... - Tenho prova amanhã.
- Mais cinco minutos. - Ana, não.
Ainda não vi aquele lado. A gente acabou de chegar.
- Cinco minutos. Só isso. - Cinco minutos.
Obrigada. Vejo isso outro dia.
É sua irmã?
- O que te importa? - O que foi?
- Nada. - Como assim, "nada"?
Não sei.
Não entendo por que não me liga nem vai mais pra aula.
Lía, sou uma pessoa livre.
Você também.
"Que nada nos defina. Que nada nos sujeite.
Que a liberdade seja nossa substância." Simone de Beauvoir.
- Oi. - Oi.
Não acreditei quando você me procurou.
Como você está? Quanto tempo! Vai ficar até quando?
Não sei, mas espero que pouco.
Estou surpresa.
Achei que você ia seguir carreira acadêmica,
dar palestras pelo mundo.
Bom, tocar uma concessionária é bem mais fácil.
O povo adora comprar carro.
Eu só leio por prazer.
E você? Me conta. Por que voltou?
Meu pai está doente.
Sinto muito.
Posso fazer uma pergunta?
Sim, claro.
Descobri que minha irmã Ana tinha um amor proibido...
e acho que podia ser você.
Você gostava dela.
Sim.
Lembro que ela era linda, mas não tive nada com ela.
Eu a vi uma ou duas vezes, mas só junto com você.
Lía, não me olha assim. Está me acusando de algo?
Não sei.
Talvez.
Olha.
Entendo que esteja com raiva de mim. Foi muito difícil...
Foi a pior fase da minha vida, Andrés.
Você foi embora.
Você sumiu.
A gente não namorava,
mas tinha um vínculo.
Eu te admirava.
Eu te amava.
E achei que você ia me ajudar,
porque sempre tinha resposta pra tudo.
Lía,
eu tinha 20 anos.
Eu era um idiota, um narcisista.
Não sabia lidar com isso nem o que te dizer.
Eu estava de luto, e você me machucou mais.
Desculpa.
Adolfo?
Pois não?
Oi.
Sou a Lourdes. Eu e a Ana estudamos juntas.
Lourdes!
Entra.
Não, obrigada. Prefiro não entrar, estou sem tempo.
Há alguns dias, a Lía foi lá em casa procurando meu marido, Joaquín,
por causa da investigação e tal.
As lembranças da Ana e da nossa amizade voltaram com tudo,
aí fui rever umas coisas.
Documentos, coisas da escola, e...
E achei este álbum de fotos do último retiro que fizemos juntas.
Achei que o senhor fosse gostar de ficar.
Obrigado.
Não sei de onde veio a suspeita, mas...
o que posso dizer é que...
na noite em que aquilo aconteceu com a Ana...
o Joaquín estava comigo.
Não tem como ele estar envolvido.
É impossível.
Deus está ouvindo.
O que te aflige, filha?
Estou angustiada.
Começaram a investigar a morte da Ana.
Como se já não bastasse o papai doente e toda essa dor.
Estão dizendo que...
minha irmã Ana morreu por causa de um aborto.
Essas histórias...
só mancham a memória da minha irmã.
Sinto tudo isso...
aqui...
no meu peito.
O que eu faço,
padre?
Lembre dela pela verdade que você viveu ao lado dela.
É assim que você limpa o nome dela.
Com a sua memória.
Eu esperava que fôssemos juntos ao retiro.
Eu também, mas gosto de estar onde precisam de mim.
Sim, mas não é isso.
Você é melhor com as meninas.
O problema é outro.
Qual?
É isto...
Isto que tem entre nós.
Este desejo incontrolável que sinto por dentro.
Não passa nem rezando.
- Não consigo parar. - Não, isso não é certo.
Você tem um compromisso com Deus.
Tem certeza que quer isso?
Não é o que eu quero. É o que deve ser.
Não acredito que você está tão feliz. Eu odiava esses retiros.
Por quê?
Ficar longe de casa, longe da mamãe, na praia com gente da minha idade...
É meu sonho.
E a Carmen não vai.
Não tive essa sorte.
Pena que a Marcela também não vai.
- Sério? Por quê? - Tem que visitar a avó na Argentina.
- Arrumou tudo? - Sim. Tudo pronto.
Lembra que o importante é encontrar Deus, não se divertir.
Prometo me divertir o mínimo possível, tá bom?
Ana, não fica com preguiça e não me faz passar vergonha.
Quando fui preguiçosa?
Não vai sentir tanta saudade.
- Cuida do meu walkman. - Claro que cuido.
Papai!
Legendas: Gabriel Ponomarenko
Supervisão Criativa Rosana Cocink
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