All language subtitles for Las Noches de Tefía S01E05

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Original subtitles

Deixa-te levar

Aceita o incrível

O limite do possível

Rebenta e imagina

AS NOITES DE TEFÍA

Bem-vindos ao Tindaya

Bem-vindos ao Tindaya

Bem-vindos ao Tindaya

Bem-vindos ao Tindaya

Esta noite, despedimo-nos de um amigo que nos deixa para sempre.

Um homem silencioso e cobarde, mau pai, marido mentiroso,

um amigo básico e amante. Traidor.

Sonhem connosco Atrevam-se a sonhar

Atrevam-se a imaginá-lo A dar forma ao real

Bem-vindos ao Tindaya

Bem-vindos ao Tindaya

Bem-vindos ao Tindaya

Bem-vindos ao Tindaya

Bem-vindos ao Tindaya

Bem-vindos ao Tindaya

Atreve-te a sonhar

Deixa-te levar

Atreve-te a imaginar

A dar forma ao real

Bem-vindos ao Tindaya

Bem-vindos ao Tindaya

- Sissi? - Não, não.

Aos 30, como a Marilyn, para ser eternamente bela, tudo bem,

mas com esta idade, querida?

Olha, aperaltei-me toda para fazer-te uma surpresa

e olha o que me arranjaste. Bambi.

Bambi.

Como me encontraste?

Vi o obituário da Vespa no jornal. Teve o teu dedo?

Foi o que pensei, quando te vi na televisão.

Estavas com ele? Ainda bem.

É triste morrer sozinho.

- Não lhe servi de grande coisa. - Claro que serviste.

Estás linda.

- Como tens passado, Sissi? -"Comme ci, comme ça".

Fui para Paris. Atuei no Le Carrousel e fui uma estrela.

Umas vezes, nos píncaros, outras vezes, no lodo.

Decidi voltar quando a minha estrela se apagou. E cá estou eu.

A trazer algum glamour para o bairro que me viu nascer.

Não é fácil ser glamorosa com uma pensão de 300 euros, sabes?

- Foste a Casablanca? -"Bien sur, chérie".

Anda lá, maricas.

Antes de venerar a Paca, pego nisto e faço assim.

És mesmo animalesca. E o que vais fazer quando estiver no Tindaya?

- Dar-lhe um pontapé nos tomates? - No tomate, dizem que só tem um.

Um grande e livre.

Se lhe vais dar um pontapé no tomate, nem imagino o que fará a Nisa.

Já estás a imaginar.

Gostava era de saber o que o Charlie fez à Nisa na vida real.

Mexam-se!

Devíamos era saber o que andam aqueles idiotas a tramar.

Devia ir duas semanas para o buraco só por escrever isto.

Quero que o diretor-geral fique com boa impressão da colónia,

não convertê-la num ponto de paragem.

- Na minha modesta opinião... - É mais opinião do que modéstia!

Dom Anselmo, se os internos comerem melhor,

não forem castigados fisicamente e andarem limpos,

acabarão por ser mais obedientes.

Será muito fácil que o diretor-geral veja,

utilizando as suas próprias palavras, se me permite,

um monte de escória social reabilitado

e transformado em cidadãos afetos ao regime.

Os marionetistas e a sua verborreia habitual.

Acha que lhe facultarei tudo isso só para criar um cenário fictício?

Dê-me três dias e um grupo de homens e verá do que sou capaz.

Dou-lhe dois.

- Mais uma coisa, Dom Anselmo. - Não me diga?

Se o meu plano funcionar

e conseguir o seu objetivo,

quero que me assine a carta de liberdade.

Vá lá.

Cheguei a pensar que estava mesmo preocupado com os seus camaradas.

Nunca podemos confiar num idealista.

É bem melhor assim.

Faça com que me sinta generoso.

Dois dias.

Meus senhores, não esperava esta reação

a poderem comer melhor, trabalhar menos,

e a tomar banho duas vezes por semana.

Para ajudar esse filho da mãe a sair daqui.

- Vamos comer melhor. - E vamos fazer-lhe um servicinho.

- Mas eu quero tomar banho. - Vespa, pensa bem,

a tua vida aqui vai melhorar. A tua e a de todos, o que nos resta.

E o que ganhas com isso?

Como assim, Boncho? O mesmo que todos.

Não queiras enganar um trilheiro. Ninguém faz nada de borla.

O ladrão a pensar que todos são igual a ele.

És mesmo parvo. Picado porque a Nisa me prefere.

Pronto, deixa lá, Boncho. Se não queres viver melhor,

ficamos na pedreira até rebentar. - Não, Charlie.

Calma, relaxa. Ainda não te disse que sim, pois não?

Lá está. Ainda tens de convencê-lo.

Na cara, não, amanhã vou para Pardo.

Manda cumprimentos à Collares.

Há que vencer a resistência à abertura.

Vamos para lá!

O capitalismo toca-nos à porta depois de 25 anos de paz.

Se querem manter as bases, que paguem.

Se querem conter o comunismo, que paguem.

Jantar de gala no Pardo e um copo de despedida no cabaré da moda.

Porque Espanha está de festa, caraças!

Sim! E quem será a estrela do cabaré?

Quem será a estrela do cabaré?

Quem será a estrela?

- O que aconteceu? - Pai.

Está tudo bem, querida.

- O médico disse que estavas quase... - Não, eu estou bem, a sério.

Estava stressado e abusei da bebida, mas jamais pensaria...

Boa, isso mesmo. Mas é melhor ser examinado pelo psiquiatra.

- Acha, doutor? Eu sinto-me bem. - Sim, é melhor.

Vou marcar a consulta e preencher o papel da alta.

- Muito obrigado. - Não têm de quê.

Olá, sou a Sissi.

- Olá. - Os meus filhos.

- Estamos contigo, pai. - Eu sei.

E tudo aquilo que se criou... Lamento.

- Está tudo bem, meu amor. - Mantém-te calmo e cuida de ti.

Vai correr tudo bem, sim?

Mas não fiquem com essas caras, porque está tudo bem comigo.

Estou bem, não gosto de vê-los assim.

- Não é, Sissi? - Sim, estás ótimo.

Eu estou bem.

Pronto, meu amor.

Se não sou o que pareço, nem pareço o que sou,

também sou um cenário inventado. - O que estás a dizer?

Olha, são bananas!

- Deixa-me tirar uma. - Eu corto-te a mão!

Faz parte da decoração.

Que comece o espetáculo!

Espero poder contar com a vossa discrição,

mesmo não sendo a principal virtude das pessoas do meio artístico.

O Tindaya mostrará ao mundo que Espanha é um país

próspero, moderno e livre.

Este confundiu-nos com a Virgem de Fátima.

Obrigado. Antes de voltar aos meus afazeres,

quero apresentar-vos a dona Obdulia Sáenz de Heredia.

Um aplauso, por favor.

Tem um guaxinim na cabeça.

Muito bem.

Será a minha representante durante os ensaios do espetáculo

que vamos a criar especificamente para a ocasião

e, bem, estará aqui para resolver

as dúvidas que possam surgir sobre os conteúdos do espetáculo.

Não, não. Não estou aqui para impor limites à criatividade e imaginação.

Aliás, desejo que me venham a considerar mais uma entre vocês.

Tenho, o senhor ministro sabe,

uma vasta experiência na direção festivais da Secção Feminina,

onde creio ter desenvolvido, segundo dizem,

porque eu farto-me de fazer e...

Mas creio ter desenvolvido um sexto sentido

para captar a expressão pura da espanholidade.

Olé.

Uma essência que se mostrará ainda mais poderosa

através de sua arte.

O braço... Vai ficar todo dormente.

Será uma honra contar com a sua inestimável ajuda, dona Obdulia.

Estou ansiosa para começar com as audições.

Como assim, audições?

Audições?

Ouve, querida, foi a Collares que escolheu a dona Obdulia

para garantir que o que vir aqui não a leva diretamente ao inferno.

Farei o que puder, amor, mas tens de merecê-la, sim?

E tu és uma estrela.

Vamos.

Raça de mulher espanhola, mistura audaz de feminilidade e força.

Como te chamas, criatura?

- Sissi. - Sissi. Imperatriz,

mas também diminutivo de Isabel, a Católica, rainha de Espanha.

Estás rouca, não estás, amor?

Não há problema.

És a quintessência da mulher espanhola.

Uma mulher a sério.

Tens de arrasar nas audições, sim? És a minha preferida.

Vinde comigo.

Por aqui, Dom Anselmo.

Engenhoso, mas inútil.

Para funcionar, teríamos de comprar umas 500 bananeiras autênticas.

- Nem pensar! As oliveiras bastaram. - Isto é apenas a primeira parte.

Digamos que é o engodo. Estabelecido o que se quer mostrar,

é uma questão de jogar com a perspetiva.

Precisamos da localização perfeita para a ilusão resultar.

Bastaria uma fileira de bananeiras autênticas.

Uma dúzia seria suficiente, Dom Anselmo.

As de trás seriam tão falsas como aquelas ali.

Serão dispostas como um cenário teatral que nunca abriremos.

E não é tudo.

Tomates.

Isto é tojo pintado de verde e bolas de papel pintadas de vermelho.

Bananas e tomates. Tefía cultiva a bandeira de Espanha.

É só fazer com que o diretor-geral as veja à distância necessária.

Voltem aos vossos afazeres. Venha comigo.

Vou melhorar o rancho, a higiene e a jornada de trabalho.

Se o plano for bem-sucedido e enganarmos o diretor-geral,

terá a sua carta de liberdade mal ele saia porta fora.

- Como posso ter a certeza? - Porque acabei de lho dizer.

Com o devido respeito, Dom Anselmo...

A sua única opção é confiar em mim.

Escute, se conseguir o que quero,

pouco me importa onde acabam vocês. No entanto, se fracassar,

moverei mundo e fundos para o enterrar neste deserto.

Vá, toca a trabalhar.

Eu estou bem, querida.

Vou preparar-lhe um molho de pimentos de lamber os dedos.

Se não gostar, paciência, porque não sei fazer mais nada.

- A cozinha não é o teu forte. - Pois não.

- Porquê Bambi? - Vai-se lá saber porquê.

- A Vespa batizou-nos a todas. - Foi pelos teus lindos olhos.

Não, nada disso. O que ela disse foi...

Com esses teus olhos de susto, ficas a Bambi.

- Calou-me logo ali. - Não te armes em melodramática.

O medo era o pão nosso de cada dia.

Lembra-te daquele dia em que me caiu a peruca

e saí a correr. - Para fugires?

Nada disso, miúda. Ali, nem valas havia,

Havia o deserto, o mar e, depois do mar, um país da treta.

- Avô. - Bambi.

- Olha para esta maldita a rir-se. - Se queres fugir...

Tira-me os saltos, pois parecias uma mariconça e...

Foi uma autêntica vergonha!

Não te rias!

Foi o que me disse a idiota da Vespa no meu leito da morte.

Depois, a Séries inventou para mim o Tindaya.

- Sejamos francos, senhores. - Viva, Espanha.

Kennedy.

- Kennedy. - Sim.

O presidente Kennedy é um porco.

- Um porco, dona Obdulia? - Um porco.

- É um senhor... - É um porco! Sei do que falo.

Vi-o numa peça censurada com aquela atriz loira

que lhe cantava os "Parabéns", praticamente nua.

- O que está a dizer? - Isso mesmo.

Por isso, se queremos ganhá-lo para a nossa cruzada, temos de tentá-lo.

A voz tem de ser de uma mulher. mas não uma qualquer.

Aqui tem, esta é uma cantora incrível.

É incrível, incrível! Incrivelmente ruiva.

Temos de aproveitar a fraqueza do americano.

Esta aqui.

É a representação perfeita da mulher espanhola.

- Bem, se ela... - Ela é especial.

Sei bem do que falo, meus caros.

Temos aqui um encanto feminino,

capaz de revigorar um guarda do ocidente.

Uma mulher a sério.

Não rondes mais

Fora dela tu estás

Não conseguirás apanhar Quem vive

No Tindaya

Deixa-te levar

Assume a sua natureza

Aqui, a verdade é beleza

E a beleza É verdade

Sou o que sou Sou espuma salgada

Sou o que sou

Pedras de lava E flores de tojo

Uma alma incandescente

O que vês indecente É coisa do teu olhar

Sou o que sou Sou a luz de Mafasca

Montanha sagrada

Pedra de lava E flores de tojo

E perdão não pedirei Sou o que sou

Esta é a minha casa!

Sissi.

Querida!

A Séries dizia sempre que tinha de haver conflito

para a história resultar. E houve de sobra.

Deixa alguma coisa para o próximo capítulo.

Não, avô! Quero saber como acaba a audição

e o que disseste quando chegou o Franco e o Kennedy.

E prometo que te contarei, querida.

Mas já é tarde e não quero que a tua mãe fique preocupada.

Descansa, querida, aqui a Sissi fica de guarda.

O que vês indecente É coisa do teu olhar

Sou o que sou

Ainda tens muito que fazer aqui, querido.

Não te lembras de coisas do Tindaya mais reais do que Tefía?

Filho da mãe. Não posso crer que me tenha feito isto.

Mas estavas à espera de quê, Sissi?

Esta receção supõe um risco muito grande para ele.

Não serás a voz, mas podes ter a certeza que será o número de todos.

- Claro. - O número que nos permita

não ter de dar explicações sobre o que podemos fazer ou não, Sissi.

- Uma noite. - Uma noite.

Um número e tudo mudará para nós.

- Uma noite, Charlie. - Isso mesmo.

- Um número. - E tudo mudará para nós.

- Vá lá, vamos, meninos. - Para onde?

- Vamos lá, meninos! - As meninas também?

As meninas também! Vamos lá! Não temos o dia todo.

Tem cuidado com esta, que é verdadeira. Isso mesmo.

Muito cuidado com as bananeiras, sobretudo as verdadeiras.

A Séries vem aí.

- Quanto mais subir, pior ficará. - Já está a agoirar.

Eu, como Rainha Banana, desejo que as minhas bananas

alimentem as crianças de todo o mundo.

Olha para este filho da mãe. Fica tão lindo quando se ri.

Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete e oito.

Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete e oito.

Um, dois, três, quatro, cinco, seis... Alto!

Já expliquei mil vezes!

- Cinco e seis e viva Espanha! - Viva!

Podes dar as ordens como um homem, caraças?

Robles!

- Larilas! - Posso continuar, Charlie?

Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete e oito.

Um, dois, três, quatro, cinco, seis...

Viva Espanha!

Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete e oito.

Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete e oito.

Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete e oito.

Vá lá meninos, desde cima. E...

Vamos acabar com isto, querida.

Larga-me, maricona.

Larga isso. Depressa.

Senhores, vamos lá, a andar. Não temos o dia todo.

- Só apanharam isto? - O que queres? Era o que havia.

Não havia mais, Charlie.

Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete.

Bem-vindos EUA

A terra do Sol Onde tudo é divertido

Amamos os EUA

Amai-nos também

Ramsés! Para!

Mas o que se passa aqui?

Isto não é assim tão difícil, pois não?

Não? Então, faz tu. Idiota!

Nisa! Nisa! Nisa!

Aquele orgulho da ruiva...

Mãos para cima! Com precisão!

O que tens? Porque foi isso? És uma profissional.

Ferve-me o sangue sempre que vejo aquela mulher a criticar.

É só uma noite, um número, para fazermos o que queremos.

O que queremos?

- Se correr bem, seremos intocáveis. - Intocáveis? Vá lá.

Não aguento ter de fingir perante ela que nada se passa.

Está bem, Nisa, ouve. Temos de ser inteligentes.

Ganhemos terreno aos poucos e voltaremos a criar livremente.

Vamos fazer isso juntos.

Deixar as variedades de uma vez e começar a fazer teatro.

Teatro de verdade, como fazíamos na universidade, lembras-te?

Vejam só. Uma pessoa vira costas e fica logo sem mulher e sem negócio.

Não sou tua mulher, nem este é o teu negócio.

E tu? Vais prosseguir com o ensaio ou procuro outro diretor?

Como se isto tivesse algum futuro sem mim.

Contigo ou sem ti, o futuro não me parece risonho.

Vou ensaiar.

O Charlie é um chato, só fala em coisas de que só ele sabe.

- Voltar ao teatro. Mas que teatro? - A sério?

Temos de fazer-te um desenho. O Charlie e a Nisa enrolaram-se!

Que seja! O Charlie só quer saber do seu umbigo, tal como aqui.

Vejam só, que belo pedaço de carne. Não é incrível?

Não sei se hei de comê-lo ou venerá-lo.

Boncho, os guardas estão muito meiguinhos.

E os duches?

Estás picado por causa da Nisa, mas isto está a mudar imenso.

Dão-nos uma migalha e esquecemos logo quem somos.

A Nisa está a converter o Bonchito em revolucionário.

O Boncho ama a Nisa. O Boncho ama a Nisa.

- O Boncho ama a Nisa. - Cala-te!

Então? Querem um licor e um charuto para fechar a sobremesa?

Caía bem.

Oiçam, temos muito que fazer.

- Senhores! - Só falta acabar com uma porrada.

Porque não pedes um cassetete ao teu compadre?

És mesmo idiota quando queres, Boncho.

- Pois sou. - Vá lá, mexam-se.

Esta noite, tenho para vós uma surpresa no Tindaya.

E eu tenho outra.

Ouve, de certeza que a Nisa não gosta dessa treta colaboracionista.

Sabes do que não gostaria a Nisa?

- De ter um chulo como tu na equipa! - Boncho!

O que fizeste, filho da mãe? Também a vendeste a ela?

Se isto vos incomoda assim tanto,

são livres de voltar para a pedreira quando quiserem.

Pessoal das bananeiras, vamos!

- Olá. - Pai! Que surpresa!

- Não devias estar aqui. - Eu estou bem, querida.

Bem, não deves estar.

Foi uma intoxicação. Qualquer coisa que não me caiu bem.

- Estão reunidos? - Tínhamos umas coisas para decidir.

- Nada de importante. - Regresso segunda-feira.

- Não há pressa, descansa. - Sim, quero voltar à normalidade.

Isso vai ser difícil.

Vou buscar uns documentos que preciso.

Quando soubeste que eras uma mulher?

E quando soubeste tu que eras um homem?

O que me mostraram desde que era pequena,

e da pior maneira possível,

era que não podia ser o que sentia ser por natureza.

Tiveste medo de ir a Marrocos para ser operada?

- Estávamos nos anos 70 - Medo?

Não sei o que é viver sem medo.

Mas posso dizer-te que, nesse momento,

ou era operada ou preferia morrer.

E como gosto de viver, pus-me a caminho.

O que dirias aos mais jovens?

Que devemos celebrar o facto de neste país

se poder legalizar o casamento igualitário.

E que não esqueçam que esta lei esconde uma tremenda dor

e muito injustiça.

Que é extremamente difícil conseguir avançar

e muito fácil andar para trás.

Devem celebrar, porque a luta continua,

mas hoje poderemos dançar.

As fotocópias dos BI?

Vou juntar tudo aos expedientes.

Quero apresentar para a semana no Ministério.

Falta ver determinar a quantia das indemnizações.

Tenho vergonha de pedir esse dinheiro.

Não é vergonha, Bambi. Vergonha é o que nos fizeram.

Vergonha é quererem que viva com 300 euros por mês.

É uma forma de reconhecer oficialmente as vossas histórias.

Querem ver o que preparámos para o aniversário da abertura de Tefía?

Uma festa com balões?

Bem, como sabem, o edifício principal da colónia

é agora um albergue juvenil por onde passam centenas de jovens

que ignoram o que ali aconteceu há apenas 50 anos.

Pelo menos, haverá um depoimento.

Seria incrível contar com a vossa presença no dia da inauguração.

- Eu, não. Não consigo. - Tudo bem, eu vou.

O teu nome já é público. Tens a responsabilidade...

- Yeray, agora não. - Então, quando será?

Este silêncio é o que eles querem para manter tudo na mesma.

Na mesma? Não será na mesma, querido.

Acho muito bem que se celebrem estas coisas

como o desfile do Orgulho com o espetáculo nas ruas.

cada coisa a seu ritmo.

A nós, arrancaram-nos o orgulho à porrada.

Sim, o que quero dizer...

Dizes que vais colocar uma placa comemorativa em Tefía

para que quem a leia sabia o que ali aconteceu.

Muito bem, mas eu tenho isso gravado a fogo

e não passa um único dia em que não pense nisso.

Por isso, podias mostrar um pouco mais de empatia

para com aqueles que passaram por aquele inferno,

o qual tu, felizmente, não consegues sequer imaginar. Vamos.

- Cuidado, está aqui um arame. - Sim.

Faça favor. E tem aqui um cabo que não se vê, mas pode passar.

O que é isto? Por favor! Está a gozar comigo?

Não, esta é a parte traseira, a do embuste.

- Não, é um autêntico lixo. - Oiça, como lhe disse,

a ilusão é uma questão de perspetiva.

O diretor-geral nunca verá a plantação daqui.

Começará por ali e dará a volta até chegar ao ponto exato.

- Acompanhe-me, por favor. - Por amor de Deus, porquê?

Porque me meti nisto?

Tenha paciência, por favor. Por aqui.

Vá lá, suba aqui, por favor.

Sim, é... Impressionante.

Mas o diretor-geral não pode aproximar-se...

Por isso construímos este pedestal, para que veja tudo a partir daqui.

E mostramos-lhe a plantação na hora de maior calor para não se aproximar.

Está bem.

Que Deus nos ajude. Vamos.

Muito bem. Virem-se todos para mim.

O Generalíssimo estará sentado aqui.

Vamos, "Tranché".

Para.

Por que não cantas?

- Porque não consigo. - E porquê?

Porque não posso cantar para um assassino.

- Nisa! - Nisa, por favor!

Chega!

O que disseste, querida?

Não posso cantar para um assassino,

traidor e golpista. Não!

Não posso cantar para um regime fascista.

E não posso cantar pela minha mãe.

Quando acabar contigo, maldita ruiva,

a purga que fizemos ao teu pai parecerá uma brincadeira.

Nem imagino o que terão feito ao ministro para o ter do vosso lado.

Mas eu mesma contarei ao Carrero o que aqui se passa.

Vão acabar todos numa colónia penitenciária

ou não me chame Obdulia María de...

A vingança da secundária!

Obrigado.

- Sinto muito por aquilo... - Tudo bem.

- O quê? - Não me interessa o que sentes.

E não me interessaria se tivesses morrido

dessa patética tentativa de sair de cena.

Teria pena pelos miúdos.

Esse teu olhar já não me diz nada.

Pedi-te... que me poupasses a isto.

E devias-me isso, pelo menos. Que o poupasses aos teus filhos.

Mas pronto, não vale de nada. Está feito.

Não há mais nada para falar.

Não quero falar mais. Eu acompanho-te.

Por favor.

Águeda, eu... Ouve.

Eu vi-te.

Eu vi-te com esse Manuel Flores.

Tínhamos acabado de nos separar. Vi-vos numa varanda.

Vi como olhavas para ele e como te fazia rir.

O brilho nos teus olhos.

Filho da mãe.

Vi algo em ti,

algo que nunca tinha visto em 25 anos de casamento.

Garanto-te que fui completamente fiel enquanto estivemos casados.

Sim.

- Foste-me fiel? - Sim.

Por nunca teres dormido com um homem enquanto estávamos juntos?

- Eu amava-te! - Não, eu é que te amei!

Amei-te com toda a minha alma, com a força de uma miúda de 18 anos.

Por isso, aceitei que o que me davas era o que tinha de ser.

- Tentei amar-te o melhor possível. - Roubaste-me a vida!

Convivi com essa sensação desde que soube.

Aprendi a pô-la de lado para não ser consumida pela angústia.

E, agora, que trouxeste tudo a público,

que me vi refletida no olhar dos meus filhos e de todo o mundo,

posso dizer-te de uma vez...

Não quero voltar a ver-te.

Não me dirijas mais uma palavra.

Nem quero voltar a estar contigo em nenhuma celebração.

Quero que deixes a minha vida de vez.

Vou apoiar os miúdos para que se encarreguem da fábrica.

Receberás a tua parte, obviamente. Mas não voltarás a geri-la.

Agora, sai da minha casa.

Sai da minha casa.

Temos de arranjar uma solução.

- Que solução? Dá-me uma! - Não sei.

Chega! Pronto. Assumo a minha responsabilidade.

Quando acordar, dizem-lhe que fugi e que vá à minha procura.

- A Nisa tem ideias incríveis. - Cala-te, estou a contar a história.

- Não, não! - Mas aonde vais?

Ouve, vão encontrar-te e vão matar-te.

Dizemos ao ministro que foi um acidente.

Claro, o típico acidente em que uma bandeira de Espanha

voa contra uma cabeça!

Bem, quando acordar,

dizemos que lhe caiu um projetor em cima.

- O quê? Que projetor? - Não. Mesmo que acreditasse,

não esquecerá o que eu disse. - Dizemos-lhe que foi um sonho.

Não, não. Para que seja credível,

tens de voltar ao palco, cantar e parar de arranjar problemas.

"Não vou cantar para o Franco, nem pensar que o farei."

Nisa, por favor.

Pronto, vamos todos para a prisão!

Que grande contributo para a luta antifranquista!

Ouve, por favor. Ouve, a sério.

O Charlie tem razão. Temos de ser mais inteligentes.

Para começar, tomariam represálias contra ti e a tua família, Nisa.

- E fechariam o Tindaya. - Não.

Íamos todos para a rua.

Ou pior.

Temos uma oportunidade única para sair desta porcaria

e tu és demasiado inteligente para desperdiçá-la.

Diz-lhe, Vespa. Vá lá.

És demasiado inteligente para desperdiçar esta ocasião única.

E é então naquele silêncio que ela tem uma ideia.

Os olhos dela brilham.

Está bem. Eu canto.

Mas quero sugerir uma coisa para o final.

Para o final? O que se passa no final?

Não será um "grande final". Não remata.

- E rematar é fundamental. - Absolutamente.

Muito bem. E o que propõem?

Matar o Franco.

- O quê? Estás doido? - Caricas!

- Caraças, Vespa! - Pronto, é assim.

A sério? Não vamos mesmo atrever-nos a imaginar?

Vespa, já vi morrerem por menos que isso.

Que realidade horrenda! Essa já nós conhecemos.

Somos obedientes, portamo-nos todos muito bem

e, se for preciso, até comemos algum deles às escondidas.

Então, não andamos a comer assim tantos.

Tu és o pior. És o pior!

Eu já cobrei por pinar. E daí?

Se alguma vez me senti uma vadia foi aqui,

a ajudar o Dom Anselmo para que se ponha a andar.

Por mais divertido que andes com o teu teatro.

Ouve, volto a repetir.

se não concordam com o meu teatro,

são livres de voltar para a pedreira. - Livres de quê?

Sou livre de quê?

Para ir para a pedreira ou para aquele bananal horrendo?

Mete na cabeça que não sou livre para nada.

Não sou livre aqui, nem em lado nenhum.

Sou livre no Tindaya. É por isso que concordo com a Nisa.

Há que matar o Franco.

Que levante a mão quem está de acordo.

Imagino as manchetes.

"Teatro de variedades assassina o Líder".

- Vão chamar-nos "larilas vadios". - Que chamem.

Já pararam para pensar no que nos pode acontecer?

E como o farão?

Ainda não sei.

Mas tenho pensado muito nisso desde que uso a cabeça.

- E o que fazemos com ela? - Para o buraco.

Sim, para o buraco.

Está a chover!

- Não pode ser. - Está a chover!

Abram as portas!

As portas!

Está a chover, Charlie!

Meu Deus! Está a chover, meu Deus!

Está a chover!

Vamos!

Não.

Aqui, por favor.

Muito bem.

Faltam alguns trâmites, mas, a partir de hoje,

Carlos e Nisa são administradores solidários da Tindaya, S.L.

Quando tiver a escritura, enviarei uma cópia.

Muito obrigado. Eu acompanho-o à porta.

- Vamos. - Vamos.

Desejo-vos um bom dia.

Bem, já estou reformado.

Não te preocupes comigo, querida.

Tudo voltará à normalidade.

Há coisas que não, pai.

Lamento.

Nunca chove aqui.

Nunca.

Vamos reconstruir tudo, Dom Anselmo.

Já o fizemos antes. Voltaremos a fazê-lo.

É uma estimativa do que devíamos percecionar por indemnização.

Seriam uns 12 mil euros.

De onde tiraram esse valor?

Devem ter algum tipo de tabelas...

Tabelas? Tabelas de quê?

Sobre tareias? Anos de prisão?

- Violações? - De porradas.

De porradas.

Não sei.

Também deverão levar em conta o tempo de prisão.

- Quanto tempo lá estiveste? - 17 meses.

Pois eu levei com três anos inteiros,

teria de cobrar mais que tu.

12 mil euros.

12 mil.

Sissi!

Pelo menos, estamos cá para contá-lo.

Lacrimosa

Lacrimosa

Lacrimosa

Lacrimosa

Lacrimosa dies illa

Qua resurget Ex favilla

Judicandus homo reus

Huic ergo

Parce Deus

Huic ergo parce Deus.

Pie Jesu Domine

Lacrimosa

Pie Jesu Domine

Dona eis requiem

Lacrimosa

Lacrimosa

Lacrimosa

Lacrimosa

Lacrimosa

Lacrimosa

Lacrimosa

Lacrimosa

Versão portuguesa para RTP: CRISTBET, Lda.

Tradução e Legendagem Daniel Lúcio

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