All language subtitles for Las Noches de Tefía S01E04

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Original subtitles

Toca a viver Toca a viver

Toca a aproveitar a vida Até ao último dia

Praticar a alegria De viver e deixar viver

Toca a viver Toca a rir

Toca a dançar Toca a pinar

Matar o tempo Que o tempo te matará

Assassinos a cantar

Se se pudesse ensaiar A vida correria melhor

Mesmo ninguém conseguindo Melhorar o final

Não faz mal Não faz mal

Tenta outra vez Falha outra vez

Tenta outra vez Falha melhor

Toca a viver Toca a viver

Toca a aproveitar a vida Até ao último dia

Praticar a alegria De viver e deixar viver

Toca a viver Toca a rir

Toca a dançar Toca a pinar

Matar o tempo Que o tempo te matará

Assassinos a cantar

Assassinos a cantar

Malditas cabras, Dom Anselmo.

Mas alguns arbustos ainda têm brotos verdes. Dê-me uns dias e...

Inútil! És um inútil! São todos uns inúteis!

Estou rodeado de inúteis. Meu Deus!

Inúteis! São todos uns inúteis!

Avô.

Minha querida.

Manuel Flores, a "Vespa".

Intitulou-se a ele próprio. Nasceu em Cádis em 1935

e teve o azar de ser um menino da guerra.

Mas nem isso, nem nada, lhe roubaram a alegria de viver.

Não pôde viver a vida que quis. Não lho permitiram.

Mas nunca deixou de tentar. Foi o mais corajoso de todos.

Foi...

... o amor da minha vida.

Mas não soube estar à sua altura.

Assassinos a cantar

Toca a viver Toca a viver

Toca a aproveitar a vida Até ao último dia

Praticar a alegria De viver e deixar viver

Toca a viver Toca a rir

Toca a dançar Toca a pinar

Matar o tempo Que o tempo te matará

Assassinos a cantar

AS NOITES DE TEFÍA

Os cigarros depois de fornicar

são os que sabem melhor.

À glória.

E eu nem sequer fumo.

Já engoli fumo.

"Fortis".

"Imaginatio".

As coisas do Séries.

Como é?

O filho da mãe tem razão, não tem?

Temos de imaginar o que queremos que nos aconteça.

Onde gostarias de estar agora?

Em casa, com a minha mãe.

Sim? Com a tua mãe?

Então, pira-te para junto da tua mãe!

- E tu, onde gostarias de estar? - Longe daqui, isso é certo.

Livre. Livre para viajar.

Para pinar.

Livre para amar.

E para andar por aí a cantar. Num sítio como o Tindaya.

Por onde tenha o meu próprio "fortis imaginatio".

Vamos.

Vamos.

Tu aí! Sim, Tu, que me abandonaste!

Porquê?

Quando levaste os meus pais,

dediquei-me à Tua obra e não Te pedi nada.

Mas agora imploro-Te, Deus Todo-Poderoso,

que me tires daqui. Não aguento mais.

Tira-me daqui.

Se não me tirares, acabarei com todos, um a um.

Vou transformar isto num mar de sangue,

num deserto sem armas.

Caraças, deserto já isto é.

Leva-me daqui!

Quem está aí?

Quem é?

Dom Anselmo!

Carlos.

Olá.

Só o próprio administrador pode convocar o Conselho de Administração.

E eu não convoquei nada.

Também pode ser convocado pela maioria da direção.

Não queres falar comigo e és capaz de convencer

a tua irmã e a tua mãe a agir nas minhas costas.

Nas tuas costas?

Entrego-te uma convocatória para eleger um Conselho de Administração.

Agir nas costas dos outros é o que tens feito a vida toda.

- Carlos, podemos falar? - Amanhã, no Conselho.

Ah, espera. Falavas entre pai e filho?

Mas sabes? É impossível, pois sempre que tentamos, aparece o chefe.

Isso não é verdade.

Não podemos dar muito crédito ao teu sentido de verdade e mentira.

- Carlos, filho, podíamos... - Não, não, não.

É melhor não fazermos o que nunca fizemos.

Gosto de jogar com as cartas viradas para cima, como adulto.

Esperamos-te lá amanhã.

3000 míseras pesetas.

Sem remédio, nem para comprar fardas novas vamos ter. Ai!

Dom Anselmo, acho que as oliveiras ainda...

- Ele a dar-lhe com esta merda... - Tento na língua.

- O que tem? Diz lá. - Trabalhamos há anos nisto!

- Achas que sou idiota? - Calem-se! O pomar foi-se.

Se tenho de ficar nesta colónia, fico, mas com os bolsos cheios.

E o que fazemos quando o diretor-geral vier?

Anda.

Anda.

Amanhã, vai cedinho buscar as tuas cabras

e fala com qualquer pessoa que precisa de mão-de-obra barata.

Aquela escória vai ganhar o dia

e vai devolver-me até à última peseta investida neste buraco.

Sim, senhor.

Dom Anselmo, segundo o meu tio, chegará para a semana

uma equipa para os tratamentos de eletrochoques.

De que me serve agora isso para mostrar ao diretor-geral?

Para mostrar que curamos os virados em Tefía através da terapia.

Não me lixe, Carlavilla! Não sois o López Ibor,

nem os eletrochoques são a Virgem de Fátima!

Andar e trabalhar no duro, só isso!

Há algum inconveniente em que experimente com os internos?

Por mim, está à vontade.

Desde que possam trabalhar, claro.

- Dom Anselmo... - Aonde vais?

Não, deixa-o. O que foi?

Desculpe, Dom Anselmo, mas quando hoje disse

que anulava as cartas de liberdade... - Não, revogadas.

Disse que as cartas de liberdade ficam revogadas até nova ordem.

Mas tinha-me garantido que a minha saída estava iminente.

- Disse isso? - Sim, senhor.

Mudei de ideias.

- Dom Anselmo, eu imploro-lhe. - Não vai sair, Arencibia.

- Ninguém vai sair. - Por favor.

Por favor, Dom Anselmo.

Vamos, para o barracão.

Nossa Senhor do Pinheiro.

Sissi, não vês o que aquele animal te está a fazer?

- O filho da mãe terá o que merece. - Vai matar-te.

- Sou tramada para a lutar, meu amor. - Meu amor, isto não é um jogo.

É sim, querida. E daqueles que eu gosto.

- Que psicopata. - O que querem que faça?

Digo ao ministro para se pôr a andar?

- Ia adorar. - Isso mesmo.

Sejam mais realistas, queridas.

Alguém tem de tratar de manter isto aberto

e garantir que o Conde sai vivo do país.

- Para sermos realistas? - Sim.

Sim. Há um mês que não sabemos nada do Conde, querida. Um mês.

Se tivesse atravessado a fronteira, podia ter enviado uma cartinha, não?

Sim. Se calhar, não quer saber mais de mim.

Sabes que isso não é verdade!

Querida, obriga-o a que te diga onde está, pelo menos.

Vejam só. Peço desculpa por estar a interromper o conclave. Vamos?

- Onde está o Conde? - Quem?

O mago.

Ah, o Conde Fénix, José Ramón Yáñez.

Pergunta-lhes a eles, sabem melhor que eu.

De nada me valem.

Preciso de uma prova de que o Conde saiu vivo do país.

Não me desafies. E, muito menos, em público.

Não sairei daqui sem uma prova de que o Conde chegou vivo a França.

Entendido?

Muito bem. Tu lá sabes.

Nisa, temos um assunto pendente.

O quê?

Fechado, até nova ordem.

Muito bem.

Bravo, bravo, bravo e bravo!

Brindo às heroínas do Tindaya.

- Charlie! - Charlie!

Vá lá, os de cima. Venham comigo, vá.

Aonde vais com a pá? Deixa-a aí.

- Para onde os levas? - Vão fazer uma vela à povoação.

Ouve, pega em cinco ou seis leva-os até ao Abilio,

que tem de tirar o barco da água e tem as mulas no campo.

Sim? Vá lá.

Vamos lá, loirinho! Anda! Já os vi mais rápidos!

És sempre o último? Anda lá, rápido. Vamos!

Bambi. Despacha-te, que vão cortá-la.

Felipe, o que se passa? Acabou a festa.

Acabou. Deviam ter entrado primeiro. Toca a sair.

- Vamos, vamos! - Vamos embora!

Vá lá, vamos.

- Este fica aqui a limpar-se. - Parece-me bem.

Estás a olhar para onde? Anda, toca a andar.

Charlie. Dá-lhe o Tindaya.

Chacho, dá-lhe o Tindaya.

Charlie.

Boncho acelera o passo ao fugir da Nisa.

- Boncho! Boncho, ouve-me. - Enganaste-te em relação a mim.

E, aproveitando que o Tindaya continua fechado,

vai tentando dar-lhe outro uso que não é do agrado do empresário.

A sério, a minha amiga precisa de um sítio onde ficar.

Não conheço a tua amiga e não quero saber de nada, sim?

Nada sobre esse clube de senhoras a que pertences.

- Problemas já nós temos. - Não é um clube, é uma rede.

- Uma rede? - Sim, uma rede de mulheres

que ajudam outras mulheres ou pessoas que precisem.

Ouve, Nisa, estou muito ocupado a tentar devolver

tudo o que não se vai consumir no Tindaya

depois da tua outra rede fazer frente ao ministro.

Acho que já me chega de dramas por hoje, não?

Ai, Nisa.

A sério?

Achas mesmo que sou assim tão básico

ao ponto de conseguires o que queres só por me excitares?

Não, Boncho, não te acho básico.

- Não? - Não.

É pelo que disseste no outro dia,

que o Tindaya era um espaço de igualdade e liberdade.

Ouve, no outro dia, não era eu a falar.

Era o Charlie, que estava debaixo da mesa.

Ia dizendo tudo o que devia dizer e limitei-me a repeti-lo.

Certo, mas sei que há algo de verdade nessas palavras em ti. Não?

Boncho...

Bravo, que bela cena.

Achei que a atriz principal se esforçou demasiado.

Pode ter sido por isso que não conseguiste o que querias.

Boncho, gostas mesmo?

Ou simplesmente a chulas para conseguir o que seja que queres?

Uau!

Ai... Carlitos.

Já me chamaram prostituta muitas vezes,

mas nunca em forma de pergunta retórica.

Sou diretor de teatro.

O meu trabalho é ler a alma de homens e mulheres,

entendê-los com as suas virtudes, que são poucas,

e com os seus defeitos. - Ouve, Char...

Queres saber qual é o pior dos meus defeitos?

Queres?

Ai, meu Deus!

A minha absoluta incapacidade para falar com o homem que amo.

- Nisa. - O que foi?

O que queres dizer?

Meu amor...

... és o único homem que realmente me importa, Charlie.

Agora é que me estava a esforçar demasiado.

- Não vais brincar comigo. - Todos gostamos de ti, Charlie.

Mas, perante os problemas, mandas para fora toda a porcaria.

Usas isso para te esconderes e a ficção para desaparecer.

Ouve. O Charlie levanta-se e sai para longe da Nisa,

mas ela não lhe facilita a vida e diz:

"Não é a primeira vez que foges de mim."

- Para! Já chega! - Caraças, Charlie!

- Estou a ficar maluca. - Pensei que perdera um capítulo.

- Esta história sou eu que a conto! - Então, conta-a bem.

Havias deixado claro que havia de ter personagens credíveis. Não?

- Disse isso. - Lá está.

Quem acreditaria que a Nisa se ia declarar assim como se fosse parva?

- Ninguém, a Nisa não é assim. - Mas o que sabes tu?

Mas quem procurou a Nisa quando precisou de algo?

- Não confia em ti, imbecil. - Claro, tem mais lógica

confiar num trilheiro. - Chega!

A Nisa é uma artista e vale muito para andarem aí a medir vergas.

- É ou não, minhas senhoras? - Meninas, mas é verdade.

Ora aí está. Então, que levante a mão

quem quiser que passe a ser eu a contar a história sobre a Nisa.

Tio, o que dizes?

- Olé! - Olé!

Oiçam.

O Tindaya encerrado.

Todas as mulheres na sala.

Vocês riem-se, mas se não voltarmos a abrir,

terei de casar com o Juan Ramón.

- Não! - Vá lá, é um homem bom.

Como vais casar com esse otário?

Ouve, é melhor isso do que andar nas ruas.

- Não tenho assim tanta certeza. - Porque gostas de vender-te.

Claro, o que queres?

- O que faço? Regresso? - Se casares com esse homem,

serás prostituta na mesma, mas com marido.

- Cala-te. - Eu acho que vou fazer

serviço social na Secção Feminina. - O quê?

Mas isso é para virgens!

Disseram-me que ajuda para arranjar marido.

Sim, andará por lá um marido maravilhoso.

Ai, meu Deus!

Não é maravilhoso o futuro das espanholas?

- Incrível. - Vá, diz lá.

Mulher em Espanha Em 1962

Deve arranjar marido Ou casar com Deus

Lá nos livrámos Da Constituição do trágico 31

Que dotava de igualdade Mulher e o homem

Igualdade, igualdade Que palavra tão atroz

Igualdade, igualdade Que palavra tão atroz

Imagina-te a votar, a estudar Ou a trabalhar como um homem

Igualdade a separar-se Com direito a divorciar-se

Igualdade até à hora Da pátria se apoderar

Não, por favor Não, os meninos, não!

Não, por favor Não, os meninos, não!

Mas Graças a Deus E ao grande Ditador

E à prima da Rivera E sua secção feminina

E à santa igreja Católica, Apostólica, Romana

Aprendemos em Espanha O que é ser uma mulher a sério

Mulher a sério

Queremos ser mulheres a sério

Como uma simples mulher Pode vir a perceber

Qual o caminho Para ser uma mulher a sério

Mulher a sério Queremos ser mulheres a sério

Como uma simples mulher Pode vir a perceber

Qual o caminho Para ser uma mulher a sério

A primeira coisa é aprender que não descobrimos nada.

A inspiração está reservada ao talento másculo.

Em segundo lugar, a sério, é que uma mulher

sente o eterno desejo de ser submissa ao homem.

E para que saibam o que fazem, aqui têm a receita

para que uma esposa perfeita faça feliz o seu marido.

Antes que ele volte a casa Pinta-te e penteia-te

Quem quer encontrar um bicho Ao chegar a casa?

Sê meiga e carinhosa Fogosa e com alma

Não sejas bisbilhoteira Tagarela ou refilona

Casa arrumada Antes morta, que porca

Que viva no paraíso É o teu santo compromisso

Mostra-te feliz Não amargurada

Sê a recompensa Da sua dura jornada

Deixa-o falar Preocupa-te com ele

Porque a tua vida É sempre trivial

E se chegar tarde E se divertir sem ti

Ou não vier dormir a casa Não peças justificações

Pois duas bofetadas São merecidas

Na tonta que pergunta O que jamais entenderá

E se te der uma surra Sem motivo aparente

Guarda silêncio Porque dele não se duvida

Se pelo contrário Te sugerir a união

Abre bem as pernas E dá-lhe satisfação

Assim que descarregar Geme levemente

Para deixar bem claro Todo o prazer que tiveste

A espanhola quando se vem Nunca se vem de verdade

Porque só as vagabundas

Deleitam com o fornicar

Mulheres desse mundo!

O feminismo é uma falácia!

A igualdade, contranatura!

A mulher de sangue puro Detesta a democracia

Ponham os olhos em Espanha

Se querem aprender Como ser mães e santas

Como ser mulheres a sério

Mulher a sério

Mulher a sério Queremos ser mulheres a sério

Como uma simples mulher Pode vir a perceber

Qual o caminho Para ser uma mulher a sério

Mulher a sério Queremos ser mulheres a sério

Como uma simples mulher Pode vir a perceber

Qual o caminho Para ser uma mulher a sério

Tefía, Huelva, Carabanchel...

Caraças, esteve em quase todas as prisões com celas de virados.

Sabes como voltámos a encontrar-nos?

Abriu um bar em Madrid. Sabes que nome lhe deu?

O Tindaya.

Nem imaginas a minha cara quando vi o nome por acaso

enquanto percorria Madrid. E lá estava ele, atrás do balcão.

Estávamos a estrear a democracia

e os fascistas começaram a ir lá todos os dias.

Diziam tratar-se de um ninho de larilas comunistas.

Nem sei quantas vezes lhe deram tareias,

o detiveram, levaram para a prisão.

Foram muito corajosos.

Eu não.

Eu não.

Tens de falar, miúdo.

Deus ama os que demonstram verdadeiro arrependimento.

Blasfemei na pedreira.

Deus saberá perdoar-te. E mais?

Tiveste pensamentos impuros?

Não tenhas vergonhas. Todos os temos,

mas há que arrancá-los do corpo para não nos corroerem por dentro.

Há noites em que penso numa pessoa.

É natural que, no meio da solidão, procures refúgio nos que te rodeiam.

Essa pessoa é um amigo teu?

Estou a ver.

Às vezes, é difícil diferenciar o amor da amizade

e o vício do amor.

És jovem, não tenhas medo, confia em mim, confia em Jesus.

Consumaste com o teu amigo?

São piores que uma praga bíblica!

Anda cá, sodomita! Deus condena o nefando pecado!

- O que foi, padre? - O que foi?

O mesmo de sempre com esta ralé!

Arrepende-te! Quem corrompeu este rapaz?

Quem foi? Raios! Quem foi?

Quem o corrompeu?

Diga-me o nome. Eu vi-vos.

- Na outra noite! - Vá, vamos!

- Faz-te homem, fala! - Não direi nada àqueles vermes.

Podiam traí-lo por um pedaço de pão. Diga-me o nome.

A mensagem seria credível se quem contasse tudo sobre Tefía

fossem as próprias vítimas.

É o teu depoimento que pode levar o Robles à justiça.

Não vou denunciar ninguém.

É como dizer para todos ouvirem que eles ganharam.

E não ganharam mesmo?

A minha vida não vai melhorar se avançar com isso.

Não se trata da tua vida, mas de justiça.

Eu fui claro, tudo menos o meu nome e a minha família.

E tudo se resume a não querer sair do armário.

- Pode ser preciso um empurrão. - Yeray!

Um empurrão?

Para o buraco!

Tiveste saudades minhas?

Tenho 60 anos e tudo o que quero é viver em paz.

E consegues?

Bambi.

Bambi.

Estás a dormir?

Vespa, vai-te embora, andam à tua procura.

A mim? O tanas! Procuram o teu namorado.

Porque, como tu, tenho aqui uns 25. Pensavas o quê, miúdo?

Até o padre me faz olhinhos.

- Vai-te embora. - Bambi, ouve, por favor.

Não aguentes mais uma só pancada. Nem uma, ouviste?

Dá-lhes o meu nome. Sim?

E passamos uns dias no buraco a pinar que nem coelhos.

Eu não sou como tu, Manuel.

Manuel? Já pareces a minha mãe a dar-me sermões.

E como sou eu?

Airam.

Forte. Alegre.

Alegre, sim.

Forte...

A Nisa é que é forte, aquela maldita.

Vai formar um bando com as mulheres dos presos.

- Quem são elas? - As mulheres dos presos?

São a maioria das mulheres que perderam a guerra.

Como a minha mãe,

que tinha de arranjar força para se levantar todas as manhãs

para ir visitar o meu pai a prisão...

Bem...

... e acabava por dar-se com outras mulheres como ela.

E é aí que aparece a Nisa, a maldita,

mais clandestina que um bar de maricas.

Calma, querida. Está tudo bem. Isso não é nada, eu tive 14.

Vá, anda. Senta-te aqui.

- O que faz este aqui? - Ajuda.

Já deixamos homens meterem-se nos nossos assuntos?

- Vês aqui algum homem? - O que é isto?

Um semáforo, para lá.

Já muito decidem os homens para agora decidirem quando ser mulheres.

Eu vinha ajudar, mas vejo que estás maldisposta.

- Mete-te na tua vida antes que... - Chega!

Não vou tolerar isto, o inimigo é outro.

E se não estivermos juntas, vão comer-nos a todas!

Bolas, está a jorrar.

Abre, sei que estás aí.

Nisa, disse-te expressamente que não queria que usasses

o Tindaya para estas tretas. - Já viste que não te deu ouvidos.

Vou arrombar a porta!

Vão para os camarins.

- Venham, meninas. - Eu trato do Robles.

Em silêncio, por favor.

Abre! Sei que estás aí!

- Então, Nisa? Vai, rápido! - Vem atrás de mim. Vai tu.

- Espera, eu vou primeiro. - Tudo bem.

Relaxa.

Sai, quero falar com a rapariga.

Sr. Robles, desculpe, estamos fechados.

- Disse que voltava e voltei. - Estamos fechados.

- E? - Não tem nada para fazer aqui.

- Sai. - Digo que o Tindaya está fechado.

Duas coisas, idiota. Aprende a falar, porque não se percebe nada.

- Eu falo... - E se me tiras do sério,

lixo-te a vida toda. Entendido?

- O que se passa aqui? - Outro maricas.

- Não sou maricas. Eu trato disto. - O que fazes?

O que fazem os dois, imbecis? Isto é entre mim e ela.

Pirem-se daqui ou passam a noite nos calabouços.

- O que fazes? - E tu?

Bem, para ser sincera, nem sei de que me rio.

É uma tragédia que, neste país,

uma mulher só possa aspirar a ser violada ou salva.

Mas vejo-os tão empenhados em ver quem a tem maior, que...

Se me dão licença, meus caros, tenho coisas para fazer.

A coitada nem sabe o que diz.

Mas também te digo, a coragem das gajas ruivas

excita-me tanto que nem sei explicar.

- O que fazes? - E tu?

Gostava de saber se o pervertido que manteve relações com este rapaz

tem o mínimo de hombridade para dar um passo em frente.

Robles!

Levanta-te, vá.

Bem me parecia.

A lealdade dos cobardes. Muito bem.

Como tal, vamos reduzir para metade o grupo do meio-dia.

- É todo seu. - Obrigado, Dom Anselmo.

Para a enfermaria.

Cuidado.

A terapia pretende forçar a convulsão espontânea do paciente

através dos impulsos elétricos.

Os cátodos que vou colocar sobre as têmporas

enviarão a corrente através de todo o sistema nervoso central.

Estou a ver.

A voltagem varia entre 90 e 150,

dependendo sempre da resistência do paciente

e recomendando sempre ir de menos a mais na administração.

Quando o doente não responde a nenhum outro tratamento,

a terapia de eletrochoques pode revelar-se muito útil

para apagar condutas de tipo sodomíticas,

maníaco-depressivas... - Como se apagasse a memória?

Teoricamente, sim.

- Afastem-se um pouco. - Sim.

Vamos lá.

Estamos na morada de Rafael Robles,

ex-funcionário de prisões na colónia de Tefía,

acusado por um grupo LGTBI de supostas torturas a homossexuais

pela Lei de Vagabundos e Bandidos.

Senhor Robles...

- Sr. Robles, desmente as acusações? - Por favor, está aqui a minha filha.

- Airam, queres? - Não, obrigado.

Tenham respeito pelas pessoas!

À frente da minha filha!

É um idoso.

Dizem que a vítima vive nesta rua.

Se calhar, és tu, que és meio mariquinhas.

Sr. Robles, por favor, temos direito a saber.

Não têm vergonha! Não respeitam as pessoas!

Diga-me o nome do seu companheiro.

Diga-me o nome.

Não, não, não! Isto é que não, Nisa!

O teu pai não pode estar aqui. Lamento.

É uma sala de espetáculos, não um abrigo.

A mulher leva mais de 15 horas de parto.

Se não a atender, nem ela nem o bebé sobreviverão.

- Lamento... - Preferes ter mortos no palco?

O problema não é meu.

Sei que os vi. Diga-me o nome.

Força.

Até que fale. Força!

O que queres? Que nos matem a todos?

Não, hoje conformo-me com que uma mulher não dê à luz na rua.

E quanto metes na cabeça que este país não tem solução?

Sim, é o que dizem, os que desistiram.

Vamos embora, Nisa.

- Vamos os dois para o México. - Para, por favor.

- Não quero perder-te. - Charlie, para.

- Vamos para o México. - Não posso.

Não voltes a deixar-me, por favor. Não me deixes.

Julga-se corajoso para ocultar o nome do pervertido com quem fornica,

mas isso só demonstra a profundez da sua infeção.

Diga-me o nome. Diga-me o nome!

Não! Se chegar ao limite, pode ser irreversível.

Quero lá saber! Carregue!

"Vítima e torturador vivem na mesma rua."

Bambi.

Como vai isso, cabeçolas?

Querido, chupaste a eletricidade toda de Fuerteventura.

Estás bem, mano? Sabes quem sou?

Bambi, diz algo, estás a assustar-me.

Vespa.

Que filho da mãe.

Ninguém poderá dizer que te faltam tomates, filho.

- Quero perguntar uma coisa. - O quê?

O Tindaya continua fechado?

Pergunta se o Tindaya continua fechado.

Já vais ver.

- Calma, calma. - Vem ao contrário.

- Não aguento mais! - Aguentas, sim.

Não quero que o meu filho nasça neste país.

Tu consegues, mulher.

Tragam mais água quente.

Mais água quente.

Sissi, vai lá para fora.

- Não vês que está a dar à luz? - O Robles veio à tua procura.

Outro psicopata. Não pode entrar aqui.

Não me digas? Calma, eu vou lá.

Ai, o bebé vem de rabo.

Como todas nós, querida. Vamos.

Não te dou, tenho de dar em mãos.

Sr. Robles, vem à procura de confusão?

- Não quero confusões! - Eu entrego-lhe.

- Onde estão? - Estão aqui.

Que bom vê-lo,

senhor diretor-geral de Informação e Cultura Popular e Espetáculos.

Que saudades tínhamos da sua censura.

Do ministro.

- O que foi isto? - Estão a meio de um ensaio.

Sim, é um número novo que parece que nunca mais sai.

Já agora, é provável que façam falta no ensaio.

- Sim, claro, porque vamos de trás. - Se não precisa de mais nada...

- Afastem-se, meninos. - Robles, já a temos. Robles!

Sonhem connosco Atrevam-se a sonhar

Atrevam-se a imaginá-lo Da forma ao real

Seis, sete e...

Bem-vindos ao Tindaya

Bem-vindos ao Tindaya

Bem-vindos ao Tindaya

Bem-vindos ao Tindaya

É menina.

Cuidado com a cabeça.

Vou ter com a Consuelita.

O que foi?

Não, calma, já se foi embora.

Mas quem é este bebé?

O que foi?

O Conde chegou a Paris!

O meu Ramón está no Le Carrousel!

Não, espera. Calma, não é tudo.

O ministro aparece de surpresa no Tindaya e diz...

O Tindaya vai reabrir portas.

- Pronto, meninos. - Com a bênção

dos melhores padrinhos de sempre.

Franco no Tindaya!

- E como virá aqui o...? - Excelentíssimo.

O excelentíssimo Caudilho de Espanha, se sempre foi mais de...

- De caça e pesca. - Sim.

Sim, claro, vamos lá ver.

Vendo o novo rumo que o país começa a tomar,

decidiu aceitar a minha humilde proposta

para que o Tindaya seja o marco de uma noite transcendental.

Mostraremos ao mundo que Espanha é um país moderno e livre.

O Caudilho dará um jantar de gala no El Pardo

a uns convidados cruciais para esta missão.

E, a caminho do aeroporto,

passarão pelo Tindaya para tomar um copo de despedida.

Mas, Excelência, pode saber-se quem são esses convidados cruciais?

O excelentíssimo Presidente dos Estados Unidos,

John Fitzgerald Kennedy!

E sua maravilhosa esposa, Jacqueline Kennedy!

Espero que saibam estar à altura.

A partir de hoje, são oficialmente a imagem do futuro de Espanha.

A bandeira de abertura,

a prova de que Espanha é diferente!

Diferente!

- Viva Espanha! - Viva!

Toca a viver Toca a viver

Toca a aproveitar a vida...

Olé, que arte!

Ai, o meu Ramón no Le Carrousel.

Ouve, eu sei que tu és mais de dramas,

mas um final feliz de vez em quando...

Já me vejo a ir a França com o Conde, não?

- Vá lá, Charlie. - Depois, vemos.

Nada disso. Eu digo-te como vai ser.

Vou ter de voltar a insinuar-me ao ministro, porque ele cumpriu.

Não podes voltar para esse filho da mãe.

Preferes ver o Tindaya fechado?

Ai, que conflito, querida.

Mas esta maldita vai seguir com a dela.

Não vês que és parte da resistência antifranquista?

Devem-me tanto, queridas.

E... a Nisa vai-se embora?

Vocês vão...?

A Nisa toma as suas próprias decisões.

Bem, sei lá...

Só quero que ela saiba que estou aqui para o que ela quiser.

Arencibia.

Arencibia, para o edifício principal, Dom Anselmo quer ir jantar fora.

Vão para a cama. Cada um na sua.

O que disse o Perico da avaria?

Disse que, com o que temos, não há nada a fazer,

mas que vêm amanhã da aldeia. - Ótimo.

Há algum problema?

Dom Anselmo, oiça...

Ando a ver coisas que...

... não... - Pior vimos na guerra.

E com o tempo passado com as oliveiras...

E ele a dar-lhe com as oliveiras. És chato!

Robles, vais deixar-me falar ou é preciso ser eu a calar-te?

Ando há muitos anos a pensar em voltar à aldeia.

E Dom Anselmo, é que...

... vamos pensando e a vida passa a correr.

E tenho alguém à minha espera.

Se não se importar, gostaria de regressar no final do mês.

Por mim, pode apanhar o primeiro grupo que saia de manhã.

É o que farei.

O que quer? Que lhe dê um abraço?

Peço desculpa. Boa noite.

A três meses da visita do diretor.

Três meses e isto a piorar.

O que vamos fazer?

Teatro.

O que quis dizer com "teatro"?

Os desfiles simbolizam a marcialidade do exército, certo?

Mas quem desfila não são soldados, apenas representamos.

O teatro é parecido. É a arte da ilusão,

de fazer o espetador achar que o que vê é verdade, não sendo.

Use esse poder, Dom Anselmo.

Prepare uma função para o diretor-geral

que represente que a colónia é um centro exemplar.

Muito bem. E como se faz isso?

Dê-me uma noite livre e eu mostro-lhe.

Conhece a história de Zêuxis e Parrásio?

Dois grandes pintores de Atenas. Para escolher o melhor,

um júri pediu a cada um que pintasse um lado de um muro.

Zêuxis pintou um quadro com frutas.

A imagem era tão perfeita, Dom Anselmo, tão real,

que até os pássaros que voavam ao redor

chocavam contra o muro em busca de picar as uvas.

Zêuxis pediu ao adversário

para remover a cortina que ocultava a sua pintura.

Como Parrásio parecia resistir,

o próprio Zêuxis tratou de remover a cortina sozinho.

Toda a Atenas soube quem ganhara.

- A própria cortina era o quadro? - Exato.

Espero que agora me conte que raio têm que ver os gregos

com a visita do diretor-geral. - Acompanhe-me, por favor.

Por aqui.

Diga-me o que vê.

O mesmo deserto que vi nos últimos quatro anos.

De certeza?

- Já tinha reparado naquela árvore? - Não.

Se conseguimos enganá-lo,

que conhece esta paisagem como a palma da sua mão,

imagine o que podemos fazer com o diretor-geral.

Assassinos a cantar

Toca a viver Toca a viver

Toca a aproveitar a vida Até ao último dia

Praticar a alegria De viver e deixar viver

Toca a viver Toca a rir

Toca a dançar Toca a pinar

Matar o tempo Que o tempo te matará

Assassinos a cantar

Versão portuguesa para RTP: CRISTBET, Lda.

Tradução e Legendagem Daniel Lúcio

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