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Vou gozar.
- Clémence? - Tá linda, Josiane!
- Pode se juntar a nós? - Não.
Disciplina, Michel. Disciplina!
Tenha um bom dia.
Paul? Vem falar com a mamãe.
Olá!
Você devia escutar ao vivo. É um inferno.
Paul, solta essa flauta.
Vem falar com a mamãe. Ela tá esperando.
Oi, mãe.
Aí está você.
Quantas voltas?
Dois quilômetros.
Mas o meu tempo foi péssimo, então não vou te contar!
Quem é você, senhor?
Sou filho do Darth Vader e da Cleópatra.
Achei que você fosse filho da sua mãe.
Sim, isso também.
Mas também do Darth Vader e da Cleópatra.
Está certo.
Ei, Laurent?
Sim?
Tenho ingressos extras para o show do próximo fim de semana.
Quer ir?
No próximo fim de semana, vou estar na Normandia...
A imagem travou.
E você tá horrível.
Pronto. Melhor assim?
Bem melhor.
Mostra o céu pra mim?
Claro, aguenta aí.
Aqui está. Tá vendo?
Vai, mais rápido!
Vai, vai, vai!
Mais rápido!
ME AME COM TERNURA
PROIBIDA A CAÇA
Estamos na Place Dauphine. Do lado de fora.
É o final do verão.
Mergulho batatas apimentadas no ketchup.
Pedi um club sandwich. Ele, um croque-monsieur.
Merda.
"Ele" é o meu ex.
O primeiro homem com quem dormi e, por enquanto, o último.
Ainda somos casados, porque nunca nos divorciamos.
Ficamos juntos por vinte anos.
Eu o deixei há três anos.
O nome dele é Laurent.
Pro nosso filho de oito anos, o Paul,
nos revezamos a cada semana, tudo de forma amigável.
Nunca tivemos problemas.
Há alguns meses, passei a ficar com meninas.
Quero contar para ele.
Por isso o jantar.
Vamos trocar de professora de piano, né?
Se acha necessário, sim.
Não sei...
Ele não está progredindo.
Ele é pequeno.
É, mas ela é meio...
Arrogante?
Sim, ela é bem "arrogante".
Arrogante, mas meio "boazinha demais".
Uma bunda-mole.
Bem, eu...
Comecei a sair com garotas.
Sair tipo, encontros.
Encontros, sério?
Sim, enfim...
Você sabe.
- Sim? - Mais um.
Só quero que você seja feliz.
Obrigada.
Meu novo vício.
Agora só o champanhe me faz bem.
Me custa uma fortuna.
Você está em forma.
Eu nado muito.
Não é isso.
Você está bonita. Sério.
De verdade.
Talvez eu leve o Paul para ver meu pai.
No Halloween.
- Legal. - Sim.
Ele não o vê desde a Páscoa.
Ele vai gostar.
Como está o seu pai?
Você conhece meu pai. Continua o mesmo.
Continua reclamando no telefone.
- Ele tem pena de você. - É mesmo?
É, ele disse que você deve se sentir só.
Ele não está errado.
Boa noite.
- Não? - Definitivamente não.
Entendi errado.
Senhora...
Tchau.
Manda ele parar!
Para.
JANTA COMIGO NA TERÇA?
EM VEZ DISSO, A GENTE NÃO PODE SE DIVORCIAR?
PARA DE ME EXCITAR
Vou para casa.
- Não! - Sim, sim.
Boa noite.
- Manda um beijo pro Paul? - Claro.
Boa noite.
O que ela está fazendo?
Já vai?
Laurent?
Está tudo bem?
Ele não quer ir.
Sinto muito.
- Como assim? - Ele não tá a fim.
Não podemos obrigá-lo. Vou mudar meus planos.
Não, mas...
Eu posso ao menos...
Laurent, isso é ridículo.
Vou conversar com ele.
Oi, Paul.
Oi.
Última chamada para Paul Lévêque no portão de embarque 14.
Partida imediata para a Lua.
Portão 14. O foguete vai partir em breve.
Ele não quer te ver.
Vamos tomar um suco.
Consegui ingressos pro show que você queria ver.
Não quero te ver.
Sai daí. Para com isso, vai.
Eu não quero te ver!
É assim que funciona. Essa é a nossa semana.
Planejei um monte de coisa. Vamos lá.
Vamos!
Paul!
Não quero te ver. Eu te odeio.
Vai embora!
Aconteceu alguma coisa aqui?
Vocês dois brigaram?
Ele não está bravo comigo, está?
Você acha isso engraçado?
Se ele explicar ou mudar de ideia, me liga?
Acho difícil, mas claro.
Tchau.
Paul? Eu te ligo!
Eu te amo!
Disciplina, Clémence. Disciplina!
Você falou em divórcio de novo?
Não era o momento certo.
Virar as costas pra mim não é castigo, sabia?
Você é incansável, Elisabeth!
Eu sei.
Não entendo por que deixa ele te chamar de "esposa".
Na verdade...
não entendo por que se casou.
E ainda por cima, com um cara.
É o que fazíamos naquela época.
Pelo menos ele é gato?
Sim.
Não, na verdade não.
Mas a gente combinava.
Você é tão burguesa.
Agora que ele sabe que você é sapatão, ficou puto.
Pode parar de falar, por favor?
E se eu não quiser?
Eu disse "por favor".
É, você pediu.
Não pode ficar um pouco?
Ainda está cedo.
Volta a dormir.
Vou dar um mergulho.
- Sim? - Alô?
Viu que horas são?
Oi, Laurent. Pode passar o Paul, por favor?
Ele está se arrumando para ir pra escola.
Pode passar para ele, por favor?
Espera.
Paul, é a mamãe. Uma palavrinha antes de irmos?
Ele não quer conversar.
Ele é uma criança, passe para ele.
Como quiser.
Alô, Paul?
Meu amor?
Sei que você está bravo comigo, mas não sei o motivo.
Vamos tomar um refri e você me explica?
Tá bom? Você topa?
Eu te disse. Ele não quer falar.
Mas ele tem oito anos!
Desde quando ele manda?
E você é a especialista em criar filhos?
- Como é? - Esquece.
Preciso levá-lo para a escola.
Por vários meses,
não consigo conectar os fatos
entre pai e filho.
Talvez o Laurent tenha razão.
Pode ser que o Paul me odeie,
e seja culpa minha.
Talvez eu tenha feito algo errado.
Eu tento entender o que fiz de errado.
POR QUE NÃO ME RESPONDE? PRECISO FALAR COM O PAUL.
NEM SEI PELO QUE ESTOU SENDO PUNIDA.
Todas as ONGs são iguais,
os mesmos perfis...
Não é complicado...
Alô?
Sim, vou anotar.
Como?
Dia 4 de julho?
Às quize horas?
Eu entendo.
Obrigada, Vincent.
Não se preocupe. Estou bem.
Tchau.
Então?
Então...
No dia 4 de julho, às três da tarde,
ele vai pedir
a guarda unilateral e...
pra me tirarem a responsabilidade parental.
Por qual motivo?
Isso é absurdo.
Ele me acusa de incesto e pedofilia,
diretamente ou por associação a terceiros.
Mas que merda é essa?
Há quanto tempo você não vê seu filho?
Seis meses.
Senhoras e senhores...
eu preciso escrever.
Está bem.
Vai ficar tudo bem.
Coragem, meus amigos.
Por que não me passa logo o código da porta?
Não quer tirar a roupa?
Não.
Só a calça jeans?
O que está havendo?
Nada. Eu quero você.
Ótimo.
Esqueci seu aniversário ou algo assim?
Olha, eu tô de joelhos por você.
O que o advogado disse?
Me diz...
Eu quero você.
Dissocia, se quiser, mas eu não preciso dissociar também.
Tá falando sério? Ouviu isso em alguma série?
- Tá sendo muito babaca. - Calma, espera.
- Me desculpa. - E então?
É...
Tá bom. Tchau.
Aqui está o trecho de um livro encontrado na casa da Sra. Delcourt.
Um livro que o Paul poderia encontrar ali sem dificuldade.
"Conheci o Vincent em 1982, quando ele ainda era criança.
Ele permaneceu nos meus sonhos.
Precisei aceitar que, quando ele virasse homem,
eu o amaria pelo que já não era mais."
Gostaria de destacar, Excelência,
que este é um dos trechos menos explícitos.
Mas a minha cliente não escreveu isso.
É quase a mesma coisa.
Nesta foto,
é possível ver uma criança, nos braços de um homem seminu,
encostados numa mesa
repleta de copos de bebida.
Orgulho gay.
E na outra imagem, uma “piada”,
eu suponho.
De gosto duvidoso, em relação ao seu próprio filho.
Vou encerrar com esta carta,
escrita pelo Paul, que vou ler agora.
Podemos evitar maiores humilhações à minha cliente?
Resuma, por favor.
Está bem.
Quero apenas pontuar
que a criança descreve o ambiente intolerável
que vivia com sua mãe.
Que ela é, abre aspas, “maluca”.
Ele não quer vê-la.
Obrigado, Excelência.
Obrigada.
Consta no processo
que a senhora conversou sobre sua vida amorosa com o Paul.
E que seu novo livro
vai relatar seus inúmeros casos com mulheres.
Consegue me explicar melhor?
Sim.
Eu apresentei o Paul
para uma pessoa com quem tive um relacionamento estável.
Você fala no passado?
Esse relacionamento chegou ao fim.
Achou adequado apresentar uma conquista passageira, uma mulher,
ao seu filho de oito anos?
Excelência, com todo respeito,
acredito que estamos nos desviando da questão.
Minha cliente teve uma relação estável com uma única pessoa.
Ela decidiu informar o filho. Isso é totalmente normal.
E a sua situação de moradia?
Creio que está pensando em se mudar?
Sim.
Seu novo apartamento vai ter um quarto para o Paul?
Não, Excelência. É um imóvel emprestado.
Não tenho condições de alugar um apartamento grande.
Gostaria de acrescentar que não vejo o Paul há nove meses.
Por isso não me pareceu uma necessidade urgente.
Mas, claro,
se tudo voltasse ao normal,
com o contrato do meu livro, eu...
Desculpe interromper.
Mas gostaria de enfatizar que a Sra. Delcourt tem uma escolha.
É opção dela não retornar ao emprego como advogada,
o que garantiria a renda necessária para cumprir seu papel de mãe.
Me parece que é uma escolha.
Ela não vê o filho há nove meses.
Ela teve nove meses para provar...
PROIBIDA A CAÇA
LOUCA POR VINCENT
Posso pagar 60 euros.
Está bem.
- Tenha um bom dia. - Obrigada.
A decisão da juíza chegou alguns dias depois.
Ela nomeou um psiquiatra para avaliar nós três.
Ele tem seis meses para entregar o relatório.
Como sempre na justiça, trata-se de um prazo aproximado.
Pode levar um ano, dois anos, três anos.
Enquanto isso, o Laurent tem a guarda unilateral.
Tenho apenas direito a visitas, restritas e supervisionadas.
"Mediadas", como diz a lei.
Uma hora a cada quinze dias, num centro.
Um “Centro de Encontros” neutro, perto da République.
Haverá especialistas infantis presentes quando eu encontrar o Paul,
como seria para uma mãe drogada ou um pai agressivo.
Mesmo nesses casos, nem sempre.
Apelo da decisão.
O apelo não suspende nada.
A decisão provisória é executada.
Nenhuma nova audiência por dois anos.
Dois anos são mil anos.
Dois anos é nunca.
Aqui está.
Ela está olhando para você.
Posso?
Eu evito os parques,
jardins públicos, ruas perto de escolas,
padarias na hora do lanche.
Eu faço desvios. Me escondo nos dias sem aula.
Centro de Encontros entre Pais e Filhos.
Nossos atendentes estão ocupados. Tente novamente mais tarde.
Eu não tinha notado que havia tantas assim.
Crianças por todos os lugares.
Parece que estão lá por minha causa. Para me irritar.
Para me lembrar do que tento esquecer, com disciplina.
Para mostrar que minha disciplina é inútil. Minha natação,
todas as garotas que saio.
Fujo de crianças
como se fossem bombas de fragmentação.
Como se fossem explodir na minha frente,
e perfurar meu corpo com estilhaços metálicos.
Eu mantenho distância, me esquivo delas.
Mas elas são mais fortes.
No final, sempre me encontram.
Centro de Encontros entre Pais e Filhos.
- Alô? - Alô?
Meu nome é Clémence Delcourt.
Estou ligando para agendar um horário.
Semana passada, pediram que eu ligasse de novo.
Pode me passar seu nome e o número do prontuário, por favor?
Eu já liguei na semana passada...
Nome e número, por favor.
Claro.
Meu nome é Clémence Delcourt.
O número de processo é AF89
V377E12.
Certo.
Como posso ajudar?
Como eu disse, já falei com o seu colega...
Somos uma equipe grande aqui,
vai precisar me explicar outra vez, ou não consigo ajudar.
Claro.
Então...
é sobre organizar um encontro
entre meu filho, Paul Lévêque, e eu,
sob a supervisão de um terceiro.
Tenho uma decisão judicial, datada de julho.
E venho ligando toda semana desde então.
E não conseguimos vaga pra você, é isso mesmo?
Exatamente.
Entendo.
Não posso agendar porque é a primeira vez, certo?
Sim.
Tem que ser autorizado pelo meu chefe
que precisa se reunir com você e com a criança.
Ele vive com o pai.
Entendo.
Teríamos que conhecer a criança e o pai, depois você,
antes de marcar um horário para você e o Paul.
Vou passar o e-mail do meu chefe. Pode anotar?
Não precisa, vou decorar.
Certo, é R-P-C-M-C
arroba contact ponto org.
Certo, obrigada.
Posso ajudar em mais alguma coisa?
Tenha um ótimo dia, tchau.
Você também, tchau.
Ele nasceu.
Eu o vi pela primeira vez,
com seu próprio rosto, seu próprio corpo,
sua própria vida, sua própria morte.
Ele não chorou de verdade.
Ele parecia meio zangado e eu gostei disso.
Percebi que ele era, simplesmente, ele mesmo.
Não uma história que contamos a nós mesmos.
Eu disse que o nome dele era Paul.
Ele tem o sobrenome do pai, mas o nome dele sou eu.
Isso não existe em outros amores,
escolher o nome da pessoa amada.
Um primeiro nome, para que sejam amados por outros.
E um dia, ir embora.
Eles fizeram pulseirinhas,
um para ele e um para mim.
Eles o vestiram.
Fomos para o nosso quarto.
Eu estava com muita fome.
Me serviram um filé.
Não dormi muito naquela noite.
Ele chorou um pouco, eu fiquei intimidada.
Eu o encostei no meu ombro.
Andei pelos corredores.
Ele parecia ser, ao mesmo tempo, leve e pesado.
Lembrei dos cachorros filhotes que tive na infância.
Eu vi como eles faziam.
Cuidando dos seus filhotes,
sem ridículo, sem vergonha,
sem perder quem eram,
sem desistir.
E, ao voltarem a caçar na estação seguinte,
era tudo tão simples.
Não é preciso ter dúvidas.
Farei isso do meu jeito.
Sem a tolice feminina,
a obscenidade das mães.
Obrigada.
É isso. Está liberado.
Pronto.
Desculpa, fui meio grosseira.
Não, tudo bem.
É bom tê-la aqui, Sra. Clémence.
Vai fazer um bem enorme pro seu pai!
Temos que manter o ânimo.
É importante, não é? Nos vemos amanhã?
- Sim, até amanhã. - Até.
- Posso falar com você um minuto? - Sim.
Seu pai anda um pouco pra baixo.
Faria bem tirar ele um pouco de casa.
Uma caminhada de cinco minutos pelo pátio...
Ele não escuta o que eu digo.
Você está magra. Está se alimentando direito?
Sim.
Comer bem é importante.
Tô indo. Tô atrasada! Até amanhã.
Tchau.
Sua mãe tinha exatamente a sua idade quando morreu.
Não é pouca coisa ter amado uma mulher assim.
Sim.
Não é pouca coisa.
- Olá. - Sra. Delcourt, entre.
Primeiro, não vou prolongar um suspense desnecessário.
Paul te ama e você ama ele.
Não tenho dúvida disso.
É óbvio que você não é louca.
E...
meu laudo mostra que o Paul
foi coagido pelo pai
e não há uma palavra verdadeira na carta que ele enviou ao tribunal.
De verdade.
Agora, preciso acrescentar...
que isso acontece com frequência.
Recebo muitos casos como o seu, todo ano.
No entanto, geralmente é o contrário.
É o pai que vai embora.
É raro uma mãe ir embora.
Para alguns, isso pode ser considerado mais grave.
Até imperdoável.
Então...
Vai dizer ao juiz que estou apta a ver meu filho?
Vou apresentar meu relatório.
Vou destacar sua estabilidade psicológica e emocional,
e sua capacidade de ser mãe.
Vou ressaltar que o Paul sente sua falta,
e que essa situação está dolorida para ele.
Mas preciso avisar
que meu relatório pode não fazer muita diferença.
Se o Sr. Lévêque ainda estiver com raiva e disposto a brigar,
o caso pode se arrastar por anos.
Você sabe disso.
Mas você não pode desistir.
Não pode desistir.
Seu filho sabe se virar.
Você o fez forte.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo,
tende piedade de nós.
- Oi, Mouloud. - Oi, Clémence.
- É o dia da mudança? - É.
Quer isso para o seu filho?
Vem cá, Ismaël.
- Achei enquanto organizava. - Oi, Clémence.
Tem um Mickey Mouse.
Obrigado!
Espero vê-la em breve.
Estou mudando de bairro, não de país!
Sim, é verdade.
Sabe onde nos encontrar.
- Tá bom? - Sim.
- Diz tchau. - Tchau!
Olá.
Venham comigo, crianças.
Vamos.
Devolvo eles em 30 minutos.
Vamos lá, Timothée?
O papai está esperando. Depois encontramos a mãe aqui, tá?
É a sua primeira vez no Centro?
Levaram os meus três filhos, para ver o pai.
Desculpa, estou pensando em voz alta.
Sempre falo o que penso, eu...
sou transparente como um copo de vidro.
Pelo menos é o que minha mãe diz.
Dito isso...
você tem que estar lá por eles.
Te juro.
“Proteção à Criança”?
É fácil dizer.
Eu não sei...
Não sei como isso está “protegendo” meus filhos...
expondo as crianças ao pai.
Nem eles sabem responder.
Eles não têm ideia.
De qualquer forma, não vai durar.
Ele vai voltar pra cadeia antes do Natal.
Pelo menos, eu acho que sim.
Desculpa, vou ficar quieta.
Dá pra ver que você é uma boa pessoa.
Então por que está aqui?
Se importa de conversar?
Sim, tudo bem.
Eu tenho três.
São as melhores coisas da minha vida.
Percebi logo de cara que você era nova aqui.
Você ainda tem esperança no olhar. É bonito.
Quer fumar um cigarro?
Não, vou ficar. Quero me concentrar.
Boa. Eles odeiam mães que fumam.
Não consigo controlar. Se não, eu enlouqueço.
- Então melhor fumar. - Sim.
Vai ficar tudo bem.
Somos mulheres. Nunca desistimos.
Se preferir, podemos chamar de “uma quebra na narrativa”?
Li no seu prontuário que você escreve.
Bem...
A hora é agora e estamos aqui para ajudá-la
para reconstruir o laço em relação ao Paul.
Para garantir um lugar justo para o papai e para a mamãe.
A partir de quando?
Vamos analisar o seu processo...
Com licença.
Perdão. Não compreendo direito a sua linguagem.
“Mamãe” ou “papai”… Eu sou “a mãe” dele.
E eu não vejo o Paul há um ano e meio.
Não sei se entendem o que estou dizendo.
Paul precisa ver a mãe dele.
Vamos manter a calma. Pode ser?
Estamos aqui para ajudar você e, acima de tudo, para ajudar o Paul.
Nós vamos ver o Paul com o pai dele.
Depois, nós ligamos para marcar o primeiro encontro.
Mas quando?
Pode ser bem rápido.
Em um mês ou dois.
Um ano e meio sem ele.
Dois Natais,
um aniversário dele,
um Dia das Mães,
dois aniversários meus.
E todos os outros dias.
Que raios é isso?
Foi ideia da enfermeira.
Foi ela quem fez?
Não.
Mas ela quer, a qualquer custo, que eu mostre que quero viver.
Foi você quem montou?
Foi, sim.
Fica claro que eu quero viver, certo?
Muito claro.
Bem...
- Feliz Natal. - Você não fez isso.
Desculpa. Não tenho nada pra você.
Obrigado.
Tô cansado. Se incomoda se eu for me deitar?
Boa noite.
Boa noite, querida.
Meu querido,
Não dê ouvidos a quem fala que é ruim não nos vermos.
Não dê ouvidos a quem fala que você deve sentir saudades de mim,
e o quanto deve estar triste.
Nem aqueles que parecem constrangidos
quando falam de mim, da situação, ou seja lá o que for.
Sei que você sabe que não devia se importar.
As pessoas falam besteiras.
Você sabe desviar o olhar e ignorá-los.
Quanto ao seu pai e a mim, a raiva dele contra mim,
e qualquer coisa que ele tenha falado de mim
para o juiz e para você,
não se revolte.
Não guarde rancor dele.
Sabe, é normal que ex-parceiros briguem.
É uma velha história.
Atirando veneno um no outro quando o amor acaba.
Para falar a verdade, prefiro assim,
a casais que saem para jantar no dia do divórcio.
Prefiro a verdade da guerra à hipocrisia da paz.
Não sei se você me odeia.
Você não precisa me responder.
Você tem todo direito de me odiar.
O ódio é parte indispensável do amor.
Não existe amor sem ódio.
Quem diz o contrário é mentiroso ou covarde.
É parte essencial do amor de uma criança por seus pais.
Sobretudo de um filho em relação à mãe: odiá-la.
Ainda assim, muitos filhos nunca conseguem.
Como filha que sou,
que amava minha mãe como um filho,
não sei se eu teria conseguido.
Acho que foi por isso que ela morreu.
Ela sabia que eu não teria coragem de matá-la.
Você precisa matar aqueles que ama.
Saber que é capaz disso.
Nós sempre temos esse direito.
O amor é brutal.
Não fique triste se pensar em mim.
Não adianta ficar triste.
Mas se ainda assim você ficar triste,
saiba que penso em você todos os dias.
Eu sou a sua mãe.
Isso é algo que nunca acaba.
Um beijo,
Mamãe.
MEU AMOR,
NÃO DÊ OUVIDOS A QUEM FALA...
"Meus avós estão mortos.
A casa foi vendida.
Meu pai está sem um tostão.
Há quinze anos, ele vive sozinho na casa do antigo cozinheiro,
sem arrependimentos."
- Clémence, isso foi maravilhoso. - Obrigada.
- Foi lindo! - Obrigada.
Obrigada! Tchau.
O que devo escrever?
O que você quiser.
Ali é a cozinha,
mas a geladeira fica na sala.
Deixem-me apresentar...
Odile, Clémence.
Clémence, Odile. É isso.
Esse é o seu quarto.
E se pagar a empregada e a bebida, estamos bem.
Legal.
Se eu trouxer garotas pra casa, isso é...
Isso é tranquilo pra você?
E se eu trouxer garotas pra casa?
Tudo bem. Tranquilo. Tranquilo mesmo.
Legal.
Legal. Então, bem-vinda à sua nova casa.
Obrigada.
Tem certeza de que eu posso pegar a mesa?
Pode levar, não uso.
Perfeito.
Vai ficar tudo bem.
Vejo vocês no café.
Até já.
Comprou um presente para ele?
Sim.
Um chaveiro de bússola.
- Ótimo. - É?
Com certeza.
Ele vai adorar.
Você vai ver, vai dar certo.
Vamos todos nos sentar ao redor da mesa.
Espera.
Então, vou explicar
como vai ser o encontro.
Vocês vão ver. É muito simples.
Posso...
Desculpe. Ele pode se sentar no meu colo?
- Paul, você quer? - Quer?
Nós ficaremos aqui durante esta hora com a sua mãe.
Se tiver alguma dúvida,
ou algum pedido, pode falar conosco.
Estamos aqui para você, tá?
Estamos aqui para te tranquilizar, se precisar da gente.
São onze e dez da manhã.
Isso significa que a reunião vai terminar por volta de meio-dia e quinze.
Não estamos com pressa, estamos?
Finjam que não estamos aqui.
- Isso é pra mim? - Claro!
É um presente. Um chaveiro de bússola.
- Eu ainda não abri! - Certo, desculpa.
Em que lugar de Paris você está?
Estou morando no Marais.
Em que direção isso fica daqui?
Fica...
no sul...
Sudoeste, acho.
É pra lá?
E em relação à casa do papai?
Nordeste.
Aqui.
Acha que eu cresci?
Sim!
Muito!
- Sério? - Sim.
Você não mudou nada.
Não? Isso é bom?
Sim, é bom. É excelente!
Obrigada.
Vi seu livro numa loja, com sua foto.
Mostrei pro Louis e disse que você era minha mãe,
que tinha escrito. Ele disse que achou legal.
Quem é Louis?
Louis é o meu novo amigo.
Meus melhores amigos são Louis e Camille.
Camille é um pouco como você. Ela é muito estilosa.
De verdade.
Mas ela não pode ser...
tão estilosa como eu.
Não, não. Mas quase.
Queria que a gente estivesse no mar.
Ou na casa do vovô, isso seria bom.
Você sabe se o vovô está bem?
- Ele tá bem. - A gente devia visitar ele logo, né?
Sim.
Isso é permitido? Digo...
Você pode perguntar pro pai,
perguntar ao Laurent, se podemos visitar meu pai?
Vou repassar sua pergunta.
Me conta as novidades?
Eu esqueci de tudo.
"Manter relações homossexuais
não deve ser considerado, hoje em dia, sinal de instabilidade psicológica.
Tampouco escrever livros."
Recebemos, o laudo do psiquiatra em abril.
Nove meses depois da decisão,
que previa seis meses para revisar nosso processo.
Acho que essa frase fica na introdução ou na conclusão.
O médico decidiu esclarecer esse ponto.
Caso restasse alguma dúvida, nunca se sabe,
na cabeça da juíza ou do Laurent.
A lei é a lei,
mas, no fim das contas, continua problemática.
Na escola dele, no 6º distrito de Paris,
os pais, ao que parece, disseram que eu estava “doente”.
A diretora já recebeu o laudo do psiquiatra?
Eu mandei, mas ela não respondeu.
Não, infelizmente não sei.
Posso anotar e perguntar a ela depois.
Obrigada.
- Olá. - Olá!
Oi, meu amor.
Você está elegante hoje.
Fones novos?
São do papai.
Muito estiloso.
Eu trouxe isso.
Tenho permissão pra dar comida a ele?
Sim, claro.
Quer um pouco? São sementes.
Acho que não gosto mais disso.
Ah, está bem.
Está tudo bem?
Não sei o que te dizer hoje.
Sem problema.
Não tem problema nenhum.
O que a gente faria se estivesse lá fora?
Tomaríamos sorvete?
Ou ir ao cinema? Seria legal.
Ou os dois.
- Isso seria ótimo. - Sim.
Sabe...
é normal que tudo isso seja estranho.
É realmente muito estranho.
Para mim também.
O que importa é a gente se ver.
Podemos sentir um ao outro.
Assim você vê que estou aqui.
Sempre estive aqui.
Ei, e aí?
O que houve com você?
Só estou me sentindo animado.
Quer um pouco?
Só um trago?
- Ela é bonita, né? - Quem?
Ambre. De cabelo curto.
Sim, muito bonita.
Vem com a gente?
Não, obrigada.
Não? Tudo bem.
O que eu digo pra ela?
Pra quem?
Ambre!
Não sei, meu tesouro.
Ela é uma pessoa, acredito,
com os sonhos e interesses dela. Conversa com ela!
Eu vou escrever,
e você beba água, certo?
Farei o meu melhor.
Até amanhã?
- Até mais, Junior. - Boa noite.
É escolha deles, todos que quiserem acreditar
que as mulheres têm uma ligação com a Lua,
com a natureza, com o instinto,
que as obriga a se guiar pela matéria
e a renunciar ao ser.
Não tenho interesse algum nisso.
“Mãe” não existe.
“Mãe” como status, como identidade,
como poder e não-poder,
como posição de dominada ou de dominante
como vítima e algoz.
Isso não existe.
Isso nunca existiu.
Há o amor, e isso, é uma coisa totalmente diferente.
Alô?
Onde você está? Não estou te vendo.
Em casa. Ele não quer ir.
Como assim? Por que ele não quer vir?
Quer tomar um café na Place Dauphine?
Está bem.
Vou descer. Até daqui a pouco.
Ainda está nadando?
É insano.
É insuportável.
O quê? Quer discutir “questões”? Quer brigar?
Por que você vive atrás de conflito? Conflito, conflito... É insano.
Você é muito violenta.
Eu não disse nada, Laurent.
Mas...
Você entende como isso afeta o Paul?
Para! O Paul está bem! Quando não te vê, ele fica bem.
Boas notas, se destaca na escola, bons amigos, ele está feliz!
É só ele te ver, e tudo acaba.
Basta te ver que ele se abala, fica em conflito.
Sim.
Você quer mais responsabilidade. Mas está tentando ganhar dinheiro?
Me disseram que você não quer mais advogar.
Eu pago a escola. Acha normal eu pagar tudo?
Então, sim, minha preocupação é o Paul.
E você? Quer pensão pra poder…
viver o seu...
sonho de ser uma poeta atormentada num sótão?
Isso não é egoísta?
Tudo isso...
Tudo isso pra escrever umas bobagens?
Que estão causando um alvoroço na sua nova bolha “hipster artística”?
Você é ridículo, Laurent.
Eu não te reconheço mais.
Não é justo.
No fim, todos acabamos lá.
Tem mais alguma coisa para me dizer?
Então eu acerto a conta.
Você sente saudades?
Do quê?
Da vida no château.
Não me vejo mais jogando tênis.
A gente podia dar uma volta pelo jardim.
O que vem depois?
Não deve ser fácil pro Laurent, com todas as suas maluquices…
Minhas maluquices?
Seus casos com mulheres, em Paris,
você escreve sobre isso no seu livro…
Entendo que foi difícil pra ele.
O quê? Você "entende"?
Deixe-me te lembrar que já não posso ver meu filho.
Tá bom?
"Entenda" isso.
Está bem.
Que horas são? Ela está atrasada.
Quem? A enfermeira?
Sim.
Pro meu Subutex.
Ela não deixa aqui. Não confia em mim.
Acredita nisso?
Enfim. Que bom que seu livro vai ser publicado.
Quero massinha.
Não é massinha, é cola adesiva.
Ela não pode… Ela não pode me ver.
Eu era tão fofo!
Tiramissu!
Meu primeiro. Estava tão gostoso.
Você gostou.
Lembra do homem perto do hotel
que vendeu a camiseta da “bandeira da Itália”?
Sim, eu me lembro.
Era muito caro, mas você comprou pra mim mesmo assim.
Você gostou tanto, não pude negar.
Você disse: “A vida de luxo ou não?”
A camiseta está meio pequena agora...
Mesmo assim, eu guardei.
Vamos fazer uma foto com o meu celular.
Com o seu celular?
Sim, o papai me deu no meu aniversário.
Sério?
Bem, isso é ótimo.
Podemos trocar mensagens.
Posso anotar seu número?
Meu pai tem. Disse que eu não devia sair distribuindo.
Precisa perguntar para ele.
Vem cá.
Tudo bem.
Espera...
Não quero pegar o seu Virgin Mojito.
Então, arrumou outra?
Não.
Arrumou sim.
Não.
Além disso, vou parar.
Sempre atrás de garotas...
É difícil demais. É difícil pra todo mundo.
E o Paul?
Paul...
nos vemos.
Ele está triste.
E eu também.
Ei.
Olá.
Esse calor tá brabo.
Vai nadar hoje de manhã?
A água é gelada?
É boa.
Posso ir?
Não.
Nem queria mesmo.
- Tudo bem? - Tudo.
Você está bem?
Este é o meu quarto.
Tomamos duas garrafas.
- Pega meu copo, pra acompanhar. - Não, água tá bom.
Enfim, como vai…
Uma taça de vinho tinto.
Nada mal, hein?
- Legal. - A casa de Dunquerque?
- Vamos deixar quieto. - Ele quer alugar uma casa em Dunquerque,
mas não queremos...
Será que te perdemos?
- O que há com vocês dois? - Nada.
Nada?
E você?
Estou bem.
Tchau!
Divirtam-se!
Vamos embora?
Tenha uma boa noite!
Boa noite!
Você vai ficar bem?
Boa noite.
Bons sonhos!
Durma bem.
Posso?
Seus amigos parecem adolescentes.
A maioria só está bêbada.
Clémence.
Sarah.
Esse café é seu?
Você vem muito aqui?
Sim, eu moro aqui perto.
E você, mora perto?
Na verdade, não.
Depende.
Depende?
Depende.
Esse ar de mistério costuma funcionar com as mulheres?
Sim.
Sim, funciona bem. Não posso reclamar.
Vou adivinhar o que você faz da vida.
Não. Você nunca vai adivinhar!
Vou sim. Juro, sou boa nisso.
E o que eu ganho?
Tenho três chances, tá?
E você ganha...
Te pago uma bebida.
Você me paga uma bebida
e me dá o seu número.
Te pago uma bebida e anoto seu número.
Certo, combinado.
Você é DJ.
O quê?
Por que não?
Pareço uma DJ?
Você tem a vibe... Você não é DJ?
- Não! - Também não é bancária.
Me sinto ofendida.
Você tem uma última chance.
"Bancária" não conta.
Conta, sim.
- Não conta. - Conta, sim.
Você é professora de ginástica.
Me dá seu telefone.
Você tem coragem.
Sim.
Obrigada.
Você é uma jornalista.
Como adivinhou?
O que eu ganho?
Acho que você já ganhou o bastante hoje.
Calma aí, guerreira solitária.
Me liga.
Mamãe!
Oi.
Oi.
Tenho que correr, parei em fila dupla.
Tchau, campeão.
Qualquer coisa, me liga, tá?
Até amanhã, papai.
- Quer correr? - Quero, vamos!
Mais rápido! Mais rápido!
O que foi?
Mãe, vamos superar isso, tá?
Sim.
Sim, vamos superar isso, meu amor.
Cuidado com o degrau.
Você está bem, campeão?
Não foi tanto tempo assim!
Vai lá.
Nos vemos em duas semanas.
Vamos pro litoral!
Vamos.
Quer ir ao cinema?
Então vamos!
Nos vemos em duas semanas?
Agora vai partir pra agressão? Inacreditável.
Entre.
Me fode.
Você tá bem?
Assim tá bom?
Preciso ir...
Por quê?
O dia tá nascendo.
Vai virar uma princesa se não for embora agora?
Talvez...
Vou correr o risco.
Quer um café?
Não, não me toca!
Fica longe de mim!
Odeio qualquer toque.
VEM COMIGO, SE TIVER CORAGEM!
Clémence! Não sabia que estava aqui.
Seu pai é um homem de sorte.
- Diz isso pra ele! - Vou dizer agora mesmo.
Pai?
Aí vou eu!
Você está sempre nos meus sonhos.
Antes, eram sonhos complicados.
Agora, são sonhos mais simples.
Estamos bem.
Você está aqui comigo
e do outro lado está a minha vida.
Garotas que me dizem que querem morar comigo.
É estranho, todos esses sonhos de amor, justo agora.
Sonhos quietos, tranquilos.
Sem nada incompatível entre eu e você,
entre eu e eles.
É claro, são apenas sonhos.
Na realidade,
você não está realmente aqui.
ESTOU AQUI
OK
Está com medo?
Não.
Deveria estar.
Eu sou incrível.
Consigo lidar com isso.
Mesmo?
Vou te contar uma lenda.
Depois disso,
se você topar,
vamos nadar até a outra margem.
Eu topo!
Há muito, muito tempo,
vivia aqui um fidalgo cruel, mas muito rico.
O castelo dele ficava bem no meio do lago.
Na noite de Ano Novo, à meia-noite,
uma velha mendiga bateu à sua porta,
pedindo um pedaço de pão e um gole de vinho para aquecer os ossos.
O fidalgo bateu a porta na cara dela,
debochando de seu rosto feio e das roupas puídas.
Imediatamente, o castelo inteiro desapareceu,
afundando no lago,
que surgiu, graças à maldição da mendiga.
Desde então, dizem que no coração do lago
há um redemoinho maligno que engole quem ousar atravessá-lo.
Pode nos apresentar, querida?
Esta é a Sarah. Meu pai.
Meu pai, Sarah.
Prazer em conhecê-lo. Obrigada por me receber.
Não tá morrendo de calor com isso?
Não, estou bem.
Você está partindo meu coração…
Sim, eu sei.
Estamos na casa do seu pai.
Meu pai não é padre, sabia?
Vai me apresentar ao Paul algum dia?
Sim.
Talvez.
Veremos.
Não quer mesmo tirar a roupa?
Sim, tenho certeza.
Está bem.
Gosto de estar aqui com você.
Você gosta de andar com velhos que tomam Subutex?
Sim, é a minha galera.
Esse clima de nobreza decadente.
Eu disse: gosto de estar aqui com você.
Eu também.
Gosto de você.
FOI ÓTIMO MORAR AQUI TRATE AS MENINAS COM CARINHO. BEIJOS.
PS: DEIXEI AQUELA CAMISA, SEI QUE VOCÊ ADORA.
A gente pode conversar ou vamos evitar isso?
Podemos conversar.
Eu não curto esse lance de relacionamento aberto.
Já passei dessa fase.
Certo.
Só "certo", ou...
"certo, eu aceito"?
Certo, eu aceito.
Olha.
O verde é bonito, né?
É. Ele gosta de verde?
Não sei. Acho que sim.
Você acha?
Ele sabe que eu existo?
O verde tá bom.
Assim, não fica exatamente igual ao meu.
Vou pagar.
50 euros, por favor.
Igual ao seu!
Assim.
Muito, muito legal.
- É muito estiloso. - É.
Eu escolhi bem.
- Viu isso? - Sim.
São as suas iniciais.
Vou usar seu sobrenome quando for grande.
Tem certeza? É um sobrenome com muita história.
Quero o mesmo nome que você e o vovô.
Bem, é você que decide.
Como está o novo ano letivo, Paul?
- Bem. - É?
Ainda está no ensino primário?
Não, no fundamental.
Paul frequenta uma escola particular.
Mãe...
Por que a gente não foi à praia, como você disse?
Porque o Laurent não quis que eu te levasse.
Mas eu fiquei te esperando.
Esperei por você o verão inteiro.
Eu sei.
Estou cansado de vocês dois.
Além disso, o papai tem razão. Você é egoísta.
Você quer viver a sua vida. Não se importa com a gente.
Não, Paul, isso não é verdade.
Eu me importo.
Paul.
Paul, sei que você está bravo
e tem razão.
Mas não é porque seu pai e eu nos separamos,
que a gente não se vê. Tá?
Laurent está muito bravo comigo
e não quer que eu te veja.
Ele vai superar. Mas, enquanto isso,
precisamos fazer o nosso melhor.
Precisamos nos contentar com isso, com o que a gente tem.
Está bem?
Sei que é horrível,
e nós merecemos coisa melhor, nós dois.
E é injusto.
Mas não posso fazer nada para mudar isso.
Sinto muito.
Quero ir embora!
Espera, Paul, talvez a gente possa conversar…
Quero ir embora!
Eu percebo o que está acontecendo. Você sabe, né?
Realmente percebo.
- É mesmo? - É.
- Eu já não consigo ver nada. - Consegue sim.
Assumi seu processo neste verão. Reli tudo.
Vou levar isso e para o processo.
Nós vamos chegar lá.
Vamos sim.
Vou te dar um momento.
Está frio.
Está gelado.
Está horrível.
Está frio, né?
Isso é tudo?
Encosta. Tá gelado.
Não, acredito em você.
TENTEI MARCAR VIAGEM COM PAUL SEM RESPOSTA
LAURENT CANCELOU O FIM DE SEMANA COM MEU PAI
ANIVERSÁRIO DO PAUL SEM RESPOSTA
TENTEI MARCAR COM PAUL DE NOVO SEM RESPOSTA
Olá, Sra. Delcourt, aqui é a Sra. Dureau do Centro de Encontros.
Está tarde, mas queria saber como você está.
Sinto muito que o pai do Paul tenha cancelado de novo.
Eu não devia dizer isso, mas o que ele tá fazendo é ridículo.
Acrescentei uma carta ao seu processo.
Não é de praxe, mas…
Estou preocupada com o Paul.
Acho que é urgente.
Ele não pareceu bem da última vez.
Talvez fosse melhor chamar o Conselho Tutelar...
Mas nunca se sabe como isso vai acabar…
Podem colocá-lo em um lar adotivo,
e levaria ainda mais tempo pra vocês se reencontrarem.
E uma vez acolhido, ele fica no registro até os 18…
Então, pensando bem, acho melhor não.
Por enquanto, não há mais nada a fazer.
Eu sinto muito mesmo.
De todo modo, vou tentar falar com pai de novo
e te aviso.
Não hesite em ligar, se precisar.
Tenha uma boa noite.
Ela disse que não aguenta mais.
Que minha vida é difícil e eu sou difícil.
Ela diz que não aguenta o jeito que eu sou com ela,
como saio de noite,
desapareço por alguns dias e depois volto, louca de amor.
Não suporta mais, a paixão intensa e depois a frieza.
Está farta da estranha, da criança selvagem.
Está cansada da minha arrogância, das minhas frases idiotas,
indo do melhor ao pior.
Ela diz que um dia vai embora de vez.
Talvez seja o inverno que nos deixa assim.
- A gente pode simplesmente ir? - Sim, podem ir.
Vocês têm duas horas.
Aproveitem! Vão, depressa!
Uau, é lindo!
Cuidado, vovó!
O que faremos depois?
Pensei em boliche, quem sabe?
É uma ótima ideia!
Apesar de que...
Não, não vai dar.
Vamos nos atrasar.
Desculpa.
E um cinema?
Não,
não temos tempo suficiente.
Outro sorvete?
Por mim, tudo bem.
O que foi?
Você é incrível.
Acho você incrível.
Está no nosso sangue Delcourt.
Da próxima vez, pode me mostrar a sua casa?
Sim.
Claro.
Não tem nada de especial, você vai ver.
Mesmo assim, quero ver.
Talvez eu pudesse largar algumas das minhas coisas lá?
Sim.
O que você quiser.
Lembra como você sempre quis vir aqui?
Quando estava na pré-escola?
Não, eu não me lembro.
Então?
Não esperava por você.
Vim para te apoiar.
- O Paul ainda está lá dentro? - Sim.
Laurent está sempre atrasado. Ele faz isso para evitar me ver.
Vamos indo?
Eu só queria vê-lo.
Mas agora estou encrencada!
Calma. Eu só queria ver o Paul.
Acho muito estranho ainda não ter conhecido ele.
Estou sem palavras.
Acho que combina com você, essa coisa de “Centro de Encontros".
Você não quer que eu o conheça.
Mesmo que você tivesse uma vida normal...
O quê?
Você está ouvindo o que está dizendo?
E se o Laurent tivesse te visto?
Uma “vida normal”? O que isso quer dizer?
Essa é a minha vida!
Estou lutando há dois anos para ver meu filho.
O Paul...
é a coisa mais importante.
Se você não entende isso, então vai embora.
Ninguém fala assim comigo, Clémence. Nem você.
Você pode ficar até eu adormecer?
Então a gente nunca mais se vê.
Sim, espera, querida.
Desculpa.
Com licença, moça.
Pode me ajudar?
Está travado.
Esse negócio nunca funciona.
Qual foto?
Essa aqui.
Vai ser um quarto perfeito para o Paul.
Será que pinto uma das paredes dele?
Você sabe pintar?
Não.
Deixa essas paredes brancas em paz, por favor.
Coloque alguns quadros e pôsteres.
Vai ficar perfeito, querida.
Está bem.
Vai ser ótimo.
Em seguida, o Laurent me manda um e-mail duas horas antes, cancelando.
E de novo na seguinte.
Também cancela nossa reunião de sábado no Centro de Encontros.
O Centro manda e-mails para ele.
Ele nunca responde.
É por causa da audiência.
Marcaram uma data em fevereiro.
Ele pediu para o Paul falar.
Descobri depois.
O Paul disse ao juiz que não queria me ver
e que nunca sentiu minha falta.
Ele não me chamou mais de “maluca”.
Foi melhor do que da outra vez.
Oi.
- Já te vi antes? - Sim.
E não houve nenhum progresso?
Não, senão eu não estaria aqui.
Faz sentido.
Talvez eu não devesse dizer isso,
mas você parece uma pessoa decente.
Alguém que sabe ouvir a razão.
Eu e minha papelada não vamos mudar nada, sabe.
No fim das contas, é tarde demais.
As crianças crescem e não dá para recuperar o tempo.
E isso...
os figurões não entendem.
A infância passa rápido.
Então, me diga.
Bem...
às onze e dez da manhã,
cheguei à casa do meu ex-marido, Laurent Lévêque.
Vale lembrar que há três meses eu ganhei o processo.
Agora eu deveria ter a guarda do meu filho
em fins de semana alternados e metade das férias.
Uma decisão que meu ex-marido não respeitou nenhuma vez.
Às onze e dez da manhã, cheguei em seu apartamento.
Lá, encontrei Gontrand Ducourt,
um amigo, o advogado dele...
que abriu a porta para mim.
Havia dois outros amigos lá dentro,
Isaac Hofmann e Guillaume Bloy.
Laurent disse que assim eu não poderia inventar coisas,
porque havia testemunhas.
Pedi para ir ver meu filho.
Atravessei o corredor, entrei no quarto dele.
Meu filho estava deitado na cama, debaixo das cobertas,
como da última vez.
Laurent estava lá também.
Meu filho não respondeu minhas perguntas, não se mexeu.
Sentei na beira da cama dele,
pedi ajuda ao Laurent.
Ele respondeu:
“Não preciso obrigar o Paul se ele não quiser te ver.”
Ele falou alto para que os outros pudessem ouvir.
Eu disse que ele não estava respeitando meus direitos
e que aquilo não ajudaria o Paul.
Que eu ia prestar queixa.
Às onze e vinte, saí do quarto do meu filho.
Na sala, Laurent disse:
“Uma hora,
você vai se cansar de toda essa enrolação.”
Você tem algo a acrescentar?
Sim.
Essa é a oitava vez que eu presto queixa.
Eu acredito
que será a última vez.
Ontem à noite, pedalando, eu compreendi.
Eu voltava para Belleville, atravessando Paris,
e percebi que o luto tinha acabado.
Não momentos normais de tristeza, claro,
mas aquele luto que permeia tudo.
Percebi que eu tinha velado meu filho.
Eu entendi: é isso.
Estive de luto por ele.
Eu me senti bem.
Fazia anos que eu não me sentia tão bem.
De repente, me dei conta.
Como acordar curado depois de uma gripe.
Pensando bem,
fazia meses que eu não sonhava com ele.
Quase liguei para o advogado para dizer que não queria mais nada.
Nem fins de semana, nem férias.
Então percebi que não adiantava, já que não estava dando certo mesmo.
Não havia nada a dizer. Nada a fazer.
Mal vejo ele agora.
Não sabemos o que dizer.
Nos tornamos estranhos.
Estamos destinados à separação.
As lembranças da minha vida com ele estão se apagando.
Ou melhor, elas estão aqui, em algum lugar,
mas elas não me sufocam mais.
Consigo ver outras crianças sem pensar nele.
Acho elas fofas.
Não é algo triste.
Não é mais aquela pontada aguda.
Logo ele vai estar grande o bastante para escolher não me ver nunca mais.
E está tudo bem.
Ou talvez ele queira voltar a morar comigo.
Nunca se sabe com os adolescentes.
ME AME COM TERNURA
ME AME COM TERNURA
Tradução: Nathalia Ferrante
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