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E como vão fazer isso?
Ainda não sei,
mas ando a matutar nisso desde que me conheço por gente.
Porque é que tenho de ser eu a levar?
Porque é que tens de ser tu a levar?
Porque com esses dois olhinhos que tu tens,
eu beberia o veneno que tu me desses como se fosse um licor leve.
Relaxa, ele vai morrer esta noite na cama dele
como se tivesse tido um ataque cardíaco.
Ouve lá, quem vai sentir falta de um velho de 70 anos
que teve um ataque cardíaco?
Ninguém.
É esta. Vamos lá.
Vamos fazer história!
AS NOITES DE TEFÍA
Cuidado, Sissi! Esse é o copo do Franco!
Parem! Parem!
Cinco minutos de descanso.
Claro, é que Franco e Kennedy deviam estar no centro.
A Jackie não foi feita para ficar no canto.
Ponha a senhora no lugar dela, senão mato-a!
Se voltarmos a ensaiar, tu fazes de La Collares e eu de Jackie!
Como é que eu vou fazer de múmia com esta pele, coração?
Pessoal, por favor! Isto é a sério!
Isto é a sério?
Sim, Nisa? Isto é mesmo a sério?
- Posso falar contigo num instante? - Claro.
- "Claro". - Não me toques!
Estamos a falar de matar o Franco, porra!
Tu, mariconço, dá-me um beijo!
Porquê? O que vais fazer à representante? Matá-la também?
Não sei, ainda não pensei nisso.
Assim que perceberem que ela desapareceu,
as suspeitas recairão sobre nós.
Bem, vale a pena correr o risco se for para cumprir o nosso objetivo!
O que estão a fazer aqui? Saiam, pá!
Vamos lá ver, Nisa, o Franco tem 70 anos, é um velho decrépito.
Se o matarmos, vamos provocar outra guerra.
E se ele viver até aos 90 e ficarmos assim mais 20 anos?
As nossas vidas podem melhorar depois desta visita.
As nossas vidas? Só para nós? És egoísta, Charli!
Qual é o mal de tentar viver da melhor maneira possível?
Há maneira melhor que a liberdade?
Meu Deus!
Olha, não pretendo passar a vida toda a bater na mesma tecla.
Ótimo! Faz o que quiseres, ninguém te pediu para participar.
Não mo estás a pedir, estás a exigir!
Estás a impor-mo! E não te vou admitir!
E o que vais fazer? Vais denunciar-me?
Tal como denunciei o teu pai para evitar que vos matassem a todos!
Denunciaste o pai dela?
A rede com a qual o meu sogro colaborava.
Como assim, o teu sogro?
Tive de tomar uma decisão para proteger a família, sim?
Para evitar que os matassem a todos.
Já contei a história!
- Cala-te! Cala-te! - Cala-te.
Olha, se voltares a gritar,
não te tiro a mordaça nem para beberes água.
Acham realmente que um bando de prostitutas e mariconços
vai conseguir acabar com o general que vos arrasou na Guerra Civil?
Sei perfeitamente aonde vai acabar todo este vosso joguinho:
no garrote vil.
E Deus é minha testemunha
de que eu própria me voluntariarei para o apertar até o fim.
Põe-ma!
Põe-me a mordaça, mariconço.
O que é isso? Não era uma comédia?
Uma comédia negra, ao que parece. Sim ou não?
É preciso escolher. Ou salvamos o Tindaya...
Ou nada. No Tindaya já se votou.
- Votamos no que fazes aqui. - Sim?
Sim.
- Não sabia que tínhamos escolha. - Mas temos.
Claro que temos, porra. Duas opções.
Entrar no jogo desse filho da mãe,
que é o que estás a fazer.
E a outra é deixá-lo de cuecas na frente do diretor-geral,
que é o que ele merece. Por isso, vamos votar.
- Levante a mão quem... - Rapaz, estás a leste!
- No Tindaya tudo bem, mas aqui... - Vamos acabar todas no garrote!
Quillo, o que é que dizes?
Não, não podemos... Pois não?
Mais depressa! Vamos lá!
Vamos, senhores, movimento!
Vá, em formação!
Não temos tempo.
Vamos, vamos, não temos o dia todo!
Vamos lá!
Conta-nos lá, Charli,
convenceste o filho da mãe a dar-te um bastão,
ou ainda tens de mostrar mais serviço?
Vai bugiar, Boncho!
Vamos lá, mexam-se, porra!
Vamos lá, porra! Depressa! Depressa!
Vespa...
- Vespa... - Vá, senão estamos feitos ao bife.
Está fulo porque amanhã vão obrigá-lo a cantar para o diretor-geral.
Parece que não está com disposição. Nem para isso nem para nada.
É mesmo burra. Ele vai ver.
Mas se não cantar, o filho da mãe vai-se vingar dele.
Eu disse-lhe, raios. Eu disse-lhe.
Eu disse-lhe para ele cantar e deixar andar.
- Quero que me arranjes o uniforme. - Não, por favor...
Por favor! Por favor, não, não, não!
- A bem ou a mal? - Por favor!
Por favor! Não, não, não!
Por favor, não... Não, por favor...
Gosto mais quando gritas.
Por favor, não!
Por favor!
- Não, por favor! - Fica quieto, porra!
Por favor!
Por favor!
Que raio estás a fazer aqui?
Sai daqui! Raios te partam!
Sim?
Sim... Sim, acabei de acordar.
A vida de reformado é assim mesmo.
Não faço ideia, Sissi.
Suponho que seja informal.
Afinal, aquilo continua a ser um deserto.
Isso mesmo, Sissi. Força.
Que esse lugar te veja chegar como a grande estrela que és.
Não sei, Sissi.
Não me digas isso. Não te estou a deixar sozinha.
O pessoal da comunidade vai estar contigo.
O presidente do Fórum da Família
assegurou, em declarações a esta casa,
que o casamento igualitário é claramente inconstitucional.
O Partido Popular considera uma fraude legal
denominar "matrimónios" às uniões homossexuais.
Nas palavras de Mariano Rajoy,
o casamento é e sempre foi
uma instituição entre o homem e a mulher para a procriação.
O Partido Popular
interporá um recurso perante o Tribunal Constitucional
se o presidente Zapatero levar a lei adiante
e garantiram que, de qualquer forma,
revogarão essa lei assim que Rajoy chegar ao Palácio da Moncloa.
Dizem que ele matou o La Rata.
Isso é mentira. Isso é mentira, ele estava vivo.
Espero que tenha morrido.
Não, não, não digas isso. Se ele morrer, eu nem quero...
- Faz alguma coisa. - O quê?
- Fala com o Dom Anselmo. - O que queres que eu faça?!
O que queres que eu faça? Ele escolheu o pior momento.
Amanhã é o dia! Amanhã é o dia!
Vai ser fuzilado?
- Vamos fazer greve. - O quê?
- Eles que nos matem. - O quê?
Se tiverem coragem, que nos matem a todos. Que nos matem!
- Que nos matem todos, um por um. - Não, não!
Se esta madrugada não for libertado,
amanhã damos cabo do evento deles.
Ou todos ficam de pé, ou ninguém fica.
- Eu estou com o Boncho. - Eu também.
Mas o que estão a dizer? Não...
Deixem-me pensar um minuto, está bem?
Vou falar com o Dom Anselmo.
Fiquem calmos.
Ouça-me, Dom Anselmo, por favor. Já conhece o Flores.
Ele é impulsivo e muito popular entre os colegas.
Submetê-lo a um castigo exemplar
não vai ajudar em nada a receção de amanhã.
Algo grave deve estar a acontecer nos barracões
para vir falar comigo assim, a esta hora!
Os ânimos estão muito exaltados.
- E estão a dizer coisas que... - O quê?
Que podem arruinar a visita de amanhã?
Acho que temos de acalmar os ânimos, seja como for.
E que raio quer que eu faça?
Libertar um interno que não ouve ninguém
e que ia matando um dos meus guardas?
Porra!
Talvez se direcionar a pressão
para alguém que lhe importa...
Se ele bateu no guarda,
é porque estava a defender um companheiro muito especial,
Dom Anselmo.
Airam Betancor.
Com que então, o Flores é o amante misterioso
que o rapaz não quis revelar.
Sim.
E você acha que se eu ameaçar punir o companheiro dele
conseguirei subjugar o Sr. Flores?
Sim.
E amanhã não acontecerá nada que não tenha de acontecer.
E você conseguirá a sua carta de liberdade, como lhe prometi.
É isso mesmo, Dom Anselmo.
Bem, então...
Vamos perguntar ao interno em questão para ver se ele concorda consigo.
Vespa!
Manuel!
Tu terias feito o mesmo, não me lixes.
Sim... Sim, eu quero sair daqui!
Há mal em querer sair deste buraco?
Consegui melhorias para todos vocês.
Para todos. É ou não é?
Tenta ser prático por uma vez que seja na vida.
Por uma vez que seja!
Se contares a todos o que está a acontecer...
Calma, porra, eu não vou dizer nada. Nada!
Amanhã o teu plano vai ser um sucesso, não é?
Pela vontade que tenho de te perder de vista.
A ti e àquele filho da mãe, que vocês são iguais.
Vocês os dois.
Duas caras da mesma bosta.
O que foi, cabeça?
Filho da mãe.
Ainda não tenho a certeza.
É possível que eu vá ao evento da Tefía e...
E queria ver se podias...
Queres que a tua neta te acompanhe?
A tua neta vai ficar radiante.
- Obrigado. - Estás com forças?
Se pensar bem, não.
Mas ultimamente têm atuado forças estranhas em mim.
Que sem ele não teríamos levantado o infame véu de silêncio
que escondia este lugar,
agora transformado em albergue juvenil.
Estou convencido de que a maioria dos jovens
que hoje se reúnem aqui para se divertirem
não sabem da infâmia que abrigava esta antiga colónia penitenciária.
E essa ignorância é parte do problema.
Não podemos mudar o passado, mas é necessário conhecê-lo
se quisermos construir um futuro melhor.
Para recordar esta época terrível,
temos connosco alguns daqueles
que sofreram a sua brutalidade.
É com orgulho que apresento este evento hoje
com a Sissi Bencomo.
Sissi...
Voltar aqui tem sido um terror constante.
Eu nem imaginava que isso pudesse acontecer.
Mas aqui estamos nós.
Passei toda a minha vida a tentar esquecer
o que aconteceu neste lugar.
Mas não se escolhe o esquecimento.
De qualquer forma, como eu...
... escolhe o silêncio...
... para começar a esquecer.
Com esquecer, refiro-me a assumir a memória com dignidade.
Primeiro, é preciso lembrar-se de tudo.
Hoje,
quero começar por recordar
o Manuel Flores,
La Vespa,
o homem mais corajoso que conheci.
E em seu nome hoje digo:
o meu nome é Airam Betancor
e estive preso na Colónia Penitenciária de Tefía
apenas por amar um homem.
- Camiões! - Em formação!
- Vamos! - Rogelio, chama o Dom Anselmo!
- Vá, toca a andar! - Vamos lá!
A andar!
- Em formação! - Mexam-se, preguiçosos!
Depressa, por favor! Vá lá, vá lá!
- Vamos lá. - Em formação!
Que poder tens tu, rapaz.
O que raio lhe disseste para soltarem este?
Ele não quer problemas, hoje há muito em jogo. Vamos.
Muito. Há muito em jogo.
Ai, a minha vida!
Uma escassa dúzia de rosas e um botão daqueles.
O que queres?
Bem, aceito a minha penitência com resignação
porque sei que este 22 de novembro de 1963
será o primeiro da tua ascensão à glória.
Pois, a mim vai ficar-me na memória
como o dia em que fui ver o Conde de França
e mandei às favas um ministro espanhol.
Já chegaram, Excelência.
Viva Franco! Viva Franco!
Viva Franco!
Viva! Viva Franco!
- Viva Franco! - Viva!
- Viva Espanha! - Viva!
Meia-volta!
Excelentíssimo diretor-geral,
é para nós uma honra imensa poder recebê-lo hoje
na Colónia Agrícola Penitenciária de Tefía.
Muito obrigado, Umpiérrez.
- Isto é muito longe. - Sim.
Por um momento, pensei que iam começar a aparecer negros e girafas.
Dona Pilar, aos seus pés.
É melhor não, vai ficar todo sujo de pó.
É um presente dos internos.
- São flores de tojo. - Tojo.
A flor do deserto, Juan Mari.
Já conquistou a minha senhora, Umpiérrez.
A minha mulher nasceu em Sidi Ifni. Para ela, isto é o paraíso.
A sério?
Para mim também, na verdade. Para mim também.
Bem, se quiserem acompanhar-me,
acho que ficaremos muito melhor abrigados do vento.
Não! Depois, vais passar a noite com calores.
Dê ao Caudilho uma Mirinda.
Tu ouviste.
- Viva Franco! - Viva!
- Viva a senhora Carmen! - Viva!
- Bebeu o copo? - Até à última gota.
Ai, meu Deus, meu Deus! Matámos o Franco!
O Franco, não! O ministro!
Como assim? Sissi!
Mas tu és burra? Esse não era o plano, caramba!
O que queres que eu faça? Ele não queria champanhe.
Boncho!
O Franco quer uma Mirinda.
É preciso prepará-la. Para o meu camarim.
É preciso calar a representante, não para de fazer barulho.
- Vamos. - Vamos, mariconço!
Uma Mirinda agora? Que idiota!
Um, dois, três.
Já está. Vai lá para dentro.
- Cocktail estrela do Tindaya. - Está mortal.
Vamos, vamos, vamos.
Silêncio, silêncio!
Sr. Robles!
Desculpe, mas o espetáculo está prestes a começar.
Cala-te, cala-te. Olá, Nisa.
Queria pedir-te desculpa
pela situação embaraçosa do outro dia.
Claro. Muito obrigada.
- Vão lá, que têm muito que fazer. - Vá.
Espero que depois de uma noite tão importante como esta,
a nossa...
A nossa relação dê uma volta de 180 graus.
Claro.
- Têm alguém no buraco? - Sim, outra vez!
Acho que não é preciso esperar até amanhã
para apagar todo este fogo.
- O que foi? - Sai da frente, mariconço!
- Não! - Sai da frente!
Meu amor! Querido!
- O que se passa aqui? - Nada, meu senhor.
Quem têm aí dentro?
Abre a porta, mariconço! Abre!
Obdulia! Obdulia!
Querem matar o Franco!
Como ouviram, eles querem matar o Franco.
A conspiração judaico-maçónico-marxista
tem essa obsessão.
Até João XXIII,
que Deus o tenha na glória porque não fazia nada cá...
- Juan Mari! - Dom Juan María, por favor.
... juntou-se a essa conspiração.
Entre uns e outros, não pararam de perseguir o Generalíssimo.
E tudo pela execução daquele animal do Grimau,
como se os americanos não executassem os seus criminosos.
- O pecado prospera na liberdade. - Pois claro, senhor padre.
O Kennedy tem de entender
que o Franco é a sentinela do Ocidente.
E se ele não entender a bem, então que pague a mal.
Terá de pagar se quiser manter as bases em solo pátrio.
Precisamente.
E diga-me, Dom Anselmo,
... todos os prisioneiros são...
... maricas? - Invertidos, Mari Pili.
Não, não, não, todos não. Graças a Deus.
Caro Carlavilla, que ensaio o do seu tio.
- Arrepiante. - Magnífico, magnífico.
O seu tio disse-me que lhe enviaram
uma dessas máquinas modernas de eletrochoque.
Correto, Dom Juan María.
As terapias eletroconvulsivas
têm sido fundamentais nos Estados Unidos e na Alemanha.
Olhem, este interno foi tratado com a máquina.
Foi?
E como se sente, jovem?
Sente menos atração por homens?
Responde à senhora.
"Muita" menos, minha senhora.
Já não...
Já não sinto atração.
E para si, qual foram os benefícios do internamento?
A mim, de invertido, só me resta o asseio e a subserviência,
Excelência.
E você também tem o seu desvio sob controlo?
Eu não sou
um invertido, Dona Pilar.
Pois não, o problema dele era com a bebida.
Outra praga. - Não tão indecente, mas é uma praga.
Explique-lhes, Arencibia.
Graças à orientação do Dom Anselmo e do Dom Bernabé,
estou pronto para me reintegrar
e contribuir com o meu trabalho e a minha alma
para o glorioso rasto do Generalíssimo,
senhor diretor-geral.
Como veem, o trabalho é fundamental em Tefía
e a disciplina rígida é o pilar do nosso método.
Trabalho na terra, sim,
mas acima de tudo trabalho com as almas,
para que assim Deus lhes conceda o perdão.
- Amém. - Amém.
- Amém. - Amém.
Vamos, mariconço!
- Viva, Espanha! - Viva!
Mari Pili, estás a chorar, querida?
Ai, Juan Mari,
é que nunca tinha visto uma coisa assim.
É...
... como um bailado de fervor guerreiro.
É o espírito do Caudilho, Dona Pilar.
Quando penetra nos homens, produz este sentimento glorioso.
Viva Espanha!
Viva!
Bem-vindos ao Tindaya
Bem-vindos ao Tindaya
Bem-vindos ao Tindaya
Deixem-se levar
Aceitem o incrível
O limite do possível
Não é de laranja, é de limão.
O que foi?
DEPÓSITO
Entrem, por favor.
Tomates e bananas vulcânicas.
Caro diretor-geral, Tefía cultiva a bandeira de Espanha.
Aqui são armazenados antes de serem transportados para o porto.
Cheira a tomate.
- Cheira, Juan Mari. - Cheira a tomate a sério.
- E o vermelho intenso. Que brilho. - Que maravilha.
Leve-nos à zona de cultivo, Umpiérrez.
A luta para arrancar desta terra dura estes tesouros
parece-me mais épico do que o "Cantar de Mio Cid".
Fica muito longe?
É uma e meia da tarde, acho que está muito calor para dar um passeio.
O sol aqui é muito traiçoeiro e com este vento não recomendo.
Não, não. Como lhe disse, a minha senhora cresceu em Marrocos
e, tal como o Caudilho, adora os desertos.
Talvez invada África.
Pois, não quero ser chato, mas acho que está muito vento...
Não há vento que nos pare, Umpiérrez.
Não nos tome por gente da capital pusilânime.
Queremos ver as plantações, não é, querida?
- Estou ansiosa. - Com certeza.
Permitam-me que lhes ofereça um lanchinho antes
para recuperar forças. - Muito bem.
Por favor.
Todos para fora!
Para fora!
- Mãos no ar! - Com as minhas mãos...
Com as minhas próprias mãos, vou apertar o garrote até ao fim,
bando de mariconços!
E agora mesmo vou contar ao Dom Anselmo!
Estão todos bem?
- Nisa! - Ele bebeu?
Não, quer uma Mirinda de limão.
Os bailarinos vão trocar de roupa para o número final!
- Vamos pôr estes no esconderijo. - Está bem!
- É preciso preparar outra bebida. - Estás ferida.
- Não, estou bem... - Vamos, não há tempo a perder.
Ai, mariconço!
Vamos, vamos, vamos! Vá lá!
Precisamos de cordas, estas bananeiras não aguentam!
Vá, mais cordas, senão a plantação cai! Vá!
Isto não aguenta! Isto não aguenta!
Não ponhas mais pedras aí. São 250 mil, distribui-as um pouco.
- Põe uma pedra, rapaz. - Eles estão a chegar!
Pedras, porra! A estufa está a cair!
Santinha, o siroco vai deitar-nos a estufa abaixo!
Vá, depressa!
Ao lado da Jacqueline, ela é ainda mais feia, a cabra.
Mas o que estão a fazer aqui? Vá, para o palco! Toca a andar!
A minha coreografia será a última coisa
que aquele filho da mãe verá na vida.
- Vá, sai, sai. - Vamos!
- Vamos! - Eu vou contigo.
Sissi, querida, preciso que sejas tu a cantar.
- Eu não posso. - Porquê?
- A bala atingiu-a. - O quê?!
- Sim, sim. - Não, não, não!
É só um arranhão, mas acho que não vou conseguir cantar.
Nisa, para o palco. Nisa!
- Tudo bem? - Sim, sim, sim.
O plano não funcionou, por isso, por favor, deixem-se de parvoíces.
Por favor! Vou subir ao palco com a orquestra.
Sim.
- Adoro-te. - E eu a ti.
Vamos.
Daqui, podemos apreciar tudo muito melhor.
Juan Mari, é como um oásis no meio do deserto.
É impressionante.
Por favor.
Que beleza, não é, Mari Pili?
O símbolo do poder da vontade.
A civilização cristã dominando o cruel deserto.
Eu nunca estive numa plantação de bananas.
Podemos aproximar-nos, por favor?
O vento está a aumentar, Dona Pilar.
Acho que é melhor recuarmos.
É o mesmo vento que empurrou o Caudilho
a partir destas ilhas para a Cruzada.
Vento da vitória, Umpiérrez. Continuemos.
- Faça a vontade à minha senhora. - Sim, sim. Faça o favor.
Isso não aguenta, Charli, não aguenta!
Não importa, faz os possíveis!
Isto não aguenta, Charli! Chiça!
Boncho, é-me indiferente! Estão a chegar!
Todos para a linha da frente. Vamos, vamos!
Tem de aguentar até eles irem embora.
É assim que se levanta um país,
é assim que se constrói a Espanha de Franco,
enraizada na terra e enfrentando os elementos.
Olhe, olhe, olhe.
Daqui podemos desfrutar de uma vista maravilhosa do mar.
Não. Eu quero entrar na plantação.
Alto! Alto!
Como assim? O que é isso, Dom Anselmo?
Por favor, Arencibia, um pouco de respeito!
Lamento muito, Excelência,
mas a plantação de bananas é altamente propensa
a infeções cruzadas com outros ecossistemas.
Fungos, bactérias...
Dom Anselmo, os esporos
que estes ilustres senhores trazem nos sapatos e na roupa
podem destruir a colheita em menos de cinco minutos.
- Desculpe, eu não sabia... - Sim, é verdade.
Os esporos da capital são muito perigosos,
mas eu não queria privá-los... - Nem mais uma palavra.
Se houvesse um soldado como este interno em cada posto fronteiriço,
ainda seríamos um império.
Obrigado, rapaz.
E os tomates, senhor diretor-geral?
Viu os meus tomates?
Veja de longe. Por causa dos esporos.
Por causa dos esporos.
- Voltamos então? - Sim, sim, claro.
O que é que ele disse?
Aquela não é...
Não, não é...
Santa Virgem do Carmo!
Ele bebeu?
- Sim. - Sim?
- Sim. - Sim? Sim?
Nisa, vamos agora ter com o teu pai para ele te tratar isso.
Não, não, eu estou bem.
Prefiro sair com a Sissi do que terminar o espetáculo.
- Isto tem de ser comemorado, amor. - Tens a certeza?
Sim. Vai lá para fora.
Vai.
A paelha está ótima, não está, querida? O grão...
Muito boa. Soltinha, saborosa... No ponto.
- E com produtos da terra. - Um presente de Deus.
Amém, senhor padre.
O Dom Anselmo cuida dos reclusos como se fossem seus filhos.
Com a mesma abnegação de um pai, não tenha dúvidas.
- Dom Anselmo, com a sua licença. - Sim, sim.
Bem, antes das sobremesas,
um dos nossos internos vai cantar uma canção
que compôs especialmente para vocês.
A sério? Que maravilha!
Bem, toda a gente sabe que os sodomitas gostam de se exibir.
Sim... Aqui, tentamos extirpar-lhes o pecado nefando,
mas deixando intactas as suas inclinações artísticas.
Dom Anselmo, tem uma sensibilidade pouco comum.
Meu querido Umpiérrez,
precisamos de homens com a sua abnegação
e sentido de responsabilidade na capital.
Ele que comece a fazer as malas, não é, Mari Pili?
Caso contrário, eu levo-o na minha.
Obrigado.
Homens como o senhor têm que estar na linha de frente.
Muito obrigado, Dona Pilar.
Vespa.
Fui aprendendo a ser tua
Ao fazê-lo à maneira
Daquele que não pode Ser outra coisa
Quero afastar esse peso
De nostalgia e de pesar
E aposto a minha vida nisso
Deposito tudo no nosso sonho Ainda que gritem
Gritem
Não está mal
Não está mal
Espanha da minha alma
No meu peito pendurada
Como rosa de abril
Tenho as tuas espinhas cravadas
Porque maior é o teu amor
Quanto mais me fazes sofrer
Espanha da minha alma
Chamam-te pátria do sol
Que tempera a nossa alegria
Como podes celebrar
Vinte e cinco anos de paz
Se não fizeste nada mais
Do que gelar o nosso coração?
Não!
Nisa!
Espanha da minha alma
Ergue orgulhosamente a testa Porque a Espanha é diferente
Porque a Espanha é alegria
Viva a pátria do sol
Que bonito!
Bravo!
Que bonito, filho!
Como cantou naquele dia, a maldita.
Ele teria preferido acabar com a farsa.
Amava-te demasiado.
O que isso tem a ver com o facto de ter cantado?
Não sabes de nada?
Achas que o que aconteceu depois da missa foi por acaso?
Que a bênção de Deus Todo-Poderoso,
Pai, Filho e Espírito Santo, desça sobre vós.
- Amém. - Vão em paz.
Graças a Deus.
Excelentíssimo diretor-geral, Dona Pilar, senhor padre...
Por ocasião da ilustre visita
que tivemos a honra de receber na nossa humilde colónia,
esta direção decidiu fazer uso da tradição cristã
de conceder o indulto a um dos nossos internos.
Aqui está escrito o nome de um de vocês,
que, por seus méritos e trabalho,
mereceu a redenção total da sua pena.
Deixe a minha senhora ler, que estas coisas deixam-na louca.
Claro.
Que nervos.
E o recluso a quem é concedida a redução da pena é...
... Airam Betancor.
Que Deus te abençoe, filho.
Parabéns, rapaz.
Parabéns.
- Senhor padre. - Vão com Deus.
Fez aqui um trabalho magnífico, Umpiérrez.
Esta colónia é o epítome do que o Caudilho dizia
ao referir-se à reconquista espiritual dos espanhóis.
Muito obrigado.
Até dá pena que vá fechar e todo este esforço se perca.
Como assim, vai fechar?
Sim, não faz sentido manter estas instalações.
Os reclusos comuns podem ir para a prisão provincial,
que também tem uma ala para invertidos.
Sim, mas é que...
Calma, homem, calma.
O seu esforço não é em vão, Umpiérrez.
Anime-se, homem.
Sei que lhe custará abandonar a sua obra,
mas precisamos de homens como o senhor na península.
Nenhum sacrifício será insuportável
pelo bem do Caudilho e de Espanha.
Feliz, Dom Anselmo... Vou embora feliz.
Vamos construir um aeroporto aqui mesmo.
Daqui a um ou dois anos, isto estará cheio de turistas.
Vemo-nos em Madrid.
Dona Pilar, foi um enorme prazer.
Foi uma visita muito emocionante.
Impressionado, Umpiérrez... Vou embora impressionado.
Obrigado, meu Deus! Graças a Deus!
Obrigado.
- Dom Anselmo, sente-se bem? - Sim.
Estou feliz, Robles.
Estou bem.
Bambi, vais para casa!
Vais para casa!
Porque é que não me contou?
Para não dificultar a tua partida.
E depois, quando nos reencontrámos?
Suponho que não queria que pensasses que lhe devias alguma coisa.
A que horas vais embora?
Disseram-me que vou no próximo barco do correio.
Vais para Las Palmas?
Até poder voltar para a minha aldeia.
Toma.
É para o Ramón, se o vires.
Tem muito cuidado, meu menino.
Que a Virgem te acompanhe.
Adeus, Bambi.
Sê feliz.
Fortis imaginatio...
Generat casum.
- Chinijo... - Bonchito.
Aproveita, sacana.
Vá, já chega. A sério, que chatos que são, é só abraços.
Vamos!
Toca a andar!
Um homem livre? Sai.
Vá, ou sais, ou faço-te sair. Vamos.
Revista-o.
O que é isso?
Uma carta para outro maricas.
Muito bem. Baixa as calças.
- Mas... - Baixa as calças.
Vá, baixa-as!
Tinhas a cartinha de um amigo,
vamos ver se tens alguma coisinha guardada aí.
Vá, vira-te.
Baixa isso.
Baixa isso.
Abre. Desvia-te.
Vá lá, senão perdemos o barco.
Vá, veste-te. Puxa as calças para cima.
Vá, entra.
E não quero voltar a ver a tua cara de maricas aqui, entendido?
Acorda para a vida.
Vamos, Vicente.
Vamos, Perico.
Não estamos a legislar, excelências,
para pessoas distantes e estranhas.
Estamos a ampliar as oportunidades de felicidade
para os nossos vizinhos, para os nossos colegas de trabalho,
para os nossos amigos, para os nossos familiares.
E, ao mesmo tempo, estamos a construir um país mais decente.
Porque uma sociedade decente
é aquela que não humilha os seus membros.
Hoje, a sociedade espanhola
dá uma resposta a um grupo de pessoas
que durante anos foram humilhadas,
cujos direitos foram ignorados,
cuja dignidade foi ofendida,
sua identidade negada e sua liberdade reprimida.
Hoje, a sociedade espanhola devolve-lhes o respeito que merecem,
reconhece os seus direitos, restaura a sua dignidade,
afirma a sua identidade e restitue a sua liberdade.
Estou supernervosa. Se não gostarmos, o que fazemos?
- Porque não havias de gostar, Sissi? - Não sei.
Só não esperes que seja igual. Deve ter tomado as suas liberdades.
Eu acho que vão gostar.
ESTÚDIO 1
Bom dia.
Airam, Sissi...
- Apresento-vos o Miguel del Arco. - Prazer.
Realizador de "Las noches de Tefía".
Bem-vindos.
É um enorme prazer e uma honra ter-vos aqui.
- Posso? - Faça o favor.
Sissi.
És quase tão bonita quanto eu.
Equipa...
Por favor, deixem-me apresentar-vos o Airam Betancor
e Sissi Bencomo.
Estávamos prestes a filmar o número final.
Querem ver?
- Sim, claro. - Façam o favor.
- Vamos lá. - Primeiro take, por favor.
- Vamos lá. - Episódio 6671. Primeira marca em A.
- Marca em B. - Marca C.
Câmara...
E ação!
Deixem-se levar
Aceitem o incrível
O limite do possível
Explode ao imaginar
Bem-vindos ao Tindaya
Bem-vindos ao Tindaya
Bem-vindos ao Tindaya
Bem-vindos ao Tindaya
Olha para mim, olha para mim Olha para mim
Olha para mim, olha para mim Olha para mim
Olha para mim
Não vou ser Aquela que tens em mente
Quero errar livremente
Não quero os teus limites Não
Não quero o teu espaço finito
Eu lanço-me sozinha ao infinito
Toca a viver, a viver
A aproveitar a vida Até ao último dia
Pratica a alegria De viver e deixar viver
Toca a viver Toca a rir
A dançar e a coisar
Mata o tempo Que o tempo te vai matar
Assassinos, toca a cantar
Sou o que sou
Sou espuma salgada Sou vento
Sou o que sou Na tua cara
Terra de lava E giesta-brava
Sou o que sou
Uma alma incandescente
O que vês indecente Está no teu olhar
Sou o que sou
Sou a Luz de Mafasca
Montanha salgada Eu sou o que sou
Terra de lava E giesta-brava
Sou o que sou
E não peço perdão
Sou o que sou Esta é a minha casa
Estou no Tindaya
Bem-vindos ao Tindaya
Bem-vindos ao Tindaya
Bem-vindos ao Tindaya
Bem-vindos ao Tindaya
Bem-vindos ao Tindaya Bem-vindos ao Tindaya
Bem-vindos ao Tindaya
Bem-vindos ao Tindaya Bem-vindos ao Tindaya
Bem-vindos ao Tindaya Bem-vindos ao Tindaya
Bem-vindos ao Tindaya
Bem-vindos ao Tindaya Bem-vindos ao Tindaya
A ditadura franquista abriu mais de 300 campos de concentração
que começaram a funcionar antes do fim da guerra civil.
A partir da década de 50,
a ditadura, preocupada com a sua imagem internacional,
chama "campos de trabalho" ou "colónias penitenciárias"
àquilo que, na prática, eram campos de concentração.
Neste tipo de instituições e nas chamadas alas de invertidos,
foram presos centenas de homens desde 1954,
quando a Lei de Ociosos e Delinquentes
equiparou a homossexualidade ao proxenetismo,
à arruaça e ao alcoolismo.
Em 1970, foi substituída pela Lei de Perigosidade
que criminalizou o "ato homossexual" até 1978.
A sexualidade das mulheres, submissas ao homem por lei,
só era tida em conta para fins reprodutivos,
pelo qual nem se considerou
a possibilidade de terem orientações homossexuais.
Até 1995, os processos e fichas policiais abertas a esses homens
continuaram em vigor.
E só nesse ano é que o conceito de orientação sexual
foi incluído, pela primeira vez, no código penal.
Versão portuguesa para RTP: CRISTBET, Lda.
Tradução e Legendagem Jorge Brito
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