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Joseph Fiennes Fala sobre o Filme
Joseph, o que o levou a querer desempenhar este papel?
A razão...
... pela qual quis desempenhar este papel foi...
Houve uma série de razões.
Foi pelo realizador, pelo argumento, pelo tema...
E pela personagem. Quando Ili o argumento...
... fiquei imediatamente apaixonado. Achei que era...
... uma história muito importante.
E também era uma oportunidade muito empolgante para um actor.
Essencialmente, a personagem...
... sofre imensas mudanças.
Faz um percurso extraordinário ao longo de 20 anos.
Ao longo desse percurso,
tem de confrontar o seu condicionamento
e ultrapassar...
... OS limites sociais seguros daquela época.
Ele é assombrado pela sua consciência e acaba por ceder.
Achei que era um percurso lindo para a personagem e para um actor.
Na sua opinião, qual é a mensagem da história?
A história...
Acho que a história demonstra...
... as complexidades da Humanidade.
Se olharmos para o percurso de Nelson Mandela,
não só no filme, como também na vida real,
percebemos, sem dúvida alguma, que estamos perante
o maior humanitário da nossa época.
Eu acho que esse percurso e essa lição, só por si,
nos devem fazer parar e pensar
em relação aos nossos problemas do dia-a-dia.
A luta a que um homem dedicou a sua vida...
... pode ser profundamente inspiradora. E inspirou a minha personagem,
abalou a mentalidade ignorante da minha personagem nessa época.
Fê-lo abrir os olhos e penso que é uma grande lição.
Quer queiramos quer não,
SOMOS escravos do nosso condicionamento.
Por vezes, aquilo que consideramos ser liberal...
... € democrático, do ponto de vista de outro homem,
pode significar aprisionamento.
A lição que daqui podemos tirar é que devemos ver as outras culturas
do ponto de vista deles e não do nosso.
Acho que é isso que o James faz, ele acaba por ver a cultura,
as pessoas que estão detidas, que ele julga serem terroristas,
que ele foi levado a crer que são terroristas...
Acaba por conseguir ver os ideais e a cultura deles pelo prisma deles.
É um passo muito corajoso e muito importante.
Até que ponto conhecia a História da Africa do Sul, o Apartheid,
antes de fazer este filme?
Sabia muito pouco acerca da África do Sul,
só sabia o que tinha lido.
Como cresci em Londres nos anos 70,
passava junto à Casa da África do Sul em Traffalgar Square
e assinava uma petição.
Sempre que lá passava, assinava.
Quanto mais me questionava acerca da razão de Mandela estar preso
e acerca do que ele representava,
mais alerta fui ficando para esta situação horrível.
Fui então ver o que queria dizer Apartheid.
Mas ao fazer o filme, ao ler material,
ao conhecer a vida de James Gregory através de "Goodbye Bafana",
"Long Walk to Freedom" e outro livro maravilhoso "The Pale Native",
ganhei outro conhecimento de uma situação muito complexa
que começou há 200 ou 300 anos
em termos daquilo a que a África,
e a África do Sul têm sido sujeitas por parte de forças externas.
O que acha da África do Sul e da situação actual?
Passou pouco mais de uma década
desde que o ANC chegou ao poder.
Quase parece um conto de fadas, é extraordinário.
Não se podia escrever um livro, um romance ficcional,
acerca destes acontecimentos. Não seria...
Ninguém acreditaria, seria demasiado...
... Inacreditável.
Um Presidente esteve preso durante 27 anos
e depois foi libertado, juntou-se ao seu povo
e governou o país. Houve um avanço tremendo.
Como já disse, acho que...
foi uma luta de várias gerações
e houve abusos de ambas as partes.
Imagino que tamanha mágoa...
... demore tanto tempo a passar como a dor que foi infligida.
Acho que este começo foi fantástico
e imagino que haja um longo caminho a percorrer.
Acho que este filme vai demonstrar de forma muito bela
o potencial que todos nós temos, as potenciais oportunidades
que estão ao nosso dispor.
E como superar Oo nosso condicionamento.
Mas acho que a luta vai continuar, não creio que tenha terminado.
E não deve terminar.
Devemos sempre questionar o nosso contexto político
para aumentar o nosso potencial.
É muito complexo.
A estrada está desimpedida,
mas o percurso é longo.
O filme também retrata a história de um casal,
de James e Gloria Gregory.
Pode falar-nos um pouco da relação deles?
Acho que a vida privada do James é essencial para a sua pessoa,
a sua vida doméstica.
O essencial,
o aspecto central do James Gregory
é uma amizade que ele teve quando tinha sete, oito anos,
com um rapaz...
... um rapaz que falava xhosa,
nas terras de cultivo de Transkei onde cresceu.
Essa amizade com um rapazinho negro,
nessa época, seria algo muito raro.
Mas para James Gregory representou...
... uma liberdade...
... € Um nível de amizade que não voltaria a ter.
Isso foi muito importante na vida dele
e sem dúvida que o marcou na idade adulta.
Na vida privada,
a família e os filhos eram a coisa mais importante
e protegia-os acima de tudo.
Mas, por vezes, ele coloca o emprego e a família em risco.
Tem uma curiosidade insaciável, que remonta à sua amizade
com o tal rapazinho, Bafana.
Tem essa curiosidade,
de questionar por que motivo uma minoria branca governa
uma maioria negra.
"Porque é que me passam informações que me amedrontam,
"porque é que não posso ler a 'Carta da Liberdade"? Porquê?"
Todas estas perguntas vão-lhe ocorrendo lentamente
ao longo de muitos anos.
Apesar de dar muita importância à família, ocasionalmente,
coloca-a em risco porque a consciência dele leva a melhor.
Por vezes, ele sacrifica essas pessoas
para aumentar o seu conhecimento.
Mas a forma como encarei a personagem do James Gregory...
A forma como encarei este filme...
Eu achei que devia iniciar este percurso...
... encarando-o como um homem que quer sustentar a sua família,
que quer fazê-los felizes e levá-los para a ilha onde trabalha.
Há criminosos desesperados na ilha, mas é um sítio maravilhoso.
A África do Sul era pouco segura na altura,
havia confrontos nos arredores da Cidade do Cabo,
e ele pôde tirá-los da cidade para uma ilha idílica a 5 km da costa.
É apenas a história de um homem que trabalha numa prisão
e cria os seus filhos,
e que não imagina que, por pura coincidência, vai ser colocado,
por falar xhosa,
a lingua materna de "Madiba”"...
Ele fica encarregue de "Madiba".
Mas sabe ele...
... OS confrontos que o esperam.
Há uma excelente justaposição entre a sua vida interior e privada,
entre a sua curiosidade
e a sua ignorância.
Como se preparou para o papel?
Havia várias formas...
Para mim, o principal era ter de aprender xhosa,
pois havia muitas cenas em xhosa.
Especialmente quando James e Mandela falam em privado.
James foi levado para a prisão porque falava muito bem xhosa.
Eu tinha de saber falar um pouco para ser credível.
Passei mais ou menos um mês a preparar-me
e outro mês ou mais a treinar o sotaque africânder,
que o James tinha.
Acho que...
Os sotaques foram algo essencial para entrar no papel.
Também aprendi o jogo do pau.
Quer cortar?
Quer voltar a fazer a pergunta?
Não, pode continuar.
Também aprendemos o jogo do pau.
Isso é outra coisa que faz a ponte com a infância do James.
Era um elemento importante de uma cultura diferente da dele.
É importante ver que muitos momentos felizes da sua infância,
momentos de liberdade na sua infância
à parte da sociedade branca em que foi educado,
estão ligados a uma outra cultura maravilhosa.
E essa época
de inocência e divertimento puros volta para o assombrar.
Volta para o assombrar pela mão de Nelson Mandela.
Começa a haver uma mudança subconsciente no James.
Não me parece que ele soubesse explicá-la,
mas há uma parte da sua infância que volta para o assombrar,
e ele recupera essa inocência na relação com Mandela.
E para saber como desempenhar um guarda
fez alguma preparação?
Esqueci-me de falar nisso.
Também passei alguns dias a trabalhar numa prisão
quando cheguei à África do Sul.
Achei essa experiência extremamente esclarecedora.
Há uma citação interessante, mas não a sei reproduzir ipsiís verbis.
Lia-a quando fui até Pollsmoor.
Está escrita num dos corredores que dá acesso à segurança máxima.
Não posso fazer jus à citação, pois não me lembro bem,
mas diz que um país deve ser julgado
pelas suas prisões...
... E pelas pessoas nelas detidas.
E como Mandela passou lá tanto tempo...
Ninguém melhor do que ele para falar
de como uma prisão reflecte o estado de um país.
É revelador.
Bem como a relação entre o guarda e o preso.
A distância, a psicologia...
Muita coisa mudou desde que Mandela foi libertado.
Ocorreu uma grande mudança, uma grande reforma nas prisões.
Agora chamam-se serviços correccionais.
Foi introduzida outra mentalidade
e foi graças a Mandela.
Mas foi fascinante ver as celas, o tamanho das celas,
o fechar e abrir de portas, a questão da segurança.
E a psicologia de lidar com os presos.
Eu constatei um grande respeito
na altura em que lá estive, entre presos e guardas.
É muito menos brutal.
Fiquei com uma pequena ideia de como são as coisas agora
e possivelmente de como seriam na época.
Mas pelas coisas que já li e ouvi,
a brutalidade para com os presos políticos na Ilha de Robben
era abominável e terrível.
Mas fiquei com uma boa ideia do próprio cheiro de uma prisão,
da rotina diária e da monotonia,
tanto para presos como para guardas.
E os presos não sabiam que estava lá a preparar-se
para desempenhar o papel de guarda prisional num filme?
Enquanto actores, temos de ir lá com respeito
e ser cautelosos a falar disso.
Há pessoas a cumprir pena por crimes muito graves.
Quando um actor vai a uma prisão fazer pesquisa,
isso pode parecer frivolo quando comparado...
... Com o que se passa nas celas.
Eu tento respeitá-los...
... não falando dessa experiência,
para não dar a ideia de que só encaro aquilo como pesquisa.
Mas foi extremamente importante.
É a primeira vez que trabalha com Bille August?
Sim, é.
Há muito tempo que sou um grande admirador do seu trabalho.
Os filmes deles comovem-me imenso.
Poder trabalhar com ele foi uma bênção.
E devo dizer desde já
que terá sido uma das experiências mais felizes que já tive em cinema.
O Bille tem um conhecimento muito delicado do processo,
do processo criativo e tem...
Dirige os actores quase como um pai,
é extremamente integro,
extremamente atento aos detalhes.
Acho que gosta genuinamente de actores
e eu sinto-me muito seguro nas mãos dele.
Confio completamente nele.
E é raro haver tamanha confiança entre actor e realizador.
Tem sido muito empolgante
e ele reuniu um elenco genial.
E quanto aos outros actores,
já tinha trabalhado...
Já tinha trabalhado com o Dennis Haysbert
ou com a Diane Kruger?
Já conhecia o Dennis e já tinha trabalhado com ele.
Mas não contracenámos,
participámos no mesmo filme de animação da DreamWorks.
Os actores que participaram no filme não trabalharam juntos
porque gravámos no estúdio em sessões diferentes
e depois os animadores fizeram o resto.
Teoricamente, já trabalhei com o Dennis.
Mas na prática não, se é que me entende.
É uma forma...
... estranha de explicar a situação, mas é verdade.
É um grande prazer trabalhar com ele.
Tem uma presença muito forte.
Não me lembro de outro actor com a graciosidade, a inteligência...
... 8 O Carisma que são necessários a um actor
para fazer o papel de Mandela.
E essas qualidades são quase naturais no Dennis,
é um dom que ele tem.
Transmite muito poder e presença.
Adorei contracenar com ele.
E também com a Diane Kruger, com quem nunca tinha trabalhado,
mas cujo trabalho conhecia.
É uma esposa fabulosa.
E uma actriz maravilhosa.
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