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A sua mãe disse-me que tinham ido os
dois para medicina no porto.
>> Não,
já perdemos aqui o Simão para as letras
há algum tempo. Ser médico requer
estômago, não é para todos.
>> Mas sabe que o Carlos é que é o grande
amante de poesia. Até recita Alexandre
Ercolante de Cor.
Ó cidade,
cidade que transbordas de vícios, de
paixões e de amarguras.
Branqueado sepulcro,
um médico lírico. Uma pessoa está sempre
a ser surpreendida.
Um brinde
>> ao doutor poeta.
>> Anda, vai começar o jogo.
>> Não, já vou Carlos.
>> Eu
já não tenho idade para essas coisas.
>> Ai, vocês são todos iguais, uns
aborrecidos.
>> Eu não me importava de tentar. O que é
que estão a jogar?
>> Não diga que nunca jogou à malha.
>> Não, porquê? É difícil.
>> Não, eles é que têm medo de fazer
figura.
Se quiser eu ensino-lhe.
>> Seria uma indelicadeza da minha parte
dizer-lhe que não. Meus senhores, podem
continuar na medicina. Eu vou por outros
lirismos. Com licença.
>> Especialidade já escolheu?
>> Não, não sei. Logo se vê.
Claro, ainda é cedo. Sabe-se lá o que
vem aí.
Pessoalmente fascina-me a evolução que
isto tem estado a tomar. Costumava falar
disto com o seu pai quando ainda estava
entre nós. E era apenas um estudante
como Carlos é agora. A prática clínica
não para de me surpreender. Todas as
semanas novas descobertas, novos
estudos.
É muito simpático, um pouco tolo, mas
simpático.
São amigos de infância. Eu e o João
estudamos juntos no Porto.
Era uma companheiro das idas ao teatro.
E essas andanças,
>> essas andanças, imagino.
>> Não, a vida na cidade não é como julga.
>> As raparigas do campo são tão toas como
vocês pensam. Euo histórias.
>> As pessoas lá são todas iguais, não é?
como aqui
não são como a Amália.
Mil vezes estar consigo.
>> Cuidado, alguém pode ver.
>> E então estivemos juntos no piquenique.
>> Já percebi porque é que vocês são
amigos. São os dois tolos.
Peço desculpa,
é que sempre que estamos juntos sinto
vontade de
>> de
>> de arraptar como os verdadeiros amantes
faziam antigamente.
>> Afinal, acho que consegue ser ainda mais
tolo do que o seu amigo.
>> Não penso coisa que não seja levá-la
comigo daqui para fora. Fugimos
e ficamos juntos a vida toda.
>> E levava-me para onde?
para o Porto para sermos iguais a toda a
gente.
>> Com a mala seria diferente?
>> Tão diferente que só me quer em segredo
ou em fuga?
>> Perdão. Não
>> quero saber o que eu acho.
Está de férias e precisa de um entretém.
Foi assim com outras raparigas. Por isso
não acho que deva fazer promessas que
não pretende cumprir.
>> Acha que estou a tentar enganar?
Prometo-lhe que as minhas intenções são
verdadeiras.
>> Está entusiasmado?
Não faz mal. Já promessas vãs considero
perigosas.
>> Amália.
Amália não me entusiasmo com facilidade.
No que diz respeito ao amor, nunca o
fiz. Bom, até agora
>> mal me conhece.
>> Conheço desde criança a brincar à
distância.
>> E quantas vezes falamos até agora? E
depois
quando o amor é verdadeiro, engolle-nos
sem darnos por isso.
Quer que lhe prove?
Deixe-me vir ter consigo logo à noite.
>> Ah, pronto.
Se era para isso, para que foi toda esta
conversa?
>> O quê? Não percebeu mal. Eu só queria,
>> eu posso não saber como é que as coisas
no Porto funcionam,
mas visitas pela calada da noite, quer
dizer o mesmo em qualquer lado.
>> Amália.
Amália, por favor, deixe-me explicar.
Amal as minhas intenções,
>> meu querido. Uma mulher sabe
perfeitamente as intenções de um homem.
Da cidade ou não, vocês são todos
iguais.
O Carlos trouxe da casa.
>> Sim,
foi muito cort
>> bom rapaz.
Gosto dele.
>> Estranho seria se não gostasses.
Faz lembrar os teus amigos.
>> Isso é uma coisa má.
sempre é uma garantia.
>> Garantia de quê?
Que eu saiba ser doutor não é garantia
de nada.
Este é de gente de bem.
Se não fosse o pai dele, eu não teria
tirado o meu curso.
Se o interesse dele em ti for
verdadeiro,
acho que estás a perder uma excelente
oportunidade.
uma excelente oportunidade.
Se os pais fossem vivos, comungavam-te.
Se os pais fossem vivos, eram os
primeiros a dizer para te casares.
Se me dás licença.
>> Carlos, não é aceitável que estejas
assim por causa de de uma campesina.
>> Não te permito que lhe chames isso.
>> Queres que lhe chame o quê? Rústica. Até
poderia chamar-lhe saloia, mas não
estamos nessa região. Não pareceste
assim tão incomodado quando estavam a
jogar à malha.
>> Não é para isso que elas servem, admito.
É uma rapariga formosa.
Está aqui.
Não achas que te estás a precipitar?
Como queres que lhe mostre que as minhas
intenções são sérias? E são, como é que
vais fazer quando tiveres de regressar
ao Porto?
Leva comigo.
>> É,
>> fico cá. Não sei, ainda não pensei.
>> Vais virar a tua vida dua vez por causa
de um rabo de saias. Conheceste a meia
dúzia de dis?
>> Respeito. Estás a falar da minha futura
mulher.
>> É lá isso assim já é outra louça. Já
marcaram data, aposto.
>> Se dep era já amanhã.
É um anel de namoro.
Era da minha avó.
>> E a tua mãe? O que é que tem a dizer
sobre isso? Her eri do meu pai não lhe
diz respeito o que faço ao anel.
>> Estava a falar do casamento. Convinhola
a saber. Não.
>> Tudo a seu tempo. O que importa agora é
provar a Amália. Provar a Amália que és
uma pessoa séria. Sim, já se percebeu.
Até começares a prometer coisas que não
vais cumprir.
>> Porque é que te incomoda tanto que eu
quero a Amália? Acho que a paixão te
está a toar o juízo. E parece-me um
pouco cruel da tua parte estares a
alimentar esperanças à rapariga que não
estão na tua natureza a cumprir. Eu cá
sou diferente. Com ela não sou a mesma
pessoa que conheces da cidade.
>> Carlos, tu és a pessoa, prefere preparar
a tua carreira de medicina a jogar à
malha. Vais ser sempre assim. Estas
raparigas são só entretém.
>> Não sabes do que falas.
>> É provável.
E a propósito, esse entusiasmo todo que
sentes é correspondido?
>> Óbvio,
quer dizer, suponho que sim.
É verdade que fiquei sobressaltado
quando o avi pela primeira vez,
talvez mais até do que ela.
Mas nós estamos destinados a acabar
juntos. Eu sinto.
>> Tu é que devias ir para Letras, meu
amigo.
Eu acho que ela só se quer divertir,
porque é isso que este tipo de raparigas
querem. E não há nada mais aborrecido do
que um casamento. Tu sabes lá o destino
que queres dar esse anel.
Vai por mim, amigo. Se tens algum
respeito por ela, deixa em paz.
Por amor de Deus,
>> Carlos, vá-se embora. Vá para casa.
>> O que é que pensa que está a fazer?
>> Tinha de haver. Não me sai da cabeça.
>> Era o que mais me faltava. Vá para casa.
Vá para casa. Cham não vai chamar não
vai chamar não. Não,
>> não grita.
>> O que é que acha que ele vai dizer
quando vir que meteu um homem dentro do
seu quarto?
>> Hã?
>> Simão, não faça mal.
>> Males,
pelo contrário.
Desde que a vi que não consigo parar de
pensar em si assim.
>> Penso no Carlos que é seu amigo.
>> É ele que preocupa a ser.
>> Ai, eu peço por favor. O que é que ele
lhe prometeu? Que casava consigo, que
ele levava daqui para fora. Hã, sabe tão
bem como eu que isso nunca irá
acontecer. E eu se peço um beijo.
>> Não, não faça isso. Não, não faça isso.
Quero tanto como f
>> isso não é verdade.
>> Eu bem vi a manhã como olhou para mim
esta terra.
>> Não, não, não. Isso é mentira.
Melhor irmã embora não v ser uma
aparecer.
Mal em relação ao Carlos. Carlos deixou
de ser assunto a partir do momento em
que entrou neste quarto.
É o melhor para todos. Sim.
Vai embora?
>> Sim.
Volta ao Porto.
>> Já
>> preciso de me organizar. Quanto mais
cedo, melhor.
>> Carlos, há uma coisa.
>> Estive a pensar e sinto que lhe devo
pedir desculpas.
Fiz-lhe uma série de promessas sem
cabamento nenhum.
Minha vida não é aqui.
Ali bem me tentou avisar, mas enfim. Sou
um idiota.
>> Não diga isso.
>> Não sabia que estava com companhia. Olá.
>> Olá. É uma pena ter de ir tão cedo. Mal
deu tempo para matar saudades.
E desta vez prometa que escreve. Sim. E
nada de aventuras.
Ainda não tenho idade para ser sogra.
Simão, é você, meu querido.
É mesmo você. Que bom.
Não esperava. O Carlos não me disse que
vinha.
>> Não, ele enviou-me uma carta.
Então já sabe,
tem sido horrível isto tudo. Nem sei,
mas ainda bem que veio. O Carlos vai
gostar de o ver.
>> Então convida as pessoas e não disse
nada. Tinha preparado qualquer coisa.
>> Não tenhas medo.
Sou eu à mesma.
Sim, claro.
Como é que estás?
Como me vês?
Pronto para morrer?
>> Simão deve estar estafado da viagem.
Deixa descansar um pouco e refrescar-se
enquanto eu preparo qualquer coisa para
comerem.
Com licença.
>> O que é que te leva a dizer estas coisas
à frente da tua mãe?
>> É uma mártir, coitada.
O mais certo é ainda ter de ser ela a
pôr-me na terra.
>> Lá estás tu. Mas que raio?
O que é que te aconteceu, Carlos?
Da última vez que te vi tu
>> era um estroina, não era?
Sempre na galhofa
e estou igual.
Muito nos rimos à conta um do outro.
Tlos chamaram-nos isso.
O que é que levou a isto? Nada que não
tivesse de acontecer.
Mas agora pouco importa.
Não vieste aqui para lágrimas.
Aliás,
tinha dúvidas que viesses de todo.
>> É verdade
que temos andado cada um na sua vida. Tu
no Porto, eu em Coimbra, mas
isso não significa que não sejamos
amigos.
Parece que contraíste a obrigação de
sofreres comigo, não foi?
Tiras o envelope que está na gaveta.
tem o teu nome
tenho um pedido a fazer-te
como amigo.
Isto é para quê?
para abrires só após a minha morte e
cumprires o que está aí dentro.
>> Carlos,
>> promete,
promete.
>> Passas cá à noite, não passas? Não me
vais fazer a desfeita.
>> Nem tinha sítio para onde ir.
Ótimo.
O teu quarto está pronto? Se quiseres
ir.
Nós éramos pequenos, tão novos,
estudávamos latim juntos.
Recordas-te que eu te disse um dia sobre
como o amor não passar de um sentimento
passageiro? Tu riste-te? Disseste que
era por eu ser da aldeia e que havia de
chegar a minha vez.
>> Estás apaixonado tu?
>> Deixa-me explicar.
>> Ah, ainda por cima há uma explicação.
Então vá, conta lá.
Tinha de pagar uma visita a Dr. Albano,
mas quando lá foi ele não estava.
Recebeu-me a irmã. Pronto. Raparigas do
campo. Lindas e puras como as rosas que
põe no cabelo. É, não estás a
compreender? Ela é inocente, sim, mas
também única.
>> Claro, se houvesse outra dessas no
mundo, estávamos todos perdidos.
>> É a mulher da minha vida. Como eram
metade das mulheres dos bordeiros do
Porto, não é, senhor Carlos?
>> Isto é diferente.
A mala não é uma dessas mulheres.
>> Tão querida. Até já a trata pelo nome.
Viste a quantas vezes uma?
>> Deixa-me apresentá-la.
Depois logo me dizes se tenho razão ou
não.
>> Combinado, companheiro.
>> Tinhas razão. Claro.
Há quem viva e morra na aldeia contente
com a sua sorte.
Não era esse o meu destino.
Não me levaste a sério, claro. Nem
tinhas motivos para isso. Para ti, as
nossas ambições eram outras. E ali na
aldeia
não havia nada a temer das paixões que
esmagam, que rasgam, que atrofiam o
corpo e o pensamento.
Sempre achaste graça à minha
simplicidade.
Mas até um proviciano como eu sente que
ao descobrir que o nosso melhor amigo,
que dorme em nossa casa como um irmão,
afinal não é mais do que um traidor.
Está na altura de enfrentares as
consequências daquilo que fizeste.
Deixa a sala.
Estou à tua espera. Ja.
Demoraste.
Não estava a contar que aguentasses
tanto,
>> Carlos.
Em relação à Amália,
>> tinhas razão.
Todo aquele meu entusiasmo,
os meus ideais românticos,
o querer ter logo tudo de uma vez
era ridículo.
Não, não era ridículo.
Eu próprio fui vítima disso à minha
maneira. Mas sabes que essa foi a parte
que mais me custou.
Se ao menos estivesse apaixonado por ela
como eu.
Mas não,
para ti foi pura luxúria. Pior,
conseguiste convencer-me que o problema
estava em mim.
Não tenho vergonha de confessar que foi
cobarde.
Apesar da humilhação,
ainda amava de tal modo que não a
confrontei com nada.
Em vez disso, dediquei-me a dar cabo do
romântico que havia em mim.
Não foi preciso muito,
>> Carlos
Albano, há quanto tempo?
Não sabia que estava por cá. Mudei-me
recentemente. Estou em Santo António.
>> Eu não dizia nada. Vou fazer anatomia
aí.
>> Como é que é possível ainda não nos
termos cruzado? O curso corre bem? Não,
>> tem dias.
O mais importante é não se deixar
consumir pelos estudos.
>> Já percebi que nesse aspecto está a
salvo.
>> Mais ou menos.
Só peço a Deus que me livre do remorço
no futuro.
>> Assim, a todos nós. Vá, conte-me tudo.
Permita-me uma franqueza, Carlos.
A sua mãe está a sofrer e não é só por
causa da sua ausência.
Disse por lá que as vossas finanças
já não são o que eram.
>> E a culpa é só minha destes meus
sucessos.
>> Pois claro, já calculava. Isto
não é vida, Carlos.
Como é que se deixou cair neste credo?
Não ia gostar da resposta.
Vamos.
Ei,
estou uma lástima.
Porque é que não volta para casa durante
uns tempos? sempre dava algum conforto à
sua mãe.
>> Aquilo já não me diz nada.
>> Pois é uma pena.
Se a minha irmã ainda lá estivesse.
>> Não está.
>> Pensei que soubesse. Foi para as claras.
Espero que se dê bem.
É freira.
desperdício de vida. Isso que era a
minha opinião,
entregar-se a Deus com aquela idade,
mas
nunca lhe explicou o porquê
de ter ido. Quero eu dizer,
>> está a perguntar-me se foi por sua
causa.
>> É bem possível que sim. Ela gostava de
si, sabia? Ficou destroçada quando se
foi embora, sem nunca mais dizer nada.
>> Deve de ser.
Não houve outra forma.
Vamos, eu levo a casa.
Está feito. Tá feito.
Onde é que estamos?
Quase a chegar à aldeia.
>> Desculpe,
>> não se recorda do que combinamos. Estava
num belo estado, não haja dúvida.
>> Devia estar no Porto. Tenho os meus
estudos. Tenho, tenho.
>> Calma, sua mãe precisa de si, lembra-se?
>> Sim, mas não hoje. Não neste estado.
Olhe para mim. Não seja por isso.
Paramos em minha casa para se compor.
Tenho empresta um fato.
Não tinha o direito de fazer isto.
>> Como é que disse ontem?
Teve de ser.
Não houve outra forma.
Não fique aí parado. And
>> nunca chegou a entrar. Pois não,
>> não
é a primeira vez
em tempos que teve mais vida,
perdeste que a mal e partiu.
Bem, pelo menos est quarto dela para
descansar um pouco.
>> Deixe estar, não se incomoda.
>> Eu faço questão.
se vai apresentar à sua mãe nesse
estado.
Boas memórias, não é?
De tempos mais simples.
>> Sim.
A determinada altura,
eu quis dar-lhe a mão dela,
mas ela não quis. Não se achava digna de
si.
Que se passa?
Não queria que ela fosse sua mulher?
Queria.
Queria muito.
>> Pois bem,
um dia ainda há de ser.
>> Como não está no convento?
>> Se não for nesta vida, então que seja
noutra.
Vá, descansa.
Vou ver se lhe arranja alguma coisa para
comer quando acordar.
Não ia dormir.
Não tenho sono.
Nem eu.
>> Não me quero ajudar num serviço que
tenho entre mãos.
Sempre aprendia a usar o escalpelo
>> aqui. Não estava em Santo António.
>> Ando entre cá e lá.
Ainda a semana passada me chamaram para
tratar de uma doação de cadáver.
>> Um cadáver?
É verdade.
Estava a precisar de um corpo
para estudar as operações.
Entretanto, borrifei-o bem em espíritos
alcoólicos para não apodrecer.
Vamos.
Mas se corta.
Vá. Então,
devorou-lhe a vida.
É justo quem está cadáver.
Posso?
>> Sim, mãe. Entre.
>> Ouvi voz e achei que podam querer sear.
Trouxe-vos um caldo.
>> Não valia a pena.
A não ser que o Simão queira,
>> tem de comer alguma coisa.
Muito obrigado.
>> Sabe quanto tempo estive no hospital?
Mais de 50 dias.
Mas afinal o que é que aconteceu?
>> Ele não lhe disse. Foi atacado aqui
mesmo.
Uns pastores encontraram no meio do
campo veir sem sangue.
Pensavam que estava morto.
Tinha três facadas no peito.
>> E o Alban?
>> O médico não estava em casa. Tiveram de
levar para o hospital.
Mais 50 dias teve ele entornado.
>> Bem,
obrigado.
>> Faz se lhe mete algum juízo naquela
cabeça.
Ele não está bem.
As mágoas de uma mãe,
só uma mãe compreende.
>> Mas ela não sabe
>> parao. Não. Para quê?
Ele é só mais um inocente no meio disto
tudo.
>> Inocente. O homem tentou matar-te,
Carlos.
>> A defender a honra da irmã,
que na percepção dele, fui eu que a
manchei.
Chegamos ao cerno da questão.
Tudo isto é culpa minha, não é?
Am o Albano.
Se eu não tivesse sido tão fraco, nada
disto teria acontecido.
Fraqueza
é cobiçar a mulher do outro.
Aquilo que tu fizeste
foi estúpo.
>> Tu sabes lá, nunca te passou pela cabeça
que eu era exatamente aquilo que ela
queria.
>> Muitas vezes. Sim. Romantizaste aquela
mulher angelical quando na verdade ela
tinha desejos como outra qualquer. E é
isso que te custa. Pensares que afinal
aquela noite
não justificava os teus excessos.
>> Faz-me um favor.
Toma.
Isto
é o quê? Mais um testamento.
Estive para morrer muitas vezes no
hospital.
Dizem que tinha delírios.
Sempre a falar num cadáver.
Mas tenho uma vaga lembrança numa noite
trovoada quando a minha mãe não estava.
Acordei
e vi um vulto negro a entrar no meu
quarto.
Aproximou-se da minha cama e
depositou-me essa carta.
Depois desapareceu
o Albano.
Não me perguntes porque é que ele não
terminou o serviço,
mas nunca mais
nunca mais soube nada dele.
Dizem que foi para o Brasil.
Isso é tudo o que resta.
Podes ler.
É dela.
Lê.
>> Carlos,
custa-me querer que tenha abandonado a
Terra pela simples vontade de me
abandonar.
Escusa de fugir.
Ambos sabemos o que aconteceu.
Olhando para trás,
a minha alma enche-se de lamentos.
pelo que não lhe disse,
pelo que não lhe permeti,
pela traição que foi para os dois ou
para os três, aquilo que eu permiti.
Sempre me ensinaram que uma pessoa tem
de saber o seu lugar.
E por muito honesto que fosse o seu
sentimento,
nunca o iria obrigar a cumprir com as
suas promessas,
muito menos depois daquela noite.
Mal por mal, já estava condenada ao
inferno.
Foi o que eu pensei.
Depois disto, ia oferecer a minha vida a
Deus e a juntar-me ao convento.
Mas não tive direito a essa penitência.
Perdeme, Carlos,
se pudesse voltar atrás.
tinha fugido consigo.
Juntos seríamos diferentes.
Sempre sua,
Amália.
O resto
só posso supor,
o Alban não fazia ideia do teu
envolvimento
e decidiu pagar na mesma moeda
o que eu fiz à irmã.
>> Que eu fiz, Carlos?
Eu não fazia ideia.
>> É engraçado
quando olho para trás.
Sabes do que é que me arrependo?
Não foi da minha ingenuidade
ou da vida que levei depois.
Foi
a ter-te dado ouvidos.
Isso sim foi culpa minha.
Quando desvalorizaste o meu amor,
o que eu sentia por ela.
>> Perdoa-me, eu não sabia.
Sabias?
Toda a gente comete erros.
Eu, a Amália, até o Albano. Mas tu
sabias o que estavas a fazer?
Eu disse-te,
mas não quiseste ouvir porque te
convinha.
Não sei se foi inveja,
sempre tiveste tudo. E ali estava o que
não podias ter.
Pagamos todos pelos nossos pecados,
menos tu.
E é a tua vez.
Não estejas preocupado.
A vingança é um prato que serve frio,
mas não teve nemi.
Se aprendi alguma coisa com o Albano,
é que há destinos bem piores do que a
morte.
>> O que é que tu queres de mim?
contar-te
só mais uma história.
Estás a ver esse lençol?
Debaixo dele
está a minha última relíquia.
Dinheiro, como vês, gastei-o.
Honra. Perdia há muito tempo.
Isto é tudo o que me resta.
Osteologia
é o estudo dos ossos.
O Alban tinha razão.
É muito útil para quem se interessa.
Um último presente dele para me
torturar.
Estava aqui à minha espera quando vim do
hospital.
É teu,
meu. O que é que tu queres que faça com
isto?
que te sirva de memória
daquilo que fizeste.
Carlos,
estás encharcado.
Estás a sangrar, Carlos.
Finalmente
o remorço.
O remorço é o braço que me cravou estas
phaladas.
O que é que tu foste fazer?
A tua penitência agora é outra.
Faz só mais um favor ao teu amigo.
Toma conta da nossa.
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