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Original subtitles

O filme "Copenhague" começará após este breve prefácio.

COPENHAGUE Prólogo com Michael Frayn

"Muito pensam que a peça aborda as questões morais,"

"se cientistas devem desenvolver armas."

É claro que as questões morais são importantes.

Antes de fazer quaisquer julgamentos,

deveríamos saber por que eles estão fazendo o que fazem.

Não se pode tecer um juízo moral de alguém,

a menos que esteja informado de suas intenções.

Minha peça, "Copenhague,"

baseia-se num evento real e num grande mistério.

Trata do encontro entre dois renomados cientistas,

durante a 2ª Guerra Mundial,

na Dinamarca ocupada pelos nazistas:

Werner Heisenberg, o físico alemão,

e Niels Bohr, o físico dinamarquês.

Os dois eram grande amigos, e colegas há mais de 20 anos.

Eles foram pioneiros da física atômica,

e, posteriormente, o trabalho dos 2

culminaria na primeira bomba atômica.

Mas o problema era que

na época do encontro em Copenhague,

ambos estavam em lados opostos da guerra.

A reunião começou carregada de problemas.

E desde então, as pessoas têm discutido

sobre o teor daquela conversa,

e o quê Heisenberg tinha para dizer.

Ambos estão entre os maiores físicos do século 20,

porque começaram a desvendar

o que acontece dentro do pequeno mundo do átomo.

Quando se conheceram no início dos anos 20,

Bohr já era muito famoso,

ele havia ganhado o prêmio Nobel de física em 1922.

E Heisenberg era um jovem começando a carreira,

um estudante atrevido e brilhante.

Seus melhores trabalhos foram feitos conjuntamente.

Eles estavam na dianteira da mecânica quântica,

criando, talvez, a mais importante

e bem-sucedida teoria já introduzida na física.

Formavam um casal perfeito.

Com Bohr desbravando a imagem física com sua mente,

e Heisenberg, o matemático,

traduzindo essa visão para a linguagem matemática,

a dança dos átomos.

A dança das partículas que Bohr só conseguia teorizar.

Aquela combinação era perfeita.

O famoso Princípio da Incerteza de Heisenberg,

que ele introduziu na mecânica quântica em 1927,

postula que não é possível prever com rigor

o comportamento de um corpo.

Mas só importa quando falamos de corpos pequenos e rápidos.

Mas na teoria, aplica-se a tudo (grandes estrelas; luz).

E se não soubermos tudo sobre um objeto físico,

não conseguiremos calcular o que irá acontecer.

O "Princípio da Incerteza"

desafia nossa visão lógica do mundo.

Nós, físicos, enlouquecemos

quando pensamos acerca do princípio da incerteza.

Algumas pessoas acham que a física é uma questão acabada.

É fácil calcularmos quando temos as informações;

você conhece a posição inicial do corpo,

você sabe como ele se comporta,

e pode-se prever o resultado.

Portanto, é realmente perturbador,

para algumas pessoas de nível mais fundamental,

que os físicos "desconhecem"

onde as coisas estão, em um dado momento.

Em última análise, há essa incerteza...

que toca no âmago da concepção habitual da vida.

Heisenberg tinha apenas 33 anos quando ganhou o prêmio Nobel

pelo princípio da incerteza.

Na mesma época em que Hitler chegou ao poder.

Heisenberg poderia ter deixado a Alemanha,

recebeu proposta de várias universidades americanas.

Salve a Vitória!

Heisenberg foi muito criticado pela recusa.

Nada leva a crer que Heisenberg era nazista

ou mesmo simpatizante.

A crítica que se faz, é que ele "se conciliou",

que estava disposto a ceder ao regime nazista.

A ascensão de Hitler começou a desgastar

a amizade entre eles.

Aí houve uma descoberta no campo da física atômica

que mudou tudo.

Nos anos 1930, foi demonstrado que, se cindisse o núcleo,

a quebra do núcleo de um átomo, liberava energia.

De repente, parecia teoricamente exequível

usar a física atômica para produzir energia,

com o objetivo benéfico ou maléfico.

Esse é o momento em que

a física atômica deixa de ser puramente abstrata,

e causa grande impacto no futuro da raça humana.

Bohr, e sua forma de pensar em termos de imagem física,

imaginou que o núcleo do átomo era igual a uma gota de água,

onde a tensão superficial mantém

a gota de água intata e esférica.

Porém, se golpeá-la externamente,

a gota iria se dividir em 2 gotas menores.

Então ele percebeu,

que isso talvez pudesse liberar uma incrível quantidade de energia,

a energia armazenada no núcleo do átomo,

dividindo-o com essa gota de líquido.

E então, ele calculou rapidamente,

que precisaria de uma forma rara de urânio:

o urânio enriquecido (U235).

Daí começou uma caçada internacional

para ver quem obteria o U235,

essa forma rara de urânio.

Era o futuro da humanidade que estava em jogo.

Bohr e Heisenberg lideravam um ramo da física

que agora poderia ser usada para produzir,

teoricamente, uma arma terrível.

Mas ambos estavam separados.

Quando a guerra começou em 1939, Heisenberg sabia

que seria difícil contatar Bohr em Copenhague.

E escreveu uma carta muito tocante a Bohr,

em que aludia à relação de pai-filho que eles tinham.

"Caro Bohr, já que não sei como e quando

o destino nos reunirá outra vez,

reitero meus agradecimentos por toda a sua amizade,

por tudo que aprendi com você, e por tudo que fez por mim.

Em nome da velha amizade, cordialmente,

Werner Heisenberg."

Frayn: Em 1941, os dois já não se contatavam há 2 anos.

E Bohr levava uma vida restritiva,

pois era um meio-judeu vivendo sob ocupação nazista.

Só não sabia que seu velho amigo Heisenberg

era o chefe do Projeto de Energia Nuclear Alemão.

Apesar das dificuldades,

Heisenberg conseguiu viajar para Copenhague,

e estava decidido

a se reunir pessoalmente com Bohr.

Segundo Heisenberg,

eles entabularam uma conversa,

e Niels Bohr ficou chateado e depois zangado.

A conversa terminou ali, segundo Heisenberg,

antes que ele pudesse explicar o que tinha para dizer.

E desde então as pessoas têm discutido

acerca de duas coisas:

o que foi que realmente conversaram,

e o quê Heisenberg tinha para dizer.

Acho que a visita fornece um bom paralelo

entre o "Princípio da Incerteza" de Heisenberg

e a incerteza psicológica que eu acho que existe,

a barreira teórica em saber por que as pessoas fazem o que fazem,

e a particular dificuldade de entender

por que Heisenberg foi a Copenhague,

parecem destacar a dificuldade de um episódio em particular.

A peça trata basicamente disso:

se podemos ter pleno conhecimento das intenções de alguém.

PBS Hollywood apresenta "Copenhague"

COPENHAGUE

Baseado na peça de Michael Frayn

Mas por quê?

Continua pensando nisso?

Mas por que ele veio a Copenhague?

Que diferença faz, meu amor?

Agora que nós 3 já estamos mortos e esquecidos.

Algumas perguntas permanecem, mesmo depois que a gente morre.

Algumas perguntas simplesmente não têm resposta.

Por que é que ele veio? O que ele estava tentando lhe dizer?

Ele explicou mais tarde...

Ele explicou muitas vezes...

e quanto ele mais explicava, menos dava para entender.

Provavelmente a resposta era muito simples:

ele queria ter um conversa.

Conversar? Com o inimigo? No meio da guerra?

Margrethe, meu amor, não éramos inimigos.

Estamos falando de 1941.

Heisenberg era um velho amigo nosso.

Heisenberg era alemão... nós éramos dinamarqueses.

Os alemães tinham ocupado o nosso país.

Aquilo nos deixou numa situação delicada.

Nunca te vi tão irritado com alguém

como naquela noite com Heisenberg.

Não quero contradizer, mas acho que me mantive bem calmo.

Não quando você está com raiva.

Aquilo foi tão difícil para ele quanto foi para nós.

Então por que é que ele fez aquilo?

Duvido que ele realmente soubesse.

E ele não era um amigo...

não depois daquela visita.

Aquele foi o final da famosa amizade

entre Niels Bohr e Werner Heisenberg.

Agora estamos mesmo mortos e esquecidos.

E o mundo se lembra de mim só por duas coisas:

o Princípio da Incerteza e a minha misteriosa visita

a Niels Bohr em Copenhague em 1941.

Todos entendem a incerteza. Ou pensam que entendem.

Mas ninguém entende minha viagem a Copenhague.

Eu expliquei mais de mil vezes.

Para o próprio Bohr, para Margrethe.

Para os interrogadores, para a inteligência,

jornalistas, historiadores.

Quanto mais eu explicava mais incerto ficava.

Bem, fico feliz de poder fazer mais uma tentativa.

Agora que estamos mortos e esquecidos.

Agora ninguém mais pode ser machucado ou ser traído.

Nunca gostei muito dele.

Agora posso dizer isso a você.

Não, você gostava dele, sim.

Quando ele veio aqui pela 1ª vez, nos anos 20,

quando ele veio para a praia com a gente e as crianças.

Ele era quase da família.

Tinha uma coisa esquisita com ele, mesmo naquela época.

Ele foi um grande físico.

Nunca mudei de opinião sobre isso.

Todos eram bons... toda aquela gente

que veio a Copenhague para trabalhar contigo.

Você estava com os melhores da teoria atômica aqui,

numa época ou noutra.

E quanto mais penso a respeito, mais acredito

que Heisenberg superava todos.

Quem foi Bohr?

Ele foi o primeiro, o pai de todos nós.

A física atômica moderna só começou quando Bohr percebeu

que a teoria quântica

se aplicava tanto à matéria quanto à energia, em 1913.

Tudo o que fizemos foi baseado em sua grande intuição.

E pensar que veio trabalhar comigo em 1924...

fazia pouco tempo que ele tinha criado a mecânica quântica.

Surgiu do trabalho que fizeram juntos.

Principalmente do que fez com Max Born

e Pascual Jordan em Göttingen.

E 3 anos depois ele chegou no Princípio da Incerteza.

E você na Complementaridade.

Discutimos ambos os assuntos juntos.

Nós fizemos o melhor de nossos trabalhos juntos.

E seguimos trabalhando juntos,

mesmo quando já não era mais meu assistente.

Muito tempo depois que tinha deixado Copenhague em 1927,

e voltado para a Alemanha.

Então, os nazistas chegaram ao poder.

A guerra explodiu e a vida ficou impossível...

até aquele dia em 1941.

Quando terminou para sempre.

Sim...por que ele fez aquilo?

ESTAÇÃO CENTRAL DE COPENHAGUE

Setembro de 1941, Copenhague.

E aqui estou,

descendo do trem noturno que partiu de Berlim.

Traje civil em meio aos uniformes cinzas do exército alemão,

e os elegantes uniformes pretos da SS.

-Ele quer te ver? -Creio que veio para isso.

Espero que não o convide para a nossa casa.

Obviamente é o que ele está esperando.

Niels! Eles ocuparam nosso país!

Ele não é um deles.

Ele é um deles!

Em seguida, fui visitar Bohr em seu trabalho,

o Instituto de Física Teórica,

e tivemos um almoço ruim na cantina do Instituto.

O almoço foi um desastre.

Tive uma péssima impressão.

Ele disse: "ocupação da Dinamarca, lamentável".

"Ocupação da Polônia: perfeitamente aceitável".

Que a Alemanha certamente venceria a guerra.

Nossos tanques estão às portas de Moscou.

O que mais pode nos deter?

Bem, uma coisa, talvez. Uma coisa.

Ele sabe que está sendo vigiado.

É preciso se lembrar disso. Ter cuidado com o que diz.

Ou não o deixariam mais viajar para fora do país.

A Gestapo plantou microfones na casa dele.

Ele contou ao Goudsmit quando esteve nos EUA.

A SS o levou para interrogá-lo...

E o soltaram novamente...

Ainda me lembro dele como um menino.

Ele tem quase 40 anos.

Um professor de meia-idade, nos alcançando rapidamente.

Ainda pensa em convidá-lo para vir aqui?

Vamos pesar os prós e contras,

de uma forma razoável e científica.

Primeiro, Heisenberg, é um amigo.

Primeiro, Heisenberg, é alemão.

Um judeu branco.

Era assim que os nazistas o chamavam.

Ensinava relatividade, e diziam que era física judaica.

Não podia mencionar Einstein,

mas manteve-se fiel à Relatividade,

apesar de o atacarem terrivelmente.

Todos os judeus de verdade perderam seus empregos.

Ele ainda ensina.

Ele ainda ensina Relatividade.

Ele não deixaria a Alemanha.

Ele quer reconstruir a ciência alemã quando Hitler se for.

E se ele está sendo vigiado, vai tudo para um relatório.

Quem ele vê. O que ele diz a essas pessoas.

O que elas dizem para ele.

Carrego minha vigilância como uma doença infecciosa.

Eu sei que também vigiam Bohr.

E sabe que também te vigiam.

Pela Gestapo? Não tenho nada a esconder.

Pelos nossos compatriotas dinamarqueses.

Seria uma grande traição para eles

se pensassem que você estava colaborando.

Convidar um velho amigo para jantar não é colaborar.

Poderia parecer colaboração.

Sim...

ele nos deixa numa posição delicada.

Eu jamais perdoaria ele.

Ele deve ter um motivo.

Ele deve ter um bom motivo.

-Não vão falar de política? -Apenas física.

Presumo que seja sobre física que ele queira conversar.

Creio que você também tem que supor

que não estamos sozinhos nesta casa.

Se querem privacidade...

é melhor que conversem ao ar livre.

Não quero falar com ele a sós.

-Poderiam passear juntos. -Acho melhor nada de passeios.

Seja lá o que ele tenha a dizer que diga onde todos ouçam.

Talvez alguma nova ideia que ele queira compartilhar?

Mas o que poderia ser?

Onde é que isso vai parar?

Agora sua curiosidade se acendeu,

apesar de tudo.

Eis-me aqui, caminhando no crepúsculo de outono

até a casa dos Bohr em Ny-Carlsberg (Cervejaria).

Seguido, suponho, por minha sombra invisível.

Como me sinto? Com medo, claro.

Aquele medo que você sente de um mestre,

de um patrão, de um pai.

Mais medo ainda daquilo que tenho para dizer.

De como expressar isso. Como entrar no assunto.

Mais medo ainda do que pode acontecer caso eu falhe.

Terá algo a ver com a guerra?

Heisenberg é um físico teórico.

Não creio que alguém tenha descoberto uma forma

de usar a física teórica para matar pessoas.

Não poderia ser algo sobre a fissão?

Fissão? Por que falar sobre fissão comigo?

Porque está trabalhando nisso.

Heisenberg não está.

Não mesmo?

Parece que todo mundo está.

E você é a maior autoridade no assunto.

Ele não publicou nada sobre fissão.

Heisenberg fez todo o trabalho original

sobre a física do núcleo.

Aliás, ele te consultou a cada passo.

Isso foi em 1932.

O assunto da fissão só veio à tona nos últimos 3 anos.

Mas e se os alemães estiverem desenvolvendo

alguma forma de arma baseada na fissão nuclear...

Ninguém está desenvolvendo uma arma baseada na fissão nuclear.

Mas se os alemães tentassem, Heisenberg se envolveria.

Não há escassez de bons físicos alemães.

Não há escassez deles nos EUA e Inglaterra.

Os judeus partiram, claro.

E se Heisenberg for o responsável pelo trabalho?

Margrethe, não existe esse trabalho.

Não há chance da fissão, num futuro próximo,

vir a ser utilizada para produzir uma arma.

Então, por que todos estão trabalhando nisso?

Porque tem algo de mágico.

Você joga um neutron no núcleo de um átomo de urânio

e o núcleo se divide em 2 elementos distintos.

Foi o que os alquimistas tentaram fazer:

converter um elemento em outro.

Então por que ele está vindo?

Esmago as pedrinhas do caminho familiar

até a entrada dos Bohr, e toco a campainha.

O que eu sinto?

Medo, claro.

E outra sensação,

que se tornou dolorosamente familiar durante o último ano.

Um mistura de vaidade e desamparo;

de todos os 2 bilhões de habitantes no mundo,

coube a mim essa obrigação impossível.

Meu querido Heisenberg!

-Meu querido Bohr! -Entre, entre.

Obrigado.

E assim que se fitam face a face,

todas as suas precauções desaparecem.

As chamas renascem das cinzas.

Se pudéssemos lidar

com todos os falsos gestos de polidez...

Fiquei emocionado por ter-me convidado.

Devemos manter a boa convivência.

Eu sei como tudo isso é incômodo.

Naquele almoço, mal pudemos nos cumprimentar.

-E eu não vejo Margrethe... -Faz 4 anos.

Niels estava certo. Você parece mais velho.

Queria tê-los encontrado...

no Congresso de Varsóvia em 1938.

-Deve ter tido algum problema. -Um pequeno assunto em Berlim.

Na rua Prinz-Albrecht com a SS?

-Um pequeno mal-entendido. -Ficamos sabendo, lamento.

Faz parte.

A questão foi resolvida. Felizmente.

Teríamos nos visto em Zurique...

-Em setembro de 1939. -E, infelizmente...

Essa tensão política infeliz com o início da guerra.

Lamentavelmente.

Lamentavelmente para nós também.

E muito mais lamentável para tantas outras pessoas.

-Sim, é verdade. -Bem, é isso.

-O que eu posso dizer a vocês? -Se é que pode-se dizer algo

-nessas circunstâncias? -Não.

-E seus filhos? -Estão bem, obrigada.

Elisabeth? As crianças?

Estão todos bem. Mandaram lembranças.

"Eles queriam tanto se ver, apesar de tudo."

"Mas agora que o momento chegou,"

"estão tão ocupados, um evitando o olhar do outro"

"que mal conseguem se enxergar."

Não sei se percebeu o quanto é importante para mim

estar de volta a Copenhagen, à essa casa.

Fiquei bastante isolado, nesses últimos anos.

Eu imagino.

"Ele mal me nota."

"Eu o observo discretamente detrás da minha cortesia,"

"enquanto ele se esforça."

A situação aqui tem sido difícil?

Difícil?

"Claro. Ele tem que perguntar. Precisa se libertar disso."

Difícil...como direi?

Até agora não fomos vítimas dos abusos

cometidos em outros lugares.

As leis raciais não entraram em vigor.

Ainda.

Há alguns meses começaram a deportar os comunistas

e outros elementos antialemães.

-Mas e vocês? -Fomos poupados.

Tenho andado bastante preocupado com você.

Gentileza sua.

Por hora, nada que nos faça perder o sono.

"Outro silêncio. Cumpriu o seu dever."

"Agora ele pode conversar sobre temas mais amenos."

-Ainda veleja? -Velejar?

"Não começou bem..."

-Não, não mais. -O mar está...?

-Minado. -É óbvio.

"Creio que não vai perguntar se Niels ainda esquia."

-E esquiar? -Esquiar?

-Na Dinamarca? -Noruega?

-Você costumava ir à Noruega. -Sim, eu ia.

Mas desde que a Noruega também está...

-Bem... -Ocupada?

Sim, seria até mais fácil.

Mas acho que posso tirar férias em qualquer lugar da Europa.

Desculpe não quis dizer dessa maneira.

Talvez eu esteja meio sensível...

Não, devia pensar melhor no que eu falo.

"É como se ele preferisse estar"

"na rua Prinz-Albrecht com a SS."

Já considerou a ideia de voltar para a Alemanha?

"Como ele é idiota."

Meu caro Heisenberg, não seria um grande equívoco

julgar que os cidadãos de um pequeno país,

um pequeno país invadido,

invadido caprichosa e cruelmente por seu vizinho mais poderoso,

não sintam o mesmo orgulho e o mesmo amor por seu país,

que seus conquistadores?

-Niels, tínhamos concordado. -Só falar de física, sim.

Nada de política.

-Desculpe. -Não, não...

eu só queria dizer...

que ainda tenho a minha cabana de esqui em Bayrischzell.

Então, se por acaso...

alguma vez... por qualquer motivo...

Talvez Margrethe faça a gentileza...

de bordar uma estrela amarela no meu casaco de esqui.

Sim, sim! Que estupidez.

"Aquelas chamas iniciais se apagaram,"

"e as cinzas voltaram a ficar frias."

"Já começo até sentir pena dele."

"Ele voltou a ficar jovem,"

"como o rapaz que veio aqui pela primeira vez em 1924,"

"mais novo do que nosso Christian hoje."

"Tímido, arrogante e ansioso por ser amado."

"Nostálgico e satisfeito, enfim, por estar longe de casa."

"Sim, é bem triste, porque Niels o amava."

"Niels era como um pai para ele."

-Em que está trabalhando? -Fissão, basicamente. E você?

-Várias coisas. -Fissão, por exemplo?

Às vezes, sinto muito inveja do seu cíclotron.

Por quê? Também trabalha com fissão?

Há mais de 30 deles nos EUA.

Enquanto na Alemanha...

Bem...

"Enquanto na Alemanha", você dizia?

Não existe nenhum cíclotron.

Você não veio pedir emprestado o cíclotron, não é mesmo?

É por isso que veio a Copenhague?

Não, não vim a Copenhagen para isso.

Perdão. Eu não devia tirar conclusões apressadas.

Não, nenhum de nós deve fazer conclusões precipitadas.

Temos que esperar até que nos digam.

Nem sempre é fácil explicar as coisas para todos.

Compreendo que devemos estar sempre conscientes

do vasto alcance que nossas palavras podem ter.

Mas a falta de cíclotrons na Alemanha

não é nenhum segredo militar.

Eu não sei o que é segredo ou não.

Tampouco é segredo por que eles não os têm.

Você não pode dizer, mas eu posso.

Os nazistas têm solapado sistematicamente

a Física Teórica. E por quê?

Porque a maioria dos que trabalham nesse campo são judeus.

-Física, por favor? Física. -Isso é física.

Isso também é política.

Às vezes, é difícil separar as duas.

Ainda mantém contato com nossos amigos britânicos?

Born? Chadwick?

Heisenberg, estamos sob ocupação alemã.

E ela está em guerra com a Inglaterra.

Pensei que talvez mantivesse algum contato.

E com os americanos? Com eles nós não estamos em guerra.

Ainda!

Alguma notícia do Pauli em Princeton? Goudsmit?

-Fermi? -O que quer saber?

Pura curiosidade.

Você deve ter notado...

que ambos temos bons amigos na embaixada alemã daqui,

que são bem tradicionais...

no modo como usam sua influência.

Certamente estão atuando para que os distintos cidadãos

deste país trabalhem sem serem perturbados.

Você está me dizendo

que seus amigos da embaixada estão me protegendo?

O que eu estou dizendo,

é que você pode achar companhia adequada.

Conheço pessoas que ficariam muito honradas

se você aceitasse alguns convites ocasionais.

Para coquetéis na Embaixada da Alemanha?

Café e bolinhos com os prepostos nazistas?

Para palestras, talvez. Grupos de discussão.

Contatos sociais costumam ser úteis.

Tenho certeza que sim.

Essenciais, talvez, em certas circunstâncias.

-Em que circunstâncias? -Acho que ambos sabemos.

Por que eu sou meio-judeu?

Sempre podemos precisar da ajuda dos amigos.

Foi para isso que veio a Copenhague?

Me convidar para assistir da embaixada alemã

à deportação dos meus compatriotas dinamarqueses?

Bohr, por favor!

O que mais posso fazer? De que outro modo posso ajudar?

É uma situação complicada para você, eu sei disso.

A minha situação também é complicada.

Sei que você está bem intencionado.

Esqueça o que eu disse.

-A menos que... -Só se precisar me lembrar.

De qualquer modo, não vim aqui para isso.

-Lembra-se onde nos conhecemos? -Claro, Göttingen, em 1922.

Um seminário organizado em sua homenagem.

Foi uma grande honra. Reconheço isso.

Foi homenageado por dois motivos. Primeiro:

-Por ser um grande físico. -Sim, sim.

E em 2º lugar:

porque foi um dos poucos na Europa...

disposto a lidar com a Alemanha.

A 1ª guerra havia terminado há 4 anos,

parecíamos leprosos, mas você estendeu sua mão.

E você a mordeu!

-Mordi? -Me mordeu a mão, sim.

Eu a estendi do modo mais civilizado,

e você deu uma bela mordida.

Como assim?

A primeira vez que pus os olhos em você,

numa das minhas conferências em Göttingen.

-Do que você está falando? -Levantou-se e me atacou.

-Só fiz alguns comentários. -Era um belo dia de verão...

O perfume das rosas invadindo o salão.

Fileiras de eminentes físicos e matemáticos,

todos aprovando minha benevolência e sabedoria.

De repente, salta um garoto atrevido,

e diz que meus cálculos matemáticos estão errados!

Mas estavam.

-Qual era a sua idade? -20 anos.

"E Niels decide, de repente, amá-lo novamente,"

"apesar de tudo."

"Por quê? O que aconteceu?"

"Foi a lembrança daquele dia de verão em Göttingen?"

"Ou tudo? Ou nada daquilo?"

"Seja lá o que for, quando fomos jantar,"

"as brasas reacenderam-se."

Sempre tão competitivo.

Até quando jogávamos tênis de mesa em Tisvilde.

Parecia que ia me matar.

Bem, eu queria ganhar. Você também queria ganhar.

Eu queria jogar amistosamente.

-Precisava ver a sua cara! -Eu podia ver a sua.

E os jogos de pôquer na cabana de esqui em Bayrischzell?

Uma vez você nos depenou, lembra-se?

Com um "straight" inexistente.

Todos matemáticos, todos contando as cartas.

Tínhamos 90% de certeza que você não tinha nada.

Mas continuou a nos fazer subir e subir a aposta.

Essa confiança idiota!

Até que nossa fé na probabilidade matemática

começou a falhar, e todos caímos!

Achei que tinha um straight! Li errado, blefei comigo mesmo.

Coitado do Niels.

Coitado?

Ele ganhou, e nos arruinou. Que sujeito competitivo.

Em Bayrischzell, tínhamos que esquiar para pegar provisões,

e ele transformava aquilo numa corrida!

Lembra-se quando fomos para lá com Weizsacker?

Você até cronometrou.

O coitado do Weizsacker levou 18 minutos.

-Você fez em 10. -Oito!

-Me esqueci do meu tempo. -45 minutos.

Obrigado.

Alguns gostam de apreciar a paisagem.

Você esquiava como fazia ciência.

E o que você queria? Que eu e o Weizsacker...

voltássemos e sugeríssemos uma abordagem mais suave?

Talvez.

Você ficaria calculando múltiplas rotas possíveis.

Pelo menos saberia onde estava. Na velocidade em que descia,

logo enfrentaria o Princípio da Incerteza.

Se soubesse que havia chegado lá embaixo,

desconheceria com que velocidade tinha chegado.

E se soubesse a velocidade,

não saberia que havia chegado lá embaixo...

Quanto mais rápido você esquia, mais rápido cruza as fendas.

Quuanto mais rápido esquia, melhor você pensa.

Sem querer discordar, mas...

isso é surpreendente.

Ele quer dizer "isso é absurdo". Mas não é.

Algumas decisões tomam-se sozinhas,

quando se desce a 70 km/h.

De repente, à beira de um abismo,

você vira pra esquerda ou pra direita?

Ou pensa no assunto...e morre?

(Improviso em La Bemol Maior, por Franz Schubert, 1827)

Sempre invejei o modo como você e Margrethe

conversam sobre tudo.

Seu trabalho. Seus problemas. Sobre mim, sem dúvida.

Fui forjado pela natureza

para ser uma curiosa entidade matemática:

Não uma, mas metade de duas.

A matemática é muito estranha quando se aplica a pessoas.

Um mais um pode ser tantas coisas.

"Silêncio..."

"claro que estão pensando em seus filhos novamente."

"Silêncio..."

"Em que ele está pensando? Em sua vida? Na nossa?"

"A gente pensa em tanta coisa ao mesmo tempo."

"Na nossa vida, na nossa física."

"Todas as coisas que surgem na nossa cabeça do nada."

"Nossas consolações pessoais."

"Nossas angústias pessoais."

"As mesmas coisas cheias de luz. E outras mais escuras."

"Elas voltam e voltam..."

"4 filhos vivos. 2 filhos mortos."

"Harald, sozinho naquele barco."

"Ela está pensando em Cristian e Harald."

"Os dois meninos perdidos. Harald..."

"Todos esses anos sozinho, nesse hospital horrível."

"E Cristian. O primogênito. O filho mais velho."

"Novamente esses segundos que eu vejo todos os dias."

"Esses breves segundos no barco,"

"quando o leme se trava no mar enfurecido,"

"e Cristian está caindo."

"E se eu não tivesse deixado o leme travar..."

"Esses segundos tão longos no mar."

"Aqueles segundos intermináveis no mar."

"Algumas coisas apenas pensamos."

"Porque não há nada a dizer."

Você sugeriu um passeio. Não vamos demorar.

-No máximo 1 semana. -O quê?

-Como a nossa 1ª caminhada? -Fomos para Elsinore.

Ainda penso sobre o que me disse por lá.

Você se importa meu amor? Meia hora?

Talvez, uma.

Disse que Elsinore não seria mais a mesma,

ao sabermos que Hamlet tinha vivido lá.

"Cada canto escuro nos lembra a escuridão da alma humana."

"E assim voltaram a caminhar. Ele conseguiu."

"E se estão caminhando, estão falando."

"Conversando de outro jeito, sem dúvida."

"Sabia que Niels não resistiria,"

"já haviam suportado alguns poucos minutos..."

"mesmo que só por curiosidade. Agora que começaram,"

"uma hora se tornará duas ou três."

"A 1ª coisa que fizeram juntos foi dar uma caminhada"

"em Göttingen, após a Conferência..."

"Niels logo buscou o jovem atrevido"

"que havia questionado sua matemática,"

"e levou-o para caminhar no campo."

"Andar, falar, conhecê-lo."

"E quando Heisenberg chegou aqui para trabalhar com ele,"

"de novo saíram para dar sua histórica volta pela Zelândia."

"Muito da física do século 20 fora feita ao ar livre."

"Passeando pelos bosques de Tisvilde."

"Descendo para a praia com os meninos."

"Heisenberg segurando a mão de Christian."

"Sim..."

"e de noite após o jantar em Copenhague,"

"caminhavam pelo parque atrás do Instituto.

"Caminhar e falar."

"Mas desta vez, em 1941..."

Heisenberg quer se despedir. Ele está indo embora.

Grato pela noite encantadora. Como nos velhos tempos.

Você foi muito amável.

Quer um café? Alguma bebida?

Tenho que preparar minha palestra.

Mas, vamos nos ver antes de você partir?

Ele estará muito ocupado.

Perdoe-me se disse ou fiz algo que...

Sim, claro.

Talvez, quando essa guerra acabar...

se estivermos vivos...

Adeus.

-Política? -Física.

-O que ele disse? -Nada.

Não sei, estava bravo demais para entender.

Algo sobre fissão?

O que exatamente ele lhe havia dito,

era o que todos queriam saber.

Naquela época e mesmo depois.

Era o que os ingleses queriam saber,

assim que Chadwick me contatou:

"o que exatamente Heisenberg lhe disse?"

"E o que exatamente Bohr respondeu?"

"Essa, claro, foi a primeira coisa"

"que meus colegas me perguntaram quando voltei à Alemanha."

O que Heisenberg lhe disse? O que você respondeu?

A pessoa que mais queria saber era o próprio Heisenberg.

Você quer dizer quando ele voltou a Copenhague

após a guerra em 1947?

Creio que ele queria várias coisas.

Duas coisas. Pacotes de comida.

Para sua família na Alemanha. Não tinham nada para comer.

E para chegar a um acordo sobre o que haviam dito em 1941.

A conversa acabou quase tão rápido quanto da vez anterior.

Nem mesmo concordaram sobre por onde andaram naquela noite.

Por onde caminhamos? Faelledparken, claro.

Onde costumávamos caminhar nos velhos tempos.

Não, não foi no parque. Isso fica atrás do Instituto,

a 4 km de onde vivíamos.

Eu vejo as luzes acesas perto do coreto.

Era 1941, não se podia deixá-las acesas.

Achei que não tínhamos saído do meu escritório.

Vejo a pilha de papéis embaixo da luminária.

Estávamos do lado de fora.

O que eu iria dizer era traição.

Caso me ouvissem, seria executado.

E o que foi essa coisa misteriosa que você disse?

Não tem mistério. Nunca houve mistério.

"Me lembro perfeitamente,"

"pois minha vida estava em jogo,"

"e escolhi minhas palavras cuidadosamente."

Se um físico teria o direito moral...

de trabalhar na exploração prática da energia atômica?

As implicações eram óbvias. Vocês trabalhavam nisso.

E foi logo concluindo

que eu fabricaria armas nucleares para Hitler.

-Era o que faria. -Não! Um reator!

Era o que tentávamos construir!

Uma máquina para produzir energia, para gerar eletricidade,

-para impulsionar barcos. -Então, eu te perguntei...

acha realmente que a fissão do urânio

pode ser usada na confecção de armas nuclares?

Agora sei que é possível.

E isso me deixou horrorizado.

O que acontece na fissão?

Você dispara um nêutron em um núcleo de urânio,

este se rompe, liberando energia.

Uma grande quantidade de energia, não?

O suficiente para mover um pouco de poeira.

Mas também libera mais 2 ou 3 nêutrons.

Cada um deles tem a chance de dividir outros núcleos.

Então, esses núcleos divididos

liberam mais energia por sua vez?

E mais 2 ou 3 nêutrons.

Você provoca um deslizamento ao esquiar,

que vira uma bola de neve.

Uma cadeia de núcleos divididos,

que se multiplica através do urânio,

dobrando e quadruplicando...

em um milionésimo de segundo de uma geração à outra.

O trovão da avalanche ecoa nas montanhas ao redor.

Até que, vamos dizer, na oitava geração,

2 elevado a oitenta partículas de poeira foram movidas.

Partículas de poeira suficientes para constituir uma cidade,

e tudo que vive nela.

-Porém, há uma dificuldade. -Sim, graças a Deus.

O urânio natural é composto de 2 isótopos: U-238 e U-235.

Menos de 1% é Urânio-235, e essa pequena fração

é a única que pode ser fissionada por nêutrons rápidos.

Porém, o que percebemos...

foi que: se pudéssemos manter o reator em atividade...

O U-238 e o urânio natural absorveriam os neutrons rápidos,

e seriam transformados por eles num elemento totalmente novo.

O plutônio.

Plutônio.

"Se pudéssemos construir um reator, poderíamos construir bombas."

"Foi isso que me trouxe a Copenhague."

"Mas não podia dizer nada disso."

"E nesse momento, você parou de ouvir."

"A bomba já explodira dentro da sua cabeça."

"Por que eu já havia entendido a questão."

"De um modo ou de outro, você viu a possibilidade..."

"de fornecer armas nucleares para Hitler."

Você entendeu, pelo menos, 4 pontos centrais,

todos equivocadamente.

Você disse a Rozental

que eu tinha tentado arrancar de você o que sabia da fissão.

Você disse a Weisskopf que eu quis saber de você

sobre o programa nuclear dos aliados.

Chadwick achou que eu estava tentando te convencer...

de que não havia nenhum programa alemão,

além de você dizer também que eu queria te recrutar

para trabalhar para nós.

Certo, vamos começar do princípio.

A Gestapo o Serviço Secreto Britânico não estão aqui.

-Ninguém está nos observando. -Só eu.

Só a Margrethe.

Precisamos esclarecer tudo para Margrethe.

Você sabe que acredito piamente

que não fazemos ciência para nós,

mais sim para que os demais consigam entendê-la...

-Em linguagem simples. -Em linguagem simples.

Não é a sua posição, eu sei, você descreveria facilmente

o que você está investigando, equações diferenciais

se é possível, mas para Margrethe...

-Em linguagem simples. -Em linguagem simples.

Certo, então aqui estamos, andando por aí novamente.

E dessa vez, estou totalmente calmo,

te escutando atentamente.

-O que quer me dizer? -Não é só o que eu quero dizer.

Mas toda a equipe alemã de energia nuclear de Berlim.

Todos queriam vir e discutir com você.

Volte para a Alemanha, Heisenberg.

Reúna seus colegas no laboratório.

Suba em uma mesa e diga-lhes..."o quê?"

"Bohr disse que após um julgamento criterioso,"

"fornecer a um maníaco homicida"

"um sofisticado instrumento de assassinato em massa é..."

Como direi? "Uma ideia interessante."

Não, não é uma ideia interessante,

é uma ideia pouco interessante.

O que acontece? Todos largam seus contadores Geiger.

-Não, obviamente não. -Pois seriam presos.

Só desejo dirigir o programa.

Você não quer que eu diga sim nem não.

Só quero que escute atentamente o que irei lhe dizer agora.

Certo, aqui estou,

ouvindo atentamente, enquanto me diz que...

Que as armas nucleares exigem um enorme esforço técnico.

-Certo. -Isso exigirá grandes recursos.

-Grandes recursos. Certo. -E que, cedo ou tarde,

os governos terão de perguntar aos cientistas

se vale a pena comprometer tantos recursos,

e se há esperança

de produzir estas armas a tempo de serem usadas.

Calma! Eles virão até nós.

Nós somos os únicos

que poderão afirmar se vale a pena prosseguir ou não.

No final, a decisão caberá a nós, gostemos ou não.

É isso o que você queria me dizer?

Exatamente.

É por isso que você demorou tanto para chegar até aqui?

É por isso que jogou fora quase 20 anos de amizade?

-Só para me dizer isso? -Só para te dizer isso.

Mas, Heisenberg, está mais misterioso do que nunca.

Por que você está me dizendo isso?

O que você quer que eu faça?

O governo da Dinamarca ocupada não virá até mim para perguntar

se devem produzir armas nucleares ou não!

Não, mas, cedo ou tarde,

se eu resolver continuar no comando do nosso programa,

o governo alemão virá até mim.

Eles vão me perguntar se devem continuar ou não.

E terei que decidir o que dizer a eles!

Então a saída para o seu problema é fácil.

Basta lhes dizer a verdade.

Diga a eles o quanto será difícil.

E talvez desanimem, e percam o interesse.

Um jornal de Estocolmo publicou

que os EUA estão trabalhando em uma bomba atômica.

Ah, então é isso. É isso, agora entendo tudo.

Acha que mantenho contato com os americanos.

Pode ser. É possível.

Se há alguém na Europa ocupada, só pode ser você.

Então quer saber se os aliados mantêm algum programa nuclear.

Só quero saber se existe um. Uma pista, um indício.

Acabo de trair o meu país, e arrisquei minha vida,

para alertá-lo sobre o programa alemão.

E agora devo retribuir o favor?

Bohr, eu tenho que saber. Preciso tomar uma decisão.

Se os aliados estão fabricando uma bomba,

que escolha devo considerar para o meu país?

Eu nasci na Alemanha.

Foi onde eu me tornei quem eu sou.

A Alemanha são todos os rostos da minha infância,

todas as mãos que me seguraram quando eu caí,

todas as vozes que me incentivaram e apontaram o caminho,

todos os corações que falaram ao meu coração.

A Alemanha é a minha mãe-viúva,

o meu irmão impossível, a minha esposa.

A Alemanha são os nossos filhos!

Preciso saber o que eu estou decidindo por eles.

Mais uma derrota?

Outro pesadelo como no pesadelo que fui criado?

Bohr, cresci em Munique

em meio ao caos e à guerra civil.

Será que mais crianças passarão fome como eu?

Mas, Heisenberg, não há nada que eu possa lhe dizer.

Eu não sei se existe algum programa nuclear aliado.

Mas o programa nuclear aliado

estava prestes a começar enquanto conversávamos.

A bomba que está sendo construída é para ser usada contra nós.

Em agosto de 1945,

Oppenheimer disse que seu único arrependimento...

fora não fazer a bomba a tempo de usá-la contra a Alemanha!

Ele se martirizou durante muito tempo.

E como. Pelo menos nós nos atormentamos antes.

Algum deles parou para pensar

por um momento no que eles estavam fazendo?

Fez isso quando você foi para Los Alamos?

Heisenberg, não estávamos fornecendo uma bomba a Hitler!

E não jogariam apenas na cabeça de Hitler!

Acertariam qualquer um,

os homens nas ruas, suas mães e seus filhos.

E se tivessem feito a tempo,

teria sido em meus compatriotas, minha esposa, meus filhos!

-Não era essa a intenção? -Essa era a intenção.

Não tinham a menor ideia

dos efeitos quando uma bomba é lançada sobre uma cidade.

Até uma bomba convencional. Nenhum de vocês tinha noção.

Sabe por que os cientistas aliados trabalhavam na bomba?

Claro. Por medo.

O mesmo medo que te consumia,

pois tinham medo de que estivesse trabalhando nela.

Mas Bohr, poderia ter contado a eles.

-Contado o quê? -O que te contei em 1941.

Que a escolha está em nossas mãos.

Nas minhas e nas de Oppenheimer!

Que se eu posso lhes dizer a verdade quando me perguntarem,

a pura e desencorajadora verdade, ele também pode!

É isto o que deseja de mim?

Deter os americanos em vez de contar o que estão fazendo?

Para lhes dizer que podemos parar simultaneamente.

Eu não tinha contato com os americanos.

-Mas tinha com os britânicos. -Muito tempo depois.

A Gestapo interceptou a mensagem

que enviou para eles sobre nosso encontro.

-E a remeteram para você? -Por que não?

Começaram a confiar em mim. Foi isso que permitiu

continuar no controle dos acontecimentos.

Sem querer criticá-lo, Heisenberg,

mas se esse era o seu plano ao vir para Copenhague,

é, como direi?

É muito interessante.

Não era um plano. Era uma esperança. Não,

um fio de possibilidade. Totalmente improvável.

Mas vale a pena tentar, Bohr! Vale a pena tentar!

Mas você já estava muito zangado para entender o que eu dizia.

Não, sua raiva era porque ele estava começando a entender.

Os alemães se livraram de seus melhores físicos

porque eram judeus.

Os EUA e os britânicos lhes deram asilo.

Para os aliados era uma chance de salvação.

E você veio uivando logo depois atrás de Niels,

implorando para convencê-los a parar!

Margrethe, meu amor,

é melhor que seja mais comedida.

Mas que ódio! Que ódio disso tudo!

Esquiando com arrojo.

Mas, Bohr...

não estávamos esquiando.

Quando soube de Hiroshima, me recusei a acreditar.

Achei que era mais um daqueles sonhos estranhos

que nós vivíamos nessa época.

Mas vocês conseguiram. Construíram a bomba.

-Sim. -E a usaram em seres vivos.

-Em seres vivos. -Está sugerindo...

que Niels errou feio ao trabalhar em Los Alamos?

-Claro que não. -A decisão já fora tomada...

muito antes da chegada de Niels.

A bomba teria sido feita com ou sem Niels.

Em todo caso, minha participação foi pequena.

Oppenheimer disse que você era o "confessor da equipe".

Parece ser meu papel na vida.

Disse que sua contribuição foi importante.

Espiritual talvez, não na prática.

Fermi diz que foi você quem descobriu como detonar

a bomba de Nagasaki.

Apenas propus uma ideia.

Está insinuando que há algo

que Niels deva explicar ou defender?

Ninguém jamais lhe pediu que explicasse ou defendesse algo.

Ele é um homem profundamente bom.

Não é uma questão de bondade. Eu fui poupado da decisão.

Sim, mas eu não.

Assim, me explicando e me defendendo,

foi como passei meus últimos 30 anos de vida.

Quando fui para a América em 1949,

muitos físicos nem sequer me cumprimentaram.

As mesmas mãos que haviam construído a bomba...

não quiseram tocar as minhas.

Se acha que está clareando a história agora, engana-se.

Margrethe, eu entendo os sentimentos dele.

Mas eu não! Estou tão furiosa quanto você estava antes.

É muito fácil para ele te fazer sentir culpado.

Por que ele deveria transferir seu fardo para você?

Por que, o que ele fez, após te consultar?

Ele volta a Berlim e diz aos nazistas

que ele pode fabricar a bomba.

Sim, mas frisei a dificuldade de separar o U-235.

Disse a eles sobre o plutônio?

Alguns oficiais sem importância.

Precisava manter viva a esperança deles.

E pediu a Albert Speer que custeasse o projeto?

Para o reator? Claro que sim!

Mas pedi tão pouco que sequer levaram o programa a sério.

Contou a ele que o reator produziria plutônio?

Claro que não, não para Speer. Nâo disse nada.

Uma notável omissão.

E o que acontece? Funciona. Nos deu apenas o suficiente

para a sobrevivência do programa do reator.

E esse é o fim da bomba atômica alemã.

É o fim dele.

Porém, continuou com o reator.

Sim, porque agora não havia mais risco...

de produzir o plutônio a tempo suficiente

para fabricar uma bomba. Fomos em frente, tudo bem.

Continuei com o programa, e o controlei até o final.

E você controlava tudo?

Sim! Isso é o que importa, tudo sob minha supervisão.

Ninguém controlova nada naquela época.

Perrin o inspecionou após a vitória dos aliados.

Descobriu que o reator não tinha hastes de controle cádmio.

Não havia qualquer mecanismo para absorver o excesso de nêutrons,

em caso de superaquecimento.

Você já não controlava o programa, Heisenberg,

-o programa controlava você! -Mas estávamos quase lá.

Duas semanas a mais, duas barras a mais de urânio,

e os físicos alemães teriam conseguido

a primeira reação em cadeia autossustentável.

Excetuando-se Fermi, que já tinha conseguido em Chicago,

dois anos antes.

-Nem sabíamos disso. -Vocês não sabiam de nada.

Perrin disse que vocês nem tinham...

como se proteger da radiação.

Não tínhamos tempo para pensar nisso.

Se tivessem atingido a massa crítica...

Todos teriam morrido por conta da radiação.

Meu querido Heisenberg.

Meu querido rapaz.

Sim, mas naquela altura, o reator estaria funcionando.

Devia ter estado lá para cuidar de você.

Só pensávamos em fazer o reator funcionar.

Fazer o reator funcionar.

Sempre precisou de mim por perto para freá-lo.

Se tivesse morrido pela radiação, o que eu teria perdido?

30 anos de explicações.

30 anos de culpa e hostilidade.

Você mesmo virou as costas para mim.

Olhe para ele! Ele está perdido.

Perdido como um menino.

Então, Heisenberg, por que veio a Copenhague em 1941?

Foi bom que nos contasse todos os seus medos.

Mas realmente achou que eu iria lhe dizer

se os americanos estavam trabalhando na bomba?

Não.

Achou mesmo que eu iria detê-los?

Não.

Você voltaria a trabalhar naquele reator,

-não importa o que eu dissesse. -Sim.

Então, Heisenberg, por que você veio?

Por quê?

Conte outra vez. Outro rascunho,

e dessa vez, ficaremos bem.

Dessa vez, iremos nos entender.

Poderá até entender a si mesmo.

"Por que eu vim?"

Outra vez, eu volto para aquela tarde em 1941.

Atravesso o gramado da casa de vocês e toco a campainha.

O que eu sinto? Medo, com certeza.

E a absurda e horrível consideração

de alguém trazendo más notícias.

Mas, sim. Há algo mais.

Lá vamos nós novamente, quase posso ver seu rosto.

Algo bom. Algo luminoso e esperançoso.

-"Eu abro a porta." -"E lá está ele."

"Seus olhos brilham quando me veem."

"Ele sorri com seu sorriso cauteloso de aluno."

"E sinto um breve consolo..."

"Um segundo de pura alegria."

"Como se eu voltasse para casa após uma longa viagem."

"Como se o filho pródigo tivesse aparecido na porta."

"Olhem para eles. Pai e filho, pelo menos..."

"por um instante."

"Por um instante, voltamos para os anos 20."

"E nos falaremos e nos entenderemos como então."

-Meu querido Heisenberg! -Meu querido Bohr.

Por favor, entre.

"A primavera começava quando fui..."

"pela primeira vez a Copenhague, em março de 1924,"

"o clima áspero e ventoso do Norte,"

que agora seria banhado pelo sol,

e começaria a aquecer nossas peles,

celebrando o retorno da vida.

E o que fizemos?

Pegamos nossas botas e mochilas,

e fomos até a última estação de trem.

-Começamos a andar. -Até Elsinore.

-Andar e conversar. -Caminhamos e falamos...

por quase 200 quilômetros.

E depois não paramos de falar durante 3 anos.

Aqueles anos? Anos maravilhosos.

-3 anos tão breves. -De 1924 à 1927.

Desde a minha chegada para trabalhar com você...

Até sua partida, para ocupar sua cadeira em Leipzig.

Três anos de primaveras tempestuosas e revigorantes.

E no final, nós tínhamos a mecânica quântica,

-tínhamos a Teoria da Incerteza... -E a Complementaridade.

Nós tínhamos toda a "Interpretação de Copenhague".

A Europa em toda a sua glória. Um novo renascimento,

com a Alemanha em seu devido lugar, no centro de tudo.

E quem abriu o caminho para todos os demais?

Você e Niels.

-Bem, conseguimos. -Nós conseguimos.

E foi por isso que voltou em 1941?

Por algo que fizemos nesses 3 anos, algo que pensamos.

Me lembro muito bem,

algo sobre o jeito como trabalhávamos.

Algo sobre como conseguíamos todas aquelas coisas.

-Juntos. -Sim, juntos.

Não.

Como não?

Juntos não.

Não fizeram nenhuma dessas coisas juntos.

Claro que fizemos.

Não mesmo.

Tudo que conseguiram, conseguiram separados.

Você definiu sozinho a mecânica quântica em Heligoland.

Me lembro do dia quando a matemática começou...

a se conciliar com o Princípio da Incerteza...

-Em Heligoland. -Em Heligoland.

-Sozinho. -Sozinho.

E sim, estava feliz.

Mais feliz do que quando voltou para nós no inverno seguinte.

Em meio àqueles disparates de Schrödinger?

Disparates? E a mecânica ondulatória dele?

Sim, e de repente, todos começaram a se voltar

contra a sua maravilhosa mecânica matricial.

Eles não conseguiram entender.

Mas entenderam a mecânica ondulatória de Schrödinger.

Porque eles aprenderam isso na escola.

Bem, você descreveu isso como "repulsivo".

Schrödinger disse que a minha matemática era repulsiva.

Acharam que estava com ciúmes.

Você havia enlouquecido, tornara-se um fanático.

Você não quis permitir que a teoria ondulatória

tivesse lugar na mecânica quântica!

Você me traiu.

Eu disse que a mecânica ondulatória

e sua mecânica matricial eram ferramentas alternativas.

Sempre me acusou disso.

"Se funcionar, funciona". Não importa o que significa.

-Claro que me importo. -Em linguagem clara.

-Em linguagem simples. -O significado de uma coisa

é o que ela significa em matemática.

Você acha que, contanto que a matemática funcione,

-o sentido não tem importância. -A matemática é o sentido.

Esse é o sentido!

Sim, os dois são bem melhores sozinhos.

Você adora os paradoxos, esse é o seu problema.

Você se deleita com as contradições.

Sim, e você nunca conseguiu entender o encanto que há

no paradoxo e na contradição! Esse é o seu problema.

Tê-lo longe da cidade, foi tão aliviador

quanto escapar da minha alergia em Heligoland.

Finalmente eu comecei a pensar!

Jamais permitiria que sentassem juntos...

-se eu fosse a professora. -E assim eu consegui.

Foi aí que cheguei no Princípio da Incerteza.

Andando pelo parque, sozinho.

Ah!

"É tarde da noite e assim que entro no parque,"

"fico sozinho na escuridão."

Começo a pensar no que você veria,

se pudesse focar um telescópio em mim da Noruega.

Só me veria quando eu passasse embaixo das lâmpadas de rua,

daí sumiria da tua vista na escuridão.

De repente, outra breve aparição minha,

enquanto cruzo as luzes, e daí sumiria de novo.

Isso é o que vemos na Câmara de Wilson.

Não um rastro contínuo e sim uma série de breves visões,

uma série de colisões entre o elétron que passa

e várias moléculas de vapor de água.

Admiro não termos pensado nisso antes,

talvez estivéssemos muito ocupados discutindo.

Parecia que você tinha desistido das discussões.

Quando voltei da Noruega, me deparei

com seu esboço da "Incerteza",

que você já tinha enviado para publicar.

E começa um combate ainda pior.

Caro Heisenberg, não é uma conduta coerente

mandar publicar um esboço antes de discuti-lo juntos.

-Não é assim que trabalhamos. -Não!

O "modo como trabalhamos" é você me perseguindo

todas as horas do dia.

O modo como trabalhamos é que me deixa louco!

Claro, porque o seu artigo continha um erro fundamental!

Lá vamos nós.

Eu lhe mostro a mais estranha verdade sobre o universo

que nenhum de nós conseguiu pensar desde a Relatividade.

Você nunca sabe tudo sobre a trajetória de uma partícula,

ou de qualquer outra coisa, nem mesmo sobre Bohr agora,

zanzando feito louco pela sala,

pois não podemos analisar sem introduzir

algum novo elemento na situação,

uma molécula de vapor de água para a partícula bater nela,

um facho de luz, enfim, coisas que tenham energia própria,

e que, justamente por isso, produzem um efeito naquilo

em que batem.

Eu faço em pedaços o universo objetivo que o rodeia,

e tudo que consegue me dizer...

é que há um erro na formulação!

E havia!

Escute, no meu artigo,

o que nós tentávamos localizar não é um elétron livre

em suas viagens por uma câmara de nuvens,

mas um elétron quando está em casa

dando voltas dentro de um átomo.

E a Incerteza não surge, como você sustenta,

através de seu impreciso recuo quando é golpeado por um fóton...

-Em linguagem simples. -Falo uma linguagem simples.

-Escute... -A linguagem da mecânica clássica.

Veja, Copenhague é um átomo, Margrethe é o seu núcleo.

Tudo bem com a escala, 10 mil para 1?

-Sim, sim... -E Bohr é um elétron.

Ele está vagando em algum lugar da cidade na escuridão.

Ninguém sabe onde.

Está aqui, acolá, está em toda parte e em lugar algum.

Lá em cima, no parque, lá embaixo, no centro.

Passa pela prefeitura, pelo porto.

Eu sou um fóton. Um quantum de luz.

Sou despachado para a escuridão para achar Bohr.

E eu o encontro, como?

Pois dei um jeito de colidir com ele!

Mas veja, o que acontece?

Ele ficou mais lento, ele se desviou.

Ele não está mais andando enlouquecidamente

como estava antes de eu ir até ele.

Mas, Heisenberg, você também foi desviado.

Se as pessoas podem ver por onde caminhou até me encontrar,

então elas podem descobrir por onde devo ter caminhado.

O problema é saber o que aconteceu com você!

Percebe o que fizemos naqueles 3 anos, Heisenberg?

Sem querer exagerar, mas viramos o mundo do avesso.

Sim, escute, é agora que vem a parte importante.

Trouxemos o homem de volta ao centro do universo.

Ao longo da história, fomos continuamente deslocados,

mantivemo-nos exilados à periferia das coisas.

Primeiro, nos transformamos

em meros acessórios dos insondáveis propósitos de Deus,

pequenas figuras ajoelhadas na grande catedral da criação.

E assim que nos recuperamos, no Renascimento,

logo que o homem se tornou, como anunciara Protágoras:

"a medida de todas as coisas", fomos afastados novamente

pelos produtos do nosso próprio raciocínio.

Somos de novo apequenados,

à medida que os físicos constroem as novas catedrais

para contemplarmos as leis da mecânica clássica...

que existem, quer existamos ou não.

Até chegarmos ao início do século 20,

quando somos subitamente...

forçados a nos erguer de nossa posição ajoelhada.

A coisa começa com Einstein.

Começa com Einstein.

Ele mostra que a medição; a medição de que depende...

toda a possibilidade de ciência;

a medição não é um evento impessoal

que ocorre com universalidade imparcial.

É um ato humano,

realizado de um ponto de vista específico no tempo e no espaço,

do ponto de vista específico de um observador possível.

E então, aqui em Copenhague,

em meados dos anos 20,

descobrimos que não existe um universo

objetivo precisamente determinável.

Que o universo só existe como uma série de aproximações.

Só dentro dos limites determinados

por nossa relação com ele...

só pela compreensão alojada dentro da cabeça humana.

Se Heisenberg é o que está no centro do universo,

então essa partícula do universo que ele não pode ver é ele mesmo.

Agora me perdoe, mas vocês nem sequer

sabem por que desenvolveram o Princípio da Incerteza.

Desculpem-me, mas querem fazer tudo parecer

heroicamente abstrato e lógico.

Eu olho ao meu redor e o que eu vejo não é uma história.

Só vejo confusão, raiva, lágrimas, ciúmes...

e ninguém sabe o que as coisas significam nem como acabarão.

De todo modo, funciona, funciona.

Sim, funciona maravilhosamente bem (mecânica quântica).

Após 3 meses de ter publicado o Princípio da Incerteza

te ofereceram uma cadeira em Leipzig.

Não me referia a isso.

E se quer saber por que veio a Copenhague,

também vou te dizer.

Tem razão, não há mistério algum,

você veio para se exibir para nós!

Margrethe...

Quando ele chegou aqui em 1924, era um humilde assistente

de uma nação humilhada, agradecido por ter trabalho.

E agora retorna triunfante,

o cientista mais importante da nação

que conquistou metade da Europa.

Ele veio para mostrar como estava bem de vida.

Nem parece você falando.

Desculpe, mas não é por isso que ele está aqui?

Por que está louco para que saibamos que está responsável

por uma parte vital de uma pesquisa secreta?

E que, mesmo assim,

ele manteve uma elevada independência moral.

Preservada tão ilustremente,

que até está sendo vigiado pela Gestapo.

Preservada com tanto sucesso,

que agora ele tem que enfrentar um grande dilema moral.

Bem, agora você está se excedendo.

Uma reação em cadeia?

Alguém diz uma verdade dolorosa que leva a outras duas.

E como você mesmo admitiu,

voltaria para continuar fazendo exatamente

o que fazia antes, não importa o que Niels disser.

Sim.

Porque jamais sonharia em largar

tamanha oportunidade de pesquisa.

Não se eu puder evitar.

E também queria mostrar para os nazistas

o quanto a física teórica pode ser útil.

Você quer salvar a honra da ciência alemã.

Quer estar lá para restabelecê-la em toda sua glória,

tão logo a guerra acabe.

Mesmo assim, jamais diria a Speer que o reator...

Pode produzir plutônio? Não.

Porque teme o que aconteceria

se os nazistas comprometessem grandes recursos

e vocês fracassassem em dar-lhes a bomba!

Por favor, não tente nos dizer que você é...

-um herói da resistência. -Nunca disse que era um herói.

Seu talento reside em esquiar tão rápido

que ninguém consegue vê-lo onde está.

Sempre em mais de uma posição...

como uma das suas partículas.

Só posso dizer que funcionou. Ao contrário do que aconteceu

com a maioria dos heróis da resistência. Funcionou.

Eu sei o que estão pensando.

Devia ter-me unido no complô contra Hitler,

para que me enforcassem como os outros.

-É claro que não! -Você não diz isso...

por que há coisas que não devem ser ditas, mas pensou.

-Não. -O que teria conseguido?

Realmente é ridículo.

Ambos debateram o caminho,

com incrível precisão e sensibilidade,

para dentro do pequeno mundo do átomo.

E agora parece que tudo depende

desta enorme responsabilidade sobre seus ombros.

E o que acontece aqui é...

-Como em Elsinore (escuridão). -Elsinore...

Sim.

Talvez esteja certa.

Tive medo das consequências.

Pensava que estava do lado dos vencedores.

Por que não me matou?

-Por que eu não... -Me matou,

naquela noite em 1941.

Querido Heisenberg, a ideia é certamente...

"Muito interessante."

Tão interessante que nem sequer te ocorreu.

De novo, a Complementaridade.

Sou teu inimigo, também sou seu amigo.

Sou um perigo para a humanidade,

também sou seu convidado.

Sou uma partícula, também sou uma onda.

Temos um conjunto de obrigações para com o mundo em geral,

e outro conjunto de obrigações irreconciliáveis,

para os nossos compatriotas, nossos vizinhos, família,

para nossos amigos, nossos filhos.

Tudo que podemos fazer é olhar para frente

e ver o que acontece.

Vou te citar outra razão por que fez a Incerteza,

você tem uma afinidade natural com ela.

Deve ter sido gratificante para vocês terem me visto

voltar derrotado em 1947,

rastejando-me, com a minha nação em ruínas outra vez.

Na verdade não.

Você mostra que, pessoalmente, saiu vitorioso mais uma vez.

-Basta, meu amor. -Não.

Me mantive calada por todos esses anos,

mas é enlouquecedor que este nosso filho tão inteligente,

sempre desdobrando-se em muitas atividades,

sempre exigindo nossa aprovação, vive lutando para nos chocar,

vive implorando para ouvir quais são os limites de sua liberdade,

para depois sair e transgredi-los.

Eu lamento, mas na verdade...

"Rastejando"?

Era o meu querido marido quem rastejava, literalmente.

Rastejando pela praia na escuridão, em 1943,

fugindo de sua pátria como um ladrão na noite,

para que não o assassinassem.

Eu os adverti em 1941. Mas não me escutaram.

Pelo menos Bohr fugiu para a Suécia.

E onde você estava?

Só posso dizer que eu não construí a bomba.

E por que não?

Também vou te dizer. Por que não podia!

Você não compreendia a física!

Eu a entendia perfeitamente. Só não quis contar aos outros.

-Ah... -Mas compreendia.

Secretamente.

Pode checar se não acredita em mim.

-Há evidência? -Tudo foi gravado com cuidado.

-Há testemunhas? -Testemunhas ilibadas.

Quem anotou?

As mesmas pessoas que gravaram e transcreveram.

Mesmo sem você ter dito "nada a ninguém"?

Contei apenas para uma pessoa.

Contei para Otto Hahn, naquela noite terrível,

após sabermos sobre Hiroshima.

De madrugada, lhe forneci

uma explicação razoável de como havia funcionado a bomba.

Após o fato?

Sim. Quando já não fazia diferença.

A massa crítica. Era a coisa mais importante.

A quantidade de material necessária

para estabelecer a reação em cadeia.

Contou a ele sobre a massa crítica?

Eu dei a ele uma ideia da coisa.

Você pode checar.

Estávamos cercados pelos britânicos,

toda a equipe, todos que trabalhavam na ciência atômica,

e nos levaram para bem longe, em Huntingdonshire.

Hahn me perguntou quando havíamos chegado,

se tinha microfones escondidos.

Eu ri, disse que os britânicos eram muito antiquados

para imitar a Gestapo.

Mas eu os subestimei, havia vários microfones.

Registraram tudo, basta checar!

Mas a massa crítica. Você deu a ele um número,

que número você lhe deu?

-Eu esqueci. -Heisenberg...

Está nas gravações. Pode escutá-las.

O valor para a bomba de Hiroshima...

50 quilos.

Esse foi o valor que você deu a Hahn? 50 quilos?

Disse a ele cerca de uma tonelada.

Uma tonelada? Mil quilos?

Heisenberg, acho que finalmente estou começando a entender.

A única coisa que estava errada.

Você excedeu 20 vezes.

A única coisa.

Mas Heisenberg, a sua matemática...

como ela poderia estar tão equivocada?

Ela não estava.

Assim que eu calculei a difusão,

-obtive o resultado correto. -Apenas a calculou?

Uma semana depois, dei-lhes uma palestra sobre isso.

Está gravado. É só checar.

Quer dizer que você não tinha calculado antes?

Não havia necessidade. O cálculo já fora feito.

Para o urânio natural.

Você teria que calcular o valor para o 235 puro.

-Obviamente. -E não o fez?

Não o fiz.

Ah, toda a sua agonia em Copenhague

sobre o plutônio era irrelevante.

Poderia ter feito a bomba sem jamais construir o reator.

Poderia ter feito com o 235, desde o princípio.

Provavelmente não.

-Talvez fosse possível. -Talvez.

E esse problema estaria resolvido,

muito antes de chegar a Copenhague...

apenas por não tentar provar a equação de difusão.

Uma pequena falha.

Mas as consequências ecoariam por anos,

dobrando e redobrando...

Até que fossem o suficientemente grandes para salvar uma cidade.

Que cidade?

Qualquer uma das cidades em que nunca jogamos nossa bomba.

Londres, suponho, se tivessem tido tempo.

Como os americanos já tinham entrado na guerra,

e os aliados começaram a libertar a Europa, então...

Quem sabe? Paris também.

Amsterdam. Talvez, Copenhague.

Então, Heisenberg, conte-nos algo muito simples:

por que não fez os cálculos?

Eu não sei.

Não sei por que eu não fiz isso.

Porque não pensei a respeito.

Porque não me ocorreu.

Porque supus que não valia a pena fazer.

"Supôs"?

"Supôs"?

Jamais supôs nada!

Foi como você chegou ao Princípio da Incerteza,

porque rejeitava nossas suposições.

Você calculava, Heisenberg! Calculava tudo!

A 1ª coisa que fazia com um problema era usar a matemática.

Devia ter estado lá para me frear.

Sim...

eu não teria deixado passar despercebido,

se estivesse lá te orientando.

Apesar de que, você fez exatamente a mesma suposição.

Pensou que não havia perigo exatamente

pelas mesmas razões que eu.

Por que não fez o cálculo?

Por que não fiz o cálculo?

Diga-nos porque não calculou

e saberemos por que eu também não.

É óbvio por que eu não calculei.

Vejamos, continue.

Porque ele não estava tentando construir uma bomba!

Sim, muito obrigado!

Porque ele não estava tentando contruir uma bomba!

Imagino o mesmo comigo,

porque eu não estava tentando construir uma bomba.

Obrigado.

Então, você blefou consigo mesmo,

da mesma forma que eu fiz no pôquer.

Mas, nesse caso...

Por que vim a Copenhague? Sim...

por que vim...?

Analisemos um esboço a mais, certo? Um esboço final.

"E mais uma vez esmago as pedrinhas do caminho"

"para a entrada da casa dos Bohr e toco a campainha."

"Por que vim? Eu sei perfeitamente bem."

"Sei tão bem que nem preciso me questionar."

"Até que mais uma vez, a pesada porta se abre."

"Ele fica ali, na soleira da porta."

"Até ali, seus pensamentos estiveram vagando,"

"como partículas não observadas"

"através das fendas múltiplas e a rede de difração"

simultaneamente."

"Agora, seus pensamentos precisam ser analisados."

-Meu querido Heisenberg! -Meu querido Bohr!

"E as razões que estavam claras dentro da minha cabeça"

"perdem definição."

"A luz cai sobre elas, e elas se dispersam."

"Como é difícil ver aquilo que está diante dos nossos olhos."

"Tudo o que temos é o presente,"

"e o presente se dissolve constantemente no passado."

"Bohr se dissolve assim que eu olho para Margrethe."

Niels tem razão. Você parece mais velho.

Creio que você deve ter tido algum problema.

"Margrethe entra na história enquanto me volto para Bohr."

"Mais difícil ainda é vislumbrar"

"o que está por trás dos nossos olhos."

"Aqui estou, no centro do universo,"

"e tudo que vejo são 2 sorrisos que não me pertencem."

-Elisabeth? As crianças? -Ah, estão bem.

Mandam lembranças...

"Posso sentir um 3º sorriso na sala, muito perto de mim."

"Seria aquilo que vejo no espelho logo ali?"

"O estranho incomodado, exibindo seu sorriso,

"conectado com esta presença que sinto na sala?"

"Esta presença não-observada, que a tudo envolve?"

"Observo os dois sorrisos na sala..."

"um desconfortável e que tenta se animar,"

e o outro que se converte de cálido a meramente educado."

"Sei que há também um terceiro sorriso na sala,"

"inalterado, amável espero; e cauteloso."

Conseguiu esquiar um pouco?

"Olho de soslaio para Margrethe,"

"e por um momento vejo o que ela pode ver e eu não:"

"eu mesmo,"

"e o sorriso que vai sumindo de meu rosto"

"enquanto o pobre Heisenberg segue cometendo erros."

"Olho para os dois que olham para mim,"

"e por um segundo vejo a 3ª pessoa na sala"

"tão claramente como eu os vejo."

"Seu hóspede indesejável,"

"tropeçando de uma grosseria a outra."

"Eu o vejo olhando para mim,"

"ansioso, implorando, tentando voltar aos velhos tempos,"

"Eu vejo o que ele vê."

E sim, lá vem, lá vem...

"Falta alguém no quarto."

"Ele me vê. Vê Margrethe."

"Ele não se vê a si mesmo."

Você sugeriu uma caminhada. Não vamos demorar.

-Uma semana, no máximo. -Como?

Nossa grande caminhada pela Zelândia?

Lembra-se de Elsinore? A escuridão da alma humana.

"E lá vamos nós. Por baixo das árvores de outono."

"Agora não há mais ninguém no mundo,"

"a não ser Bohr e o outro invisível."

"Quem é ela, essa presença camuflada na escuridão?"

"A partícula que voa vagando pela escuridão,"

"e ninguém sabe aonde vai."

"Está aqui, acolá,"

"está em todo lugar e em nenhuma parte."

"Com aparente indiferença"

"ele começa a fazer a pergunta que esteve preparando."

Um físico tem o direito moral

de trabalhar na exploração prática da energia atômica?

"O grande impacto."

"Eu me detenho. Ele se detém."

"É como eles trabalham."

"Ele me olha, horrorizado."

"Agora, finalmente, ele sabe onde está,"

"e o que está fazendo."

"E mal começa o momento do impacto, já acabou."

"Ele se vira."

"Volto correndo para casa."

"Já estão os dois se escapando um do outro na escuridão."

"Nossa conversa terminou."

-"Nossa grande parceria." -"Toda nossa amizade."

"E tudo sobre ele..."

"se torna tão incerto quanto antes."

A não ser que...

Sim, um experimento hipotético.

Suponhamos por um momento que não sairei correndo à noite.

Vejamos o que acontece se, ao contrário...

lembro a figura paternal que se supõe que interpreto.

Se eu parar, controlar minha raiva...

e me virar para ele, e lhe perguntar...

-por quê? -Por quê?

Por que está tão certo

de que será tão tranquilizadoramente difícil

construir uma bomba com o 235? É por que você fez o cálculo?

-O cálculo? -Da difusão no 235.

Não. É porque não calculou.

Você não considerou calculá-lo.

Você não percebera conscientemente

de que tinha que fazer um cálculo.

"E, claro, agora sim me dou conta,"

"de fato, nem teria sido tão difícil."

"Vejamos..."

"a seção transversal de espalhamento é de 6 x 10-24 cm²,"

"então, o caminho livre médio seria...espere!"

"E de repente, um mundo novo, muito diferente"

"e muito terrível começa a tomar forma..."

Esse foi o maior e o último pedido

que Heisenberg te fez...

ser compreendido...

quando ele mal conseguia entender a si mesmo.

E esse foi o maior e o último ato de amizade

que teve com ele:

deixá-lo mal interpretado.

Sim.

Talvez devesse te agradecer.

Talvez devesse.

Bem, é o fim da história.

Embora eu também devesse te agradecer por algo.

Aquela noite de verão em 1943,

quando escapei num barco pesqueiro,

e navios de carga chegaram da Alemanha...

Mas o que isso tem a ver com Heisenberg?

Quando os navios chegaram naquela quarta-feira,

8 mil judeus na Dinamarca

seriam presos e jogados em seus porões.

No dia seguinte, na véspera do Ano-Novo judaico,

quando a SS começou a caçá-los, mal se via um único judeu.

Se alguns conseguissem escapar

dos barcos de patrulha alemães em barcos de pesca,

já seria incrível...

imagina uma flotilha passando pelos barcos alemães,

com 8 mil pessoas a bordo...

foi como se abrissem o Mar Vermelho.

Então, talvez eu devesse te agradecer.

Pelo quê?

Por minha vida.

Por todas as nossas vidas.

Ali, já não tinha mais nada a ver comigo, lamento dizer.

(para entender melhor, leia sobre Georg Duckwitz)

Mas logo depois que eu saí, você voltou para Copenhague.

Para me certificar que nossa gente

não se apoderasse do Instituto na sua ausência.

Também nunca lhe agradeci por isso.

Sabia que me ofereceram seu cíclotron?

Poderia tê-lo usado para separar um pouco do 235.

Enquanto isso, você ia da Suécia para Los Alamos.

Para dar minha pequena, mas importante contribuição

na morte de milhares de pessoas.

Niels, você não fez nada de errado.

-Não? -Claro que não.

Você foi um homem bom, do início ao fim,

e ninguém poderia contradizer.

Quanto a mim...

Quanto a você, meu caro Heisenberg,

jamais contribuiu com a morte

de uma só pessoa sequer, em toda a sua vida.

"Antes que possamos agarrar algo, nossa vida se acabou."

"Antes que possamos discernir quem ou o que somos,"

"já estamos mortos e de volta ao pó."

"Assentados no meio do pó que nós mesmos levantamos."

"E cedo ou tarde virá um tempo"

"em que todos os nossos filhos terão voltado ao pó,"

"bem como todos os nossos netos."

"Quando as decisões, grandes ou pequenas,"

"jamais sejam tomadas novamente."

"Quando não há mais incerteza,"

"por que não há mais conhecimento."

"E quando os nossos olhos estiverem fechados,"

"e quando até os fantasmas tiverem partido,"

"o que restará do nosso adorado mundo?"

"De nosso arruinado, desonrado e adorado mundo?"

"Mas enquanto isso,"

"neste meio tempo precioso, aí estão."

"As árvores do parque."

"Nossos filhos e nossos netos."

"Preservados, possivelmente,"

"só por causa daquele breve momento em Copenhague;"

"por algum evento que nunca será completamente situado ou definido;"

"por esse último núcleo"

"de incerteza que se encontra no coração das coisas."

(Após a propaganda, segue o Epílogo com Michael Frayn)

COPENHAGUE Epílogo com Michael Frayn

A peça não tem a intenção

de fazer um juízo definitivo sobre Heinseberg.

Sua situação era muito complicada

como físico dentro de um país totalitário.

Heisenberg não se apresentou como um herói.

Ele, claro, assumiu compromissos com o regime nazista,

e certamente pelos mais variados motivos;

alguns dos quais acho que por um ideal nobre.

E fico surpreso que as pessoas de hoje,

que não sabem como é viver sob o regime nazista,

apressem-se em julgar Heisenberg.

(Barbara Blum, filha de Heisenberg)

Esse foi o Concerto para Piano em Lá Maior de Mozart,

o primeiro movimento, tocado pelo meu pai.

Meu pai sentia-se filho de Bohr, o grande mestre.

Talvez ele estivesse ingenuamente confiante quando foi para lá.

Ele não pesou o fato

de que os alemães tinham ocupado a Dinamarca,

e também, claro, que Bohr era judeu,

cuja situação era completamente diferente.

Não sei bem direito o que houve entre eles.

Acho que ele sentiu bastante a perda de um amigo.

Era um país ocupado, e lá estava o usurpador.

Acho que foi muito ingênuo da parte de Heisenberg

achar que poderiam conversar como nos velhos tempos,

diante das circunstâncias.

Acho que ele, deve haver aí algum transtorno psicológico,

não percebeu como Bohr se sentiria, quando ele chegasse,

representando formalmente o país ocupante.

As pessoas têm especulado

que Heisenberg buscava obter informações

sobre o programa atômico dos aliados.

De fato, ele fora enviado pelo governo alemão,

e acho isso perfeitamente possível.

Mas não consigo acreditar que alguém do governo alemão

tenha autorizado Heisenberg

a ir até Copenhague e dizer para Niels Bohr,

o qual mantinha notório contato com cientistas ocidentais,

para lhe dizer que havia um programa altamente secreto

na Alemanha para a fabricação de armas atômicas.

Heisenberg deve ter feito isso por conta própria.

Para mim isso sugere que, em última instância,

que ele esperava que Bohr transmitisse aos aliados

a notícia de que havia um programa para a bomba alemã.

E acho que isso dá credibilidade

ao próprio relato de Heisenberg acerca do encontro,

sua explicação pessoal do encontro,

no qual ele esperava que Bohr persuadisse os cientistas aliados

a desencorajar seus governos quanto às armas nucleares,

como os físicos alemães faziam com seu governo.

Claro, eu sabia que Bohr era dinamarquês,

e que seu país estava ocupado pela Alemanha,

portanto, é óbvio que Bohr teria fortes sentimentos sobre o tema.

Ao mesmo tempo, sentia que Bohr e eu éramos grandes amigos,

e que ele já sabia minha opinião prévia a esse respeito,

assim achei que isso seria uma boa base

para a confiança e para conversar sobre essa questão.

Todos desde a guerra

têm suspeitado de Werner Heisenberg.

Em sua juventude,

ele era considerado um homem simples, franco e charmoso,

e todos gostavam dele.

Mas ele ficou diferente durante o período nazista.

Ele tornou-se mais retraído, a partir dali,

e sentia que fora mal interpretado,

e sem surpresa, foi bastante atacado após a 2ª Guerra,

e as pessoas ainda têm sentimentos rancorosos contra ele.

De fato, Margrethe ficou muito zangada

com todas as tentativas dele de se desculpar.

Margrethe ficou ofendida

com vinda dele em 1941, e depois comentou:

"seja lá o que digam dessa reunião, ela foi bem hostil."

Quando escrevi a peça,

Heisenberg já havia comentado publicamente a reunião,

e deu seu relato sobre a tal. Mas Niels Bohr não.

O que eu não sabia,

era que Bohr tinha escrito uma carta muito zangada

para Heisenberg bem depois da guerra,

na qual ele expõe sua versão acerca da reunião.

Porém, muito tipicamente, ele não enviou a carta.

Ele começou a reescrevê-la.

Ele pretendia discordar veementemente de Heisenberg,

mas sem magoá-lo, pois ele era um homem muito amável.

E Bohr jamais enviou a carta.

Continuou a reescrevê-la até morrer.

Sua família achou esses rascunhos da carta entre seus papéis,

e, em vez de publicá-los,

decidiu guardá-los nos arquivos de Bohr em Copenhague,

proibindo sua difusão até 50 anos após sua morte.

Uma das ideias que Heisenberg e Bohr introduziram na física

é que o ato de observação afeta o que está sendo observado.

E curiosamente, a produção da peça

teve efeito parecido sobre o assunto.

Acabou persuadindo a Família Bohr

a liberar o conteúdo da carta,

além dos primeiros esboços da mesma.

"Creio que lhe devo dizer que estou muito impressionado

em ver como a sua memória o iludiu.

Do modo como falou,

você me passou a impressão de que, sob sua liderança,

a Alemanha planejava construir armas atômicas.

Uma grande questão para a humanidade estava em jogo,

onde, a despeito de nossa amizade pessoal,

tínhamos que ser considerados representantes de 2 lados

engajados num combate mortal."

Bohr sem dúvida parecia mais irritado do que parece na peça,

e certamente afirma recordar-se daquela reunião

melhor do que como eu o mostrei na peça.

E como queria ter lido a carta quando escrevi a peça.

Acho que o fato de que Bohr

deixou de enviar a carta para o meu pai,

foi uma situação muito mais difícil de lidar

do que se a tivesse enviado.

De algum modo,

acho que meu pai teria acolhido a carta com satisfação.

Em qualquer relacionamento,

acho que é crucial conversar sobre todos os temas,

inclusive os desagradáveis.

Como isso acabou não ocorrendo, acho que ele saiu transtornado,

e mostra que a confiança entre eles ficou abalada.

É possível que haja alguma evidência em algum lugar

que ponha um ponto final sobre o que ocorreu naquela reunião.

Mas isso não esclareceria definitivamente

o que Niels Bohr pensava das intenções de Heisenberg,

e o que Heisenberg pensava que Bohr entendera na reunião.

Seria muito ilusório.

Heisenberg morreu de um modo bem bíblico.

Ele estava em casa.

Convidou os amigos mais íntimos ao seu leito de morte.

Ele disse: "Vejam, eu estou morrendo,"

"e estou muito triste"

"por não ter tido esta última conversa com Bohr."

Então percebi, quando disse isso em seu leito de morte,

que aquilo lhe proporcionara grande frustração.

E eu sentia, cada vez que isso aparecesse,

que era uma amizade muito importante para ele, entende?

E que fora destruída por aquilo.

Há algo de muito triste na vida desses dois,

sobre como levaram suas vidas,

cada um deles repassando repetidamente o encontro,

tentando descobrir por que aquela amizade tinha sucumbido,

tentanto entender precisamente o que havia ocorrido

naquele encontro fatídico.

Pelo menos, na minha peça,

seus fantasmas se reúnem para falar sobre isso.

A peça aborda a dificuldade em entender

por que as pessoas fazem o que fazem.

E também o que leva uma pessoa a fazer algo sozinha.

E no final, conclui-se que, para entendermos a nós mesmos,

precisamos dialogar com os outros.

Temos que ver nossas ideias refletidas nas outras pessoas.

A peça "Copenhague" trata sobre isso.

(Niels Bohr morreu em 1962, e Werner Heisenberg em 1976)

BROUGHT TO YOU by nephilim dC

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