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Original subtitles

Outra vez, porra. Por que, Gilda?

Gilda Calami.

Calani.

Astrocitoma. Quanto tempo de vida?

Um ano e meio, mais ou menos.

Muito bem. Para a admissão precisa ter uma doença terminal e pelo menos uma

tentativa de suicídio recente.

Eu vi que pôs uma cruz na opção mais de três tentativas.

Quanto foi a última vez?

Há dois meses.

É tão difícil.

Parabéns. Foi selecionada.

Pode assinar.

São 400 euros.

Tem aqui uma cláusula de isenção que diz que vocês não são responsáveis pelas

informações que levem ao falecimento do participante e que nós já... A

Transition International dedica -se à satisfação do ser humano como um todo

através do nosso programa Transição Feliz.

Como diz o nosso slogan, nossa vida, nossa morte.

E, claro, não se pode falar da vida sem falar da morte. Essa cláusula isenta

-nos da responsabilidade legal.

O programa consiste numa componente de joia em que vos conectamos com a magia e

beleza da vida e uma componente de transição sobre técnicas de transição

em dolores.

Tá, ok.

Mas eu vou mesmo aprender a me matar sem dor.

Eu também.

Sem dúvida.

Hoje em dia tem muitos nacional para tudo.

Até para morrer.

O que eu estou fazendo aqui?

Muito simples.

Aquilo nunca deu certo.

E esse câncer era inoperável.

Dentro de um ano e meio ele vai me matar.

Então eu fiz minha antecipada.

Uma parte da bala ficou presa na minha cabeça.

E eu sem falar durante um bom tempo.

Isso me rendeu um mês de exercícios locais e uma terapia de grupo gratuito.

Depois eu canso.

Continuo querendo morrer.

Antes de acontecer naturalmente, claro.

Tadinho.

O meu câncer e as minhas tentativas de suicídio

têm sido muito difíceis para ele.

Como dá para ver, a terapia de grupo me ajudou muito.

Mas não é a primeira vez que eu vejo isso.

De quem está morrendo ter que se preocupar mais com o sentimento dos

que com seus próprios sentimentos.

É como se fosse uma obrigação moral.

Mesmo morrendo, você precisa pensar nos outros e nas boas intenções deles. Como

se você dissesse, desculpa porque eu estou morrendo.

Meu pai, câncer no pâncreas. Mais comum que o meu, mas com taxa de mortalidade

de quase 100%. Genética boa da família.

Aquela ali sou eu.

E essa é minha família.

Tio Wilson, ex -militar.

Vamos lá, cara, força!

Tem que ter força, tem que lutar!

Tia Chica,

viu o meu profissional?

Prima Emília.

Nunca soube o que ela faz.

Eu sei que as dores são terríveis.

Mas fica com a gente.

Pensa na gente.

E você nem fala nada dos bolinhos que eu trouxe.

Sacar o padrão.

O festival de outro dia.

Não fica com pena de mim, tá bom?

Que eu não quero isso.

A gente vai estar sempre junto, tá?

Dói, né?

A minha doeu?

Muito.

Mas com a morte dele eu também entendi outra coisa.

Que agora, que é a minha vez, eu faço do jeito que eu quero.

Cansado das dores? De ter medo?

De fraude? De pessoas e governos que não querem saber da sua dignidade?

Está preparado para a transição final e quer fazê -la à sua maneira, antes que a

dor e a doença o consumam? Venha fazer novos amigos na mesma fase da vida.

Joy Transition International.

A nossa vida, a nossa morte.

E é por isso que a gente acaba na mão dessas picaretas. Se o Estado não ajuda

gente a morrer e você tem medo, tem outra escolha. Quantas tentativas?

Uma. Muito bem. E fez um corte paralelo ou perpendicular à veia?

Perpendicular.

Pode assinar.

São 400 euros.

Já os costa?

Quanto?

Quanto tempo de vida?

Mais ou menos dois anos.

É tão difícil.

A quantidade de antidepressivos que eu tomo, nada é difícil.

Antes de assinar, eu queria saber se eu me matara, sendo

que eu já estou a morrer, é pecado?

Não tem uma opção online, eu odeio grupos.

Isso,

isso, continuo.

Sorriso interior.

Sorriso exterior.

Inner smile.

Outer smile.

Sorrir é alegria. E alegria é o precursor natural da transição.

A vida é feita de transições e a morte é só mais uma.

Para tomarem uma boa decisão em relação à vossa transição, têm de sentir alegria

primeiro.

Alegria pela vida.

E pelas pessoas a sorrir à vossa volta.

Muito bem.

Obrigada. Não parem, não parem. Continuem. Interior.

Sorriso exterior.

Agora vamos passar a outra parte fundamental do nosso workshop.

E uma das minhas preferidas.

O nosso body session.

Por favor, levantem -se. Deem um abraço à pessoa que está ao vosso lado. E digam

o vosso nome.

Não tenham medo.

Então, um abraço.

Isso. Muito bem, muito bem.

Foi aí que o Amadeu entrou na história.

O Amadeu perdeu os pais ainda pequeno, igual a mim.

Ele tinha oito anos.

Eles caíram de uma falésia, tirando o Marcel.

Foi das mortes por selfie mais faladas daquele ano.

E desde então ele

ficou com uma obsessão, uma afinidade com a morte.

Quando ele terminou o prestigiado curso de especialização em tanatopraxia,

embalsamento e psicologia do luto,

Amadeu pegou um trabalho bem pertinho da morte.

E se instalou no que ele esperava ser, uma vida anestesiada.

Mas a anestesia não pegou.

O Amadeu não dormia fazia cinco anos.

Tomou antidepressivos, pílulas para dormir, nada deu resultado.

Até que um dia ele achou que o problema pudesse ser mais grave.

O Bruno vai distribuir uns questionários para se conhecerem melhor nas nossas

sessões Buddy System, aqui na sala ao lado e nas vossas casas.

Distribui.

O vosso Buddy vai ser o vosso apoio constante em alegria e transição

ao longo do workshop.

Bem -vindos à nossa sala de Body System.

E podem começar a vossa primeira sessão. Ah, e não comam os vossos snacks de uma

só vez.

Ok?

Eu sou o Amadeu.

Eu sei, você falou.

Tu não me chegaste a dizer o teu nome.

Gilda.

Gilda... quê?

Gilda, Gilda.

Você conseguiu fazer os dois?

Sim.

Você cortou perpêndio claravê ou paralelo?

Perpendicular. Também me perguntaram isso na entrevista de seleção.

É que assim demora mais.

É mais difícil desse jeito.

Assim é mais um pedido de socorro do que uma tentativa séria.

Doeu muito e eu não lido bem com a dor.

Acho que é o problema de todo mundo aquilo.

O que é que você tem?

Hã? A doença.

Ah, tumor maligno no cérebro.

E tu?

É a medula espinhal.

Inoperável.

Mais quanto tempo?

Um ano e meio, no máximo.

Mas com direito a paralisia e dor, bem ainda.

E você?

Mais ou menos isso.

Os médicos querem fazer mais exames.

O

que

é que foi?

O quê?

Por que é que você está me olhando desse jeito?

Que jeito? Eu estava só... Com essa cara de cachorrinho. Você quer que eu tenha

pena de você?

Não. Porque eu não tenho. Não tenho pena nenhuma.

Vai que você é um tremendo filho da puta. O mundo vai ficar muito melhor

que você morrer.

Então, quanto mais isso acontecer, melhor, né? Então, para que é que eu vou

pena de você? Não tenho. Não tenho pena nenhuma.

Vais comer as pickle?

O que é que tu fazes?

Como trabalho, é a primeira pergunta.

Professora e tradutora.

Quer dizer, era.

Aí fiquei doente, tive que me aposentar mais cedo.

Eu sou agente de funerária.

Bem mais útil.

Valeu! Para com essa barulheira!

Já pedi para não fazeres isso com o teu treinado.

O teu pai disse que agora tinha de começar às três.

Uma massagem nas costas.

Este ombro continua péssimo.

Olha, ficou fixe, não ficou?

Ficou.

Promessa da funerária.

Podes continuar.

Não se esqueçam da saúde.

Olha,

há mais notícias dos médicos.

Vão fazer mais exames?

E um médico perguntou -me se eu era querofóbico.

O que é isso?

Ter medo da felicidade.

Olha, aquela coisa da morte feliz, está a ajudar?

Já é Transition International.

Não sei, só comecei agora.

Muito bonito, gostei da performance.

Agora vamos despachar isto que eu estou com alguma pressa.

Sim, sim, claro, desculpa.

Reanimaram -me sete vezes, os cabrões.

E agora ainda temos velório, os inteiros. Isto nunca mais acaba.

Vamos a isto.

Estão sempre com muita pressa.

É assim tão bom?

Difícil dizer pior do que isto.

Pois.

Olha, cortaste -a bem em perpendicular ou paralelo?

É porque se cortaste em perpendicular, pode -se considerar... Não há mais um

grito de socorro do que uma tentativa de férias, eu sei, eu sei.

Nunca é fácil, rapaz.

Estar morto?

É assim, como uma memória muito antiga que volta a aparecer, estás a ver?

Caramba, caga nisso.

É como uma memória muito antiga? Olha, já agora fazes -me um favor.

É para o meu neto, nós tínhamos uma relação muito próxima.

Eu gostava que ele ficasse com uma recordação minha.

Não tive tempo.

Anota aí este endereço, se fazes favor.

É estranho, sim.

Mas eu falei, obsessão é afinidade com amor.

Bem -vindos à primeira componente Transition. Uma discussão informal e

totalmente espontânea sobre as formas de autodeterminação mais populares,

dolorosas e com uma elevada taxa de fracasso, quase 85%.

Resumidamente, elas são suicídio por armas brancas ou de fogo,

suicídio

por atropelamento com subcategorias de carro, comboio, barco, gado, entre

outras, suicídio por queda com subcategorias em superfícies duras ou

por exemplo a água.

Suicídio por envenenamento com produtos caseiros.

Suicídio por enforcamento.

Você não é a única pessoa que tá morrendo, Júlia.

É. Parece que o problema é universal.

Você entendeu.

Eu também tô morrendo.

Você não tá morrendo, Lúcia. Você tem um probleminha no coração. Você tá ótimo.

Não é uma competição.

Pode ficar grave.

Eu preciso de você.

Você também precisa de mim.

Não, de jeito nenhum. Eu não vou pôr isso na cara. Mas toda a gente pôs.

Tenho que usar a máscara à alegria em certos momentos.

Porquê? Porque assim, mesmo ouvindo coisas tristes, vão estar rodeados de

sorrisos. Por questões legais.

Se somos apanhados, nós fizemos ter uma peça de teatro ou uma brincadeira. Fala

-te, Bruno.

A escolha é sua.

Usa a máscara alegria ou vai -te embora.

Que bom.

Palmas para a Zilda.

Não foi assim tão difícil, pois não?

Agora, antes de vos deixar com a minha cefa Eva, queria falar um pouco sobre a

próxima componente de Joy para a semana.

Birth Joy.

A alegria do nascimento.

Parabéns, amor.

Você, nesta data querida, muitas felicidades, muitos anos

de vida.

Adoro o bolo.

Obrigado.

O que é isto? É o cheque de viagem.

Para podermos ir a uma feira funerária em qualquer país da Europa.

Eu não quero ir a mais feiras funerárias nenhumas, filha, estou fã. Vamos

juntos. E é super bom para o negócio.

Fazer contactos internacionais, expandir. O que queres? Não.

Não quero.

Quero foder, filha.

É isso que eu quero.

A última vez que vi uma mulher nua, viva, foi a tua mãe.

Só penso nisso.

Parabéns, feirinho.

Uma selfie?

Para o início da empresa?

Mas falemos do químico mais privilegiado para o suicídio indolor.

O nebutal ou pentobarbital de sódio.

É muito difícil de arranjar, principalmente na Europa, onde só é

o uso veterinário.

Mas nestes países, México, Tailândia e Peru, existe um mercado clandestino para

o nebutal. Para vos ajudar, nós temos um serviço de assistência em viagens a

preços muito razoáveis.

Sinceramente, se é o momento em que a gente deveria ser igual, é na morte, né?

Mas se você tem grana, você tem direito até a essa diferença.

Você tem direito a uma morte de luxo.

Eu sei o que vocês estão pensando.

Nossa, suicídio é assim tão difícil?

Eu não ia encarar esse absurdo.

Mas o que todo mundo aqui já sabe, e vocês talvez não, é que 80 % das pessoas

que tentam se matar falham da primeira vez.

E 65 % falham da segunda e da terceira.

Olha as minhas quatro tentativas, por exemplo.

A primeira vez que eu tentei foi quando eu soube da existência do Norberto e que

não tinha cura.

Quis fazer como faziam na antiguidade romana.

Não é um bom jeito se você não tolera a dor ou não pode ver sangue.

O máximo que você vai conseguir é se acordar no quarto de ação.

E a pessoa que te achou vai te odiar.

Aquelas mortes por choque elétrico na água que a gente vê nos filmes?

Quase nunca funciona.

Essas duas tentativas também renderam seis meses de fisioterapia e uns nervos

pouco lesionados.

Daí eu fui pelo meio não -violente.

O site tem que ter o hospital do centro barbital e outras instâncias permeáveis.

Tudo bom.

Acabei de novo no hospital, mas dessa vez foi uma lavagem estomacal.

É, não é tão fácil quanto parece.

E não é só por medo da dor.

Ou de deixar para trás esse mundo fodido, maravilhoso.

O medo é também de falhar, do que pode vir depois.

E como é que você consegue fazer uma coisa quando você tem tanto medo de

conseguir, quanto de falhar?

Daí vocês falariam, por que você não salta da rua de um prédio?

Uma cota de carne e osso sendo lançada a 100 km por hora contra o chão do

cimento, pronto.

Acabou. Caso encerrado.

Fácil, né?

Mas quando você chega nesse momento...

Viste a minha filha e o marido?

Chores e lamentos.

Que hipócritas.

Antes de eu morrer, foram horríveis para mim.

Agora é só saudades e coitadinha.

Mas antes era cala -te, eu não posso mais.

Como se eu tivesse alguma culpa de estar a morrer.

Sabe, às vezes as pessoas que passam por aqui vão mais descansadas, com um

pouco de... Um pouco de quê?

De engança.

Por exemplo, umas falhas no funeral.

Ou uns gastos imprevistos.

Ah, eu estou a gostar dessa ideia.

Como é estar morta?

Como se alguém estivesse atrás de ti a sussurrar o teu nome ao ouvido

sem parar.

Percebeste?

Aqui é que vai ser o velório.

Não se preocupe.

Vamos tratar muito bem da sua mãe.

E aqui temos alguma informação relativa aos nossos funderais pré -pago.

Temos escondos fantásticos.

E algumas opções mais fun.

Podemos fazer um diamante das cinzas da mãe.

Ou um foco artifício.

Passamos à sala 2.

O problema com a morte por hipóxia é a logística. Número 1. A qualidade do saco

de plástico utilizado. A maioria rasga -te com facilidade quando a hipóxia ou o

pânico te instalam.

Uma solução óbvia é, número 2, atar as mãos.

Problema. Como atar a segunda mão?

Isso significa...

que precisam da ajuda de outra pessoa, envolvendo essa pessoa em homicídio ou

assistência ao suicídio. Ou então, põem o saco primeiro

e

a seguir utilizam algemas.

Mas agora, mais importante de tudo, que venenos ou medicamentos podem utilizar?

Para tornar a vossa experiência menos dolorosa e assustadora.

E garantir que não perdem a vossa determinação ao meio.

Agora temos a ácida.

Estão a sentar? De sódio.

É que eu depois não vou repetir isto.

A varfarina.

A varfarina. O clássico cianeto.

Vamos continuar.

A brometalina...

Tá em casa, Gilda?

Gilda?

Gilda?

O que é isso, Gilda?

Calma, Lúcio. Esse saco plástico é pra quê?

Corra!

Eu não ia fazer nada.

Caralho! Eu tava só... Não dá mais pra mim.

Não dá mais pra mim, Gilda. Eu não ia fazer nada, Lúcio.

Luz ou não?

Concentre -se exclusivamente em pensamentos felizes.

Pense em fazer algo simples que lhe traga sempre

felicidade.

E respire.

Respire.

Pensamentos. Felizes.

Nossa vida, nossa morte. Nossa vida, nossa morte.

Muito bem. Não se esqueçam de fazer as vossas sessões de Body System nas vossas

casas este fim de semana.

Ok?

Muito bem.

Gilda?

Posso?

Gilda?

Gilda?

Você acha que eu estava morta?

E aí você pensou, sou tudo ou tadinha?

Ou simplesmente, vou para mais uma cliente, que legal.

O que é que aconteceu?

Onde consegue um ser?

É isso.

Quero que eu chame a ambulância, quero que eu ligue para alguém.

Os médicos falaram que o sintoma mais grave ia ser a paralisia total.

Bem aos poucos.

Uma perna, um braço.

Já fiquei umas horas, dias, mas depois passa.

Mas isso quer dizer que o câncer está evoluindo rapidamente.

Estava fazendo uma experiência para ver como é que ia ser.

E qual é a sensação?

Morrer vai ser melhor.

Para onde é que tu vais mudar?

Para lugar nenhum.

Estou tentando juntar dinheiro.

Quero ir para uma dessas clínicas de suicídio assistido da Suíça.

É que as custam 15 mil euros. Vais conseguir juntar assim tanto?

Os suíços dão assistência financeira, se você provar que precisa.

Eu me inscrevi, ó.

Você devia tentar também.

A gente não tem que preencher a bobagem lá do questionário?

Vamos lá.

O que você gostaria que estivesse escrito no seu túmulo? Aqui já é daquela

desejou permanecer anônima.

E no seu túmulo com 25 % de desconto na compra de um caixão.

Você está sempre a usar contudo.

Você está falando daquele clichê, você usa as piadas para afastar os outros,

medo da intimidade, é isso?

Mais ou menos.

É exatamente isso que eu faço.

Próxima pergunta.

Quem mais gostarias que visitasse o teu túmulo?

Aceito todas as visitas.

Desde que me levem uma taça de vinho e um cigarro.

Homens bonitos.

Mulheres. Tens alguém?

Isso está mesmo no questionário.

Vi umas roupas de homem.

Tinha.

Tive várias.

O último saiu porque achou que eu estava me vinculando a um culto suicida.

Você não me respondeu quem você gostaria que visitasse o seu túmulo. Aposto que

vai ter muitos colegas do trabalho. Vai ser uma festa o seu túmulo.

Sim.

Sim. Certo.

Vocês não querem ver, né?

Isso vocês querem ignorar. Não, agora olha.

Olha. E olha bem, porra.

São bonitas.

Roubou da funerária?

Diretamente armado do morto.

Não meteram aqui mais ninguém?

É o luxo de ser doente terminal.

Bem feito de privada.

Eu estou melhor, mas o braço não recuperou.

Não queres mesmo mais nada?

Você foi hoje?

Madeleine Benelux.

E aí?

Falaram da Holanda e da Bélgica.

É muito difícil para não residentes.

Teria de viver lá pelo menos um ano para pedir a eutanásia. É morte por

burocracia.

Eles não me deram assistência na Suíça. Você se inscreveu?

Sim. Também não fui aceito como tu.

Você pensou em tentar de novo?

Fiquei com muito medo de uma vez.

Eu também não vou aguentar falhar de novo.

Eu quero ir embora enquanto ainda sou eu, sabe?

Antes de virar um naco de carne que só grita e sofre.

E roncou que nem um porco.

Que você roncou?

Não

dá

pra continuar desse jeito.

Esses workshops, essas soluções que não são soluções.

Chega, eu vou fazer essa porra eu mesma.

Como?

Você tem como arranjar um carro?

O que é que estamos a fazer aqui?

Isto aqui é um abrigo de animais.

E então?

Em Portugal, o pente barbital só pode ser comprado por veterinários.

E eles guardam em abrigos como este.

A gente vai roubar.

Roubar -me de chá?

Gilda, isso não é possível. Você não precisa viver comigo.

Claro que eu vou contigo.

Então é só esperar eles fecharem.

É melhor a gente ficar lá atrás.

O que é que lhes fala?

A maioria tem pena dos que ficam.

Outros têm raiva.

Outros são felizes.

Mas todos têm muita pressa.

Pressa? Porquê?

Não sei.

Pergunto sempre, mas nunca recebo uma resposta séria.

Que pena.

Era bom saber.

Pois era.

Começou quando os meus pais morreram.

Ficou tudo escuro a partir daí.

Era só bom que ela me dissesse que eu percebo que está tudo bem.

Se eu me tivesse enchido para tentar fazer -me sentir melhor.

Eu percebo que está tudo bem.

Não tô nem aí que você se sinta melhor.

Sem pena.

Sem pena.

Depois a gente fala disso. Vamos lá.

Ali, a dormir. Vamos embora.

Estás aqui para o controle orbital, não é?

É ou não é?

Sim. Como é que estás?

É óbvio.

É sempre a mesma coisa com vocês.

Vocês?

Humanos. As coisas deixam correr bem e vocês querem logo dar o fora.

Já passaram por aqui muito. Isto é que essa porcaria discutiu. A última dose

para mim. Doença dos intestinos.

Menoso. Mas veja, quando vocês sofrem, fazem isso com vocês.

Porquê é que não pode ser assim para nós?

Vocês andam sempre tão agarradinhos à vida, pá.

Vocês não? Está de gozar.

É tudo a mesma merda.

Provavelmente andamos de coleira e dão -nos comida enlatada de merda no além

também.

Como é que é estar morto?

Pai, como se fosse um percurso rançoso e empapado quando estás cheio de fome.

Começa e depois a certa altura acaba.

Não é complicado.

Não é difícil perceber.

E leis sobre a doutorada para humanos.

Pá, isso eu já não sei.

Política eu não estudo.

Foda -se, já partiram alguma coisa.

Agora o pessoal vai ter que começar a ladrar. Grande achatado.

Eu destaquei.

Temos que ir para lá, rápido.

Não vem ninguém, não vem ninguém.

Como é que vamos sair daqui sem as chaves do carro?

Um problema de cada vez.

Chega.

Acabou, eles ganharam.

E vão morrer do jeito que eles quiserem.

O melhor encanto da nossa infância.

Tentem lembrar -se dessa alegria.

Dessa energia.

Brinquem.

Brinquem!

Mas que bela surpresa!

Estávamos tão preocupados consigo, Gilda.

Recuperou?

Chega!

Foi um pouco implicado, mas podem se juntar a nós. Chega! Para com essa

palhaçada! Para!

Como é que eu cheio? É isso aí. Como é que eu, que não tenho dinheiro, me

atrevo? Aliás, pouco dinheiro que eu tinha eu dei a vocês, mas vocês não

que é suficiente para uma pessoa ter o direito de morrer sem dor? Vamos ter

calma. Estão enganando a gente, é nojento. Fala o que a gente quer saber,

Tem que enganar sem essa porra de joy transition.

Fala o que a gente quer saber, como é que se morre sem dor?

Como é que eu posso morrer sem dor? Por favor, como é que eu posso morrer sem

dor? Pausa!

Pausa!

Vamos todos fazer uma pausa agora.

O Bruno vai lá para fora brincar convosco.

Bruno?

Vamos? Está tudo bem.

Está tudo bem.

Não,

está tudo bem. Certeza?

Desculpa.

Não tens nada para pedir desculpa. Isto é tudo uma palhaçada.

Queres um cigarro?

Pode fumar aqui?

Não, mas eles se rodam. São umas bestas.

Os países que proíbem e as corporações que lucram.

Todos.

Então porquê que você faz isso?

Por mesma razão que eles.

Tudo dinheiro.

Acordei assim no segundo ano e não tenho propriamente mil e uma escolhas, não é?

Tadinha, está só tentando sobreviver, é isso.

Eu não tenho nada contra enriquecer à conta da miséria dos outros.

Tive que ter a paciência.

Agora, não finjam que são vanginhos a tentar salvar o mundo. Isso é que é

nojento.

A sua integridade é inspiradora.

Ouve, eu gosto de ti.

Quero ajudar -te.

Há uma médica em Espanha, em Mallorca, uma médica a sério, que consegue

o processo de eutanásia para não -residentes. Passa de um ano ou dois

de umas semanas.

Mallorca porquê?

Bisocáprio não estavam disponíveis?

Queres fazer pirinhas ou queres morrer sem dor?

A sério?

Então é aceito. Obrigada.

Gratidão é fantástico, mas dinheiro é melhor.

Para vocês o melhor que eu posso fazer são 5 mil euros.

Não temos tanto dinheiro.

Quanto é que tem?

800.

900.

Porra!

Mas merda, tenho que ir um momento.

Conseguem arranjar 3 mil?

3 mil?

Talvez. Ah, e têm de arranjar um extra para dispor dos vossos corpos.

Ok, fechado.

A gente se dá um jeito.

Ótimo.

Agora, atenção, porque isto é fundamental.

Vocês têm a papelada médica todo em dia, tudo 100 % genuíno. Cotórios, exames,

etc. Sim, claro.

Sim, claro.

Porque esta médica recusa -se a fabricar diagnósticos.

Eu não percebo muito bem a diferença ética, mas para ela é fundamental.

Portanto, resumindo, vocês estão mesmo a morrer, certo?

Claro.

Ótimo.

Maravilha.

Trago o meu dinheiro nos próximos dois dias.

Eu não preciso de calculadora para saber disso.

Viver desse jeito também é um esquema.

Fazer a merda daquele workshop também.

Eu vou.

Seja do jeito que for.

Eu pago a porra da primeira prestação, depois eu penso como pagar a segunda.

E essa taxa de corpo morto aí também.

Os padrões já estão lá fora à espera.

Se quiseres, podes sempre falar comigo.

Agora vai lá abrir a porta.

Não, não, não. Espera.

Podes mandar -lhe entrar.

Duas noites de belice no hostel.

Três, se a gente não comer muito.

Depois saco de dormir num parque.

Descobri os melhores lugares para a gente pegar carona de caminhão, mas vai

melhor se a gente não estiver junto.

De Lisboa para Madrid é melhor...

O cheque viagem.

Mas... O que?

O que é que está acontecendo?

Roubou aí do trabalho.

É de uma má influência.

Isso está muito sério.

Eu não acredito.

Não acredito.

Nem eu.

Mas o que é isso?

Isso é o endereço de um hostel?

De uma funerária?

A escanda maior que eu contarei só se dizem que são amigos de Montserra Bal.

Montserra o quê?

Montserra Bal. É o nome falso. Vão -se por um telemóvel, que ela vai lá para

contactar. A funerária é pública e é mais barata.

E se ela não ligar?

Se isso for mais uma mentira desse seu Joy Transition aí?

Eu já vos disse que eu não sou como as hipócritas do Joy Transition.

O que eu vos estou a oferecer é 100 % legitimamente ilegal.

Ela vai ligar.

Mas tudo bem.

Se não confiou em mim, ela é meu bom senhor de volta.

Dois.

Um navidade, por favor.

Somos amigos de Monte Arabal.

Ela contactará com vocês.

o primeiro quarto.

E o último.

O que você está a fazer?

Vou dar um mergulho.

Vamos? Vamos?

Vamos? Vamos? Vamos?

E aí

A maior parte da minha vida parece desfocada.

Como se fosse um borrão.

Também a minha.

Só me lembro bem das partes más.

Linda essa frase.

Então deu tudo certo.

Obrigado.

Calma, que agora já não dói tanto.

Está indo mais rápido do que eu pensava. Me ajuda até a cama.

O que é esta caixa preta?

São os touros da funerária. Você trouxe -os para quê?

Não sei.

Tenho pouca coisa, então não sei. Olha,

este traseiro.

É maquiagem dos moldes?

Me maquia?

Não.

Bem, por favor.

Vai. Me põe bem ridícula.

Que nem uma árvore do Natal.

É muito louco.

Parte de mim, a minha mente, está tendo dúvida.

Então não fazemos.

Deitamos fora o telemóvel.

Eu disse que a minha mente estava tendo dúvida.

Não eu.

E o que é que isso quer dizer?

O que é que me estás a dizer isso agora?

Vou falar para quem?

É só nós dois agora.

Se tens dúvidas, esperamos mais um tempo.

Tempo que a gente não tem.

Quais são as nossas?

A gente pagou pela campa 370 e 372.

Acho que é ainda mais prazer.

370 e 372.

Até que a gente vai ficar pertinho.

Mas eu fico mais em cima.

A vista é melhor.

Já não sonhava com tempestades, nem com mulheres, nem com grandes

acontecimentos, nem com grandes peixes, nem lutas, nem com provas de força,

nem com sua mulher.

Sonhava apenas com lugares e os leões na praia.

Brincavam com as gatas pequenas no escuro e gostava deles como gostava do

rapaz.

Sim, sou eu.

Sim,

estamos.

Quer tomar algo?

Sim, um café, por favor.

Um café, um água e outro tê. Obrigada.

Os historiadores médicos...

Não acredito nisso.

Esqueci os meus registros médicos.

Deixe -os no hotel.

Perdão, me há olvidado minha documentação.

Mas isto não é sério.

Isto não é uma broma.

Obrigada.

Obrigada.

Compreendo. Você está passando por circunstâncias muito difíceis. Eu sei

bem. Eu tenho pessoas próximas a mim nessa mesma situação.

Eu quero ajudá -los, mas só se vocês estão dispostos a fazê -lo. Sim,

Desculpe, isso foi uma loucura.

E o dinheiro?

Disseram -nos que isso era um pago inicial, que o resto se pagaria no mesmo

não? Sim, sim, correto.

Vale, organizaremos outra reunião para o historial médico do Sr. Amadeu.

Amanhã às seis, aqui.

Eu comproverei os historiales médicos para me assegurar de que tudo está em

ordem. Uma vez que o historial fique registrado no sistema espanhol, me

a colocar em contato com vocês para acordar a fecha e o lugar.

A partir desse dia, não nos voltaremos a ver até o dia do processo.

Serão duas injeções.

A primeira é um potente energético que conduz a um estado de profunda sedação,

perdendo o conhecimento.

Imediatamente depois, se administrará a injeção terminal.

Em pouco mais de 10 minutos, provocará a morte.

Alguma pergunta?

Não. Isso tem que ficar muito claro.

Em qualquer momento do processo, até o último momento, até uma vez administrada

a primeira injeção, Podem mudar de opinião. Eu não vou me enfadar, ao

Estarei contente de pensar que sabem o que querem e que, de alguma maneira, eu

os pude ajudar.

De acordo?

Muito bem.

Seguimos em contato.

Ok.

Obrigada.

O que queres fazer?

Nunca desisti.

Tô cansada.

Quero voltar.

Não é descansada que eu tô falando.

Tô cansada. Tô cansada de tudo.

Tô cansada de ter que fazer sempre tanta força.

Força pra viver, força pra viver até o fim, força pra acabar.

Tem que ter força pra tudo.

Tô exausta, sério.

Não dá para acreditar que daqui a alguns dias eu não vou estar mais aqui.

Não vou sentar mais nesta praia.

Em praia nenhuma, na verdade.

Nunca mais.

E o mundo vai continuar como se eu nunca tivesse estado aqui.

Mas você não sente isso que eu sinto.

Você parece que está mais em paz em se unir assim de um dia para o outro.

Talvez porque eu nunca consegui tocar em nada.

Desde menino.

Há sempre um espaço enorme entre o mundo e eu.

Eu não vou morrer.

Não quero nada. Não tenho doença nenhuma. Não tenho comor nenhum.

Por isso é que eu hoje não vou.

Eu vou faltar o equilíbrio.

Filho da puta!

Deixa -me... Filho da puta!

Eu te mato!

Eu

quero

viver.

Eu quero viver.

Eu quero viver.

Eu não quero.

Não quero viver.

Há anos que eu não quero.

Por que eu vou continuar, hein?

Já tendo a ir acabar, mas não conseguir até ao fim, por faltar essa força, por

ser fraco, não sei.

Mas queria conseguir, então, de ir ao workshop e depois... Depois do quê?

Depois conheci -te.

E qual era a ideia?

Como você acha que isso ia acabar?

Não sei, não tinha pensado nisso, não estava à espera.

Sai! Sai!

Sai! Sai! Sai! Sai! Sai! Sai! Sai! Sai!

Sai!

Gelo, desculpa.

Não precisa falar nada.

Já passou.

Eu fui ao workshop.

Porque de alguma maneira a minha vida fica mais fácil.

Se eu sei que é uma seda sem dor que eu posso usar.

Sou obrigado a escolher.

Eu sei.

Eu entendo.

Mesmo.

Mas eu preciso escolher, meu amor.

Gilda.

Gilda.

Genda!

Obrigada.

Pelo amor de Deus, Amadeus. Deixa de ser melodramático.

E vocês também. É isso. Pronto. Voltei do reino dos mortos.

Deixa de bobagem.

Para de chorar.

Morrer era ideia, não era?

Sem pena.

Certo?

Eu vou

pra

Maracangalha, eu vou.

Eu vou de uniforme branco, eu vou.

Eu vou de chapéu de palha, eu vou.

Eu vou convidar a Nália, eu vou.

Se a Nália não quiser eu...

Música Música

Não, não, não, não, não.

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