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Original subtitles

LISBOA

Este filme foi produzido em Lisboa, Portugal pelos Estúdios ‘Republic’

Pequeno almoço?

Então?

O ‘Star of Trípoli’ afundou à hora marcada, Senhor.

Óptimo. A que profundidade?

- Seiscentos metros. - Muito bom mesmo.

Fez a notificação?

Sim, Senhor. Notifiquei a Companhia de Seguros, esta manhã, por telegrama.

A Senhora americana chega esta tarde às 4h30, no voo 11, Senhor.

- Devia-se ir esperá-la? - Certamente que não.

Está cada vez mais estúpido, Selwyn. Isso tem de parar.

Peço desculpa, Senhor.

É tudo.

Muito bem, Senhor.

E então aquela última carga de perfume?

- Foi devidamente tratada, não? - Sim, Senhor, mas...

Mas o quê?

O preço desceu consideravelmente.

Porquê?

O mercado está competitivo. Parece que há mais alguém a importar perfume.

Quem?

Ninguém sabe. Provavelmente algum estrangeiro, Senhor.

Seja quem for, tem de ser eliminado.

Já eliminámos a competição antes, voltaremos a fazê-lo.

Ah, e...

Telefone ao Inspector Fonseca.

Pergunte-lhe se tem a gentileza de almoçar hoje comigo.

Muito bem, Senhor.

Tome.

Sim, Senhor.

Um charuto excelente, Senhor Mavros, e um almoço excelente.

Perdoe-me o orgulho, Inspector Fonseca, mas o meu 'Chef' é uma jóia.

- Um purista com educação Sarin. - Devia ser, depois de 16 anos em Paris...

Surpreende-me Inspector. Tem mesmo um 'dossier' sobre o meu 'Chef'.

Tenho um 'dossier' sobre todos os residentes estrangeiros em Lisboa, Sr. Mavros.

É o meu trabalho.

Pensei que trabalhava para as Finanças.

Eu sou responsável por certos aspectos das Finanças.

Tal como contrabandistas. Especialmente, contrabandistas estrangeiros.

Contrabandistas? A sério?

É uma área muito movimentada, Senhor Mavros.

O meu interesse é puramente académico, Inspector.

Óptimo. Os contrabandistas são uma ofensa para a decência.

Eles roubam ao Estado milhões de escudos anualmente. Milhões!

Mas com certeza, os barcos da sua Polícia são mais rápidos que os deles.

Os nossos barcos são mais rápidos, excepto o 'Orca', claro. Mas há tantos.

E nós, somos tão poucos.

O ‘Orca’?

O barco do americano.

Tem um contrabandista americano?

Temos a certeza que é um contrabandista mas, até agora,

não conseguimos obter provas.

Mas, um dia, ele vai cometer um erro. Todos cometem.

Um dia vai cometer e será o fim duma associação muito interessante.

Patife esperto. Terei saudades dele.

- Como se chama? - Evans. Robert John Evans.

Bem, tenho de voltar para o escritório. Obrigado, mais uma vez, pelo almoço.

O prazer é meu, Inspector. Tem de vir mais vezes.

Obrigado.

- Seraphim? - Sim, Senhor?

Quero que encontres um tal Robert John Evans.

Tem um barco chamado ‘Orca’.

Quero vê-lo o mais depressa possível.

Eu digo-lhe.

Quando o encontrares, diz-lhe que é um assunto que envolve dez mil dólares.

Sim, Senhor.

Senhor Fonseca, vem aí o ‘Orca’.

Viu-nos.

Voltou.

Belém!

- Somos esperados? - Sim.

Bem, talvez seja melhor atracar. Tudo em ordem?

Sim.

Inspector Fonseca, é uma honra.

Bom dia, Capitão Evans.

- Fez uma boa viagem? - Muito agradável. Obrigado.

Lamento a necessidade, mas... Podemos subir a bordo?

Com certeza! Faça como se estivesse em sua casa.

Receio ter de revistar o seu barco.

Como de costume.

E não vou encontrar nada?

Como de costume.

Sabe, Inspector, às vezes pergunto-me se sabe o que procura.

Podiam ser tantas coisas. Diamantes, relógios, câmaras...

tabaco, perfume, apenas algumas das coisas menos inofensivas,

sujeitas a contrabando.

Como têm tanta certeza de que faço contrabando?

Não nos faltam fontes.

Chegaram-nos relatórios deste ‘Orca’ de praticamente todos os portos

francos no Mediterrâneo, onde tais objectos podem ser adquiridos a baixo preço.

É desconcertante, não é?

Por que outra razão gastaria tanta gasolina?

- Sou um pescador. - Um pescador que nunca apanha um peixe.

Bem, tenho pouca sorte.

Não, não, não. Sou eu que tenho pouca sorte, Capitão. Até agora.

Sim, até me dói o coração. Sim, Inspector, dói mesmo.

- Bem, adeus, Inspector. - Au revoir Capitão. Não é adeus.

Sim, já me esquecia.

Sabe onde está atracado o barco do americano, o ‘Orca’?

‘Orca’? Pedrouços.

Obrigado.

- Gostas dessa? - Sim. É a mais bonita.

Bem, é tua.

Para sempre?

Até que a morte os separe.

- Muito obrigado, meu capitão. - De nada.

- Nunca te casaste Toni? - Não é para mim. Conheço bem as mulheres.

- Conheces, é? - Claro. As mulheres são como um pescador.

Só que, mordem o isco com um sorriso.

Fazem ondas como uma minhoca.

O homem está na frigideira. Não! A mim não me apanham.

- Tens a certeza disso? - Mas é muito bom roubar o isco.

Pois. Nada como um bom isco.

Capitão Evans?

Sim.

O meu patrão, o Senhor Aristides Mavros, gostava de falar consigo.

- E quem é o Senhor? - Chamo-me Seraphim.

- Sera... quê? - Só uma palavra Capitão, Seraphim.

Pode dizer ao Sr. Mavros que costumo estar a bordo, e que pode encontrar-me aqui.

Ele deseja falar consigo agora, na sua casa em Lisboa.

- Lamento, tenho outro compromisso. - Foi-me dito para sugerir

10 mil.

- Escudos? - Dólares.

É uma grande sugestão. Tem um carro?

- À sua disposição. - Faça favor.

- Capitão Evans? - Sim.

Por aqui, por favor.

Posso oferecer-lhe uma bebida, Senhor?

Sim, ‘whisky and soda’, por favor. Com gelo.

O Sr. Mavros virá ter consigo dentro de momentos, Senhor.

«Mas quem, enfim, pode amar e agir com sabedoria?»

«Não que o remorso não se tenha oposto à tentação»

«Um pouco ainda ela lutou e bastante arrependida,»

«E murmurando, nunca consentirei,»

- «consentiu.» - Repete essa última linha, minha querida.

«E murmurando, nunca consentirei,»

«consentiu.»

Encantador.

Agora deixo-te com «Pássaros e Abelhas».

Tenho um cavalheiro à espera.

Quer vender esse chapéu?

Vá-se embora.

Não, eu gostava mesmo de comprar o chapéu.

O chapéu não está à venda.

- Tem a certeza? - Absoluta.

Receava isso.

Capitão Evans?

- Sim. - Aristides Mavros.

Como está?

Vamos para dentro?

Está bem.

Soube que tem um barco rápido, Capitão.

Correcto! Um ‘Barco Torpedo’ modificado.

Também soube que é contrabandista.

- Verdade? - Seria inadmissível, se fosse verdade.

Não sou polícia, Capitão Evans. Por favor, sente-se.

Obrigado.

- O que tem em mente? - Necessito de um barco rápido.

E de um homem a quem não falte discrição.

A compensação seria considerável.

O seu homem falou em 10 mil.

Dólares.

- É verdade. - Não mato pessoas.

- Não lhe é pedido. - E não trafico narcóticos.

- Não lhe é pedido. - Então, o que é pedido, exactamente?

Primeiro, irá a uma cantina, em Alfama, hoje à noite.

E encontrará uma Senhora americana que lhe dará

um pequeno pacote que me trará

inviolado.

- Onde encontro essa Senhora, e quando? - Às 10 horas, no ‘Gaio Real’.

A Senhora estará a usar um alfinete com a forma duma flor de lis.

E a senha é «Sans-Soucis».

Qual a razão deste ‘romance barato’?

Esta medida foi criada para apresentá-lo, Capitão.

A Senhora pode sentir que está a pagar demasiado.

Percebo.

- Chamou, Senhor? - Antes do Capitão Evans sair...

entregue-lhe mil dólares em notas americanas.

Muito bem, Senhor.

Mil?

O resto será pago quando tiver cumprido o seu contrato.

- É satisfatório? - Não sei, não estou habituado

a aceitar contratos às cegas.

Será livre de desistir em qualquer altura, à sua vontade.

- Está bem, aceito a sua proposta. - Então estamos de acordo.

Mais alguma pergunta?

Sim...

quem é a miúda do chapéu?

O que lhe diz respeito, é a Senhora americana, Capitão.

Muito bem.

Senhora Merrill?

Sim.

Permita-me que me apresente. Sou o Inspector Fonseca da Polícia de Lisboa.

Sim?

É um privilégio dar-lhe as boas vindas a Lisboa...

e oferecer-lhe a minha assistência em tudo o que for possível.

É muito amável.

Porque será?

Portugal é muito hospitaleiro.

E desejamos certificar-nos de que

os nossos distintos hóspedes se sintam protegidos,

sem qualquer possibilidade de um incidente desagradável,

se é que me faço entender.

Muito claro.

- Obrigada. - Alguma coisa a declarar?

Só uma mala.

Imagino que nos encontraremos de vez em quando, enquanto estiver em Lisboa.

Vai ficar no Estoril Palácio?

Sim. Há mais alguma coisa que queira saber?

Não...

Tenho a certeza de que uma pessoa com a sua inteligência, não fará nada

para atrapalhar um funcionário trabalhador.

Pode contar com isso, Inspector.

- Sra. Merrill? - Sim.

Por aqui, por favor.

- Esta é a Sra. Merrill. - Como está, Sra. Merrill?

Pode dar-me o seu passaporte, por favor?

Com certeza.

Obrigado.

Envio-lhe o passaporte dentro de minutos.

Obrigada.

Entre.

Tomei a liberdade de trazer o seu passaporte, Sra. Merrill.

Obrigada.

Bem?

Isto é um documento demasiado valioso para confiar a estranhos.

Mesmo num hotel como este. Imagino se tem noção da importância

deste pequeno livro verde. A noção plena.

Tenho plena noção de que está a ser desagradável.

Agora, faz o favor de me devolver o meu passaporte e sair?

Sylvia Merrill, turista. Motivo da viagem, diversão.

Não é diversão, Sr. Norworth. Encarregou-se disso.

É ilegal fazer declarações falsas num passaporte.

Se o fizer, posso apreendê-lo.

Não pode apreendê-lo por meras suspeitas.

Correcto, Sra. Merril.

Mas temos mais do que meras suspeitas.

Será crime ou delito dizer ao Departamento de Estado que, se não podem

fazer nada, eu trate do assunto à minha maneira?

Explicámos-lhe a potencialidade da situação, e a Senhora concordou

deixar-nos tratar do assunto pelos canais apropriados, não foi?

- Foi, não foi? - Sim concordei.

Empenhou jóias no valor de 100 mil dólares em Nova Iorque, a 9 de Abril.

No dia 11 reservou uma passagem para Zurique, na TWA.

No dia 14 foi à ‘Booksmans e Filhos’, em ‘Comes Garden’ onde se desfez de

jóias no valor de 150 mil dólares.

Depois reservou uma passagem para Lisboa.

Muito obrigada pelo relatório financeiro.

Mas desde quando é que o Departamento de Estado se interessa

- pelas minhas jóias, o meu dinheiro... - Desde que começou

- a interferir no nosso sistema. - Mas, seja como for,

é o meu dinheiro e as minhas jóias, e tenho o direito de fazer

o que quiser com eles.

É verdade Sra. Merrill. Até descobrirmos que anda a gastá-lo de um modo

- que nos possa prejudicar. - Não estou minimamente preocupada

se prejudico o Departamento de Estado ou não e

tornou-se óbvio que o Departamento de Estado pensa o mesmo a meu respeito.

Eu tenho direitos como ser humano, se não como

cidadã americana. Agora agradeço que se vá embora.

- Tenho uma dor de cabeça. - Ajudaria a sua dor de cabeça se

lhe dissesse que o seu marido será libertado dentro de 30 dias?

Não acredito em si.

É oficial, Sra. Merrill. Dou-lhe a minha palavra.

Dou-lhe a minha palavra de que não acredito numa palavra do que diz.

Lamento.

Algumas pessoas têm a impressão que os funcionários do Dep. Estado

passam o tempo em almoços, a tomar chá, em cortesias...

Tentamos não mudar essa impressão, isto é, a não ser

que se torne necessário.

Continua sujeita às leis dos Estados Unidos.

Se as violar, tomaremos medidas para a corrigir. Entendido?

Repugnantemente.

Agora, faz o favor de sair?

Tenho mesmo uma dor de cabeça.

Por favor, não nos dê uma. Boa noite, Sra. Merrill.

Fala a Sra. Merrill, do quarto 311.

Não quero receber chamadas até às 9 horas de amanhã.

Quero descansar, obrigada.

Não, minha Senhora. O elevador dos hóspedes é ali.

Pode levar-me à cave, por favor?

Pela sua discrição.

Não vi nada.

Alfama.

- Obrigada. - Deseja beber alguma coisa?

Não, obrigada.

Sim. Um copo de água, por favor.

- Água? - Sim.

- Posso acompanhá-la? - Não, Senhor.

Creio que a palavra é ‘sans-soucis’.

- Queira sentar-se. - Obrigado.

Isso é uma flor de lis, não é?

- Sim. - São muito bonitas.

- Não vai beber isso?... - O que que se bebe por aqui?

Ao menos, prove um cálice de ‘Madeira’, ou coisa assim.

Muito bem.

- ‘Madeira’, por favor. - ‘Whisky and soda’, com gelo.

- ‘Madeira’, ‘whisky and soda’ e gelo. - Isso mesmo.

- Segundo sei é americana. - Sim.

Também eu.

Trabalha para o Sr. Mavros?

- Sim. - Qual é o nome próprio dele?

Aristides. Qual é o seu?

Merrill.

Senhora.

O meu é Evans, Senhor. Creio que tem um envelope para mim.

Não o trouxe comigo.

Então como é que o recebo?

Vem comigo ao meu quarto.

Agora não. Mais tarde.

Não quero voltar durante uma hora, mais ou menos.

Já jantou?

Saúde!

Há quanto tempo está ligado ao Sr. Mavros?

Há cerca de 6 horas e 10 minutos.

Qual é o problema? Não é tempo suficiente?

Não, não é isso. É só que... bem...

Espero que o Sr. Mavros saiba o que está a fazer.

Também eu.

Ele disse-lhe alguma coisa?

Só que devia encontrá-la aqui e receber um pacote.

Só isso?

Algo vago sobre usar o 'Orca', mais tarde.

O ‘Orca’?

É o meu barco.

Quando o vir, vai compreender.

- Vê-lo-ei. - Quando?

- Em breve, espero. - Jantar? Dinner?

Não, não. Traga-nos outra rodada enquanto decidimos.

Sim, Senhor.

Eles acabaram agora de jantar.

Fica com ele. É muito importante.

Gosto daquilo. O que é?

‘Lisboa Antiga’.

Velha Lisboa.

Uma espécie de ‘Lar, Doce Lar’ para brasileiros.

É lindo.

- Acho que podemos ir, agora. - Está bem.

- Usa sempre o elevador de serviço? - Quando é conveniente, alugo-o.

O ascensorista deve achar que me alugou.

- Só o uso em ocasiões especiais. - Esta ocasião é especial?

Muito.

Deixe-me ajudar.

Obrigada.

Que noite maravilhosa!

Certamente, não é uma noite para tomar decisões.

Não sei o que fazer. Eu...

nunca me senti tão só em toda a minha vida.

Posso confiar em si?

Não.

Não!

Não é o que esperava?

Trouxe-o cá acima para lhe dar um envelope.

Então, dê-mo e vou-me embora.

Não, não creio que o faça.

Aquele envelope contém uma grande quantidade de dinheiro.

Muito bem, direi ao Mavros para mandar outro moço de recados.

Um que seja de confiança.

Só um momento.

Vou buscar o dinheiro.

Não tem curiosidade para saber do que se trata tudo isto?

Não especialmente. Se me quer dizer, vá, diga-me.

Alguma vez ouviu falar de Lloyd Merrill?

Merrill, o industrial, o homem do petróleo, que os 'vermelhos' apanharam?

O meu marido.

Estou a ver.

Mas porquê o Mavros? Porque não Washington?

Fui ao Departamento de Estado mas só 2 anos depois...

Só sei que o meu marido ainda está vivo.

Finalmente ouvi falar deste Aristides Mavros e disseram-me que

ele podia conseguir a liberdade do meu marido por um preço.

E isto é parte do preço. E é uma parte muito grande.

Nunca conheci o Sr. Mavros.

Bem, eu conheci e não sei nada sobre ele.

- Qual foi a sua impressão? - Um bandido.

Eu sei isso. Mas é um bandido fiável?

Isso não sei.

- Queria falar com ele. - Deve ser fácil.

Ele acha que não é aconselhável.

Olhe, se eu lhe disser que quer levar-lhe o dinheiro pessoalmente,

ele, provavelmente, acharia aconselhável.

Não acha que ele desistiria disto tudo?

Não sei. Qual é a quantia envolvida?

- Duzentos e cinquenta mil dólares. - Ele não desistirá.

Acho que vou aceitar o seu conselho, Capitão.

Telefona-me para aqui a avisar-me?

Claro.

Porquê esse olhar?

Estava só a pensar. O seu marido é um homem com muita sorte.

- Obrigada. - Boa noite.

Fala a Sra. Merrill. Espero uma chamada.

Por favor, quando ligarem pode passar-ma imediatamente?

O Sr. Mavros ainda vai demorar, Senhor.

Sim, eu sei. Eu espero.

- Posso trazer-lhe algo para beber, Senhor? - Sim. ‘Whisky and soda’, com gelo.

Sim, Senhor.

É aquele americano?

Sim, Menina ‘Curiosa’ Parker.

- Ele não tem maneiras. - Provavelmente.

- Indelicado. - Sem dúvida.

- E insultou-me, duas vezes. - Deve ter sido difícil.

Vou contar ao patrão.

Faça-o. Ele gosta sempre de saber que lhe dou pontapés.

E eu levo isso.

Não!

- Sim. - Não.

Sim.

É o Senhor.

É a Menina, sem o chapéu.

Aqui tem o seu ‘whisky and soda’.

Obrigado.

- Onde está o seu copo? - Nunca bebo ‘whisky’. Só vinho.

Não espera que beba sozinho, não é?

Já que insiste...

Não bebe ‘whisky’, não é?

Raramente.

Esteve a comer alho?

Nas salsichas, há um pouco de alho.

No alho, há um pouco de salsicha.

Como se chama?

Robert John Adams.

- Trato-o por...? Robert John? - Bem, os meus amigos chamam-me Jack.

Tratá-lo-ei por Robert John.

Acho que não sou sua amiga.

- Como se chama? - Maria Madalena Massenet.

Como?

Maria Madalena Massenet.

Vou tratá-la por Maggie.

Porquê Maggie?

É um diminutivo para Maria Madalena Massenet.

Está bem.

Que faz por aqui, além de não beber ‘whisky’?

Sou a secretária do Sr. Mavros.

Tinha a ideia de que o Selwyn era o secretário.

Esse.

Ele é apenas o secretário que escreve as cartas.

O Sr. Mavros tem muitas secretárias.

A Alicia, a Dionne, a Regina e eu.

O Sr. Mavros adora coisas lindas.

Mas diga-me... que género de trabalho faz para o Mavros?

Jogo ténis, jogo ‘rummy’, toco piano...

Parece um emprego agradável.

E é.

- Que trabalho faz para o Sr. Mavros? - Não sei muito bem.

Talvez faça contrabando para ele.

Quem lhe disse que eu era contrabandista?

O Seraphim.

O Seraphim fala demais. O que é que ele faz por aqui?

Não sei o que faz.

Acha que sou linda?

Muito.

Então,

porque não me beija?

O quê?

Gosto disso.

É melhor ter calma. Fervo facilmente.

Boa noite, Capitão. Receio estar muito atrasado.

- Espero que não se tenha aborrecido. - Não. Não.

Estive a jogar no Casino.

Tenho um consórcio, lá. Gregos claro. Gosto de jogar. É um pecadilho meu.

Dum bolso para o outro. Nunca pensaria

que o vermelho sairia 9 vezes de seguida.

Mas eu pensei. Estava a jogar no preto, claro.

‘Mavros’ é grego para ‘preto’, como deve saber.

- Não falo Grego. - Não? Eu falo, claro.

- É cidadão grego? - Neste momento, não.

Creio que posso ser considerado um cidadão do mundo, Capitão.

Nasci na Ilha de Mytilene. Antes chamada Lesbos.

- Uma lenda encantadora. - Sim.

Olhe, onde é que se encaixa o meu barco, neste caso da Merrill?

- A Sra. Merrill fez-lhe confidências. - Não, apenas que o Senhor ia

tratar da fuga do marido.

Sei que ela é jovem e linda.

E é.

É estranho querer o velho cavalheiro de volta.

Quando aqueles adoráveis milhões podiam ser só dela.

Estranho, não é?

Presumo que não me vai dizer o que faz o meu barco nesta história?

Presume correctamente, Capitão.

Mas é porque os meus preparativos ainda estão incompletos.

A propósito, ela entregou-lhe o pacote?

Não.

A Senhora mudou de ideias. Quer falar consigo.

Sra. Merrill, por favor.

Sra. Merrill? Sim. Pode jantar comigo, amanhã à noite?

Obrigado. Mando o meu carro ir buscá-la às 8 horas.

Boa noite.

Não é que não confie em si, Capitão.

Confio.

Mas não tanto quanto gostaria.

Também espero por si para jantar, amanhã à noite, Capitão.

Está bem.

- O meu homem pode levá-lo? - Não. Apanho um táxi.

- Selwyn. - Senhor?

Telefone ao Ahmed Kamal, em Atenas, e diga-lhe para avançar.

Sim, Senhor.

- E... Selwyn. - Sim, Senhor?

Qual delas foi?

A Maria Madalena, Senhor.

- Queime-lhe dois vestidos novos. - Sim, Senhor.

E... ela deu-me outro pontapé, Senhor.

- Forte? - Muito forte, Senhor.

Então queime só um vestido.

Sim, Senhor.

Aí está!

Em cheio, Jack!

Vamos! Despachem-se! Antes que aqueles palhaços cheguem!

O que é isto? É uma chatice, homem.

Somos dois pescadores, temos aqui uma data de peixe para ir vender.

Como é que pode ser isto?

Viemos aqui buscar um peixe, homem. Estamos aqui, homem.

Tem aqui, homem. Uma coisa tremenda, aqui.

- Desculpe, mas temos ordens. - Sim, eu sei.

Eu dou-lho.

Está bem, atira-o.

Muito obrigado.

Vá lá, abre-o.

Gordo.

É melhor que seja. Há mais de 6 mil dólares de bom

perfume francês amarrado ao fundo daquele barco.

- O chefe nunca enganaria o Pess. - Espero que não.

Gostava de fazer um brinde a quem criou o seu vestido, Sra. Merrill.

É uma moldura perfeita para uma bela imagem.

Obrigada.

Creio que herdei o meu amor pela beleza, do meu pai.

Era um perito em jóias preciosas.

E só roubava as melhores. Preferia pérolas e jade antigo a tudo o resto.

Um homem de uma sensibilidade muito delicada.

Quer dizer que o seu pai era mesmo um ladrão?

Somos ladrões há seis gerações, Sra. Merrill.

Ladrões de muito sucesso.

- Ele está a brincar, com certeza. - Não me parece.

O Sr. Mavros nunca brinca.

Talvez seja a minha candura, Sra. Merrill, que a confunde?

Estou confusa. Diz que é um ladrão e pede-me

que lhe entregue uma quantidade de dinheiro muito grande.

Que garantias tenho?

Nenhumas, minha querida Senhora. Nenhumas, mesmo, excepto que me orgulho

de ser um ladrão muito fiável.

O que a Sra. Merrill quer dizer é,

como pode ter a certeza de que o Senhor cumpre o contrato?

Então, porque não me paga metade agora

e a outra metade quando lhe entregar o seu marido?

E assim só terá de confiar em mim pela metade.

Creio não ter escolha.

Há mais uma coisa, Sr. Mavros.

O homem do Departamento de Estado anda muito curioso a meu respeito.

Então, porque não afastar o objecto da sua curiosidade por alguns dias?

Como?

Alugue o barco do Capitão Evans para um pequeno cruzeiro.

Isso dará a ele muito para pensar.

- Pode-se fazer isso? - Muito simplesmente.

E tenho um homem que será um acompanhante muito bom.

Então, vamos para o escritório, discutir os detalhes.

Acabemos o café na outra sala.

Ela é muito bonita.

- E muito jovem. - Pois é.

Mas não tão jovem quanto possa pensar.

Olhe, ela só quer ter o marido de volta.

Há quanto tempo trabalha para o Mavros?

- Há quase um ano. - Alguma vez a deixa sair daqui?

Às vezes.

Podemos ir a qualquer lado, amanhã à noite, jantar e falar, talvez?

Mande um táxi ir buscar-me à esquina da Avenida Passata com a Quinta.

- Às 8 horas. - Combinado.

Isso, não posso dizer-lhe, minha querida Senhora.

Embora entenda que a curiosidade é uma prerrogativa feminina,

não posso revelar os meu métodos. Ora, suponhamos que o dinheiro é

uma chave dourada que abrirá qualquer fechadura.

Só está mesmo interessada em ter o seu marido de volta, são e salvo.

- É isso mesmo. - O que me levanta uma questão.

Sim?

Quanto vale o seu marido, Sra. Merril?

Pensei que tínhamos acordado o preço.

Entendeu-me mal. Refiro-me à totalidade dos seus bens.

Não vejo por que razão isso lhe diga respeito, Sr. Mavros.

Uma resposta directa a uma pergunta directa.

Segundo sei vale uns 25 milhões, pelo menos.

E de que modo isso lhe diz respeito?

Também tem uma idade avançada, enquanto a Senhora é muito jovem e bela.

Acho isso estranho.

Sem dúvida que eu o acho estranho, Sr. Mavros.

Gostava que fosse directo ao assunto. Se é que há algum assunto.

Há!

Considere a circunstância da morte.

Ora, começamos todos a morrer no momento do nascimento.

E vivemos até morrer.

A morte é um facto. Desagradável talvez,

mas, sob certas circunstâncias, não é desagradável.

- O que está a tentar dizer? - Que a minha querida Senhora,

daria uma viúva muito bela e muito rica.

Aconteceu alguma coisa ao meu marido?

Não, está razoavelmente de boa saúde.

Mas ocorreu-me que a viagem poderá vir a ser demasiado difícil para ele.

O que está a dizer?

Que seria uma viúva com apenas 24 milhões de dólares.

Eu teria o outro milhão.

Mas que...

Que criatura horrível.

Isto é incrível. Fica aí e planeia matar um ser humano,

o meu marido, tão calmo como se discutíssemos o tempo.

É um monstro.

Calma, calma, por favor.

- Abra a porta. - Céus.

Eu sou um filósofo desajeitado. Referi apenas uma situação hipotética.

Nem por um momento sugeri que eliminássemos o seu marido.

Mas disse...

Estava a tentar dizer que isto é uma situação

clássica, na qual uma mulher sem honra cometeria um homicídio.

Eu estava, na minha desajeitada maneira, a tentar fazer-lhe um elogio.

Em vez disso, choquei-a.

E magoei-a.

Por favor, perdoe-me. Por favor!

Está bem.

Amigos?

Sim.

- Leva-me de volta ao hotel, por favor? - Com certeza.

Boa noite, Menina Massenet.

- Boa noite. - Boa noite.

- Boa noite, Sra. Merrill. - Como está?

Não creio que nos conheçamos.

- Sou o Philip Norworth. - Como está?

- Está a gostar de Lisboa, Sra. Merrill? - Muito, Sr. Norworth.

- Não há complicações? - Nenhuma.

Gostava que houvesse uma maneira de eu fazer isto, sem usar o Mavros.

- Porquê? - Não confio nele.

Mas eu confio em si.

Olhe, uma coisa como esta requer mais do que um barco e um forte apoio.

Requer contactos, organização.

Mas não se preocupe. Se o Mavros tentar escapar,

farei com que ele volte atrás e cumpra o prometido.

Ao menos tenho uma pessoa em quem posso confiar.

Sabe, já me perguntou antes se podia confiar em mim. Lembra-se?

E agora posso confiar em si, não posso?

Desde que mantenha a distância.

Acho que ladra mas não morde.

Não arrisque.

Porquê?

Bem, chame-lhe instinto, ou magnetismo, ou apenas simples atracção animal.

É o tipo de mulher que...

- Esqueça. - Sou o tipo de mulher que, o quê?

Casada, para começar, e depois, apaixonada pelo marido.

- Eu estava só a provocá-lo, Capitão. - Sim, eu sei.

Boa noite, Sra. Merrill.

Boa noite, Capitão Evans. E muito obrigada por tudo.

Pois.

Para queimar?

- Sim. - Um momento.

- De quem? - Da Maria Madalena.

- Ela gosta deste vestido? - Podes ter a certeza disso.

Queima um de que ela não goste. Um velho.

Foram ordens do patrão.

Gostava se queimasses um velho.

Gostavas de saber porque é que este vestido vai ser queimado?

Porque está a ser castigada?

Não.

Vais queimar um velho.

Olá.

Nunca te vi tão linda.

Uma vez, quando era pequeno, tinha um rouxinol. Era cego.

Cantava como gotas de chuva em pequenos sinos de prata.

Um falcão matou-o.

Eu matei o falcão.

Por favor, Seraphim!

E depois tive um gatinho, que à noite dormia na minha almofada.

Um cão matou-o.

- Matei o cão. - Pára!

- Desculpa. Posso trazer-te um 'brandy'? - Não, obrigada, não quero nada.

Salvei o teu vestido, hoje de manhã, Maria. O Selwyn ia queimá-lo.

Obrigada.

Ele queria dizer-me a razão por que estavas a ser castigada.

Não lhe permiti isso.

Eu sei por que foi.

E vais encontrar-te com ele hoje à noite.

Não sou uma criança. Tenho esse direito.

Nunca te casarás com ele, Maria.

Tens a certeza?

Muita certeza.

Que maravilha.

Gosto de tudo. Peça o Senhor.

Muito bem. Que tipo de vinho?

Com borbulhas.

- ‘Champagne’? - Não, Rosé.

Um Mateus por favor, muito frio.

E acho que vamos jantar.

Como gostam dos vossos tornedós?

- Mal passado. - Ambos mal passados.

Muito obrigado.

Obrigado.

Agora?

- Agora, o quê? - Queria fazer-me perguntas.

Pergunte.

Olhe, não a trouxe aqui só para lhe fazer perguntas.

Vamos primeiro às perguntas.

Depois posso desfrutar o meu tornedó.

Muito bem. Quem é o Mavros?

Penso que nem sequer o Mavros sabe a resposta a essa.

Bem, o que é o Mavros?

Isso também não sei.

Só sei que usa toda a gente.

Todos. Mas para os seus próprios fins.

Não tem piedade.

Mas paga-me 4 mil escudos por mês.

Por isso...

Como é que se envolveu com ele?

Precisamos de viver.

Eu fui pobre.

Agora não sou pobre.

Já chega do Sr. Mavros.

Por outras palavras, não fala.

Por favor, acredite em mim, Jack. Trabalho há quase um ano.

Não sei nada sobre ele.

Ele não faz confidências.

Quer saber o que há pessoalmente entre ele e eu?

Não.

Eu quero contar-lhe.

Não, Maggie.

Não.

Não?

Está bem.

- Então falemos de si. - É um assunto muito chato.

Então?

Porque não gosta de si?

É assim tão mau?

- Talvez a familiaridade gere desprezo. - Talvez seja injusto para consigo.

- E para comigo. - Para consigo?

Não me faz feliz.

Desculpe. Como posso fazê-la feliz?

Jogue um jogo.

Qual?

Jogue a... como se não houvesse passado.

E nunca haverá um amanhã.

Está bem.

A menina é lauta.

Sou gorda?

Não, quer dizer, digamos que tem uma alma muito gorda.

Se eu lhe contar uma coisa,

não se vai rir?

- A sério? - Claro.

Esta noite sinto-me

como se tivesse 13 anos.

Treze anos.

Lembro-me do me vestido de comunhão.

Era o mais bonito em ‘Fleur-sur-Mer’, Jack.

Branco.

Com pequenos lírios bordados.

E agora,

outra vez, sinto que

tenho 13 anos.

Que está a fazer?

Não demora um segundo.

Quero acender um vela, a São Judas Tadeu.

São Judas?

O patrono das causas perdidas.

Que causa perdida procura?

Nada está perdido para São Judas.

- Polícia. - Sim, reconheço-o, Sr. Fonseca.

Qual é o seu interesse no americano, o Capitão Evans?

Nenhum interesse.

Mas seguiu-o até aqui.

Atuo apenas, digamos, como um acompanhante invisível.

- Questões do coração? - Sim, Senhor.

Mas se os tem sob observação,

não tenho com que me preocupar.

- Boa noite, Sr. Inspector. - Boa noite.

Cheire-me!

Da nossa última carga, ‘Gamão Rosa’.

Olha, se o Fonseca te cheira, ficas a cheirar como uma doninha.

Agora vai, diverte-te, mas tem cuidado.

Boa sorte, Jack.

Quem era aquele?

O meu dentista.

- O quê? - O meu dentista.

Está bem.

Jack,

- desejava que esta noite nunca acabasse. - Receio ter acabado, Maggie.

Vou-me lembrar desta noite por muito tempo, Jack.

Mas agora,

como Cinderela, tenho de voltar.

Voltar a quê, Maggie?

Àquele Mavros. Vai dizer ao Selwyn para queimar alguns dos meus vestidos.

- O quê? - É como nos disciplina. Compra os vestidos,

depois, se lhe desagradamos, ele queima-os.

Mas o que interessa isso agora?

Olha, faço um acordo contigo.

Por cada um que ele queimar, eu compro-te dois.

Que tal? Está bem assim?

Não.

Só há dois vestidos na vida que são importantes para uma mulher.

Ambos brancos.

Então?

O seu vestido da comunhão,

e o seu vestido de casamento.

Então é assim. Quando é que isso acontece?

Ainda está para chegar o dia. Os homens e eu...

Quando o fizeres, Maggie, diz-me e eu compro-te

o mais belo vestido de casamento em Lisboa. Aceitas a promessa?

Prometo-te que serás o primeiro a saber.

Muito bem. Vamos.

- Maria Madalena! Que nome... - Larga-me!

Nunca mais passarás uma noite com ele, Maria.

Como vais impedir-me?

Impeço a ele.

Tê-lo-ia feito ontem à noite,

mas um pequeno incidente impediu-me.

Não haverá mais pequenos incidentes.

Para que é a pistola?

- Eu disse, para que é a pistola? - Ele não gosta do Capitão Evans.

Muito interessante.

Estás ciente, claro, que o Evans trabalha para mim?

Ele saiu com ela durante toda a noite.

Ai sim?

No entanto, aqui, sou eu que tomo as decisões. Sempre.

- Lembra-te disso. - Sim, Senhor.

Podes ir.

O Capitão Evans não te incomodará por alguns dias.

Vai levar a Sra. Merrill num cruzeiro.

- Não será agradável? - Não.

Vai para o teu quarto.

Agora.

Estamos mais ou menos aqui, indo para Norte. Ali é Sintra.

Já esteve no Palácio da Pena, em Sintra?

- Não, não estive. - Uma linda vista.

Então ordeno-o a levar-me lá, meu bom Capitão.

Neste barco, é o Capitão quem dá ordens, não o imediato.

- Eu não sou o imediato. - Quer alistar-se?

- Comanda um navio alegre? - Não, apenas lobos do mar mal humorados.

Bem, sempre preferi os meus lobos do mar mal humorados. Eu alisto-me.

Muito bem, guarde esta carta. Ali mesmo.

Porque será que os marinheiros ‘guardam’ e as pessoas ‘arrumam’?

Está a sugerir que os marinheiros não são pessoas, Sr. imediato?

Isso é discutível, Senhor.

E isso é insubordinação.

- Qual é o castigo para isso? - Um mês na prisão, a pão e água.

Qual é o castigo por mentir ao Capitão?

Despromoção, descida a marinheiro vulgar.

Então está a olhar para um marinheiro vulgar.

Claro, talvez a promovesse a a imediato se dissesse a verdade.

- A verdade sobre o quê, por exemplo? - A verdade sobre a Sylvia Merrill.

As pessoas não contam a verdade a estranhos.

A verdade verdadeira, não.

Bem, eu gostava de saber a verdade verdadeira.

Como é que se deixa de ser um estranho?

Quem, o quê, quando, onde?

Não são esses os ingredientes básicos de todas as histórias?

Está bem! Quem? Robert John Evans. Nascido em Boston,

com uma boa vida durante a juventude.

Pais?

Dois. Uma mãe, um pai, ambos falecidos.

Agora ‘o quê’.

Bem, fui para a universidade, formei-me em engenharia, arranjei emprego, assentei.

Casamento?

Foi o que pensei que era até verificar a conta do telefone.

Algumas chamadas interurbanas que eu pensei terem sido cobradas por engano.

Bom,

não era engano. Paguei.

Costuma ser a mulher a pagar.

Claro, claro.

Também estou um bocado cansado desse ‘cliché’.

‘A mulher paga sempre’.

Deixe-me dizer-lhe uma coisa. É o homem quem paga sempre,

e continuamos a pagar.

O coração de um homem é um bocado frágil.

As marcas ficam.

E acha que o coração de uma mulher é o quê?

Algo muito mais durável e prático.

As emoções dela costumam ser governadas pela economia.

É cá uma bugiganga, o coração de uma mulher.

O Senhor é amargo.

Talvez fosse melhor passarmos à parte do ‘quando’, da sua história.

Bem, quando a guerra começou, fui para a Marinha, contratorpedeiros.

Quando acabou, decidi ficar na Europa.

Então fui a Inglaterra e comprei este convertível.

Para pescar.

Para pescar. E isso põe-nos a par sobre

’o quê, quando e onde’ do Robert John Evans.

Ela deve ter sido muito bonita.

Isso não vem ao caso. Agora, quem é a Sylvia?

Dê-me um cigarro.

Bem, quem é ela?

Nasci no Oeste da Irlanda. Uma boa infância, como você diz.

E durante a infância aprendi os valores da pobreza.

Vivíamos num velho e lúgubre casarão

com algumas associações históricas.

Sem dinheiro. Nenhum.

E então?

Turistas, viajantes... Um xelim por cabeça. Aborrecido?

Não, não.

O que eu quero que compreenda, Robert John, é o que me levou a fazê-lo.

Fazer o quê?

Casar com um homem mais velho do que o meu próprio pai.

Muito bem, porque o fez?

Às vezes passava um carro. Um dos grandes e brilhantes.

O meu pensamento seguia-o, como um cão faminto,

o caminho todo de volta a Dublin e aos grandes hotéis.

Nunca iria compreender a amargura desse tipo de sonho.

Agora, tenho 25 milhões de dólares.

Ou melhor, o meu marido tem.

A vida é mesmo estranha.

Já o fizeram antes.

Eu gostava dele.

E acredito que podia amá-lo. Tinha de o fazer, pelo meu amor próprio, compreende.

Sim, eu compreendo.

Não compreende, não.

Estava a sair-me bem até me ter agarrado e beijado.

Cortou-me o lábio.

Sangrou toda a noite.

Não parava de sangrar

porque eu não deixava parar.

Vamos com calma.

Tenha calma.

Que lindo!

Atribui-se ao Lord Byron ter dito que, quem quer que

que fosse para o mundo sem ter visto Sintra,

passava por ele com um olho fechado.

Talvez fosse melhor assim.

- Podemos ir ali? - Claro.

Quero que feche os seus olhos, e dê meia volta. Mas não os abra até eu lhe dizer.

Feche.

Agora!

É maravilhoso!

- Que castelo é aquele? - É o Palácio da Pena.

- Aquelas cúpulas são bastante estranhas. - Foi provavelmente contruído pelos Mouros.

Os Portugueses herdaram muito deles.

As uvas têm bom aspecto.

Não, obrigada. Sou alérgica.

O que é que ela disse?

Disse que esperava que tivéssemos muitos filhos fortes.

Porque está a olhar assim para mim?

Estava? Desculpe.

É bom?

- Ácido. - As uvas são doces.

Olhe, penso que é melhor voltarmos para o barco.

Devemos ir buscar o seu marido hoje à noite.

Sim, eu sei.

- A que horas entramos? - Às oito.

Podia ter jantado comigo. Não consegui comer.

Nem eu.

- Por favor, não vá. - Olhe, que adianta?

Eu sei, eu sei. Falta tão pouco tempo e há tanto para dizer.

Por favor, sente-se. Quero fazer-lhe um pergunta.

O que faria, se tivesse 25 milhões de Dólares?

Quer fazer o favor de se sentar?

Então?

- O quê? - Comprava um barco maior e mais rápido.

Quer dizer que continuava o contrabando?

- Claro! - Nunca tenciona desistir?

Bem, não sei...

talvez, se aparecesse a mulher certa.

Está a ver, é pelo prazer, não é pelo dinheiro.

Creio que tenho uma veia do Mavros em mim.

Como todos os homens.

Pois, e todas as mulheres.

De que lhes serve?

Uma mulher não andar por esse mundo fora, fazendo o que lhe apetece,

e divertir-se. Não. Somos as guardiãs da moral e dos costumes.

É por isso que nos põem num estúpido pedestal, para que não possamos

dar um passo sem cair.

Nós pomo-las em pedestais, para que possamos olhar para cima, não para baixo.

Sim, quando, na realidade, tudo o que queremos é caminhar consigo,

- estar consigo, ir consigo. - Está a falar de mim?

Sim, estou.

Quer dizer que se divorcia do seu marido,

renuncia a uma fortuna, só para casar comigo?

Não compreende.

Não compreende, não.

Olhe, há algo que não compreendo. Quer o seu marido de volta, não quer?

Eu quero-o de volta, mais do que qualquer outra coisa no mundo.

Mas quero-o de volta, morto.

Mas ele é velho, ele é velho. Porque não morre agora e me deixa viver?

- Porquê? Porquê? Porquê? - Cale-se!

Não tem noção do que diz.

Sra. Merrill, Senhor.

Madame, teve uma viagem agradável?

- Muito agradável, obrigada. - Faça favor de se sentar.

Bem, é esta noite. O Capitão Evans parte daqui a duas horas

e estará de volta à meia noite com o seu marido.

Sim, eu sei.

Fiz de maneira a que ele seja trazido para aqui, onde é confortável e privado.

Sim.

Presumo que tem o resto do pagamento?

Tenho.

- Consigo? - Sim.

Agora não, querida Senhora. Como dizem nos Estados Unidos, ‘pagamento na entrega’.

- Quer um café? - Não, obrigada.

- ‘Brandy’? - Não, obrigada.

Alguma coisa a preocupa.

Não, não. Nem por isso.

Não está a ser justa comigo, querida Senhora.

As lágrimas deixam um brilho nos olhos muito encantador.

Esteve a chorar.

Estive.

Esteve.

Talvez haja alguma coisa que eu possa fazer para a tornar feliz.

- Imagino. - Imagina o quê Sra. Merrill?

Uma vez disse que todos os homens têm de morrer, a certa altura.

Pois disse.

Mas, acredite, a ideia não foi criada por mim.

Disse que a morte, por vezes, pode ser uma sorte.

Estou correcto ao presumir que quer o seu marido de volta, mas não vivo?

Sim, Sr. Mavros.

Minha querida Senhora.

Renovou a minha fé na minha opinião sobre a natureza humana.

Mas, porquê morto? Porque, simplesmente, não o deixou onde estava?

Porque não posso tocar em nenhum do seu dinheiro sem uma prova da sua morte.

Uma prova positiva. Ou esperar 7 anos.

E não estou disposta a esperar 7 anos.

Agora compreendo porque o seu Departamento de Estado seria inadequado.

Precisamente.

Um homicídio, pode ser uma opção dispendiosa.

Quanto?

Face à grande quantia envolvida, eu diria

que... 4% seria justo. Digamos 1 milhão de dólares.

Eu pago.

Assim que os bens sejam liquidados.

Isso será satisfatório.

Não, não, não. A tua atitude em relação ao Capitão Evans

podia pôr em perigo todo este projecto.

Não vou tolerar insubordinação.

- Compreendes? - Não tenho intenção de me insubordinar,

Mas tenho uma razão pessoal para eliminar o Capitão Evans.

Primeiro o mais importante.

O navio estará ao largo do Cabo da Roca à meia noite, 48 quilómetros a Oeste.

Eles terão o Merrill num bote salva-vidas. Entrega-lhes este envelope com dinheiro.

Eles porão o Merril a bordo do ‘Orca’. Está claro?

Sim, Senhor.

Há mais uma coisa, no entanto.

Quando o Merrill chegar a terra, tem de estar morto.

Sem marcas. Não dever ser difícil, é bastante velho.

O Evans sabe deste plano?

Consegues trazer o barco de volta sozinho, não consegues?

Com certeza.

Então, depois de teres o Merrill a bordo, por qualquer feliz circunstância,

- o Capitão Evans pode cair borda fora. - Então cairá. Pobre homem.

É melhor não desceres para o bote salva-vidas. São horas de partir.

Sim, Senhor.

Tenho uma hora.

O Capitão Evans está aqui?

Jack!

- Maggie, o que fazes aqui? - Vais sair esta noite com o Seraphim?

Sim, eu sei.

- O Seraphim vai matar-te. - O que te faz pensar isso?

Por favor, falo a sério, Jack.

O Seraphim fá-lo-á.

- Eu sei. - Mas porquê?

- Porque pensa que te amo. - Então porque não lhe dizes que...

Espera... Disseste-lhe que me amavas?

Isso é mentira.

É uma pergunta. Disseste-lhe?

Ele sabia. Não é estúpido, aquele Seraphim.

- Jack, por favor, vai-te embora. - Querida, não te preocupes com o Seraphim.

Eu fico bem.

Mas preocupo.

- Eu amo-te Jack. - Querida, só pensas que amas.

Como posso proteger-te do Seraphim quando só te sabes rir?

- Diz-lhe só que não me amas. - Ele não acredita em mim.

Ninguém acredita em mim.

Tu és parvo, tu!

Para que é isso?

Como te atreves beijar-me na cara, como a uma criança?

Sou uma mulher. Crescida.

Sim, bem podes dizê-lo.

Ouve, vou dizer aos meus homens para te acompanharem à cidade.

- Porque não me acompanhas tu? - Tenho de esperar.

- Mas o Seraphim está a chegar... - Não te preocupes com o Seraphim, está bem?

Toni!

- Sim, Capitão.

Leva a Menina Massenet à cidade, sim? E olha, não te preocupes mais.

Imbecil!

Aqui. 48 quilómetros a Oeste do Cabo da Roca.

Está bem! Zarpamos assim que o meu homem voltar.

O Sr. Mavros foi muito preciso nesse ponto. Nenhuma tripulação.

Quem vai ajudar-me a manobrar este barco?

Eu.

Sabe alguma coisa de barcos?

O suficiente.

Está bem, suba e solte as amarras para zarparmos.

Acabei de receber a sua mensagem, Inspector. Que se passa?

Como dizem na América, ‘o jogo acabou’ para o Capitão Evans.

Não!

Mas sim, tenho aqui um testemunho dum tal Hassan ben Ali,

que afirma ter vendido quatro caixas de perfume francês ao bom Capitão

e mais declara, que o Evans o assaltou e roubou.

Infelizmente, o... o assalto e o roubo aconteceram no Norte de África.

- Mas isso não é prova sufic... - Mas há... há mais.

Tenho aqui, na prisão,

o homem a quem o Evans vendeu o perfume.

Óptimo, óptimo, mas ele identificou o homem?

Para escapar a um ano extra na prisão, pode ter a certeza que o fará.

Mas tenho de falar com ele já.

Senhor Inspector, tem de me ajudar.

Ele vai matar o Capitão Evans.

- Quem é que vai matar o Capitão Evans? - O Seraphim. Ele foi com ele no barco.

- Onde? - Não sei.

Mas o Mavros sabe.

É quanto basta.

Estou desolado, cavalheiros, por não lhes poder dar informações específicas.

Onde e quando o Capitão Evans voltará, não sei.

- Mas sabe onde ele foi. - Não!

Apenas que regressa com o Sr. Lloyd Merrill, hoje à noite.

Um feito que o vosso Departamento de Estado foi incapaz de conseguir.

Um feito que pode criar complicações internacionais.

Não, meu amigo.

Isto é um acto de misericórdia.

O Sr. Merrill está velho e débil.

Iam deixá-lo morrer na prisão. Enquanto que eu, não.

Se isto é um crime, submeto-me à prisão.

Não cometeu nenhum crime, Senhor Mavros, de que estejamos cientes.

No entanto, amanhã de manhã viremos buscar o seu passaporte.

Não é mais bem-vindo em Portugal.

Que pena. É um país encantador.

- Boa noite. - Boa noite, Inspector.

- Sr. Norwooth. - Boa noite.

Maria.

Adieu.

Ali estão eles a estibordo, no bote salva-vidas.

Estou a vê-los.

Tome.

Dinheiro! Dinheiro!

Sim.

Quer um pouco de 'brandy', Sr. Merrill?

Sim, obrigado.

- Isto fá-lo-á sentir-se melhor. - Obrigado.

- Como está a minha mulher? - Muito bem, Senhor.

Continua tão bela como sempre?

Ela é muito bela, Senhor.

Seraphim!

É melhor recolher aquelas escadas, antes que caiam.

Levo-o sempre a 1800?

Em cruzeiro normal, sim.

E o piloto automático, funciona?

Como o faz funcionar?

Não o faço à noite. Demasiados barcos de pesca.

Se o quiser a funcionar é só girar aquele interruptor.

- Este? - Esse mesmo.

Essa é a nossa rota para Belém?

Bem, é a corrigida. Cinco graus à deriva.

Percebo.

Acho que é melhor ir ver como está o nosso passageiro.

Estava a queixar-se duma grande dor no coração quando o deixei.

Então vá lá abaixo!

Está à procura de quê, Sr. Merrill?

Está à procura duma arma, Sr. Merrill?

Afaste-se de mim.

Afaste-se de mim.

Não tomou o seu ‘brandy’, Sr. Merrill.

Não. Vi-o deitar qualquer coisa nele. Pensa que sou estúpido?

Sim, Sr. Merrill.

Devem de ser quase duas horas.

Sra. Merrill,

pessoas... pessoas inteligentes, vão observar as suas reacções.

Tem de ter mais controlo.

Querida Senhora, há em toda a jornada humana, um ponto sem retorno.

Este é o seu.

Sra. Merrill...

Lamento, mas tenho uma decepção para si.

- Meu querido. - Minha querida.

Oh, minha querida!

Bem, Sra. Merrill, conseguiu o que queria.

Sr. Mavros, deve-me algum dinheiro.

De facto, devo.

De facto, devo.

Obrigado.

A propósito,

o meu homem, o Seraphim? Viu-o?

Sim, caiu fora de borda.

- Descuidado. - Muito!

Bem, boa sorte, Sr. Merrill.

Vou ter um forte interesse pessoal pelo seu futuro.

Agora que fiz uma pequena parte para tornar possível que tenha um.

E estou certo de que a sua mulher providenciará

para que nada ponha em perigo esse futuro.

Bem, obrigado, Capitão Evans.

- Muito obrigado. - Adeus, Sra. Merrill.

Adeus, Capitão Evans.

Só um momento, Capitão.

Entrem!

Vê o homem que lhe vendeu o perfume, nesta sala?

Sim.

Aponte-o!

Parabéns, Capitão. Tem colegas muito leais.

Vou ter de lhe pedir o seu passaporte, Senhor Mavros.

Antecipei o seu pedido.

Para onde vais?

Creio que os meus dias de aventura acabaram.

Daqui em diante, viajarei pelo bom caminho.

Mas sem ti, receio que as coisas sejam algo monótonas.

Virás comigo?

Para onde fores.

Vamos.

Tradução: PMLegendas

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