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Original subtitles

NÃO É UM FILME CASEIRO

Isso já deslocou...

Hoje não é dia de vir a fisioterapeuta?

Não.

Quinta-feira, amanhã.

Isso é bom.

Batatas não são ruins, assim.

- Ficam melhores com as cascas. - Eu nunca as preparei com cascas.

Todas as vitaminas estão na casca.

Você pode apenas experimentar.

É mesmo muito fina.

- Está muito alto. - O que deseja, aumentar, diminuir?

- Ou desligar? - Algo assim.

Algo assim?

- Então, eu sei cozinhar? - Sim, você sabe!

Você pensa que eu não sou boa para nada.

Nada disso! Você sabe um monte de coisas, e outras não sabe.

Inclusive como cozinhar.

- Ligou para cuidar de seus ouvidos? - Sim.

- Quando ele vem? - Amanhã. Deixei-lhe uma mensagem,

supõe-se que ele retorne.

Ele não ligou de volta ainda.

Então, se não retornar esta tarde, ligarei para ele novamente.

Está bom, não é?

Mamãe.

Está delicioso.

Está. Veja, estou comendo que nem um cavalo.

Eu comi toda a carne.

Você precisa comer carne, é proteína.

Dá-lhe músculos.

Eu não como muito, mas como todos os dias.

- Mas dificilmente você toca em algo. - Muito pouco, talvez.

Talvez!

Eu queria experimentar primeiro.

É mesmo bom.

Coma! Depois, isto seca.

Você tem algum pano para limpeza, aqui?

Não, não tenho.

Existem todos os tipos de pano contra poeira,

mas eu não imagino onde ela os guarda.

- Mamãe. - Ela está filmando você!

Vá um pouco para trás, mamãe, só consigo ver seu cabelo!

Espere, Chantal.

- Mais para trás! - Espere.

Acabamos de chegar em casa.

Vamos lá, mamãe. Como você está?

Estou ligando para você, escrevendo-lhe uma pequena mensagem.

- O quê? - Nós saímos para dar uma volta.

- Caminhamos. Estou cansada agora. - Está quente! Está quente!

Está muito abafado.

Eu gostaria de ir dar um mergulho no lago.

Eu gostaria de ir dar um mergulho no lago!

Você gostaria de ir nadar no lago?

Sim. Fizemos nosso caminho até o aeroporto,

e paramos no lago, na metade do caminho.

Maravilhoso.

- Tem certeza de que fez isso? - Claro que fizemos!

Diga-me, por que você está me filmando assim?

Porque eu quero mostrar que não existe mais distância no mundo.

Você está em Bruxelas e eu em Oklahoma. Veja, não existe mais distância.

- Isso é maravilhoso. - Você compreende?

Você tem sempre tantas ideias! Não é, minha querida?

- Meu amor. - Sim, sim.

Quando eu vejo você assim, tenho vontade de apertá-la em meus braços.

Mas você sabe, chegarei na terceira semana de Setembro.

- A primeira? - A terceira, mamãe.

A terceira, muito bem!

Muito, muito bom. Maravilhoso!

- Um beijo, mamãe. - Outro para você, querida.

- Nos vemos em breve. - Beijos!

- Tchau, querida. - Tchau, mamãe.

Desligue.

Tchau, mamãe.

Tchau, Clara.

Tchau, Chantal. Obrigada por ligar. Vou desligar, agora!

Eles eram um casal que, apesar de tudo, trabalhava.

Mas cada um do seu jeito.

Sim, ele ficava na sinagoga e a mãe ficava em casa com suas irmãs.

- E ela saía para o cinema. - E ela saía.

- E ela saía para dançar. - Não!

Disso você não sabe. Ela chegou a dizer que tinha um amante.

- Ela nunca saiu para dançar. - Mas tinha um homem que a amava.

- Quem disse isso? - Ethy.

Ethy disse que sempre havia um homem que vinha ver a sua mãe.

Então, não estou dizendo que ela tinha um amante, mas que um homem a amava.

Ouça, houve um homem que nos ajudou com os documentos para virmos à Bélgica.

- Ele era advogado de alguma coisa. - E era loucamente apaixonado por ela.

Ele tinha uma imensa amizade por ela.

Uma imensa amizade que parecia amor.

Ela não fazia nada, mas na cabeça dela, fazia tudo.

Mas ele era... Bem, ele arrumou nossos documentos, e quando chegamos aqui,

tudo estava em perfeita ordem.

Por todo o bem que isso fez!

- Mas foi inútil. - Dois anos!

Sim, teria sido melhor vir mais cedo, sem os documentos.

Sua mãe foi uma feminista à frente de sua época.

Ela foi... Eles viviam em harmonia, gostavam-se um ao outro.

Porque meu pai era tão bonito. Tão bonito!

Ele nos deixava abraçá-lo, suas duas filhas,

Sonia e eu.

Batíamos em seus joelhos, torcíamos seu bigode,

nós o incomodávamos, puxando sua barba...

e ele se deixava tocar assim.

Ele nunca nos contrariava. Nunca dizia: 'já chega'.

Mas quando não estudávamos, aí ele dizia: Chiffrah, venha cá!

Porque elas não querem estudar!

Então ela nos estapeava. Ele simplesmente não podia.

- Por que vocês tinham que estudar? - Ele chamava nossa mãe para nos bater.

E o que vocês tinham que estudar? Orações?

Tínhamos que estudar todos os dias.

- A rezar. - Rezar, sim.

Mas não apenas rezar. Ele explicava algo da Bíblia?

Um pouco, mas não muito. Eu lhe perguntava o que era e significava.

Mas não era em hebraico. Era algo antigo.

- Como você chama? - Caldeu.

Isso era...

o hebraico de Ashkenazi.

Sim, as orações.

O hebraico das orações, não o hebraico moderno.

- E você ainda se lembra das orações? - De tempos em tempos, sim.

Quando vamos à sinagoga, ainda posso acompanhar um pouco.

Às vezes, fico confusa com o 'pinteles'.

Qual oração você conhece melhor? A oração do Shabbat?

Sim, ouça.

Esta é uma para se comer o pão.

- E outra para se beber. - Para o vinho.

E para as mãos, quando estávamos lavando nossas mãos?

Não posso me lembrar.

- Porque sempre tínhamos de lavar as mãos. - Agora que você está falando nisso...

Até onde me lembro...

Eu quebrei meu osso daqui, e também bati a minha cabeça,

- ... por isso tenho lapsos de memória. - Tudo bem, isso volta.

Eu não falava mais nenhuma palavra em hebraico,

então Ethy chegou, e eu falo com ela como se viesse naturalmente.

E eu só estudei o hebraico por três anos.

Porque papai me tirou da escola judaica.

- Foi uma má ideia. - Muito má.

Você sabe que o diretor, quando ele ainda estava vivo,

nós corremos até ele um dia, e ele disse:

"vocês fizeram uma coisa, tiraram Chantal de mim."

Ele se arrependeu disso.

Papai pensou que... não estou certa do motivo.

Foi porque ele ficou doente com todas aquelas pessoas ortodoxas.

Ele já estava...

Quando vovô morreu, ele quis se libertar.

Então a primeira coisa foi comigo. Ele me tirou da escola.

Ele dizia: "se você é a primeira de sua classe, então a escola é inútil."

- Você se lembra? - Sim.

E, todos os dias, nós brigávamos no pátio da escola.

Nós subíamos nos ombros dos garotos e batíamos uns nos outros.

- Lembra-se de como eu voltava pra casa? - Em tal estado...

Você voltava com os cadarços desamarrados,

com as meias todas estragadas,

suja, com os dedos manchados.

Ouça...

nós tínhamos que pegar você desse jeito, dar-lhe um banho, trocar as suas roupas.

Eu ainda tenho meus cadarços desamarrados.

Mas você era fofa, tão fofa, bonita.

Que garotinha linda, eu tinha orgulho.

Eu também, eu me orgulhava de você.

Você era a mãe mais bonita de todas. A mulher mais bonita.

Eu ficava muito orgulhosa quando você vinha me buscar

no jardim de infância.

Eu segurava sua mão, e me orgulhava de andar ao seu lado.

E para todo mundo eu dizia: "esta é a minha mãe."

Era o mesmo em Knokke. Lembra-se de Knokke?

Todos viviam me dizendo, que belos olhos, como é bonita...

E ainda em seu carrinho de bebê,

todos se debruçavam para ver os seus olhos.

Eles não mudaram tanto.

Eles não mudaram. Os meus mudaram.

- Eles se tornaram mais claros. - Mais claros.

- Isso não é estranho? - Sim, é a pigmentação.

É como o cabelo ficando branco.

- É verdade, os olhos também mudam. - Você perde a sua pigmentação.

Então eu percebi que um dia, você sabe, naquele corredor,

havia um espelho com luz neon ao redor,

e eu lavava as minhas mãos,

e então eu olhei no espelho, e eu vi meus olhos.

Eu disse: onde estão meus olhos castanhos?

Para onde eles foram? Eles ficaram verdes.

- Onde estão seus lindos cabelos negros? - E meus cabelos negros...

É a vida, comigo também, dificilmente encontro algum cabelo escuro que sobrou.

Somente alguns.

Era tão bom tê-la aqui.

Eu ainda não parti.

- Como isso acabou? - Bem, eu decidi deixar a escola.

Isto sempre me fazia bem, não ter de ir à escola. Desde que era criança.

Mas agora você está tendo que ir.

Eu vou mais tarde, em Novembro.

Eu posso pegar um?

- Agora não. - Não.

Vá descansar um pouco, tudo estará arrumado quando você levantar.

A casa estará limpa.

Lá vamos nós.

Está esfriando, você tinha tantas coisas para fazer.

- Não. - Está bom?

Ainda está quente.

É verdade que não são muito bonitos. Os guardanapos não são tão bonitos.

Nós estamos sem mostarda, então...

- O quê? - Nós estamos sem mostarda.

Estamos sem?

De qualquer forma, não vejo nenhuma aqui.

Há maionese, mas eu não quero. Também há picles.

Um pouco de picles.

Com isso, está bom.

- Isso é tudo o que você vai comer? - Não se meta.

Não quero lhe tomar conta. Você me dava tanta porcaria quando pequena.

Ouça, você não comeu nada.

Você comeu uma banana durante todo o dia.

Foi tudo que precisei.

Eu comi o que precisei.

Você poderia ter comido um pouco mais.

Isso é mesmo lamentável.

Assim que me via preparar sua sopa, você chorava.

Aquilo não descia pela minha garganta.

Ainda me lembro de irmos à Nanny, a mãe de papai,

e havia alguma sopa de galinha, e lá colocavam almôndegas nisso,

e aquilo ficava preso em minha garganta.

Pela ansiedade. Apenas em vê-la, ela me assustava.

- Ela assustava você? - Sim, com aquele cabelo dela.

Ela já estava doente, mas eu era muito pequena para entender.

É claro.

Naquela época, foi a menopausa que a adoeceu.

- Não havia remédios então. - Agora existe tudo.

Mas não era apenas a menopausa, mamãe, havia a diabete,

eram efeitos da guerra. Ela foi tão forte durante a guerra.

Papai saía para trabalhar todos os dias, ela ficava apavorada.

- Ao acabar a guerra, ela desabou. - Sim.

Foi isso mesmo.

E quando você a encontrou?

Ela ainda estava bem.

Eu tinha medo dela. Seu cabelo...

- Seu cabelo era bagunçado. - Era mesmo.

Lembro-me que Sabine cuidava dela, dava-lhe banho, penteava o cabelo.

Sabine ficava triste quando eu dizia que ela parecia louca.

Mas uma criança enxerga como uma criança.

Você sabe como uma criança enxerga. Não é a mesma coisa.

Eu não sabia que era Sabine quem a arrumava.

Vovô poderia ficar uma fera, mas isso não me preocupava.

Ele não me preocupava em nada. Era eu quem o preocupava.

- Seu avô? - Sim.

Ele não me preocupava tanto.

Saúde!

Não.

Ele olhava tudo que você fazia para ver se estava de acordo com o 'kosher'.

Isso era normal. Eu convivia com isso, como antes...

Não era um drama para mim.

Mas papai não podia suportar isso.

Até que, de um dia para o outro, nós paramos de celebrar o Shabbat.

Foi de um dia para o outro, mamãe.

Quando ele foi embora.

- Parece que rejeitamos tudo. - Nós rejeitamos.

Mas não em meu coração.

Papai não era nenhum pouco como um socialista do movimento Dror!

Sim!

Ele estava farto de todas aquelas velhas histórias.

Mas ele respeitava muito seu pai, e fazíamos tudo que tínhamos de fazer.

Por causa da religião judaica.

dizemos que não se deve amar os pais, mas respeitá-los.

Que é uma brilhante ideia.

Foi Ethy quem me contou isso.

Ela não tinha gestos de amor.

Sim, veja só.

Um dia, visitei Tante Gusta no hospital, ela fizera uma operação no quadril.

Segurei-a em meus braços, dei-lhe um beijo.

Ela disse: "sério, eu nunca tive isso de minha mãe."

À sua maneira, ela a amava de qualquer jeito, você sabe.

Isso provavelmente porque seu pai era um judeu alemão.

Provavelmente.

E comunista.

Eu não sei. Não fazia ideia.

Ele escreveu por um documento comunista.

- Eu não sei nada sobre isso. - Ethy me contou a respeito.

Eu sei que eles tinham uma loja de móveis em Magdeburg.

Mas, felizmente... De qualquer forma, aquilo salvou Ethy,

e Gusta também.

Como eles fizeram para chegar aqui, da Alemanha?

Vovô foi para a fronteira com um contrabandista.

Ele a trouxe depois.

Pelo menos, ele entendeu o que estava acontecendo.

Porque era 1939 naquele momento.

Ele já havia entendido.

Houve muita gente que demorou demais para entender.

Nós pensamos que estávamos seguros aqui, na Bélgica.

- Nós fomos ingênuos, não fomos? - E todo mundo estava vindo atrás.

- Os alemães chegaram no começo... - Como uma faca atrás da manteiga.

Não apenas como manteiga, mas eles eram gentis.

Eram simpáticos em todos os lugares, iam às lojas, compravam coisas,

pagavam com seu dinheiro esquisito.

E nós pensamos, tudo bem, estávamos em guerra,

como todos os outros, tinha que se encontrar um jeito de achar comida,

por isso e por aquilo, mas então eles começaram muito lentamente.

- Pouco a pouco, como... - Como pervertidos.

Foi terrível, eles nos pegaram.

Se soubéssemos desde o início, todos teriam partido bem antes.

- Para América, Argentina, qualquer lugar. - Sim, as pessoas teriam ido embora.

E aqui, tudo foi tão traiçoeiro.

Um dia, fomos avisados de que devíamos colocar "Judeu" em nossas identidades.

Mas veja, papai não quis fazer isso.

Papai não quis vestir a estrela amarela.

Ele havia entendido.

Ele já estivera na Bélgica, então compreendia mais as coisas.

Quando chegou na Bélgica pela primeira vez, ele já tinha visto

contratos de aluguel que diziam: "Sem cachorros ou judeus."

Então ele já não acreditava nos belgas.

Agora eles têm pedido perdão.

Somente agora.

Porque o governo ajudou os nazistas.

Sim, mas o rei era um nazista.

O rei era um nazista, mamãe...

Sim, Leopoldo.

Ele ficou ao lado dos alemães.

Por isso Balduíno se tornou rei, mais tarde.

Eu não tenho certeza disso.

- Mas eu acho que... - Eles eram de Saxe-Coburgo-Gota.

Ele não era um nazista.

Mas, pró-Alemanha, ou chame como quiser.

Por isso ele foi obrigado a renunciar.

Então, o reizinho, que tinha oito anos, foi mandado para a Suíça,

e mais tarde ele se tornou rei.

Enquanto isso, houve um período regencial.

E o regente era seu irmão.

- Mamãe. - Sim, alô!

Como você está?

- Aqui é mamãe. - Mas eu disse: mamãe.

- Mamãe? - Como você está, querida?

- É você quem está me ligando agora. - Sim, mamãe.

Porque, quando chegar a hora eu posso apertar o botão e ir embora.

Aí está você, novamente.

- Como você está? - E você?

- Não consigo ver você, por quê? - Deixe-me ver, só um segundo.

Sua câmera, toda vez.

É porque desejo mostrar como o mundo é pequeno.

O que você está fazendo...

Você ainda está trabalhando em seu documentário?

Não, estou em Nova York agora.

Por que você está me filmando?

Eu filmo todo mundo, mamãe.

Claro, e você especialmente, mais do que os outros.

Que bom.

Clara tira fotos minhas o tempo todo com seu celular.

Ela me fotografa por todos os lados.

Até quando estou dormindo, ela tira foto em minha cama, quando estou dormindo.

Então, você falou com Sylviane?

Sylviane me ligou. O casamento é esta noite.

Hoje vou ao 'Bris', a cerimônia de circuncisão do bebê da irmã de Béto.

- O quê? O bebê nasceu? - Sim, eu vou ao Bris.

- É um garotinho? - Sim.

- Então, já deve ter uns oito dias. - Acho que sim.

- Então, você verá Nathalie? - Sim.

Béto, e todo mundo, porque eles estarão lá.

Mande-lhes um beijo meu.

Deseje-lhes boa sorte por mim.

"Mazel Tov"

- Você dirá isto por mim? - Mas é claro.

Você sabe, eu ainda penso o tempo todo em Ida e Isy.

Fiquei tão feliz em saber que você iria vê-los, faça mesmo um esforço.

Bem, acho que eles também irão gostar.

Você fez muito bem.

Porque nós somos tudo o que restou agora.

- Eles dois, eu, e Sabine. - Sim.

Não podemos esquecer deles.

Eu fui lá imediatamente, assim que ouvi sobre ele estar doente.

Você é a única que os visita mais frequentemente.

Sim, eu fui vê-los no último mês de Setembro.

Sylviane disse que também irá, se ela puder.

Mas isso coincidiu bem com o casamento e o bebê, e tudo o mais.

- Está muito quente por lá, 41°C. - Não se mexa demais.

Onde eles estão, as pessoas usam chapéus. Você já os viu?

Sim, eu vi. Também comprei um chapéu. Gostaria de vê-lo?

Eu também comprei um chapéu.

- Sim? - Gostaria de vê-lo?

- Não. - Você não quer ver o meu chapéu?

- Mas eu não consigo ver. - Espere um segundo, eu já volto.

Ouça, mamãe. Eu preciso cuidar de minhas contas agora.

E depois tenho que receber um estudante.

Eu preciso cuidar de minhas contas.

Minhas contas!

Mas ainda posso ver o meu rosto aqui no canto.

Eu disse que preciso cuidar de minhas contas.

Então eu não posso mais ficar com você.

É melhor eu cuidar logo disso, às 13h tenho que receber um estudante.

- Tudo bem... - Eu ligo pra você mais tarde.

Você não precisa se explicar. Dizemos tchau e está bem assim.

Sim, um grande beijo, é isso.

Ora, o que está esperando? Se você está ocupada, está ocupada.

- Sabe que eu não quero aborrecer você. - Eu sei.

A última coisa que quero é aborrecer você. Quero que gostemos de nossas conversas.

Em todo caso, isto é sempre um prazer.

- Agora vá. Um beijo, meu amor. - Sim.

- Desejo-lhe o melhor. - Sim.

- Espero vê-la em breve. - Estarei aí no dia 20 de Setembro.

Oh, fico tão feliz...

Estarei aí para o Yom Kippur.

Isso é maravilhoso.

É ótimo.

Bem, mamãe, agora vou deixá-la ir. Um grande beijo.

Eu não gosto de estar sendo fotografada.

Está muito borrado, então não se preocupe.

Bem, aqui está, gostou de meu chapéu?

Eu vi, é magnífico.

Não ponha para trás, desse jeito, ponha sobre os olhos, para protegê-los.

Assim?

Aí está. Assim. Muito bem.

Há muita luz, mamãe.

Há muita luz em Nova York, não tem outro jeito.

Sim.

- O sol brilha demais. - Como está em Bruxelas?

Hoje está um pouco melhor.

Há um pouco de ar fresco, alguma brisa.

A temperatura caiu.

Eu saí para dar uma volta com Maya.

Mas como eu não saía de casa há três dias, fiquei exausta.

Eu disse, voltarei para descansar um pouco, e ela também fez isso,

e agora estamos em casa.

- Certo, mamãe. Um grande beijo. - Para você também.

Um beijo, mamãe.

Quando vejo seu sorriso, isso me deixa feliz.

Estou com muito, muito bom humor.

- Com bom humor? - Sim.

- Veja só. - Aproveite, isso não é comum.

- Pode ir, minha querida. - Um beijo, mamãe.

- Para você também, um grande beijo. - Sim.

- Até mais. - Nos falamos depois.

Até amanhã.

Um grande abraço, mamãe. Tchau, tchau. Um beijo.

- Como eu estou? - Muito bem.

- Como eu estou? - Para mim é a mais linda.

- Minha querida... - Um pouco exagerada, não acha?

Não. Com certeza não estou exagerando. Eu gostaria de dizer muito mais,

mas quando penso que alguém poderá ouvir isso, eu desisto.

Eu não quero que todos escutem o que desejo lhe dizer.

O que você me diz não é ruim, é?

Bem, mamãe, agora preciso ir, tenho que fazer um trabalho.

Vá trabalhar.

Você está com um lindo sorriso. Nos vemos em breve.

Eu gostaria de guardar essa foto e olhar para você.

- Nos vemos em breve, mamãe. - Tchau, minha querida.

- Tchau, mamãe. - Tchau, minha querida.

Um beijo e um grande abraço. Cuide-se.

E tente sair um pouco, vá agora que o tempo está bom.

- Mas eu saí agora com Maya. - Sim.

Nós saímos para uma voltinha, acabei de voltar e estou muito cansada.

- É normal. - Agora eu preciso descansar.

- Certo, mamãe, um beijo. - Sim, querida.

Boa sorte, trabalhe duro.

- Nos vemos em breve. - Até breve, querida.

Veja só,

eu estou tentando usar este braço para comer.

Muito bem.

Isso é o mais rápido que eu consigo.

Antes, você não conseguia mover nada.

Alguém fechou a... Foi como se alguém piscasse a luz.

- Fechou a... - Desligou a luz?

Fechou as cortinas.

- Você viu? - Sim!

De repente, tudo escureceu!

Ouça.

É sério!

Chantal, quando ela conversa assim... você não come muito bem.

Quando ela diz coisas, você vai ficando mais ansiosa.

Ela sabe que você é ansiosa, o que ela não sabe é que ocorre por causa dela.

Eu não estou com fome.

Eu gostaria de estar, mas não estou.

Eu não posso fazer isso com ela porque a deixaria doente.

Sabine ligou, mas no momento ela não queria saber de nada sobre isso.

Eu preciso deixá-la em paz.

Eu preciso deixá-la em paz.

- Você gostou, mamãe? - Estava delicioso.

Eu estou bem.

Obrigada, querida, obrigada.

E foi Andrée quem fez esse maravilhoso peixe!

Vocês dois, têm feito maravilhas.

Maravilhas.

Eu gostaria de sair um pouquinho. Apenas por meia hora.

- Sim, nós vamos. - Vamos.

Agora há um pouco de sol.

- Sim, isso lhe fará bem... - Um pouco de ar fresco, dar uma volta.

- Voltaremos em meia hora, querida. - Sim, mamãe.

- Eu não preciso de minha bolsa, não é? - Não.

Patricia logo chegará para a limpeza.

- Você pode abrir a porta? - Sim, mãe.

- Nós estaremos ao redor do quarteirão. - Vá, mamãe, pode ir!

Podem ir mais longe.

- Vou colocar meu cachecol. - Sim, sempre.

- Vou levar minha carteira. - Sim!

- Mas eu não preciso levar minha bolsa. - Sim, você já disse...

- Meu dinheiro vai aqui. - Seu dinheiro, caso necessário.

- Não se pode sair sem dinheiro. - Não!

Apenas as minhas chaves, e pronto.

- Então, Patricia já está chegando. - Sim, eu lhe disse.

- Chantal abrirá para ela. - Vamos.

- Até mais tarde. - Até mais.

- Até mais. - Até logo.

Até logo.

Tchau, tchau.

Você vai derrubar alguma coisa.

Mas isso fica ao lado.

Viu como está escuro?

Também estou cansada.

Cuide-se para não pegar uma gripe.

Não toma nada para se prevenir?

Ontem, eu estive com Josef.

Você está doente. Richard está doente também.

E não bastando, você pegou um trem.

Não há nada que você possa fazer. Talvez queira uma aspirina ou algo assim.

Não, está tudo bem.

- Não sabe onde está? - Encontrarei, eu tinha uma pecinha...

Eu tinha algo.

Está escrito tão pequeno.

Os fusíveis queimaram, mas já os troquei.

Os fusíveis.

Eu troquei os fusíveis.

É Chantal.

Você está com tosse, mãe.

Não, não, devagar.

Você precisa respirar quando come.

Sente-se direito, deve sempre se sentar direito.

Direito!

Agora, está melhor.

Tudo de uma vez, você espirra, tosse, tudo junto.

Não é nada. Tome seu guardanapo.

Está melhor agora?

Está melhor?

Melhor agora.

É difícil para engolir.

Você precisa estar mais alerta quando come.

Comer.

Respire!

- Eu vou me deitar. - Não, você não vai deitar agora.

Por quê? Você está exagerando hoje.

Chantal está aqui somente por um dia.

Você não pode ficar o dia todo na cama quando ela está aqui.

Ela parte amanhã.

Então, não vá para cama.

- Escute as histórias dela. - Não, não!

Eu vou tirar um cochilo por meia hora, depois ela me conta suas histórias.

Eu quero saber de tudo.

- Ela nunca fala comigo de verdade. - Nunca? Ela nunca para de falar!

- Ela nunca fala. - Ela fala demais!

Sim, ela fala.

Ela fala, mas nunca me diz nada de importante.

Eu quero saber como foram as coisas em Berlim,

em Nova York.

Tudo de interessante que acontece em sua vida.

- Você ouviu, Chantal? - Disse que eu falo muito, Sylviane.

Não, mas você não lhe conta o que realmente interessa a ela.

Eu não sei o que fazer.

Nós estamos brincando, Chantal.

No próximo mês, ela irá à Veneza.

Em Setembro.

Chantal, ela irá à Veneza.

Você se lembra, dois anos atrás, que estivemos todas em Veneza?

Para o festival. Lembra-se?

Nós a vestimos com esmero.

Fizemos com que ela vestisse um smoking.

Não se lembra? Não lhe contamos? Claro que contamos. Em Veneza.

Antes de Veneza.

Em Veneza, nos juntamos à Chantal.

- Ah, sim, depois... - E agora ela está indo novamente.

- Mamãe? - Sim.

Mamãe, você está bem? Conte-nos uma história.

Eu quero uma história, conte-nos uma.

Chantal...

Veja só. Vou colocar essa coisa no carpete.

Mamãe, conte-me uma história.

Mamãe.

Não durma, querida.

Levante-se e fale conosco.

Aonde vai?

Aonde eu vou? Você me pediu para me aproximar.

O que ela disse?

Você não falou para eu me aproximar?

Não, Sylviane lhe pediu para nos contar uma história.

E não para dormir.

Conte a ela sobre aonde fomos ontem.

Mamãe, não durma.

O que nós fizemos ontem?

Aonde você foi ontem?

Ao café?

Nós fomos...

- Fomos ao basculante. - Não.

Não, nós não fomos ao basculante.

Fomos ao restaurante.

- Ao restaurante. - Sim.

Que restaurante?

Ao restaurante Saint Georges.

Tomamos um café lá.

Você tomou algo além de um café.

O que foi?

Você tomou um grande sorvete.

Não se lembra?

Ela nos convidou.

Sim, ela me convidou para ir ao Saint Georges.

O garçom reconheceu você.

O garçom lhe pediu que terminasse todo o sorvete.

Estou ouvindo,

e não compreendo metade do que você diz.

E havia uma estranha mulher lá. Mamãe.

Com um cachorro contra seus grandes seios.

Lembra-se?

Ela colocou o cachorro contra seu peito.

Não foi assim. Era uma festa.

- O quê? - Havia uma festa lá.

Não, ela tinha um pequeno cachorrinho.

E ela tinha seios enormes.

E ela o colocou bem aqui, lembra-se?

Ela tinha o cãozinho contra si e ele a estava lambendo. Que nojo.

Ela virou sozinha uma garrafa inteira de champanhe.

- Lembra-se? - Sim.

O que aconteceu com ela, enfim?

Ela saiu. Acabou a garrafa e saiu.

Com seu cachorro em cima. Que nojo.

Sim, ela deve ter contaminado metade de Bruxelas.

E, sinceramente, não sei onde ela está agora.

Eu gosto de animais, mas não se deve exagerar.

É verdade.

Eu gosto de animais.

Mas precisamos tentar...

Ela não deveria cair no sono.

Talvez ela esteja apenas cansada.

- É apenas cansaço, só isso. - Eu também estou sentindo sono.

É o vinho.

Sente-se na poltrona e tire um cochilo.

Não caia.

Já estou farta de você...

continuar caindo.

Eu não me importaria com um cochilo também.

- Você tem irmãos? - Eu?

Não, sem irmãos.

Somente Sylviane.

- Minha irmã. - Ah, irmã. Só há vocês duas?

- Só duas. - Só duas.

- É pouco. - Pouco.

E é um pouco...

Como você diz? Triste?

Triste. Triste, um pouco triste.

Somente duas garotas.

Meu pai...

queria três...

mas meu irmão...

- ...cansou. - Cansou, é claro.

E seu pai, qual é sua nacionalidade?

Ele é belga, mas veio da Polônia.

Ah, da Polônia.

- Minha mãe também. - Sua mãe também vem da Polônia.

Ah, que bom!

Ela fugiu de lá porque a Polônia era muito rigorosa.

Ah, é muito dura a vida lá.

Mas o povo...

O povo, sim...

É muito diferente.

Então eles fugiram pra cá.

Mas um pouco depois, o nazismo...

capturou-os,

e os mandou de volta para a Polônia, novamente.

- Para os campos de concentração. - Entendo.

- Por isso minha mãe é assim. - Sim.

Claro.

- Para Auschwitz. - Ah, os judeus.

- Você não se casou, sem filhos, nada? - Não.

Ninguém. Apenas a Madame Sylviane.

Eu quero ver você todos os dias.

Nos veremos pelo Skype e eu volto em um mês.

Estamos ainda mais próximas do que antes.

Onde está Chantal?

Legendas por Nandodijesus

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