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Cadê a noiva?
Não enche o saco, Diquinho.
Padre Moreira tá frito, padre Moreira tá frito. Vai pra dentro da minha mola.
Ei!
Ô, Belarmino, deixa pra sortar depois do casamento.
Viva!
Viva!
Que nada, mulher. Pra mim, o Cristiano já se... Belarmino, cuidado com essa
boca. Já se estrepou.
Mas que mania que você tem, mulher, de me corrigir em público na frente dos
outros. Então você acha que na frente da igreja, em público, eu ia dizer que o
Cristiano já se fudeu?
Grilo, você não morre mais.
Estava falando de mim, seu Belarmino. Não perdi minha espingarda de matar
Como vai, seu Belarmino?
É, tirando o leite da mesma vaca.
Papai vai ficar muito contente do senhor ter vindo.
E eu vou ficar morrendo de beija dele.
Cadê a noiva?
Não enche o saco, Diquinho. Não enche o saco. Padre Moreira tá frito. Padre
Moreira tá frito. Diz pra ele que ela já vem.
A noiva.
Olha a noiva.
Sorria, meu bem.
Sorria.
Sorria, meu bem.
Sorria.
Cara, até que fim, hein?
Cachorrão, quanto tempo, cara.
Fiadinho, só escreve mesmo pra avisar que o pai vai se enforcar.
Ih, olha aí, tá até de cabelos brancos. Peraí, cabelo branco? E você? Deve tá
pintando o seu.
Que isso, rapaz, tá me estranhando? Eu só é homem.
Nem Mato Grosso diz a mesma coisa.
Mas como é que é? Vamos tomar uma, hein?
Toma uma e o casamento do seu pai.
Ah, o negócio é o churrasco depois.
É, mas o tio pode ficar zangado agindo na igreja, rapaz. Isso é.
Ele nem vai notar.
Ele só tem olhos pra noivinha dele.
Minha noiva.
Surpresa. A gente conhece?
Claro que conhece. Mas que claro? Faz mais de 15 anos que a gente saiu daqui.
gente vai se lembrar?
Pô, tô curioso.
Seu Alexandre?
A luta, moçada! Vamos lá!
Como é que é, velho? Estamos aqui de volta!
Ei, espera aí, porra! Esperar o quê? Vambora, moçada! Vambora!
Calma, calma, calma.
Com esses três, não adianta chiar.
Pega duas cervejas geladas. Esses caras são poucos.
Alexandre, o senhor não mudou nada.
Nem vocês.
Eu agora sou um homem de respeito.
É bom saber.
Tem um pendura seu aí que já tem idade de servir o exército.
Bem -vindas, loirinhas.
Baterias, aposto. Apostos. Um por todos e todos por um.
com olhinho pro santo primeira bateria vira vira
vira vira vira vira vira segunda bateria
vira vira vira vira vira vira terceira
bateria vira vira vira vira vira vira
Lavada a serpentina, que venha o quebra -gelo. Olha aí, não.
O quê?
Vai recusar uma pura do Alambique do Miozenum?
Quem tem, tem medo.
Mas você era amarrado nessa pinga.
Era. Era.
Pô, me conta que eu quero rir também.
Se eu contar, morre aqui.
Palavra de honra.
O senhor já vai, seu Alexandre?
Das cafas gestadas de vocês, eu ainda toco com os ouvidos cheios.
Você se lembra da Tininha?
Aquela gostosinha que trabalhava com o Dr. Virgílio. Ah, sei, sei. Pois é. Um
dia, quando eu ainda morava aqui... Fui ao consultório do Dr. Virgílio para
resolver um probleminha.
Eu vou com você à convenção.
Pois sim que você vai levar essa recepcionistazinha sem expressão.
Diz para ela que recepcionistazinha sem expressão. Pelo amor de Deus, Tininha,
eu preciso dela.
Então fica com ela.
Não é isso, meu amor.
Ah, Nora H. é meu amor. Eu te amo. Você é a única mulher do mundo.
Mas o caso dela é político.
Ah, da próxima vez, leva a política pra cama.
Espera, Tininha. Espera. Deixa eu explicar. Olha aqui, Tininha.
Espera, Tininha.
Espera, Tininha. Virgílio!
Espera que depois eu te digo o que fazer.
Já ia atrás dela?
Não, é que... Sabe quantos votos eu represento nesse território?
Se você não me levar nessa convenção médica, pode arranjar outra pessoa para
candidatar em dobradinha com você.
Eu passo para a oposição.
É.
Eu ouvi.
Pois é.
E então?
O quê?
A política ou eu?
Você sabe como é que é, né?
Você me paga.
Espera, Tininha, espera.
Espera, Tininha. Virgílio!
Quem espera sempre alcança.
E então?
E então o quê?
Ou ela ou eu.
Sim.
Ele preferiu essa hiena.
Quebra a cabeça dele.
Boa ideia.
Eu vou levá -la a uma vitória retumbante.
Vai ser uma convenção inesquecível.
Uau!
É agora.
Oi.
Então, você escolheu.
Eu não.
Ela. Então fica com ela.
Eu vou pegar o primeiro homem que me aparecer.
Não, não, não.
Não, não. Você não vai à convenção.
Tudo bem, doutor Virgílio.
Eu vou para casa agora arrumar as minhas coisas.
Assim que você chegar, eu estarei prontinha.
Eu luto pelo poder.
Pois eu vou lutar por uma coisa que a palavra é quase igual.
E vai ser com o primeiro homem que encontrar na minha frente, tá?
Você está aqui
o tempo todo?
E o que você quer?
Primeiro...
E não é que a garota era de palavra?
E foi mole assim?
Em meia hora já estava tudo acertado. Agora, você precisa ver a mão de obra
me deu.
Primeiro eu passei na igreja e convenci o Diquinho a me emprestar uma batina e o
chapéu do padre Moreira.
Dizendo que é para uma peça de teatro maduro que ia ser encenada na cidade.
E ele acreditou?
Acreditou, mas foi na promessa que eu fiz a ele.
Eu sabia.
Mas até hoje ele está esperando pagar a promessa.
Tininha disse aos pais que ia para a fazenda dos tios junto com a prima.
Onde no dia seguinte ia haver um churrasco.
Os pais iriam na manhã seguinte.
Portanto, eu só tinha aquela noite.
Se o pai dela te pega... Aquela era a famosa empadinha de botiquim. Comeu,
morreu. Isola.
Numa esquina, eu aguardava.
Eu confesso que estava nervoso, Paca.
Mas a Tininha valia a pena.
Elas passaram.
E com quem quer nada, lá fui eu atrás.
Os meus pensamentos se alternavam entre ela nos meus braços e as coisas que
a família dela fazia com quem se metesse com suas novelas.
Quando a gente chegou no limite da fazenda, ela veio me avisar que ali é
deveria esperar.
Elas foram para a fazenda.
E eu comecei a me preparar.
Ia ficar pescando um bom tempo.
Ué? Para que esse ritual?
Se alguém me visse, não ia supetar de nada. Eu estava pescando.
O problema é que no estado de ansiedade que eu estava, eu podia
confundir as varas.
À noite, quando todos já tinham ido dormir, a malandrinha pulou a janela.
Estratégicamente, um cavalo já estava à sua espera.
Pela mansidão, esse cavalo já devia ser seu cúmplice de outras fugidas.
E esse tempo todo?
O que você ficou fazendo?
Eu já tinha acabado com os peixes daquele rio.
Mas ainda estava de vara na mão.
Você vê vontade de vestido?
É, e daí? O que é que tem?
E não machucou?
Não. Só me deixou mais excitada.
Amarra o cavalo pra mim?
Eita, cavalinho mau.
O plano, embora fosse mais complicado que o desembarque da Normandia,
direitinho.
Mas pra que a roupa de padre, rapaz?
Alguma tara?
Peraí, cara, peraí.
Como é que é entrar com a filha do seu usuário num único hotel da cidade?
Ah, como?
Lembra do seu Zeca? Como lembra? Ele é o dono do hotel até hoje.
Não, aquele mesmo hotel? O mesmo, só que com umas pulguinhas a
mais, né?
Seu Zeca?
Ô, ô, seu Marco, boa noite.
Sou padre.
Seu Zeca, eu trouxe o padre Moreira pra dormir aqui.
Porque a casa dele foi detetizada e ele quase morreu, quase morreu intoxicado.
Deixe, Maria, senhor.
Pois é, então eu vim fazer companhia pra ele. O senhor tem um quarto.
Um quarto?
É, com cama de casal.
De casar?
É, não, quer dizer, uma de casal e uma de solteiro. É que o padre Moreira só
dorme em cama de casal, você entende.
Ah, bom.
Então o senhor pega o quarto 4, que é o quarto de família com filho.
Quanto é, seu Zeca? Vou pagar agora porque o padre Moreira sai às quatro da
manhã para rezar a missa. Bom, eu devia de não cobrar porque eu sou padre, né?
Mas como ele cobrou para casar eu, é vinte e quatro mil reais.
Agora nós estamos empatados, né, seu padre?
Ô, seu Marco, precisando é só chamar, viu?
Boa noite, seu Marco.
Boa noite, seu Marco. Depois de toda aquela encenação, finalmente, fiquei a
sorte.
Você é o padreco mais lindo que eu já vi.
Será que não tem alguma coisa para a gente beber?
Aqui? É, vai lá, vem com o seu Zeca, vai.
Qualquer coisa.
Vai lá, vai.
Ô, seu Zé, o senhor por acaso tem alguma bebida aí?
Uai, bebida pra quê, senhor? É que o padre só dorme se tomar um golinho.
E ele deve de tomar leite. O doutor Virgílio falou que pra intoxicação deve
tomar leite. É que o leite faz mal pra ele, seu Zé. O senhor por acaso tem uma
bebida alcoólica aí?
Ah, se o negócio dele é tomar um golinho, tem uma cachaçinha da boa aí,
senhor. A pinga?
É do sítio do Nho Genu. Se é só o que tem, não vamos fazer luxinho, né, Sousa?
Peraí, peraí, peraí.
Eu vou buscar pro senhor.
Então faz logo.
Achei uma cachaçinha do alambique do Nhozenum. Hum, essa dá boa.
Você gosta?
Ah, é comigo mesmo.
Assim ela estava tacando mais fogo na fogueira.
Ah, que noite eu ia passar.
Enchi meu copo.
Claro, eu não podia ficar por baixo.
E depois, nada melhor do que aquela pinga para acalmar meus nervos.
Desde manhã que eu estava naquela tensão.
Vira a cara para lá.
Por que, ué?
Você fica me olhando.
Toma outra pinga para criar coragem.
Essa menina, quem diria, era uma sacaninha.
Mas eu não ia ser humilhado, não. Se ela pensava que era boa de copo.
Eu ia mostrar quem era melhor.
E agora?
Você já trouxe coragem para tirar as calças da minha frente?
Não.
Aqui você só deita peladinho. Como eu estou.
Ela queria me levar à loucura.
A vinga descia que nem quiabo.
O que foi?
O
que
está vendo, hein?
Foi uma agita.
O que foi?
Se me dá licença um pouquinho.
De que?
Eu preciso ir lá fora.
Mas agora?
Assunto de urgência.
Mais que o nosso?
Sem querer desmerecer, mas é.
Tá bom, vai.
Dor de barriga numa hora dessa?
O Botas Arnisca era muito pior.
O que foi?
Você nem pode imaginar.
Justo naquele momento, na hora da onça beber água, eu estava sofrendo uma
terrível crise de... hemorroidas.
Mas como?
Sei lá, o nervoso que eu passei, a expectativa e a maldita pinga. Foi dar
machão.
Como é que você saiu dessa?
A água fria tinha aliviado um pouquinho.
Mas tu ia para cá.
Eu precisava arranjar uma bombada.
Ô, seu Zé.
O senhor tem xilocaína?
Só tinha aquela pinga, agora acabou.
Não é de beber não, seu Zeca. É fumada pra dor.
Ah, bom.
Tem gelar.
Gelou?
Não serve, seu Zeca.
É bom.
Pra dor é tira e queda.
É que a dor é outra.
É dor de quê?
Deixa pra lá.
Bom, o senhor é que sabe, né?
Resolveu?
Resolvi.
Então vem cá, vem.
Vem.
Parece que você não está muito entusiasmado, né?
Estou sim.
Marcos, você está nervoso, é?
Um pouco, sabe como é, né?
Marcos, você é virgem?
Como?
Não, claro, claro que não, pelo amor de Deus.
Marquinhos, por acaso você gosta de alguma coisa diferente?
Diferente? É.
Diferente como?
Não!
Eu devia ter trazido uma revista.
Seu Zeca! Seu Zeca!
Seu Zeca!
Seu Marcos, o senhor vem aqui pra dormir ou pra passear?
O que o senhor tem aí pra dor, seu Zeca?
Gelo. Não sabe?
O senhor não tem um remetinho aí caseiro, seu Zeca?
É dor de dente?
Não, não é dor de dente, seu Zeca.
Mas onde diabo é essa dor, senhor?
Sim, ó, vó.
Vigie.
É sim, senhor.
Bom, tem aí um azeite doce, né? É só dar uma esquentadinha.
E passa a dor, seu Zeca?
Carma, seu Marco, carma.
Bebezinho, quando tem dor de ouvido, nóis pinga dentro e passa.
Se é bom pra dor de ouvido, deve ser bom pro seu... Fiofó.
Esse é só o que tem, né, seu Zeca?
Eu vou dar uma esquentadinha pro seu fiofó.
Que situação.
Aquele vulcãozinho em fogo. E eu com fogo no rabo. A situação
era deprimente.
E nós só tínhamos aquela noite.
Pronto, seu macó.
Divirta -se.
Quer que pinga para o senhor?
Não. Muito obrigado.
Agora o vexame ia ser total.
Ter que pedir a ela para pingar o azeite.
Isto é a hora de tomar cafezinho?
Eu estou precisando de uma ajuda.
Mais do que eu estou colaborando.
Dava até para levantar um defunto.
Eu estou tendo uma crise.
De brochura.
Não, isso é... E não é... Por quê?
Por quê o quê?
Você já ouviu falar em... Hemorroidas. O quê?
Hemorroidas! Já.
Pois estou com as ditas cujas em guerra. Preciso pingar esse azeite antes que
esfrie.
Onde? Onde é que você queria que tivesse hemorroidas? Na garganta?
Por favor, não bebo hoje.
Não é... É, deboche. Mas que engraçado é.
O azeite vai esfriar. Tá bom.
Vem cá.
Vira.
Vira, bundinha. Vira.
Isso.
Que bundinha feia que você tem, Chapeuzinho.
Longe o dia de mim.
Para de sacanagem.
Põe.
Põe. Põe. Quem diria.
Põe. Põe.
Põe.
Põe.
É o fim do mundo, Su Passamos a noite assim
Eu gemendo de dor e ela me abanando Que humilhação
Às quatro da manhã, pé ante pé, saímos
Ô, seu padre, o senhor já vai?
Ele tem que rezar missa. Ainda bem que a missa é de pé, né?
Se tivesse que sentar...
Chapeuzinho!
Tininha foi -se embora, bufando de raiva.
Claro, ela ficou na saudade, né?
Eu só esperava que aquele cavalinho quebrasse o galho que eu não consegui
quebrar.
enquanto eu ainda fiquei lá na estrada chorando de raiva e porque o
fiofó ainda ardia em chamas o nosso santo puro
e devotado padre moreira jamais conseguiu entender a reação de sozé cada
se encontrava com ele o senhor esteja convosco e eu hein e
eu hein chapéuzinho
E você nunca mais teve outra chance?
Nunca.
Ela me baneu.
É?
Tem cada uma que acontece com a gente.
Você também passou por uma igual?
Pior, cara.
Muito pior.
Como é que eu não estou sabendo? Ninguém sabe.
Por que é que eu me mudei daqui?
Ué, você foi trabalhar em São Paulo.
Ah, é.
E larguei o escritório de advocacia. A diretoria do Campestre Futebol Clube. E
uma promissora carreira política com toda a retaguarda que a nossa família
poderia me dar.
Pra quê?
Por que, então?
Morre aqui?
Palavra de honra.
Ninguém sabe dessa história.
Você não confia na gente?
Bom, vocês se lembram quando o papai resolveu reformar a nossa casa?
E a família foi toda pra fazenda?
Ah, você ficou na casa do tio Deucleciano. Claro. Eu trabalhava no
com ele. Ele era presidente do Campestre Futebol Clube e eu vice -presidente.
Então, como passávamos os dias juntos, mandava o bom senso que eu ficasse lá.
Mas a tia Flora acabava com qualquer bom senso.
E o Drácula nos fazia voltar ao bom senso.
Você, paquerando a tia Flora?
Ela era uma santa, nem olhava para os lados.
Por que é que vocês pensam que aquele casamento era um mar de rosas?
Apesar do tio Deucleciano ser mais velho que ela, mais de 30 anos.
Mas ninguém nunca ouviu falar nada da tia Flora.
É, eu também não.
Até que eu fui morar lá.
Obrigado.
Com o tempo...
Eu fui percebendo que não era só eu que estava de olho nela. Ela também me
olhava provocadoramente.
Resolvi criar coragem e arriscar.
E a resposta dela não poderia ser melhor.
Quieto, Drácula.
Esse cachorro anda nervoso.
Eu também, titi.
Eu também.
À noite, eu não conseguia dormir.
Tentava ler, também não conseguia. A imagem da tia Flora martelava a minha
cabeça. Qual delas?
Qualquer ruído e eu já pensava que era ela que vinha ao meu encontro.
Maldito Drácula.
Ele era treinado para não deixar ninguém se aproximar da tia Flora.
Por isso, o tio Deocleciano dormia como um anjo.
Quando ela saía à rua, era um rochedo de virtudes que desfilava.
Mas eu comecei a notar que a tia Flora só saía à rua às sextas -feiras para
fazer compras.
E na volta, sempre às quatro horas da tarde.
Como quem não quer nada, ela passava pelo jardim e parava no mesmo arbusto.
Por quê?
Era lá que a santinha da tia Flora deitava um bilhete.
Para quem?
Para o nosso adversário político, Tunico Mendonça.
Aquele paspalho, ridículo, cretino, emitido a bacana.
Que bilhete seria aquele?
Para marcar um encontro?
Como, se aquele cachorro não desgruda dela?
Onde ela encontra o amante?
Quando? Eu tinha que descobrir.
Na sexta -feira seguinte, fiquei na campana da tia Flora.
Como sempre, às quatro da tarde, como quem não quer nada.
Lá vinha aquele monumento de virtudes, acompanhada daquele monumento de
grossura.
Eu precisava ler aquele bilhete antes do tunico.
Mas o gostosão já vinha em direção a ele.
Eu também fui.
Comigo ali, ele não ia se arriscar a pegar o bilhete.
E nem eu podia pegá -lo.
Domingo tem jogo.
Então era assim.
Claro, agora a história estava completa.
Quando é que o Drácula saía de perto da Tia Flora?
Só aos domingos, na hora do futebol.
Quando ele ia ao campo comigo e com o tio Deocleciano.
Afinal, ele era mascote do nosso time.
Era aos domingos, na hora do jogo.
que o desgraçado do Tonico Mendonça se encontrava com a tia Flora.
Mas aquilo não ia ficar assim, não. O tio Deucleciano e eu... estávamos
sendo traídos pelo nosso inimigo político número um.
Olá, já em casa?
Domingo tem jogo.
Contra quem?
Eu sei de tudo.
Então me diz, contra quem?
As plantas não dão só flores, hã?
Eu nunca ouvi falar nesse time.
Sua cínica!
Não grita.
Ele avança em quem me agride, com gestos ou palavras.
Sua cínica! Então você me trai com Tonico Mendonça!
Você sim.
Eu sei como vocês se encontram, dos bilhetes, de tudo, tudo.
E o que você quer que eu faça?
Deixe um bilhete para mim também.
Domingo tem jogo.
Como é que eu posso entrar nessa área com esse beck na minha frente?
Só aos domingos.
Mas de que jeito? O senhor tem que estar no campo.
Problema seu.
E para resolver, só um computador.
Como é que você fez?
Quebrei a cabeça uma semana para bolar um plano perfeito.
A fixação pela tia Flora já estava me levando à loucura, pô.
E só uma cabeça maluca poderia me levar a fazer o que fiz. O que mais?
Graças à minha posição de advogado e ao meu prestígio com a brilhante guarda
local.
Eu consegui que o soldado Raimundo entregasse uma intimação falsa ao Tunico
Mendonça, para que ele comparecesse às quatro horas daquela sexta -feira na
delegacia. Nessa mesma hora, o delegado estaria prestando depoimento no fórum,
num processo do tio Deocleciano. Isso ia retardar o Tunico.
Pontualmente, às quatro horas,
tia Flora vinha voltando das compras.
em direção ao arbusto cafetão.
Como sempre, como quem não quer nada, aquele monumento de virtudes deixou o
bilhetinho e levou a sua florzinha.
Eu saí do meu esconderijo e tranquilamente fui fazer a troca de
Foi fácil falsificar a caligrafia da tia Flora. Ela escrevia em letra de forma
Para não se comprometer.
O idiota do Tunico... Teve que esperar um bom tempo até o delegado chegar.
Assim que ele chegou... Tunico correu a mostrar a intimação.
Coitado do doutor Alvinho. Não sabia do que se tratava.
Armado o quiprocó... O remédio foi encerrar o assunto por conta de um
A urgência de pegar o bilhete foi mais forte do que a curiosidade de saber...
por que aquela intimação foi parar nas suas mãos.
Por isso, o Tunico partiu firme atrás do bilhete da sua amada.
Domingo o jogo mexeu?
Para você, Tunico, o campeonato acabou.
No domingo de manhã...
Todo mundo acordou alegre. A tia Flora, o tio Deucleciano, o lazarento do
Drácula e eu.
Vamos pra missa hoje. Rezar bastante pro nosso time ser bicampeão.
Prometo rezar um terço.
Dia de jogo fico elétrico.
Cínica, você não sabe o que te espera.
Bruno, meu filho, pelo amor de Deus. Não esquece de ir com a mesma roupa pro
campo que é pra dar sorte, hein? Pode deixar, tio. Vou sim.
A roupa do Drácula tá lavada?
Claro. Aliás, eu fico muito feliz quando ele vai ao campo.
Aos domingos.
Bem bonito.
Então vamos logo para a missa que o padre Moreira não espera ninguém.
Não, não.
Cólica, vão na frente que depois eu vou.
Então vai logo. Não vai perder a missa e não vai dar azar para o time. Sim,
senhor. Pode ir.
Tio Deocleciano e suas superstições.
Mal sabia ele que nenhum de nós três iria a esse jogo.
O que era uma pena, pois o campestre ia se tornar bicampeão.
Mas o meu jogo era muito mais importante.
Um tiro certeiro e o Drácula ia dormir por umas três
horas.
Domingo, na hora da missa, não havia ninguém nas ruas.
Eu me senti um criminoso, levando o corpo da vítima para longe do local do
crime. E como pensava aquele desgraçado.
Deixei o Drácula amarrado e dormindo como um anjo, lá na tapera abandonada do
Belmiro Garcia.
No pescoço, mais um bilhete para o tio da coesiana.
Quando eu cheguei de volta, a missa já estava acabada.
Me meti no meio das pessoas e fui ao encontro dos tios.
Tio da coesiana.
Você chegou agora.
Perdeu a missa. Não, senhor. A igreja estava muito cheia. Não deu para chegar
onde vocês estavam.
Você tinha que assistir a missa com a gente.
Agora, a cena dramática.
Não!
O Drácula foi raptado.
Raptado?
Como eu fui, canastrão?
Como você sabe?
Tio, chegou uma carta para o senhor.
Seu cão de estimação está em meu poder.
Aguarde o telefonema para pedir de resgate.
Não conte nada a ninguém, senão ele morrerá.
Calma, tio. Meu Deus, levaram a mascote do time.
Deucletiano!
Calma. A sua saúde, a sua pressão. Mas o jogo é hoje.
O jogo é hoje.
Calma, tio.
O jogo é hoje.
Senta aí.
Você deixou a porta aberta, né? A porta da garagem sempre ficou aberta.
E com o Drácula aqui, quem é que vai entrar?
É mesmo. Se alguém tentasse, ele traçariava mesmo.
Eu não compreendo.
Tio, não se preocupe. Eu vou sair e vou procurar uma pista.
Mas ninguém pode saber, hein? Fique calmo, eu volto já.
Isso, deita aí.
Tá abafado aqui, viu?
Espere um pouco.
Eu vou ligar o ar -condicionado.
E se o Drácula não for encontrado?
E se o Campeche não for bicampeão? Eu vou ficar arrasado.
Não fique se martirizando, meu querido.
Que barulhinho é esse? O ar -condicionado que está com defeito.
desliga.
Precisamos chamar um técnico especializado. Não pode ser o Zé do
desliga antes que dê mais prejuízo, né?
Como em filme americano, coloquei um lenço no bocal.
Alô? Aqui é o raptador.
Falei errado de propósito.
Se quiser o seu cão de volta, terá que pagar um resgate de três mil cruzeiros.
Só? Não, naquele tempo era dinheiro.
E depois eu não estava querendo fazer a vida. Eu estava interessado que o tio
Deucleciano recuperasse o Drácula, ora.
Ah, rapaz, eu tô querendo saber da tia Flora, pô.
Primeiro você vai saber do tio.
Eu pago.
Eu pago. Mas devolve o meu cachorrinho.
Você terá que trazer pessoalmente esse dinheiro às três horas da tarde no bar
Xalaco. Não. Não pode ser mais cedo. Eu preciso levar o Drácula pro futebol.
Gargalhei em silêncio. Eles não iriam ao jogo.
Não.
Tem que ser às três horas, eu já disse.
Espere que eu me aproximarei de você.
Desligou. E ele vai devolver o Drácula? Vai. A que horas? Ele marcou às três.
E vai dar tempo de vocês irem ao jogo?
O Bruno vai direto para o jogo. Eu vou buscar o Drácula e de lá vou direto
também. Eu procurei em tudo quanto é lugar e não encontrei pista nenhuma.
O raptor já telefonou.
Telefonou? Tudo certo.
Vocês vão ao jogo.
Era comovente a alegria da tia Flora. Ela pensava que ia encontrar o cretino
seu amado.
Às duas e meia, saímos de casa.
Tio Deucleciano tirou o dinheiro do colchão e ia ao encontro do raptador.
Eu ia para o campo.
E a tia Flora ficaria à espera do seu bate -bola dominical.
A cidade toda vinha assistir o nosso time conquistar o bicampeonato regional.
Todos já contavam com isso, inclusive eu, porque o jogo final era contra o
Lanterninha do campeonato. No primeiro turno, nós demos deles de 7 a 0.
Foi dar uma força ao nosso técnico e jogadores.
Avisei que meu tio, meu e o Drácula não iríamos assistir ao jogo.
O técnico disse que não tinha problema.
Ele não era supersticioso, nem o time.
Já que todo mundo estava calmo, eu ia ao encontro da Titi.
Foi só falar nela, aparece esse otário.
E por falar em otário... Se você ainda não enterrou seu marido, funerária do
Mateus, que dá o mesmo atendimento a mortos e vivos. Se você ainda não
sua mulher, funerária do Mateus, que não faz distinção de sexo.
Mateus, o mecânico que mudou de ramo.
Dentro de poucos minutos, estaremos movimentando mais um microfone da voz de
Campestre com o nosso companheiro Paulo Lago.
Para que o rádio?
O do rádio é ligado, porque eu quero ficar mais perto do campo. ...direção de
Antônio, com um novo fone para maior rapidez de serviços.
Fomos informados que Marcinho, do Campestre Futebol Clube, vai integrar a
seleção brasileira para a Copa de 86.
Marcinho será o candula oficial da seleção brasileira nos treinos.
Vamos lá.
Para mais um sensacional jogo de bola. Para mais uma transmissão da sua BRH2.
Está aí, pessoal.
As duas equipes saltando. A torcida e a torcida também saltando. As duas
equipes. O Guanabara de Botelho vai enfrentar o Campeonato de Futebol Clube
decisão. O Guanabara já é estreguês do Campeonato de Futebol Clube. No primeiro
turno, perdeu de sete tentativas. Vai, Sintonico. Vai, mano.
Quem é que mandou você?
Entregar aquela intimação.
Delegado? O delegado não foi não.
Quem foi então?
Você vai me dizer.
Cheguei ao local do crime.
A minha querida tia já tinha deixado tudo à espera do Toninho.
Eu estava ansioso para ver o susto que ela ia levar quando eu aparecesse.
Epa! Bruno!
Sim, claro. Quem você esperava? Outra pessoa?
Não. Acho bom, porque ele não vem, não.
Eu esperava você.
Você? Eu só pedi que minhas pernas aguentassem até eu cair nos braços dela.
Vai descendo o Campestre Futebol Clube com o Xixico. Na roda maior do gramado.
Fez o currupio. Pode lançar Zete na direita. Lá vai Zete. Jogou para
Marcinho. Entrou na intermediária. Pode chutar. Sozinho.
Bate para fora, Marcinho.
Como pode, pessoal? Marcinho na cara de Marcioneu. Um dos piores goleiros do
campeonato. Você marcou em encontro com alguém?
Bazar Astral.
Aquele bazar que vende barato.
Marcioneu bater o tiro de meta. Bateu Marcioneu. Bola pelo alto. Foi gol.
Olhou para Nadinho. Pode lançar. Cortou novamente João de Mello. Não é possível.
Pensou que eu não fosse reconhecê -lo? Ficou decepcionado?
Bem... Veja bem. Eu vim de São Paulo.
São 300 quilômetros.
Para. Você não se arrependerá.
Isso é para você.
Dinheiro? Eu não me importo de pagar.
O que eu preciso é...
Sensibilizar o seu coração.
Não. Procure entender o meu problema.
Calma, calma. Não me leva a mal.
Desculpe. Mas o senhor é mesmo a
sensitiva de campestre?
O quê?
Eu vim até aqui.
Para me encontrar uma pessoa que se assina à sensitiva de Campeste.
Nós namoramos por correspondência.
É o senhor?
Doutor Deoclesiano, telefone para o senhor.
Desculpe, ouvi um engano, hein?
Alô? Alô?
Aqui é o raptador. Dirija -se às bananeiras do Homero e pegue instruções
quinta bananeira do lado esquerdo. Entendeu bem? Repita.
Não precisa.
Está bem.
Esteja lá em 20 minutos.
Então foi lá que você escondeu o Drácula. Não, o Drácula está muito mais
Onde?
Esse é o segredo.
Me larga. Se você não confia em mim, eu também não confio em você.
Está bem.
Ele está na casa abandonada da fazenda do Belmiro Garcia.
Mas até o tio do Euclidiano chegar lá, vai demorar umas duas horas.
Como assim?
Ele vai dar um passeio turístico pela cidade.
E o Tonico? Tonico está assistindo o campestre ser bicampeão.
Nós temos duas horas ainda para recuperar o tempo perdido.
Ai, doutor.
Doutor, tira a roupa.
Que isso, menina?
Sou um homem de respeito.
O que é isso, menina?
Sou um homem de respeito.
Tira pelo menos os óculos.
Vou fazer uma concessão.
Respiração artificial, boca a boca.
Calma.
O senhor está vendo?
Nem dia de jogo eu tenho sossego.
Doutor Neocletiano.
Eu já proibi essas meninas de pelarem nadadas.
Aliás, nadarem peladas. Porra!
Porra!
Desculpa, doutor delegado, mas...
O seu zip abriu.
O passarinho está solto.
Se o senhor não fala nada, eu faço pipi em cima dela.
Uma, duas, três, quatro, quinta bananeirada está aqui.
Leve com você essas instruções.
Vá diretamente para o clube. Você tem 15 minutos para chegar lá.
Eita ferro!
Valeu aquela espera angustiante.
Valeu todo o sofrimento.
Valeram as noites mal dormidas, os sobressaltos, os ciúmes.
Até aturar o Drácula valeu.
A tia Flora realmente era uma mulher para quatrocentos
talheres.
Merda.
Procure a bica d 'água.
Bica d 'água?
Ah, tá lá.
Puta merda.
De costa pra bica, dez passos à frente.
Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove.
Dez, passo para a direita.
Quatro, cinco, seis, sete, oito, dez.
Nove, dez.
Dez, passo para a esquerda.
Sete, oito, nove, dez.
Se ninguém estiver olhando, ninguém está.
Até o poste. O que será que ele quer no poste?
Olha o macaco.
Cuidado que ele morde. Cruz, credo.
Vire de costa para o macaco e ele dez passos para frente.
Vamos lá. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito,
nove, dez.
Procure na toceira.
Você tem 20 minutos para chegar no pomar do Marcão.
Moço, posso pular a varejinha do senhor?
Varejinha.
Vire a esquerda.
Onze passos. Um, dois, três, quatro, cinco, seis,
sete, oito, nove, dez,
onze.
Vire a esquerda.
Estenda o braço.
Esquerda.
Esquerda.
Aguarde um telefonema na fazenda do Tonico Mendonça.
Justo na fazenda do meu inimigo político.
Eita ferro!
Quieto, Lulu, quieto, quieto.
Leve seu cão e deixe o dinheiro aqui.
Merda.
Ô, doutor Delcliciano, o senhor por aqui?
Tonico não tá. Foi no jogo.
Eu... eu... só queria pedir um favor pra senhora.
Inimigo só pede favor quando tá com as carças na mão.
Posso usar seu telefone? Claro, doutor. Nós é inimigo político, mas é
civilizado. Vamos entrar.
Dá licença, dona Nicolina.
Olha... Não demora.
Nós só temos mais uma hora.
Eu volto já.
Pode usar o telefone. Dá licença.
Um momentinho só.
O senhor aceita um cafezinho?
Nós é inimigo político, mas é hospitaleiro.
Obrigado.
Alô.
Ele sabia que o senhor ia usar ele?
Essas invenções modernas, né?
Alô. Aqui é o raptador.
Na próxima etapa, você encontrará o Drácula.
O cachorro não está aqui?
Onde é que está o cachorro?
Cachorro?
Você sabe onde fica a casa abandonada da fazenda do Vilmiro Garcia?
Pois é.
Pega a bifurcação e siga para lá.
Esse barulhinho... Eu já ouvi esse barulhinho em algum lugar.
Se eu não encontrar o dinheiro lá, nem você nem aquele seu cachorro chegarão
vivos em casa.
Ouviu bem?
Esse barulhinho, aonde foi que eu ouvi?
Repete agora, quem é cachorro?
Ah, o cachorro é aquele... o quê?
O senhor falou que o cachorro do meu marido não estava aqui.
Eu não falei nada disso, não, senhora.
Frouxo, agora quer desmentir?
Seja homem.
Ah, não.
Eu estava falando no meu cachorro.
E o que é que o seu cachorro estaria fazendo aqui?
Eita perguntinha dura de responder, senhor.
A senhora me aleijou.
Isso já está aleijado há muito tempo. Fora daqui. Sim, senhora.
Com licença.
Vem cá.
Não, não desliga não.
Está com defeito.
Não pode ligar.
Merda.
Drácula, meu fiinho, graças a Deus eu te encontrei. Algum canalha fez isso com
você.
Vamos. Vamos para a cidade, comemorar o bicampeonato.
Aquele barulhinho.
Aquele barulhinho é do ar -condicionado do...
Foi você?
Foi você?
Muito bonito, hein?
Meu Deus do céu. Tio, não é o que o senhor está pensando.
Que ingratidão.
Teoclesiano.
Você está chorando por minha causa.
Nós perdemos o pica piorado.
Não.
Eu juro que não tive culpa nenhuma.
Você não.
Você nunca tem culpa de nada, minha santa.
Vai, Padreito, vai.
Eu assumo toda a culpa.
Assume? Assumo. Estou disposto a reparar o meu erro. Tá?
Eu aceito qualquer castigo que o senhor quiser.
Você que pediu, filho.
Dracula.
Não! Não!
Não! Não!
Ninguém ficou sabendo porque não interessava ninguém contar.
Eu fui de ambulância para São Paulo.
Eu passei 15 anos longe daqui e só agora estou dando as caras.
O Drácula morreu.
O Drácula morreu.
Que o diabo tem em mau lugar.
Carlinhos, a sua foi muito pior.
Pior foi a tua que teve que ir para o hospital.
É.
Por mulher a gente faz cada coisa.
Eu não me arrependo.
Nem eu.
Eu também não.
Você já passou por um aperto desses?
Morre aqui.
Palavra de honra.
Lembra quando vocês dois foram para o colégio interno?
É, e como você era muito pequenininho, não foi.
Pois é, foi naquela época.
E vocês sabem com quem?
Quem? Com a Aurora.
Não! Sim, a melhor mulher da cidade.
Provocante, sensual, boa. E sabia que era boa.
Quando ela passava...
Quem vinha vindo, voltava.
Quem ia indo, não ia.
Não havia um só homem na cidade que não a desejasse.
Ela costurava para fora, mas quando arranjava um coronel, adeus costura,
madame. A cidade inteira sabia quando um novo coronel era empossado. A mãe
arrumava as trouxas e ia para o sítio da outra filha. E quando isso acontecia,
nós já sabíamos.
Ia começar a temporada da anemia, bolheiras profundas, fraqueza. Com o
ninguém dorme de janelas fechadas. E com um novo amante dentro de casa, nós
íamos apreciar cenas maravilhosas da árvore ao lado.
Chuta, Gaguinho, chuta. Quer fazer negócio com ela? Com a Águia Negra?
Você está versando.
Quer fazer negócio com o seu canivete de escuteiro? Certo.
Certei de banda.
Manda a bola, Sabão, vamos lá.
Vai, agora eu canto.
Agarra, Gilmar.
Manda a bola, o que eu quero ver esse Gilmar aí?
Chuta. Ei, pé torto.
Por que eu não tenho lábia? Por que eu não sou rico?
Um dia eu chego lá.
E lá vem você com prosa, né?
Olha o despeito.
Gui, ela está entrando na sua casa.
Opa, tchau turma. Onde é que você vai?
Tomar banho, sou.
Eu acho que ele foi lá só pra ver a aurora.
Ah, você acha, é?
Vai sentar, mandioca, su.
Nem preciso dizer que o velho já tinha tomado banho, passado glostora no
só pra ver a aurora.
E meu cunhado não deixou por menos.
Olha como ficou, mimoso.
Sua mãe viajou? Pois é.
E hoje vou ter que dormir sozinha.
Eu morro de medo.
E o noivo? Vai trabalhar a noite toda.
Não tem ninguém para te fazer companhia?
Ninguém.
Deixa o Guina dormir lá em casa hoje.
Passei duas horas no banheiro.
Tomando banho?
Dor de barriga.
chutar com força, eu te prego na parede. Então chuta, vai.
Ih, olha lá.
Você vai tirar um retrato? Ou vai fazer visita?
Não, crianças. Eu vou dormir por hora.
Só se ela pegar você pra desmamar. Essa foi de lascar.
Ah, é? E se eu conseguir?
Quer apostar?
O que você quiser.
O seu canivete de escoteiro. Quantas águias negras? Espera aí, espera aí, né?
Afinou, afinou.
Está apostado.
Corta aqui.
Como é a aposta?
Se eu dormir com a Aurora... Dormir não.
Roseta.
Você não vai estar lá para ver.
Eu dou um jeito.
Se você rosetar com a Aurora, eu perco a minha águia negra. Senão eu ganho o seu
canivete de escoteiro.
Quem não cumprir a aposta é porque a mãe já dormiu com o jumento.
O que foi?
Sabe quem é o novo amante da Aurora?
Quem é?
O açougueiro, senhor.
Pedrão. Agora já está apostado.
Minhas pernas bambearam, mas estavam em jogo.
As duas coisas que eu mais queria.
Meu canivete de escoteiro e a águia negra do alemão.
Vai desistir?
O estalo veio na hora.
Dona Aurora, sabe o que é?
É que eu me lembrei de uma coisa. O que foi? É que eu tenho que fazer uma lição
de casa, que é pra amanhã.
De modo que eu só posso chegar lá pelas nove e meia.
Tá bom.
Vou esperar.
Desse jeito sua águia já voou.
É, bebê, mas na gata você não quer, né?
Tá no papo. Às nove e meia eu vou lá. Às nove e
meia?
Pobre irmã das seis. Por que você não vai às oito?
Ela falou nove e meia.
E o Pedrão?
Pedrão vai trabalhar na noite toda.
Eu posso morrer de levar pancada, mas eu vou aparecer lá. Não?
Chegou a hora.
Minha plateia me aguardava.
Entrei na arena.
Esteja cômodo. A casa é sua.
Eu tive que fazer uma força para não me mijar todo.
Hoje eu morro nessa árvore.
A jaca está madura. Não deixe ela cair do pé.
Essa não era sua conta.
Cega, leão.
Onde que ele vai?
Eu não trouxe
pijama. Está calor, não precisa.
É. A mamãe dormia lá no quarto comigo.
Mas você pode dormir aqui na sala.
É, para mim está bom.
Seu Pedrão?
Seu Pedrão?
Ah, Seu Pedrão!
Só vão começar a vender de manhã.
Não é isso, não.
Não é de carne que você quer falar?
É, mas não é dessa, não.
De que carne, então?
Da sua mulher.
O que é que tem a minha mulher?
Ela tá passando mal e pediu pra avisar o senhor.
Ah, eu tenho muito serviço. Fala pra ela que depois eu vou.
muito março, Pedrão.
Ah, é fricote. E depois? Eu tô muito ocupado. Vai embora.
Tá bom.
Chiriqueiro. Eu te pego, Gaguinho Fred!
Amulicada na mangueira, aguardava a grande cena.
Dando uma geral pela casa, eu já havia arquitetado meu plano.
Só estava esperando a aurora dormir.
Agora, o meu plano ia começar a funcionar.
Alemão! Alemão!
A jaca tá madura. Ela vai cair do pé?
Não sei.
Mas como não sabe?
Mas você é uma bosta de projeto de homem mesmo, sou.
Volta lá! E não deixa cair! Tá bom.
Quem se mexer daí vai levar uma estilingada.
Primeiro, eu teria que preparar a iluminação.
Apagar a luz da sala.
E deixar apenas uma luzinha vindo do corredor.
Mas quando o ambiente já estava preparado...
Uma surpresa. A surpresa muito maior me aguardava.
Meu Deus!
A Aurora partiu para mim e só então eu percebi que também ela, naquela sua
cabecinha linda, tinha planos inconfessáveis.
Seu Pedrão!
Eu vi falar outra vez da carne da sua mulher.
Estão comendo ela!
Eu mato!
Eu mato!
Puta merda, o que eu fiz?
Será que eu ia dar conta daquilo tudo?
Eu tô vendo.
Chega pra lá, sabão.
Aí eu aqui.
Fala agora. Eu tô arretado.
Já se foi a raga.
A raga negra.
Ele ainda não rosetou.
Mas... vai rosetar. Eita, mulher boa sou.
Fala agora.
Acho que ele não vai rosetar, não.
É pra não, Gaguinho.
É agora que a cobra vai fumar.
O Pedrão tem irmão gêmeo? Não.
Então é ele que está ali na janela.
Quieta.
Ai, meu Deus do céu.
Eu não quero nem ver.
Da merda.
Eu não queria que o Pedrão matasse ele.
Eu só queria que o Pedrão não deixasse ele rosetar.
O que é isso, seu Pedrão?
O senhor está bravo por quê? O que você está fazendo deitado com esse troço?
É que eu não sei dormir sem boneca.
Vixe!
Pedrão espetou a má mulher.
Por que você veio dormir aqui?
Porque eu pedi.
Ele vem aqui ficar comigo.
Ué?
Tem duas... Lora?
Filho da puta do guina.
Nós pensando que ele tava rosetando com a Lora... e ele tava era com o boneco.
Merda! Toquei uma toa. É só isso que os seis homens têm na cabeça.
Olha só o que você fez com o meu manequim. Mas amanhã vai ter que me
outro.
Eu não estou entendendo nada.
O homem chega em casa, pega o Guina lá dentro e ainda leva bronca?
Vai ver que ela não quer saber mais dele.
Vai ver que ela quer ficar com o Guina.
Vocês é palhaço mesmo, né? Eu mando reformar tudo, Aurora, mas não briga
pelo amor de Deus.
Eu vou pensar.
Agora vamos, sai daqui.
E não me volte antes do almoço. Tá bom, eu não apareço, não apareço.
Ela tá botando ele pra correr.
Meu herói, você salvou minha vida.
Se eu não põe aquele boneco no teu lugar, nós tava frito.
Vem.
Já que você não sabe dormir sem boneca,
Agora a agria negra muda de dono. Se for no escuro, eu ganho a aposta.
Então já perdeu.
Turma, pra outra árvore.
Vai, vamos.
Tá bom.
Já agora, hein?
Vai sentar numa mandioca, sabão de cinza. E a jaca?
Vai cair.
Ganhei.
Perdeu.
É que eu... Tenho medo de ficar no escuro.
Eu tomo conta de você.
Ganhei. Mas está dando para ver?
Não interessa. No escuro eu ganho.
Perdeu.
Para com esse...
Pague e acende.
Está difícil se concentrar.
Para mim está... Está bom.
Como uma loba faminta, a aurora me devorou durante a noite toda.
O fogo daquela mulher parecia o da tocha olímpica. Não apagava nunca.
Imaginem o estado que eu fiquei.
Ainda mais que era a minha primeira vez.
Mas ganhei a aposta do alemão.
Nunca mais encontrei outra mulher como a Aurora.
Durante um bom tempo, de vez em quando, a Aurora me dava uma colher de chá.
Depois ela se mudou para uma fazenda.
E eu fui estudar fora.
Aí, nunca mais tornei a encontrá -la.
E o casamento está acabando, pessoal. Vamos lá, vamos.
A gente fica falando de mulher.
Bem pendurado.
Eu já sabia.
Guina, vem tomar a benção da sua madrasta.
A benção, mãezinha.
Meu filho.
Como vai, Bruno?
A sua bênção, meu tio.
A bênção, tia Flora.
Deus te abençoe, meu filho.
O casamento estava muito bonito, não é? Realmente estava muito bonito. Poxa.
A noiva estava tão bonita. E o vestido, então?
Vem logo, seu Zeca. Tá bom, seu Zeca.
Zeca, você sumiu da igreja. Precisa aparecer.
E eu, hein? E eu, hein?
Chapeuzinho.
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